"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Pinga, cachaça, jeribita

Frutos notáveis da engenhosidade nativa, recomendadas para fins variados, inclusive medicinais, as bebidas alcoólicas trouxeram alegria e riqueza ao Brasil colonial.
Luciano Figueiredo
          Destiladas ou fermentadas, e com base em diferentes gêneros - a mandioca, a cana-de-açúcar, a uva, o trigo ou o milho -, as bebidas alcoólicas são exemplos da notável engenhosidade das gentes, por vezes alegres, que habitavam estes trópicos. Mas possuíam significados estranhos no tempo dos colonizadores. Longe de representar simplesmente uma forma de alegria e divertimento humanos, serviam como gênero medicinal, como era o caso da aguardente e do vinho. A primeira era recomendada especialmente para dores, inflamações, feridas e ainda para os olhos, a surdez e até para o tratamento de varíola e de sarampo. Já o vinho se prestava para cauterizações e fricções, além de servir na preparação de bebidas à base de ervas. Um pouco de vinho oferecido às crianças ajudava a evitar que urinassem na cama.
          Aos poucos, conforme avançava o verde dos canaviais na terra brasilis, a capacidade de produzir bebidas tropicais em larga escala vai firmando novos rumos à economia do Brasil colônia. Considerada "filha da cana e neta do canavial", como lembram estudiosos do folclore, a aguardente mereceu também um parentesco ainda mais decisivo com o tráfico negreiro africano. Afinal, a jeribita, como era chamada a cachaça brasileira no interior daquele continente, foi o principal produto de troca por escravos nas feiras e portos da África central desde o século XVII. Esta comercialização em escala internacional acompanhava o que se passava na Europa do norte com diversos tipos de destilados enquanto nas Américas certas bebidas como o pisco e o chinguirito, ao contrário, estavam circunscritas ao consumo doméstico e a produção ficava limitada ao mercado regional.
          Ao lado da produção da "aguardente da terra", os lucros do comércio de bebidas importadas de Portugal, como o vinho e a "aguardente do reino" (um tipo de bagaceira feita à base de uva destilada), muito consumidas nas tabernas das vilas brasileiras, rendiam recursos fiscais preciosos para financiar a proteção da costa contra piratas e corsários que atacavam frotas e cidades. Criava-se assim aqui, curiosamente, uma estreita dependência de bebidas alcoólicas: a obtenção de mão de obra escrava para o plantio de cana-de-açúcar e para a mineração estava vinculada à troca pela cachaça; e a defesa do território contra os invasores e piratas dependia do vinho que se bebia aqui.
          Mas aguardente combinava mesmo com escravidão. E isso ocorria desde a perseguição e o comércio de escravos na África, sobretudo em Angola, onde a predileção pela aguardente substituiu o apreço às cervejas africanas e ao malafo - bebida fermentada, muito utilizada em cerimônias, extraída de diversos tipos de palmeiras e chamada pelos portugueses de "vinho-de-palma". Quando os sobas (chefes nativos) e grupos mercantis africanos experimentaram a aguardente brasileira, com seu elevado teor de álcool em comparação com as bebidas que conheciam, nunca mais deixaram de exigi-la como moeda de troca. Para a frustração de comerciantes da metrópole, e a felicidade de produtores no Brasil colônia, os africanos rejeitavam o vinho português, a "aguardente do reino", a cidra, os vinhos espanhóis, e a cerveja europeia que os traficantes portugueses tentavam negociar sem sucesso. A preferência pela cachaça, ao lado do tabaco baiano, assegurou grande destaque aos comerciantes brasileiros na África.
          Considerada eficaz contra a depressão em longas travessias e, acima de tudo, como fortificante, antes mesmo de chegar ao Brasil os negros conheceram a bebida que iriam consumir em larga escala na América, já que os próprios traficantes recomendavam que a jeribita fosse fornecida de manhã e a noite aos escravos a bordo. Um hábito que se repetiu aqui: os fazendeiros ofereciam cachaça a seus cativos quando eles saíam de manhã para a penosa jornada de trabalho, e seu consumo funcionava como complemento dietético diante da fraca alimentação oferecida pelos senhores. A pinga então animava e enganava a sensação de dor e fome. A produção de bebidas pelos engenhos na época guardava algumas peculiaridades, a começar pelas técnicas de produção e as designações que surgiam para cada espécie. No interior dos engenhos ou fora deles, a aguardente era destilada em alambiques que podiam ser de cobre ou até de pedra-sabão, e que separavam o álcool do restante do líquido. Também ali se produzia a garapa e a cachaça, bebidas com mais baixo teor alcoólico consumidas pelos escravos, e obtidas a partir da espuma retirada da fervura do caldo de cana ou do melaço que escorria das formas antes de ser transformado em açúcar.
          Ainda que aguardente e cachaça apareçam como distintas para alguns autores, muitos costumam não diferenciar uma da outra. Certo é que a produção da aguardente e da cachaça nos engenhos serviu muitas vezes como a "salvação da lavoura" para seus proprietários, e não apenas como fonte mais barata de calorias para a mão de obra. Ao contrário do mercado da aguardente, sempre crescente, o comércio do açúcar era caprichoso, com flutuações de preços que tornavam a produção instável e onerosa. Qualquer retração no mercado internacional, e a queda nos preços, abalava os rendimentos de toda a safra. Por isto muitos senhores investiam de maneira complementar na produção e comércio da cachaça, chegando mesmo a defender - em uma inversão curiosa - que esse era o principal comércio para assegurar o lucro dos engenhos, uma vez que a venda do açúcar apenas pagava suas despesas. Em épocas de preço baixo do açúcar, os senhores preferiam reduzir a produção do açúcar branco e investir no fabrico da aguardente. Talvez por isso os engenhos para a produção da aguardente de cana tenham se espalhado de norte a sul da América portuguesa. Seus baixos custos, a capacidade da cana se adaptar em qualquer terreno e a garantia de consumo explicam esse sucesso. Destilava-se a aguardente até mesmo em unidades produtivas menos convencionais, como as fazendas administradas por ordens religiosas, os engenhos de beneditinos e algumas missões, por exemplo, ainda que a religião condenasse o consumo de álcool.
          Antes, porém, do sucesso da aguardente, os colonos portugueses no Brasil se esforçaram para recriar no além-mar o padrão de consumo do reino e, nos primeiros tempos, o vinho integrava a dieta básica deles, embora com moderação. Não dispensavam "um copinho de vinho de Portugal", segundo o testemunho do padre jesuíta Fernão Cardim (1549-1625). Perseguindo certo conforto no Novo Mundo, os primeiros colonizadores logo cuidaram de transplantar mudas de videira para a produção de vinho. Na Bahia, chegou-se a produzir uva em abundância a partir da terceira década do século XVI, e logo depois se tem notícia de vinho tirado de cepas baianas. O mesmo se passa em São Paulo, onde se fazia vinho desde o século XVII. Os esforços, no entanto, seriam em vão: mais do que a voracidade das formigas que destruíam plantações inteiras, os colonos não conseguiram aguentar a pressão das empresas monopolistas de comércio de Portugal, responsáveis pela importação para o mercado do Brasil dos vinhos do reino e da ilha da Madeira.
