"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Brasil e sua fama

Lúcia Murat é cineasta, diretora de “Quase Dois Irmãos” e “Olhar Estrangeiro”, documentário que retrata as várias idealizações que o cinema mundial faz em torno do Brasil. Baseando-se no livro O Brasil dos gringos, imagens no cinema, de Tunico Amâncio, Lúcia entrevistou grandes diretores, roteiristas e produtores responsáveis por filmes como “Feitiço do Rio” – em que as praias cariocas são povoadas por macacos e moças de topless – e “Amazônia em chamas”, sobre a vida do seringueiro Chico Mendes, no qual todos os brasileiros falam inglês com sotaque espanholado. Ela contou para a Revista de História como as fantasias que existiam em torno do nome Brasil foram perpetuadas e acentuadas pela indústria cinematográfica. Principalmente no que diz respeito à sensualidade.

Revista de História - Você acha que esse paraíso perdido chamado Brasil é uma invenção do cinema mundial?
Lúcia Murat - Não. O que nós vemos é uma repetição da carta de Caminha, com imagens do paraíso, da mulher sensual, “com as vergonhas expostas”. E isso se desdobra de maneira diferente. Há desde filmes europeus, em que essas imagens são tratadas de forma mais carinhosa, até produções um tanto picaretas e agressivas, que acabam vendo o Brasil com um misto de desprezo e admiração. O clichê é o mesmo, mas as abordagens são diferentes. Em “Feitiço do Rio”, o roteirista Larry Gelbart coloca um monte de gente seminua numa praia, com macaquinhos nos ombros, e inventa o que ele chama de “casamento à brasileira”, que é uma mistura de candomblé com uma aparente suruba. Em suma, uma visão totalmente preconceituosa.

RH - Você pode citar outros exemplos?
LM - O filme “Orquídea Selvagem” mostra os negros pela ótica da sensualidade. Eu também gostaria muito de ter feito uma entrevista com o grupo inglês de comédia Monty Python, que fez um filme sobre vikings que viajam para um paraíso repleto de mulheres e frutas chamado Brasil. Esse eterno clichê não surge do nada. Ele é a exacerbação de um aspecto que às vezes é acentuado pelos próprios brasileiros, como no caso das mulatas que dançam no exterior.

RH - Como assim?
LM - É um processo infindável. Existe a expectativa de que o país seja uma terra de fantasias. Você chega lá fora, quer ganhar dinheiro e acaba por reforçar isso. Às vezes, nós gostamos de nos vender de acordo com o que o olhar estrangeiro quer ver.

RH - Esses clichês têm ficado mais exacerbados nos últimos tempos?
LM - Eu sinto isso, principalmente no quesito da sensualidade. Mas vale lembrar que eu trabalhei apenas com filmes de ficção. Se pegarmos os documentários que retratam o Brasil, vem à tona a ideia de violência. Mas essa visão não é suficiente para que se crie uma outra imagem de Brasil. Quando saí nas ruas da Europa para fazer entrevistas aleatórias, perguntando às pessoas o que elas sabiam sobre o país, a visão predominante foi a do paraíso perdido, do sexo, do país onde ninguém trabalha, onde a vida é uma festa. Isso porque a maioria dos filmes de ficção busca reforçar os clichês.

RH - Você acha que a indústria cinematográfica pretende criar outra terra encantada?
LM - Acho que ela não quer descartar esse paraíso chamado Brasil. É óbvio que, à medida que a globalização se acentua, fica cada vez mais difícil lidar com essas idealizações, pois as pessoas viajam mais e acabam conhecendo outros países. Quando o Brasil era um país totalmente desconhecido, acessível somente por navio, era mais fácil que se fantasiasse. Hoje, há cada vez mais pessoas que conhecem Rio e São Paulo. A impressão que me dá é que esse paraíso selvagem vai acabar sendo deslocado para a Amazônia.

