"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Maio de 68

A série "Maio de 68" da TV CULTURA aborda os movimentos sociais e estudantis que ocorreram em todo mundo no ano de 1968. No dia 03 de maio de 1968, data que estudantes franceses ocuparam a Sorbonne, universidade mais tradicional da França e que serviu como estopim para outras manifestações importantes em todo o país.
1. MAIO DE 68 | O INÍCIO DOS MOVIMENTOS UNIVERSITÁRIOS
Há 50 anos, os jovens universitários de Paris davam início ao movimento de 68, que provocou mudanças em várias partes do mundo. A TV Cultura dá início a uma série de reportagens sobre este fato histórico. Os repórteres Rodrigo Piscitelli, de São Paulo, e Carla Destro, de Paris, contam como tudo começou.

2. MAIO DE 68 | MOVIMENTOS EM PARIS E A DITADURA MILITAR NO BRASIL
Enquanto em Paris os jovens saiam às ruas para reivindicar liberdade sexual, no Brasil começava a fase mais sombria da ditadura.

3. MAIO DE 68 | A IMPRENSA BRASILEIRA
O que acontece hoje em dia é bem diferente de cinquenta anos atrás, quando as notícias eram transmitidas por telex. Acompanhe como a imprensa brasileira cobriu os acontecimentos importantes daquele ano na França e no Brasil.

4. MAIO DE 68 | MUDANÇAS COMPORTAMENTAIS E AVANÇOS DOS DIREITOS HUMANOS
O movimento de maio de 1968 em Paris ultrapassou os limites da França. Provocou mudanças de comportamento e avanços dos direitos humanos ao redor do mundo. Cinquenta anos depois, o que se consolidou e o que retrocedeu na sociedade?

5. MAIO DE 68 | COMO SÃO OS PROTESTOS NO MUNDO CADA VEZ MAIS DIGITALIZADO?
A revolta dos estudantes em Paris reverberou pelo mundo como estopim de uma revolução comportamental. Hoje, as redes sociais são o chamariz para que as pessoas ocupem as ruas.

