"O QUE NÓS QUEREMOS DE FATO É QUE AS IDEIAS VOLTEM A SER PERIGOSAS"
1968, lido nos muros de Paris
"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche
Essa
pergunta é o tema do poema de Bertolt Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão
e do cartaz de uma campanha desenvolvida pela Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB) pela ética na política.
Nas
manchetes dos jornais, os escândalos de corrupção se repetem numa regularidade
quase monótona. Diante de uma aparente crise geral dos valores éticos e de
impunidade institucionalizada, o risco que corremos, no Brasil de hoje, é
entrar num torpor cívico que não nos permita ultrapassar a pergunta: “E agora?”
Para entender o agora, talvez um bom
exercício seja aplicar nossa perplexidade a uma dimensão maior. A dimensão
histórica. Será que a corrupção de hoje é a mesma que a de há 100 anos? Há mais
corrupção hoje do que antes? Aumentou a corrupção ou aumentou a sua percepção e
a postura diante dela?
Uma sequência de episódios reforça a
impressão de que a corrupção sempre esteve entre nós. No século XIX, os
republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a
Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getúlio
Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no
Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a
corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção,
despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando
Collor foi eleito em 1989 com a promessa de combater a corrupção e foi expulso
do poder acusado de fazer o que condenou. Nos últimos anos, as denúncias
proliferam, atingindo todos os poderes e instituições da República e a própria
sociedade.
Mas antes de considerar estes fatos
como indícios de um eterno retorno, convém lembrar que o sentido do termo mudou
ao longo do tempo. Ao falar de corrupção ao final do Império, nenhum
republicano queria dizer que D. Pedro II era corrupto. Pelo contrário: se
reconheciam nele uma virtude, era a da correção pessoal. Do mesmo modo, em
1930, quando os revoltosos qualificavam de carcomidos os políticos da Velha
República, não queriam dizer que eram ladrões. Nos dois casos, a acusação era
dirigida ao sistema, não às pessoas. Corruptos eram os sistemas, monárquico ou
republicano, por serem, na visão dos acusadores, despóticos, oligárquicos, e
não promoverem o bem público.
A partir de 1945, houve uma
alteração no sentido que se dava à corrupção. Entrou em cena o udenismo. A
oposição a Getúlio Vargas, comandada pelos políticos da União Democrática
Nacional (UDN), voltou suas baterias contra a corrupção individual, contra a
falta de moralidade das pessoas. Corruptos passaram a ser os indivíduos – os
políticos getulistas, o próprio Vargas. Foram também indivíduos que serviram de
justificativa ao golpe de 1964 e mais tarde inspiraram o grito de guerra de
Collor, personificados na figura dos marajás, a serem caçados.
O termo corrupção é, portanto,
ambíguo. Podemos evitá-lo, recorrendo ao de transgressão. Esta palavra é menos
escorregadia: transgredir é desrespeitar, violar, infringir. Quem transgride,
transgride alguma coisa definível – uma lei, um valor, um costume. Além disso,
a transgressão é valorativamente neutra. Não há boa corrupção, a não ser na
visão de políticos como Ademar de Barros (1901-1969), que se vangloriava de
fazer, mesmo que roubando. Há, no entanto, a boa transgressão. Toda corrupção é
transgressão, mas nem toda transgressão é corrupção.
O Brasil sempre foi um país de leis
e de legistas. Herdeiros, via Portugal, da tradição jurídica romano-germânica,
somos um dos maiores produtores de leis. A mania de regulamentação foi
introduzida e reforçada pela grande presença de juristas no poder legislativo e
na administração do Estado. Juristas e advogados compuseram a quase totalidade
da elite política durante todo o período de formação nacional no século XIX e
continuam a representar parcela importante dela. A aspiração maior desses
juristas é formular a legislação perfeita, que enquadre toda a realidade e
evite qualquer brecha por onde possa escapar o transgressor. Nosso jurista se
vê como um demiurgo, organizador do mundo, reformador universal. Feita a lei, o
problema para ele está resolvido, não lhe interessando sua execução. Trata-se
de postura oposta à da tradição da Common Law anglo-saxônica, segundo a qual a
lei apenas regula o comportamento costumeiro.
Nosso cipoal de leis incita à
transgressão e elitiza a justiça. A tentativa de fechar qualquer porta ao
potencial transgressor, baseada no pressuposto de que todos são desonestos,
acaba tornando impossível a vida do cidadão honesto. A saída que este tem é,
naturalmente, buscar meios de fugir ao cerco. Cria-se um círculo vicioso:
excesso de lei leva à transgressão que leva a mais lei, que leva a mais
transgressão.
Exemplos desse legalismo delirante
se verificam até hoje. Tome-se o Código Nacional de Trânsito de 1997. Com seus
341 artigos, é exaustivo em definir regras e estabelecer punições, generoso em
criar burocracias – Contran, Cetran, Contradife, Jarí, Renavan, Renach. Foi
recebido com foguetório e aplauso geral. No entanto, era fácil prever seu
fracasso, pois nada foi feito no sentido de sua aplicação. Passado um curto
período em que houve alguma redução de acidentes, e durante o qual os
motoristas avaliavam a ação da polícia, voltou-se aos mesmos índices de antes.
A norma perfeita não se adequava às condições de trânsito, ao tipo de polícia,
ao mau estado das estradas, às anistias de multas, à inoperância dos mecanismos
de recurso, à própria cultura da transgressão.
A distância entre a lei e a
realidade sempre esteve presente no cotidiano da maior parte dos brasileiros.