          Mas nem só de vinho e de aguardente da cana-de-açúcar vivia o morador do Brasil colônia. Muitos cronistas que travaram os primeiros contatos com os índios tupi, que habitavam o litoral, descreveram o consumo, durante celebrações, do cauim - bebida fermentada, produzida a partir de tubérculos, como a mandioca, ou de cereais, como o milho, e ainda de frutas, como o abacaxi. O mel, eventualmente adicionado, elevava seu teor alcoólico.
          Variações regionais de bebidas se multiplicaram à margem da cana-de-açúcar, formando verdadeiras sínteses de trocas culturais e das características da produção local. No Maranhão, desenvolveu-se uma aguardente nativa, a tiquira, feita de mandioca, e muito apreciada pela população pobre. Em Minas Gerais, surge o alua ou "vinho de milho", bebida fermentada criada pelos africanos chegados da Costa da Mina. Na vila de São Paulo, a aguardente de milho e a de trigo, feitas a partir destes cereais fermentados e destilados, se tornaram um sucesso. Mais ao sul, aparece a de beiju, produzida pela fermentação e destilação do caldo da mandioca ralada.
          Apesar da diversidade de bebidas que as culturas dos povos na América puderam fermentar e destilar, teria sido elevado o consumo de álcool nesta época? A princípio, considerando a legislação que insistentemente condenava o consumo pelos escravos, sim. Em diversos momentos os administradores do Brasil desenharam imagens de violências praticadas por escravos enebriados pelo álcool, cometendo roubos, mortes, fugas e todo tipo de desordem social. Ainda que isto tenha ocorrido, a argumentação contra os efeitos sociais e políticos da jeribita muitas vezes escondia interesses dos negociantes de Portugal, que pretendiam justificar assim a supressão da concorrência que a aguardente brasileira oferecia aos vinhos e às bebidas importadas do reino, tanto no mercado local quanto na África. Outras vezes, a guerra contra a "aguardente da terra", como sucedeu em Minas Gerais na época da mineração de ouro e diamantes, quando se proibiu engenhos de cachaça, traduzia o desejo de eliminar a produção de bebidas que desviava a preciosa mão de obra da mineração.
          Considerando-se ou não tais imagens de consumo desenfreado pelos negros, inegavelmente elas colaboraram para construir uma visão negativa sobre os efeitos sociais da aguardente. Por outro lado, se não é possível por ora saber a quantidade de consumo, há indícios de que no Brasil colônia se bebia bem menos do que se pensa. Até porque diversos agentes se dedicavam a policiar o consumo excessivo de álcool. Os jesuítas, por exemplo, orientavam os senhores a evitar a embriaguez dos cativos pela aguardente, sugerindo que ela fosse substituída pela "garapa doce", bebida fermentada a partir das escumas do caldo de cana, com mais baixo teor etílico. As irmandades religiosas em diversas capitanias, como Bahia e Minas Gerais, vetavam o ingresso e a permanência de irmãos que bebessem imoderadamente. As visitas dos inquisidores de Portugal e dos bispos que atuavam no Brasil às vilas e arraiais vigiavam atentamente aqueles que praticavam o vício da "bebedice", e casos frequentes de blasfêmia por parte de homens e mulheres embriagados de vinho chegavam à Inquisição.
          Ao menos nos meios sociais mais elevados, os portugueses pareciam praticar certa temperança em relação às bebidas alcoólicas: a embriaguez era grave falta social e motivo de desprezo na comunidade. Alguns viajantes no século XVIII afirmam que os portugueses seriam o povo europeu menos afeito ao consumo de álcool. Muitos confirmam esse padrão para o Brasil, como os missionários católicos que passaram pelo Nordeste no século XVII. Eles ficaram admirados com os habitantes de origem portuguesa que bebiam principalmente água fresca, refrescos e suco de frutas; e se escandalizaram - talvez sensibilizados pelo ódio àqueles protestantes - com o alarmante consumo de álcool por parte dos holandeses durante a ocupação da região.
          Viajantes europeus que percorreram o território brasileiro a partir do século XIX expressam opiniões diferentes a respeito do tema, embora predominem os testemunhos sobre a moderação dos brasileiros, exceto em relação a escravos e marinheiros, consumidores de muita aguardente. John Mawe registra que em São Paulo se consumia com parcimônia o vinho nas refeições comuns, a mesma opinião de Saint-Hilaire, Gardner e Tollenare. Há, para estes viajantes, certa unanimidade de que as elites das fazendas ou dos sobrados urbanos não recorriam à bebida, só alguns cálices de vinho do Porto ou Madeira, vinhos de laranja e licores, isso nas celebrações e com sobriedade. Esta visão suavizada do consumo nos trópicos não está presente, porém, na narrativa de Burton em suas andanças por Minas Gerais, a ponto de afirmar que ali o "consumo de bebidas alcoólicas ultrapassa, eu acredito, o da Escócia".
          De todo modo, soluções no mínimo inusitadas para reduzir o consumo do álcool também acompanharam o hábito de beber no Brasil de então. João Curvo Semedo, por exemplo, reúne em seu livro Observações médicas doutrinais de cem casos gravíssimos, de 1727, algumas medidas "contra a bebedice", recomendadas a qualquer um interessado em abandonar o vício: servir ao ébrio "vinho em que se afogaram duas enguias vivas" ou "vinho em que se misturou um pouco de esterco de homem". Outra alternativa sugeria recolher o "suor dos companhões [testículos] de um cavalo, quando estiver suado" e servir ao beberrão, que também poderia escolher entre um copo de "vinho em que deitaram uma fatia de pão que estivesse duas horas no sovaco de um agonizante" ou ainda o "vinho que se deitou por meia hora dentro dos sapatos do mesmo bêbado, quando os descalçar, estando ainda quentes".

LUCIANO FIGUEIREDO é professor de História na Universidade Federal Fluminense, editor de Nossa História e autor do verbete, em colaboração com Renato P. Venâncio, Colonization European and native drinking (Portuguese America), publicado na Enciclopédia Alcohol and temperance in modero history: An international encyclopedia. New York; ABC-CLIO, 2003, 2 vols.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes. Formação do Brasil no Atlântico Sul, séculos XVI e XVII. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
ANTONIL, André J. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1982.
CASCUDO, Luís da Câmara. Prelúdio da cachaça. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986.
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. Decadência do Patriarcado Rural e Desenvolvimento do Urbano. Rio de Janeiro: José Olympio, 1981.
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras / CNPQ, 1988.

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domingo, 21 de janeiro de 2018

Os mistérios da Rosa

Escrava e ex-prostituta, a africana Rosa Maria Egipcíaca se tornou a mais venerada santa negra do Brasil colônia.
