“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sábado, 13 de abril de 2013

A marca dos anos Thatcher

Modelo político e econômico que ela ajudou difundir na década de 1980 resultou no mundo de extrema desigualdade em que estamos mergulhados hoje
      A maior vitória de Margaret Thatcher, morta hoje (08/04) aos 87 anos depois de um derrame, foi não ter assistido à formidável falência do mundo que ela ajudou tão poderosamente a construir na década de 1980.
     Fazia anos que Thatcher sofria de problemas mentais. Conforme relatou num livro sua filha Carol, ela chamava com frequência seu marido Denis, morto há muitos anos.
     Ela não viu a desagregação do que se convencionou chamar de neoliberalismo – um sistema que acabou levando ao célebre mundo dos 99% versus 1%.
     Thatcher de um lado do Atlântico e Ronald Reagan de outro comandaram com influência mundial – sentida no Brasil de Collor e mais ainda no de FHC – modelos econômicos que acabaram privilegiando enormemente os superricos e as grandes corporações.
     A grande crise econômica do final da década passada mostrou o quanto era insustentável este modelo, a começar pelo fato de que os cofres públicos em tantos países se esvaziaram por conta de políticas que permitiram aos bilionários e às multinacionais encontrar formas legais – embora imorais – de reduzir a quase nada os impostos a pagar.
     Thatcher viveu pela política, e começou a morrer quando foi traída por companheiros do Partido Conservador e derrubada depois de 11 anos de poder, em 1990.
     A mulher que em 1979 se instalou no Número 10, como os ingleses chamam a casa do primeiro ministro, era uma força da natureza. Chegou declamando São Francisco de Assis, mas agiu como uma ninja no poder.
     Derrotou os sindicalistas superpoderosos que frequentemente paravam o Reino Unido, deu uma surra fulminante nos militares argentinos que queriam tomar as Malvinas, ajudou a cravar os pregos no caixão da União Soviética e liderou um movimento global de privatização e desregulamentação com resultados que o tempo provou serem catastróficos.
     Margaret Thatcher pareceu, em certos momentos, maior que o Reino Unido. Seu único rival em prestígio, entre os líderes globais, era Reagan.  Mas, se Reagan parecia um ator de Hollywood fazendo o papel de presidente americano, Thatcher era 100% realidade, ele embalagem, ela conteúdo.
     Thatcher agarrou-se desesperadamente ao poder quando já era uma primeira ministra morta em atividade.  Desafiada na liderança dos conservadores em 1990, não conseguiu os votos necessários para permanecer como líder, embora tenha vencido seu oponente. Foi uma vitória inútil, mas Thatcher não quis ver isso.
     No Reino Unido, o poder fica na mão do líder do partido mais votado. Os companheiros de partido podem, em situações extremas, desafiar a liderança.  Foi isso que tirou da Thatcher o poder.  Seus liderados entre os conservadores já não suportavam sua brutalidade como chefe, e um deles a desafiou.
     Thatcher, sem votos suficientes para permanecer a despeito de ter batido o desafiador, ainda relutou durante dias em deixar Downing Street. Queria ir para a segunda e decisiva votação. Era formalmente uma possibilidade, mas na verdade é uma atitude não aceita na política britânica, pelo desrespeito implícito à vontade coletiva do partido. Foi a rainha Elizabeth quem afinal convenceu Thatcher a renunciar.
     Os problemas mentais ceifaram depois seu projeto de fazer fortuna com palestras e, muito pior para ela, a impediram de lutar no campo das ideias pela essência do thatcherismo: um Estado mínimo, com a menor regulamentação possível.
     Em 2011, a convite do premiê conservador David Cameron, ela visitou pela última vez Downing Street, o lugar de onde ela exerceu influência mundial durante onze anos.
     Andava com dificuldade e acenava confusamente, como se de alguma forma tivesse em sua mente destruída retornado aos dias em que foi conhecida como Dama de Ferro.
     Morreu como a mãe do 1% e a madrasta dos 99%.

