"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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domingo, 22 de outubro de 2017

Especiarias da China

Trazidos para cultivar chá no Rio de Janeiro, os primeiros imigrantes chineses a desembarcar no Brasil sofreram com o preconceito e as más condições de vida.
Geraldo Moreira Prado e Rael Fiszon Eugênio dos Santos
      Se, a despeito da globalização, os modos e cultura chineses ainda causam estranheza entre nós, imagine-se então no começo do século XIX! As fontes históricas disponíveis sobre o Rio de Janeiro, naquela época, mostram que a população da cidade era composta de comerciantes, trabalhadores livres, nobres luso-brasileiros, viajantes europeus e, em sua maioria, de escravos africanos. Mas, como destacam alguns historiadores, jornalistas e naturalistas que visitaram o Brasil no século XIX, havia também chineses, trazidos ao Brasil para cultivarem o chá na Real Fazenda de Santa Cruz, situada na Zona Oeste da cidade, e no Jardim Botânico do Rio de Janeiro.
      A este grupo de chineses se devem as primeiras experiências brasileiras de cultivo da planta conhecida pelo nome científico de Camellia sinensis, nativa da China. Alguns poucos livros, como o clássico D. João VI no Brasil, do historiador pernambucano Oliveira Lima, destacam a presença chinesa no Brasil. O mais comum entre os autores, no entanto, é apontarem os suíços que se estabeleceram na região serrana de Nova Friburgo, no estado do Rio de Janeiro, em 1818, como a primeira força de trabalho estrangeira, e livre, a atuar no país cuja economia era então sustentada pelo braço escravo. Ao lado dos suíços, os colonos chineses também tiveram papel relevante, protagonizando um projeto que seria a menina-dos-olhos de d. João VI, mas cujos resultados acabaram infelizmente ficando bem aquém das expectativas.
      O hábito de tomar chá chinês (dito inglês) surge por aqui a partir da chegada da família real portuguesa, em 1808, que introduz na acanhada colônia hábitos europeus mais sofisticados. A ideia de d. João, príncipe regente e futuro rei de Portugal, era cultivar o produto por aqui mesmo, dispensando as importações e transformando-o em fonte de riqueza. O número de trabalhadores chineses que ficaram no Brasil no período com esse propósito, bem como suas origens, não são exatos. Benedicto Freitas se refere a uma centena, mais ou menos, e seriam eles provenientes de Macau e Cantão. Sabe-se que primeiramente desembarcaram 45 colonos, em 1815 - e, segundo Fania Fridman, provenientes de Macau. Mas havia também chineses de outras regiões. Johann Luccock, viajante que chegou ao Brasil em meados de 1808, referindo-se ao chefe dos lavradores residentes na Fazenda Santa Cruz, diz ser ele originário de Nanquim.
      Pelos relatos que ficaram, a fazenda, naquela época, principalmente graças aos cuidados de d. João, pessoalmente empenhado no projeto, parecia algo muito próximo do paraíso. Na visita ao local, a viajante Maria Graham, além de testemunhar o interesse do monarca português pelo assunto, descreve um cenário que mistura trabalho, sonho e fantasia. Segundo ela, d. João mandara construir na Fazenda Santa Cruz portões e cabanas, em estilo chinês, que ficavam próximos a canteiros abrigando arbustos da erva, de folhas escuras e brilhantes e flores semelhantes às da murta. Tais canteiros eram cercados por caminhos onde se misturavam laranjeiras, roseirais e uma linda espécie de mimosa, formando belos jardins. Desse modo, a "China de Santa Cruz", escreveu Maria Graham, se tornara um dos pontos mais aprazíveis para os visitantes.
      No diário de viagem escrito durante sua estadia nas cortes de d. João VI e d. Pedro I (1821 a 1823), Maria Graham registra que introduzir o chá da China no Brasil era de fato um dos projetos favoritos de d. João, cujo entusiasmo foi também testemunhado por Johann Luccock. Para compor o cenário físico da Fazenda Santa Cruz, há os registros pictóricos do artista inglês Thomas Ender (18171818) mostrando a peculiaridade no modo de vestir e nos hábitos - particularmente o de fumar cultivados pelos chineses. O pintor também registrou a arquitetura diferenciada do local. Nos desenhos do príncipe Maxiliano Wied-Neuwied, datados de 1815, é possível perceber detalhes das cabeças de chineses em poses de perfil, sentados às margens dos caminhos ou segurando um caniço.
      Tudo parecia que ia muito bem, mas não era verdade. O clima supostamente idílico da Fazenda Santa Cruz não duraria muito. Contra os chineses e o projeto de d. João se levantariam em breve duas forças imbatíveis: o preconceito e as leis do mercado. Houve quem criticasse as peculiaridades comportamentais dos chineses na relação do trabalho e no modo de assimilar as informações recebidas. Luccock, por exemplo, achava que eram meticulosos no modo de lavrar e que alguns chineses demonstravam rapidez de assimilação. Considerava, no entanto, que a maioria deles era extremamente ignorante, "como jamais se viu em outra raça". O preconceito em Luccock ia ainda mais além: "Tais como os gregos modernos, a inteligência deles se desviou e o caráter envileceu". As condições que cercaram a vinda dos chineses já eram reveladoras de um futuro nada promissor. Não puderam trazer mulheres, para que seus traços orientais não passassem a descendentes brasileiros, e, aqui, eram proibidos de se aproximar da senzala, a fim de se evitar eventuais relações íntimas com escravas.
      Os resultados negativos desse regime de opressão a que foram submetidos, certamente agravado pela barreira da língua, surgiram quatro anos após a chegada dos primeiros imigrantes. Em 1819, 51 chineses subscreveram um abaixo-assinado que foi referendado por José Bonifácio e enviado a d. João VI. No texto, solicitavam um intérprete para auxiliá-los nos tribunais. É que alguns deles haviam virado réus, em consequência de fugas verificadas na colônia chinesa de Santa Cruz. Segundo a acusação, grupos de chineses que haviam deixado a lavoura de chá saíam pela cidade cometendo "abusos" e "desordens". As fugas eram consequência das condições a eles impostas na fazenda, pois, como escreveu Maria Graham em seu diário, "ninguém foge de onde vive bem".
