"O QUE NÓS QUEREMOS DE FATO É QUE AS IDEIAS VOLTEM A SER PERIGOSAS"
1968, lido nos muros de Paris
"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche
Série de
reportagens (Univesp TV) sobre o processo de redemocratização após 21 anos da
ditadura militar iniciada com o golpe de 1964.
“1985
- 30 anos de democracia”, volta às vésperas da Nova República para analisar o
atual e maior período democrático brasileiro. Com a ajuda dos pesquisadores
Marcos Napolitano (História – USP), Brasílio Sallum e Cícero Araújo (Ciência
Política – USP), a Univesp TV faz um apanhado histórico crítico desde o
movimento das Diretas já (1984), a morte do presidente Tancredo Neves (1985),
passando pelos cinco anos do governo José Sarney (1985-1990) e a elaboração da
Constituição (1988).
Diretas já
Na primeira reportagem da
série especial "1985 - 30 anos de democracia", os pesquisadores
Brasílio Sallum Jr., Cícero Araújo e Marcos Napolitano, professores da
Universidade de São Paulo, analisam o movimento que ficou conhecido como
Diretas já. Em 1984, João Figueiredo, último general-presidente, abdicou de
indicar o seu sucessor. O fortalecimento do PMDB, a mudança de posicionamento
dos liberais e a pressão popular para escolher o presidente da República
favoreceram a construção de uma aliança civil vitoriosa que elegeu Tancredo
Neves no colégio eleitoral, dando fim a 21 anos de ditadura militar.
Governo
Sarney - Parte 1
A segunda reportagem da
série especial "1985 - 30 anos de democracia" trata do governo do
presidente José Sarney (1985-1990). Após a morte de Tancredo Neves antes da
posse, o vice assumiu a presidência da República com uma equipe que
desconhecia. Enfrentou oposição política, uma grave crise econômica e convocou
uma Assembleia Nacional Constituinte para redigir uma nova carta magna para o
Brasil. Heterogênea e difícil, a gestão Sarney teve o mérito de assegurar a
transição da ditadura militar para a democracia. Participam da reportagem os
pesquisadores Brasílio Sallum Júnior e Cícero Araújo (Ciência Política - USP),
o ex-deputado constituinte Nelson Jobim e os ex-ministros Luiz Carlos
Bresser-Pereira e Ronaldo Costa Couto.
Governo
Sarney - Parte 2
A terceira reportagem da
série especial ‘1985 – 30 anos de democracia’ trata da etapa final do governo
José Sarney (1985-1990). Para tentar deter uma inflação galopante, o presidente
lançou o Plano Cruzado, elaborado pela equipe liderada pelo ministro João
Sayad. No princípio um sucesso, o Cruzado naufragou depois de seis meses, com
crise de abastecimento e a volta da inflação por meio de pagamento de ágio
sobre os produtos. Mais dois ministros da Fazenda tentaram contornar a crise e
sob a gestão do último, Mailson da Nóbrega, a moratória brasileira foi
solucionada. Sarney assinou a nova Constituição e passou a faixa presidencial a
Fernando Collor de Mello, primeiro presidente escolhido em eleições diretas.
Participam da reportagem os pesquisadores Brasílio Sallum Júnior e Cícero
Araújo (Ciência Política – USP), o ex-deputado constituinte Nelson Jobim e os
ex-ministros Luiz Carlos Bresser-Pereira, João Sayad e Ronaldo Costa Couto.
A Constituinte
- Parte 1
A quarta reportagem da
série especial "1985 - 30 anos de democracia" trata da Assembleia Nacional
Constituinte, que atuou entre 1987 e 1988 e definiu uma Constituição para o
Brasil. Considerada cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães, a carta foi
elaborada democraticamente com discussão e conflito. Nesta primeira parte, o
início dos trabalhos constituintes e a definição do Regimento Interno. A
participação dos partidos e o perfil dos parlamentares. Muitos deles se
tornaram políticos de projeção nacional, como os ex-presidentes Fernando
Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
A Constituinte
– Parte 2
A quinta reportagem da
série especial "1985 - 30 anos de democracia" trata da Assembleia
Nacional Constituinte, que atuou entre 1987 e 1988 e definiu uma nova
Constituição para o Brasil. Considerada cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães,
a carta foi elaborada democraticamente com discussão e conflito. Nesta segunda
parte, a ação do grupo chamado Centrão para mudar o regimento interno e os
trabalhos das comissões de sistematização e redação. A vitória dos governistas
no sistema presidencialista de governo e nos cinco anos de mandato de Sarney. A
cisão do PMDB e a criação do PSDB. A votação e as conquistas da Constituição, o
documento que melhor representa a nossa democracia.
Ele vigia os seus passos, mexe com sua cabeça, transforma você em
cobaia de experiências. Quando estamos nele, ficamos mais impulsivos, mais
narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os sentimentos dos outros.
E, de quebra, mais infelizes.
Super
Interessante/Junho 2015
O Facebook é, de longe, a maior rede da história da humanidade. Nunca
existiu, antes, um lugar onde 1,4 bilhão de pessoas se reunissem - e 936
milhões entrassem todo santo dia (só no Brasil, 59 milhões). Metade de todas as
pessoas com acesso à internet, no mundo, entra no Facebook pelo menos uma vez
por mês. Ele tem mais adeptos do que a maior das religiões (a católica, com 1,2
bilhão de fiéis), e mais usuários do que a internet inteira tinha dez anos
atrás. Em suma: é o meio de comunicação mais poderoso do nosso tempo, e tem
mais alcance do que qualquer coisa que já tenha existido. A maior parte das
pessoas o adora, não consegue conceber a vida sem ele. Também pudera: o
Facebook é ótimo. Nos aproxima dos nossos amigos, ajuda a conhecer gente nova e
acompanhar o que está acontecendo nos nossos grupos sociais. Mas essa história
também tem um lado ruim. Novos estudos estão mostrando que o uso frequente do
Facebook produz alterações físicas no cérebro. Quando estamos nele, ficamos
mais impulsivos, mais narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os
sentimentos dos outros. E, de quebra, mais infelizes.
No ano passado, pesquisadores das
universidades de Michigan e de Leuven (Bélgica) recrutaram 82 usuários do
Facebook. Durante duas semanas, eles enviaram perguntas via SMS, cinco vezes
por dia, para os voluntários. As perguntas eram "como você está se
sentindo agora?", "como você avalia a sua vida?" e "quanto
tempo você ficou no Facebook hoje?". O estudo mostrou uma relação direta:
quanto mais tempo a pessoa passava na rede social, mais infeliz ficava. Os cientistas
não sabem explicar o porquê, mas uma de suas hipóteses é a chamada inveja
subliminar, que surge sem que a gente perceba conscientemente. Já deve ter
acontecido com você. Sabe quando você está no trabalho, e dois ou três amigos
postam fotos de viagem? Você tem a sensação de que todo mundo está de férias,
ou que seus amigos viajam muito mais do que você. E fica se sentindo um
fracassado. "Como as pessoas tendem a mostrar só as coisas boas no
Facebook, achamos que aquilo reflete a totalidade da vida delas", diz o
psiquiatra Daniel Spritzer, mestre pela UFRGS e coordenador do Grupo de Estudos
sobre Adições Tecnológicas. "A pessoa não vê o quanto aquele amigo
trabalhou para conseguir tirar as férias", diz Spritzer.
E a vida em rede pode ter um efeito
psicológico ainda mais assustador. Durante 30 anos, pesquisadores da
Universidade de Michigan aplicaram testes de personalidade a 14 mil
universitários. Cada voluntário tinha de dizer se concordava ou discordava de
afirmações como: "eu tento entender como meus amigos se sentem" e
"eu geralmente me preocupo com pessoas menos favorecidas do que eu".