Até a metade do século XX, para quase toda a população rural, que era
majoritária, a lei do Estado era algo distante e obscuro. O que esta população
conhecia, e bem, era a lei do proprietário. Até mesmo autoridades públicas,
como juízes e delegados, eram controladas pelas facções dominantes nos
municípios. Havia o “juiz nosso”, o “delegado nosso”. O problema da
transgressão da lei não se colocava para essa população. E se algum traço a
caracterizava era a submissão, a acomodação, o fatalismo, a não ser por
revoltas eventuais, em geral marcadas por misticismo religioso.
As revoltas populares do século XIX
e parte do século XX, tanto rurais como urbanas, se deram como consequência da
expansão da lei, da capacidade reguladora do Estado. Quando a população pobre
do século XIX se revoltou contra o recenseamento, o recrutamento, a mudança do
sistema de pesos e medidas, o aumento de impostos, ou quando, no século XX,
pegou em armas contra a vacina obrigatória, ela estava protestando contra uma lei
considerada ilegítima por contrariar valores comunitários, religiosos ou mesmo
políticos. A revolta de Antonio Conselheiro no arraial de Canudos foi sem
dúvida o episódio mais trágico entre os confrontos da legalidade com valores
tradicionais. O aspecto dramático nesses casos é que todos tinham razão: o
Estado no esforço de racionalização e secularização, os rebeldes na defesa de
seus valores, crenças e costumes.
Nas grandes cidades, sobretudo em
suas periferias, o agente da lei próximo à população era, e ainda é, o policial
militar ou civil, cujo arbítrio e violência são conhecidos. A garantia de
direitos fundamentais para os migrantes do campo – propriedade, inviolabilidade
do lar, ir-e-vir, integridade física – era, e em boa parte ainda é, pouco mais
que inexistente. Essa massa, que logo passou a votar em grandes números,
adquiriu cidadania política, mas não cidadania civil. Mais recentemente, em
trágico retrocesso, parcela dessa população urbana, ex-vítima dos coronéis,
passou ao jugo de outro poder privado, muito mais violento: o poder dos traficantes.
Em vez de se pensar em transgressão,
é mais adequado dizer dessa população que ela é estranha à lei, que está à
margem da lei. Para ela, a lei é uma entidade hostil. A sociedade brasileira não
lhe forneceu qualquer escola de civismo.
E que escola de civismo teve a gente
da casa-grande? No velho mundo rural, herdeiro da tradição escravista, a lei
detinha-se na porteira das fazendas. Os proprietários prendiam, julgavam,
condenavam, puniam. Descendentes diretos desses senhores compõem hoje a bancada
ruralista no Congresso. Muitos estão entre os que ainda hoje são acusados de
manter trabalhadores em condições análogas à escravidão.
E os poderosos das cidades? A elite
política, formada em sua maior parte por advogados e juristas, manteve por
longo tempo certo respeito à lei, sem fugir de todo à tradição patrimonialista
que estava na origem de nosso Estado. O bom comportamento se deveu em boa parte
à intervenção pessoal do imperador, e se prolongou pela Primeira República,
quando os exemplos de desprezo pela coisa pública estavam longe de ter a
dimensão escandalosa de hoje. Dentro do próprio grupo dissidente que subiu ao
poder em 1930, havia poucos exemplos de oportunistas e aproveitadores. Ironicamente,
foi o fim dessa sociedade patrícia, iniciado em 1930 e acelerado após 1945 – e,
mais ainda, durante os governos militares – que abriu as portas para a invasão
da transgressão nas altas esferas.
A ditadura
protegeu com o arbítrio a atuação dos governantes e interrompeu a formação de
uma nova elite dentro de padrões republicanos. O crescimento da máquina estatal
ampliou práticas clientelísticas e patrimoniais e aumentou o predomínio do
Executivo sobre o Legislativo. Outro fator negativo foi a construção de
Brasília, que libertou congressistas e executivos do controle das ruas,
ampliando a sensação de impunidade. Brasília tornou-se uma corte corrupta e
corruptora. Funcionasse o governo no Rio de Janeiro, os políticos envolvidos em
falcatruas seriam vaiados dentro do Congresso e “ovacionados” nas ruas.
Há transgressão e há percepção da
transgressão. A camada social em melhor posição para perceber a transgressão e
reagir contra ela é a que chamamos de classe média. É ela que está mais cercada
pela lei em função de sua inserção profissional, é sobre ela que recai grande
parcela dos impostos, é ela que menos se beneficia de políticas sociais. Além
disso, graças à alta escolaridade, ela tem condições de desenvolver uma visão
crítica da política e de seus agentes, de formar a opinião pública do país.
Pode-se dizer que a reação contra a transgressão varia na razão inversa do
bem-estar da classe média urbana. Maior a classe média urbana e piores suas
condições de vida, maior a grita por moralidade.
Gritar alivia, mas não conduz
necessariamente a mudança. Se não existe uma tradição de respeito à lei, não
será com apelos moralistas que ela será criada. A famosa Constituição do
historiador Capistrano de Abreu (1853-1927), que num único artigo obrigava
todos os brasileiros a terem vergonha na cara, é um achado. Mas ela seria
perfeitamente ineficaz. Como pedir ao povo que respeite a lei se ele toma
conhecimento todos os dias de exemplos de políticos, empresários e ricos em
geral burlando a lei impunemente?