      Segundo Fania Fridman, a relação de trabalho desses chineses tinha na verdade características escravocratas, pois "recebiam apenas 160 réis por dia, não podiam comerciar nem ir à cidade, dormir fora da colônia ou receber visitas". Graham, no entanto, considerou que o salário tinha um valor significativo na época. Não se pode afirmar que a força de trabalho chinesa no Brasil se submetia às características clássicas do escravismo. Havia, sim, relações de hierarquia que tinham de ser observadas e a presença de feitores, típicas do regime escravocrata. Documento de 1817 nomeia um chinês de nome "Bexiga" como feitor de Santa Cruz. Sua tarefa era controlar os conterrâneos rebeldes.
      Em 1825, o chinês João Antônio Moreira (nome adotado), que vivia no Brasil há mais de 11 anos e trabalhava há cerca de seis em Santa Cruz, enviou requerimento ao intendente da polícia, Francisco Alberto Pereira Aragão (1824-1827), solicitando sua nomeação para o cargo de capitão, a fim de auxiliar as autoridades no controle dos abusos cometidos por conterrâneos. Segundo o referido requerimento, certo número de chineses, tendo abandonado o cultivo do chá, desenvolveu total relaxamento dos costumes, formando "partidos" (leia-se bandos) e cometendo roubos. O intendente recomendou ao imperador d. Pedro I recusar o pedido, alegando que os chineses estavam suficientemente habituados ao país e não precisavam portanto de tratamento diferenciado: "Procedimentos errados deveriam ser tratados nos moldes da lei", afirmou.
      Percebe-se, na análise do documento, que os primeiros chineses do Brasil não constituíam um grupo homogêneo. O próprio João Antônio Moreira, considerado chinês, deveria pertencer a um determinado partido, pois denunciava os "abusos" de seus compatriotas que se organizavam em três grupos ou "partidos" denominados Cantão, Macau e Chá. O tempo passou e com ele algumas diferenças se dissiparam. O rígido controle da Coroa não impediu que em 1825 alguns chineses conseguissem licenças para mascatear na cidade do Rio de Janeiro e em outras cidades do sudeste brasileiro. Sobre isso, fontes históricas registram que durante o século XIX o território brasileiro foi palco de muitas experiências similares com trabalhadores livres estrangeiros. Nestes contingentes se encontravam também chineses, que a partir do decênio de 1833 se fixaram em vários pontos do país, particularmente o interior dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná.
      Quanto ao cultivo do chá, o sonho tão acalentado por d. João VI, virou frustração. Frei Leandro, primeiro diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em sua obra Memória econômica sobre o cultivo e preparo do chá (1825), reclama do despreparo dos agricultores brasileiros no cultivo da planta. Por este motivo, o chá não se disseminou no Brasil e na colônia chinesa de Santa Cruz malogrou. Em vez do chá, a economia preferiu o café, que continuou sendo produzido, exportado, acumulando e reproduzindo a riqueza das elites "nobiliárquicas" brasileiras. O fato é que o chá chinês deixou de ser produzido no Brasil e passou a ser importado da Inglaterra.
      Na análise de Maria Graham, os custos do investimento para o cultivo de chá eram muito elevados para a Coroa. Como os salários pagos aos chineses incidiam no preço de venda final do produto, a baixa produção, quase artesanal, não era suficiente para garantir o investimento. Analisando-se o caso pela perspectiva de hoje, é possível supor que a iniciativa de d. João VI tenha fracassado por falta de planejamento inicial, evidenciado pela desigualdade na concorrência com o café, cuja produção, para exportação, já ocorria em ampla escala, consolidando-o como o "produto-rei" da economia agrária brasileira, como afirmou a professora Maria Yedda Linhares.
      O hábito de tomar chá, no entanto, persistiu. O pioneiro da venda do produto no Rio de Janeiro foi o comerciante José Praxedes Pereira Pacheco, que fundou a Loja da China "à Rua da Candelária, 18, defronte da Igreja", conforme nos informa o Almanak Laemmert, de 1845. Segundo a propaganda, o estabelecimento tinha "o mais completo e variado sortimento de chá verde e preto, e também chá nacional das províncias de S. Paulo e Minas". Não encontramos registros sobre o plantio do chá em Minas, mas, em São Paulo, o produto começou a ser cultivado a partir de 1833, pelo marechal José Arouche de Toledo Rendon.
      Se os planos de d. João não deram certo, serviram pelo menos de "teste" para estimular a entrada de trabalhadores estrangeiros livres no Brasil. A partir daí, e pelo restante do século XIX e século XX, mais chineses iriam criar raízes no solo brasileiro. Em 15 de agosto de 1900 foi oficializada a entrada de 107 imigrantes chineses no país, radicados, em sua maioria, na cidade de São Paulo e um pouco menos no Rio de Janeiro. Intelectuais cariocas da década de 1920, como João do Rio, Benjamin Costallat e Álvaro Moreira, comentavam sobre chineses morando miseravelmente no Centro do Rio de Janeiro, nas proximidades da Praça XV, e ainda consumindo ópio.
      Com a revolução socialista chinesa de 1949, ocorreu uma diáspora para o Brasil, especialmente para a cidade de São Paulo. Nos últimos anos, eles se espalharam pelas principais capitais brasileiras, e São Paulo continua reunindo o maior contingente, mais de 130 mil pessoas (incluindo-se aí os descendentes), segundo dados apresentados pela Folha de S. Paulo, de 22/3/2005. Distribuídos pelos bairros da Liberdade, Vila Mariana, Cambuci, Aclimação e Vila Olímpia, dividem espaços com a comunidade japonesa e contribuem também para a diversidade da culinária brasileira com suas famosas lojas de pastéis e caldo de cana.
Geraldo Moreira Prado é historiador, PhD em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, e pesquisador do CNPq.
Rael Fiszon Eugênio dos Santos é graduando em História pela Universidade Federal Fluminense.

Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 36 - Outubro 2006

Saiba Mais – Bibliografia
ENDER, Thomas. Viagem ao Brasil nas aquarelas de Thomas Ender (1817-1818). Petrópolis, RJ: Kapa Editora, 2000.
FREITAS, Benedicta Santa Cruz: fazenda jesuítica, real, imperial. Vol. II: Vice-reis e reinado (1760-1821). Rio de Janeiro, 1987.
FRIDMAN, Fania. Donos do Rio em nome do rei: uma história fundiária da cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor e Caramond, 1999.

OLIVEIRA UMA, Manuel de. D. João VI no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1945.

domingo, 3 de julho de 2016

O ladrão de sementes

Um aventureiro ajudou a transformar a economia global, passando o monopólio mundial da borracha para as mãos da Inglaterra.
     Na história da geopolítica internacional, costumam figurar apenas os nomes dos grandes governantes e diplomatas. Henry Wickham não foi um deles. Ainda assim, esse personagem ajudou a transformar a produção mundial da borracha, influenciando as relações internacionais e a hegemonia econômica do século XX.
     Ao trocar um pneu de carro ou vestir uma capa de chuva, estamos lidando com alguns dos mais de 50 mil derivados da borracha, matéria-prima absolutamente indispensável na cadeia produtiva de quase todos os setores econômicos. Para atingir esse sucesso, iniciado na esteira da revolução industrial, a borracha trilhou percursos tortuosos. Há pouco mais de cem anos, o monopólio da produção concentrava-se na Amazônia, região responsável por fornecer quase 100% da demanda global na época – principalmente para os países industrializados que, por sua vez, buscavam uma maneira de neutralizar esse domínio.
     Foram cinco décadas de hegemonia amazônica antes daquele empreendimento borracheiro desmoronar, superado pela crescente produção no Sudeste asiático. Na ordem do dia, então, passaram a ser debatidas questões sobre a soberania nacional, em particular a proteção do patrimônio biológico, e uma reavaliação do modelo de desenvolvimento praticado pelo Brasil, que ao longo da história sempre se valera do extrativismo e da exportação de produtos naturais – café, minérios, açúcar, borracha. 
     Wickham teve papel ativo nessa história. Ele foi responsável pelo contrabando de 70 mil sementes de seringueiras, parte das quais seriam plantadas com êxito no Jardim Botânico Real de Londres (Kew Gardens) e depois transferidas, em mudas, para as colônias britânicas no Sudeste asiático.
     Henry Alexander Wickham nasceu em 1846, ao norte de Londres. Aos 20 anos, viajou para a Nicarágua à procura de plumas para fornecer à chapelaria de sua mãe. Foi a primeira viagem de muitas que faria à América Latina, anotando em um diário suas impressões sobre a região. Nesse diário, ele já levantava a possibilidade de um empreendimento borracheiro. O império britânico estava em expansão: o reinado da rainha Vitória (1837-1901) estabeleceu uma política de crescimento econômico, colonização e aumento da presença militar em seus domínios além-mar. Esse cenário representava, para Wickham e outros cidadãos ingleses, uma crescente chance de almejar fama e fortuna em empreendimentos e descobertas, com ou sem o aval do governo britânico. 
     A borracha era necessária à revolução industrial, que estava a todo vapor na Inglaterra. O então diretor de Kew Gardens, Joseph Hooker, tomou conhecimento do diário do jovem Henry. Em Rough Notes, Wickham já discursava sobre os limites e as possibilidades de produzir borracha em massa. Hooker ofereceu a ele 10 libras para cada mil sementes de seringueira coletadas. Mesmo sem garantia ou remuneração adiantada, Wickham se animou com a proposta e convocou esposa, mãe, irmã e irmão para se engajarem em um empreendimento nas cercanias de Santarém, Pará, onde estabelecera um sítio. Para alguns de sua família o destino não foi feliz: sua mãe, sua irmã e a sogra do irmão faleceram, provavelmente por doenças tropicais, sucumbindo ao clima amazônico.
     As perdas familiares não afastaram Wickham de seu projeto. Em troca de migalhas, indígenas e caboclos o ajudaram a coletar, próximo ao rio Tapajós, as almejadas sementes. Elas eram acondicionadas em uma embalagem especial e sigilosa – para não estragarem durante a longa viagem marítima e para não serem detectadas pelas autoridades brasileiras. O governo havia estabelecido fiscalizações alfandegárias salpicadas pela Amazônia. Wickham escapou de uma inspeção mais rigorosa graças ao então cônsul inglês na região, que conseguiu liberar o barco Amazonas, da linha Liverpool-Manaus. Para a sorte de Wickham, a embarcação sofrera uma desventura ao ter sua carga original roubada, dando assim espaço para o envio das sementes à Inglaterra.
     No final do século XIX, a Amazônia mal sabia que a festa da borracha estava chegando ao fim. Manaus usufruía de uma vida de dar inveja até aos europeus que gozavam seu período Belle Époque. A opulência de Manaus ostentava o Teatro Amazonas, calçadas alinhadas, parques chiques, bonde elétrico e outros apetrechos semelhantes aos das cidades europeias. Os barões da borracha tinham vida tão luxuosa que mandavam suas roupas para a Europa a fim de serem lavadas.
     Graças as 70 mil sementes traficadas por Wickham, as colônias britânicas da Ásia em pouco tempo teriam suas plantações. E em 1919 seriam responsáveis por 95% da demanda global de borracha. A Amazônia não teve fôlego para enfrentar a competição. Seu esquema de extração e comercialização da borracha – à base de patrões, regatões, isto é, comerciantes da Amazônia que praticavam preços abusivos, e trabalho semiescravo – explorava e endividava os seringueiros, responsáveis pela extração desse recurso natural. Os preços inflacionados inviabilizavam o modelo extrativista diante do capitalismo mais eficiente do império britânico.
     Embora também se valessem da exploração de mão de obra barata imposta aos súditos colonizados, os ingleses se diferenciavam dos brasileiros pela rapidez e expansão do processo produtivo. Afinal, eram os líderes da revolução industrial. Seus métodos alcançavam grande produtividade e, por consequência, preços baixos. Em seu habitat natural, a seringueira tem uma ocorrência de aproximadamente um espécime por hectare (o tamanho de um campo de futebol). Na Ásia, foi cultivada em fileiras, concentrada em plantações. Os seringais britânicos vingaram, produzindo látex em abundância. 
     Embora não fosse bem sucedido na maioria de seus negócios, Wickham não desanimou e viu na borracha uma oportunidade rara de enriquecer. Diante do sucesso da empreitada britânica na Ásia, reivindicou seus merecidos louros. Não teve a pompa que esperava. O reconhecimento tardou quase quatro décadas, mas veio em vida: em 1920, foi condecorado “Sir” pelo Rei George V. Nada muito além disso. Segundo algumas fontes, ele recebeu uma mísera pensão e alguns brindes. Sua esposa, Violet, que ficara ao seu lado por muito tempo, abandonou-o. Os botânicos profissionais de Kew Gardens o consideravam um amador aventureiro e desprezaram seus esforços.
     Após a Amazônia, seu espírito desnorteado e aventureiro levou-o para a Nova Guiné e a Austrália, onde sofreu outro fracasso. Nunca chegou a se estabelecer economicamente em definitivo. Morreu em 1928, talvez sem se dar conta de que integrara, de fato, uma enorme lista de “peões” sem muita expressão nos investimentos britânicos além-mar. Foi mais um personagem secundário de um longo processo de troca e roubo de espécies biológicas para fins lucrativos, que remonta à era colonial e existe ainda hoje. Para o historiador norte-americano Alfred Cosby, trata-se de imperialismo ecológico, que atualmente assume a forma de produtos farmacêuticos, grande parte deles derivados de plantas. A mesma Amazônia que revelou ao mundo os potenciais da borracha abriga em sua rica biodiversidade outras incontáveis (e desconhecidas) matérias-primas, que podem interessar a diversas indústrias. Continuam em voga questões de soberania nacional e, mais recentemente, alguns grupos indígenas vêm alcançando o reconhecimento de seu direito ao uso do patrimônio natural que manejam há milênios. O império da vez são as megacorporações internacionais.
     Vilão, cavaleiro em missão nobre a serviço da coroa britânica, oportunista? Seja como for, Wickham foi peça-chave de um processo histórico que se enquadra na espoliação colonial e na globalização. Suas ações, ainda hoje, renderiam grande polêmica.