Direção: Lúcia Murat
Ano: 2006
Áudio: Português
Duração: 69 minutos

domingo, 29 de setembro de 2013

Enredo de Novela

Sonegação, paraíso fiscal, roubo de documentos... Mensalão da Globo ainda terá muitos capítulos pela frente.
    Poderia ser roteiro de novela. Ou de um filme B. Mu­lher em férias vai ao local de trabalho com uma sa­cola e sai com milhares de páginas de um processo que envolve a cobrança de R$ 615 milhões. Seis anos de­pois, um homem tenta ven­der os papéis comprome­tedores, no submundo da informação, por 200 mil re­ais. Como todo roteiro de thriller sobrevive graças à tensão da dúvida, nes­te caso a incerteza é: a mu­lher agiu para ajudar ou prejudicar a empresa da qual era cobrada a fortuna? O caso envolvendo a Globopar, controladora da TV Globo, ilustra o impacto da internet na Era da Informação. Num passado não muito remoto, os documentos rela­tivos à autuação pelo Fisco do maior grupo de comunicação do Brasil provavelmente ficariam dormentes nas gavetas de repórteres investigati­vos de empresas concorrentes por causa do pac­to de silêncio que vigora entre quase todos os homens brancos, ricos e reacionários que con­trolam a grande mídia.
     Agora, o cerco foi rompido por um blog – logo apelidado carinhosamente de “Organiza­ções Cafezinho”. Miguel do Rosário, que toca O Cafezinho, é blogueiro sujo. Foi dele o furo so­bre a existência do processo de sonegação da Globopar. Sob o título Bomba! O Mensalão da Globo, Miguel escreveu: “A emissora disfarçou a compra dos direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2002 como investimentos em participação societária no exterior”. A notí­cia foi compartilhada por mais de 2 mil pessoas nas redes sociais e deu início a um típico turbi­lhão “internético”. Em algumas horas, havia sido replicado ou comentado em dezenas de blogs. A versão original e as que se inspiraram nela foram disseminadas rapidamente nas redes sociais – a reprodução publicada no Viomundo foi compar­tilhada por 10 mil leitores no Facebook. Uma re­percussão à altura do Jornal Nacional.
     Tanto que a Globopar foi forçada a emitir notas oficiais apresentando sua própria versão, algo inédito. Nêmesis dos Marinho, neste caso, Miguel do Rosário escreveu durante 15 anos sobre café numa newsletter criada pelo pai, José Barbosa do Rosário, que por ironia foi repórter de O Globo. Isso explica o nome do blog mantido por ele, que viu a audiência saltar de 5 para 50 mil leitores diários nas últimas semanas.
     Miguel tem cerca de 300 assinantes (calcula em 36 mil reais seu faturamento em 2012, contra 12,6 bilhões de reais das Organizações Globo). O Cafezinho exibe um único anúncio, da Rede Bra­sil Atual, enquanto as Organizações Globo aboca­nham mais de 45% de todas as verbas publicitá­rias do governo federal, acumulado de 5,9 bilhões de reais entre 2000 e 2012. A força dele e de outros blogs “sujos” reside na horizontalidade. Em tese, não existe hierarquia entre blogueiro e comenta­ristas: eles frequentam diferentes espaços na blo­gosfera, fazendo sugestões de conteúdo, críticas e debatendo com outros leitores. Atuam como abe­lhas polinizadoras. Tudo muito distante da hie­rarquia verticalizada das Organizações Globo, em que a família Marinho manda e quem tem juízo obedece. Talvez os globais tenham sido pegos de surpresa pela repercussão da denúncia. Quem lida com a blogosfera, não. Foram os próprios leitores, de forma voluntária, que fizeram o trabalho de formiguinhas. As 12 páginas de documentos em papel timbrado da Receita Federal – parte do pro­cesso contra a Globo – compartilhadas por Miguel no site de hospedagem Slide Share, logo bateram 160 mil visualizações.
     O que dizem os docu­mentos? Na versão da Re­ceita, a Globo simulou uma operação de investimento nas ilhas Virgens Britâni­cas, refúgio fiscal do Ca­ribe, através de uma em­presa de fachada de nome Empire. Objetivo: deixar de recolher os impostos devidos no Brasil na com­pra dos direitos de trans­missão da Copa do Mundo de 2002. Por conta disso, a Receita cobrou, em outu­bro de 2006: 183 milhões de reais em imposto sonegado, 157 milhões de reais em juros de mora e 274 milhões de reais em mul­ta, totalizando 615 milhões de reais.
     O auditor fiscal Alberto Sodré Zile, que assinou a representação fiscal para fins penais, na qual foi nomeado um dos irmãos Marinho, José Roberto, escreveu que em tese houve crime contra a ordem tributária, cometido pela Globopar ao “omitir in­formação ou prestar declaração falsa às autorida­des fazendárias”. A julgadora Maria de Lourdes Marques Dias, encarregada de avaliar o recur­so final da empresa, escreveu que a fiscalização “constatou a existência de simulação”. Nas pala­vras dela, a Globo adquiriu “em aparência, uma pessoa jurídica com sede nas Ilhas Virgens Britâ­nicas; no entanto, menos de um ano depois, a so­ciedade é dissolvida e seu patrimônio vertido para que a TV Globo obtivesse a licença que a permitiria transmitir os jogos da Copa do Mundo de 2002”.
     Numa de suas notas oficiais a respeito do caso, a Globopar negou irregularidades e afirmou que apenas escolheu “uma forma menos onerosa e mais adequada no momento para realizar o negó­cio, como é facultado pela legislação brasileira a qualquer contribuinte”. A empresa também asse­gurou que não tinha dívidas com a Receita por ter aderido ao Refis – programa que permite parce­lamento e abate valores da dívida. Segundo a le­gislação brasileira, quitação de dívida com o Fis­co extingue a possibilidade de processo criminal.
     Apesar das declarações públicas da Globopar, militantes digitais passaram a exigir algum tipo de comprovante do pagamento. Estranhavam o fato de o processo 18471.000858/2006-97, nas consultas feitas através do site do Ministério da Fazenda, aparecer com o movimento congelado em 29 de dezembro de 2006. O que teria acontecido para permanecer parado por mais de seis anos? A resposta foi dada pela própria blogosfera. No caso do Viomundo, por um repórter investigativo que não quer se identificar. Ele foi um dos internautas que descobriram que uma agente administrativa da Receita Federal, Cristina Maris Meinick Ribeiro, tinha sido condenada a 4 anos e 11 meses de prisão no início de 2013 pelo sumiço dos processos da Globo, que tramitavam conjuntamente – a representação para fins penais e a cobrança dos 615 milhões.
     Dias depois, o mesmo repórter levantou na Justiça Federal do Rio de Janeiro que Cristina responde ou respondeu a outros 14 processos, a maioria por fraudes eletrônicas no sistema da Receita que beneficiaram empresas endividadas com o Fisco. Em todos os casos, proprietários, sócios ou funcionários das empresas supostamente beneficiadas por Cristina se tornaram réus ou pelo menos foram chamados a testemunhar. A notável exceção foi a Globopar. Se Cristina agiu sistematicamente para beneficiar devedores, por que teria feito diferente no caso da Globo?
     “A Globo Comunicação e Participações não é parte no processo [contra Cristina], não conhece a funcionária e não sabe qual foi sua motivação”, afirmou a empresa dos Marinho em nota. Além disso, a Globopar disse ter ajudado a Receita a recompor os processos, que teriam voltado a tramitar – sugerindo, assim, que não tirou nenhum proveito do que chamou de “extravio”. Mas o blogueiro Fernando Brito, de O Tijolaço, fez uma cronologia do caso e cravou que o sumiço do processo beneficiou a Globopar. Ele escreveu: “1– A Globo é autuada em 16 de outubro de 2006 por sonegação de impostos devidos pela compra dos direitos de transmissão da Copa de 2002. Total da autuação: 615 milhões de reais. 2 — No dia 7 de novembro, José Américo Buentes, advogado da Globo, passa recibo de que recebeu cópia da autuação. 3 – No dia 29 deste mesmo mês, a Globo apresentou uma alentada defesa, de 53 páginas, pedindo a nulidade da autuação. 4 — No dia 21/12/06, a defesa da Globo foi rejeitada pelos auditores. 5 — No dia 29/12/2006, o processo é remetido da Delegacia de Julgamento I, onde havia sido examinado, para o setor de Sistematização da Informação, de onde são expedidas as notificações. Uma sexta-feira, anote. 6 — Sábado, 30; Domingo, 31; Segunda, 1° de janeiro, feriado. Dia 2, primeiro dia útil depois da remessa do processo ao setor, a servidora Cristina Maris Meirick Ribeiro, que estava de férias, vai à repartição, pega o processo, enfia numa sacola e o leva embora. 7 — Até o simpático Inspetor Clouseau concluiria, portanto, que ela foi mandada lá com este fim. Estava só esperando chegar lá o processo. Chegou, sumiu. 8 — Não é preciso ser um gênio para saber a quem interessava que o processo sumisse antes da notificação, para que não se abrisse o prazo de decadência do direito de recorrer e conservar a regularidade fiscal”. Ou seja, Brito responde com “Globopar” quando se faz a pergunta clássica: a quem interessava o crime? Mas, como se trata de uma novela, a trama pode ser mais complicada do que parece.
     Depois de uma temporada no Rio de Janeiro, o repórter investigativo Amaury Ribeiro Jr. apurou que a íntegra do processo da Globo na Receita está sendo oferecida no mercado clandestino da informação por 200 mil reais, o que sugere que o sumiço da papelada pode ter sido ação de uma quadrilha de achacadores interessada em extorquir a Globo. Negociações para entrega dos documentos teriam resultado até em tiroteio e morte, uma versão para a qual não existem provas materiais ou testemunhas dispostas a falar.   
     Por sua vez, o blogueiro Rodrigo Vianna, de O Escrevinhador, que trabalhava na Globo como repórter em 2006 – assim como o autor deste texto – testou outra hipótese. Lembrou-se de que a cobertura das eleições presidenciais daquele ano foram marcadas por mudança de postura da Globo. Na temporada que antecedeu o primeiro turno, a emissora adotou pauta dominada por fortes ataques ao candidato Lula, beneficiando o candidato tucano Geraldo Alckmin. Rodrigo escreveu que “a cobertura global da eleição mudou completamente no segundo turno, tornando-se mais ‘suave’. Em novembro de 2006, um colega que também era repórter da Globo e que mantinha bons contatos com Marcio Thomaz Bastos (então ministro da Justiça de Lula) disse-me: ‘Rodrigo, agora eles sentaram pra conversar, o governo e os Marinho’”.
      A especulação de Vianna ganha alguma credibilidade por conta das datas: o primeiro turno foi em primeiro de outubro de 2006, a Globo foi autuada em 16 de outubro, Lula se reelegeu em 29 de outubro de 2006 e, esgotado o trâmite interno na Receita, o processo em que a Globopar era cobrada em R$ 615 milhões sumiu no dia 2 de janeiro de 2007. Tanto a tese da ação de achacadores quanto a de um acordo pelo qual gente ligada ao governo Lula teria interesse em ajudar a Globopar são, por enquanto, meros exercícios de especulação. O caminho natural para desvendar a trama seria ouvir a funcionária condenada da Receita, Cristina Ribeiro.
      O Ministério Público do Rio de Janeiro, pelo menos no papel, disse que tentou fazê-lo. “O MPF ofereceu várias oportunidades para que a servidora cooperasse com as investigações e indicasse os eventuais co-autores do delito, porém a ré optou por fazer uso de seu direito constitucional ao silêncio”, afirmou em nota. Em sua nota de 10 de julho, a Globo Comunicação e Participações reiterou não ter “qualquer dívida em aberto com a Receita”. Ou seja, deixou implícito que as acusações contra ela eram assunto do passado.  
     No entanto, o repórter Amaury Ribeiro Jr. apurou que a empresa teve contas bancárias bloqueadas recentemente. Em maio de 2013, tramitava na Justiça Federal do Rio a ação de execução fiscal número 2009.51.01.503546-4, proposta pela Fazenda Nacional contra a Globopar, referente a uma dívida que em 9 de setembro de 2010 era mais de 173 milhões de reais. Por causa do sigilo fiscal, a Receita Federal diz que não pode dar informações. Instigado por entidades da sociedade civil, o Ministério Público do Distrito Federal abriu apuração criminal preliminar sobre o caso – em 90 dias, decide se transforma ou não em inquérito. O deputado Protógenes Queiroz propõe uma CPI da Globo, mas terá dificuldades para recolher assinaturas num Congresso em que tantos deputados e senadores são parceiros ideológicos ou comerciais da emissora.
     As redes sociais e as ruas, no entanto, continuam a fustigar os irmãos Marinho. Nas manifestações de junho e julho, pela primeira vez milhares de pessoas protestaram diante das sedes da Globo no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Maceió, Fortaleza, Salvador e Porto Alegre. Ironicamente, os irmãos Marinho, que advogam a necessidade de transparência nos negócios de Estado e são concessionários de um serviço público, pediram às autoridades a investigação de quem vazou a existência dos processos que comprometem a Globo.
     Peça-chave para esclarecer a trama, Cristina Ribeiro apagou seu perfil no Facebook e trancou-se no apartamento que divide com a mãe na avenida Atlântica, em Copacabana. Um imóvel similar ao que ela ocupa, no mesmo prédio, foi avaliado em 4 milhões de reais. Por telefone, Cristina disse a este repórter que nem sabia que tinha sido condenada em janeiro de 2013 pelo sumiço dos processos. A lei do silêncio imposta pelos barões da mídia sobre seus próprios negócios – eventualmente suspensa por conta de disputas comerciais entre eles –, para todos os efeitos, foi sepultada. O gigante vertical tremeu diante da rede horizontal tecida a partir de um certo Cafezinho. “Fora Rede Globo, o povo não é bobo”, bordão que surgiu nas longínquas greves do ABC paulista, nos anos 80, ganhou versão digital: “Globo Sonega”, que militantes projetaram sobre o prédio paulista da emissora, como se fosse uma logomarca iluminada do século 21.