São perguntas criadas para medir o grau de empatia de uma pessoa - o quanto ela
se importa com as outras. Em 2010, os cientistas publicaram os resultados. Os
jovens da geração atual, que cresceram usando a internet, têm 40% menos empatia
que os jovens de três décadas atrás. E essa tendência fica mais intensa a
partir dos anos 2000, período que coincide com a ascensão das redes sociais. A
explicação disso, segundo o estudo, é que na vida online fica fácil ignorar as
pessoas quando não queremos ouvir seus problemas ou críticas - e, com o tempo,
esse comportamento indiferente acaba sendo adotado também na vida offline.
Num meio competitivo, onde precisamos mostrar
como estamos felizes o tempo todo, há pouco incentivo para diminuir o ritmo e
prestar atenção em alguém que precisa de ajuda. Há muito espaço, por outro
lado, para o egocentrismo. Em 2012, um estudo da Universidade de Illinois com
292 voluntários concluiu que, quanto mais amigos no Facebook uma pessoa tem, e
maior a frequência com que ela posta, mais narcisista tende a ser - e maior a
chance de fazer comentários agressivos. Esse último resultado é bem
surpreendente, porque é contraintuitivo. Ora, uma pessoa que tem muitos amigos
supostamente os conquistou adotando comportamentos positivos, como modéstia e
empatia. O estudo mostra que, no Facebook, tende a ser o contrário.
Junte a indiferença com o narcisismo e a competição e você chegará ao
terceiro elemento negativo das redes sociais: o ódio. Em tese, as redes sociais
deveriam nos aproximar uns dos outros. Afinal, usamos nossos nomes reais,
postamos fotos verdadeiras e sabemos se uma pessoa tem amigos em comum conosco.
Como explicar, então, que pessoas que jamais brigariam na vida real - sobre
futebol, sobre política, sobre qualquer assunto - fiquem se xingando no Face? E
que isso seja tão comum?
Não existe uma resposta direta. Mas
existem algumas pistas muito boas. Em 2013, pesquisadores da Universidade
Benihang, na China, analisaram 70 milhões de posts do Weibo, rede social
chinesa que mistura características do Twitter e do Facebook. Usando um
software que lia palavras-chave, eles classificaram cada post como alegre,
triste ou irritado - e viram como ele se propagava pela rede. As mensagens
irritadas eram as que se espalhavam mais rápido, e chegavam mais longe: eram
replicadas por pessoas a até três níveis de separação do autor (o amigo do
amigo do amigo repetia o post).
"Quando a pessoa está online, há uma
desinibição. Ela fica mais solta", afirma o psicoterapeuta Cristiano
Nabuco, do grupo de pesquisas em dependência tecnológica da USP. Isso acontece,
segundo ele, por causa da distância física. Como não estão frente a frente, as
pessoas se sentem mais à vontade para trocar acusações e insultos. E no
Facebook basta um clique para curtir ou replicar o que outra pessoa disse -
inclusive insultos. "Isso potencializa a agressão, porque eu posso fazer
uma ofensa e dez pessoas vão lá e me ajudam na ofensa, vira um grupo ofendendo
uma pessoa", explica Ana Luiza Mano, do Núcleo de Pesquisa de Psicologia
em Informática da PUC-SP.
E isso pode ter consequências profundas.
Segundo o Mapa da Violência 2014, um estudo elaborado pela Faculdade Latino-Americana
de Ciências Sociais, o número de suicídios entre adolescentes brasileiros
cresceu 36,7% entre 2000 e 2012 (o dobro do aumento nas demais faixas etárias).
O estudo não acusa as redes sociais. Mas o período em que os suicídios crescem
coincide com a ascensão delas.
Se você se sentir mal por causa do
Facebook, basta se desconectar ou colocar o celular no bolso, certo? Não é tão
fácil assim. Porque as redes sociais mexem com o núcleo accumbens, uma região
que fica no meio do cérebro e regula o chamado "sistema de
recompensa". Quando fazemos alguma coisa agradável - comemos algo gostoso
e calórico ou fazemos sexo, por exemplo -, esse sistema libera dopamina, um
neurotransmissor que nos dá prazer. É a forma de o cérebro nos dizer que aquilo
(comer bem ou se reproduzir) é vital para nossa sobrevivência, e, por isso,
devemos repetir sempre que possível. Trata-se de um mecanismo ancestral, que se
desenvolveu muito antes da internet. Em 2013, um estudo da Universidade Livre
de Berlim descobriu que ganhar likes no Face ativa esse mesmo sistema. Cada
"curtida" que recebemos provoca uma liberação de dopamina, como as
que temos ao comer e fazer sexo. "A sensibilidade do núcleo accumbens leva
a mudanças de comportamento no mundo real", explica, no estudo, o
neurocientista Dar Meshi. Por isso o Facebook é tão irresistível.
Só que abusar dele é perigoso. Pode
literalmente deformar o cérebro. Em 2012, um grupo de cientistas chineses
analisou 17 adolescentes viciados em internet - que ficavam conectados pelo
menos 5h30 por dia e tinham problemas na vida social por causa disso. As
imagens dos exames revelaram anormalidades no córtex orbitofrontal, região que
nos ajuda a controlar impulsos, e no corpo caloso, que conecta os dois
hemisférios do cérebro. Segundo o estudo, os danos eram similares aos
encontrados em viciados em álcool e cocaína.
As redes sociais estão mexendo conosco.
Inclusive de propósito - como quando o Facebook realizou uma experiência
secreta e polêmica, em que as cobaias foram os próprios usuários.
Cobaias
involuntárias
Em junho de 2014, surgiu um artigo científico de arrepiar. Assinado por
um cientista da Universidade de Cornell e por pesquisadores do Facebook, ele
contava como o site manipulou a timeline de 689.003 pessoas, ao longo de uma
semana, sem que elas soubessem. O objetivo era saber se, mexendo no conteúdo da
timeline, o Facebook conseguiria alterar o humor dos usuários. A resposta foi
sim. Quando o Facebook omitia posts alegres, as pessoas ficavam mais tristes - usavam
mais palavras negativas em suas mensagens. E vice-versa. A conclusão do estudo
é clara: "As mensagens online influenciam nossas emoções e
comportamento". Assim que ele foi publicado, o Facebook recebeu uma
saraivada de críticas. Algumas diziam que o estudo violou a ética científica
(porque não se pode transformar alguém em cobaia sem o consentimento da
pessoa), outras que a experiência foi simplesmente cruel. O Facebook alegou
que, quando criaram seus perfis no site e aceitaram os 'Termos de Uso", as
pessoas haviam automaticamente consentido em participar do estudo. Mas pediu
desculpas pela experiência.
O Facebook continua manipulando o que você
vê na sua timeline. Isso é definido por um algoritmo que se chamava EdgeRank,
foi criado pelo próprio Face e originalmente seguia três critérios: afinidade
(o quanto você interage com o autor daquele post), engajamento (número de
likes, comentários e compartilhamentos que o post teve) e tempo (notícia velha
não tem vez). Hoje, o algoritmo é muito mais complexo - segundo o Facebook,
calcula mais de 100 mil variáveis, ajustadas de acordo com cada usuário. A
empresa não diz quais são, inclusive por um segredo comercial - do contrário, o
algoritmo poderia ser copiado por outras redes sociais. Mas há quem diga que o
sigilo também é uma maneira de adulterar o conteúdo distribuído aos usuários
para lucrar em cima disso. "O Facebook está na fronteira do eticamente
questionável. As vezes ele é ético, às vezes é antiético. Ele te dá benefícios,
mas cobra por isso", diz Raquel Recuero, professora de comunicação da
Universidade Católica de Pelotas e pesquisadora de redes sociais.