Louis Carlos Forline é professor de antropologia da Universidade de Nevada e pesquisador visitante no Museu Paraense Emílio Goeldi.

Saiba Mais - Bibliografia
SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A. Queiroz, 1980.
WEINSTEIN, Bárbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência. São Paulo: Edusp, 1993.
BENTES, Rosineide. A apropriação ecológica de seringais na Amazônia e a advocacia das Rubber PlantationsRevista de História, 151 (2), p. 115-150, 2004.
LEONARDI, Victor. Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira. Brasília: Paralelo 15, Editora Universidade de Brasília, 1999.

Saiba Mais – Link

domingo, 28 de junho de 2015

E a selva venceu o capital

Fordlândia, a cidade da borracha inventada por um dos maiores empresários do mundo, fracassou na imensidão amazônica.
     Henry Ford tinha 40 anos quando, contando com 11 sócios e investimento inicial de US$ 28 mil, fundou a Ford Motor Company. O ano era 1903, e começava ali a trajetória de um dos empresários que ajudariam a elevar os Estados Unidos à posição de potência mundial. Seu nome ficou para sempre associado a uma revolução do capitalismo, mas o sucesso não o acompanhou quando tentou aventurar-se em uma audaciosa empreitada tropical. Na Amazônia, Henry Ford fracassou. 
     Uma das táticas bem-sucedidas do empresário consistia em tomar para si a produção dos insumos usados em suas fábricas, para depender o mínimo possível de fornecedores externos. Obter borracha natural era um problema: o monopólio dos britânicos sobre a oferta mundial do produto incomodava-o profundamente. Sob a influência de um de seus poucos amigos, Harvey Firestone (que se tornaria o líder dos pneus nos Estados Unidos por mais de oito décadas), Henry Ford passou a considerar ter a sua própria plantação de seringueiras. Mas onde plantar seringueiras? Que tal na região de onde as sementes das plantações britânicas no Sudeste asiático haviam sido furtadas? Foi assim que o homem mais rico do mundo decidiu possuir a maior plantação de seringueiras do mundo, na região do rio Tapajós, no Pará. 
     Os governos federal e estadual receberam com incontida satisfação a notícia dos investimentos, facilitando a instalação dos norte-americanos na Amazônia. A Companhia Ford Industrial do Brasil teve a sua escritura pública aprovada em 10 de outubro de 1927. Dois navios foram enviados para Santarém levando em seus porões tudo o que se imaginava necessário para a construção de uma cidade: tratores, geradores, enxadas, machados, britadeiras, equipamentos hospitalares, concreto, uma fábrica de gelo.  Curiosamente, não havia nenhum arquiteto, urbanista ou engenheiro sanitário na expedição inicial.
     Todo o planejamento foi feito pelos norte-americanos em Michigan, e o resultado foi uma sequência de erros. Os primeiros gestores sentiram na pele os efeitos de não terem estudado a realidade local: em um acampamento sem higiene, proliferavam as moscas nos refeitórios e os mosquitos nos dormitórios. O recrutamento de mão de obra era um entrave. Não havia na região homens em quantidade e com formação profissional suficiente para operar e realizar a manutenção de máquinas, como tratores, serras elétricas e caldeiras. Entre os contratados, o clima dócil logo evaporou. Diante da qualidade ruim da comida servida (diferente da que recebiam os norte-americanos) e do tratamento cada vez mais insultuoso (à base de gritos e humilhações), acendeu-se o estopim para a primeira revolta: os trabalhadores ameaçaram os norte-americanos com facões e machados. Não houve feridos, mas o trauma nunca seria superado pelos estrangeiros. Fez-se ali a primeira mudança no corpo diretivo da Companhia. Entre 1928 e 1930, viriam outras três.
     Não bastassem os problemas locais, houve os impactos da crise global de 1929. Nos Estados Unidos, a Ford Motor Company amargou uma queda de quase 50% na produção de automóveis. Mesmo diante dessa nova realidade, Henry Ford garantiu recursos para que o projeto seguisse adiante. Ao final de 1930 surgia Fordlândia, um projeto de plantação de seringueiras em uma pequena cidade de aparência norte-americana, com seus hidrantes vermelhos nas calçadas, em plena selva amazônica. Mas as riquezas imaginadas por Henry Ford estavam longe de se concretizar: as seringueiras não produziam borracha (inicialmente por serem jovens demais, depois, por conta de ataques de fungos e de insetos), os minérios e as pedras preciosas não foram encontrados, e a madeira, único produto rentável, era agora taxada pelo governo paraense.
     Tantas insatisfações se refletiram na relação dos patrões com os funcionários. Os estrangeiros achavam os brasileiros preguiçosos e passaram a chamá-los com apelidos relacionados à cor da pele e à baixa estatura – foi comum o uso do termo “demente”. Enquanto isso, o Departamento Sociológico tentava “civilizar” os trabalhadores, impondo-lhes restrições ao modo de vida. Visitavam as residências para verificar condições de higiene, preparação da comida, lavagem e secagem das roupas, se as vacinas estavam em dia. Chegavam a ponto de indagar sobre a vida sexual do casal. Outra questão que irritava os brasileiros era a obrigatoriedade de comer apenas comida genuinamente norte-americana. O peixe e a farinha não se encontravam disponíveis nos refeitórios, mas derivados de soja (leite, doces, margarinas) vindos dos Estados Unidos eram frequentes nos cardápios.