Luiz Mott
          Não há na história da escravidão no Brasil uma africana cuja biografia seja tão fantástica e tão documentada como a de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz. Até hoje se conserva no Rio de Janeiro uma capela maravilhosa no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, cujo modelo e construção tiveram inspiração numa visão celestial dessa africana ainda pouquíssimo conhecida em nosso país. Muito mais que a lendária escrava Anastácia, Rosa Egipcíaca foi a mais famosa e venerada santa negra da diáspora africana no Novo Mundo.
          Rosa era uma negrinha nascida na Costa de Mina, de nação Courana, que desembarcou de um navio negreiro no Rio de Janeiro em 1725: tinha seis anos de idade. Foi comprada por um tal senhor José de Sousa Azevedo, que a mandou batizar na Igreja da Candelária, templo onde grande parte dos africanos eram batizados e que na época não passava de uma pequenina igreja, sede da Freguesia da Várzea, humílima em comparação à grandiosidade do templo neoclássico que hoje conhecemos.
          Dizem os manuscritos de seu processo conservado no Arquivo da Torre do Tombo, em Portugal - que, ao atingir catorze anos, o senhor de Rosa, "após desonestá-la e tratar torpemente com ela", a vendeu para as Minas Gerais. A adolescente mina teve o mesmo triste destino de tantas escravas da cor de ébano, presas fáceis da volúpia dos machos de todas as cores numa sociedade que acreditava não haver pecado abaixo do equador.
          Na capitania das Minas, Rosa foi comprada pela mãe de um de nossos mais destacados literatos do período colonial, frei José de Santa Rita Durão, autor do poema "O caramuru", indo morar na freguesia do Inficcionado, a duas léguas de Mariana. Como tantas escravas de norte a sul da Colônia, a negra courana vai viver de vender seu corpo e favores sexuais aos homens mineiros, que com ouro em pó compravam mercadorias e prazer das disputadas mulheres que percorriam as faisqueiras, pequenas áreas de mineração abertas a todos que buscavam enriquecer por si próprios. Era a única escrava negra num plantel de 77 escravos machos! Segundo mais tarde confessou perante o comissário do Santo Ofício do Rio de Janeiro, passou 15 anos "a se desonestar vivendo como meretriz".
          Ao completar trinta anos é atacada de estranha enfermidade, logo diagnosticada como uma espécie de "encosto": ficava com o rosto inchado, sentia fortes dores no estômago, caindo ao chão desacordada. Rosa decide então mudar de vida: por volta de 1748, vende seus poucos bens - joias e roupas amealhados com a venda de seu corpo - e distribui tudo o que consegue aos pobres. Adota vida beata, frequentando os ofícios divinos e liturgias, que, abundantes, eram celebrados nas barrocas igrejas mineiras, muitas delas acabadas de construir nessa mesma década. Foi numa dessas andanças que encontrou na Capela de São Bento, no mesmo arraial do Inficcionado em Mariana, o padre Francisco Gonçalves Lopes, que realizava espantosos exorcismos em alguns possuídos. Esse sacerdote português era então vigário da freguesia de São Caetano, no mesmo distrito, e tão eficaz e useiro era em tirar o demônio do corpo de brancos e pretos que tinha por apelido "Xota-Diabos".
          Impressionada com a cerimônia do exorcismo, Rosa revelou que ela própria também estava possuída por sete demônios: segundo ela, era como se um caldeirão de água quente estivesse sendo despejado sobre seu corpo, o que a fez cair desacordada ao chão, partindo a cabeça na pedra debaixo do altar de são Benedito. Um segundo exorcismo realizado nessa mesma freguesia confirma ao sacerdote que de fato a escrava do casal Durão era uma possessa especial, pois, quando vexada, fazia sermões edificantes, sempre com a preocupação de que todos mantivessem perfeita compostura nos templos, retirando à força para a rua a quantos conversassem ou desrespeitassem o Santíssimo Sacramento. Quando possuída por Satanás, falava grosso, caía desacordada e dizia ter visões celestiais. Por diversas vezes afirmou ter visto Nossa Senhora da Conceição, ouvido diversos coros de anjos que lhe ensinaram algumas orações, e até recebido a revelação de uma fonte de água milagrosa ao pé de uma montanha, onde devia ser construída uma igreja em honra de Senhora Santana. O culto da mãe de Maria substitui, no imaginário místico de Rosa, a perda e o desconhecimento dos próprios ancestrais, culto muito forte na maior parte das culturas da Costa da África.
          A fama de visionária de Rosa espalha-se por Mariana, Ouro Preto, São João del Rei, sempre acompanhada do padre Xota-Diabos e de seus exorcismos. Nesta última cidade, na Igreja do Pilar, certa feita Rosa courana interrompe a pregação de um missionário capuchinho italiano, gritando que ela era o próprio Satanás ali presente: é presa e enviada para a sede do bispado, em Mariana, sendo flagelada no pelourinho com tal rigor que por pouco não morreu, ficando, contudo, para o resto da vida com o lado direito do corpo semiparalisado. Recuperada da tortura, procura o recém empossado bispo da diocese, dom frei Manoel da Cruz, que encarrega uma junta de teólogos de investigar se Rosa era mesmo possuída ou embusteira. Após uma série de provas - inclusive testando a resistência da pobre vexada à chama de uma vela, que por cinco minutos a suportou debaixo da língua! -, concluem os teólogos que era tudo fingimento, passando então o povo a zombar de Rosa, chamando-a de feiticeira.
          Para evitar novos problemas, Rosa foge para o Rio de Janeiro, sempre auxiliada e protegida pelo seu inseparável padre Xota-Diabos, agora seu proprietário legal, o qual nessa época passava dos cinquenta anos - corria a fama de que eram amantes. Chegam então à heroica e leal cidade do Rio de Janeiro em abril de 1751. Depois de Salvador, a capital da Colônia, o Rio de Janeiro era nossa segunda cidade em importância demográfica e econômica, e com vivíssimo décor religioso: 23 igrejas distribuídas em quatro paróquias: São José, Catedral (São Sebastião no morro do Castelo), Santa Rita e Candelária; setenta oratórios, 26 confrarias, 380 frades, mais de uma centena de padres seculares.
          Rosa instala-se, inicialmente, numa casa em frente à Igreja de Santa Rita, tendo sua primeira visão na Igreja de Nossa Senhora da Lapa - "caindo no chão sem sentidos e como morta" -, quando lhe apareceu o Menino Jesus vestido de azul-celeste, com uma tiara pontifícia na cabeça. Por sugestão de uma das muitas beatas que frequentavam assiduamente os templos cariocas, Rosa revela sua vida atribulada e dons espirituais ao provincial dos franciscanos, frei Agostinho de São José, que passa a ser seu diretor espiritual. Foi esse mesmo frade quem edificou o segundo andar do Convento de Santo Antônio, ainda hoje dominando do alto do morro o Largo da Carioca. A vida mística de Rosa impressiona vivamente os franciscanos, que a veem cumprir todos os exercícios pios muito em voga nos séculos passados: jejuns prolongados, uso de silício (instrumento para autoflagelação), comunhão frequente. Dão à preta Rosa o maravilhoso título de "a Flor do Rio de Janeiro".