Não há solução fácil. Mas não
estamos condenados à corrupção e à transgressão. Elas são fenômenos históricos
que, como todos os outros, estão em perpétua mutação. Medidas tópicas podem
reduzi-las. O processo de votação já foi uma grande fraude, hoje é confiável. A
impunidade tem que ser combatida em todas as camadas sociais, sobretudo entre
as mais altas. Isso exige reformas na legislação penal e nas instituições,
sobretudo nas polícias e no funcionamento do Judiciário. Imagine-se o efeito
que teria entre os criminosos de colarinho branco o fim do foro privilegiado e
da prisão especial para portadores de diplomas universitários. Sobretudo, a
democracia política tem que ser usada para produzir a democracia civil da
igualdade perante a lei. Inclusive porque sem a última a primeira não terá
futuro promissor. José Murilo de Carvalho é professor titular da UFRJ e autor de Dom
Pedro II: Ser ou não ser (Companhia das Letras, 2007). Saiba Mais - Bibliografia
ANÔNIMO. A arte de furtar. Lisboa, 1744.
AVRITZER, Leonardo; BIGNOTTO, Newton; GUIMARÃES, Juarez & STARLING, Heloísa
Maria Murgel (orgs.). Corrupção: ensaios e críticas. Belo Horizonte: Ed. UFMG,
2008.
CARDOSO, Fernando Henrique & MOREIRA, Marcílio Marques (coord.). Cultura
das transgressões no Brasil. Lições da História. São Paulo: ITCO/iFHC, 2008.
A aventura e a ciência por trás das mudanças climáticas
História em quadrinhos desenhada por Caco
Galhardo conta como sabemos o que conhecemos sobre a alteração do clima no
planeta. Com bom humor e simplicidade, retrata as descobertas e o envolvimento
de cientistas e líderes mundiais nesta que é uma das mais importantes questões
da atualidade.
Bom humor e linguagem simples pautam a
publicação, tornando-a indicada para leigos, iniciados, jovens e adultos. A
história que começa ainda no século 19 e envolve décadas de pesquisas,
expedições a áreas remotas, polêmicas – incluindo até ataque de hackers – e
estudos sobre os impactos das mudanças climáticas, inclusive no Brasil. Mostra
o empenho de pessoas determinadas em suas buscas por informações e em dar voz à
urgência do tema.
Ele vigia os seus passos, mexe com sua cabeça, transforma você em
cobaia de experiências. Quando estamos nele, ficamos mais impulsivos, mais
narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os sentimentos dos outros.
E, de quebra, mais infelizes.
Super
Interessante/Junho 2015
O Facebook é, de longe, a maior rede da história da humanidade. Nunca
existiu, antes, um lugar onde 1,4 bilhão de pessoas se reunissem - e 936
milhões entrassem todo santo dia (só no Brasil, 59 milhões). Metade de todas as
pessoas com acesso à internet, no mundo, entra no Facebook pelo menos uma vez
por mês. Ele tem mais adeptos do que a maior das religiões (a católica, com 1,2
bilhão de fiéis), e mais usuários do que a internet inteira tinha dez anos
atrás. Em suma: é o meio de comunicação mais poderoso do nosso tempo, e tem
mais alcance do que qualquer coisa que já tenha existido. A maior parte das
pessoas o adora, não consegue conceber a vida sem ele. Também pudera: o
Facebook é ótimo. Nos aproxima dos nossos amigos, ajuda a conhecer gente nova e
acompanhar o que está acontecendo nos nossos grupos sociais. Mas essa história
também tem um lado ruim. Novos estudos estão mostrando que o uso frequente do
Facebook produz alterações físicas no cérebro. Quando estamos nele, ficamos
mais impulsivos, mais narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os
sentimentos dos outros. E, de quebra, mais infelizes.
No ano passado, pesquisadores das
universidades de Michigan e de Leuven (Bélgica) recrutaram 82 usuários do
Facebook. Durante duas semanas, eles enviaram perguntas via SMS, cinco vezes
por dia, para os voluntários. As perguntas eram "como você está se
sentindo agora?", "como você avalia a sua vida?" e "quanto
tempo você ficou no Facebook hoje?". O estudo mostrou uma relação direta:
quanto mais tempo a pessoa passava na rede social, mais infeliz ficava. Os cientistas
não sabem explicar o porquê, mas uma de suas hipóteses é a chamada inveja
subliminar, que surge sem que a gente perceba conscientemente. Já deve ter
acontecido com você. Sabe quando você está no trabalho, e dois ou três amigos
postam fotos de viagem? Você tem a sensação de que todo mundo está de férias,
ou que seus amigos viajam muito mais do que você. E fica se sentindo um
fracassado. "Como as pessoas tendem a mostrar só as coisas boas no
Facebook, achamos que aquilo reflete a totalidade da vida delas", diz o
psiquiatra Daniel Spritzer, mestre pela UFRGS e coordenador do Grupo de Estudos
sobre Adições Tecnológicas. "A pessoa não vê o quanto aquele amigo
trabalhou para conseguir tirar as férias", diz Spritzer.
E a vida em rede pode ter um efeito
psicológico ainda mais assustador. Durante 30 anos, pesquisadores da
Universidade de Michigan aplicaram testes de personalidade a 14 mil
universitários. Cada voluntário tinha de dizer se concordava ou discordava de
afirmações como: "eu tento entender como meus amigos se sentem" e
"eu geralmente me preocupo com pessoas menos favorecidas do que eu".
São perguntas criadas para medir o grau de empatia de uma pessoa - o quanto ela
se importa com as outras. Em 2010, os cientistas publicaram os resultados. Os
jovens da geração atual, que cresceram usando a internet, têm 40% menos empatia
que os jovens de três décadas atrás. E essa tendência fica mais intensa a
partir dos anos 2000, período que coincide com a ascensão das redes sociais. A
explicação disso, segundo o estudo, é que na vida online fica fácil ignorar as
pessoas quando não queremos ouvir seus problemas ou críticas - e, com o tempo,
esse comportamento indiferente acaba sendo adotado também na vida offline.