É comum ver usuários do Facebook
desconfiados com as políticas da empresa, ou temerosos de que ela tenha
informações demais. Se você é um deles, há uma boa maneira de buscar respostas:
solicitar o download de todas as informações que o Facebook coletou sobre você.
Eu fiz isso, é fácil. Recebi um pacote de arquivos que totalizavam 28
megabytes. Todas as fotos e vídeos que eu publiquei na rede estavam lá. Todos
os meus chats, todas as cutucadas que eu recebi (uma única, em 5 de setembro de
2014, de uma pessoa que eu não conheço - fiquei chateado), todos os eventos
para os quais fui convidado, incluindo os que eu ignorei. Se eu tivesse um post
privado (não publicado), estaria lá também. Posso ver todas as atividades do
meu mural e até coisas que fiz em outros serviços. Posso ver as músicas que
ouvi no Radio, em que dia, hora e ordem, pois minha conta nesse serviço de
streaming está conectada ao Facebook.
O prontuário tem muita coisa. Mas não tem
uma coisa extremamente importante: a lista com os sites que eu visitei. Porque,
sim, o Facebook sabe por onde eu andei na internet. Sabe quando você entra num
site, qualquer um, e ele tem um botãozinho que permite dar like em alguma
coisa? Esse botão é uma conveniência para você, e um mecanismo de monitoramento
para o Facebook: quando você entra naquela página, ele fica sabendo (mesmo se
você não apertar o botão de like). Esse sistema serve para que o Facebook
mostre anúncios relacionados às coisas que você pensa em comprar. Se você entra
numa loja virtual e procura uma geladeira, por exemplo, essa informação é
passada para o Facebook – que passa a exibir anúncios de geladeiras. "O
Facebook poderia tomar ações mais fortes para permitir que as pessoas tivessem
mais privacidade. Mas isso vai contra o modelo de negócio dele", diz
Recuero. O mecanismo está presente em grande parte da internet, inclusive em
sites que nada têm a ver com comércio eletrônico, e permite que o Face grave os
seus passos pela web, silenciosa e ininterruptamente. Ele não é o único: o
Google também faz algo do tipo. Um monitoramento que parece saído do clássico
1984, o romance distópico de George Orwell.
O sistema funciona graças aos cookies,
pequenos arquivos de texto que são colocados no seu computador ou celular e o
identificam enquanto você navega na internet. Na Europa, a lei determina que o
usuário tenha de aprovar cada um dos cookies depositados no seu computador. Mas
um relatório da Comissão de Privacidade da Bélgica, divulgado em março,
concluiu que o Facebook está violando a lei, plantando cookies nos computadores
das pessoas sem a permissão delas. Segundo o relatório, ele usa cookies para
monitorar usuários que não estão logados na sua rede - e até gente que jamais
teve uma conta de Facebook. A empresa negou a prática e disse que o relatório
tem erros.
O mergulho nos meus dados pessoais ficou
entre o fascinante e o perturbador. O mais esquisito é que concordei em dar todo
esse acesso ao Facebook. "Ao clicar em Abrir uma conta, você concorda com
nossos Termos, incluindo nosso Uso de Cookies", diz o texto. Quase ninguém
o lê: apenas 7% dos usuários, segundo uma pesquisa de 2011. No caso do
Facebook, o documento oficial tem mais de 23 mil caracteres - mais do que esta
reportagem -, e passa de 80 mil somando os subitens. Ou seja, é dificílimo de
ler. Isso não é exclusividade do Facebook. Os contratos que você
"assina" ao se inscrever nos serviços online sempre são longos e tortuosos.
Talvez porque não existam para serem lidos - mas para que as empresas tenham
poderes enormes sobre você. E porque, mesmo sabendo disso, e de tudo o que o
Facebook faz, você dificilmente vai parar de usá-lo. Eu não vou.
A
SUPER entrou em contato 11 vezes com o Facebook, entre os dias 16 e 30 de
abril, solicitando que concedesse uma entrevista ou respondesse por escrito às
questões discutidas nesta reportagem. A empresa preferiu não se manifestar.
Fonte:Super Interessante – Edição 348 -
Junho 2015
“Olimpíadas vencem a guerra dos sexos”,
anunciou o Jornal dos Sports no dia 30 de outubro de 1968. O tom da
manchete reflete a empolgação em torno de uma novidade implantada no megaevento
disputado na Cidade do México: o exame científico para confirmar o sexo das
atletas.
O texto da notícia parecia imparcial: “A
presença de indivíduos cujo sexo não pode ser perfeitamente definido nas provas
femininas das Olimpíadas está completamente banida e a prova é que muitos dos
maiores atletas que o mundo já viu ou não chegam ao México ou, lá chegados, se
negaram a submeter-se às provas para comprovação de sexo – disse ontem na
redação do JS o Dr. Aníbal Silva e Costa, presidente da Sociedade Portuguesa de
Medicina Esportiva. 'A obrigatoriedade dos exames de sexo há muito tempo devia
constar dos regulamentos olímpicos para evitar a sobrevivência dos
hermafroditas no esporte. Sempre fui a favor dos exames porque existem mulheres
que competem em tal categoria que na realidade são homens. Com a
obrigatoriedade dos exames, alguns fenômenos esportivos como as irmãs Irina e
Tâmara Press, da União Soviética, não compareceram ao México'”.
Pela primeira vez as mulheres atletas
tinham seus corpos vasculhados, sua sexualidade questionada, seu sexo
verificado cientificamente. Sob a orientação de um comitê médico, os testes de
feminilidade, também divulgados como testes de sexo, garantiam uma “carteira
rosa” às atletas consideradas aptas a competir. Reduzidas à equação XX, através
da contagem dos cromossomos, somente assim elas poderiam participar de Jogos
oficialmente organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
Nos primeiros Jogos Olímpicos da era
moderna, em 1896, as mulheres não podiam competir. Sua inserção nas competições
internacionais foi gradativa. A antiga crença na vulnerabilidade biológica e na
fragilidade inata deixava as mulheres de fora de muitos eventos desportivos. Fragilidade,
vulnerabilidade e passividade foram consideradas características totalmente
desfavoráveis à exigência de desempenho atlético. Durante todo o século XIX, na
Europa, essa ideologia da natureza feminina foi fundamentada “cientificamente”:
buscava-se provar que a mulher é fisicamente inferior ao homem, inclusive pela
capacidade de engravidar. As disciplinas requisitadas para defender tais argumentos
eram a obstetrícia, a biologia, a sociologia, a psicologia, a antropologia e a
ginecologia. Esta última consolidou a imagem da mulher como um ser submetido ao
império de seus órgãos genitais – que determinariam sua natureza nervosa,
frágil e inconstante e sua predisposição a doenças e perturbações mentais,
moldando assim suas capacidades sociais.
Alguns biólogos e médicos, como Cesare
Lombroso (1836-1909), reforçaram naquele século que o cérebro da mulher era
menor que o do homem e que o ovário e o útero exigiam muita energia e repouso
para funcionar apropriadamente. Em consequência, as meninas deveriam ser
mantidas longe de escolas e faculdades a partir do momento em que começassem a
menstruar. Sem esse tipo de precaução, seus úteros e ovários poderiam se
atrofiar e a raça humana se extinguir.
A mesma análise não se estendia às
mulheres pobres, obrigadas a trabalhar duramente e censuradas por se
reproduzirem demais. Na verdade, justamente por conseguirem trabalhar tanto e
ainda assim gerar muitos filhos, elas eram consideradas mais próximas dos
animais e menos evoluídas do que as mulheres das classes altas.