          Nessa época, convém esclarecer, malgrado a discriminação legal e institucional contra a raça negra, sujeita à escravidão e aos mais cruéis tormentos, procurava a Igreja Católica oferecer modelos de santidade para este enorme contingente demográfico representado pelos africanos e afrodescendentes que pululavam por toda a América portuguesa. É nesses meados do século XVIII que o papado estimula, por todas as partes do mundo escravista, o culto a são Benedito, santo Elesbão, santa Ifigênia, santo Antônio de Noto (ou Catigeró), todos negros como Rosa, todos exemplos de humildade, resignação e santidade. A beata Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, portanto, ex-prostituta como sua patrona santa Maria Egipcíaca (natural do Egito, que teve vida escandalosa da adolescência aos 29 anos, quando se converteu, isolando-se na Palestina, onde viveu sob duras penitências por 47 anos), vinha a calhar nessa renovação pastoral da Igreja e poderia ser - certamente assim o desejavam os franciscanos - uma futura santa. Tão logo chega ao Rio, Nossa Senhora obriga a negra courana, através de uma visão celestial, a aprender a ler e escrever, tarefa que cumprirá razoavelmente, sendo até agora a primeira africana de que se tem notícia em nossa história a ter aprendido os segredos do abecedário. Também por inspiração sobrenatural, Rosa Egipcíaca decide fundar um recolhimento para "mulheres do mundo" que pretendiam, como ela, trocar o amor dos homens pelo do Divino esposo.
          Financiada por polpuda doação de um sacerdote de Minas Gerais, seu devoto e admirador das virtudes da ex-escrava, contando com o beneplácito do bispo do Rio de Janeiro, d. Antônio do Desterro, em 1754 é lançada a primeira pedra do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, aproveitando a existência de pequena capela localizada no centro histórico desta cidade, onde hoje se situa a rua da Assembleia. Construído, o recolhimento chegou a abrigar uma vintena de moças-donzelas e ex-mulheres da vida, sendo metade delas negras e mulatas. Madre Rosa - como então era chamada por dezenas de seus devotos - sofistica suas visões, passando a escrevê-las ou ditando para que suas escribas anotassem tudo o que via e ouvia, seja revelado pelos santos, por Maria Santíssima ou pela própria boca do Onipotente.
          Sempre aplaudida e venerada pelo padre Francisco Gonçalves Lopes, pelo seu frade confessor e por um capuchinho italiano, a negra courana escreve mais de 250 folhas do livro Sagrada teologia do amor de Deus luz brilhante das almas peregrinas, e diz que o Menino Jesus vinha todo dia mamar em seu peito e, agradecido, penteava sua carapinha; que Nosso Senhor trocara seu coração com o dela, e que no seu peito trazia Jesus Sacramentado; que morrera e tinha ressuscitado; que Nossa Senhora era Mãe de Misericórdia e que ela, Rosa, recebera de Deus o título e encargo de Mãe de Justiça, dependendo de seu arbítrio o futuro de todas as almas, se iam para o céu ou para o inferno; que ela própria era a esposa da Santíssima Trindade, a nova Redentora do mundo. A ex-escrava, agora madre do Recolhimento do Parto, foi a principal vidente e divulgadora em terras brasileiras do culto aos Sagrados Corações, originado na França no século XVII e oficializado para toda a cristandade pelo papa Clemente XIII em 1765, incluindo não apenas a devoção oficial a Jesus e Maria, mas a toda a família do Nazareno, a saber, os corações de são José, são Joaquim e Santana. Foi graças às visões de Rosa, e para representá-las visualmente, que os franciscanos construíram no Convento de Santo Antônio a maravilhosa Capela dos Sagrados Corações, até hoje perfeitamente conservada e aberta à visitação pública, muito embora omitindo-se os créditos à sua verdadeira inspiradora: santa Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz!
          Em seu recolhimento, além do culto idolátrico à sua pessoa, algumas liturgias igualmente pecavam pela oposição aos dogmas da Igreja, notando-se elementos de forte inspiração africana. Não esquecer que mais da metade das recolhidas entre as quais as principais assessoras de Rosa eram afrodescendentes. Além do hábito de pitar cachimbo, a negra courana comandava certas cerimônias em que é nítido o sincretismo afrocatólico, incluindo danças e transe.
          A fantasiosa megalomania religiosa de madre Rosa tinha no padre Xota-Diabos seu promotor, o qual mandara pintar um quadro sobre cobre, em que a "Flor do Rio de Janeiro" posava com todos os símbolos da santidade, trazendo na mão direita uma pena, símbolo de sua erudição teológica, posto que o padre Xota-Diabos, agora capelão do recolhimento, proclamara mais de uma vez que "Rosa deixava santa Teresa d’Ávila a léguas de distância" e que aquela santa, primeira mulher a ser declarada Doutora da Igreja, não passava de uma "menina de recados" da mestra africana. Muitos fiéis frequentavam o Recolhimento do Parto, alguns para ouvir os conselhos da madre superiora, outros para buscar suas relíquias, notadamente uma espécie de biscoito feito com a saliva de Rosa, amassada com farinha, que era guardada para esse fim, e a que seus devotos reputavam o poder de curar todas as enfermidades. Profetizando que o Rio de Janeiro ia ser inundado e destruído do mesmo modo como acontecera no ano anterior (1755) com o terrível terremoto de Lisboa, madre Rosa convence uma dezena de famílias a refugiar-se no recolhimento, garantindo que seriam os únicos sobreviventes do dilúvio e que essa nova Arca de Noé iria cruzar o oceano para encontrar-se com o rei d. Sebastião - desaparecido havia dois séculos nas areias do Marrocos, o qual tinha escolhido a negra Rosa para sua esposa. E que desse matrimônio e de seu ventre nasceriam o novo Redentor da humanidade. Rosa foi, dentre todos os sebastianistas, a que mais ousou em suas profecias!
          Não foram tanto os vaticínios não cumpridos nem seus êxtases e revelações de características epileptoides a causa da derrota de madre Egipcíaca: seu erro foi indispor-se com o clero carioca, por ter ralhado com alguns sacerdotes que davam mau exemplo conversando na igreja durante as cerimônias sacras. Acabou sendo denunciada ao bispo, sobretudo após ter retirado à força, da Igreja de Santo Antônio, uma senhora da sociedade que se comportava com menos compostura. Mandada prender no cárcere eclesiástico do Rio, dezenas de testemunhas passam a denunciar as excentricidades dessa preta beata: aí então se revelam todos os seus desatinos religiosos, como dizer-se mãe de Deus, redentora do universo, superior a santa Teresa, objeto de verdadeira e herética idolatria em seu recolhimento, além de capitanear rituais sincréticos igualmente suspeitos.