Fonte: TV CULTURA

quinta-feira, 3 de março de 2016

Os EUA contra a esquerda: teoria conspiratória?
É tolo pensar que, por trás das crises vividas pelos governos sul-americanos, há apenas o dedo de Washington. Mas é ingênuo desconsiderá-lo, mostra a História.
     “A todo momento — escreveu em 1959 o jornalista Herbert Matthews — a questão se coloca: se não tivéssemos a América Latina do nosso lado, nossa situação seria dramática. Sem acesso aos produtos e ao mercado latino-americano, os EUA seria reduzidos ao status de potência de segunda classe”. (The New York Times, 26 de abril, 1959). Desta preocupação surge, no início do século XIX, a imagem da região como um “quintal”, que os EUA devem proteger — e submeter — custe o que custar.   O projeto, inicialmente, tem o verniz de uma preocupação solidária: em 1823, o presidente James Monroe condena o imperialismo europeu e proclama “a América para os americanos”. Porém, sua doutrina logo transforma-se num instrumento de dominação do Norte sobre o Sul do continente.
     Às vezes violento, às vezes discreto, o expansionismo dos EUA na América Latina molda de tal modo a história do continente que diversos intelectuais continuam a ver a mão invisível de Washington por trás de cada obstáculo que faz as forças progressistas da região tropeçarem. Quando procuram os responsáveis por seus problemas domésticos, alguns governos latino-americanos flertam às vezes com teorias conspiratórias. Porém, é preciso notar que o sentimento anti-yankee não caiu do céu no continente de José Marti (1): resulta de mais de 150 anos de ingerência real, de inúmeros golpes e complôs, manifestações de uma vontade de hegemonia que viveu diversas transformações históricas.
     Entre 1846 e 1848, o México viu metade de seu território ser anexado pelo seu vizinho ao norte. Entre 1898 e 1934, os militares norte-americanos interviram 26 vezes na América Central: derrubaram presidentes, instalando outros em seu lugar; foi a época do domínio sobre Cuba e Porto Rico (1898); e assumiram o controle do canal interoceânico da antiga província colombiana do Panamá (1903). Abre-se, então, uma fase de imperialismo militar, que seria sucedida pela “diplomacia do dólar” e a captura dos recursos naturais por empresas como a United Fruit Company, fundada em 1899.
     A caixa de ferramentas imperiais de Washington não parece necessariamente a um arsenal militar. Em 1924, Robert Lansing, secretário de Estado do presidente Woodrow Wilson observa: “Devemos abandonar a ideia de instalar um cidadão americano na presidência mexicana, ou seremos levados inevitavelmente a uma nova guerra. A solução requer mais tempo. Devemos abrir as portas de nossas Universidades aos jovens mexicanos ambiciosos e ensinar-lhes nosso modo de vida, nossos valores assim como o respeito a nossa ascendência política. (…) Em poucos anos, esses jovens ocuparão cargos importantes, começando com a presidência. Sem que os Estados Unidos tenham que gastar um único centavo ou disparar um único tiro. Assim, eles farão o que queremos e eles farão melhor e de modo mais entusiasmado do que faríamos nós mesmos”(2). As universidades abrem-se, sem que se abandonem as táticas militares. Em 1927, na Nicarágua, os marines criam a Guarda Nacional, à frente da qual instalam o futuro ditador Anastásio Somoza.
     Com a Guerra Fria, Washington desenvolveu uma nova doutrina chamada de “segurança nacional”. O choque causado pela Revolução Cubana (1959), a formação de guerrilhas marxistas – em El Salvador e Colômbia, em particular –, a disseminação da Teologia da Libertação, a tentativa de um “caminho chileno ao socialismo” (1970-1973) e a insurreição sandinista na Nicarágua (1979) incitaram as cruzadas anticomunistas dos EUA.
     Como revelam cruamente milhares de arquivos, hoje retirados de sigilo, a CIA, Agência Central de Inteligência – fundada em 1947 – e o Pentágono mostram-se dispostos a tudo: campanhas midiáticas de desestabilização, financiamento de opositores, estrangulamento econômico, infiltração de forças armadas e financiamento de grupos paramilitares contrarrevolucionários. Os EUA apoiaram ativamente os golpes de Estado que ensanguentaram a região (Guatemala em 1954, Brasil em 1964, Chile em 1973, Argentina em 1976 e outros) e as  tentativas de invasão militar (Cuba em 1961, e Republica Dominicana em 1965…).    Sozinho, Fidel Castro, teria sido alvo de 638 tentativas de assassinato entre 1959 e 2000. Veneno, armadilhas em charutos e aparelhos fotográficos: a imaginação dos serviços secretos parece não ter limites. Os EUA encarregaram-se também de treinar centenas de oficiais latino-americanos na Escola das Américas. Destacaram agentes e financiaram o material (rádios, manuais de interrogatório) para a Operação Condor. Lançada em 1975, ela foi uma autêntica transacional de ditaduras no Cone Sul, encarregada de caçar, torturar e executar opositores em todo o mundo (3).
     Nesta área, a ação do governo Richard Nixon (1969-1974) contra o presidente chileno Salvador Allende representa um caso exemplar. Antes mesmo do líder socialista assumir o cargo, em 3 de novembro de 1970, a CIA, a embaixada norte-americana e o Secretário de Estado Henry Kissinger organizaram uma vasta rede clandestina de operações para derrubar o governo. A partir de outubro, a CIA entra em contato com os militares golpistas, entre eles o general Roberto Viaux.  Paralelamente, medidas de boicote econômico internacional e sabotagem (como o financiamento da greve dos caminhoneiros em outubro de 1972) agravam a situação doméstica. Os dirigentes mais conservadores da democracia-cristã e da direita chilena beneficiam-se de um generoso apoio, assim como a imprensa da oposição.  Segundo um relatório do Senado dos EUA “a CIA gastou 1,5 milhões de dólares para financiar El Mercurio, principal jornal do país e canal importante de propaganda contra Allende” (4). Agustin Ewards, seu proprietário desde então, está entre os ex-funcionários da CIA.
     Com o fim da guerras civis na América Central e os processos de redemocratização no Sul, os EUA mudam sua melodia. Na década de 1990, a promoção do “Consenso de Washington” (5) e o surgimento de governos neoliberais na região permitiram-lhes firmar sua hegemonia através da defesa do mercado. Em 1994, o presidente Bill Clinton propôs a criação de uma zona de “livre comercio” das Américas (ALCA). “Nosso objetivo é garantir às empresas dos EUA o controle do território que vai do polo norte à Antártida” (6), declarou alguns anos mais tarde o secretário de Estado Colin Powell. Mas Washington não contava com a rejeição popular de suas pautas políticas, nem com a ascensão dos governos progressistas na região. Em 2005, o projeto da ALCA é rejeitado. A integração dos países da região intensifica-se para desconforto dos EUA, mantidos de fora. Criam-se a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) em 2008 e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac) em 2010.
     Barack Obama não rompeu com alguns fundamentos. Os memorandos da “estratégia de segurança nacional”, escritos em 2010 e em 2015, sublinharam que a América Latina continua sendo uma prioridade para os EUA, em particular em termos de fornecimento de energia – daí a obsessão de Washington com a Venezuela – e o controle militar do continente. Após 2008, foram inauguradas novas bases militares (sob direção do Comando Sul do Exército dos EUA) e sistemas de vigilância eletrônica, graças a aliança inabalável com a Colômbia. Especialistas do Pentágono ainda enxergam a região segundo os preceitos estabelecidos por Nicholas Spykman em 1942 (7): de um lado, uma zona de influência direta integrando o México, o Caribe e a América Central; de outro, os grandes Estados da América do Sul (em especial o Brasil, o Chile e a Argentina), cuja união é preciso impedir.
     Para isso, o estímulo a acordos de livre comércio é considerado, em última análise, mais eficaz do que as formas diretas de intervenção (ler “Miragens do livre-comércio”). A recente reaproximação entre Washington e Havana, que visa romper o crescente isolamento dos Estados Unidos na região abrindo ao mesmo tempo um novo mercado, também insere-se nesta perspectiva. Diante de uma América multipolar, cada vez mais voltada à Ásia e agitada por muitos movimentos sociais de resistência, os EUA escondem-se por trás da diplomacia.
     Assim, a luta contra os governos latino-americanos considerados populistas repousa, principalmente, no poder de influência: o soft power da opinião através dos meios de comunicação privados e o desenvolvimento de certas ONGs e fundações que recebem milhões de dólares para “sustentar a democracia” inspirando-se no modelo das “Revoluções Coloridas” que aconteceram no leste europeu. No último 12 de março, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, denunciou o papel de Miriam Kornblith, diretor da América Latina na National Endowment for Democracy (NED), no financiamento da oposição, sindicatos e associações anti-chavistas.
     Bravatas bolivarianas? A conferir. Em 31 de maro de 1997, o New York Times informou que a NED foi criada para pensar uma “maneira de realizar publicamente o que a CIA tinha realizado em sigilo durante décadas”. Os documentos revelados pelo Wikileaks mostram que os EUA financiaram a oposição venezuelana desde a chegada de Hugo Chavez ao poder em 1998 (8). Em 2013, o presidente equatoriano Rafael Correa congelou, por sua vez, toda as atividades de cooperação com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), enquanto seu homólogo boliviano, Evo Morales, expulsou esta organização “independente”, considerando que ela “conspirava” contra si.
     O Departamento de Estado não abandou seus velhos hábitos, como evidencia notoriamente o golpe de estado contra Chavez em abril de 2002. Em Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012, os “golpes institucionais” favoreceram as oligarquias locais alinhadas com Washington (9). A estratégia consiste em destituir os dirigentes democraticamente eleitos, mas considerados muito insubordinados, com apoio de parte dos parlamentos nacionais. Conspiração ou arte de manejar a correlação de forças? A diferença pode ser tênue…

Franck Gaudichaud é Professor da Universidade de Grenoble-Alpes e vice-presidente da Associação America France-Latina (FAL).
(1) José Martí (1853-1895), fundados do Partido Revolucionário Cubano, é um dos heróis da independência da América Latina.
(2) Citado por James D. Cockcroft, Mexico’s Revolution. Then and Now, Monthly Review Press, New York, 2010.
(3) Cf. John Dinges, Les Années Condor. Comment Pinochet et ses alliés ont propagé le terrorisme sur trois continents, La Découverte, Paris, 2008.
(4) « Covert Action in Chile. 1963-1973 » (PDF), Relatório Church, Senado dos Estados Unidos, Washington, DC, 1975.
(5) Ler Moisés Naim, « Avatars du“consensus de Washington” », Le Monde diplomatique, mars 2000.
(6) « Les dessous de l’ALCA (Zona de livre-comercio Americano) »,Alternatives Sud, vol.10, no1, Centre tricontinental (Cetri), Louvain-la-Neuve (Belgique), 2003.
(7) Nicholas Spykman, America’s Strategy in World Politics : The United States and the Balance of Power, Harcourt, New York, 1942.
(8) Jake Johnston, « Whatthe Wikileaks cables say about Leopoldo López », Center for Economic and Policy Research, Washington, DC, 21 février 2014.
(9) Cf. Maurice Lemoine, Les Enfants cachés du général Pinochet,Don Quichotte, Paris, 2015

