Ao mito da
mulata travessa se opõe a história de uma ex-escrava determinada que conseguiu
superar a exclusão social
Júnia
Ferreira Furtado

Desde o filme de Cacá Diegues, que marcou o Cinema Novo brasileiro na
década de 1970, a figura lendária da escrava diamantinense Chica da Silva ficou
imortalizada na personagem sensual, desbocada e travessa, representada pela
artista brasileira Zezé Mota. Mas nem sempre foi assim. Sua história foi
contada pela primeira vez por Joaquim Felício dos Santos, advogado em
Diamantina e historiador nas horas vagas, no livro Memórias do Distrito
Diamantino, publicado em 1868. Em suas páginas, Chica deixava as brumas que
ocultavam o passado da região e entrava definitivamente na história. No entanto,
a imagem de Chica da Silva construída por esse autor foi extremamente negativa,
descrevendo-a como uma mulata alta, corpulenta, boçal e careca, sem atrativos
que justificassem uma forte paixão. Era incompreensível, para Felício dos Santos,
que uma escrava como ela pudesse despertar a atenção de um homem branco e bem
situado, no caso o contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira, e
chegar a uma posição de destaque na sociedade local.
Até meados do século XX, a verdadeira
aparência de Chica da Silva ainda gerava controvérsias. Alguns afirmaram que,
quando Felício dos Santos escreveu, ainda existiam pessoas no Tejuco que a
haviam conhecido e não poderiam enganar-se sobre sua aparência. Em 1924, Nazaré
Meneses, autora das notas de uma nova edição das Memórias do Distrito
Diamantino, afirmou que ela não poderia ser feia ou asquerosa, pois
despertara o amor do jovem contratador. Pouco depois, o jornalista Antônio
Torres, ao
fazer apontamentos sobre a história do
arraial do Tejuco, já então cidade de Diamantina, registrou que o cadáver de Chica
foi encontrado, anos depois da sua morte, ainda conservando "a pele seca e
negra", e que os passantes se horrorizavam e fugiam ao ver o corpo
incorrupto da ex-escrava. A partir daí, a vida de Chica da Silva foi retratada
em livros de história, roteiros turísticos, romances, peças de teatro, músicas,
poemas, filmes e novelas. Sem se basearem em uma pesquisa histórica sólida,
essas produções criaram novos estereótipos, descrevendo uma Chica distante da
mulher de carne e osso que viveu no arraial do Tejuco, dos anos 30 a 90 do
século XVIII.
Chica nasceu por volta de 1732, no arraial
do Milho Verde, a meio caminho entre o Tejuco e a Vila do Príncipe - hoje cidade
do Serro. Era mulata clara, filha de negra com homem branco, fato comum na
sociedade da época, em que as mulheres, principalmente brancas, eram raras. Sua
mãe chamava-se
Maria, escrava africana
oriunda da Costa da Mina, e seu pai o português Antônio Caetano de Sá. Ainda jovem,
foi vendida a Manuel Pires Sardinha, proprietário de lavras e médico no Tejuco.
Em 1751, teve o primeiro filho, Simão, com seu próprio senhor. Ela era então
muito jovem, e Manuel Pires Sardinha quase um sexagenário. No registro de
batismo, ele não assumiu a paternidade de Simão, mas deu-lhe a alforria. Mais
tarde, em seu testamento, reconheceu Simão como um de seus herdeiros, mesmo já
tendo dois outros filhos.