     Em dezembro de 1930 irrompeu a segunda revolta dos brasileiros. Os norte-americanos foram ameaçados por trabalhadores portando porretes, facões e machados. De novo, sem feridos. Mas nas instalações de Fordlândia a destruição foi enorme: tratores e caminhões jogados no rio Tapajós, vidros das instalações industriais quebrados, louças do refeitório pisoteadas. A Polícia Militar do Pará foi chamada para debelar a revolta, mas chegou três dias depois, com a situação já calma.
     O que fazer então? Insistir em Fordlândia ou abandoná-la? A decisão de Henry Ford foi pela reconstrução completa da cidade. Outro dirigente foi enviado de Michigan para a missão. Archibald Johnston fez um belo trabalho, instalando um hospital que se tornaria referência nacional, sistema de captação, filtragem e cloração da água, saneamento e iluminação da cidade, chegando à construção de um clube social com quadras de tênis e um campo de golfe com 18 buracos. O clube era exclusivo para os estrangeiros, mas várias atividades de lazer passaram a ser oferecidas aos brasileiros: bailes com músicas norte-americanas, cursos de jardinagem, filmes sobre a aerodinâmica dos novos modelos produzidos pela Ford Motor Company. Como bem observou um padre em visita a Fordlândia naquele período, os dirigentes não sabiam em qual país estavam.
     Em 1932, havia 4 mil hectares de seringueiras em Fordlândia quando o fungo Microcyclus ulei atacou e causou o chamado “mal das folhas”, destruindo praticamente toda a plantação. As folhas secaram e as árvores definharam. Ao final, percevejos e lagartas liquidaram o pouco que havia sobrado. Archibald Johnston solicitou a presença de um botânico – incrivelmente, o primeiro enviado pela Ford Motor Company desde o início da plantação das seringueiras! Era tarde demais para Fordlândia: a recomendação foi pelo abandono da plantação. O local seguiria apenas abrigando pesquisas com sementes e mudas. Uma nova cidade deveria ser construída e uma nova plantação de seringueiras iniciada. Henry Ford não desistiu: garantiu que recursos financeiros não faltariam.
     A nova plantação foi iniciada aproximadamente a 100 quilômetros descendo o rio Tapajós, onde hoje se localiza a cidade de Belterra. O golpe final veio em 1942, quando uma severa infestação reduziu os seringais à metade. O desânimo ficou patente nos norte-americanos. O país havia entrado na Segunda Guerra Mundial, Henry Ford estava cada vez mais senil e no ano seguinte faleceria seu único filho, Edsel Ford. Em 1945, quando Henry Ford II, filho de Edsel, assumiu o comando da Ford Motor Company, um de seus primeiros atos foi vender Fordlândia e Belterra. O governo brasileiro pagou US$ 250 mil pelas instalações que, segundo os norte-americanos, valiam trinta vezes mais.
     Hoje, Fordlândia é um distrito do município de Aveiro. Para chegar até lá, o viajante pode tomar um dos barcos que ligam diariamente Santarém, Aveiro e Itaituba. A viagem de barco-motor entre Santarém e Fordlândia leva cerca de 12 horas. Fora do período de chuvas, é possível hoje utilizar um carro 4x4 e, segundo locais, percorrer o trecho em até oito horas. Fordlândia conta com menos de mil habitantes e vive das pensões pagas pelos governos e das lembranças do passado. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ainda não conseguiu proteger as construções na região, quase todas em franca deterioração pelas chuvas e a umidade e sofrendo com furtos. Em 2012, desabou o antigo hospital construído pelos norte-americanos.
     Estima-se que a Ford Motor Company tenha investido, em valores atuais, cerca de US$ 1 bilhão em Fordlândia e Belterra. Como retorno, conseguiu produzir e enviar para os Estados Unidos menos de mil toneladas de borracha natural. Henry Ford recusou todos os convites posteriores de governantes e empresários brasileiros para que visitasse o Brasil – em particular, seus fracassados investimentos no Pará.

Antonio Marcos Duarte Jr. é professor do Ibmec/RJ e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Saiba Mais - Bibliografia
CRULS, Gastão. “Impressões de uma Visita à Companhia Ford Industrial do Brasil”. Revista Brasileira de Geografia, nº 1, p. 3-22, 1939.
GALEY, John. “Industrialist in the Wilderness: Henry Ford's Amazon Venture”. Journal of Interamerican Studies and World Affairs, nº 21 (2), p. 261-289, 1979.
RUSSELL, Joseph A. “Fordlândia and Belterra: Rubber Plantations on the Tapajós River”. Economic Geography, nº 18 (2), p. 125-145, 1942.
WEINSTEIN, Barbara. The Amazon Rubber Boom – 1850-1920. Redwood City, California: Stanford University Press, 1983.

quinta-feira, 19 de março de 2015

A História Da Pobreza - Porque Pobreza?