Saiba Mais – Links

domingo, 20 de setembro de 2015

Terras para todos

Atraídos pela propaganda oficial, brasileiros de todas as partes tentaram a sorte na Amazónia, no início da ditadura, mas em vez de prosperidade encontraram um território controlado pela violência e trabalho escravo.
Regina Beatriz Guimarães Neto
     Consequências de vários projetos de colonização aprovados pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), tanto oficiais quanto da iniciativa privada, a década de 1970 ficou marcada pela derrubada sem precedentes da floresta amazônica. Grandes clareiras deram lugar, da noite para o dia, a cidades. O barulho das máquinas e de pequenos aviões se somava ao burburinho de homens e mulheres de diversas regiões do Brasil, sobretudo do Sul, que chegavam a lugares tão distantes quanto Rondônia e Mato Grosso seguindo as precárias estradas abertas na mata. Os jornais e as propagandas do governo e das empresas privadas estimulavam esse novo bandeirantismo. Faziam alarde das riquezas da região, da abundância de terras e das inúmeras oportunidades de trabalho que iam surgindo. O que se chamou de "colonização" pelos governos militares se encaixava numa narrativa majestosa sobre a grandeza do Brasil. Era a versão moderna do mito do Eldorado amazônico.
     Esses projetos de colonização passaram a ser um instrumento de poder do Estado para direcionar o deslocamento, sobretudo de pequenos proprietários, do Sul para o Norte. Para a ditadura militar, era prioritário controlar os movimentos sociais no campo. A "questão da terra" era um problema de segurança nacional. Por isso, as empresas de colonização se beneficiaram dos incentivos financeiros do Estado, através da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e da Superintendência do Desenvolvimento Sustentável do Centro Oeste (Sudeco) e outros programas ou projetos governamentais, como o Polocentro, o Proterra, o Polonoroeste e o Prodeagro. Programas desenvolvidos com recursos obtidos pelo governo federal junto ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ou ao Banco Mundial.
     Nos estados que compõem o território amazônico, instaurou-se um grande mercado de terras, em que o governo controlava o acesso, a posse e a distribuição de áreas a serem exploradas. Empresas de colonização, como a Sinop, a Indeco, a Incol, a Codemat, Jurena Empreendimentos e a Colonizadora Líder, entre outras, adquiriam grandes extensões, com mais de 200 mil hectares, através de licitações abertas pelo Estado para a compra de terras devolutas, que podiam ser compradas a preços irrisórios. A Indeco (Integração, Desenvolvimento e Colonização), por exemplo, adquiriu do estado de Mato Grosso, em 1973, para efeito de colonização, 400 mil hectares de terra, a Cr$ 50,00 o hectare. Incorporando terras contíguas, logo apareceria como dona de mais de 1 milhão de hectares, num território encravado em terras indígenas. A colonizadora Sinop adquiriu 650 mil hectares, num primeiro momento, criando três núcleos de colonização, na área coberta pela BR163 (Cuiabá-Santarém).
     Em sua origem, as empresas que se dirigiram para a Amazônia não eram diretamente ligadas ao agronegócio. Algumas pertenciam a capitalistas estrangeiros, interessados em especular com a terra. Estas colonizadoras destinavam apenas uma pequena parte no caso de Alta Floresta (área explorada pela Indeco), mais ou menos 13% de toda a área enquadrada no projeto - para pequenos agricultores. Eram oferecidos lotes com cem hectares, que logo depois iriam sofrer um processo violento de fracionamento, reproduzindo as mesmas condições das quais os colonos haviam fugido do Sul.
     A construção de novas cidades na região foi anunciada como o melhor caminho para o país superar o "atraso". Ser moderno, como preconizava a publicidade oficial, relacionava-se à adoção de novas tecnologias e à expansão dos mercados. A paisagem da floresta era rasgada por estradas. Em propagandas que exaltavam o "corredor de exportação", a BR-163 - Cuiabá-Santarém, as novas cidades são apresentadas como exemplo de progresso. E mostravam seus grandes saltos desde que clareiras foram abertas na selva.
     Desde o primeiro momento da implantação dos projetos de colonização, as plantas cartográficas que mapeavam os lotes urbanos projetavam um território hierarquizado. Separavam por módulos os novos habitantes, circunscrevendo o lugar social de cada colono. Reproduziam-se, no plano da arquitetura urbana, as relações de poder em que as empresas assumiam o controle sobre a circulação e a fixação dos moradores.
      Os desenhos que projetaram a construção das novas cidades na década de 70 podem ser vistos como um símbolo desta ordem social. A cidade de Juína, próxima ao estado de Rondônia, é emblemática. Tem a forma de vários octaedros interligados, cada qual representando um módulo, que por sua vez é dividido em lotes. Estes octaedros que aparecem nas propagandas parecem grandes colmeias, sugerindo, quase instantaneamente, que se trata de uma cidade voltada para o trabalho. O desenho da cidade de Vila Rica, que se situa nos limites com o estado do Pará, foi feito em forma de sino, evocando a religiosidade do período colonial e a ostentação da riqueza aurífera.
     Os núcleos urbanos dos projetos destinados à colonização se envolveram também com a exploração de madeira por grupos nacionais, mais tarde associados a empresas estrangeiras, à pecuária e à mineração. A exploração de ouro no norte de Mato Grosso fez com que, a partir do final da década de 70, houvesse uma verdadeira corrida para os garimpos dentro dos projetos de colonização. Guarantã do Norte, Matupá, Terra Nova e Colider cresceram com os garimpos do rio Peixoto Azevedo e rio Teles Pires. Também foi assim com Alta Floresta, Paranaíta Carlinda e Apiacás, território controlado pelo grupo Paranapanema. Já na parte mais a noroeste do estado, reinava a Sopemi (Sociedade de Pesquisa e Exploração de Minério S/A), subsidiária da De Beers, Consolidated Mines Ltda., nas grandes explorações e pesquisas de diamantes, com sede na cidade de Juína.
    Estas cidades acabaram, assim, apresentando os maiores índices de aumento populacional da Região Amazônica. Só Mato Grosso - após a divisão do estado, em 1977 - contabilizou mais de cem municípios novos até o ano 2000. Os municípios de Sinop (74.831 habitantes), Alta Floresta (46.982), Juína (38.017) e Sorriso (35.605), que surgiram como núcleos de colonização em finais da década de 70, estão entre os maiores índices de crescimento do estado, segundo dados do censo de 2000, do IBGE. No entanto, a "escravidão por dívida" e o não cumprimento dos contratos de trabalho por parte dos patrões continuam sendo práticas usuais na região.
     As colonizadoras e grandes fazendas contratavam a segurança de homens armados. Os herdeiros deste modelo de colonização ainda utilizam instrumentos de vigilância sobre sua área de influência, uns mais explícitos - como retirar os posseiros à força e até mesmo queimando barracos -, e outros menos visíveis, oferecendo-lhes lotes em setores mais afastados, insalubres, sem acesso a nenhuma infraestrutura.
     Nos primeiros momentos da abertura das novas áreas de colonização, as empresas construíram barreiras físicas, de madeira ou cimento, para ter controle sobre a região. Utilizaram também barreiras naturais, como rios de difícil travessia, para impedir a entrada dos colonos sem identidade comprovada ou daqueles considerados indesejáveis. Os moradores de Juína, cidade encravada em território indígena - Cinta-Larga, Enawenê-Nawê, Erikbaktsa e Myky -, se acostumaram a conviver com os "correntões" que ficam presos às guaritas das empresas onde se abrigam sentinelas armadas. Elas se localizam em pontos estratégicos da área de colonização. Ali se exige a identificação dos colonos, geralmente por meio de uma carteirinha fornecida pela empresa.
      Parcela significativa de pequenos agricultores e trabalhadores, que chegaram à região acreditando na possibilidade de adquirir um lote ou sonhando com novas oportunidades de trabalho, acabou descobrindo que a terra prometida era o paraíso da violência social. O trabalho escravo em propriedades rurais e áreas de desmatamento tem sido alvo de constantes denúncias da Comissão Pastoral da Terra e outras entidades.
     Nos relatórios anuais da CPT, os estados do Pará, Maranhão e Mato Grosso lideram os maiores índices de violência no campo desde a década de 70. Esses números refletem um padrão de ocupação e exploração da riqueza na Amazônia criado na época da ditadura, que acaba por destruir a floresta amazônica em nome da construção de novas cidades e estradas.
     Atraídos pelas promessas do Eldorado amazônico, homens e mulheres, em situação de grande pobreza, três décadas e meia depois se deslocam de forma constante pela região em busca de trabalho. Ora atuam nas áreas de mineração, ora participam das derrubadas da floresta. E ainda nas grandes lavouras de soja, algodão e milho. Excluídos do mercado regular de trabalho e sem qualquer documento de identidade, recebem variadas denominações, sempre pejorativas, nos lugares por onde passam. São conhecidos como "peões de trecho", "andarilhos" ou "pés-inchados". Movem-se de uma cidade para outra, mudam de região e de estado. Esses trabalhadores transformam o próprio caminho que percorrem na sua morada. Trabalhar e caminhar, para eles, são sinônimos.

