"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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quinta-feira, 28 de abril de 2016

Intérpretes do Brasil

Intérpretes do Brasil, de Isa Grinspum Ferraz, uma série de quinze entrevistas com grandes intelectuais brasileiros sobre a cultura, a religião e os diferentes grupos sociais de nosso país. Dos mesmos criadores do premiado "O Povo Brasileiro".

Direção: Isa Grinspum Ferraz
Ano: 2001, 2002
Áudio: Português
Duração: +- 19 minutos (cada episódio)




Disco I

- Notas sobre o Brasil, por Darcy Ribeiro
- Saberes, Manuela Carneiro da Cunha
- Pé na Estrada, por Paulo Vanzolini
- Portugal-Brasil, por Judith Cortesão
- O Sonho Português, por Roberto Pinho
- Vontade de Beleza, por Washington Novaes
- Mistura e Invenção, Hermano Vianna

Disco II

- Os Vários Brasis, por Aziz Ab’Saber
- Os Caipiras, por Antonio Candido
- Viva o Sertão, por Antonio Risério
- Leituras do Cotidiano, por Roberto Da Matta
- O Candomblé do Brasil, por Mãe Stella
- Presença Africana, por Carlos Serrano
- Mar de Escravos, por Luiz Felipe de Alencastro
- Negro de Corpo e Alma, por Emanoel Araújo

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domingo, 20 de março de 2016

O eterno retorno?