A pobreza sempre fez parte de nossas vidas, mas nossas atitudes em relação a ela mudaram. Iniciando no período Neolítico, o filme de Ben Lewis, narrado por Shaun Parkes e animado pela empresa holandesa Submarine, nos leva a diferentes momentos da miséria no mundo. Se você sonhasse que ficou pobre ao longo dos tempos, ao acordar, qual seria sua visão da pobreza? Claro que ainda existem pessoas muito pobres, mas a pobreza atual está mais relacionada à desigualdade...

domingo, 15 de junho de 2014

Brasil no Olhar dos Viajantes

     O que nos define como brasileiros? Nossa alegria? Nosso “jeitinho”? Nossa cordialidade? O Brasil é formado por muitos Brasis. Já foi Pindorama, português e também espanhol, francês e holandês. Esta pluralidade é característica da nossa história.
     Povo alegre, festivo, preguiçoso, leviano, tosco, atrasado. Estes eram alguns dos termos usados por viajantes estrangeiros para descrever o jeito dos brasileiros na época da Colônia e do Império. Desde o século XVI, naturalistas de passagem pelos trópicos escreviam relatos sobre o clima, doenças e a precária infraestrutura, além de destacar a beleza natural da fauna e flora, assim como a hospitalidade dos moradores.
     Durante muitas décadas, a imagem do Brasil foi construída pelo olhar estrangeiro. Fosse por meio de documentos escritos ou através de desenhos e pinturas. Foi apenas no século XIX que o país começou a escrever sua própria História – ainda que sob influência do pensamento Ilustrado.
     A produtora do material, Lorena Maria e Silva, conta que, inicialmente, a equipe da TV Senado pensou em produzir apenas um documentário, mas se deparou com uma riqueza tão grande de fontes e pluralidade de temas, que decidiu desmembrar a ideia e prolonga-la numa série. A produção também conta com depoimentos atuais de historiadores e sociólogos.
Direção: João Carlos Fontoura
Ano: 2012-2014
Áudio: Português
Duração: 60 minutos/cada Episódio
Clique no nome do episódio para assistir On-Line

Nesse episódio será abordado os viajantes e aventureiros que vieram para o Brasil pouco antes na descoberta do continente americano e logo depois do descobrimento do Brasil. Os relatos dessa época, privilegiam a natureza exuberante e o habitante exótico e selvagem representado pela figura do índio.

Esse episódio retrata a missão religiosa na França Equinocial, a colonização holandesa em Pernambuco e a passagem de vários navegadores e comerciantes franceses e ingleses no litoral da Bahia, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Esses navegadores, em passagens pela costa brasileira, fazem descrições sobre os hábitos, sobre as cidades litorâneas e sua organização, sobre a relação entre colonos e escravos. Descrevem também o comportamento feminino e o caráter dos então habitantes do Brasil.

Esse episódio traz as missões artísticas, as expedições e os relatos de viajantes que vieram para o Brasil depois da vinda da família da real e do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas.

O quarto episódio da série Brasil no Olhar dos Viajantes apresenta as viagens e expedições científicas dos estrangeiros que percorreram o país no século XIX e mostra a influência que seus relatos tiveram na construção da identidade nacional.

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domingo, 1 de setembro de 2013

Breve inventário da desigualdade planetária

Novo vídeo revela dados chocantes sobre injustiças globais. Exemplo: trezentas pessoas mais ricas da Terra têm mais que populações do Brasil, Índia, China e EUA, juntas. 
     A crise do capitalismo e as revoltas populares que varrem o mundo vêm trazendo à consciência coletiva a desigualdade entre países e seres humanos. Os governos dos países ricos gostam de dizer que ajudam os países pobres, mas todo ano tiram, destes, dez vezes mais do que põem em forma de ajuda ao desenvolvimento. Eles se comprometeram a ajudar os pobres com cerca de 130 bilhões de dólares por ano, mas esse compromisso não vem sendo honrado: em 2012 a ajuda ao desenvolvimento registrou queda pelo segundo ano consecutivo, em razão das medidas de “austeridade” adotadas na zona do euro – segundo informação da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
     A despeito dessa ajuda, a desigualdade continua crescendo. Uma das razões é que as grandes corporações estão levando mais de 900 bilhões de dólares anuais dos países pobres por meio de uma forma de evasão fiscal conhecida por “trade mispricing” (manipulação de preços comerciais). Além disso, os países pobres estão pagando aos ricos cerca de 600 bilhões de dólares em serviço da dívida – empréstimos que já foram quitados muitas vezes.
     E depois há o dinheiro que os países pobres perdem em negociações realizadas sob regras comerciais impostas pelos países ricos. As políticas neoliberais que instituições internacionais como Banco Mundial, FMI e Organização Mundial do Comércio impuseram aos países em desenvolvimento nas últimas décadas tiveram por objetivo forçar a liberalização dos mercados, de modo a dar às corporações multinacionais acesso sem precedentes a recursos naturais, terra e mão de obra barata. Os países pobres foram subtraídos em cerca de 500 bilhões de dólares por ano em consequência dessas políticas, de acordo com o economista Robert Pollin, da Universidade de Massachusetts.
     Tudo somado, são aproximadamente 2 trilhões de dólares que saem das áreas mais pobres do mundo, todos os anos – o que leva a pensar que alguma coisa está errada com os fundamentos da economia global.
Números da desigualdade
     Os números mostram a que extremo chegamos: as 200 pessoas mais ricas do mundo detêm cerca de 2,7 trilhões de dólares – mais riqueza do que as 3,5 bilhões mais pobres, que, juntas, somam 2,2 trilhões de dólares. Em números redondos, as 300 pessoas mais ricas da Terra têm riqueza maior do que as 3 bilhões mais pobres – quase metade da população mundial. Dito de outra forma, um pequeno grupo de pessoas, não mais que o necessário para encher um avião comercial, possui mais riqueza que as populações do Brasil, da Índia, da China, dos Estados Unidos – juntas.

     Esse é o tema do vídeo de animação Change the Rules (Mude as Regras) – aqui legendado em português – realizado pelo coletivo britânico The Rules sobre a questão da desigualdade global. Ligado ao movimento Occupy, o grupo “busca mudar políticas, práticas e crenças que criam desigualdade e pobreza”.

sábado, 20 de abril de 2013

Antropofagias: a amorosa tapuia e a vingativa tupi.