          Após quase um ano presa no cárcere eclesiástico do Rio de Janeiro, Rosa e o padre Xota-Diabos são enviados para Lisboa, sendo ouvidos pelo Santo Ofício, em 1763. O sacerdote em poucas sessões do inquérito declara ter sido enganado pela falsidade da negra, alegando ser pouco letrado em teologia e ter-se fiado na boa opinião que o provincial dos franciscanos dela fazia. Pede perdão por sua boa-fé e excessiva credulidade: tem como pena o degredo de cinco anos para o extremo sul de Portugal, no Algarve, além de perder o direito de confessar e exorcizar. Rosa, por seu turno, dá um heroico espetáculo de autenticidade, insistindo em muitas sessões que nunca mentiu, nem inventou coisa alguma: confirma que todas as suas visões, revelações e êxtases foram verdadeiros. Em 4 de junho de 1765 se dá a última sessão de perguntas à vidente afro-brasileira: nesse dia ela narra uma de suas visões. Que estando para comungar ouviu uma voz sobrenatural que lhe dizia: "Tu serás a abelha-mestra recolhida no cortiço do amor. Fabricareis o doce favo de mel para pores na mesa dos celestiais banqueteados, para o sustento e alimento dos seus amigos convidados".
        A partir daí, inexplicavelmente, se interrompe o processo de Rosa Egipcíaca, fato dos mais raros quando se trata de processos de feiticeiras, sodomitas, bígamos, falsas santas e blasfemos. Os inquisidores sempre eram muito minuciosos em anotar o desfecho do julgamento. Comparando suas culpas com a de outras beatas e embusteiras processadas pelo Santo Ofício da Inquisição, é possível avaliar que Rosa deveria ser condenada à pena dos açoites e degredada por cinco anos para o Algarve, aliás, como foi o caso de outra afrobrasileira, a angolana Luzia Pinta, esta sim verdadeira "mãe-de-santo" de um calundu, muito mais ligada às raízes africanas do que madre Rosa.
          Através da vida dessa ex-escrava africana, alguns aspectos cruciais da sociedade colonial brasileira merecem maior reflexão, além de uma revisão historiográfica. Por exemplo, o fato de que, num contexto em que negro equivalia a escravidão e indignidade, e africanos eram desprezados como raça inferior, bruta, "sangue impuro", não deixa de ser notável a veneração e verdadeira idolatria de inúmeros brancos - incluindo ex-senhores e membros do clero - a uma negra africana, ex-prostituta. A inteligência, determinação e esperteza dessa negra courana fazem-na merecedora, muito mais do que a escrava Anastácia, de ostentar o título de santa e Flor do Rio de Janeiro!

LUIZ MOTT é professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em antropologia, comendador da ordem do rio branco e autor de Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil (BERTRAND-BRASIL, 1993).
         
Fonte – Revista de História da Biblioteca Nacional - Ano 1 nº 3 - Setembro 2005

Saiba Mais – Bibliografia
EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1932.
SANTANA, frei José Pereira. Os dois atlantes da Etiópia: santo Elesbão, Imperador 47° de Abissínia, e santo Efigênia, princesa da Núbia, advogada dos incêndios dos edifícios. Ambos carmelitas. Lisboa: Oficina Antonio Pedrozo Galram, 1735.

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domingo, 14 de janeiro de 2018

Sob o manto de Isabel

Republicanos como Rui Barbosa e até mesmo monarquistas destronados não conseguiam compreender o sentimento de devoção dos ex-escravos pela princesa que assinou a Lei Áurea.
Robert Daibert Junior
          No dia 13 de maio de 1891, na cidade de Mar de Espanha, em Minas Gerais, um grupo de ex-escravos foi preso por autoridades republicanas. Motivo: comemoravam o terceiro aniversário da Abolição. Eles ostentavam a bandeira do Império, ameaçavam queimar a da República, e davam vivas à monarquia e à princesa Isabel. Este episódio serve para mostrar a dificuldade do novo regime em apagar da memória coletiva a popularidade da monarquia e, em especial, da princesa Isabel. Curiosamente, celebrações como essa foram muito comuns e se multiplicaram por todo o país desde a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Foi assim que a princesa se consagrou, no imaginário popular, como a "Redentora". Mas o que teria tornado possível esse tipo de "canonização"? Por que os ex-escravos - muitos dos quais lutaram bravamente pelo fim do escravismo - dobravam seus joelhos, respeitosamente, diante da princesa branca? Teria sido esta uma prova de "alienação", como se diria hoje? Como eles interpretavam a atitude de Isabel?
          Entre negros africanos e seus descendentes, a figura da princesa se revestiu, por décadas, de um significado muitas vezes incompreendido até mesmo pelos monarquistas destronados. Meses antes da queda do Império, o republicano Rui Barbosa comentava indignado o fenômeno. Inconformado com as manifestações de gratidão que os negros devotavam à princesa Isabel, ele só encontrava uma explicação para o fato: eles não sabiam como desfrutar da liberdade alcançada. Encarava essa devoção como mau uso da condição adquirida. Via essas atitudes e comemorações como expressões de servilismo e subserviência. Nas palavras do jurista e político, publicadas no Diário de Notícias, de 19 de março de 1889, "ao manipanso [ídolo africano] grotesco das senzalas, próprio para a gente da África, sucedia o feiticismo da ídola tria áulica, digna de uma nação de libertos inconscientes". De acordo com a apreciação de Rui, os negros estariam dando continuidade ao costume de adorar ídolos. Considerava-os inconscientes devido a sua herança e costumes selvagens. Se por um lado estava certo em considerar a atitude dos negros uma continuidade, por outro não se dava conta de que, ao comemorarem a Abolição saudando e enaltecendo a princesa, estavam expressando sua concepção de realeza tal como a entendiam na África. Não se tratava de uma má assimilação da ideia de liberdade, mas de uma maneira diversa de compreender e comemorar essa conquista. Invertendo-se o olhar, a inconsciência não vinha dos negros, mas do próprio Rui, que não conhecia nem compreendia os meandros da cultura africana.
          A realeza fazia parte da organização social de muitos povos africanos. Era assim que concebiam sua organização. Tal fato pode ser constatado na organização dos quilombos no Brasil. Quando fugiam, os escravos se organizavam em comunidades sob o governo de um rei e de uma rainha. Além da figura do rei-guerreiro, também era comum a presença do rei-sacerdote e divino, responsável por presidir as colheitas e mediar a relação da comunidade com os espíritos ancestrais.