A corrupção parece prática imutável, mas adquiriu diferentes sentidos na história nacional.
     Nas manchetes dos jornais, os escândalos de corrupção se repetem numa regularidade quase monótona. Diante de uma aparente crise geral dos valores éticos e de impunidade institucionalizada, o risco que corremos, no Brasil de hoje, é entrar num torpor cívico que não nos permita ultrapassar a pergunta: “E agora?”
     Para entender o agora, talvez um bom exercício seja aplicar nossa perplexidade a uma dimensão maior. A dimensão histórica. Será que a corrupção de hoje é a mesma que a de há 100 anos? Há mais corrupção hoje do que antes? Aumentou a corrupção ou aumentou a sua percepção e a postura diante dela?
     Uma sequência de episódios reforça a impressão de que a corrupção sempre esteve entre nós. No século XIX, os republicanos acusavam o sistema imperial de corrupto e despótico. Em 1930, a Primeira República e seus políticos foram chamados de carcomidos. Getúlio Vargas foi derrubado em 1954 sob acusação de ter criado um mar de lama no Catete. O golpe de 1964 foi dado em nome da luta contra a subversão e a corrupção. A ditadura militar chegou ao fim sob acusações de corrupção, despotismo, desrespeito pela coisa pública. Após a redemocratização, Fernando Collor foi eleito em 1989 com a promessa de combater a corrupção e foi expulso do poder acusado de fazer o que condenou. Nos últimos anos, as denúncias proliferam, atingindo todos os poderes e instituições da República e a própria sociedade.
     Mas antes de considerar estes fatos como indícios de um eterno retorno, convém lembrar que o sentido do termo mudou ao longo do tempo. Ao falar de corrupção ao final do Império, nenhum republicano queria dizer que D. Pedro II era corrupto. Pelo contrário: se reconheciam nele uma virtude, era a da correção pessoal. Do mesmo modo, em 1930, quando os revoltosos qualificavam de carcomidos os políticos da Velha República, não queriam dizer que eram ladrões. Nos dois casos, a acusação era dirigida ao sistema, não às pessoas. Corruptos eram os sistemas, monárquico ou republicano, por serem, na visão dos acusadores, despóticos, oligárquicos, e não promoverem o bem público.
     A partir de 1945, houve uma alteração no sentido que se dava à corrupção. Entrou em cena o udenismo. A oposição a Getúlio Vargas, comandada pelos políticos da União Democrática Nacional (UDN), voltou suas baterias contra a corrupção individual, contra a falta de moralidade das pessoas. Corruptos passaram a ser os indivíduos – os políticos getulistas, o próprio Vargas. Foram também indivíduos que serviram de justificativa ao golpe de 1964 e mais tarde inspiraram o grito de guerra de Collor, personificados na figura dos marajás, a serem caçados.
     O termo corrupção é, portanto, ambíguo. Podemos evitá-lo, recorrendo ao de transgressão. Esta palavra é menos escorregadia: transgredir é desrespeitar, violar, infringir. Quem transgride, transgride alguma coisa definível – uma lei, um valor, um costume. Além disso, a transgressão é valorativamente neutra. Não há boa corrupção, a não ser na visão de políticos como Ademar de Barros (1901-1969), que se vangloriava de fazer, mesmo que roubando. Há, no entanto, a boa transgressão. Toda corrupção é transgressão, mas nem toda transgressão é corrupção.
     O Brasil sempre foi um país de leis e de legistas. Herdeiros, via Portugal, da tradição jurídica romano-germânica, somos um dos maiores produtores de leis. A mania de regulamentação foi introduzida e reforçada pela grande presença de juristas no poder legislativo e na administração do Estado. Juristas e advogados compuseram a quase totalidade da elite política durante todo o período de formação nacional no século XIX e continuam a representar parcela importante dela. A aspiração maior desses juristas é formular a legislação perfeita, que enquadre toda a realidade e evite qualquer brecha por onde possa escapar o transgressor. Nosso jurista se vê como um demiurgo, organizador do mundo, reformador universal. Feita a lei, o problema para ele está resolvido, não lhe interessando sua execução. Trata-se de postura oposta à da tradição da Common Law anglo-saxônica, segundo a qual a lei apenas regula o comportamento costumeiro.
     Nosso cipoal de leis incita à transgressão e elitiza a justiça. A tentativa de fechar qualquer porta ao potencial transgressor, baseada no pressuposto de que todos são desonestos, acaba tornando impossível a vida do cidadão honesto. A saída que este tem é, naturalmente, buscar meios de fugir ao cerco. Cria-se um círculo vicioso: excesso de lei leva à transgressão que leva a mais lei, que leva a mais transgressão.
     Exemplos desse legalismo delirante se verificam até hoje. Tome-se o Código Nacional de Trânsito de 1997. Com seus 341 artigos, é exaustivo em definir regras e estabelecer punições, generoso em criar burocracias – Contran, Cetran, Contradife, Jarí, Renavan, Renach. Foi recebido com foguetório e aplauso geral. No entanto, era fácil prever seu fracasso, pois nada foi feito no sentido de sua aplicação. Passado um curto período em que houve alguma redução de acidentes, e durante o qual os motoristas avaliavam a ação da polícia, voltou-se aos mesmos índices de antes. A norma perfeita não se adequava às condições de trânsito, ao tipo de polícia, ao mau estado das estradas, às anistias de multas, à inoperância dos mecanismos de recurso, à própria cultura da transgressão.
     A distância entre a lei e a realidade sempre esteve presente no cotidiano da maior parte dos brasileiros. Até a metade do século XX, para quase toda a população rural, que era majoritária, a lei do Estado era algo distante e obscuro. O que esta população conhecia, e bem, era a lei do proprietário. Até mesmo autoridades públicas, como juízes e delegados, eram controladas pelas facções dominantes nos municípios. Havia o “juiz nosso”, o “delegado nosso”. O problema da transgressão da lei não se colocava para essa população. E se algum traço a caracterizava era a submissão, a acomodação, o fatalismo, a não ser por revoltas eventuais, em geral marcadas por misticismo religioso.
     As revoltas populares do século XIX e parte do século XX, tanto rurais como urbanas, se deram como consequência da expansão da lei, da capacidade reguladora do Estado. Quando a população pobre do século XIX se revoltou contra o recenseamento, o recrutamento, a mudança do sistema de pesos e medidas, o aumento de impostos, ou quando, no século XX, pegou em armas contra a vacina obrigatória, ela estava protestando contra uma lei considerada ilegítima por contrariar valores comunitários, religiosos ou mesmo políticos. A revolta de Antonio Conselheiro no arraial de Canudos foi sem dúvida o episódio mais trágico entre os confrontos da legalidade com valores tradicionais. O aspecto dramático nesses casos é que todos tinham razão: o Estado no esforço de racionalização e secularização, os rebeldes na defesa de seus valores, crenças e costumes.
     Nas grandes cidades, sobretudo em suas periferias, o agente da lei próximo à população era, e ainda é, o policial militar ou civil, cujo arbítrio e violência são conhecidos. A garantia de direitos fundamentais para os migrantes do campo – propriedade, inviolabilidade do lar, ir-e-vir, integridade física – era, e em boa parte ainda é, pouco mais que inexistente. Essa massa, que logo passou a votar em grandes números, adquiriu cidadania política, mas não cidadania civil. Mais recentemente, em trágico retrocesso, parcela dessa população urbana, ex-vítima dos coronéis, passou ao jugo de outro poder privado, muito mais violento: o poder dos traficantes.
     Em vez de se pensar em transgressão, é mais adequado dizer dessa população que ela é estranha à lei, que está à margem da lei. Para ela, a lei é uma entidade hostil. A sociedade brasileira não lhe forneceu qualquer escola de civismo.
     E que escola de civismo teve a gente da casa-grande? No velho mundo rural, herdeiro da tradição escravista, a lei detinha-se na porteira das fazendas. Os proprietários prendiam, julgavam, condenavam, puniam. Descendentes diretos desses senhores compõem hoje a bancada ruralista no Congresso. Muitos estão entre os que ainda hoje são acusados de manter trabalhadores em condições análogas à escravidão.
     E os poderosos das cidades? A elite política, formada em sua maior parte por advogados e juristas, manteve por longo tempo certo respeito à lei, sem fugir de todo à tradição patrimonialista que estava na origem de nosso Estado. O bom comportamento se deveu em boa parte à intervenção pessoal do imperador, e se prolongou pela Primeira República, quando os exemplos de desprezo pela coisa pública estavam longe de ter a dimensão escandalosa de hoje. Dentro do próprio grupo dissidente que subiu ao poder em 1930, havia poucos exemplos de oportunistas e aproveitadores. Ironicamente, foi o fim dessa sociedade patrícia, iniciado em 1930 e acelerado após 1945 – e, mais ainda, durante os governos militares – que abriu as portas para a invasão da transgressão nas altas esferas.
     A ditadura protegeu com o arbítrio a atuação dos governantes e interrompeu a formação de uma nova elite dentro de padrões republicanos. O crescimento da máquina estatal ampliou práticas clientelísticas e patrimoniais e aumentou o predomínio do Executivo sobre o Legislativo. Outro fator negativo foi a construção de Brasília, que libertou congressistas e executivos do controle das ruas, ampliando a sensação de impunidade. Brasília tornou-se uma corte corrupta e corruptora. Funcionasse o governo no Rio de Janeiro, os políticos envolvidos em falcatruas seriam vaiados dentro do Congresso e “ovacionados” nas ruas.
     Há transgressão e há percepção da transgressão. A camada social em melhor posição para perceber a transgressão e reagir contra ela é a que chamamos de classe média. É ela que está mais cercada pela lei em função de sua inserção profissional, é sobre ela que recai grande parcela dos impostos, é ela que menos se beneficia de políticas sociais. Além disso, graças à alta escolaridade, ela tem condições de desenvolver uma visão crítica da política e de seus agentes, de formar a opinião pública do país. Pode-se dizer que a reação contra a transgressão varia na razão inversa do bem-estar da classe média urbana. Maior a classe média urbana e piores suas condições de vida, maior a grita por moralidade.
     Gritar alivia, mas não conduz necessariamente a mudança. Se não existe uma tradição de respeito à lei, não será com apelos moralistas que ela será criada. A famosa Constituição do historiador Capistrano de Abreu (1853-1927), que num único artigo obrigava todos os brasileiros a terem vergonha na cara, é um achado. Mas ela seria perfeitamente ineficaz. Como pedir ao povo que respeite a lei se ele toma conhecimento todos os dias de exemplos de políticos, empresários e ricos em geral burlando a lei impunemente?
     Não há solução fácil. Mas não estamos condenados à corrupção e à transgressão. Elas são fenômenos históricos que, como todos os outros, estão em perpétua mutação. Medidas tópicas podem reduzi-las. O processo de votação já foi uma grande fraude, hoje é confiável. A impunidade tem que ser combatida em todas as camadas sociais, sobretudo entre as mais altas. Isso exige reformas na legislação penal e nas instituições, sobretudo nas polícias e no funcionamento do Judiciário. Imagine-se o efeito que teria entre os criminosos de colarinho branco o fim do foro privilegiado e da prisão especial para portadores de diplomas universitários. Sobretudo, a democracia política tem que ser usada para produzir a democracia civil da igualdade perante a lei. Inclusive porque sem a última a primeira não terá futuro promissor.

José Murilo de Carvalho é professor titular da UFRJ e autor de Dom Pedro II: Ser ou não ser (Companhia das Letras, 2007).

Saiba Mais - Bibliografia
ANÔNIMO. A arte de furtar. Lisboa, 1744.
AVRITZER, Leonardo; BIGNOTTO, Newton; GUIMARÃES, Juarez & STARLING, Heloísa Maria Murgel (orgs.). Corrupção: ensaios e críticas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.
CARDOSO, Fernando Henrique & MOREIRA, Marcílio Marques (coord.). Cultura das transgressões no Brasil. Lições da História. São Paulo: ITCO/iFHC, 2008.