“Viagem à Terra do Brasil”
Jean de Léry
Capítulo XV

De como os americanos tratam os prisioneiros de guerra e das cerimônias observadas ao matá-los e devorá-los.
     Resta saber agora como são tratados os prisioneiros. Logo depois de chegarem são não somente bem alimentados, mas ainda lhes concedem mulheres (mas não maridos às prisioneiras), não hesitando os vencedores em oferecer a própria filha ou irmã em casamento. Tratam bem o prisioneiro e satisfazem-lhe todas as necessidades. Não marcam antecipadamente o dia do sacrifício; se os reconhecem como bons caçadores e pescadores e consideram as mulheres boas para tratar das roças ou apanhar ostras conservam-nos durante certo tempo; depois de os engordarem matam-nos afinal e os devoram em obediência ao seguinte cerimonial.
     Todas as aldeias circunvizinhas são avisadas do dia da execução e breve começam a chegar de todos os lados homens, mulheres e meninos. Dançam então o cauinam. O próprio prisioneiro, apesar de não ignorar que a assembleia se reúne para seu sacrifício dentro de poucas horas, longe de mostrar-se pesaroso enfeita-se todo de penas e salta e bebe como um dos mais alegres convivas. Depois de ter comido e cantado durante seis ou sete horas com os outros, é ele agarrado por dois ou três dos personagens mais importantes do bando e sem que oponha a menor resistência, é amarrado pela cintura com cordas de algodão ou de fibra de uma árvore a que chamam vyire, semelhante à nossa tília. Deixam-lhe os braços livres e o fazem passear assim pela aldeia, em procissão, durante alguns momentos.
     Não se imagine, porém que o prisioneiro com isso se deprima. Ao contrário, com audácia e incrível segurança jacta-se das suas proezas passadas e diz aos que o mantém amarrado: "Também eu, valente que sou já amarrei e matei vossos maiores".
     Cada vez mais feroz volta-se para ambos os lados exclamando para uns e outros: "Comi teu pai, matei e moqueei teus irmãos; comi tantos homens e mulheres, filhos de vós outros tupinambás, a que capturei na guerra, que nem posso dizer-lhes os nomes; e ficai certos de que para vingar a minha morte os maracajás da nação a que pertenço hão de comer ainda tantos de vós quantos possam agarrar".
     Em seguida, após ter estado assim exposto às vistas de todos, os dois selvagens que o conservam amarrado afastam-se dele umas três braças de ambos os lados e esticam fortemente as cordas de modo a que o prisioneiro fique imobilizado. Trazem-lhe então pedras e cacos de potes; e os dois guardas, receosos de serem feridos, protegem-se com rodelas de couro de tapiruçu e dizem-lhe: "Vinga-te, antes de morreres". Começa o prisioneiro a atirar projéteis com todas as suas forças contra os que ali se reúnem em torno dele, algumas vezes em número de três ou quatro mil. E é desnecessário dizer que não escolhe suas vítimas.
     Com efeito, estando eu numa aldeia chamada Sariguá, vi um prisioneiro lançar uma pedra com tanta violência na perna de uma mulher que supus havê-la quebrado. Esgotadas as provisões de pedras e cacos e de tudo que o prisioneiro pode apanhar junto de si, o guerreiro designado para dar o golpe, e que permanecera longe da festa, sai de sua casa, ricamente enfeitado com lindas plumas, barrete e outros adornos; e armado de um enorme tacape aproxima-se do prisioneiro e lhe dirige as seguintes palavras: "Não és tu da nação dos maracajás, que é nossa inimiga? Não tens morto e devorado aos nossos pais e amigos?"
     O prisioneiro mais altivo do que nunca, responde no seu idioma (maracajás e tupiniquins se entendem reciprocamente) "pa, che tan tan ajucá atupavé"- "Sim, sou muito valente e realmente matei e comi muitos".
     Em seguida, para excitar ainda mais a indignação do inimigo, leva as mãos à cabeça e exclama: "Eu não estou a fingir, fui com efeito valente e assaltei e venci os vossos pais e comi". E assim continua até que seu adversário, prestes a matá-lo, exclama: "Agora estás em nosso poder e serás morto por mim e moqueado e devorado por todos". [...] a vítima ainda responde: "Meus parentes me vingarão".
     Embora os selvagens temam a morte natural, os prisioneiros julgam-se felizes por morrerem assim publicamente no meio de seus inimigos, não revelando nunca o mínimo pesar [...].
      [...]. O selvagem encarregado da execução levanta então o tacape com ambas as mãos e desfecha tal pancada na cabeça do pobre prisioneiro que ele cai redondamente morto sem sequer mover braço ou perna. [...] O executor costuma bater com tal destreza na testa ou na nuca que não se faz necessário repetir o golpe e nem a vítima perde muito sangue.
     Imediatamente depois de morto o prisioneiro, a mulher (já disse que a concedem a alguns) coloca-se junto do cadáver e levanta curto pranto; [...] lamenta-se e derrama fingidas lágrimas sobre o marido...
     Todas as partes do corpo, inclusive as tripas depois de bem lavadas, são colocadas no moquém, em torno do qual as mulheres, principalmente as gulosas velhas, se reúnem para recolher a gordura que escorre pelas varas dessas grandes e altas grelhas de madeira; e exortando os homens a procederem de modo que elas tenham sempre tais petiscos, lambem os dedos e dizem: iguatu, o que quer dizer “está muito bom”.

LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

Vingança e frenesi no banquete tupi
Ronald Raminelli

     Depois de morto, a carne era dividida entre músculos e entranhas. As partes duras eram moqueadas (secadas) e consumidas pelos homens; mulheres e crianças ingeriam as partes internas cozidas em forma de mingau. O matador, sempre masculino, não participava do banquete, entrava em resguardo e trocava de nome. Com a colonização, esse rito foi paulatinamente abandonado, provocando, segundo Eduardo Viveiros de Castro, a perda de uma dimensão essencial da sociedade tupinambá: a identidade. O antropólogo ainda comenta que a repressão ao canibalismo não foi o único motivo para o abandono. Os europeus passaram a ocupar o lugar e as funções dos inimigos, alterando a lógica do ritual.
     As mulheres exerciam importantes tarefas durante as festas canibalescas. Alemão quinhentista preso pelos tupinambás, Hans Staden escreveu que as índias pintavam os prisioneiros ainda vivos e depois exibiam-nos mortos, percorrendo a aldeia com suas pernas e braços retalhados. O sacrifício provocava nas mulheres muito prazer e ansiedade, queriam logo provar da carne do guerreiro inimigo. Para demonstrar tais sentimentos, elas gesticulavam, mordiam as mãos e braços, se contorciam, cantavam e bailavam, enquanto as demais espetavam com paus as partes decepadas sob a fogueira.
     O padre José de Anchieta, jesuíta do século XVI, descreveu como as nativas untavam mãos, caras e bocas com as gorduras desprendidas do "assado", colhiam o sangue com as mãos e o lambiam. Para os religiosos da época, por certo com uma visão depreciativa da mulher; a ingestão de carne humana deixava marcas profundas na fisionomia das mulheres canibais que logo envelheciam. As rugas e os odores malcheirosos tinham origem nesses "costumes abomináveis". A decrepitude e a decadência físicas das velhas revelavam o "terrível hábito" de comer carne e roer ossos humanos. Seios caídos, rostos enrugados, corpos em franco processo de degeneração somavam-se a dentes mais do que deteriorados. A alma pecadora provocava a degradação do corpo enquanto os santos, quando mortos, exalavam odores de rosas. Esse preconceito, por certo, dificulta nossa compreensão da real participação das mulheres no canibalismo, embora nos permita entender a cultura europeia na época da conquista da América.