Assista a reportagem: A mulher condenada por sumir com processo da Globo

Muito Além do Cidadão Kane - Sorria você está sendo Manipulado
     Produzido pela BBC de Londres e dirigido por Simon Hartog, “Muito Além do Cidadão Kane”, documentário cujo o título faz menção ao célebre personagem de Orson Welles no filme Homônimo. Após cinco anos de pesquisas este documentário tem o propósito de desvendar como um só homem pode dominar a forma de como todo um país recebe a sua informação, como essa situação foi construída e mantem-se no poder até os dias de hoje.
     Em visita ao Brasil, nos anos 80, o inglês Simon Hartog conheceu o império do Sr. Roberto Marinho e se impressionou com a estrutura edificada e o homem por trás dela, concentrado em Marinho e na TV Globo, por que ele é o exemplo mais radical da prostituição entre a política e imprensa no Brasil.
      O documentário traz depoimentos de políticos, artistas, jornalistas, como Brizola, Chico Buarque, Walter Clark, Armando Nogueira, Antonio C. Magalhães, Lula entre outras personalidades brasileiras. O Apoio da globo a Ditadura o desprezo pelas Diretas Já, e as eleições Collor X Lula, analisando a cobertura da Globo em episódios que marcaram a história do país.
     Muito Além do Cidadão Kane mais do que falar da TV Globo, relata sobre os processos e emaranhados que determinaram a política de telecomunicações do Brasil.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Além da versão oficial

João Pessoa, João Goulart, Carlos Lacerda, Tancredo Neves, Juscelino Kubitschek, Elza Fernandes,
Pinheiro Machado, D. Pedro II . Muitas foram as mortes que deixaram a população com a pulga atrás da orelha. Causas naturais ou assassinato? Confira uma galeria de casos que geraram intrigas e teorias conspiratórias
     Primeiro ela deu um tiro no namorado. Depois, sentou-se na cama e atirou no próprio peito. Os dois foram encontrados mortos na casa de praia dele, em Maceió, Alagoas, no dia 23 de junho de 1996. Esta é a versão da polícia alagoana. A princípio, fica fácil acreditar que se trata de um crime passional. Mas a desconfiança começa a surgir quando o namorado em questão é Paulo César Farias, o tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O mesmo que deu nome a um dos maiores esquemas de corrupção da História do Brasil, o Esquema PC.
     Conforme a investigação avançava, as dúvidas aumentavam. No livro Morcegos negros, o jornalista Lucas Figueiredo aponta algumas falhas: o local do crime não foi preservado, não houve busca de resíduos de pólvora nas mãos dos seguranças – que dizem não ter ouvido os tiros –, e ainda por cima, o colchão onde o casal morreu foi queimado pela família de PC Farias. Estranho...           
 