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Anos de chumbo e concreto

quinta-feira, 3 de março de 2016

Os EUA contra a esquerda: teoria conspiratória?
É tolo pensar que, por trás das crises vividas pelos governos sul-americanos, há apenas o dedo de Washington. Mas é ingênuo desconsiderá-lo, mostra a História.
     “A todo momento — escreveu em 1959 o jornalista Herbert Matthews — a questão se coloca: se não tivéssemos a América Latina do nosso lado, nossa situação seria dramática. Sem acesso aos produtos e ao mercado latino-americano, os EUA seria reduzidos ao status de potência de segunda classe”. (The New York Times, 26 de abril, 1959). Desta preocupação surge, no início do século XIX, a imagem da região como um “quintal”, que os EUA devem proteger — e submeter — custe o que custar.   O projeto, inicialmente, tem o verniz de uma preocupação solidária: em 1823, o presidente James Monroe condena o imperialismo europeu e proclama “a América para os americanos”. Porém, sua doutrina logo transforma-se num instrumento de dominação do Norte sobre o Sul do continente.
     Às vezes violento, às vezes discreto, o expansionismo dos EUA na América Latina molda de tal modo a história do continente que diversos intelectuais continuam a ver a mão invisível de Washington por trás de cada obstáculo que faz as forças progressistas da região tropeçarem. Quando procuram os responsáveis por seus problemas domésticos, alguns governos latino-americanos flertam às vezes com teorias conspiratórias. Porém, é preciso notar que o sentimento anti-yankee não caiu do céu no continente de José Marti (1): resulta de mais de 150 anos de ingerência real, de inúmeros golpes e complôs, manifestações de uma vontade de hegemonia que viveu diversas transformações históricas.
     Entre 1846 e 1848, o México viu metade de seu território ser anexado pelo seu vizinho ao norte. Entre 1898 e 1934, os militares norte-americanos interviram 26 vezes na América Central: derrubaram presidentes, instalando outros em seu lugar; foi a época do domínio sobre Cuba e Porto Rico (1898); e assumiram o controle do canal interoceânico da antiga província colombiana do Panamá (1903). Abre-se, então, uma fase de imperialismo militar, que seria sucedida pela “diplomacia do dólar” e a captura dos recursos naturais por empresas como a United Fruit Company, fundada em 1899.
     A caixa de ferramentas imperiais de Washington não parece necessariamente a um arsenal militar. Em 1924, Robert Lansing, secretário de Estado do presidente Woodrow Wilson observa: “Devemos abandonar a ideia de instalar um cidadão americano na presidência mexicana, ou seremos levados inevitavelmente a uma nova guerra. A solução requer mais tempo. Devemos abrir as portas de nossas Universidades aos jovens mexicanos ambiciosos e ensinar-lhes nosso modo de vida, nossos valores assim como o respeito a nossa ascendência política. (…) Em poucos anos, esses jovens ocuparão cargos importantes, começando com a presidência. Sem que os Estados Unidos tenham que gastar um único centavo ou disparar um único tiro. Assim, eles farão o que queremos e eles farão melhor e de modo mais entusiasmado do que faríamos nós mesmos”(2). As universidades abrem-se, sem que se abandonem as táticas militares. Em 1927, na Nicarágua, os marines criam a Guarda Nacional, à frente da qual instalam o futuro ditador Anastásio Somoza.
     Com a Guerra Fria, Washington desenvolveu uma nova doutrina chamada de “segurança nacional”. O choque causado pela Revolução Cubana (1959), a formação de guerrilhas marxistas – em El Salvador e Colômbia, em particular –, a disseminação da Teologia da Libertação, a tentativa de um “caminho chileno ao socialismo” (1970-1973) e a insurreição sandinista na Nicarágua (1979) incitaram as cruzadas anticomunistas dos EUA.
     Como revelam cruamente milhares de arquivos, hoje retirados de sigilo, a CIA, Agência Central de Inteligência – fundada em 1947 – e o Pentágono mostram-se dispostos a tudo: campanhas midiáticas de desestabilização, financiamento de opositores, estrangulamento econômico, infiltração de forças armadas e financiamento de grupos paramilitares contrarrevolucionários. Os EUA apoiaram ativamente os golpes de Estado que ensanguentaram a região (Guatemala em 1954, Brasil em 1964, Chile em 1973, Argentina em 1976 e outros) e as  tentativas de invasão militar (Cuba em 1961, e Republica Dominicana em 1965…).    Sozinho, Fidel Castro, teria sido alvo de 638 tentativas de assassinato entre 1959 e 2000. Veneno, armadilhas em charutos e aparelhos fotográficos: a imaginação dos serviços secretos parece não ter limites. Os EUA encarregaram-se também de treinar centenas de oficiais latino-americanos na Escola das Américas. Destacaram agentes e financiaram o material (rádios, manuais de interrogatório) para a Operação Condor. Lançada em 1975, ela foi uma autêntica transacional de ditaduras no Cone Sul, encarregada de caçar, torturar e executar opositores em todo o mundo (3).
     Nesta área, a ação do governo Richard Nixon (1969-1974) contra o presidente chileno Salvador Allende representa um caso exemplar. Antes mesmo do líder socialista assumir o cargo, em 3 de novembro de 1970, a CIA, a embaixada norte-americana e o Secretário de Estado Henry Kissinger organizaram uma vasta rede clandestina de operações para derrubar o governo. A partir de outubro, a CIA entra em contato com os militares golpistas, entre eles o general Roberto Viaux.  Paralelamente, medidas de boicote econômico internacional e sabotagem (como o financiamento da greve dos caminhoneiros em outubro de 1972) agravam a situação doméstica. Os dirigentes mais conservadores da democracia-cristã e da direita chilena beneficiam-se de um generoso apoio, assim como a imprensa da oposição.  Segundo um relatório do Senado dos EUA “a CIA gastou 1,5 milhões de dólares para financiar El Mercurio, principal jornal do país e canal importante de propaganda contra Allende” (4). Agustin Ewards, seu proprietário desde então, está entre os ex-funcionários da CIA.
     Com o fim da guerras civis na América Central e os processos de redemocratização no Sul, os EUA mudam sua melodia. Na década de 1990, a promoção do “Consenso de Washington” (5) e o surgimento de governos neoliberais na região permitiram-lhes firmar sua hegemonia através da defesa do mercado. Em 1994, o presidente Bill Clinton propôs a criação de uma zona de “livre comercio” das Américas (ALCA). “Nosso objetivo é garantir às empresas dos EUA o controle do território que vai do polo norte à Antártida” (6), declarou alguns anos mais tarde o secretário de Estado Colin Powell. Mas Washington não contava com a rejeição popular de suas pautas políticas, nem com a ascensão dos governos progressistas na região. Em 2005, o projeto da ALCA é rejeitado. A integração dos países da região intensifica-se para desconforto dos EUA, mantidos de fora. Criam-se a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) em 2008 e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac) em 2010.
     Barack Obama não rompeu com alguns fundamentos. Os memorandos da “estratégia de segurança nacional”, escritos em 2010 e em 2015, sublinharam que a América Latina continua sendo uma prioridade para os EUA, em particular em termos de fornecimento de energia – daí a obsessão de Washington com a Venezuela – e o controle militar do continente. Após 2008, foram inauguradas novas bases militares (sob direção do Comando Sul do Exército dos EUA) e sistemas de vigilância eletrônica, graças a aliança inabalável com a Colômbia. Especialistas do Pentágono ainda enxergam a região segundo os preceitos estabelecidos por Nicholas Spykman em 1942 (7): de um lado, uma zona de influência direta integrando o México, o Caribe e a América Central; de outro, os grandes Estados da América do Sul (em especial o Brasil, o Chile e a Argentina), cuja união é preciso impedir.
     Para isso, o estímulo a acordos de livre comércio é considerado, em última análise, mais eficaz do que as formas diretas de intervenção (ler “Miragens do livre-comércio”). A recente reaproximação entre Washington e Havana, que visa romper o crescente isolamento dos Estados Unidos na região abrindo ao mesmo tempo um novo mercado, também insere-se nesta perspectiva. Diante de uma América multipolar, cada vez mais voltada à Ásia e agitada por muitos movimentos sociais de resistência, os EUA escondem-se por trás da diplomacia.
     Assim, a luta contra os governos latino-americanos considerados populistas repousa, principalmente, no poder de influência: o soft power da opinião através dos meios de comunicação privados e o desenvolvimento de certas ONGs e fundações que recebem milhões de dólares para “sustentar a democracia” inspirando-se no modelo das “Revoluções Coloridas” que aconteceram no leste europeu. No último 12 de março, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, denunciou o papel de Miriam Kornblith, diretor da América Latina na National Endowment for Democracy (NED), no financiamento da oposição, sindicatos e associações anti-chavistas.
     Bravatas bolivarianas? A conferir. Em 31 de maro de 1997, o New York Times informou que a NED foi criada para pensar uma “maneira de realizar publicamente o que a CIA tinha realizado em sigilo durante décadas”. Os documentos revelados pelo Wikileaks mostram que os EUA financiaram a oposição venezuelana desde a chegada de Hugo Chavez ao poder em 1998 (8). Em 2013, o presidente equatoriano Rafael Correa congelou, por sua vez, toda as atividades de cooperação com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), enquanto seu homólogo boliviano, Evo Morales, expulsou esta organização “independente”, considerando que ela “conspirava” contra si.
     O Departamento de Estado não abandou seus velhos hábitos, como evidencia notoriamente o golpe de estado contra Chavez em abril de 2002. Em Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012, os “golpes institucionais” favoreceram as oligarquias locais alinhadas com Washington (9). A estratégia consiste em destituir os dirigentes democraticamente eleitos, mas considerados muito insubordinados, com apoio de parte dos parlamentos nacionais. Conspiração ou arte de manejar a correlação de forças? A diferença pode ser tênue…