Regina Beatriz Guimarães Neto é professora de História na Universidade Federal de Mato Grosso e autora de A lenda do ouro verde. Política de colonização no Brasil contemporâneo. Cuiabá: Unicen/apoio Unesco, 2002.

Fonte: Revista Nossa História - Ano II nº 19 - Maio 2005

Saiba Mais – Bibliografia
FERREIRA, Eudson de Castro. Posse e propriedade territorial: a luta pela terra em Mato Grosso. Campinas: Editora da Unicamp, 1986.
MARTINS, José de Souza. Fronteira: a degradação do Outro nos confins do humano. São Paulo: HUCITEC, 1997.
OLIVEIRA, Ariovaldo Umbelino de. A fronteira amazônica mato-grossense: grilagem, corrupção e violência. Tese de Livre Docência - Departamento de Geografia, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 1997.

Saiba Mais – Documentários
Mataram Irmã Dorothy
Em fevereiro de 2005, a irmã Dorothy Stang, de 73 anos, foi brutalmente assassinada. Ativista na defesa do meio ambiente e das comunidades carentes exploradas por madeireiros e donos de terra na Amazônia, a freira americana foi morta com seis tiros no interior do Pará. O documentário revela os bastidores do julgamento dos assassinos de Dorothy e investiga as razões de sua morte.
"Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade sem devastar."
Direção: Daniel Junge
Ano: 2008
Áudio: Português - Legendado
Duração: 94 minutos