          Assim como os portugueses, os africanos, em sua terra natal, tinham o costume de assistir a cortejos reais, o que facilitou a reconstrução e adaptação de tais práticas em solo americano. Ao chegarem no Brasil, não abandonavam completamente suas raízes. Mais ainda, passavam a prestar obediência aos reis e príncipes portugueses e, após a Independência, ao imperador do Brasil. A primeira vista, este fato poderia servir de argumento para aqueles que viam nos negros a incapacidade de tomar consciência de sua posição de dominados. Festejar tais aclamações significaria uma espécie de alienação quanto à exploração que lhes era imposta pelo domínio português. Mas a conclusão não é tão simples assim. A formação dos estados monárquicos no continente africano era muitas vezes fruto de uma conquista que permitia a um grupo forte (do ponto de vista do armamento militar) sobrepor-se a um povo militarmente mais fraco, que passava a ser explorado. Para muitos povos, a guerra era o principal modo de produção das organizações políticas. Não havia como sobreviver de outro modo. As comunidades se enfrentavam em guerras e os perdedores se transformavam em súditos de seus dominadores. Por meio da cerimônia da coroação, o rei, visto como conquistador e usurpador, passava a monarca, de natureza sacerdotal ou mesmo divina. Aquele que trouxe a morte, por meio da guerra, tornava-se portador da vida.
          O mesmo ocorria com os africanos e seus descendentes no Brasil. Era familiar, aos seus olhos, participar da cerimônia e das festas de coroação de um novo rei. Não se consideravam vencidos. Impondo significados distintos, participavam dos festejos cívicos e das cerimônias promovidas pela monarquia. Nas cerimônias de coroação, nas festas cívicas e nos cortejos imperiais, o imperador era festejado com batuques e congadas. Ao participarem de tais eventos davam prosseguimento, atualizavam e ao mesmo tempo revestiam suas concepções culturais de novos significados.
          Segundo o historiador Robert Slenes, a maioria dos escravos importados para o Sudeste brasileiro, do final do XVIII até 1850, veio das sociedades falantes das línguas banto situadas na África Central, especialmente Angola e Congo-Norte. Seus valores estariam associados ao conceito de ventura-desventura, ou seja, "a ideia de que o universo é caracterizado em seu estado normal pela harmonia, o bem-estar e a saúde, e que o desequilíbrio, o infortúnio e a doença são causados pela ação malévola de espíritos ou pessoas, frequentemente através da feitiçaria". Considerando-se este preceito banto, podemos acrescentar que nas coroações simbólicas dos reis e rainhas realizadas pelos negros em suas festas religiosas no século XIX estava em jogo um importante processo de construção da nacionalidade brasileira nos moldes africanos.
          Nessas festas, a conversão de todos ao cristianismo era encabeçada por uma liderança africana. Curiosamente os negros eram vencedores porque contavam com a proteção de Nossa Senhora do Rosário, uma santa branca, que em determinadas ocasiões era pintada de preto pelos escravos. Brancos e negros eram assim integrados no ritual religioso. Nos sonhos e expectativas dos cativos, criava-se a possibilidade de construção de uma grande família, em que os conflitos e diferenças eram neutralizados e os estrangeirismos incorporados.
          Os conflitos entre os diferentes grupos eram resolvidos simbolicamente. Os negros, nas congadas, expressavam a expectativa de uma liberdade futura, quando sua felicidade seria restabelecida. Esta deveria ser alcançada após a resolução do conflito e coroada com a bênção de uma santa protetora, que, identificando-se com os anseios dos negros, promoveria a paz entre os grupos rivais. O caminho era a incorporação de novos valores aos já existentes. Ao final da guerra, os povos perdedores e vencedores, bem como seus referenciais culturais, seriam incorporados sob o manto do governante vencedor. Este, a partir de sua coroação, perderia o caráter usurpador para se transformar num promotor da justiça coletiva. Identificando-se com o povo reunido, reinaria de modo a ordenar e administrar as diferenças.
          "Vencidos" na África, os negros eram escravizados e trazidos para o Brasil. Tornavam-se súditos de um novo rei, com quem deviam se identificar e prestar obediência. Aqui chegando, no entanto, eram submetidos a novos "governos". Dentro das fazendas, permaneciam sob o comando dos feitores e senhores de escravos que lhes presenteavam com um cotidiano recheado de violência e exploração. Sentiam na pele os sofrimentos decorrentes de seu infortúnio e desventura. Muitos reis, rainhas e príncipes africanos eram escravizados e vendidos, juntamente com seus súditos, como escravos comuns. Mas, como diz o ditado popular, "quem já foi rei nunca perde a majestade". Em solo brasileiro, os negros continuavam a prestar obediência a seus soberanos antigos, estivessem eles presentes fisicamente ou não. Ao mesmo tempo, d. Pedro II era visto como um benfeitor. Perdoava condenados à morte e, em suas viagens pelas províncias do Império, sempre alforriava escravos como demonstração de suas intenções abolicionistas.
          Em sua guerra cotidiana contra a escravidão, os escravos viam nos senhores os inimigos de uma luta que se travava diariamente no convívio com seus opressores. Sua aproximação com o imperador, no entanto, dava-se somente em ocasiões especiais, geralmente festivas. Eram momentos em que podiam vivenciar seus sonhos de modo simbólico. Certamente as concepções africanas favoreceram não só a legitimidade do regime monárquico entre os negros, como também possibilitaram a neutralização de conflitos maiores. Em suas revoltas, os negros expressavam o descontentamento contra seus senhores, feitores ou policiais que os perseguiam. Mas não chegavam a pensar em derrubar a monarquia, embora esse temor estivesse presente no horizonte das elites imperiais.
          Em uma entrevista coletada por Gilberto Freyre, dona Maria Vicentina de Azevedo Pereira de Queirós, de origem aristocrática, nascida em São Paulo, no ano de 1868, relata: "Foi com grande alegria que recebi a notícia da Abolição e, em São Paulo, onde residia, assisti às grandes festas que fizeram na data de 13 de maio. Armaram grandes coretos nas ruas principais e ao som de bandas de música os escravos dançavam e cantavam, dando vivas e mais vivas à princesa Isabel, a 'Redentora'." Ao dançarem, os negros festejavam a concretização do sonho de liberdade que simbolicamente haviam vivenciado durante as festas no tempo do cativeiro. O que antes só era representado por meio de dramatizações, agora se tornara realidade. Nas festas em comemoração da Abolição, demonstravam grande satisfação, pois imaginavam estar retomando, e não apenas simbolicamente, a harmonia e o equilíbrio natural, que lhes havia sido retirado. No canto dos negros, este aspecto fica evidente. Com grande alegria entoavam: "Eu pisei na pedra, pedra balanceou/ Mundo tava torto, rainha endireitou." O estado de pureza, harmonia e bem-estar original estavam comprometidos. Seu "mundo estava torto". Acreditavam que a recriação deste estado de pureza por meio de rituais e festas, onde a figura do rei estava sempre presente, possibilitava agora o alcance de suas metas. Assim, a rainha teria corrigido a instabilidade e o desequilíbrio de seu mundo. A ação da regente se confunde com uma atitude divina. Como uma santa abençoa seu povo, livrando-o do estado de miséria. Na formação da imagem de Isabel são associados aspectos da religiosidade e da cultura africanas com a concepção cristã de salvação. A ideia de ruptura entre dois tempos - a escravatura e a abolição - tinha assim a intenção de apagar a lembrança de um passado marcado pela violência e pela exploração de brancos.