Franck Gaudichaud é Professor da Universidade de Grenoble-Alpes e vice-presidente da Associação America France-Latina (FAL).
(1) José Martí (1853-1895), fundados do Partido Revolucionário Cubano, é um dos heróis da independência da América Latina.
(2) Citado por James D. Cockcroft, Mexico’s Revolution. Then and Now, Monthly Review Press, New York, 2010.
(3) Cf. John Dinges, Les Années Condor. Comment Pinochet et ses alliés ont propagé le terrorisme sur trois continents, La Découverte, Paris, 2008.
(4) « Covert Action in Chile. 1963-1973 » (PDF), Relatório Church, Senado dos Estados Unidos, Washington, DC, 1975.
(5) Ler Moisés Naim, « Avatars du“consensus de Washington” », Le Monde diplomatique, mars 2000.
(6) « Les dessous de l’ALCA (Zona de livre-comercio Americano) »,Alternatives Sud, vol.10, no1, Centre tricontinental (Cetri), Louvain-la-Neuve (Belgique), 2003.
(7) Nicholas Spykman, America’s Strategy in World Politics : The United States and the Balance of Power, Harcourt, New York, 1942.
(8) Jake Johnston, « Whatthe Wikileaks cables say about Leopoldo López », Center for Economic and Policy Research, Washington, DC, 21 février 2014.
(9) Cf. Maurice Lemoine, Les Enfants cachés du général Pinochet,Don Quichotte, Paris, 2015

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sábado, 28 de março de 2015

O sexo a quem compete?