     Mas quem vai questionar a versão oficial? Muita gente. De boca em boca, as histórias de possíveis crimes políticos ganham fama. Quando João Pessoa (1878-1930) foi assassinado, muitos acreditaram que se tratava de um crime passional. A trama chegou a virar o filme Parahyba, Mulher Macho (1983), Tizuka Yamazaki. Mas pode não ter sido bem assim.
     A morte do marechal Castelo Branco (1897-1967) num acidente aéreo no dia 18 de julho de 1967, quatro meses depois de ter deixado a Presidência, também deixou a população desconfiada. Os jornais descreviam detalhes do choque entre o avião de Castelo Branco e um jato da Força Aérea Brasileira. Logo a FAB! Segundo a Última Hora, a morte “foi causada por violenta pancada no pulmão, ao destroçar-se a aeronave nas proximidades de Mondubim, a seis quilômetros de Fortaleza”.
     O ex-presidente ia da fazenda da escritora e amiga Rachel de Queiroz (1910-2003), em Quixadá, para Fortaleza. Em 1991, em uma entrevista no programa “Roda Viva”, da TV Cultura, Rachel deu um depoimento que deu um banho de água fria em quem achava que o choque entre os aviões tivesse sido um atentado. Segundo ela, Castelo Branco pediu ao piloto que passasse por cima da maior linha de distribuição de energia do São Francisco para ver os postes de alta tensão. O comandante ficou indeciso, mas atendeu ao pedido. “No instante em que eles atravessaram a linha, vinha uma formação de três jatos, e a ponta de um dos jatos pegou. De forma que o atentado seria impossível, tinham que adivinhar que o Castelo ia pedir, que o comandante não iria, depois cedeu, e que o jato iria coincidir naquela hora...”, contou a escritora. O relato se baseia no testemunho do único sobrevivente do acidente: o filho de Castelo Branco. 
     Para uns, depoimentos como esse confirmam a versão oficial; para outros, é apenas mais uma. Nunca se sabe ao certo onde nascem os boatos que formam uma teoria conspiratória. “Essa é uma característica que torna difícil a análise pelos historiadores”, diz o historiador Douglas Attila Marcelino. Mas será que esse gosto por teorias conspiratórias é inato? Para o psicanalista Benilton Bezerra Jr., essa preferência pela hipótese de atentados pode ser motivada por certa busca de sentido para os eventos. “Inscrever um crime numa trama ou narrativa política dá a ele um sentido maior, que ultrapassa o mero acidente. Nós somos seres de sentido, procuramos significado em tudo que nos acontece. Isto é um movimento natural nos humanos”, esclarece Bezerra Jr.
     O psicanalista chama atenção para o fato de que a própria História pode influenciar essa desconfiança em relação às versões oficiais. “Há muitos eventos e crimes provocados por interesses políticos que só se tornaram públicos muito tempo depois do acontecido. Desmentidos oficiais nunca são vistos, com boas razões, como critério de verdade. Na dúvida, melhor manter abertas as possibilidades”.
 
Crimes duvidosos: Atentados
D. Pedro II - Morte nada suspeita
José Murilo de Carvalho
     O imperador brasileiro morreu de pneumonia, em 5 de dezembro de 1891, em sua cama, em um quarto de hotel em Paris. Uma morte nada suspeita. Mas por pouco Pedro II (1825-1891) não entrou para a lista das personalidades políticas assassinadas no Brasil. Em 15 de julho de 1889 – quatro meses antes do golpe que o derrubaria do poder –, ele saía de um teatro no Centro do Rio de Janeiro quando ouviu um grito de “Viva a República!” Um jovem sacou um revólver e deu um tiro na direção do imperador, mas ninguém foi atingido.
     Foi o primeiro atentado contra a vida de um chefe de Estado no país. O clima era tenso na capital desde a véspera, quando um grupo de estudantes republicanos que queriam comemorar o centenário da Revolução Francesa entrou em confronto com a Guarda Negra, formada por libertos. O culpado do atentado ao imperador foi preso horas depois do crime. Era Adriano Augusto do Vale (?-1903), um caixeiro português desempregado. Apesar da acusação de ter contato com republicanos radicais, a motivação para o crime nunca ficou clara.
     Diante das manifestações de solidariedade, Pedro II minimizou o fato, alegando que tinha sido apenas o tiro de um louco que ele mal notara. Uma semana após a proclamação da República, o acusado foi julgado e absolvido sem apontar nenhum cúmplice.
José Murilo de Carvalho é professor aposentado da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e autor de D. Pedro II: ser ou não ser (Companhia das Letras, 2007).

Pinheiro Machado - Manso, desequilíbrio motivado pela imprensa
Vera Lúcia Bogéa Borges
     Em 1915, dizia-se que o senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915) mandava mais do que o presidente da República. Mas sua imagem sofreu um desgaste, que estava associado ao poder que tinha no processo eleitoral. Era ele quem controlava a Comissão de Verificação, que apresentava os resultados e diplomava os candidatos eleitos. O Congresso chegou a receber um projeto de lei pedindo a “extinção” de Pinheiro Machado por decreto. A imprensa promovia uma campanha contra ele, mas nada o derrubava. Até que, no dia 8 de setembro, Francisco Manso Paiva (1884 –19?) entrou no Hotel dos Estrangeiros, no Rio de Janeiro, onde três políticos conversavam no saguão, e cravou um punhal nas costas do senador, que ainda exclamou: “Ah, canalha!”. Terminava assim a vida do poderoso Pinheiro Machado.
     Após cometer o crime, o assassino foi preso por dois guardas a poucos metros dali. A investigação concluiu que não houve motivação política. Manso Paiva seria um desequilibrado que havia agido sozinho, incentivado pelas críticas da imprensa ao senador. Ele ficou preso por 20 anos, e após ser libertado conseguiu um emprego no Instituto Brasileiro do Café, por meio de contatos do jornalista Assis Chateaubriand (1892-1968), e passou a vender bilhetes de loteria nas redações dos jornais nas horas vagas. Até hoje, nunca ficou provado se ele teve alguma razão política para matar Pinheiro Machado. Manso Paiva sustentou sua versão até o fim da vida e declarou ao repórter Edmar Morel: “Não houve mandantes (...) Nasceu em mim a obsessão por matá-lo, na certeza de que livraria o Brasil de um tirano”.
Vera Lúcia Bogéa Borges é professora de História do Colégio Pedro II (CPII) e autora de Morte na República: os últimos anos de Pinheiro Machado e a política oligárquica (1909-1915) (IHGB, 2004).

João Pessoa - Honra lavada vira revolução
Inês Caminha Lopes Rodrigues
     Presidente da Paraíba de 22 de outubro de 1928 a 26 de julho de 1930 e candidato a vice na chapa de Getulio Vargas, João Pessoa (1878-1930) era contra tomar o poder à força caso perdesse a eleição presidencial de março de 1930. “Prefiro dez Júlio Prestes (candidato adversário) a uma revolução”, declarou durante a passagem da Caravana da Aliança Liberal pela Paraíba a fim de conclamar a Região Norte para a sublevaçna Paraão. Prestes foi o vencedor, e apesar da insatisfação com o modelo econômico e político do país e a alternância de São Paulo e Minas Gerais no poder, Vargas se encaminhava para aceitar a derrota. Mas o assassinato de João Pessoa serviu de estopim para o início da revolução.
     O crime estava mais relacionado a questões locais do que nacionais. João Pessoa havia tomado medidas contra os coronéis, líderes políticos locais, o que levou um deles, José Pereira, a iniciar uma revolta no município de Princesa em 28 de fevereiro de 1930. No início de julho, o advogado João Dantas (1888-1930), que seria ligado a Pereira, teve o seu escritório-residência arrombado pelas forças do governo. Sentindo-se humilhado, assassinou o presidente do Estado a tiros no dia 26 de julho, na Confeitaria Glória, no Recife.
     A comoção causada pelo crime serviu para mobilizar partidários de Vargas, que tomaram o poder em 3 de outubro. “João Pessoa vivo foi uma voz contra a revolução. Mas João Pessoa morto foi o verdadeiro rearticulador do movimento revolucionário”, definiu o jornalista Barbosa Lima Sobrinho (1897-2000).
Inês Caminha Lopes Rodrigues é professora aposentada da Universidade Federal da Paraíba e autora de A Revolta de Princesa: poder privado x poder instituído (Brasiliense, 1981).