Canibalismo em nome do amor
Mães devoravam filhos mortos, viúvas comiam os maridos, filhos banqueteavam-se com os pais. Nem sempre a antropofagia originava-se da luta entre rivais, poderia ser cerimônia fúnebre.

     Segundo os cronistas do século XVII, ao nascer uma criança, cortava-se o cordão umbilical com um caco afiado e depois cozinhava-o para que a mãe o comesse juntamente com o pelico (placenta). Caso uma mulher abortasse, imediatamente o feto era devorado, pois alegavam que não poderiam dar-lhe melhor túmulo. Por certo, as entranhas de onde veio - o corpo da mãe - eram preferíveis a cova na terra. Depois da morte de uma criança, os índios choravam a perda, em seguida, cortavam a cabeça e retalhavam o corpo, inserindo tudo em uma panela. Muitos parentes eram convidados para o evento e juntos comiam a falecida. Ao termino da refeição, punham -se a gritar e a chorar.
     Aos sacerdotes cabia talhar, membro a membro, os mortos, fossem eles abatidos nas guerras ou acometidos por morte natural. Enquanto isso, as velhas acendiam a fogueira para assar os membras e todos juntos celebravam o "enterro" com lagrimas e lamentações. As mulheres comiam as carnes do esposo, as raspavam até os ossos, não em sinal de inimizade, mas de afeto e fidelidade. Os cadáveres dos grandes chefes eram consumidos pelos demais chefes. Não ingeriam todo o corpo e guardavam cuidadosamente os ossos ate a celebração do festim solene seguinte, pois somente em rituais era possível a antropofagia. Na ocasião, os ossos tornavam-se carvão, raspados em seguida para serem reduzidos a pó e dissolvidos em agua. O mesmo se fazia com os cabelos do defunto. Os parentes bebiam essa mistura e não voltavam a suas danças e cantos depois de consumirem todos os restos do cadáver.
     Os cronistas procuram enfatizar as fronteiras entre a antropofagia amorosa tapuia e a vingativa tupi. O dado permite entender a tela de Albert Eckhout de modo diverso. A índia tarairiu carrega consigo partes do corpo humano e próxima à nativa encontrasse uma cena de guerra. Em principio, a mão e o pé decepados, em poder da mulher, pertenceriam ao inimigo morto no combate. Os relatos sabre a antropofagia tapuia permitem, porem, traçar outras relações. Assim, as partes do corpo pertenciam a um parente: irmão, marido ou filho da índia. O campo de guerra é o local de morte de um guerreiro da tribo e a índia carrega seus restos mortais para serem consumidos na aldeia em sinal de afeto e fidelidade.

RONALD RAMINELLI é professor de História Moderna, História da América e do Brasil Colonial na Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de Imagens da colonização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

Saiba Mais - Filmes
Como Era Gostoso o Meu francês
No Brasil de 1594, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes, no caso saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás e se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado e decide fugir. A índia se recusa a segui-lo e após a batalha com a tribo inimiga, o chefe Cunhambebe marca a data da execução: o ritual antropofágico será parte das comemorações pela vitória.
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 1971
Áudio: Português / Tupi / Francês
Duração: 84 minutos


Hans Staden
Hans Staden (Carlos Evelyn) é um imigrante alemão que naufragou no litoral de Santa Catarina (1550). Dois anos depois, chegou a São Vicente, concentração da colônia portuguesa no Brasil, onde trabalhou por mais dois anos, visando juntar dinheiro para retornar à Europa. Neste tempo em que viveu em São Vicente, Staden passou a ter um escravo da tribo Carijó, que o ajudava. Preocupado com seu sumiço repentino após ter ido pescar, Staden parte em sua procura, sendo encontrado por sete índios Tupinambás, inimigos dos portugueses, que o prendem no intuito de matá-lo e devorá-lo. É a partir de então que passa a ter que arranjar meios para convencer os índios a não devorá-lo e permanecer vivo. O filme aborda os primórdios da colonização, envolvendo o povo indígena Tupinambá, que então habitava o litoral brasileiro. Conta a história do alemão capturado pelos Tupinambás da Aldeia de Ubatuba, litoral de São Paulo, onde seria devorado em ritual antropofágico. O projeto do filme começou em janeiro de 1996. Da preparação para as filmagens constaram, entre outras coisas, os ensaios com os atores para o aprendizado da língua Tupi e a construção de uma réplica de Aldeia Tupinambá do século XVI em Ubatuba. Também foram rodadas cenas no Forte Bertioga, em trilhas, rios, matas, em canoas no mar e em Lisboa, Portugal, na Caravela Boa Esperança.
Direção: Luiz Alberto Pereira
Ano: 1999
Áudio: Português / Tupi / Alemão
Duração: 92 minutos

quinta-feira, 21 de março de 2013

Muito Além do Peso (Way Beyond Weight)

Obesidade, a maior epidemia infantil da história.

"Um filme obrigatório para qualquer pessoa que se importe com a saúde das nossas crianças" Jamie Oliver

"Gostaria que esse filme passasse em cada sala de aula do Brasil" - Frei Betto 

Pela primeira vez na história da raça humana, crianças apresentam sintomas de doenças de adultos. Problemas de coração, respiração, depressão e diabetes tipo 2.
Todos têm em sua base a obesidade.
O documentário discute por que 33% das crianças brasileiras pesam mais do que deviam. As respostas envolvem a indústria, o governo, os pais, as escolas e a publicidade. Com histórias reais e alarmantes, o filme promove uma discussão sobre a obesidade infantil no Brasil e no mundo.
Com: Jamie Oliver, Amit Goswami, Frei Betto, Ann Cooper, William Dietz, Walmir Coutinho, entre outros.
Direção: Estela Renner
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 84 minutos
Tamanho: MB