Nas Olimpíadas de 1968, as atletas tinham que comprovar que eram mulheres submetendo-se a testes constrangedores.
     “Olimpíadas vencem a guerra dos sexos”, anunciou o Jornal dos Sports no dia 30 de outubro de 1968. O tom da manchete reflete a empolgação em torno de uma novidade implantada no megaevento disputado na Cidade do México: o exame científico para confirmar o sexo das atletas.
     O texto da notícia parecia imparcial: “A presença de indivíduos cujo sexo não pode ser perfeitamente definido nas provas femininas das Olimpíadas está completamente banida e a prova é que muitos dos maiores atletas que o mundo já viu ou não chegam ao México ou, lá chegados, se negaram a submeter-se às provas para comprovação de sexo – disse ontem na redação do JS o Dr. Aníbal Silva e Costa, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Esportiva. 'A obrigatoriedade dos exames de sexo há muito tempo devia constar dos regulamentos olímpicos para evitar a sobrevivência dos hermafroditas no esporte. Sempre fui a favor dos exames porque existem mulheres que competem em tal categoria que na realidade são homens. Com a obrigatoriedade dos exames, alguns fenômenos esportivos como as irmãs Irina e Tâmara Press, da União Soviética, não compareceram ao México'”.
     Pela primeira vez as mulheres atletas tinham seus corpos vasculhados, sua sexualidade questionada, seu sexo verificado cientificamente. Sob a orientação de um comitê médico, os testes de feminilidade, também divulgados como testes de sexo, garantiam uma “carteira rosa” às atletas consideradas aptas a competir. Reduzidas à equação XX, através da contagem dos cromossomos, somente assim elas poderiam participar de Jogos oficialmente organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
     Nos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em 1896, as mulheres não podiam competir. Sua inserção nas competições internacionais foi gradativa. A antiga crença na vulnerabilidade biológica e na fragilidade inata deixava as mulheres de fora de muitos eventos desportivos. Fragilidade, vulnerabilidade e passividade foram consideradas características totalmente desfavoráveis à exigência de desempenho atlético. Durante todo o século XIX, na Europa, essa ideologia da natureza feminina foi fundamentada “cientificamente”: buscava-se provar que a mulher é fisicamente inferior ao homem, inclusive pela capacidade de engravidar. As disciplinas requisitadas para defender tais argumentos eram a obstetrícia, a biologia, a sociologia, a psicologia, a antropologia e a ginecologia. Esta última consolidou a imagem da mulher como um ser submetido ao império de seus órgãos genitais – que determinariam sua natureza nervosa, frágil e inconstante e sua predisposição a doenças e perturbações mentais, moldando assim suas capacidades sociais.
     Alguns biólogos e médicos, como Cesare Lombroso (1836-1909), reforçaram naquele século que o cérebro da mulher era menor que o do homem e que o ovário e o útero exigiam muita energia e repouso para funcionar apropriadamente. Em consequência, as meninas deveriam ser mantidas longe de escolas e faculdades a partir do momento em que começassem a menstruar. Sem esse tipo de precaução, seus úteros e ovários poderiam se atrofiar e a raça humana se extinguir.
     A mesma análise não se estendia às mulheres pobres, obrigadas a trabalhar duramente e censuradas por se reproduzirem demais. Na verdade, justamente por conseguirem trabalhar tanto e ainda assim gerar muitos filhos, elas eram consideradas mais próximas dos animais e menos evoluídas do que as mulheres das classes altas.
     No século XIX pesquisas da craniometria ressaltaram a inferioridade das mulheres devido ao tamanho da estrutura óssea, incluindo quadril. Com os avanços das mulheres nos esportes, isto perde a importância e a força. Foi nas décadas de 1960 e 1970 – quando os movimentos feministas aumentaram – que as pesquisas sobre diferenças sexuais voltaram a ganhar força. Os sociobiologistas tentavam agora provar que os comportamentos sociais constituem características humanas universais e acabam sendo transmitidas geneticamente. A agressividade e o “instinto de caça”, por exemplo, seriam essencialmente masculinos. 
     Em 1968, diante da notícia de que haveria regras taxativas contra o dopping e contra mulheres de “sexo duvidoso”, a imprensa se mostrou complacente com as versões científicas da comprovação da inferioridade feminina e de sua inaptidão para os esportes. Naquele momento, a indeterminação do sexo por um exame “científico” soava como uma ameaça ao regime social heterossexista. Ao mesmo tempo, a homossexualidade feminina colocava em risco o regime patriarcal predominante, no qual as mulheres assumem papéis sociais considerados hierarquicamente inferiores aos dos homens, tornando-se consciente ou inconscientemente submissas a eles. Mulheres lésbicas ou com gênero indeterminado eram uma ameaça ao pretenso equilíbrio social. Por isso o teste de sexualidade das Olimpíadas do México foi tão bem recebido. “O exame para a comprovação de sexo – masculino ou feminino – é bastante simples e pode ser feito através de pesquisa de dois materiais: saliva ou sangue. Colhido o material, os cromossomos são contados. Se atingir um índice X, morfologicamente a atleta é impedida de competir entre as mulheres, já que passa a ser considerada uma anomalia”, explicava o Jornal dos Sports.
     Em uma seção especial destinada aos Jogos Olímpicos, o Jornal do Brasil também comentou a novidade: “Sobre a questão do controle de sexo, exigido pelo regulamento, o secretário geral Joanes Westterohff disse que a Federação Internacional de Natação foi a única que não respondeu oficialmente ao convite que lhe fez o presidente da comissão médica para as nadadoras se submeterem à verificação sexual, apesar de as nadadoras, em sua petição de inscrição, terem firmado o compromisso de se submeterem ao controle de sexo e controle sobre o uso de drogas. O presidente da comissão médica acrescentou que várias atletas femininas inscritas nos Jogos já haviam aceito voluntariamente as exigências regulamentares”.
     “Aceito voluntariamente as exigências” é uma contradição, pois se é uma exigência jamais será voluntária. Além disso, o olhar retrospectivo para aqueles acontecimentos desperta dúvidas sobre o vínculo entre os testes e o dopping. Sobretudo pela recusa das nadadoras, pois a natação era o esporte com mais casos de uso de substâncias químicas para melhoria do desempenho em edições anteriores das Olimpíadas. Talvez fosse mais fácil duvidar da “natureza do sexo” do que assumir que o dopping era usado em grande escala – algo desaconselhável diante de uma indústria fármaco-química em franca ascensão mundial.
     Os testes de feminilidade duraram oito edições dos Jogos Olímpicos, de 1968 até 2000. Por que duraram mais de três décadas mesmo diante das críticas, tanto de associações e entidades médicas e científicas como da imprensa e das próprias atletas? Essa medida e sua duração podem ser vistas como barreira à participação feminina e como uma forma de mascarar o fato de que o dopping assumira proporções incontroláveis com o advento da indústria fármaco-química.
     A imagem de uma mulher forte e atlética confundia as certezas criadas pela ciência do sexo e do gênero como norma catalogável. Vale dizer que, antes das Olimpíadas de 1968, o teste de sexo era feito da seguinte forma: as mulheres expunham seus corpos nus a um comitê de “peritos”, que julgavam e certificavam se sua morfologia era compatível com a ideia que tinham de feminilidade. Como tal prática significava uma exposição pública dos corpos das atletas e vinha ganhando críticas das entidades esportivas, o comitê resolveu “modernizá-la”.
     O parâmetro genético adotado no teste de cromossomos indicava uma nova realidade: a política tecnológica de monitoramento e catalogação dos corpos femininos. A “carteira rosa” simbolizava feminilidade. Era o passaporte das mulheres para o universo idílico de um feminino universal, naturalizado e definido por uma equipe de peritos composta por homens.

Patrícia Lessa é professora da Universidade Estadual de Maringá e autora do relatório de pós-doutorado “A fabricação dos tecno-bio-corpos e a produção do sexismo na linguagem”, (UFF, 2010).

Saiba mais - bibliografia
DEVIDE, Fabiano Pries. Gênero e mulheres no esporte: história das mulheres nos jogos olímpicos modernos. Ijuí: Unijui, 2005.
VOTRE. Sebastião (org.). Gênero e atividade física. Rio de Janeiro: Mauad/Faperj, 2011.