João Fernandes de Oliveira nasceu em
Mariana, em 1727, filho do sargento-mor do mesmo nome e de
Maria de São José, natural
do Rio de Janeiro, primeira esposa do sargento-mor. Estudou em Portugal,
formando-se em cânones, na Universidade de Coimbra, e recebeu o importante
título, comprado pelo pai, de Cavaleiro da Ordem de Cristo. Tornou-se
desembargador, ao ser nomeado para o Tribunal da Relação do Porto e, em 1763,
juiz do Fisco das Minas Gerais. Em 1753, ele chegou ao Tejuco, como um dos
arrematantes do quarto contrato efetuado pela Coroa para a extração de
diamantes. Sua trajetória refletia o processo de ascensão social que seu pai,
antigo contratador, procurava garantir para o herdeiro. João Fernandes de Oliveira,
o velho, apesar da enorme fortuna, alcançou apenas o título de sargento-mor, pelo
qual era sempre referido. "Solteiro, de boa vida e costumes" e
coberto de nobreza, João Fernandes, surpreendentemente, envolveu-se com Chica
da Silva, com quem teve relação estável – mas não oficial, pois, na época, o
casamento era reservado apenas aos indivíduos do mesmo status social – e
de fidelidade, ainda que tivessem que viver separados em seus últimos anos, ela
no Tejuco e ele em Lisboa.
Chica da Silva teria entre 18 e 22 anos quando João Fernandes, então com
26, a conheceu. Jovem, tinha a beleza das mulheres mestiças descendentes das africanas
oriundas da Costa da Mina. Ele a comprou deManuel Pires Sardinha por
800 réis, e, no Natal do mesmo ano, a alforriou. Meses depois, em 1754, ficou grávida
de João Fernandes. Em abril do ano seguinte, era batizada a primeira filha do
casal, a mulata Francisca de Paula. Embora registrada como de pai desconhecido,
no documento Chica ostentou pela primeira vez o sobrenome Oliveira, em vez do
habitual "Francisca, parda, escrava de..." O casal teve 13 filhos,
tendo sido encontrados os registros de batismo de 11 deles. Em 1756, João, o
primogénito. No ano seguinte, Rita e, dois anos depois, Joaquim. Em 1761,
Antônio Caetano, seguido de Ana, Helena e Luísa. Em1766, nasceu Maria, no ano
seguinte Quitéria Rita e, em 1769, a caçula das mulheres, Mariana. Antônia
nasceu provavelmente em 1765 e José Agostinho em 1770.
Entre os padrinhos dos filhos de Chica e
João Fernandes não havia autoridade importante da capitania ou mesmo do
distrito, o que faz supor uma certa dificuldade do contratador em estabelecer
alianças com representantes da Coroa. As crianças foram batizadas por
importantes moradores do Tejuco, sinal provável de que a sociedade local aprovava
aquela relação não oficial entre pessoas diferentes em suas condições sociais. Além
de Manuel Pires Sardinha, que batizou a primogênita Francisca de Paula,
apadrinharam as outras crianças o sargento-mor José da Silva de Oliveira, velho
amigo do pai do contratador, e o coronel José Velho Barreto, importante
fazendeiro e negociante por atacado no Tejuco. Seu tio Ventura Fernandes de
Oliveira, estabelecido em Vila Rica, foi padrinho de Joaquim. Os demais
padrinhos eram militares locais de baixas patentes, como o sargento-mor Antônio
Araújo de Freitas, o capitão Luís Lopes da Costa, padrinho de Ana, Helena e
Luísa, e os capitães Francisco Malheiros e Luís de Mendonça Cabral.
Francisca da Silva de Oliveira agia como
qualquer senhora da sociedade. Educou todas as filhas no Recolhimento de
Macaúbas, o melhor educandário das Minas na época. Em 1767, recolheu em
Macaúbas as mais velhas - Francisca de Paula, de 12 anos, Rita Quitéria, de dez,
e Ana Quitéria, com cinco - pagando por matrícula, no ano seguinte, o dote de 900
mil-réis em barras de ouro. As meninas levaram com elas, para as servirem em
seu retiro, três escravas pardas e mais um casal, que ficava de fora.