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

De demolidor a construtor

Depois de notabilizasse como conspirador e destruidor de presidentes, o jornalista e político Carlos Lacerda enfrentou o desafio de transformar em estado a antiga capital da República.
Marly Motta
     Em plena crise do governo Collor, o cartunista Ziraldo publicou na Folha de S. Paulo (4/7/1992) uma charge em que lamentava a falta de um "Carlos Lacerda". Referia-se ao "demolidor de presidentes", símbolo de um tipo de oposição política marcada pela virulência. A lembrança provocou reações contraditórias, devido ao temor dos estragos que a radicalização do lacerdismo poderia infringir às instituições do país.
     Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu em 1914, no Rio de Janeiro. Se, por um lado, era neto de Sebastião Lacerda, prestigiado representante da oligarquia fluminense, por outro era filho de Maurício de Lacerda, político defensor dos direitos dos operários, e sobrinho de Fernando e Paulo Lacerda, líderes do Partido Comunista Brasileiro. Seu nome era uma homenagem a Karl Marx e Friedrich Engels. Em 1934, abandonou o curso de direito para se dedicar à militância na Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização que reunia a oposição de esquerda ao governo Vargas. A violenta repressão ao movimento comunista de novembro de 1935 o levou à clandestinidade até 1938, quando foi trabalhar na revista O Observador Econômico e Financeiro. Um artigo seu, publicado em janeiro de 1939, foi considerado prejudicial ao PCB e provocou sua "expulsão" do partido, do qual, aliás, nunca fora membro. Banido da esquerda, associou ao antigetulismo trazido da juventude um forte anticomunismo.
     Lacerda ganhou notoriedade como jornalista ao publicar no Correio da Manhã, em 22 de fevereiro de 1945, a entrevista com o escritor e político paraibano José Américo de Almeida, em que este, rompendo o bloqueio da censura, criticava o regime ditatorial de Vargas. No mesmo jornal, lançou a coluna "Na tribuna da imprensa", destinada a cobrir os trabalhos da Assembleia Constituinte (1946). Filiado à União Democrática Nacional (UDN), foi o candidato mais votado na eleição de 1947 para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, então Distrito Federal. A experiência parlamentar durou apenas um ano, já que renunciou ao mandato por discordar da Lei Orgânica do DF, que dava aos senadores, e não aos vereadores, o poder de examinar os vetos do prefeito carioca, indicado pelo presidente da República.
     Fora da vida parlamentar, fundou, no final de 1949, seu próprio jornal, a Tribuna da Imprensa, de onde iria comandar uma campanha implacável contra Getúlio Vargas, eleito presidente em 1950. Um de seus principais alvos passou a ser o jornal Última Hora, de propriedade de Samuel Wainer, amigo dos tempos de esquerda, a quem acusava de ter obtido empréstimos favorecidos junto aos bancos oficiais para fundar um jornal governista. Foi a pedido de Wainer que o caricaturista Lan desenhou Lacerda como um corvo, símbolo de mau agouro e de morte.
     O antagonismo entre Lacerda e o governo chegou ao ápice na madrugada de 5 de agosto de 1954, quando o jornalista sofreu um atentado na entrada do edifício onde morava, na Rua Tonelero, em Copacabana. Foi ferido no pé, mas o major-aviador Rubens Vaz, que naquele dia lhe dava proteção, foi morto. Os tiros na Tonelero foram o golpe fatal no cambaleante governo de Vargas, que, à renúncia, preferiu o suicídio. Chamado de "assassino de Vargas", Lacerda teve que se esconder para escapar da fúria da multidão, que acorreu às ruas para chorar a morte do "pai dos pobres".
     No entanto, pouco mais de um mês depois do suicídio, Lacerda derrotou um Vargas. Não Getúlio, mas o filho Lutero, presumido herdeiro político. Na eleição de 3 de outubro, foi o deputado federal mais votado no Distrito Federal, com uma diferença de quase 40 mil votos sobre Lutero, o segundo colocado.
     A fama de “demolidor de presidentes” firmaria em novembro de 1955, quando assumiu a liderança civil do movimento que tentou impedir a posse dos eleitos em outubro, Juscelino Kubitschek e João Goulart, considerados herdeiros do varguismo. Como escreveu em editorial da primeira página da Tribuna, no dia 9, "esses homens não podem tomar posse; não devem tomar posse; não tomarão posse".
     A conspiração, entretanto, fracassou por conta da reação do ministro da Guerra, general Henrique Teixeira Lott, e Lacerda ficou fora do país até outubro de 1956. Para se precaver contra sua volta à cena política, Juscelino anexou uma nova cláusula aos contratos de concessão de rádio e TV, mediante a qual os concessionários seriam punidos com suspensão por trinta dias no caso de transmitir programas "insultuosos às autoridades públicas". Segundo confissões do próprio ex-presidente, a primeira pessoa em quem pensava ao acordar era Carlos Lacerda.
     Na Câmara dos Deputados, onde permaneceu de 1955 a 1960 - em 1958, foi, mais uma vez, o recordista de votos para a bancada do Distrito Federal -, Lacerda foi o tribuno implacável, dono de uma oratória que, segundo contemporâneos, "cortava os ares como rajadas de fogo". A transformação da cidade do Rio de Janeiro em estado da Guanabara, devido à transferência da capital para Brasília em abril de 1960, abriu uma nova perspectiva para a sua carreira política: ser o primeiro governante do Rio eleito pelos cariocas.        
     Logo no início da campanha, Lacerda recebeu um precioso conselho do publicitário Emil Farhat: o momento não era de demolir, e sim de construir. Ganharia a eleição o candidato que se mostrasse mais capaz de conciliar a construção da nova Guanabara com a manutenção de um lugar privilegiado para o Rio de Janeiro na federação. Em 1960, o eleitorado foi às urnas para eleger também o sucessor de JK. Jânio Quadros venceu o general Lott com uma margem mais confortável que a de Lacerda sobre seus opositores, os deputados Sérgio Magalhães e Tenório Cavalcanti.
     Vencida a eleição, o grande desafio era: como um político nacional, radical, que desprezava a "política da conversa", poderia articular apoios para governar, fazer alianças com os grupos locais, construir as bases políticas de um novo estado? Lacerda apostou na montagem de um governo "técnico", que preservasse a administração das disputas políticas.
     A atenção dedicada ao governo estadual não reduziu a participação de Lacerda na política nacional. O discurso que fez na televisão no dia 24 de agosto de 1961, denunciando a manobra golpista de Jânio, aliado com quem rompera pouco depois da posse, provocou a renúncia do presidente no dia seguinte. A fama de "demolidor de presidentes" voltou com força, ainda mais pela movimentação frustrada para impedir a posse do vice João Goulart, o herdeiro do getulismo.
     A ida de Jango para a Presidência da República, garantida pela Campanha da Legalidade, criou um estado de permanente tensão entre o governo federal e o da Guanabara. O ano de 1963 foi decisivo nesse embate: um plebiscito restaurou os poderes presidenciais de Goulart, depois da breve experiência parlamentarista, e Lacerda se lançou candidato a presidente da República nas eleições previstas para 1965.
     Em tempos de Guerra Fria, o anticomunismo era uma importante bandeira, mas Lacerda sabia que precisava apresentar bons resultados à frente do governo da Guanabara. Educação, urbanização e habitação foram as áreas mais beneficiadas, e que até hoje dão a Lacerda um lugar privilegiado na memória carioca. Contando com recursos externos e, principalmente, com receitas oriundas do aumento de impostos, o governador investiu tanto na construção de escolas, quanto de adutoras (Guandu), viadutos e túneis (Rebouças e Santa Bárbara) e parques (Aterro do Flamengo), firmando, assim, a imagem do administrador "tocador de obras". Afinal, para enfrentar JK, o construtor da Novacap (Brasília), e seu possível rival em 1965, Lacerda teria de "reconstruir" a chamada Belacap.
     Foi polêmica a decisão de remover algumas favelas da Zona Sul e de construir conjuntos habitacionais em subúrbios da Zona Oeste, como os de Vila Aliança e Vila Kennedy, para abrigar os favelados. A ideia de que o governador não gostava de "pobres", vinda desde a época do suicídio de Vargas, foi alimentada pela chacina de mendigos ocorrida em 1962 - corpos foram encontrados no rio da Guarda -, e habilmente explorada por seus adversários. Tachado de "mata-mendigos", Lacerda passou a ser acusado de pretender exterminar também os favelados.
     A derrubada do governo Goulart pelo golpe militar de 1964, incentivado e apoiado pelo Palácio Guanabara, não ajudou a caminhada de Lacerda rumo a Brasília. Ao contrário. Decidido a exorcizar o fantasma do "demolidor", o general-presidente Castello Branco suspendeu as eleições previstas para 1965 e obteve a prorrogação de seu mandato até março de 1967. Derrotado na própria sucessão na Guanabara, quando seu candidato, Flexa Ribeiro, foi batido por larga diferença de votos por Negrão de Lima, Lacerda teve que se defrontar com as mudanças institucionais impostas pelo regime militar: fim dos partidos políticos, bipartidarismo (Arena e MDB) e eleições indiretas para presidente e governador.
     O estreitamento político em nível nacional e o surgimento de outros personagens na política carioca, como Chagas Freitas, levaram Lacerda a apostar na Frente Ampla, de oposição ao regime militar, e a procurar dois antigos adversários, Kubitschek e Goulart, cassados em 1964. A Frente Ampla fracassaria, e Lacerda também seria cassado, em 30 de dezembro de 1968, em seguida ao AI-5. Nove anos depois, a perspectiva da abertura política o animou a dar uma longa entrevista ao Jornal da Tarde (SP), entre 19 de março e 16 de abril de 1977. Como disse na ocasião, "ainda não estava na idade de sair da política". No entanto, a morte por septicemia, em 21 de maio, contrariou suas previsões.
     Casado com Letícia Lacerda e pai de três filhos, foi escolhido como modelo de governante por políticos cariocas, e sempre lembrado em momentos de crise política, Lacerda ocupa um lugar especial no imaginário político nacional e local, já que encarna, ao mesmo tempo, o tribuno incendiário, "demolidor de presidentes", e o administrador competente, o "construtor da Guanabara".