Saiba mais - vídeo
JC Debate sobre Violência Obstétrica - 06/03/2014
Você já ouviu falar em violência obstétrica? Milhares de brasileiras são humilhadas, desrespeitadas e perdem o direito de escolher a melhor forma que gostariam de dar a luz.

 Saiba mais - links

quinta-feira, 19 de março de 2015

A História Da Pobreza - Porque Pobreza?

A pobreza sempre fez parte de nossas vidas, mas nossas atitudes em relação a ela mudaram. Iniciando no período Neolítico, o filme de Ben Lewis, narrado por Shaun Parkes e animado pela empresa holandesa Submarine, nos leva a diferentes momentos da miséria no mundo. Se você sonhasse que ficou pobre ao longo dos tempos, ao acordar, qual seria sua visão da pobreza? Claro que ainda existem pessoas muito pobres, mas a pobreza atual está mais relacionada à desigualdade...

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Guerra e Paz

Programa Especial da RBS do Rio Grande do Sul sobre a Segunda Guerra Mundial: histórias de vida de quem esteve no front, de quem ficou, a expectativa de que o conflito se alastrasse para o resto do mundo, o medo e o drama de quem viveu esse período da História. No Rio Grande do Sul eram planejados abrigos antiaéreos, haviam ensaios de blackout e treinamento militar para caso o conflito se estendesse ao sul da América Latina.
Direção: Cláudia Dreyer
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 70 minutos cada episódio
https://mega.co.nz/#!ORMgTKpD!m8MW-G7H3x1Bd4HzW9S9dtDW_JExSsCK0vBL5M4ANuMTamanho: 258 MB

  
Episódio 01 - O Falsário de Hitler A história do judeu Salomon “Sally” Smollanoff, artista plástico e falsificador, que foi preso num campo de concentração e obrigado a falsificar as matrizes de libra e dólar para que Hitler financiasse o seu projeto de dominação do mundo. Sally, depois de viver no Uruguai, terminou seus dias, anonimamente, na Avenida João Pessoa em Porto Alegre (RS). 
Episódio 02 – Ensaios de Guerra:  Enquanto a Europeu vivia os terrores da II Guerra Mundial, o Brasil enviava seus pracinhas para lutar ao lado das forças Aliadas e vivia um período de tensão. Como viveram 12 dos soldados que se preparam para defender as costas gaúchas dos ataques nazistas. Eles são os remanescentes de um grupo de 800 soldados que receberam treinamento em São José do Norte (RS). 
Episódio 03 – Aos Olhos de Santa Bárbara: Às nove horas da manhã de 22 de julho 1943, um estrondo marcou a história de uma cidade no alto da serra rio-grandense. Seis moças, entre 16 e 20 anos de idade, morriam vítimas de uma explosão na linha de montagem de bombas e granadas em uma tradicional indústria metalúrgica. O palco da II Guerra Mundial, a milhares de quilômetros de distância, do outro lado do mar, pairava sinistro no céu de Caxias do Sul. Naquele 22 de julho, os sinos de todas as torres da cidade tocavam tristemente. 
Episódio 04 – O Soldado Kleine:  Em 1935, Theodor foi para a Alemanha estudar. Lá conheceu Mari Agnes cuja família também tinha regressado para a Alemanha e se casaram. Em 1942, ele se naturalizou alemão e duas semanas depois o chamaram para o exército. Ele trabalhou numa instituição para a manutenção da cultura alemã no Exterior. Quando um chefe da SS encampou esta instituição Theodor foi obrigado a ir como “voluntário” para o front. O drama desse brasileiro obrigado a lutar nos exércitos alemães e a grande paixão de sua mulher tornam esse programa comovente.
Episódio 05 – Prisioneiros Durante a II Guerra cresceu a desconfiança, o medo e a perseguição para quem não falasse português. Italianos, alemães, japoneses, muitos imigrantes foram perseguidos, espancados e, segundo alguns historiadores e testemunhas, colocados em campos de concentração, aqui chamados de “campos de confinamento”. 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Especial - Revolução dos Cravos