Elza Fernandes - Traição ou ingenuidade?
Raul Rebello Vital Junior
     Elvira Cupello Calônio (1920-1936), uma jovem de 16 anos do interior de São Paulo, apaixonou-se pelo secretário-geral do Partido Comunista do Brasil (PCB), Antônio Maciel Bonfim, mais conhecido como Miranda. Os dois se conheceram em Copacabana, quando ela foi trabalhar como doméstica, e logo foram morar juntos. Elvira, então, passou a adotar o codinome Elza Fernandes. Miranda nasceu em 1905 e faleceu no final da década de 1940. Após o levante comunista de 1935, aumentou a repressão ao PCB. Miranda e Elza foram presos em janeiro do ano seguinte. Após ser solta pela polícia, ela foi “condenada” pelo partido por traição e executada. A polícia nada pôde provar sobre o assassinato no ano em que ele ocorreu. Somente em 1940 é que o caso vem à tona. No mês de abril, Luiz Carlos Prestes já aparecia como mentor intelectual da morte de Elza em importantes jornais da época.
     A notícia de seu estrangulamento contribuiu para estimular o sentimento anticomunista, reforçado pela imprensa. Houve a suspeita de que o casal teria denunciado outros membros do partido, porque a polícia libertou Elza duas semanas após detê-la, enquanto Miranda era barbaramente torturado pela polícia. Além disso, vários comunistas foram presos depois que ela saiu da cadeia e fez contato com dirigentes importantes. Entre esses dirigentes estavam Rodolfo Ghioldi e João Barbosa de Melo.  A investigação conduzida pelo “Tribunal Vermelho” do PCB, sob influência do líder Luiz Carlos Prestes (1898-1990) por meio de um bilhete, selou o destino de Elza.  Há controvérsias sobre o fato de Elza ter delatado seus companheiros. Acredita-se que ela era uma inocente sem formação política, e por causa da sua ingenuidade teria sido usada pela polícia, que passou a segui-la.  
Raul Rebello Vital Junior é professor das Faculdades Porto-Alegrenses de Educação, Ciências e Letras e autor da dissertação Tribunal Vermelho: em cena o caso Elza Fernandesrecortes do anticomunismo brasileiro durante o Estado Novo” (PUC-RS, 2001).

João Goulart - Ataque político, parada cardíaca
Oswaldo Munteal Filho
     João Goulart (1918-1976), presidente da República de 1961 a 1964, morreu na mesma época que seus colegas de aliança, o também ex-presidente Juscelino Kubitschek e o ex-governador do Rio de Janeiro Carlos Lacerda. Integrante da Frente Ampla – formada em 1968 contra a ditadura militar –, ele teria sofrido um ataque cardíaco em sua fazenda em Mercedes, na Argentina, onde estava exilado. Esta é a tese aceita pela história oficial, mas novas explicações têm surgido nos últimos anos.
     Em 2008, em entrevista à Folha de S. Paulo, o ex-agente do serviço secreto uruguaio Mario Neira Barreiro, que está preso em Charqueadas (RS), afirmou ter participado da Operação Escorpião – braço brasileiro da Operação Condor –, que resultou no envenenamento do ex-presidente. A tese de assassinato é reforçada pelo fato de Jango ter sido vigiado por autoridades militares desde 1954, quando renunciou ao cargo de ministro do Trabalho de Getúlio Vargas (1882-1954), e pelas recentes declarações de Jarbas Passarinho, político que ocupou três ministérios durante a ditadura. Segundo Passarinho, durante o governo do general Ernesto Geisel (1974-1979) houve uma orientação para o extermínio dos adversários políticos.
 Oswaldo Munteal Filho é professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor de Tempo negro, temperatura sufocante: Estado e sociedade no Brasil do AI-5 (PUC-Rio/ Contraponto, 2008).

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Juscelino Kubitschek - Viagem marcada, acidente planejado
Marcelo Squinca da Silva
     Presidente da República de 1956 a 1961, Juscelino Kubitschek (1902-1976) viajava de São Paulo para o Rio de Janeiro na tarde de 22 de agosto de 1976. Seu carro, guiado pelo motorista Geraldo Ribeiro, foi atingido por um ônibus, atravessou a pista da Via Dutra e bateu de frente com uma carreta. Terminou ali a vida de um símbolo da resistência à ditadura militar, que em 1968 havia formado com o ex-presidente João Goulart e com Carlos Lacerda, ex-governador do Rio, a Frente Ampla de oposição ao regime. A família de JK acreditou que sua morte tinha sido um crime político, mas nunca conseguiu provar. O motivo seria a eliminação de líderes de oposição às ditaduras latino-americanas.
     Na época, a Justiça considerou o episódio um acidente, e não um atentado. O governo militar resistiu, mas aceitou decretar luto de três dias. No enterro do ex-presidente, em Brasília, houve uma grande manifestação popular contra a ditadura. Não houve palavras de ordem ou coisa parecida, mas cantos, como a cantiga folclórica “Peixe vivo”, que significava uma saudação a JK.
     Em 2000, a Câmara dos Deputados formou uma comissão para apurar a morte do ex-presidente, mas chegou à conclusão de que se tratou mesmo de acidente. Ainda hoje, muitos pesquisadores não estão convencidos da versão oficial. A suspeita aumentou após a revelação – no romance-reportagem O beijo da morte (2003), de Carlos Heitor Cony e Anna Lee – de que seu nome estaria na agenda da Operação Condor – articulação das ditaduras do Cone Sul, nos anos 1970, para eliminar inimigos.
Marcelo Squinca da Silva é professor da Universidade Cidade de São Paulo e da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e autor da tese “Um caso de desamor: o debate sobre a estatização do setor de energia elétrica (1956-1961)” (PUC-SP, 2009).

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Carlos Lacerda - Histórias mal contadas
Angela Moreira Domingues da Silva
     Dois episódios da vida do jornalista e político Carlos Lacerda (1914-1977) são cercados de dúvidas e indagações. O primeiro é o que ficou conhecido como o “atentado da Rua Tonelero”, em 5 de agosto de 1954, quando Lacerda foi alvejado em frente à sua residência, em Copacabana. O major-aviador Rubens Florentino Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que dava proteção ao deputado federal, morreu em decorrência do tiroteio. A versão oficial sobre a emboscada é de que ela foi perpetrada por grupos ligados ao presidente Getúlio Vargas (1882-1954), principal adversário político de Lacerda. Após instauração de Inquérito Policial Militar, as acusações recaíram sobre Alcino João do Nascimento, autor dos disparos, e Gregório Fortunato (1900-1962), chefe da guarda pessoal de Vargas, acusado de mandante do crime. O tom do inquérito, indicando o “Palácio do Catete como uma constante” na investigação dos fatos, e o suposto “amadorismo” dos envolvidos no atentado, que deixaram pistas consideradas “evidentes” sobre a autoria do crime, provocam um clima de desconfiança e questionamento sobre a versão oficial.
     O segundo episódio polêmico diz respeito à morte de Lacerda, em 21 de maio de 1977. Internado em uma clínica no Rio de Janeiro, aparentemente com uma forte gripe, ele faleceu sem um diagnóstico preciso – infecção generalizada –, não questionado na época. As suposições de que sua morte não foi natural se baseiam na ausência de causas para a infecção. Além disso, o jornalista morreu em data próxima às das mortes dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart, o que alimenta o ar de mistério que persiste.
Angela Moreira Domingues da Silva é autora da dissertação “Ditadura militar e repressão legal: a pena de morte rediviva e o caso Theodomiro Romeiro dos Santos (1969-1971)” (UFRJ, 2007).