MARLY MOTTA é pesquisadora do CPDOC-FGV e autora de Saudades da Guanabara. Rio de janeiro: Editora da FGV, 2000 e de Rio, cidade-capital. Rio de janeiro: Zahar, 2004.

Fonte: Revista Nossa História - Ano II nº 19 - Maio 2005

Saiba Mais – Bibliografia
BENEVIDES, Maria Vitória. A UDN e o udenismo: as ambiguidades do liberalismo brasileiro (194S-65). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.
DULLES, John W. Foster. Carlos Lacerda: a vida de um lutador. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, v. 1 (1992); v. 2 (2000).
FERREIRA, Jorge. "Crises da República: 1954, 1955 e 1961". In: FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucília de Almeida Neves (orgs.). O Brasil republicano. O tempo da experiência democrática. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2003.
LACERDA, Carlos. Depoimento. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

Saiba Mais – Filmes
Flores Raras
O Brasil nos anos 50/60 passa por grandes transformações, Brasília é construída, a Bossa Nova faz grande sucesso e o Rio de Janeiro se transforma rapidamente preparando-se para deixar de ser a capital federal. É quando Elisabeth Bishop (Miranda Otto), poeta americana, chega para conhecer o Rio de Janeiro e passar alguns dias com Lota de Macedo Soares (Glória Pires) mulher forte e empreendedora da sociedade carioca. Com personalidades muito a frente de seus tempos, elas rapidamente estabelecem uma relação pessoal gerando muitas conquistas e perdas, que se refletem até os dias de hoje.
Direção: Bruno Barreto 
Ano: 2013
Áudio: Português
Duração: 118 minutos

domingo, 12 de outubro de 2014

Militares da Democracia

     Militares pela Democracia  é sobre os homens do exército, da Marinha e da Aeronáutica que sofreram por reagir ao golpe dentro dos quartéis. Realizada em parceria com o Projeto Marcas da Memória, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Narra o percurso de vários grupos de militares que muito antes do golpe de 1964 já vinham se organizando por novos direitos, melhores condições de trabalho, e na defesa de uma sociedade melhor. E como, a partir de 1964, esses distintos grupos passaram a ser tratados, sofrendo represálias, como a perda do direito de usar a farda, de seus direitos trabalhistas, assim como foram impedidos de exercer suas atividades profissionais.
Direção: Silvio Tendler
Ano: 2014
Áudio: Português
Duração: 52 minutos cada episódio
Clique no nome do episódio para assistir On-Line

Episódio 01:"O Dia do Golpe"
Os antecedentes do Golpe Militar de 1964 narrados pelos que viveram os momentos de tensão decorridos entre 31 de março e 2 de abril, quando forças armadas provenientes de Minas Gerais se rebelaram contra o governo de João Goulart e o presidente parte para Porto Alegre.

Episódio 02: "O Presidente decide não resistir"
O episódio narra o momento em que o Presidente João Goulart se reúne com chefes militares e o deputado Brizola, em Porto Alegre, para discutir a conveniência de resistir ao eminente Golpe de Estado. João Goulart manda cessar todos os atos de resistência e parte para São Borja. O episódio discute, ainda, sob vários pontos de vista, a validade da resistência ou não ao Golpe Militar.

O 3º episódio começa com a participação da FEB (Força Expedicionária Brasileira) na II Guerra Mundial e mostra como as diferentes forças políticas conviviam nas Forças Armadas. O episódio expõe que antes de 1964 as Forças Armadas não eram um monolito reacionário hegemônico. Com a depuração das Forças Armadas ocorrida em 1964, alguns militares continuaram a resistência dentro e fora dos quartéis. Com isso, as famílias sofreram as consequências do engajamento dos militares legalistas.

Episódio 04:"Ousar Lutar, Ousar Vencer"
A resistência de alguns setores das Forças Armadas continua mesmo depois do Golpe Militar. O Episódio discute a resistência armada e a dita resistência política, mostrando como alguns suboficiais subalternos foram o grande celeiro da luta armada. Vemos, também, como o processo de tortura, praticado desde os primeiros momentos do Golpe de Estado, é intensificado pela Ditadura com o decorrer dos anos.

Episódio 05:"A História não tem ponto final..."
50 anos depois de partir de Brasília em condições dramáticas, o corpo de João Goulart retorna a capital da República pela mesma base aérea de onde partiu. O episódio conta a história de militares que resistiram ao Golpe de Estado, de pessoas envolvidas na chamada Operação Condor e da Anistia, mostrando que os vencedores de ontem são os vencidos de hoje.

Saiba Mais – Links

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Especial - Revolução dos Cravos