Num meio competitivo, onde precisamos mostrar
como estamos felizes o tempo todo, há pouco incentivo para diminuir o ritmo e
prestar atenção em alguém que precisa de ajuda. Há muito espaço, por outro
lado, para o egocentrismo. Em 2012, um estudo da Universidade de Illinois com
292 voluntários concluiu que, quanto mais amigos no Facebook uma pessoa tem, e
maior a frequência com que ela posta, mais narcisista tende a ser - e maior a
chance de fazer comentários agressivos. Esse último resultado é bem
surpreendente, porque é contraintuitivo. Ora, uma pessoa que tem muitos amigos
supostamente os conquistou adotando comportamentos positivos, como modéstia e
empatia. O estudo mostra que, no Facebook, tende a ser o contrário.
Junte a indiferença com o narcisismo e a competição e você chegará ao
terceiro elemento negativo das redes sociais: o ódio. Em tese, as redes sociais
deveriam nos aproximar uns dos outros. Afinal, usamos nossos nomes reais,
postamos fotos verdadeiras e sabemos se uma pessoa tem amigos em comum conosco.
Como explicar, então, que pessoas que jamais brigariam na vida real - sobre
futebol, sobre política, sobre qualquer assunto - fiquem se xingando no Face? E
que isso seja tão comum?
Não existe uma resposta direta. Mas
existem algumas pistas muito boas. Em 2013, pesquisadores da Universidade
Benihang, na China, analisaram 70 milhões de posts do Weibo, rede social
chinesa que mistura características do Twitter e do Facebook. Usando um
software que lia palavras-chave, eles classificaram cada post como alegre,
triste ou irritado - e viram como ele se propagava pela rede. As mensagens
irritadas eram as que se espalhavam mais rápido, e chegavam mais longe: eram
replicadas por pessoas a até três níveis de separação do autor (o amigo do
amigo do amigo repetia o post).
"Quando a pessoa está online, há uma
desinibição. Ela fica mais solta", afirma o psicoterapeuta Cristiano
Nabuco, do grupo de pesquisas em dependência tecnológica da USP. Isso acontece,
segundo ele, por causa da distância física. Como não estão frente a frente, as
pessoas se sentem mais à vontade para trocar acusações e insultos. E no
Facebook basta um clique para curtir ou replicar o que outra pessoa disse -
inclusive insultos. "Isso potencializa a agressão, porque eu posso fazer
uma ofensa e dez pessoas vão lá e me ajudam na ofensa, vira um grupo ofendendo
uma pessoa", explica Ana Luiza Mano, do Núcleo de Pesquisa de Psicologia
em Informática da PUC-SP.
E isso pode ter consequências profundas.
Segundo o Mapa da Violência 2014, um estudo elaborado pela Faculdade Latino-Americana
de Ciências Sociais, o número de suicídios entre adolescentes brasileiros
cresceu 36,7% entre 2000 e 2012 (o dobro do aumento nas demais faixas etárias).
O estudo não acusa as redes sociais. Mas o período em que os suicídios crescem
coincide com a ascensão delas.
Se você se sentir mal por causa do
Facebook, basta se desconectar ou colocar o celular no bolso, certo? Não é tão
fácil assim. Porque as redes sociais mexem com o núcleo accumbens, uma região
que fica no meio do cérebro e regula o chamado "sistema de
recompensa". Quando fazemos alguma coisa agradável - comemos algo gostoso
e calórico ou fazemos sexo, por exemplo -, esse sistema libera dopamina, um
neurotransmissor que nos dá prazer. É a forma de o cérebro nos dizer que aquilo
(comer bem ou se reproduzir) é vital para nossa sobrevivência, e, por isso,
devemos repetir sempre que possível. Trata-se de um mecanismo ancestral, que se
desenvolveu muito antes da internet. Em 2013, um estudo da Universidade Livre
de Berlim descobriu que ganhar likes no Face ativa esse mesmo sistema. Cada
"curtida" que recebemos provoca uma liberação de dopamina, como as
que temos ao comer e fazer sexo. "A sensibilidade do núcleo accumbens leva
a mudanças de comportamento no mundo real", explica, no estudo, o
neurocientista Dar Meshi. Por isso o Facebook é tão irresistível.
Só que abusar dele é perigoso. Pode
literalmente deformar o cérebro. Em 2012, um grupo de cientistas chineses
analisou 17 adolescentes viciados em internet - que ficavam conectados pelo
menos 5h30 por dia e tinham problemas na vida social por causa disso. As
imagens dos exames revelaram anormalidades no córtex orbitofrontal, região que
nos ajuda a controlar impulsos, e no corpo caloso, que conecta os dois
hemisférios do cérebro. Segundo o estudo, os danos eram similares aos
encontrados em viciados em álcool e cocaína.
As redes sociais estão mexendo conosco.
Inclusive de propósito - como quando o Facebook realizou uma experiência
secreta e polêmica, em que as cobaias foram os próprios usuários.
Cobaias
involuntárias
Em junho de 2014, surgiu um artigo científico de arrepiar. Assinado por
um cientista da Universidade de Cornell e por pesquisadores do Facebook, ele
contava como o site manipulou a timeline de 689.003 pessoas, ao longo de uma
semana, sem que elas soubessem. O objetivo era saber se, mexendo no conteúdo da
timeline, o Facebook conseguiria alterar o humor dos usuários. A resposta foi
sim. Quando o Facebook omitia posts alegres, as pessoas ficavam mais tristes - usavam
mais palavras negativas em suas mensagens. E vice-versa. A conclusão do estudo
é clara: "As mensagens online influenciam nossas emoções e
comportamento". Assim que ele foi publicado, o Facebook recebeu uma
saraivada de críticas. Algumas diziam que o estudo violou a ética científica
(porque não se pode transformar alguém em cobaia sem o consentimento da
pessoa), outras que a experiência foi simplesmente cruel. O Facebook alegou
que, quando criaram seus perfis no site e aceitaram os 'Termos de Uso", as
pessoas haviam automaticamente consentido em participar do estudo. Mas pediu
desculpas pela experiência.