No século XIX pesquisas da craniometria ressaltaram a inferioridade das
mulheres devido ao tamanho da estrutura óssea, incluindo quadril. Com os avanços
das mulheres nos esportes, isto perde a importância e a força. Foi nas décadas
de 1960 e 1970 – quando os movimentos feministas aumentaram – que as pesquisas
sobre diferenças sexuais voltaram a ganhar força. Os sociobiologistas tentavam
agora provar que os comportamentos sociais constituem características humanas
universais e acabam sendo transmitidas geneticamente. A agressividade e o
“instinto de caça”, por exemplo, seriam essencialmente masculinos.
Em 1968, diante da notícia de que haveria
regras taxativas contra o dopping e contra mulheres de “sexo duvidoso”,
a imprensa se mostrou complacente com as versões científicas da comprovação da
inferioridade feminina e de sua inaptidão para os esportes. Naquele momento, a
indeterminação do sexo por um exame “científico” soava como uma ameaça ao
regime social heterossexista. Ao mesmo tempo, a homossexualidade feminina
colocava em risco o regime patriarcal predominante, no qual as mulheres assumem
papéis sociais considerados hierarquicamente inferiores aos dos homens,
tornando-se consciente ou inconscientemente submissas a eles. Mulheres lésbicas
ou com gênero indeterminado eram uma ameaça ao pretenso equilíbrio social. Por
isso o teste de sexualidade das Olimpíadas do México foi tão bem recebido. “O
exame para a comprovação de sexo – masculino ou feminino – é bastante simples e
pode ser feito através de pesquisa de dois materiais: saliva ou sangue. Colhido
o material, os cromossomos são contados. Se atingir um índice X,
morfologicamente a atleta é impedida de competir entre as mulheres, já que
passa a ser considerada uma anomalia”, explicava o Jornal dos Sports.
Em uma seção especial destinada aos Jogos
Olímpicos, o Jornal do Brasil também comentou a novidade: “Sobre a
questão do controle de sexo, exigido pelo regulamento, o secretário geral
Joanes Westterohff disse que a Federação Internacional de Natação foi a única
que não respondeu oficialmente ao convite que lhe fez o presidente da comissão
médica para as nadadoras se submeterem à verificação sexual, apesar de as
nadadoras, em sua petição de inscrição, terem firmado o compromisso de se
submeterem ao controle de sexo e controle sobre o uso de drogas. O presidente
da comissão médica acrescentou que várias atletas femininas inscritas nos Jogos
já haviam aceito voluntariamente as exigências regulamentares”.
“Aceito voluntariamente as exigências” é
uma contradição, pois se é uma exigência jamais será voluntária. Além disso, o
olhar retrospectivo para aqueles acontecimentos desperta dúvidas sobre o
vínculo entre os testes e o dopping. Sobretudo pela recusa das
nadadoras, pois a natação era o esporte com mais casos de uso de substâncias
químicas para melhoria do desempenho em edições anteriores das Olimpíadas.
Talvez fosse mais fácil duvidar da “natureza do sexo” do que assumir que o dopping
era usado em grande escala – algo desaconselhável diante de uma indústria
fármaco-química em franca ascensão mundial.
Os testes de feminilidade duraram oito
edições dos Jogos Olímpicos, de 1968 até 2000. Por que duraram mais de três
décadas mesmo diante das críticas, tanto de associações e entidades médicas e
científicas como da imprensa e das próprias atletas? Essa medida e sua duração
podem ser vistas como barreira à participação feminina e como uma forma de
mascarar o fato de que o dopping assumira proporções incontroláveis com
o advento da indústria fármaco-química.
A imagem de uma mulher forte e atlética
confundia as certezas criadas pela ciência do sexo e do gênero como norma catalogável.
Vale dizer que, antes das Olimpíadas de 1968, o teste de sexo era feito da
seguinte forma: as mulheres expunham seus corpos nus a um comitê de “peritos”,
que julgavam e certificavam se sua morfologia era compatível com a ideia que
tinham de feminilidade. Como tal prática significava uma exposição pública dos
corpos das atletas e vinha ganhando críticas das entidades esportivas, o comitê
resolveu “modernizá-la”.
O parâmetro genético adotado no teste de
cromossomos indicava uma nova realidade: a política tecnológica de
monitoramento e catalogação dos corpos femininos. A “carteira rosa” simbolizava
feminilidade. Era o passaporte das mulheres para o universo idílico de um
feminino universal, naturalizado e definido por uma equipe de peritos composta
por homens.
Patrícia Lessa é professora
da Universidade Estadual de Maringá e autora do relatório de pós-doutorado “A
fabricação dos tecno-bio-corpos e a produção do sexismo na linguagem”, (UFF,
2010).
Saiba mais - bibliografia
DEVIDE, Fabiano Pries. Gênero
e mulheres no esporte: história das mulheres nos jogos olímpicos modernos.
Ijuí: Unijui, 2005.
VOTRE. Sebastião (org.). Gênero e atividade física. Rio de Janeiro:
Mauad/Faperj, 2011.
Saiba mais - vídeo
JC Debate sobre Violência Obstétrica - 06/03/2014
Você já ouviu falar em
violência obstétrica? Milhares de brasileiras são humilhadas, desrespeitadas e
perdem o direito de escolher a melhor forma que gostariam de dar a luz.
Mesmo sob censura, deu no jornal: sete
homens presos no alto da serra do Caparaó portando armamentos e manifestos
contra o governo. Era abril de 1967, e foi a primeira vez, desde o golpe
civil-militar, que um movimento armado ganhou ampla repercussão na imprensa.
O grupo preso era formado por militares de
baixa patente que haviam participado de movimentos reivindicatórios antes de
1964. Inicialmente, o governo procurou minimizar a importância dos
acontecimentos, afirmando que a prisão “não afeta a segurança nacional nem
revela um caráter perigoso” e que o “Exército considera ridículo que apenas
oito façam guerrilha”, como registra o Jornal do Brasil nos
dias 4 e 5 de abril daquele ano. Dias depois, começaram a surgir informações
contrárias na mesma publicação. Declarações como a de que o Exército “está aos
poucos fechando o cerco sobre os possíveis guerrilheiros” e que eles “foram
vistos armados de metralhadoras, entre São João da Pedra Menina, na divisa dos
estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro” aparecem na edição do
dia 8 no JB.
O fato de aparecerem notícias de que havia
um grupo armado em luta contra o regime, ainda que não se soubesse o número de
pessoas envolvidas, representou um sopro de esperança para as diversas
correntes que aspiravam por ações efetivas contra a ditatura. Quem eram,
afinal, os guerrilheiros dos quais tanto se falava naquele abril de 1967? O que
eles queriam? Representavam eles, como estampava a revista O Cruzeiro em
15 de abril de 1967, “uma vasta organização de guerrilhas [que] está minando
aquele Estado [Minas Gerais] e, possivelmente, outras regiões do país”?
As respostas a essas indagações remetem a
períodos anteriores ao golpe, no tempo de radicalização das lutas políticas no
governo João Goulart (1961-1964). Além de ex-militares, a maior parte dos
presos pela participação na guerrilha do Caparaó tinha em comum a passagem pelo
movimento liderado por Leonel Brizola, a Cadeia da Legalidade, que garantiu a
Goulart assumir a presidência em 1961 – ainda que com os poderes restritos pela
implantação do regime parlamentarista. Eram sargentos e marinheiros que haviam
ajudado no planejamento de uma possível guerra civil envolvendo os defensores
de Goulart e os militares golpistas. Ao mesmo tempo, eles já participavam
ativamente da clandestina Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais do
Brasil (AMFN) e do Clube dos Subtenentes e Sargentos do Exército. Reivindicavam
melhorias salariais, relações respeitosas por parte dos oficiais, direito ao
casamento e ao exercício de cargos legislativos. Aproximaram-se ainda dos
setores sindicais em suas reivindicações pela criação de uma Central Geral dos
Trabalhadores, bem como de ações antiimperialistas, contrárias às empresas
multinacionais e aos Estados Unidos.