Léguas a nos separar
Em contradição com sua própria linha política, o regime militar brasileiro apoiou, em 1974, a Revolução dos Cravos, em Portugal, que acabava com um período de ditadura.
     No dia 25 abril de 1974, um grupo de jovens militares, capitães na maioria, pôs fim a uma das mais longas ditaduras da Europa, a do Estado Novo português. Iniciado a partir de um golpe militar em 1926, transformado em ditadura civil e corporativa no início da década de 1930, sob a liderança de António Oliveira Salazar, o governo autoritário conviveu com importantes acontecimentos internacionais como, a crise do entreguerras, a Segunda Guerra Mundial, a Guerra Fria e o gradual declínio dos sistemas coloniais europeus.
     O golpe do 25 de Abril rapidamente se transformou na Revolução dos Cravos, um dos acontecimentos mais dramáticos do período da Guerra Fria. Foi inesperado também, ocorrendo praticamente da noite para o dia. Pegas de surpresa, nações poderosas, como os Estados Unidos, acabaram na constrangedora posição de meros observadores.   Como disse o chefe da delegação da CIA em Londres, Cord Meyer: “Quando a Revolução aconteceu em Portugal, os Estados Unidos tinham ‘saído para almoçar’. Foi uma surpresa total”. O processo revolucionário abriu a possibilidade de que, no chamado “verão quente” de 1975, sob a chefia do general Vasco Gonçalves, Portugal se aproximasse em demasia do bloco soviético. Para muitos observadores, havia o perigo real de se transformar em um país comunista.
     A queda da ditadura portuguesa gerou opiniões diversas, tão comuns naqueles anos de bipolaridade. Por um lado, por exemplo, o senador norte-americano James Buckley afirmou, preocupado: “Não há nada a acontecer hoje no mundo – nem no Sudeste Asiático, nem no Oriente Médio – que tenha metade da importância e seja mais ameaçador que o avanço comunista para o poder em Portugal”. Por outro lado, o escritor e jornalista Gabriel García Márquez, em visita a Lisboa para cobrir a revolução para o jornal colombiano Alternativa, não só comparou a capital portuguesa à Havana de 1959 como também afirmou suas esperanças em um futuro socialista na pequena república ibérica.
     No Brasil, claro, os acontecimentos portugueses logo ganharam a atenção de governo, intelectuais e opinião pública. A oposição à ditadura militar festejou como se a vitória fosse sua. Exilado na Europa, o cineasta Glauber Rocha dirigiu o belo documentário “As armas e o povo”, enfatizando o olhar popular a respeito daqueles acontecimentos.  O fotógrafo Sebastião Salgado fez uma série de fotografias tanto da Revolução quanto da guerra civil na África. Mas foi, talvez, a partir da música de Chico Buarque de Holanda que o Portugal pós-25 de Abril ficou mais conhecido. A terra lusitana repleta de conservadorismo, tradição e fé católica se transformou em lugar da esperança e em exemplo a ser seguido. Pelo menos três canções de Chico se remetem, direta ou indiretamente, ao tema. A primeira delas, “Fado Tropical” [ouça com Chico], composta em parceria com Ruy Guerra para a peça “Calabar: o elogio da traição”, foi escrita antes da queda do salazarismo. Por ocasião do processo revolucionário, na medida em que Portugal ou se redemocratizava ou se aproximava do socialismo, dizer que “esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um imenso Portugal” soava provocativo para a ditadura. A canção, assim como a peça, foi proibida. No início da década de 1980, Chico compôs e gravou “Morena de Angola” [ouça com Chico], “minha camarada do MPLA”, em referência ao Movimento Popular de Libertação de Angola, o partido marxista que havia tomado o poder após a descolonização.
     Foi com “Tanto Mar” [ouça com Chico], composta intencionalmente em homenagem à Revolução dos Cravos, que o entusiasmo e a adesão aos acontecimentos portugueses pós-1974 ficaram mais evidentes. A versão mais conhecida por nós, brasileiros, não é a mais conhecida entre os portugueses [ver box]. Composta em plena ditadura militar, sua letra foi logo censurada. No LP gravado ao vivo com Maria Bethânia em 1975, foi tocada apenas sua versão instrumental. A primeira versão falava de um país em festa em contraste com nossa tristeza. “Lá faz primavera, pá/ Cá estou doente”. Mas a versão que veio a público no Brasil era outra, datada de 1978, e que consta do disco “Chico”, do mesmo ano. A Revolução havia terminado: “Foi bonita a festa, pá”. Mas algo dela havia permanecido: “Esqueceram uma semente/ Nalgum canto de jardim”. Quando Chico pôde finalmente gravar a música, a vertigem revolucionária já tinha se esvaído, frustrando aqueles que sonhavam com uma radicalização maior. Para a intelectualidade brasileira de esquerda, o fim do ímpeto revolucionário teve mais peso do que a conquista da democracia pelos portugueses. Por isso o evidente sentimento de frustração na segunda versão da letra: “Já murcharam tua festa, pá”.
     O Brasil vivia sob uma forte ditadura e, para a intelectualidade de esquerda, qualquer derrota de regimes arbitrários à direita significava um alento. Se a oposição brasileira se regozijava com a queda do Estado Novo português, era de se esperar que a postura do governo dos militares fosse oposta. Se não resultasse em um rompimento definitivo, pelo menos que fossem adotadas medidas de cautela. Não só em relação a Portugal, mas, sobretudo, em relação às antigas colônias que gradualmente foram aderindo ao bloco socialista. Apesar do anticomunismo, apesar das relações amistosas com governos ditatoriais e de direita, como os de Pinochet no Chile e de Stroessner no Paraguai, para nos restringirmos à América Latina, o posicionamento brasileiro foi contrário a tudo o que dele se esperava. Já no dia 27 de abril, o Brasil reconhecia formalmente o novo regime português, tendo sido o primeiro país a fazê-lo. E ofereceu imediatamente asilo político ao presidente da República deposto, Américo Tomás, e ao presidente do Conselho de Ministros, sucessor de Salazar, Marcello Caetano, que veio a falecer no Brasil seis anos depois.

A questão de Angola
     As razões que levaram os militares a adotar uma política inesperada têm a ver, sobretudo, com a chamada questão colonial e com as guerras de independência de Angola, Moçambique e Guiné, travadas desde o início dos anos 1960. Essas batalhas contribuíram para a derrocada do regime autoritário em Portugal. Álvaro Lins, embaixador brasileiro em Lisboa no final da década de 1950, vislumbrava a possibilidade de o Brasil vir a se tornar o herdeiro natural da influência portuguesa nos territórios africanos. Segundo suas palavras: “O fato evidente e incontestável de que seremos, em tais colônias, os herdeiros legítimos e substitutos naturais de Portugal, em matéria de influência cultural e intercâmbio comercial, quando se tornarem países independentes”.
     O otimismo do embaixador, entretanto, contrastava com a insistência de Portugal em manter as colônias do ultramar. No início da guerra anticolonial, o Brasil, junto com o Vaticano e a Espanha, tentou convencer o governo português a optar por uma saída negociada para a crise. Portugal recusou. Data desta época uma das mais conhecidas frases de Salazar: “Estamos cada vez mais orgulhosamente sós”. Mas os olhos do Brasil e dos brasileiros se mantiveram abertos para a evolução da política portuguesa.
     A esperança de acompanhar de perto a evolução da redemocratização portuguesa veio ao lado do desejo de ser parte integrante do processo de transição das antigas colônias para a independência. O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, esforçou-se ao máximo para que o governo brasileiro tivesse um papel de destaque nas negociações com as colônias. Portugal, entretanto, apesar da gratidão pelo comportamento brasileiro no imediato pós-25 de Abril, mostrava resistência quanto a um papel de destaque do Brasil nas negociações pela independência das nações africanas. Para o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Mário Soares, as negociações deveriam ocorrer sem a mediação de outros países. 