          A Abolição foi carregada de um sentido especial para os negros, na medida em que possibilitou uma melhor expressão de seus valores culturais. Ao mesmo tempo, abriu as portas para o estreitamento dos laços de solidariedade entre eles. Por meio da exaltação da figura de Isabel, canalizavam-se lealdades distintas em torno de uma mãe protetora. Assim como Nossa Senhora do Rosário, Isabel se identificava como a responsável pela vitória dos negros e pela incorporação dos demais grupos. Sob seu manto, brancos, negros e índios eram acobertados. A construção da nação se completava neste grande momento de patriotismo.
          O modo pelo qual os negros vivenciaram a Abolição e interpretaram a ação da princesa favoreceu a construção de uma imagem monarquista do fim do cativeiro. Valendo-se dos referenciais transplantados da África para o Brasil, a ideia da abolição como redenção dos negros ganhou grande visibilidade. Na luta entre "reinos" e domínios sua liberdade foi conquistada pelas mãos de uma princesa. Ao final da luta, Isabel foi coroada rainha e a paz se estabeleceu entre os grupos. No entanto, a princesa não chegou efetivamente a reinar. Em outra "guerra", foi destronada por seus inimigos republicanos e exilada para um país distante. Experiência nada desconhecida pelos seus súditos. Ao perder o trono, completava a obra da redenção: sacrificava-se pelos seus, como Cristo no Calvário. Nas quadrinhas cantadas por crianças brasileiras era comum se ouvir os seguintes versos: "Princesa dona Isabel/ Mamãe disse que a Senhora/ Perdeu seu trono na terra,/ Mas tem um mais lindo agora./ No céu está esse trono/ Que agora a senhora tem/ Que além de ser mais bonito/ Ninguém lho tira, ninguém."
          A princesa não foi esquecida nem abandonada. Mesmo não tendo chegado ao trono, foi coroada nas inúmeras festas que até hoje comemoram o fim da escravidão. As congadas ainda são realizadas em muitos cantos do Brasil e nelas os reinos prosseguem se enfrentando. Suas apresentações se dão nas festas de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito ou no dia 13 de maio, que também se tornou data importante no calendário do candomblé e da umbanda.

ROBERT DAIBERT JÚNIOR é mestre em História pela Unicamp e autor de Isabel, a "Redentora" dos Escravos: uma história da princesa entre olhares negros e brancos (1846-1988). Bauru, SP: EDUSCIFAPESP, 2004.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 1 nº 12 - Outubro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1990.
SCHWARCZ, Lilia. As barbas do Imperador. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava. Brasil, Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
SOUZA, Marina de Mello. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de Rei Congo. Belo Horizonte: Editora da UFMC, 2002.
STEIN, Stanley. Grandeza e decadência do café no Vale do Paraíba. São Paulo: Brasiliense, 1961.

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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Viagem à escravidão

Não eram gente, mas uma carga como qualquer outra. Num processo sobre o naufrágio de um navio negreiro, em 1851, na costa da Bahia, os próprios africanos contaram como era feito o transporte clandestino de escravos para o Brasil.
Ubiratan Castro de Araújo
     Meados do século XIX. O Brasil passa a colaborar com a Inglaterra na vi­gilância sobre a rota da escravidão no Atlântico. No auge da chamada crise do tráfico, o navio Relâmpago viaja. Ele acaba de embarcar na África sua carga viva, sob o olhar atento da Inglaterra, e vai desembarcá-la na Bahia sob o assédio de forças brasileiras. Um mês depois de partir de Lagos, o mau tempo faz o navio enca­lhar já próximo à praia na Bahia, facilitando o tra­balho das autoridades.
     Era o fim de uma viagem que percorreu toda a Costa d'África, recolhendo cerca de 500 passageiros, até chegar desastradamente a seu destino em 29 de outubro de 1851. Os dados aparecem no processo da auditoria da Marinha do Brasil, existente no Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção Judiciária, registro 5-157-06, e foram aqui cruzados com informações do cônsul britânico em Lagos, na Nigéria, dos arquivos do Foreign Office, o ministério de relações exteriores da Inglaterra.
     Apesar da ação policial, o processo instaurado revelará uma mentalidade - e talvez uma atividade - ainda escravocrata das autoridades brasileiras: por que fazer constar como porto de origem "Luanda" e em "300" o número oficial de negros traficados, contra todas as evidências processuais, se não para beneficiar os grandes traficantes baianos e seus sócios e correspondentes da principal rota do tráfico para o Brasil, entre Lagos e a Bahia?
     Os personagens brancos do evento são bastante conhecidos. O capitão era o veterano pirata do trá­fico Benito Denizan, um espanhol vindo da Venezuela, o que explica o castelha­no de alguns nomes na relação de portos. O destinatário da carga era Higino Pires Gomes, um conhecido político liberal, lider militar da Sabinada, revolta baiana de 1837, e proprietário do Engenho Pontinha, habitual ponto de desembarque de navios negreiros na Bahia.
     Menos de um mês depois do de­sembarque, lá estão os negros, assus­tados e seminus, desfilando para as autoridades da Auditoria da Mari­nha: 300 passageiros compulsórios, segundo os autos do processo de apreensão do navio e do recurso interposto em de­fesa do traficante Higino Pires Gomes; 500, segun­do as informações do cônsul britânico em Lagos, em que se baseiam o pesquisador Pierre Verger e o pro­fessor David Eltis. E os negros vão passando no cor­tejo, um a um, alguns rebatizados com nomes bíbli­cos para submeter também suas almas: Sem, Adão, Noé, Abel e Eva, cinco dos seis únicos depoentes no processo do navio Relâmpago. Vamos ouvi-los.
      Ele tinha mais ou menos 18 anos. Havia alguns meses, saíra de seu país, Egba, na Costa d’África, pa­ra negociar no país de Jebu, quando foi sequestrado para Lagos. Desde então nunca mais perguntaram o seu nome. Passou mais de dois meses no reino de Onim, na região de Lagos, encarce­rado em uma grande cela comum, perto da praia, até que perdeu o sen­so de direção. Tonto, sem saber onde estava, foi jogado num porão de na­vio, no meio de uma multidão de es­tranhos. Ninguém perguntou o seu nome, nem ele o de ninguém. Igno­rava quem eram seus carcereiros. Sabia apenas que o capitão era um homem branco, corado, alto, magro, com barbas do tipo suíças.
     Depois de um mês dentro daque­le baú de madeira, sentiu o pavor da tempestade. O baú virava de um la­do para outro, às vezes parecia que ia mergulhar para o fundo das águas, às vezes empinava como se fosse voar. Um grande barulho. Os paus todos ran­giam. O bicho se debatia como uma fera amarrada, até encalhar próximo à praia. No meio da confu­são, nem sabe ao certo se alguém o soltou ou se ele mesmo conseguiu se desvencilhar das grilhetas.
     Quando subiu do porão para o con­vés, não viu o comandante e o resto da tripulação, que já estavam em ter­ra com alguns negros. Ele e muitos outros tinham ficado a bordo. Perce­beu que havia uma corda estendida entre o navio e a praia. Todos se pre­cipitaram. Alguns morreram afoga­dos, outros conseguiram chegar em terra e outros foram recolhidos pelos escaleres de um navio de guerra e transportados até a cidade.