Quando a dama de ferro amolece
Tendo Maryl Streep como protagonista, filme sobre Margareth Thatcher humaniza a jovem simples que, ao se tornar 'lady', conduz a Inglaterra numa onda de privatizações.
     O filme “A dama de ferro” recebeu críticas à época do lançamento em 2011 por não ter abordado, na opinião dos críticos, com a devida importância o lado liberal da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Thatcher, como se sabe, morreu nesta semana (08/04), aos 87 anos, vítima de um derrame.
     É verdade. O filme, da diretora Phyllida Lloyd [que já tinha feito “Mamma mia” igualmente com Meryl Streep], tenta dar um apanhado geral da vida da mulher que comandou as ilhas britânicas de 1979 a 1990. E, dentro desse apanhado, suas posições direitistas ocupam um espaço tão importante quanto qualquer outro aspecto, como sua adolescência trabalhando com o pai em uma vendinha, sua passagem para a Universidade de Oxford, sua entrada no partido Conservador e a sua escalada até o poder.
     São retratados, também, toda a onda de protestos que o governo dela enfrentou, por conta de suas políticas de estado-mínimo, que privatizou companhias estatais estratégicas, criou uma massa de descontentes, e deu nome a uma era: tatcherismo. É mostrado até o ataque a bomba perpetrado pelo Exército Revolucionário Irlandês em um encontro do partido conservador em 1984. Sua vida não foi pouco atribulada quiçá sem polêmica.
     No entanto, pareceu pouco, pouco, na opinião dos críticos, para mostrar a vida da única mulher que assumiu o principal cargo político das ilhas britânicas. A começar, a cinebiografia é narrada como se fosse um longo diálogo [imaginado] entre Margareth e seu marido, já então falecido, Denis Thatcher, de quem ela recebeu o sobrenome. Na cena inaugural, ela chega em casa e, como uma dona-de-casa comum, reclama do preço dos produtos do supermercado. A intenção é clara: Margareth não deixou de ser a filha do dono da quitanda.
     É esse o principal argumento de todo o longa. Mostrar que a dama considerada de ferro era, ao fim e ao cabo, uma mulher simples, que entendia de política e economia como qualquer pessoa que tem uma vendinha. Esse estigma, de ser filha de um quitandeiro, e não descendente de uma família nobre, como é razoavelmente comum entre os membros do partido Conservador inglês, é, inclusive, um motivo de chacota durante toda a sua carreira política.
     Essa forma de lidar com a política é, segundo a intepretação do filme, os principais pontos positivo e negativo de Thatcher. Se ela não deixou a simplicidade de lado jamais, também se colocou como um exemplo a ser seguido. Talvez o único. Sua política liberal, sua diminuição do estado social, era uma continuação da sua política da quitanda. Como se dissesse: se eu consegui sair de trás do balcão e chegar aqui, à frente de uma das nações mais importantes do mundo, qualquer um pode chegar também.
     A mulher do estado mínimo, da aposta na competição, no mercado, desconsidera um dos fatores mais importantes da questão: o indivíduo e todas as suas diferenças entre si. Acredita apenas numa ideia quase darwinista, em que os mais fortes sobreviverão, enquanto os mais fracos devem ser deixados para trás na cadeia evolutiva.
     Ao humanizá-la, ao tentar traçar uma explicação mais psicológica, menos maniqueísta, uma razão para as suas atitudes que reflitam sua biografia, de mulher bem sucedida, o filme mostra que ela não era um monstro que apenas pensava no bem de poucos, em detrimento de muitos. Isso não a impedia, claro, de tomar atitudes controversas, antipopulares, para seguir os seus ideais de vida e política. Ao fim, talvez não tenhamos uma grande coleção da vida política da dama de ferro. Mas percebemos que, ao menos, era uma mulher com princípios. Menos pior que uma direita disfarçada, é uma direita que não tem vergonha de mostrar a cara.
Direção: Phyllida Lloyd
http://www.torrenthound.com/torrent/13c564e12b1ba8ddeb9a72719ad379950f78a22c
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 105 minutos
Tamanho: 314 MB