A politização dos subalternos das Forças
Armadas ganhou projeção até colocar em risco, na visão dos oficiais, a quebra
da hierarquia militar. Quando se consumou o golpe de 1º de abril de 1964,
centenas de militares foram presos ou expulsos de suas corporações. Muitos
deles, após cumprir pena nos presídios militares, foram buscar apoio de Leonel
Brizola, que estava exilado no Uruguai. Brizola procurava organizar um
movimento de oposição ao regime ditatorial e acreditava poder repetir a
experiência que havia garantido a posse de Goulart em 1961. Em Montevidéu,
uniu-se a militantes exilados de diversas tendências de esquerda, como Avelino
Capitani, Amadeu Felipe de Luz Ferreira e Jelcy Rodrigues. Nascia, sob a sua
liderança, o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), sigla que comandou a
organização da guerrilha do Caparaó.
Os militantes sofreram forte influência da
Revolução Cubana (1959), iniciada por um pequeno núcleo de combatentes
liderados por Fidel Castro e Che Guevara. Instalado a princípio na Sierra
Maestra, aos poucos o grupo expandiu suas forças até derrubar a ditadura do
general Fulgêncio Batista (1901-1973). Esse processo, então batizado de foquismo,
passou a ser apregoado pelos revolucionários cubanos como válido para toda a
América Latina. Quatro militantes do MNR haviam feito treinamento militar em
Cuba. O próprio Brizola aderiu ao carisma dos dirigentes cubanos e à estratégia
de luta armada. Dessa aproximação vieram recursos financeiros para a guerrilha
que estava sendo organizada no Brasil.
A primeira tentativa de luta armada se deu
no início de 1966, no Rio Grande do Sul, organizada pelo mesmo grupo comandado
por Brizola. Foi alugada uma casa em Porto Alegre para guardar armas e
materiais, enquanto se arregimentava o contingente de homens necessários. Três
militantes fixaram residência no local para manter a fachada de normalidade.
Dois outros foram enviados para fazer contatos no Rio de Janeiro com antigos
participantes do movimento dos sargentos e marinheiros. Ao mesmo tempo, membros
do MNR arregimentavam militares de quartéis da própria região porto-alegrense,
entre os que haviam participado do movimento legalista de 1961. Os planos foram
descobertos pela polícia depois da prisão de um militante.
O plano de guerrilha transferiu-se, então,
para a serra do Caparaó, por sua localização estratégica entre Minas Gerais,
Espírito Santo e Rio de Janeiro. Com apoio de Brizola, militantes do MNR
começaram a chegar à região em novembro de 1966, instalando-se como criadores
de cabra em um sítio da família de um deles. Quando o contingente de recrutados
aumentou, subiram para o pico da serra para não serem vistos pela população. Os
primeiros meses foram utilizados para transportar e estocar armas e alimentos.
O grupo possuía fuzis, metralhadoras, dinamite e munição, ainda que não fossem
equipamentos modernos.
Não tinham a pretensão de derrubar a
ditadura militar sozinhos. Baseando-se na teoria do foco guerrilheiro,
acreditavam que conseguiriam resistir ao cerco do Exército até a eclosão de
outros movimentos de guerrilha e a intensificação da oposição nas cidades.
Antes mesmo do início da luta, porém, diversos problemas já haviam derrotado
esse projeto de luta armada. A começar pelo clima, com muita chuva, frio e
umidade durante quase todo o ano. Havia também o problema do estoque de comida,
que foi infectado por ratos e levou alguns militantes a contraírem peste
bubônica. Depois de vários meses, alguns membros do grupo questionaram se
tinham realmente capacidade política e militar de continuar com a ação. As
deserções iniciaram-se em março de 1967.
A população já vinha relatando à polícia a
presença dos guerrilheiros. Os policiais observavam a movimentação à distância
e, em 24 de março, prenderam dois militantes que haviam abandonado o grupo. No
dia 29, um terceiro foi preso ao tentar descer até a cidade para comprar
medicamentos. Ao descobrirem a origem e o objetivo da ação, os policiais
mineiros subiram a serra e chegaram ao pico na manhã do dia 1º de abril de
1967. Encontraram os guerrilheiros dormindo. Não houve troca de tiros. Nos dias
seguintes, outros membros do grupo foram presos nas cidades vizinhas tentando
subir a serra para se juntar aos companheiros. Chegava ao fim, sem se
concretizar, a primeira tentativa de luta armada contra a ditadura militar.
Os eventos do Caparaó coincidiram com o
surgimento da guerrilha na Bolívia – liderada por Che Guevara, conforme se
descobriria depois – que recebia ampla cobertura da imprensa brasileira. Talvez
essa coincidência tenha levado o Exército ao duplo discurso registrado pela
imprensa: inicialmente, minimizar a importância da guerrilha no Brasil,
evitando a expansão de sua influência para outras áreas do país e, depois,
sobrevalorizar os seus efetivos, para justificar a repressão oficial.
Os participantes da guerrilha do Caparaó
não consideraram a experiência uma derrota para o projeto da luta armada,
afinal cumpriram um papel importante: denunciaram ao país que havia uma
ditadura liderada por militares e que setores da sociedade estavam dispostos a
pegar em armas para derrubá-la.
Jean Rodrigues Sales é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e
autor de A luta armada contra a ditadura militar: a esquerda brasileira
e a influência da revolução cubana (Perseu Abramo, 2007).
Saiba mais - Bibliografia
COSTA, José Caldas
da. Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura. São Paulo:
Boitempo Editorial, 2007.
ROLLEMBERG, Denise. O
apoio de cuba à luta armada no Brasil: o treinamento guerrilheiro. Rio
de Janeiro: Mauad, 2001.
“Afinal apareceu uma coisa diferente no Brasil
coisa que de certo modo quebra a monotonia cotidiana: guerrilheiros em Caparaó”
Carlos Drumond de Andrade. O Estado de
Minas. Abril/1967.
O filme retrata a primeira
tentativa de luta armada organizada contra o regime militar no Brasil pós 1964.
No alto da Serra do Caparaó, na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, em
agosto de 1966, um grupo formado na sua
maioria por ex-militares expurgados pelo regime, se instalou em condições precárias, iniciando um
rigoroso treinamento militar, na tentativa de preparar o que seria o início de
uma grande reação nacional contra o novo regime.
A guerrilha foi
patrocinada pelo presidente cubano Fidel Castro e organizada por Leonel
Brizola, durante o seu exílio no Uruguai. Para reprimir o movimento o governo
militar utilizou cerca de 3.000 homens do Exército, Aeronáutica e Policias
Militares de Minas e Espirito Santo, numa das maiores operações militares
realizadas no país. Através dos depoimentos de ex-guerrilheiros, escritores,
jornalistas, policiais militares, e todos os envolvidos diretamente com a
guerrilha; o filme pretende dar novos significados para a
tentativa de se fazer uma “Sierra Maestra” em terras brasileiras.
Recebeu os seguintes
prêmios: Melhor Filme Brasileiro no Festival É Tudo Verdade/2006; Melhor Filme,
Melhor Roteiro e Melhor Pesquisa no Recine/2006.