Léguas a nos separar
Em contradição com sua própria linha política, o regime militar brasileiro apoiou, em 1974, a Revolução dos Cravos, em Portugal, que acabava com um período de ditadura.
     No dia 25 abril de 1974, um grupo de jovens militares, capitães na maioria, pôs fim a uma das mais longas ditaduras da Europa, a do Estado Novo português. Iniciado a partir de um golpe militar em 1926, transformado em ditadura civil e corporativa no início da década de 1930, sob a liderança de António Oliveira Salazar, o governo autoritário conviveu com importantes acontecimentos internacionais como, a crise do entreguerras, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e o gradual declínio dos sistemas coloniais europeus.
     O golpe do 25 de Abril rapidamente se transformou na Revolução dos Cravos, um dos acontecimentos mais dramáticos do período da Guerra Fria. Foi inesperado também, ocorrendo praticamente da noite para o dia. Pegas de surpresa, nações poderosas, como os Estados Unidos, acabaram na constrangedora posição de meros observadores.   Como disse o chefe da delegação da CIA em Londres, Cord Meyer: “Quando a Revolução aconteceu em Portugal, os Estados Unidos tinham ‘saído para almoçar’. Foi uma surpresa total”. O processo revolucionário abriu a possibilidade de que, no chamado “verão quente” de 1975, sob a chefia do general Vasco Gonçalves, Portugal se aproximasse em demasia do bloco soviético. Para muitos observadores, havia o perigo real de se transformar em um país comunista.
     A queda da ditadura portuguesa gerou opiniões diversas, tão comuns naqueles anos de bipolaridade. Por um lado, por exemplo, o senador norte-americano James Buckley afirmou, preocupado: “Não há nada a acontecer hoje no mundo – nem no Sudeste Asiático, nem no Oriente Médio – que tenha metade da importância e seja mais ameaçador que o avanço comunista para o poder em Portugal”. Por outro lado, o escritor e jornalista Gabriel García Márquez, em visita a Lisboa para cobrir a revolução para o jornal colombiano Alternativa, não só comparou a capital portuguesa à Havana de 1959 como também afirmou suas esperanças em um futuro socialista na pequena república ibérica.
     No Brasil, claro, os acontecimentos portugueses logo ganharam a atenção de governo, intelectuais e opinião pública. A oposição à ditadura militar festejou como se a vitória fosse sua. Exilado na Europa, o cineasta Glauber Rocha dirigiu o belo documentário “As armas e o povo”, enfatizando o olhar popular a respeito daqueles acontecimentos.  O fotógrafo Sebastião Salgado fez uma série de fotografias tanto da Revolução quanto da guerra civil na África. Mas foi, talvez, a partir da música de Chico Buarque de Holanda que o Portugal pós-25 de Abril ficou mais conhecido. A terra lusitana repleta de conservadorismo, tradição e fé católica se transformou em lugar da esperança e em exemplo a ser seguido. Pelo menos três canções de Chico se remetem, direta ou indiretamente, ao tema. A primeira delas, “Fado Tropical” [ouça com Chico], composta em parceria com Ruy Guerra para a peça “Calabar: o elogio da traição”, foi escrita antes da queda do salazarismo. Por ocasião do processo revolucionário, na medida em que Portugal ou se redemocratizava ou se aproximava do socialismo, dizer que “esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um imenso Portugal” soava provocativo para a ditadura. A canção, assim como a peça, foi proibida. No início da década de 1980, Chico compôs e gravou “Morena de Angola” [ouça com Chico], “minha camarada do MPLA”, em referência ao Movimento Popular de Libertação de Angola, o partido marxista que havia tomado o poder após a descolonização.
     Foi com “Tanto Mar” [ouça com Chico], composta intencionalmente em homenagem à Revolução dos Cravos, que o entusiasmo e a adesão aos acontecimentos portugueses pós-1974 ficaram mais evidentes. A versão mais conhecida por nós, brasileiros, não é a mais conhecida entre os portugueses [ver box]. Composta em plena ditadura militar, sua letra foi logo censurada. No LP gravado ao vivo com Maria Bethânia em 1975, foi tocada apenas sua versão instrumental. A primeira versão falava de um país em festa em contraste com nossa tristeza. “Lá faz primavera, pá/ Cá estou doente”. Mas a versão que veio a público no Brasil era outra, datada de 1978, e que consta do disco “Chico”, do mesmo ano. A Revolução havia terminado: “Foi bonita a festa, pá”. Mas algo dela havia permanecido: “Esqueceram uma semente/ Nalgum canto de jardim”. Quando Chico pôde finalmente gravar a música, a vertigem revolucionária já tinha se esvaído, frustrando aqueles que sonhavam com uma radicalização maior. Para a intelectualidade brasileira de esquerda, o fim do ímpeto revolucionário teve mais peso do que a conquista da democracia pelos portugueses. Por isso o evidente sentimento de frustração na segunda versão da letra: “Já murcharam tua festa, pá”.
     O Brasil vivia sob uma forte ditadura e, para a intelectualidade de esquerda, qualquer derrota de regimes arbitrários à direita significava um alento. Se a oposição brasileira se regozijava com a queda do Estado Novo português, era de se esperar que a postura do governo dos militares fosse oposta. Se não resultasse em um rompimento definitivo, pelo menos que fossem adotadas medidas de cautela. Não só em relação a Portugal, mas, sobretudo, em relação às antigas colônias que gradualmente foram aderindo ao bloco socialista. Apesar do anticomunismo, apesar das relações amistosas com governos ditatoriais e de direita, como os de Pinochet no Chile e de Stroessner no Paraguai, para nos restringirmos à América Latina, o posicionamento brasileiro foi contrário a tudo o que dele se esperava. Já no dia 27 de abril, o Brasil reconhecia formalmente o novo regime português, tendo sido o primeiro país a fazê-lo. E ofereceu imediatamente asilo político ao presidente da República deposto, Américo Tomás, e ao presidente do Conselho de Ministros, sucessor de Salazar, Marcello Caetano, que veio a falecer no Brasil seis anos depois.

A questão de Angola
     As razões que levaram os militares a adotar uma política inesperada têm a ver, sobretudo, com a chamada questão colonial e com as guerras de independência de Angola, Moçambique e Guiné, travadas desde o início dos anos 1960. Essas batalhas contribuíram para a derrocada do regime autoritário em Portugal. Álvaro Lins, embaixador brasileiro em Lisboa no final da década de 1950, vislumbrava a possibilidade de o Brasil vir a se tornar o herdeiro natural da influência portuguesa nos territórios africanos. Segundo suas palavras: “O fato evidente e incontestável de que seremos, em tais colônias, os herdeiros legítimos e substitutos naturais de Portugal, em matéria de influência cultural e intercâmbio comercial, quando se tornarem países independentes”.
     O otimismo do embaixador, entretanto, contrastava com a insistência de Portugal em manter as colônias do ultramar. No início da guerra anticolonial, o Brasil, junto com o Vaticano e a Espanha, tentou convencer o governo português a optar por uma saída negociada para a crise. Portugal recusou. Data desta época uma das mais conhecidas frases de Salazar: “Estamos cada vez mais orgulhosamente sós”. Mas os olhos do Brasil e dos brasileiros se mantiveram abertos para a evolução da política portuguesa.
     A esperança de acompanhar de perto a evolução da redemocratização portuguesa veio ao lado do desejo de ser parte integrante do processo de transição das antigas colônias para a independência. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, esforçou-se ao máximo para que o governo brasileiro tivesse um papel de destaque nas negociações com as colônias. Portugal, entretanto, apesar da gratidão pelo comportamento brasileiro no imediato pós-25 de Abril, mostrava resistência quanto a um papel de destaque do Brasil nas negociações pela independência das nações africanas. Para o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Mário Soares, as negociações deveriam ocorrer sem a mediação de outros países. 