O Facebook continua manipulando o que você
vê na sua timeline. Isso é definido por um algoritmo que se chamava EdgeRank,
foi criado pelo próprio Face e originalmente seguia três critérios: afinidade
(o quanto você interage com o autor daquele post), engajamento (número de
likes, comentários e compartilhamentos que o post teve) e tempo (notícia velha
não tem vez). Hoje, o algoritmo é muito mais complexo - segundo o Facebook,
calcula mais de 100 mil variáveis, ajustadas de acordo com cada usuário. A
empresa não diz quais são, inclusive por um segredo comercial - do contrário, o
algoritmo poderia ser copiado por outras redes sociais. Mas há quem diga que o
sigilo também é uma maneira de adulterar o conteúdo distribuído aos usuários
para lucrar em cima disso. "O Facebook está na fronteira do eticamente
questionável. As vezes ele é ético, às vezes é antiético. Ele te dá benefícios,
mas cobra por isso", diz Raquel Recuero, professora de comunicação da
Universidade Católica de Pelotas e pesquisadora de redes sociais.
É comum ver usuários do Facebook
desconfiados com as políticas da empresa, ou temerosos de que ela tenha
informações demais. Se você é um deles, há uma boa maneira de buscar respostas:
solicitar o download de todas as informações que o Facebook coletou sobre você.
Eu fiz isso, é fácil. Recebi um pacote de arquivos que totalizavam 28
megabytes. Todas as fotos e vídeos que eu publiquei na rede estavam lá. Todos
os meus chats, todas as cutucadas que eu recebi (uma única, em 5 de setembro de
2014, de uma pessoa que eu não conheço - fiquei chateado), todos os eventos
para os quais fui convidado, incluindo os que eu ignorei. Se eu tivesse um post
privado (não publicado), estaria lá também. Posso ver todas as atividades do
meu mural e até coisas que fiz em outros serviços. Posso ver as músicas que
ouvi no Radio, em que dia, hora e ordem, pois minha conta nesse serviço de
streaming está conectada ao Facebook.
O prontuário tem muita coisa. Mas não tem
uma coisa extremamente importante: a lista com os sites que eu visitei. Porque,
sim, o Facebook sabe por onde eu andei na internet. Sabe quando você entra num
site, qualquer um, e ele tem um botãozinho que permite dar like em alguma
coisa? Esse botão é uma conveniência para você, e um mecanismo de monitoramento
para o Facebook: quando você entra naquela página, ele fica sabendo (mesmo se
você não apertar o botão de like). Esse sistema serve para que o Facebook
mostre anúncios relacionados às coisas que você pensa em comprar. Se você entra
numa loja virtual e procura uma geladeira, por exemplo, essa informação é
passada para o Facebook – que passa a exibir anúncios de geladeiras. "O
Facebook poderia tomar ações mais fortes para permitir que as pessoas tivessem
mais privacidade. Mas isso vai contra o modelo de negócio dele", diz
Recuero. O mecanismo está presente em grande parte da internet, inclusive em
sites que nada têm a ver com comércio eletrônico, e permite que o Face grave os
seus passos pela web, silenciosa e ininterruptamente. Ele não é o único: o
Google também faz algo do tipo. Um monitoramento que parece saído do clássico
1984, o romance distópico de George Orwell.
O sistema funciona graças aos cookies,
pequenos arquivos de texto que são colocados no seu computador ou celular e o
identificam enquanto você navega na internet. Na Europa, a lei determina que o
usuário tenha de aprovar cada um dos cookies depositados no seu computador. Mas
um relatório da Comissão de Privacidade da Bélgica, divulgado em março,
concluiu que o Facebook está violando a lei, plantando cookies nos computadores
das pessoas sem a permissão delas. Segundo o relatório, ele usa cookies para
monitorar usuários que não estão logados na sua rede - e até gente que jamais
teve uma conta de Facebook. A empresa negou a prática e disse que o relatório
tem erros.
O mergulho nos meus dados pessoais ficou
entre o fascinante e o perturbador. O mais esquisito é que concordei em dar todo
esse acesso ao Facebook. "Ao clicar em Abrir uma conta, você concorda com
nossos Termos, incluindo nosso Uso de Cookies", diz o texto. Quase ninguém
o lê: apenas 7% dos usuários, segundo uma pesquisa de 2011. No caso do
Facebook, o documento oficial tem mais de 23 mil caracteres - mais do que esta
reportagem -, e passa de 80 mil somando os subitens. Ou seja, é dificílimo de
ler. Isso não é exclusividade do Facebook. Os contratos que você
"assina" ao se inscrever nos serviços online sempre são longos e tortuosos.
Talvez porque não existam para serem lidos - mas para que as empresas tenham
poderes enormes sobre você. E porque, mesmo sabendo disso, e de tudo o que o
Facebook faz, você dificilmente vai parar de usá-lo. Eu não vou.
A
SUPER entrou em contato 11 vezes com o Facebook, entre os dias 16 e 30 de
abril, solicitando que concedesse uma entrevista ou respondesse por escrito às
questões discutidas nesta reportagem. A empresa preferiu não se manifestar.
Fonte:Super Interessante – Edição 348 -
Junho 2015
“Em nenhuma hipótese será aplicada a
internação, havendo outra medida adequada”. O parágrafo 2º do artigo 122 do
Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8095/90) não costuma constar nos
discursos da onda crescente a favor da redução da maioridade penal para 16
anos. Nem poderia: a legislação que garante direitos a crianças e adolescentes
é constantemente vilipendiada no país, e só mesmo ignorando-a é possível
enxergar no aumento da violência a saída para a violência.