Direção: Flavio Frederico
Ano: 2007
Áudio: Português
Duração: 77 minutos
Hércules
56
Em setembro de 1969, quando o Brasil
era governado por uma Junta Militar, duas organizações revolucionárias, a Dissidência
Universitária da Guanabara (DI-GB) que adotou o nome de MR-8 (Movimento
Revolucionário 8 de Outubro), e a ALN (Ação Libertadora Nacional), aliaram-se
para raptar o embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick. Em troca do diplomata
foi exigida a divulgação de uma manifesto revolucionário e a libertação de
quinze presos políticos, representantes à época de todas as tendências
políticas que combatiam a ditadura. Banidos do território nacional e com a
nacionalidade cassada, eles foram conduzidos ao México no avião da FAB Hércules
56. Para rememorar o episódio e discutir as causas e consequências da luta
armada naquela época, o filme traz à cena os nove remanescentes do grupo de
presos e promove o reencontro de cinco membros das organizações responsáveis
pelo sequestro.
Os personagens principais
do filme são os: Agonalto Pacheco, Flávio Tavares, José Dirceu, José Ibrahin,
Maria Augusta Carneiro Ribeiro, Mario Zanconato, Ricardo Vilas, Ricardo
Zarattini e Vladimir Palmeira. Os que já faleceram estão presentes através de
materiais de arquivo: Luís Travassos, Onofre Pinto, Rolando Frati, João
Leonardo Rocha, Ivens Marchetti e Gregório Bezerra. Direção: Sílvio Da-Rin
Teólogo revela, na íntegra, respostas em que narra passagens centrais
de sua convivência com Papa — inclusive quando o teve como inquisidor. Jornal
escondeu texto precioso.
“Dei
generosamente uma entrevista à Folha de São Paulo que quase
não aproveitou nada do que disse e escrevi. Então, publico a entrevista inteira
a seguir para reflexão e discussão entre os interessados pelas coisas da Igreja
Católica. As perguntas foram reordenadas”.
Eu, desde o principio,
sentia muita pena dele, pois pelo que o conhecia, especialmente em sua timidez,
imaginava o esforço que devia fazer para saudar o povo, abraçar pessoas, beijar
crianças. Eu tinha certeza de que um dia ele aproveitaria alguma ocasião
sensata, como os limites físicos de sua saúde e o menor vigor mental, para
renunciar. Embora mostrou-se um Papa autoritário, não era apegado ao cargo de
Papa. Eu fiquei aliviado, porque a Igreja está sem liderança espiritual que
suscite esperança e ânimo. Precisamos de um outro perfil de Papa mais pastor
que professor, não um homem da instituição-Igreja, mas um representante de
Jesus que disse: “se alguém vem a mim eu não mandarei embora” (Evangelho de
João 6,37), podia ser um homoafetivo, uma prostituta, um transexual.
2. Como é a
personalidade de Bento XVI já que o Sr. privou de certa amizade com ele?
Conheci Bento XVI nos meus
anos de estudo na Alemanha entre 1965-1970. Ouvi muitas conferências dele, mas
não fui aluno dele. Ele leu minha tese doutoral: “O lugar da Igreja no mudo
secularizado” e gostou muito a ponto de achar uma editora para publicá-la, um
calhamaço de mais de 500 páginas. Depois trabalhamos juntos na revista
internacional Concilium, cujos diretores se reuniam todos os anos
na semana de Pentecostes em algum lugar na Europa. Eu a editava em português.
Isso entre 1975-1980. Enquanto os outros faziam sesta, eu e ele passeávamos e
conversávamos temas de teologia, sobre a fé na América Latina, especialmente
sobre São Boaventura e Santo Agostinho, do quais é especialista e eu até hoje
os frequento a miúde.
Depois, em 1984, nos
encontramos num momento conflitivo: ele como meu julgador no processo do
ex-Santo Ofício, movido contra meu livro Igreja: carisma e poder (Vozes
1981). Ai tive que sentar na cadeirinha onde Galileo Galilei e Giordano Bruno,
entre outros, sentaram. Submeteu-me a um tempo de “silêncio obsequioso”; tive
que deixar a cátedra e fui proibido de publicar qualquer coisa. Depois disso
nunca mais nos encontramos. Como pessoa é finíssimo, tímido e extremamente
inteligente.
3.Ele como Cardeal foi o
seu Inquisidor depois de ter sido seu amigo: como viu esta situação?
Quando foi nomeado
Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Inquisição) fiquei
sumamente feliz. Pensava com meus botões: finalmente teremos um teólogo à
frente de uma instituição com a pior fama que se possa imaginar. Quinze dias
após me respondeu, agradecendo e disse: vejo que há várias pendências suas aqui
na Congregação e temos que resolvê-las logo. É que praticamente a cada livro
que publicava vinham de Roma perguntas de esclarecimento que eu demorava em
responder. Nada vem de Roma sem antes de ter sido enviado a Roma.
Havia aqui bispos
conservadores e perseguidores de teólogos da libertação que enviavam as queixas
de sua ignorância teológica a Roma a pretexto de que minha teologia poderia
fazer mal aos fiéis. Ai eu me dei conta: ele já foi contaminado pelo bacilo
romano que faz com que todos os que ai trabalham no Vaticano rapidamente
encontrem mil razões para serem moderados e até conservadores. Então, sim,
fiquei mais que surpreso, verdadeiramente decepcionado.
4. Como o
Sr. recebeu a punição do “silêncio obsequioso”?
Após o interrogatório e a
leitura de minha defesa escrita, que está como adendo da nova edição de Igreja:
carisma e poder (Record 2008), são 13 cardeais que opinam e decidem.
Ratzinger é um apenas entre eles. Depois submetem a decisão ao Papa. Creio que
ele foi voto vencido, porque conhecia outros livros meus de teologia,
traduzidos para alemão, e me havia dito que tinha gostado deles, até, uma vez,
diante do Papa numa audiência em Roma fez uma referência elogiosa. Eu recebi o
“silêncio obsequioso” como um cristão ligado à Igreja o faria: calmamente o
acolhi. Lembro que disse: “é melhor caminhar com a Igreja que sozinho com minha
teologia”. Para mim foi relativamente fácil aceitar a imposição, porque a
Presidência da CNBB me havia sempre apoiado e dois Cardeais, Dom Aloysio
Lorscheider e Dom Paulo Evaristo Arns, me acompanharam a Roma e depois
participaram, numa segunda parte, do diálogo com o Cardeal Ratzinger e comigo.
Ai éramos três contra um. Colocamos algumas vezes o Cardeal Ratzinger em certo
constrangimento, pois os cardeais brasileiros lhe asseguravam que as críticas
contra a teologia da libertação que ele fizera num documento saído recentemente
eram eco dos detratores e não uma análise objetiva. E pediram um novo documento
positivo; ele acolheu a ideia e realmente o fez dois anos após. E até pediram a
mim e ao meu irmão teólogo Clodovis, que estava em Roma, que escrevêssemos um
esquema e o entregássemos na Sagrada Congregação. E num dia e numa noite o
fizemos e o entregamos.
5. O Sr
deixou a Igreja em 1992. Guardou alguma mágoa de todo o affaire no Vaticano?
Eu nunca deixei a Igreja.