Tancredo Neves - Múltiplas causas mortis
Douglas Attila Marcelino
     Depois de 21 anos de ditadura militar, o Brasil vivia a expectativa de ter o primeiro presidente civil. Tancredo Neves (1910-1985) fora eleito pelo Congresso Nacional e deveria tomar posse no cargo no dia 15 de março de 1985. Mas, na véspera, chegou a notícia inesperada: ele tinha sido internado num hospital de Brasília, o que desatou uma onda de boatos sobre o motivo da internação. Tiro no peito? Envenenamento? As diferentes versões vinham de todas as partes, sem que ninguém pudesse dizer ao certo onde surgiram.    O grande temor era de que o suposto atentado tivesse o objetivo de interromper o processo de redemocratização do país.
     A demora dos canais oficiais de comunicação em informar o verdadeiro estado de saúde do paciente reforçou os rumores. No dia 21 de abril, sua morte foi finalmente anunciada. A explicação oficial aponta que Tancredo foi vítima de um tumor no intestino, inicialmente diagnosticado como diverticulite. O choque da população com a notícia foi grande porque a campanha presidencial tinha feito um investimento sem precedentes na imagem do político, chegando a afirmar que sua saúde era perfeita, apesar dos 75 anos. Depois de sua vitória, a revista Manchete chegou a publicar uma conversa com o médico de Tancredo: sua saúde se devia à ingestão diária de cápsulas de magnésio. A informação fortalecia a confiança na sua saúde e chegou a aumentar o consumo daquele mineral.
     Mesmo após a morte de Tancredo, os boatos continuaram. Há, inclusive, quem acredite que ele morreu antes de 21 de abril, e que essa data teria sido escolhida para o anúncio por ser Dia de Tiradentes. Assim se poderia reforçar a associação entre a sua morte e a do inconfidente.
Douglas Attila Marcelino é autor da dissertação “Salvando a pátria da pornografia e da subversão: a censura de livros e diversões públicas nos anos 1970” (UFRJ, 2006).

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sábado, 15 de junho de 2013

Curiosidade sobre a História do Brasil

Brasil dos insetos
Ronaldo Vainfas
     Não faltam exemplos na história do Ocidente em que animais se viram tratados pela Justiça como se fossem humanos. O código espanhol de Afonso, o Sábio, datado do século XIII, previa pena de morte para todos que tivessem relações sexuais com animais - a bestialidade - acrescentando que também o animal deveria morrer para apagar a lembrança do fato. Séculos depois, a Inquisição espanhola andou inventariando cabras e vacas que alguns andaram namorando nas lides do pastoreio. Na Idade Média francesa houve o caso de uma menina de 12 anos acusada de manter relações sexuais com seu cão. O mais incrível é que o cão esteve presente ao inquérito.
     Na História do Brasil também há casos bizarros de bestialidade. Mas há outros mais interessantes, envolvendo o combate aos insetos. A cruzada contra os insetos começou cedo. Basta ler a carta do jesuíta Jerônimo Rodrigues, datada de 1561, queixando-se do "grandíssimo número" de insetos minúsculos que não se via na Europa. As pulgas eram a perdição das ceroulas e camisas, que ficavam pintadas de sangue. Chegou a contar 450 pulgas em sua cama, certa noite, "sem falar nas que fugiram". Os grilos destruíam livros e vestidos. Baratas, dizia, "não se pode crer, porque o altar, a mesa, a comida, e tudo era cheio delas". Laura de Mello e Souza nos conta algumas destas queixas no seu livro O Diabo e a Terra de Santa Cruz, convencida de que, salvo pelas praias e mata virgem, poucos viram o Brasil como paraíso. Culpa dos insetos.
     Nada, porém, supera um processo movido pelos capuchos de São Luís do Maranhão, em 1713, contra formigas que flagelavam o convento de Santo Antônio, documento que me passou o historiador Ângelo de Assis. O caso foi ao juízo eclesiástico, testemunhas foram arroladas, e houve quem as defendesse em face do vigário-geral. Antônio da Silva Duarte se apresentou como advogado das formigas, apontadas como rés no processo, embargou testemunhas, ofereceu contraditas. Boa parte das testemunhas garantiu que as rés agiram sem nenhuma malícia, por serem criaturas desprovidas de razão, "e não saberem do bem nem do mal". Alguns acrescentaram que "antes da fundação do dito convento já as rés tinham suas moradias no dito convento", de sorte que não podiam ser consideradas intrusas. O caso se arrastou até 1714 e os autos de 19 fólios ficaram inconclusos.
     O leitor haverá de perguntar que importância pode ter, para a nossa história, esta disputa entre os capuchos do Maranhão e o formigueiro gigante que molestava os frades em 1713. A bem da verdade, pouquíssima. Mas, antes de achar que o Nosso Historiador da vez escreve abrasado pelo calor carioca, desmiolado, considere que o affaire das formigas faz parte de um outro mundo e outro tempo. Mundo encantado, barroco, onde o real e o fantástico se misturavam cotidianamente. Tempo em que os diabos e os espíritos eram tão reais quanto quaisquer criaturas. A outra hipótese para o caso se inspira num sermão clássico do jesuíta Antônio Vieira que, condenando os senhores de escravos maranhenses por capturarem os índios ao arrepio da lei, disse que o Maranhão começava com a letra M porque M era a letra da mentira. Vieira era implacável.
     De todo modo, no documento em causa, as testemunhas disseram que as formigas não agiram de má-fé contra os capuchos, nem poderiam. E a cruzada contra os insetos, que os jesuítas iniciaram e os franciscanos prosseguiram, fracassou completamente. As formigas seguiram em paz e os insetos continuaram a enxamear no Brasil.

Ronaldo Vainfas é professor titular de História Moderna na Universidade Federal Fluminense e autor de Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil colonial. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

sábado, 20 de abril de 2013

Antropofagias: a amorosa tapuia e a vingativa tupi.