Essa discussão serve de pano de fundo no
primeiro longa-metragem da cineasta Caru Alves de Souza, De menor (2013),
recém-lançado em DVD. A inspiração para o roteiro foi a experiência de Michaela
Alves de Souza, ex-defensora pública e prima de Caru. “À época em que ela atuou
no Fórum de Santos (SP), conversamos muito sobre os casos em que trabalhava”,
explica a diretora. O roteiro completou-se com base em cinco anos de pesquisa,
resultando em uma história verossímil: apesar dos esforços da defensora, todos
os adolescentes infratores apresentados pelo drama acabam internados na
Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (CASA) do Estado
de São Paulo. Na vida real, a internação também é a opção mais utilizada pelo
Poder Judiciário, ao contrário do que estabelece o ECA. O longa foi eleito
Melhor Filme de Ficção no Festival do Rio de 2013 (prêmio dividido com O lobo
atrás da porta, de Fernando Coimbra).
Embora não tenha nascido com esse
propósito, o filme enquadra-se na acalorada discussão atual sobre reduzir ou não
a maioridade penal no Brasil. A diretora se posiciona contra a proposta de
redução.
Os dados sobre a internação de menores no
Brasil são insuficientes e desconexos. Um dos levantamentos mais recentes
disponíveis, realizado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da
República, teve que se basear em alguns dados de 2007. E aponta que, dos
21.265.930 de brasileiros entre 12 e 21 anos (11,14% da população), 0,51%
cometeram alguma infração. Seria um dado positivo – relativamente, são poucos
os jovens para com os quais o Estado deveria se preocupar – não fosse a
quantidade deles que cumprem medidas de restrição e privação da liberdade:
66,59% dos adolescentes e jovens apreendidos são encaminhados à internação,
medida que deveria ser exceção, e não regra.
De socioeducativas as internações não têm
nada. “As unidades do Rio de Janeiro e do resto do país mais se assemelham à
prisão do que propriamente a um sistema socioeducativo. Em termos estruturais
são superlotadas e sem recursos”, diagnostica Maíra Fernandes, que conhece bem
os dois lados da moeda: é presidente do Conselho Penitenciário do Rio de
Janeiro e ativista contra a redução da maioridade penal. Ela aponta a falência
do modelo prisional adulto e garante: “Colocar um jovem ali, com um período
inteiro de formação pela frente, só irá torná-lo pior”. Em De menor, o destino
do protagonista não é diferente do que vive a maioria dos meninos e das meninas
apreendidos no Brasil.
Direção: Caru Alves de
Souza
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 1h 30m
Saiba
Mais - Filme
Nas quebradas da maior metrópole do Brasil, entre
tiros, perrengues, amor e ódio, histórias de jovens se misturam e colidem em
busca de sonhos e escolhas. Inspirado em histórias reais, o longa-metragem “Na Quebrada” revela a luta e as escolhas de jovens que cresceram
entre armas, crimes e muitas dificuldades: Zeca sobreviveu a uma chacina.
Gerson nunca viu seu pai fora das grades. Mônica é diferente de todos da
família. Junior é fascinado por consertos de televisões. Joana sonha com a mãe
que nunca conheceu. Esses jovens descobrem o cinema como um caminho para
desafiar seus destinos.
A pobreza sempre fez parte
de nossas vidas, mas nossas atitudes em relação a ela mudaram. Iniciando no
período Neolítico, o filme de Ben Lewis, narrado por Shaun Parkes e animado
pela empresa holandesa Submarine, nos leva a diferentes momentos da miséria no
mundo. Se você sonhasse que ficou pobre ao longo dos tempos, ao acordar, qual
seria sua visão da pobreza? Claro que ainda existem pessoas muito pobres, mas a
pobreza atual está mais relacionada à desigualdade...
A prova está no dicionário: dos 228 mil verbetes que o Houaiss
apresenta em uma de suas edições, cerca de 45 mil são palavras oriundas de
línguas indígenas. Alguma dúvida de que o conhecimento dessa herança
linguística, mesmo que superficial, é necessário para entender o português que
falamos, e até mesmo para consolidar a nossa identidade?
“Há várias línguas faladas em português”,
afirma José Saramago no documentário Língua: vidas em português, e basta
olhar as variedades regionais para dar razão ao escritor. Como explicar essas
diferenças? Parte delas reside no fato de que os índios que aqui moravam
falavam centenas de línguas autóctones de diversos troncos linguísticos. Quando começaram a usar um idioma que veio de
fora – o português – nele deixaram impressas suas marcas, fruto de uma relação
que a sociolinguística denomina de “línguas em contato”. Como as línguas
indígenas eram diversas, as marcas que deixaram não foram as mesmas em cada
região.
No início do século XVI, o poeta Sá de
Miranda lançou aos mares do futuro a nau da língua portuguesa, vinculando seu
destino à expansão do comércio marítimo. Durante um par de séculos, caravelas
singraram “mares nunca dantes navegados”, carregando, entre outros, um bem
imaterial: o português, que passou a ser falado na Índia, na Malásia, na
Pérsia, na Turquia, na África, no Japão e até na China e na Cochinchina. Em
muitos lugares tornou-se “língua franca”, isto é, um idioma usado para
comunicação entre grupos de pessoas cujas línguas maternas são diferentes –
como ocorre hoje com o inglês.