Deixei uma função dentro dela, que é de padre. Continuei como teólogo e
professor de teologia em várias cátedras aqui e fora do país. Quem entende a
lógica de um sistema autoritário e fechado, que pouco se abre ao mundo, não
cultiva o diálogo e a troca (os sistemas vivos vivem na medida em que se abrem
e trocam), sabe que se alguém, como eu, não se alinhar totalmente a tal
sistema, será vigiado, controlado e eventualmente punido. É semelhante aos
regime de segurança nacional que temos conhecido na América Latina sob os
regimes militares no Brasil, na Argentina, no Chile e no Uruguai. Dentro desta
lógica, o então Presidente da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Santo Oficio,
ex-Inquisição), o Cardeal J. Ratzinger, condenou, silenciou, depôs de cátedra
ou transferiu mais de cem teólogos. Do Brasil fomos dois: a teóloga Ivone
Gebara e eu. Em razão de entender a referida lógica, e lamentá-la, sei que eles
estão condenados a fazer o que fazem na maior das boas vontades. Mas como dizia
Blaise Pascal: “Nunca se faz tão perfeitamente o mal como quando se faz de boa
vontade”. Só que esta boa vontade não é boa, pois cria vítimas. Não guardo
nenhuma mágoa ou ressentimento, pois exerci compaixão e misericórdia por
aqueles que se movem dentro daquela lógica que, a meu ver, está a quilômetros
luz da prática de Jesus. Aliás é coisa do século passado, já passado. E evito
voltar a isso.
6. Como o
Sr. avalia o pontificado de Bento XVI? Soube gerenciar as crises internas e
externas da Igreja?
Bento XVI foi um eminente
teólogo, mas um Papa frustrado. Não tinha o carisma de direção e de animação da
comunidade, como tinha João Paulo II. Infelizmente ele será estigmatizado, de
forma reducionista, como o Papa onde grassaram os pedófilos, onde os
homoafetivos não tiveram reconhecimento e as mulheres foram humilhadas como nos
EUA, negando o direito de cidadania a uma teologia feita a partir do gênero. E
também entrará na história como o Papa que censurou pesadamente a Teologia da
Libertação, interpretada à luz de seus detratores, e não à luz das práticas
pastorais e libertadoras de bispos, padres, teólogos, religiosos/as e leigos
que fizeram uma séria opção pelos pobres contra a pobreza e a favor da vida e
da liberdade. Por esta causa justa e nobre foram incompreendidos por seus
irmãos de fé, e muitos deles presos, torturados e mortos pelos órgãos de
segurança do Estado militar. Entre eles estavam bispos como Dom Angelelli, da
Argentina, e Dom Oscar Romero, de El Salvador. Dom Helder foi o mártir que não
mataram. Mas a Igreja é maior que seus papas e ela continuará, entre sombras e
luzes, a prestar um serviço à humanidade, no sentido de manter viva a memória
de Jesus, de oferecer uma fonte possível de sentido de vida que vai para além
desta vida. Hoje sabemos pelo Vatileaks que dentro da Cúria romana se trava uma
feroz disputa de poder, especialmente entre o atual Secretário de Estado
Bertone e o ex-secretário Sodano, já emérito. Ambos têm seus aliados. Bertone,
aproveitando as limitações do Papa, construiu praticamente um governo paralelo.
Os escândalos de vazamento de documentos secretos da mesa do Papa e do Banco do
Vaticano, usado pelos milionários italianos, alguns da mafia, para lavar
dinheiro e mandá-lo para fora, abalaram muito o Papa. Ele foi se isolando cada
vez mais. Sua renúncia se deve aos limites da idade e das enfermidades, mas
foram agravadas por estas crises internas que o enfraqueceram e que ele não
soube ou não pode atalhar a tempo.
7. O Papa
João XXIII disse que a Igreja não pode virar um museu, mas uma casa com janelas
e portas abertas. O Sr. acha que Bento XVI não tentou transformar a Igreja
novamente em algo como um museu?
Bento XVI é um nostálgico
da síntese medieval. Ele reintroduziu o latim na missa, escolheu vestimentas de
papas renascentistas e de outros tempos passados, manteve os hábitos e os
cerimoniais palacianos; para quem iria comungar, oferecia primeiro o anel papal
para ser beijado e depois dava a hóstia, coisa que nunca mais se fazia. Sua
visão era restauracionista e saudosista de uma síntese entre cultura e fé, que
existe muito visível em sua terra natal, a Baviera, coisa que ele explicitamente
comentava. Quando na Universidade, onde ele estudou e eu também, em Munique,
viu um cartaz me anunciando como professor visitante para dar aulas sobre as
novas fronteiras da teologia da libertação, pediu ao reitor que protelasse esse
dia, o convite já acertado. Seus ídolos teológicos são Santo Agostinho e São
Boaventura, que mantiveram sempre uma desconfiança de tudo o que vinha do
mundo, contaminado pelo pecado e necessitado de ser resgatado pela Igreja. É
uma das razões que explicam sua oposição à modernidade, que a vê sob a ótica do
secularismo e do relativismo e fora do campo de influência do cristianismo que
ajudou a formar a Europa.
8. A igreja
vai mudar, em sua opinião, a doutrina sobre o uso de preservativos e em geral a
moral sexual?
A Igreja deverá manter as
suas convicções, algumas que estima irrenunciáveis como a questão do aborto e
da não manipulação da vida. Mas deveria renunciar ao status de exclusividade,
como se fora a única portadora da verdade. Ela deve se entender dentro do
espaço democrático, no qual sua voz se faz ouvir junto com outras vozes. E as
respeita e até se dispõe a aprender delas. E quando derrotada em seus pontos de
vista, deveria oferecer sua experiência e tradição para melhorar onde puder
melhorar e tornar mais leve o peso da existência. No fundo, ela precisa ser
mais humana, humilde e ter mais fé, no sentido de não ter medo. O que se opõe à
fé não é o ateísmo, mas o medo. O medo paralisa e isola as pessoas das outras
pessoas. A Igreja precisa caminhar junto com a humanidade, porque a humanidade
é o verdadeiro Povo de Deus. Ela o mostra mais conscientemente, mas não se
apropria com exclusividade desta realidade.
9. O que um
futuro Papa deveria fazer para evitar a emigração de tantos fiéis para outras
igrejas, e especialmente pentecostais?
Bento XVI freou a
renovação da Igreja incentivada pelo Concílio Vaticano II. Ele não aceita que
na Igreja haja rupturas. Assim que preferiu uma visão linear, reforçando a
tradição. Ocorre que a tradição a partir dos séculos XVIII e XIX se opôs a
todas as conquistas modernas, da democracia, da liberdade religiosa e outros
direitos. Ele tentou reduzir a Igreja a uma fortaleza contra estas
modernidades. E via no Vaticano II o cavalo de Troia por onde elas poderiam
entrar. Não negou o Vaticano II, mas o interpretou à luz do Vaticano I, que é
todo centrado na figura do Papa com poder monárquico, absolutista e infalível.
Assim se produziu uma grande centralização de tudo em Roma sob a direção do
Papa que, coitado, tem que dirigir uma população católica do tamanho da China.
Tal opção trouxe grande conflito na Igreja até entre inteiros episcopados, como
o alemão e francês, e contaminou a atmosfera interna da Igreja com suspeitas,
criação de grupos, emigração de muitos católicos da comunidade e acusações de
relativismo e magistério paralelo. Em outras palavras, na Igreja não se vivia
mais a fraternidade franca e aberta, um lar espiritual comum a todos. O perfil
do próximo Papa, no meu entender, não deveria ser o de um homem do poder e da
instituição. Onde há poder, inexiste amor e desaparece a misericórdia. Deveria
ser um pastor, próximo dos fiéis e de todos os seres humanos, pouco importa a
sua situação moral, étnica e política. Deveria tomar como lema a frase de Jesus
que já citei anteriormente: “Se alguém vem a mim, eu não o mandarei embora”,
pois acolhia a todos, desde uma prostituta como Madalena até um teólogo como
Nicodemos.