Para inglês ver
Documentos liberados pelo Itamaraty apimentam discussão sobre apoio do Brasil à Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982. Postura oficial de neutralidade já era contestada naquele tempo.
     Na última semana, uma reportagem do jornal “O Globo” gerou um grande debate ao expor a participação do Brasil num tráfico internacional de armas, durante a Guerra das Malvinas, que ocorreu há exatos 30 anos. Os repórteres se basearam em documentos confidenciais, recentemente liberados pelos arquivos do Conselho de Segurança Nacional e do Itamaraty.   
     O material sugere que o governo brasileiro sabia do uso de territórios nacionais como posto de pouso de aviões carregados de armamentos, oriundos da Líbia e de Israel, com destino à Argentina. Os documentos revelados no periódico reiteram o que a historiografia vem discutindo há tempos: o Brasil não foi neutro durante o conflito.
     “Era muito interessante para o Brasil, em questões diplomáticas, mostrar-se oficialmente neutro – principalmente para a Inglaterra e para os Estados Unidos”, conta Adler Homero Fonseca, pesquisador do Iphan e especialista em armamento militar. “Mas, ao mesmo tempo, era positivo para o governo dizer à sociedade que estava apoiando secretamente a Argentina. Isso poderia ser visto como uma independência na política internacional”, destaca o historiador. Ele comenta que, já na época da guerra, a imprensa divulgou fotografias de aviões vindos da Líbia, estacionados em aeroportos nacionais, mas não se tinha certeza do que exatamente eles transportavam.
     Apesar do histórico de rivalidade política com os vizinhos, o Brasil tentou se aproximar da Argentina durante os anos 1980, pensando em sua projeção no cenário internacional – na época, as relações internacionais brasileiras ainda eram muito presas aos interesses norte-americanos, coisa que só começou a mudar nos últimos dez anos.

Empréstimos aos hermanos
     Ainda assim, o apoio à Argentina na Guerra das Malvinas não podia ser explícito: o governo do general argentino Leopoldo Galtiere chegou a pedir mísseis brasileiros para utilizar em ataques, mas teve a solicitação negada. Apesar do "não", o país comandado por João Batista Figueiredo à época disse "sim" a outros empréstimos e participou nesta aliança de outras formas, como cedendo aviões de patrulhamento marítimo, foguetes, caças e, em dado momento, até reteve uma aeronave inglesa em solo brasileiro.
     A reportagem “Disputa reacesa”, publicada no site da RHBN em 2010, traz um trecho de um documento liberado em 2006 pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) – no qual a embaixada britânica condena a postura das autoridades brasileiras frente ao conflito: “À luz das antigas e amistosas relações entre a Grã-Bretanha e o Brasil, o governo de Sua Majestade Britânica acredita ter o direito de esperar tratamento equilibrado na atual situação de crise. Nesse contexto, tem conhecimento de que aviões militares argentinos e outras aeronaves utilizaram e continuam utilizando aeroportos brasileiros ao transportarem equipamento militar para uso pela Argentina”. A postura era tão dúbia que não ficou camuflada nem aos olhos dos ingleses.

A guerra
     Em 1982, a ditadura militar argentina não ia bem das pernas: a crise econômica era grave e a população estava cada vez mais insatisfeita. Apelando para o sentimento nacionalista, o governo Galtiere invadiu as Ilhas Malvinas – chamadas pelos britânicos de Falklands – e desafiou a Inglaterra pela soberania do território. O conflito durou poucos meses (até junho do mesmo ano) e gerou consequências amargas à parte sul-americana envolvida: além dos mais de 400 mortos, a guerra produziu centenas de veteranos traumatizados e pôs um ponto final na administração autoritária do país sul-americano.
     Hoje, as ilhas continuam sob poder da Inglaterra, mas a Argentina ainda tenta trazer à tona o debate internacional sobre a soberania para tentar reavivar o nacionalismo da população num momento de crise política. “As Malvinas são um tema nacional, algo que toca o sentimento de todos os argentinos, independente da filiação politica. A presidente Cristina Kirchner aproveitou a efeméride dos 30 anos para reacender o nacionalismo, mas o exército argentino não tem condições psicológicas, financeiras e tecnológicas para enfrentar uma guerra contra a Grã-Bretanha”, conta Tomaz Espósito Neto, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados.
     Para ele, a situação política deve permanecer a mesma porque a Inglaterra não deve ceder. Principalmente porque o território envolveu um conflito armado há pouco tempo e, recentemente, foi apontado como uma possível grande reserva de petróleo. O conflito de interesses está longe de acabar.

Sigilo de documentos
     Os documentos que suscitaram o debate foram liberados pelo Itamaraty já obedecendo a nova "lei de arquivos", em vigor desde o ano passado (2011), que colocou fim ao sigilo eterno de documentos oficiais. Agora, textos rotulados como "ultrassecretos", por exemplo, têm prazo máximo de 50 anos para permanecer longe do acesso da sociedade. A medida vai facilitar a pesquisa sobre as decisões políticas do passado do país, por anos mantidas sob segredo absoluto.

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