Contavam também com mais 60 mil-réis anuais, que João Fernandes pagou
adiantado no primeiro ano, para o seu sustento. Em 1780, já estavam ali também
outras quatro filhas do casal: Helena, Luísa, Maria e Quite ria. Esse ano foi
decisivo na vida das moças. Como João Fernandes morrera em fins de 1779, Chica
decidiu que todas voltariam ao seu convívio, apesar de não haver evidências de
dificuldades econômicas, já que todas receberam dotes do pai, na forma de
fazendas. Provavelmente Chica achou melhor prepará-las para o casamento do que
manter os gastos com a iniciação à vida monástica. Outra hipótese é ter ela se
inquietado com possíveis irregularidades no Recolhimento, pois, na mesma época,
o bispo frei Domingos da Encarnação Pontével havia proibido a livre entrada na
Casa, visando a sua moralização. Também teriam influído em sua decisão a
ausência do amparo financeiro paterno e a necessidade de encaminhar as filhas
na vida. Chica e os filhos pertenceram às principais irmandades do Tejuco,
centros privilegiados de reconhecimento social. O livre trânsito da mulata e da
sua descendência nas diversas irmandades, inclusive de brancos, como as do
Santíssimo, São Miguel e Almas, Carmo e São Francisco, mesmo depois da morte de
João Fernandes, revelam que Chica conseguira a ascensão desejada. Ela era irmã nas
confrarias de brancos, como as do Santíssimo, Terra Santa, São Francisco, no
Tejuco, e Nossa Senhora do Carmo da
Vila do Príncipe; de mulatos, como a das Mercês, e de negros, como a do Rosário,
na qual chegou a ocupar cargos de direção, duas vezes como juíza e uma vez como
irmã da mesa diretora. O primeiro filho, Simão Pires Sardinha, entrou para a
irmandade de São Miguel e Almas em 1762, sendo também irmão do Santíssimo e das
Mercês, e João Fernandes pertencia a São Miguel e Almas e foi irmão da Mesa da Irmandade
do Rosário, ali ocupando o cargo de juiz de São Benedito. Já Francisca de Paula
era irmã do Santíssimo, São Miguel e Almas, Carmo, São Francisco, Mercês e
Rosário.
A
morte do velho sargento-mor João Fernandes de Oliveira, em 1770, em Portugal,
iria interferir de forma irreversível na vida de Chica e do desembargador João
Fernandes no Tejuco. Em 1748, o sargento-mor casara-se em segundas núpcias com
uma rica viúva, Isabel Pires Monteiro, num enlace arranjado pelo governador Gomes
Freire de Andrade, seu amigo. Casamento de interesses, os nubentes estabeleceram
um pacto pré-nupcial: a noiva incorporou seu patrimônio ao do marido e, em
troca, quando da morte dele, caso não tivessem filhos, ela retiraria da herança
apenas o montante correspondente aos seus bens. No entanto, poucos dias antes
de o sargento-mor falecer, Isabel conseguiu que ele alterasse o testamento,
concedendo-lhe o direito à metade dos bens do marido. João Fernandes deixou Chica
com as crianças no
Tejuco e retornou
imediatamente a Portugal, para tentar anular o testamento. O arrendamento de inúmeros
contratos de cobrança de impostos em Minas em parceria com o pai havia tornado
os interesses de ambos indissociáveis. Nos últimos anos, o filho contribuíra
para o enriquecimento da família e via a herança paterna como recompensa pela
boa administração dos diversos contratos de extração de diamantes que
administrara em seu nome, ou em sociedade. Foi esse o verdadeiro motivo da
partida precipitada de João Fernandes para Lisboa, e não, como foi difundido, supostos
conflitos entre o contratador e a Intendência dos Diamantes. A decretação do monopólio
régio dos diamantes pela Coroa, com a criação, em 1771, da Real Extração, não
significava retaliações pessoais contra o contratador, mas sim um efeito da política
pombalina de fazer retornar ao controle da Coroa as riquezas de além-mar.

Ao retornar a Portugal, João Fernandes
nomeou um tutor para as crianças e um representante junto ao contrato de
exploração dos diamantes, além de redigir um testamento que garantia a herança
aos filhos ilegítimos. Chica, por sua vez, também redigiu seu testa mento
dispondo dos bens entre os filhos. Provavelmente já alfabetizada, assumiu o
compromisso de garantir a educação e os cuidados com as filhas, enquanto João
Fernandes levou para o reino os quatro filhos homens, além de Simão Pires
Sardinha, o primeiro filho de Chica, que se responsabilizaria pelo futuro dos irmãos.