“Viagem à Terra do Brasil”
Jean de Léry
Capítulo XV

De como os americanos tratam os prisioneiros de guerra e das cerimônias observadas ao matá-los e devorá-los.
     Resta saber agora como são tratados os prisioneiros. Logo depois de chegarem são não somente bem alimentados, mas ainda lhes concedem mulheres (mas não maridos às prisioneiras), não hesitando os vencedores em oferecer a própria filha ou irmã em casamento. Tratam bem o prisioneiro e satisfazem-lhe todas as necessidades. Não marcam antecipadamente o dia do sacrifício; se os reconhecem como bons caçadores e pescadores e consideram as mulheres boas para tratar das roças ou apanhar ostras conservam-nos durante certo tempo; depois de os engordarem matam-nos afinal e os devoram em obediência ao seguinte cerimonial.
     Todas as aldeias circunvizinhas são avisadas do dia da execução e breve começam a chegar de todos os lados homens, mulheres e meninos. Dançam então o cauinam. O próprio prisioneiro, apesar de não ignorar que a assembleia se reúne para seu sacrifício dentro de poucas horas, longe de mostrar-se pesaroso enfeita-se todo de penas e salta e bebe como um dos mais alegres convivas. Depois de ter comido e cantado durante seis ou sete horas com os outros, é ele agarrado por dois ou três dos personagens mais importantes do bando e sem que oponha a menor resistência, é amarrado pela cintura com cordas de algodão ou de fibra de uma árvore a que chamam vyire, semelhante à nossa tília. Deixam-lhe os braços livres e o fazem passear assim pela aldeia, em procissão, durante alguns momentos.
     Não se imagine, porém que o prisioneiro com isso se deprima. Ao contrário, com audácia e incrível segurança jacta-se das suas proezas passadas e diz aos que o mantém amarrado: "Também eu, valente que sou já amarrei e matei vossos maiores".
     Cada vez mais feroz volta-se para ambos os lados exclamando para uns e outros: "Comi teu pai, matei e moqueei teus irmãos; comi tantos homens e mulheres, filhos de vós outros tupinambás, a que capturei na guerra, que nem posso dizer-lhes os nomes; e ficai certos de que para vingar a minha morte os maracajás da nação a que pertenço hão de comer ainda tantos de vós quantos possam agarrar".
     Em seguida, após ter estado assim exposto às vistas de todos, os dois selvagens que o conservam amarrado afastam-se dele umas três braças de ambos os lados e esticam fortemente as cordas de modo a que o prisioneiro fique imobilizado. Trazem-lhe então pedras e cacos de potes; e os dois guardas, receosos de serem feridos, protegem-se com rodelas de couro de tapiruçu e dizem-lhe: "Vinga-te, antes de morreres". Começa o prisioneiro a atirar projéteis com todas as suas forças contra os que ali se reúnem em torno dele, algumas vezes em número de três ou quatro mil. E é desnecessário dizer que não escolhe suas vítimas.
     Com efeito, estando eu numa aldeia chamada Sariguá, vi um prisioneiro lançar uma pedra com tanta violência na perna de uma mulher que supus havê-la quebrado. Esgotadas as provisões de pedras e cacos e de tudo que o prisioneiro pode apanhar junto de si, o guerreiro designado para dar o golpe, e que permanecera longe da festa, sai de sua casa, ricamente enfeitado com lindas plumas, barrete e outros adornos; e armado de um enorme tacape aproxima-se do prisioneiro e lhe dirige as seguintes palavras: "Não és tu da nação dos maracajás, que é nossa inimiga? Não tens morto e devorado aos nossos pais e amigos?"
     O prisioneiro mais altivo do que nunca, responde no seu idioma (maracajás e tupiniquins se entendem reciprocamente) "pa, che tan tan ajucá atupavé"- "Sim, sou muito valente e realmente matei e comi muitos".
     Em seguida, para excitar ainda mais a indignação do inimigo, leva as mãos à cabeça e exclama: "Eu não estou a fingir, fui com efeito valente e assaltei e venci os vossos pais e comi". E assim continua até que seu adversário, prestes a matá-lo, exclama: "Agora estás em nosso poder e serás morto por mim e moqueado e devorado por todos". [...] a vítima ainda responde: "Meus parentes me vingarão".
     Embora os selvagens temam a morte natural, os prisioneiros julgam-se felizes por morrerem assim publicamente no meio de seus inimigos, não revelando nunca o mínimo pesar [...].
      [...]. O selvagem encarregado da execução levanta então o tacape com ambas as mãos e desfecha tal pancada na cabeça do pobre prisioneiro que ele cai redondamente morto sem sequer mover braço ou perna. [...] O executor costuma bater com tal destreza na testa ou na nuca que não se faz necessário repetir o golpe e nem a vítima perde muito sangue.
     Imediatamente depois de morto o prisioneiro, a mulher (já disse que a concedem a alguns) coloca-se junto do cadáver e levanta curto pranto; [...] lamenta-se e derrama fingidas lágrimas sobre o marido...
     Todas as partes do corpo, inclusive as tripas depois de bem lavadas, são colocadas no moquém, em torno do qual as mulheres, principalmente as gulosas velhas, se reúnem para recolher a gordura que escorre pelas varas dessas grandes e altas grelhas de madeira; e exortando os homens a procederem de modo que elas tenham sempre tais petiscos, lambem os dedos e dizem: iguatu, o que quer dizer “está muito bom”.

LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

Vingança e frenesi no banquete tupi
Ronald Raminelli

     Depois de morto, a carne era dividida entre músculos e entranhas. As partes duras eram moqueadas (secadas) e consumidas pelos homens; mulheres e crianças ingeriam as partes internas cozidas em forma de mingau. O matador, sempre masculino, não participava do banquete, entrava em resguardo e trocava de nome. Com a colonização, esse rito foi paulatinamente abandonado, provocando, segundo Eduardo Viveiros de Castro, a perda de uma dimensão essencial da sociedade tupinambá: a identidade. O antropólogo ainda comenta que a repressão ao canibalismo não foi o único motivo para o abandono. Os europeus passaram a ocupar o lugar e as funções dos inimigos, alterando a lógica do ritual.
     As mulheres exerciam importantes tarefas durante as festas canibalescas. Alemão quinhentista preso pelos tupinambás, Hans Staden escreveu que as índias pintavam os prisioneiros ainda vivos e depois exibiam-nos mortos, percorrendo a aldeia com suas pernas e braços retalhados. O sacrifício provocava nas mulheres muito prazer e ansiedade, queriam logo provar da carne do guerreiro inimigo. Para demonstrar tais sentimentos, elas gesticulavam, mordiam as mãos e braços, se contorciam, cantavam e bailavam, enquanto as demais espetavam com paus as partes decepadas sob a fogueira.
     O padre José de Anchieta, jesuíta do século XVI, descreveu como as nativas untavam mãos, caras e bocas com as gorduras desprendidas do "assado", colhiam o sangue com as mãos e o lambiam. Para os religiosos da época, por certo com uma visão depreciativa da mulher; a ingestão de carne humana deixava marcas profundas na fisionomia das mulheres canibais que logo envelheciam. As rugas e os odores malcheirosos tinham origem nesses "costumes abomináveis". A decrepitude e a decadência físicas das velhas revelavam o "terrível hábito" de comer carne e roer ossos humanos. Seios caídos, rostos enrugados, corpos em franco processo de degeneração somavam-se a dentes mais do que deteriorados. A alma pecadora provocava a degradação do corpo enquanto os santos, quando mortos, exalavam odores de rosas. Esse preconceito, por certo, dificulta nossa compreensão da real participação das mulheres no canibalismo, embora nos permita entender a cultura europeia na época da conquista da América.

Canibalismo em nome do amor
Mães devoravam filhos mortos, viúvas comiam os maridos, filhos banqueteavam-se com os pais. Nem sempre a antropofagia originava-se da luta entre rivais, poderia ser cerimônia fúnebre.