Brasil desagradando o governo de Lisboa
     Insatisfeito, o Brasil não hesitou em tomar atitudes que desagradaram ao governo de Lisboa. Duas delas merecem destaque: em 16 de julho de 1974, sem consulta prévia aos portugueses, o Brasil reconhecia a independência da Guiné-Bissau. Esta atitude, que passava por cima do Tratado de Amizade e Consulta, causou mal-estar em Lisboa. Para Portugal, tratava-se de uma incursão indevida visando à superação da hegemonia portuguesa na África. O ministro Mário Soares exigiu desculpas, mas o Itamaraty considerou injustificada tal medida. Este foi, provavelmente, o momento de maior tensão nas relações diplomáticas luso-brasileiras durante o processo revolucionário português. Mesmo após a opção das novas nações africanas de aderirem ao bloco socialista, o governo brasileiro continuou decidido a influenciar os destinos daqueles países. No início de 1975, antes de encerradas as negociações para a independência de Angola, o Brasil instalou uma representação oficial em Luanda. Proclamada a independência, em 11 de novembro daquele ano, o governo brasileiro logo reconheceu o feito de Angola, sendo o primeiro país a fazer isso. A representação logo se transformou em embaixada. A atitude brasileira de reconhecer um regime com valores marxistas, como era de se esperar, causou estranheza no corpo diplomático norte-americano. 
     Indicado pelo ministro das Relações Exteriores, Antônio Francisco Azeredo da Silveira, o diplomata Ítalo Zappa chefiava o Departamento de África, Ásia e Oceania do Itamaraty. De cunho esquerdista, as opiniões de Zappa iam ao encontro da opção do general Geisel de se afastar do colonialismo português. Esta postura estava vinculada à possibilidade de o Brasil exercer influência sobre as jovens nações que se formariam com o fim do sistema colonial.
     O Departamento chefiado por Zappa encontrou situações diferentes nos territórios africanos de língua portuguesa. A Guiné já tinha seu território reconhecido por um conjunto expressivo de nações desde setembro de 1973. Moçambique foi reconhecida imediatamente, em função da existência de apenas um partido político, a Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), sob a direção de Samora Machel. Sem maiores traumas, Moçambique teve sua independência reconhecida em 1975, a partir dos processos de negociação com o governo revolucionário português.
     O problema maior se encontrava em Angola. Na mais rica das colônias portuguesas, três forças políticas se digladiavam pelo controle do território. A FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola) tinha seu quartel-general no Zaire, ocupava o nordeste do território e, militarmente, era apoiada pelos Estados Unidos e pela China. A Unita (União Nacional pela Independência Total de Angola) tinha sua base militar em Zâmbia e ocupava o planalto central da colônia. Até maio de 1975, esta organização não dispunha de grandes patrocínios externos, sendo apoiada secretamente apenas pelo governo português. As maiores bases do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) situavam-se em Luanda, tanto na periferia quanto entre suas elites intelectuais. Dirigida pelo médico e poeta Agostinho Neto, contava com a simpatia dos segmentos radicalizados das Forças Armadas portuguesas. Sua crescente força militar decorreu dos apoios soviético e cubano, evidenciando assim a tendência que seguiria caso viesse a obter a vitória nas armas. 
     Indicado por Ítalo Zappa, o diplomata Ovídio de Melo foi nomeado chefe da representação brasileira em Luanda. Sua tarefa consistia em negociar com as forças em conflito, procurando manter neutralidade. Embora formalmente o fizesse, Ovídio de Melo pendia para o MPLA. Percebia que a FNLA nada mais era que uma invenção americana, enquanto que a Unita começava a representar um conluio de interesses portugueses e sul-africanos. Ao mesmo tempo, afirmava para o corpo diplomático brasileiro o predomínio do MPLA. Seu comportamento gerou estranheza na diplomacia americana, que não tardou a pressionar por sua saída.
     No Brasil, a opção de Ovídio de Melo e de nossa diplomacia como um todo também foi motivo de estranhamento. O jornal O Estado de S. Paulo, por exemplo, ao mesmo tempo em que se opunha à política externa em relação a Angola, não deixava de alertar para a possibilidade de constituição de mais um satélite do Kremlin em território africano. Também dentro das Forças Armadas, o descontentamento se manifestava na voz do general Sílvio Frota, ministro do Exército e futuro opositor de Geisel.
     A despeito de importantes pressões externas e internas, o Brasil se manteve irredutível no apoio ao MPLA. É bom lembrar que, além das pressões citadas, a ditadura militar brasileira era alvo da desconfiança das antigas colônias, que não se esqueciam do recente apoio do Brasil ao colonialismo português. À medida que a guerra pelo controle do território se radicalizava, que os Estados Unidos patrocinavam a unidade da FNLA com a Unita e os embaixadores de diversos países se retiravam de Angola, o Brasil, com Ovídio de Melo, permanecia em Luanda. As negociações para a independência angolana se encerraram, conforme previamente acordado, no dia 10 de novembro de 1975. À primeira hora do dia 11, o representante brasileiro se apresentou ao novo governo, antes mesmo de qualquer país do bloco socialista.
     A opção do Brasil de permanecer em território angolano evidenciou uma conduta de autonomia e independência, principalmente em relação aos Estados Unidos.  Naquela difícil conjuntura, ela decorreu do posicionamento político à esquerda dos embaixadores Ovídio de Melo e Ítalo Zappa, e também do conhecido antiamericanismo do presidente Geisel. Vale notar, entretanto, que se foi “o maior feito da diplomacia brasileira nos últimos trinta anos”, ela não garantiu premiação ou reconhecimento para seus personagens mais importantes: os embaixadores Ítalo Zappa e Ovídio de Melo. Zappa foi o único de sua categoria que não recebeu a Ordem do Mérito Militar, além de ter deixado o Itamaraty sem jamais servir em um país de primeira linha. Ovídio de Melo foi depois encaminhado para a Tailândia por seis anos, e a seguir para a Jamaica. Foi promovido a ministro de primeira classe somente em 1985, depois do restabelecimento da democracia no Brasil.
     Esperança de transição para a esquerda, pragmatismo para os militares, maldição para os diplomatas. A Revolução dos Cravos e a luta pela independência das colônias foram, embora por motivos diversos, apoiadas por forças contraditórias no Brasil. Vale perceber, neste breve exemplo histórico, datado de abril de 1974 a novembro de 1975, que a política é rica em surpresas. Quando se esperava uma radicalização revolucionária, murchou a festa. Quando se imaginava um alinhamento brasileiro com os Estados Unidos, a aliança se deu à esquerda. E quando se podia imaginar o reconhecimento dos artífices da opção brasileira, veio seu incômodo confinamento em terras distantes. Passados muitos anos desde o fim da ditadura e do império português, pode-se perceber hoje a importância das escolhas do governo e da diplomacia do Brasil. Ainda que com a devida “distância entre intenção e gesto”.

Francisco Carlos Palomanes Martinho é professor do Departamento de História da Uerj e autor do livro A Bem da Nação: o Sindicalismo Português entre a Tradição e a Modernidade (1933-1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.


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Saiba Mais – Filme
Trem Noturno para Lisboa
Raimund Gregorius (Jeremy Irons). Afetuosamente chamado de ‘Mundus’ por seus alunos, é um professor de latim do ensino médio e um especialista em línguas antigas. Sua vida é transformada depois de um encontro misterioso com uma jovem portuguesa na antiga ponte de Kirchenfeld, em Berna, Suíça – ele consegue impedir que salte para a morte nas águas geladas do rio. Raimund fica intrigado, mas a mulher desaparece, deixando seu casaco pra trás. Dentro de um bolso, ele descobre um livro de um médico português chamado Amadeu de Prado, com uma passagem de trem no miolo. Ele decide usá-la espontaneamente, partindo para uma jornada de aventura em Lisboa. Enquanto procura pelo autor, Raimund revisita um capítulo sombrio da história do país e desvela um trágico triângulo amoroso. Sua jornada transcende o tempo e o espaço, tocando questões da história (revolução dos cravos)  da filosofia e da medicina.
Direção: Bille August
Ano: 2013
Áudio: Alemão, Inglês, Português
Duração: 110 minutos