Brasil desagradando o governo de Lisboa
     Insatisfeito, o Brasil não hesitou em tomar atitudes que desagradaram ao governo de Lisboa. Duas delas merecem destaque: em 16 de julho de 1974, sem consulta prévia aos portugueses, o Brasil reconhecia a independência da Guiné-Bissau. Esta atitude, que passava por cima do Tratado de Amizade e Consulta, causou mal-estar em Lisboa. Para Portugal, tratava-se de uma incursão indevida visando à superação da hegemonia portuguesa na África. O ministro Mário Soares exigiu desculpas, mas o Itamaraty considerou injustificada tal medida. Este foi, provavelmente, o momento de maior tensão nas relações diplomáticas luso-brasileiras durante o processo revolucionário português. Mesmo após a opção das novas nações africanas de aderirem ao bloco socialista, o governo brasileiro continuou decidido a influenciar os destinos daqueles países. No início de 1975, antes de encerradas as negociações para a independência de Angola, o Brasil instalou uma representação oficial em Luanda. Proclamada a independência, em 11 de novembro daquele ano, o governo brasileiro logo reconheceu o feito de Angola, sendo o primeiro país a fazer isso. A representação logo se transformou em embaixada. A atitude brasileira de reconhecer um regime com valores marxistas, como era de se esperar, causou estranheza no corpo diplomático norte-americano. 
     Indicado pelo ministro das Relações Exteriores, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, o diplomata Ítalo Zappa chefiava o Departamento de África, Ásia e Oceania do Itamaraty. De cunho esquerdista, as opiniões de Zappa iam ao encontro da opção do general Geisel de se afastar do colonialismo português. Esta postura estava vinculada à possibilidade de o Brasil exercer influência sobre as jovens nações que se formariam com o fim do sistema colonial.
     O Departamento chefiado por Zappa encontrou situações diferentes nos territórios africanos de língua portuguesa. A Guiné já tinha seu território reconhecido por um conjunto expressivo de nações desde setembro de 1973. Moçambique foi reconhecida imediatamente, em função da existência de apenas um partido político, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), sob a direção de Samora Machel. Sem maiores traumas, Moçambique teve sua independência reconhecida em 1975, a partir dos processos de negociação com o governo revolucionário português.
     O problema maior se encontrava em Angola. Na mais rica das colônias portuguesas, três forças políticas se digladiavam pelo controle do território. A FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) tinha seu quartel-general no Zaire, ocupava o nordeste do território e, militarmente, era apoiada pelos Estados Unidos e pela China. A Unita (União Nacional pela Independência Total de Angola) tinha sua base militar em Zâmbia e ocupava o planalto central da colônia. Até maio de 1975, esta organização não dispunha de grandes patrocínios externos, sendo apoiada secretamente apenas pelo governo português. As maiores bases do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) situavam-se em Luanda, tanto na periferia quanto entre suas elites intelectuais. Dirigida pelo médico e poeta Agostinho Neto, contava com a simpatia dos segmentos radicalizados das Forças Armadas portuguesas. Sua crescente força militar decorreu dos apoios soviético e cubano, evidenciando assim a tendência que seguiria caso viesse a obter a vitória nas armas. 
     Indicado por Ítalo Zappa, o diplomata Ovídio de Melo foi nomeado chefe da representação brasileira em Luanda. Sua tarefa consistia em negociar com as forças em conflito, procurando manter neutralidade. Embora formalmente o fizesse, Ovídio de Melo pendia para o MPLA. Percebia que a FNLA nada mais era que uma invenção americana, enquanto que a Unita começava a representar um conluio de interesses portugueses e sul-africanos. Ao mesmo tempo, afirmava para o corpo diplomático brasileiro o predomínio do MPLA. Seu comportamento gerou estranheza na diplomacia americana, que não tardou a pressionar por sua saída.
     No Brasil, a opção de Ovídio de Melo e de nossa diplomacia como um todo também foi motivo de estranhamento. O jornal O Estado de S. Paulo, por exemplo, ao mesmo tempo em que se opunha à política externa em relação a Angola, não deixava de alertar para a possibilidade de constituição de mais um satélite do Kremlin em território africano. Também dentro das Forças Armadas, o descontentamento se manifestava na voz do general Sílvio Frota, ministro do Exército e futuro opositor de Geisel.
     A despeito de importantes pressões externas e internas, o Brasil se manteve irredutível no apoio ao MPLA. É bom lembrar que, além das pressões citadas, a ditadura militar brasileira era alvo da desconfiança das antigas colônias, que não se esqueciam do recente apoio do Brasil ao colonialismo português. À medida que a guerra pelo controle do território se radicalizava, que os Estados Unidos patrocinavam a unidade da FNLA com a Unita e os embaixadores de diversos países se retiravam de Angola, o Brasil, com Ovídio de Melo, permanecia em Luanda. As negociações para a independência angolana se encerraram, conforme previamente acordado, no dia 10 de novembro de 1975. À primeira hora do dia 11, o representante brasileiro se apresentou ao novo governo, antes mesmo de qualquer país do bloco socialista.
     A opção do Brasil de permanecer em território angolano evidenciou uma conduta de autonomia e independência, principalmente em relação aos Estados Unidos.  Naquela difícil conjuntura, ela decorreu do posicionamento político à esquerda dos embaixadores Ovídio de Melo e Ítalo Zappa, e também do conhecido antiamericanismo do presidente Geisel. Vale notar, entretanto, que se foi “o maior feito da diplomacia brasileira nos últimos trinta anos”, ela não garantiu premiação ou reconhecimento para seus personagens mais importantes: os embaixadores Ítalo Zappa e Ovídio de Melo. Zappa foi o único de sua categoria que não recebeu a Ordem do Mérito Militar, além de ter deixado o Itamaraty sem jamais servir em um país de primeira linha. Ovídio de Melo foi depois encaminhado para a Tailândia por seis anos, e a seguir para a Jamaica. Foi promovido a ministro de primeira classe somente em 1985, depois do restabelecimento da democracia no Brasil.
     Esperança de transição para a esquerda, pragmatismo para os militares, maldição para os diplomatas. A Revolução dos Cravos e a luta pela independência das colônias foram, embora por motivos diversos, apoiadas por forças contraditórias no Brasil. Vale perceber, neste breve exemplo histórico, datado de abril de 1974 a novembro de 1975, que a política é rica em surpresas. Quando se esperava uma radicalização revolucionária, murchou a festa. Quando se imaginava um alinhamento brasileiro com os Estados Unidos, a aliança se deu à esquerda. E quando se podia imaginar o reconhecimento dos artífices da opção brasileira, veio seu incômodo confinamento em terras distantes. Passados muitos anos desde o fim da ditadura e do império português, pode-se perceber hoje a importância das escolhas do governo e da diplomacia do Brasil. Ainda que com a devida “distância entre intenção e gesto”.

Francisco Carlos Palomanes Martinho é professor do Departamento de História da Uerj e autor do livro A Bem da Nação: o Sindicalismo Português entre a Tradição e a Modernidade (1933-1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.


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Saiba Mais – Filme
Trem Noturno para Lisboa
Raimund Gregorius (Jeremy Irons). Afetuosamente chamado de ‘Mundus’ por seus alunos, é um professor de latim do ensino médio e um especialista em línguas antigas. Sua vida é transformada depois de um encontro misterioso com uma jovem portuguesa na antiga ponte de Kirchenfeld, em Berna, Suíça – ele consegue impedir que salte para a morte nas águas geladas do rio. Raimund fica intrigado, mas a mulher desaparece, deixando seu casaco pra trás. Dentro de um bolso, ele descobre um livro de um médico português chamado Amadeu de Prado, com uma passagem de trem no miolo. Ele decide usá-la espontaneamente, partindo para uma jornada de aventura em Lisboa. Enquanto procura pelo autor, Raimund revisita um capítulo sombrio da história do país e desvela um trágico triângulo amoroso. Sua jornada transcende o tempo e o espaço, tocando questões da história (revolução dos cravos)  da filosofia e da medicina.
Direção: Bille August
Ano: 2013
Áudio: Alemão, Inglês, Português
Duração: 110 minutos