     Segundo os cronistas do século XVII, ao nascer uma criança, cortava-se o cordão umbilical com um caco afiado e depois cozinhava-o para que a mãe o comesse juntamente com o pelico (placenta). Caso uma mulher abortasse, imediatamente o feto era devorado, pois alegavam que não poderiam dar-lhe melhor túmulo. Por certo, as entranhas de onde veio - o corpo da mãe - eram preferíveis a cova na terra. Depois da morte de uma criança, os índios choravam a perda, em seguida, cortavam a cabeça e retalhavam o corpo, inserindo tudo em uma panela. Muitos parentes eram convidados para o evento e juntos comiam a falecida. Ao termino da refeição, punham -se a gritar e a chorar.
     Aos sacerdotes cabia talhar, membro a membro, os mortos, fossem eles abatidos nas guerras ou acometidos por morte natural. Enquanto isso, as velhas acendiam a fogueira para assar os membras e todos juntos celebravam o "enterro" com lagrimas e lamentações. As mulheres comiam as carnes do esposo, as raspavam até os ossos, não em sinal de inimizade, mas de afeto e fidelidade. Os cadáveres dos grandes chefes eram consumidos pelos demais chefes. Não ingeriam todo o corpo e guardavam cuidadosamente os ossos ate a celebração do festim solene seguinte, pois somente em rituais era possível a antropofagia. Na ocasião, os ossos tornavam-se carvão, raspados em seguida para serem reduzidos a pó e dissolvidos em agua. O mesmo se fazia com os cabelos do defunto. Os parentes bebiam essa mistura e não voltavam a suas danças e cantos depois de consumirem todos os restos do cadáver.
     Os cronistas procuram enfatizar as fronteiras entre a antropofagia amorosa tapuia e a vingativa tupi. O dado permite entender a tela de Albert Eckhout de modo diverso. A índia tarairiu carrega consigo partes do corpo humano e próxima à nativa encontrasse uma cena de guerra. Em principio, a mão e o pé decepados, em poder da mulher, pertenceriam ao inimigo morto no combate. Os relatos sabre a antropofagia tapuia permitem, porem, traçar outras relações. Assim, as partes do corpo pertenciam a um parente: irmão, marido ou filho da índia. O campo de guerra é o local de morte de um guerreiro da tribo e a índia carrega seus restos mortais para serem consumidos na aldeia em sinal de afeto e fidelidade.

RONALD RAMINELLI é professor de História Moderna, História da América e do Brasil Colonial na Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de Imagens da colonização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

Saiba Mais - Filmes
Como Era Gostoso o Meu francês
No Brasil de 1594, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes, no caso saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás e se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado e decide fugir. A índia se recusa a segui-lo e após a batalha com a tribo inimiga, o chefe Cunhambebe marca a data da execução: o ritual antropofágico será parte das comemorações pela vitória.
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 1971
Áudio: Português / Tupi / Francês
Duração: 84 minutos


Hans Staden
Hans Staden (Carlos Evelyn) é um imigrante alemão que naufragou no litoral de Santa Catarina (1550). Dois anos depois, chegou a São Vicente, concentração da colônia portuguesa no Brasil, onde trabalhou por mais dois anos, visando juntar dinheiro para retornar à Europa. Neste tempo em que viveu em São Vicente, Staden passou a ter um escravo da tribo Carijó, que o ajudava. Preocupado com seu sumiço repentino após ter ido pescar, Staden parte em sua procura, sendo encontrado por sete índios Tupinambás, inimigos dos portugueses, que o prendem no intuito de matá-lo e devorá-lo. É a partir de então que passa a ter que arranjar meios para convencer os índios a não devorá-lo e permanecer vivo. O filme aborda os primórdios da colonização, envolvendo o povo indígena Tupinambá, que então habitava o litoral brasileiro. Conta a história do alemão capturado pelos Tupinambás da Aldeia de Ubatuba, litoral de São Paulo, onde seria devorado em ritual antropofágico. O projeto do filme começou em janeiro de 1996. Da preparação para as filmagens constaram, entre outras coisas, os ensaios com os atores para o aprendizado da língua Tupi e a construção de uma réplica de Aldeia Tupinambá do século XVI em Ubatuba. Também foram rodadas cenas no Forte Bertioga, em trilhas, rios, matas, em canoas no mar e em Lisboa, Portugal, na Caravela Boa Esperança.
Direção: Luiz Alberto Pereira
Ano: 1999
Áudio: Português / Tupi / Alemão
Duração: 92 minutos

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Curiosidades sobre a História brasileira

Jeitinho brasileiro
Em 2003, quando o presidente Lula visitou a Líbia, equipe de produção da cerimônia improvisou uma bandeira do Brasil. Bastou agulha, linha, pincéis e tinta.
     Em 2003, o então presidente Lula foi recebido com pompas em Trípoli, capital da Líbia para um encontro com Muammar Kadaffi. Uma grande multidão se acotovelava nas ruas, próximo ao Palácio Bab-Aziziya, onde foi preparada uma cerimônia. Naquela altura, alguns jornalistas brasileiros que cobriam a visita reclamaram por não terem conseguido registrar o momento. Alguns afirmaram que milhares de pessoas obstruíram em ânsia para assistir ao encontro dos líderes obstruíram o caminho, mas garantiram que houve uma salva de palmas orquestrada em homenagem ao Chefe de Estado latinoamericano.
     No meio da confusão, um detalhe roubou a atenção de todo mundo. Sem contar com bandeiras brasileiras, o cerimonial local improvisou algumas com pincel e costuras, e ainda se deu ao trabalho de escrever Ordem e Progresso. Ou pelo menos tentaram.
Praia, sol e lata
     Dizem que o Sudeste Asiático tem as mudas de maconha mais puras do mundo. E em fins de 1987, o boato foi posto à prova, quando a tripulação do navio Solana Star, que estava ancorado na Baía de Guanabara, ouviu, não se sabe como, a informação de que estava prestes a ser interceptado pela Polícia Federal a pedido da Drug Enforcement Agency (DEA) dos Estados Unidos. Motivo: a embarcação levava uma carga de quase 20 toneladas da droga, vinda de Cingapura.
      O medo e a cautela fizeram seus tripulantes atirar toda a cannabis, guardada cuidadosamente em latas de leite em pó, na Baía de Guanabara. Por força das correntes marítimas, milhares dessas latinhas chegaram à costa brasileira, na faixa litorânea que vai de Santa Catarina ao Rio de Janeiro. Estava inaugurado o infame “Verão da Lata”, quando a juventude dourada dos anos 1980 teve, digamos, um incentivo a mais para ir à praia. O impacto do acontecimento foi tão grande que ele rendeu camisetas, marchinha, letras de música e a gíria “da lata”, que significaria “de qualidade”.
Quem? O barão?
   Reconhecidamente uma das grandes figuras da diplomacia e da política do Brasil, Rio Branco teve uma formação exemplar. Ninguém imagina, entretanto, que, ao entrar na Faculdade de Direito de São Paulo, em 1862, teve que gritar com outros calouros, no trote que recebeu dos veteranos: “Juro e prometo por esta zorra que hei de ser burro até que morra!”.
     Olhando hoje para o desenho do mapa do Brasil – resultado da habilidade diplomática de Rio Branco –, vemos que nem sempre as profecias e juras se concretizam.