A língua portuguesa já veio para cá
marcada por outras línguas com as quais havia convivido. Aqui, no território
que é hoje o Brasil, encontrou mais de 1.300 línguas, faladas por cerca de 10
milhões de habitantes, segundo estimativas de pesquisadores da Escola de
Berkeley que estudaram a demografia histórica do período e consideram que no
continente americano ocorreu "a maior catástrofe demográfica" da
história da humanidade.
As duas línguas gerais indígenas faladas
no Grão-Pará e no Brasil – a Língua Geral Amazônica (LGA) e a Língua Geral
Paulista (LGP) – nomearam conceitos, funções e utensílios novos trazidos pelos
europeus com adaptações fonéticas e fonológicas: cavalo (cauarú), cruz (curusá),
soldado (surára), calça ou ceroula (cerura), livro (libru
ou ribru), papel (papéra), amigo ou camarada (camarára).
Os portugueses começaram a
falar essas línguas e também tomaram delas muitos
empréstimos, a maioria sendo do tronco tupi, que mantinha grande número de
falantes espalhados por extenso território da costa atlântica. Desde o século
XVI, portugueses que tinham interesse econômico em comunicar-se com os índios começaram a
usar uma língua de base tupi que se tornou a Língua Geral. Os missionários
fizeram então uma gramática explicando como funcionava essa língua e passaram a
usá-la na catequese. Traduziram para ela orações, hinos e até peças de teatro.
Apesar de extintas, algumas dessas línguas
indígenas continuam sendo usadas por brasileiros, que nem desconfiam desses
empréstimos, em nomes de lugares, animais, vegetais, ervas, flores, plantas,
enfim, da flora e da fauna. Numa amostra coletada pelo linguista Aryon Rodrigues,
46% dos nomes populares de peixes e 35% dos nomes de aves são oriundos só de
línguas tupi.
De origem tupi é a palavra carioca,
nome de um rio que, segundo alguns especialistas, significa “morada (oca)
do acari”, um peixe que cava buracos na lama e ali mora como se fosse um
anfíbio. Para outros, é o nome de uma aldeia, a “morada dos índios carijó”. Da
mesma origem são os nomes de muitos lugares, como locais atuais do Rio de
Janeiro que conservaram as denominações de antigas aldeias: Guanabara (baía
semelhante a um rio), Niterói (baía sinuosa), Iguaçu (rio grande), Pavuna (lugar
atoladiço), Irajá (cuia de mel), Icaraí (água clara) e tantos outros,
como Ipanema, Sepetiba, Mangaratiba, Acari, Itaguaí.
Muitos topônimos indígenas perderam seu
sentido original. Os tupinambás denominaram de Itaorna uma praia em
Angra dos Reis. Nessa área, na década de 1970, foi construída a Central Nuclear
Almirante Álvaro Alberto, mas os engenheiros responsáveis desconheciam que o
nome dado pelos índios continha informação sobre a estrutura do solo – minado
por águas pluviais, que provocavam deslizamentos de terra das encostas da Serra
do Mar. Somente em fevereiro de 1985, quando fortes chuvas destruíram o
Laboratório de Radioecologia que mede a contaminação do ar na região, eles
descobriram o que significa itaorna: “pedra podre”.
A influência das línguas indígenas nas
variedades usadas no Brasil não se resume em uma listagem de palavras exóticas
ou "folclóricas". Existem outras influências entranhadas nas camadas
profundas da língua, que penetraram em seus alicerces, mexendo com seu sistema
nos campos sintático, fonológico e morfológico. É o que os linguistas chamam de
"substrato".
No caso da fala individual, o substrato é
o conjunto de transferências adquiridas pela primeira língua, ou língua
materna, depois do contato com uma segunda língua. Do ponto de vista coletivo,
o substrato é o conjunto de vestígios que uma língua, quase sempre extinta,
deixa sobre outra língua, em geral a de um povo invasor. É a influência da
língua perdida sobre a língua imposta, que só se estabiliza após diversas
gerações. Exemplos disto são alguns processos de modalização do nome,
característicos do tupi, que deixaram suas marcas no português não pela via do
empréstimo cristalizado, mas pelo próprio mecanismo. Tanto na palavra netarana,
usada no Pará, quanto em outras do português regional, como sagarana,
canarana, cajarana, tatarana, há o uso do sufixo tupi rana (“como se
fosse”).
Esses resíduos ainda não foram
completamente inventariados, mas alguns deles foram identificados. O
indigenista Telêmaco Borba recolheu, em 1878, dados sobre a língua oti, que era
então falada no sertão de Botucatu, em São Paulo, e que foi extinta. Descobriu
que aquela língua, do tronco Jê, possuía sons que os grupos de língua tupi não
tinham, como o r retroflexo. E seus falantes levaram esse traço para o
português quando adquiriram a nova língua. Ele ali permanece até hoje no r
paulista, conhecido como r caipira.
No interior do Amazonas,
no rio Madeira, há o processo de “alçamento” e “abaixamento” de vogais.
“Alçamento” é o fechamento vocálico, como no caso de “popa da canoa”, que se
pronuncia pupa da canua, o que também é atribuído ao substrato da língua
indígena.
Nem sempre tais mudanças foram aceitas
pelos puristas da língua. Da mesma forma que o Império Romano considerou como
“línguas estropiadas” as variedades do latim faladas na Península Ibérica (que
mais tarde deram origem ao português, ao espanhol, ao catalão, ao galego, ao
mirandês), assim também os portugueses consideraram a variedade aqui falada
como “língua mutilada”. No Sermão do Ano Bom, em 1642, o jesuíta Antonio
Vieira, que viveu no Grão Pará, afirmou que “A língua portuguesa (...) tem
avesso e direito; o direito é como nós a falamos, e o avesso como a falam os
naturais”. Classificou as variedades locais do português de "meias
línguas, porque eram meio políticas [civilizadas] e meio bárbaras: meias
línguas, porque eram meio portuguesas e meio de todas as outras nações que as
pronunciavam, ou mastigavam a seu modo”.