Disposto a introduzir os filhos na corte, o ex-contratador ocultou as origens
deles e sua relação com a ex-escrava, não por esquecimento ou ingratidão, mas,
ao contrário, para dignificar a prole na sociedade hierarquizada do reino. Com
isso, mesmo à distância, cuidava de Chica - a quem transmitira, no Tejuco, a posse
de vastos bens - e de seus filhos e filhas.
No dia 16 de fevereiro de 1796, d. Francisca da Silva de Oliveira morria
em sua casa, no arraial do Tejuco. Não era mais uma escrava parda sem nada de
seu, mas uma senhora de "grossa casa", como se dizia, possuidora de
imóveis e de escravos. O reconhecimento social ficou patente no sepultamento:
ela foi enterrada na tumba número 16, no interior da igreja da Irmandade de São
Francisco de Assis, que congregava a elite branca local. Em missa de corpo
presente, com todos os ritos e sacramentos que distinguiam os irmãos, sua alma foi
encomendada diante de todos os sacerdotes do arraial, paramentados com
sobrepeliz e estola roxa. Ao terminar o ofício, dobraram os sinos e o corpo foi
levado em procissão à sepultura, acompanhado pelos irmãos e pelos párocos, que
carregavam velas acesas. No mês seguinte à sua morte, devem ter sido rezadas 24
missas em intenção de sua alma, na matriz de Santo Antônio, direito que adquirira
ao se filiar à Irmandade do Santíssimo Sacramento. Nesse mesmo ano de 1796,
cumprindo-se seu desejo, foram celebradas 40 missas por sua alma na igreja das
Mercês.

A reconstrução da história de Chica da
Silva, a partir de novos documentos, lança luz sobre o tempo em que viveu e os
significados de sua trajetória. Assim como outras ex-escravas, Chica alcançou a
liberdade, amou, teve filhos, educou-os e buscou ascender socialmente, provavelmente
desejando reduzir a marca que a condição de parda e forra impunha a ela e a
seus descendentes. Inserção contraditória, ao buscar o reconhecimento da sociedade
branca, foi, porém, a única maneira que mulheres como ela encontraram para retomar
o controle sobre suas vidas, acumulando bens, transitando entre as irmandades,
tornando-se senhora de escravos. Seu itinerário é revelador também das relações
entre os grupos étnicos nas Minas Gerais do século XVIII. Sob o manto de
pretensa democracia racial, sutil e veladamente uma sociedade mestiça procurava
branquear-se e escapar por variados recursos, inclusive a dissimulação, da fria
exclusão sociorracial.
Transferido para o lado de fora do templo,
em sepultura vertical, o corpo de Chica da Silva permaneceu esquecido na igreja
de São Francisco, se for mesmo verdade o relato de Antônio Torres. O tempo, no entanto,
perpetuou a memória da parda Chica da Silva e de sua união com o poderoso
contratador dos diamantes. Ao contrário das inúmeras mulheres negras que
povoaram as ruas do Tejuco setecentista, cuja lembrança se dissolveu nos
séculos, sua trajetória imortalizou-se no mito da "Chica que manda".
Júnia
Ferreira Furtado é professora do Departamento de História da Universidade Federal de
Minas Gerais.
Fonte: Revista Nossa História -
Ano I - nº 2 - Dez. 2003
Saiba Mais – Filme
Xica da Silva
Na segunda metade do século 18, a escrava negra Xica da Silva (Zezé
Motta) torna-se o centro das atenções no Distrito Diamantino, onde estão as
minas mais ricas do país. Joao Fernandes (Walmor Chagas), representante da
Coroa Portuguesa, apaixona-se por Xica e a transforma na Rainha do Diamante,
satisfazendo todos os seus desejos extravagantes. Alertado pelos inimigos do
casal, o rei de Portugal manda um emissário a fim de impedir que cresça o poder
de Xica na colônia.
Direção: Carlos Diegues
Ano: 1976
Áudio: Português
Duração: 107 minutos