Não deveria ser um homem
do Ocidente que já é visto como um acidente na história. Mas um homem do vasto
mundo globalizado, sentindo a paixão dos sofredores e o grito da Terra
devastada pela voracidade consumista. Não deveria ser um homem de certezas, mas
alguém que estimulasse a todos a buscarem os melhores caminhos. Logicamente se
orientaria pelo Evangelho, mas sem espírito proselitista, com a consciência de
que o Espírito chega sempre antes do missionário e o Verbo ilumina a todos que
vêm a este mundo, como diz o evangelista São João. Deveria ser um homem
profundamente espiritual e aberto a todos os caminhos religiosos, para juntos
manterem viva a chama sagrada que existe em cada pessoa: a misteriosa presença
de Deus. E, por fim, um homem de profunda bondade, no estilo do Papa João
XXIII, com ternura para com os humildes e com firmeza profética para denunciar
quem promove a exploração e faz da violência e da guerra instrumentos de
dominação dos outros e do mundo. Que nas negociações que os cardeais fazem no
conclave e nas tensões das tendências, prevaleça um nome com semelhante perfil.
Como age o Espírito Santo ai é mistério. Ele não tem outra voz e outra cabeça
do que aquela dos cardeais. Que o Espírito não lhes falte.
Em entrevista à Revista de História, a pesquisadora Elaine Pagels,
professora da Universidade de Princeton, fala sobre as teorias apocalípticas
ontem e hoje.
Tempos de guerra e de
crise costumam fortalecer movimentos místicos. No horizonte despontam as
terríveis profecias do Juízo Final. Dois mil anos depois de escrito, o LivrodoApocalipse mantém-se
renovado em inúmeros corações e mentes. Como explicar tal mistério?
Foi com essa inquietação
que a historiadora Elaine Pagels, uma das mais respeitadas conhecedoras de
escritos sagrados, decidiu pesquisar o também chamado LivrodasRevelações.
Em seu livro recém-lançado (Revelations: Visions, Prophecy, and Politics in
the Book of Revelation, ainda sem tradução), ela explica que não há apenas
um, mas vários textos do Apocalipse, que seu autor provavelmente não era
apóstolo de Cristo e que as imagens demoníacas ali descritas tinham inspirações
bem terrenas.
Nesta entrevista, a
professora da Universidade de Princeton (Estados Unidos) dessacraliza os textos
religiosos, compreendidos em seu contexto histórico e político.
REVISTA
DE HISTÓRIA O que chamou
sua atenção para o LivrodoApocalipse?
ELAINE
PAGELSComeçou em 2002, quando o presidente dos Estados
Unidos [George W. Bush] defendeu a invasão do Iraque utilizando a expressão
“Eixo do Mal”. Foi assim que promoveu a guerra: não por uma decisão
estratégica, mas por uma decisão moral. Quase uma missão religiosa. Eu pensei:
por que ainda tem gente lendo esse velho livro, e lendo desse jeito?
RH De que outra forma ele pode
ser lido?
EP O Apocalipse é sobre sonhos e
visões. Sugere que, quando o mundo está complicado e confuso, as pessoas podem
sentir que tudo está fora de controle, mas tudo vai ficar bem: a justiça de
Deus vai prevalecer e haverá um novo mundo. É um livro sobre esperança, para
pessoas que estão ansiosas diante de uma circunstância caótica.
RH Isso dizia respeito à época
em que foi escrito?
EP Certamente. O autor vivia no período subsequente
ao da terrível guerra dos judeus contra Roma no século I. Ele queria persuadir
seus companheiros judeus, que acreditavam em Jesus, de que a opressão romana
estava destruindo o povo inteiro. E persuadi-los de que nem tudo estava
perdido; a justiça divina seria feita. As imagens são muito específicas daquele
tempo. O Império Romano como a Besta, cujo número representa o nome de Nero
[37-68], que acreditavam ser o pior imperador que se pode ter. Para os leitores
da época, isso era de um simbolismo transparente. Todo mundo sabia que a Besta
e a Meretriz representavam o Império Romano.
RH O homem que escreveu o
Apocalipse não é o mesmo que escreveu O EvangelhosegundoJoão?
EP A maioria dos estudiosos acha que não é a mesma
pessoa. O autor do Apocalipse retrata os doze apóstolos como
se eles já tivessem morrido. Eles também têm seus nomes nos doze portões da
cidade, e o autor nunca disse que era um deles.
RH Por que o livro só entrou
no Novo Testamento dois séculos depois de escrito?
EP Isso me fascinou: mesmo depois que o imperador
Constantino [272-337] se tornou cristão, o bispo Atanásio de Alexandria [ca.
295-373] não usou o Apocalipse durante 25 anos. Só depois,
quando o filho de Constantino [imperador em sucessão ao pai] opôs-se a ele e o
exilou, é que decidiu incluir o livro no Novo Testamento. Estava tão zangado e
furioso que aquela foi sua forma de contra-atacar: “Como pode esse imperador
não ser o Anticristo? Ele é obviamente a Besta”.
RH Houve outras leituras do Apocalipse na
história do cristianismo?
EP A Bíblia original de Martinho Lutero [1483-1546],
quando ele dividiu o mundo cristão, tinha imagens feitas por um amigo seu,
chamado Lucas Cranach. E as ilustrações do Apocalipse retratam
a Meretriz da Babilônia como sendo o papa de Roma. Ao mesmo tempo, o primeiro
biógrafo católico de Lutero retratou-o como a Besta de sete cabeças. Essas
imagens de sonho e pesadelo são tão abertas que qualquer um pode usá-las, a
qualquer tempo. Para alguns católicos do século XVI, a Grande Meretriz era a
rainha Elizabeth I [1553-1603].
RH As versões do livro encontradas
no século XX são diferentes?
EP Sim, elas falam sobre achar acesso direto a
Deus, e não sobre o fim do mundo. Provavelmente foram feitas para cristãos em
um nível avançado, como monges e pessoas engajadas na prática espiritual. Acho
que foram suprimidas pela Igreja mais tarde, porque sugeriam que os homens
podiam achar Deus por conta própria.
RH Imagens apocalípticas
costumam ganhar força em tempos de guerra?
EP São muito úteis. Na Segunda Guerra Mundial
[1939-1945], alguns diziam que Hitler era o Anticristo, enquanto os nazistas
diziam que ele estava trazendo o reino de Cristo. O Apocalipse foi
usado na Primeira Guerra Mundial [1914-1918], na Guerra Civil Americana
[1861-1865], sempre por pessoas dos dois lados. Ele permite interpretar
qualquer conflito como um conflito entre o Bem e o Mal. E o único modo como
podemos lidar com as pessoas do Mal é conquistando-as ou destruindo-as.
RH Até ateus e agnósticos se
identificam com essas ideias?
EP Ah, sim. Uma vez, ouvindo o biólogo Edmund
Wilson, da Universidade de Harvard, falar sobre mudanças climáticas e a
destruição do sistema ecológico, eu brinquei que aquilo soava como o LivrodoApocalipse.
Ele disse: “Ah, sim, eu sou um batista”. Ao falar sobre ecologia, era como se
fosse um sermão batista.
RH Como o Apocalipse alimenta
o fanatismo atual, em seitas cristãs e vertentes do movimento islâmico?
EP Nos Estados Unidos, uma grande quantidade de
cristãos acha que o fim do mundo está chegando. Isso é preocupante. No Corão há
imagens da batalha final, do julgamento final. Alguns muçulmanos leem isso como
uma batalha entre eles e os não muçulmanos. Outros interpretam como uma guerra
do espírito, não uma guerra de verdade.
RH O Apocalipse já
foi usado em favor da ética?
EP Sim, como quando Martin Luther King Jr.
[1929-1968] luta contra a injustiça racial. Ele e vários cristãos
afro-americanos usaram a linguagem do Apocalipse. Falam sobre a
promessa de um mundo que vai reverter as injustiças. As pessoas hoje oprimidas
serão felizes.