Uma resposta a Vieira está na letra da
canção “Língua”, de
Caetano Veloso: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de
Camões / (…) E deixe os Portugais morrerem à míngua / 'Minha pátria é minha
língua'/ Fala Mangueira! Fala! / Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em
pó/ O que quer / O que pode esta língua?/ (…) Vamos atentar para a sintaxe dos
paulistas”.
As línguas indígenas permanecem no
substrato do português e guardam informações e saberes, funcionando como uma
espécie de arquivo. Conhecer a contribuição efetiva que legaram à língua
portuguesa é entender como viviam os povos que as falavam e se apropriar dessa
experiência milenar.
José R. Bessa Freire é
professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e autor do artigo
“Da fala boa ao Português na Amazônia Brasileira”, in Amazônia em cadernos
(Manaus, 2000).
Saiba Mais - Bibliografia
NOLL, Volker &
DIETRICH, Wolf (orgs.). O português e o tupi no Brasil. São Paulo:
Editora Contexto, 2010.
LIMA, Ivana Stolze &
CARMO, Laura do (orgs.). História Social da língua nacional. Rio de
Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 2008.
FREIRE, José R. Bessa
& ROSA, Maria Carlota (orgs.). Línguas Gerais. Política Linguística e
Catequese na América do Sul no Período Colonial. Rio de Janeiro: Eduerj,
2003.
LAGORIO, Consuelo Alfaro;
ROSA, Maria Carlota & FREIRE, José R. Bessa (orgs.). Política de Línguas
no Novo Mundo. Rio de Janeiro: Eduerj, 2012.
Documentário que foi filmado no ano de
2001 e lançado nos cinemas brasileiros no ano de 2004. Todo dia duzentas
milhões de pessoas levam suas vidas em português. Fazem negócios e escrevem
poemas. Brigam no trânsito, contam piadas e declaram amor. Todo dia a língua
portuguesa renasce em bocas brasileiras, moçambicanas, goesas, angolanas,
japonesas, cabo-verdianas, portuguesas, guineenses. Novas línguas mestiças,
temperadas por melodias de todos os continentes, habitadas por deuses muito
mais antigos e que ela acolhe como filhos. Língua da qual povos colonizados se
apropriaram e que devolvem agora, reinventada. Língua que novos e velhos
imigrantes levam consigo para dizer certas coisas que nas outras não cabe. O
filme conta com a participação especial de José Saramago (escritor português),
João Ubaldo Ribeiro (escritor brasileiro), Martinho da Vila (cantor e compositor),
Teresa Salgueiro (do grupo Madredeus) e Mia Couto (escritor moçambicano).
“Esse é um projeto (a
construção da hidrelétrica no rio Tapajós) que traz morte. Acaba com a vida, a cultura, expulsa e tira dignidade do
povo Munduruku. Dizima crenças, a cultura e a identidade desse povo”.
Indígenas do povo Munduruku ocuparam na
última sexta-feira, dia 28 de novembro, a sede da Funai na cidade de Itaituba,
no sudoeste do Pará. Alguns veículos de comunicação estão noticiando o fato,
mas a maioria deles não contextualiza a situação, de modo
a facilitar uma interpretação agressiva da atitude dos índios. O
que não se explica, no entanto, é a violência que os Munduruku estão
vivenciando diariamente, sob pressão do governo brasileiro, em aliança com
interesses privados. O objetivo da pressão é a construção da hidrelétrica
no rio Tapajós, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
O que os povos Munduruku querem
é a publicação do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da
Terra Indígena Sawré Muybu Dajê Kapap Eypi, como garantia de permanência do
povo no local que ocupam há centenas de anos. O relatório já está pronto. Basta
que a Funai o publique e o que emperra o processo são os interesses envolvidos
na região. Como o órgão não avança, os indígenas iniciaram um processo de
estudo e demarcação próprios, com apoio de entidades da sociedade civil. (Leia carta de autodemarcação dos Munduruku)
Mas a queda de braço ainda está longe de
terminar. A resposta da sociedade civil à tentativa de imposição da
hidrelétrica tem sido forte. Segundo previsões da Empresa de Pesquisa
Energética (EPE), a megausina São Luís do Tapajós, no Pará, deveria entrar em
operação em 2016. Os conflitos socioambientais (que não se limitam à questão
com os índios, mas incluem a redução de áreas de floresta amazônica) já
empurraram a previsão para 2020.
Mas a briga continua, como mostra o documentário
abaixo, lançado em novembro. A documentarista Nayana Fernandez, brasileira
de 33 anos, percorreu aldeias da tribo indígena ao longo do rio Cururu,
afluente do Tapajós, para registrar a luta dos munduruku contra o complexo
hidrelétrico. O projeto prevê a construção de mais de 20 barragens na bacia do
Tapajós, com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). O
resultado das filmagens é o documentário “Índios Munduruku: Tecendo a
Resistência”, lançado simultaneamente no Brasil e na Inglaterra. A produção
independente contou com o apoio de organizações britânicas e de lideranças da
etnia mundurucu.
Ana Laide Barbosa, do Projeto Xingu Vivo
para Sempre afirma no vídeo: “Esse é um projeto que traz morte. Acaba com a
vida, a cultura, expulsa e tira dignidade do povo Munduruku. Dizima crenças, a
cultura e a identidade desse povo”.
O link do documentário
está abaixo, na íntegra. Para mais informações sobre a luta do povo Munduruku,
acesse o site sobre a autodemarcação no Tapajós.