     Ele não calcula quantos morre­ram no naufrágio porque não sentiu falta de ninguém, só lembra que o porão estava cheio de desconhecidos, cativos como ele. Do esca­ler para um navio, do navio para uma prisão, foi fi­nalmente levado ao tribunal dos chefes dos mari­nheiros que o haviam recolhido. Trouxeram uma mulher que falava algumas palavras de sua língua. Ele dizia que o navio viera de Lagos e as autorida­des repetiam um nome estranho, Luanda. Sem ra­zão aparente, Lagos, na Nigéria, era substituído por Luanda, em Angola. Ninguém quis saber o seu no­me. Passaram a chamá-lo de nº244 e de um estra­nho nome: Sem.
     Não sabia que terra era essa, não sabia que cidade era essa, não sabia que pelas leis brasileiras era um ho­mem livre. Mas ainda assim, Sem era um homem sem liberdade.
     A outro deram o nome de Adão. Ele era o 242, "cinco pés e nove po­legadas de altura, cara redonda, olhos e orelhas pequenas, nariz re­gular, boca grande, corpo magro, pescoço comprido, de vinte e oito anos, pouco mais ou menos, pés re­gulares, dentes limados e princípio de barba". Em outro registro, atri-buíram-lhe 22 anos e o descreveram de cor fula, de nação Nagô, com o rosto riscado. Seu depoimento sobre o naufrágio é bastante sucinto. Disse que quando o navio encalhou, o capitão e a tripulação saíram do navio com alguns moleques e negrinhas e pretos, ignorando ele se em canoa ou a nado, por­que continuou no porão do navio com muitos ou­tros, de onde saíram e atiraram-se no mar, sendo alguns tomados pelos escaleres em que vinham marinheiros do navio de guerra.
     Este também sobreviveu ao naufrágio. Deram-lhe o nome de Noé. Descreveram-no como um homem de "cinco pés e sete polegadas de altura, cara comprida, orelhas pequenas, olhos grandes e salien­tes, nariz regular, boca pequena, lábios grossos, cor­po delgado, vinte e três anos de idade pouco mais ou menos, pés compridos, dentuço". Em África, era guerreiro. Para todos os efeitos, era natural de Luanda, e estando em guerra com gente de Ebó, foi aprisionado e embarcado. Sobre o naufrágio, disse que o capitão e a tripulação serviram-se de algumas canoas para desembarcar apenas os moleques e as negras a bordo, obrigando os demais a lançarem-se no mar. Os que não sabiam nadar, ou não podiam vencer a distância, morreram afogados.
     Ainda para representar a família bíblica original, a outro deram o nome de Abel. Era um rapaz de vinte anos, "cinco pés e seis e meia polegadas de al­tura, cara oval, olhos e orelhas pequenas, nariz e boca regulares, corpo grosso porém magro, pés pe­quenos". Diz ele ser natural de Ouri, onde em pe­queno foi vendido para Jebu, constando ter sido le­vado para Luanda - provavelmente, Lagos -, onde ficou por três dias. Foi salvo do mesmo naufrágio por quatro pretos remadores e alguns tripulantes brancos de um saveiro ou baleeira, que retornou lotado para terra.
     Este era um haussá, "com cinco pés e nove pole­gadas de altura, cara oval, com sinais de haussá (três pequenos riscos de cada lado da face), orelhas pe­quenas, olhos e nariz regulares, lábios grossos, de vinte e um anos de idade um pouco mais ou menos, semblante alegre, corpo regular, pés grandes". Ele contou que foi para o convés da embarcação depois do encalhe. Não viu nem o capitão nem a tripula­ção, mas reparou que muitos dos pretos ainda a bordo mergulhavam até uma corda que estava lan­çada do navio para a terra. Ele seguiu o exemplo dos outros. Chegando à praia, foi conduzido com mui­tos pretos pelo mato, escoltados por diversos pretos armados e um moço branco. Após quase três dias de marcha, foram apreendidos pelas forças do gover­no, depois de alguma resistência da qual resultou um ferido entre os traficantes.
     O corpo das mulheres nagôs é descrito no pro­cesso com a maior atenção: entre sete e 11 anos es­tão as meninas; entre 12 e 17, as mocinhas já mens­truadas; a partir de 18, as mulheres adultas, tudo para assinalar sua idade reprodutiva, a saúde e a es­tética. Em 1851, quando a repressão nos dois lados do Atlântico chegava a um ponto máximo, percebe-se na composição do contingente transportado um cuidado com a reprodução futura da escravi­dão no Brasil: um número expressivo de mulheres, em sua maioria adolescentes. Essa preocupação aparece no relato dos africanos interrogados. Todos afirmam que o comandante e a tripulação trataram de salvar nos escaleres as mulheres, os moleques e os molecões, ou seja, as crianças e adolescentes, deixando morrer os mais velhos.
     Ela era uma menina de 16 anos. Nasceu em Efon, de onde foi roubada e vendida em Lagos. Depois de mais de um ano, embarcou para a Província da Bahia. Assim que o navio encalhou, chegou ao convés e viu que os homens da tripulação embarcaram os moleques e as meninas em uma canoa, vinda da terra, tripulada por quatro remeiros brancos. Por ordem dos marinheiros, ela se segurou em uma cor­da, por onde chegou até a praia com seus compa­nheiros. Foi conduzida por oito pretos armados. Foi tudo o que disse porque só isso lhe perguntaram. Do seu nome ninguém quis saber. Olharam atenta­mente para ela e fizeram a seguinte descrição: "de cinco pés de altura, cara redonda, olhos grandes, nariz chato, beiços revirados, principalmente o de baixo, pés pequenos, 16 anos", uma menina assustada. Puseram-lhe o número 341 e chamaram-na de Eva. Porquê, ela não sabe.
     Guilhermina era uma garota de sete anos, retinta, de altura regular; Cecília tinha nove anos, retinta, reforçada, com dois riscos no canto do olho esquerdo e três sinais abaixo dos olhos; Lúcia, com 11 anos, retin­ta, foi considerada feia, com três si­nais debaixo dos olhos de cada lado da face e o mesmo na testa. Entre as mocinhas, Inocência, 12 anos, era de cor bastante fula, com os seios apontando, tinha uma cicatriz bastante grossa e sa­liente tirando uma perpendicular entre as clavícu­las e o umbigo e duas outras também salientes, num meio-círculo a morrer nas virilhas. Suzana, 13 anos, era magra e espigada, com costas e braços ris­cados. Com 15, encontramos Inácia: retinta, olhos vivos e bonitas feições, com peitos pequenos, tendo o lado esquerdo do ventre e a mão direita borda­dos. E com 16 anos, Brasília era de cor fula, de es­tatura regular, tinha sinais azulados nos lados da face e seios caídos.
     No grupo de mulheres adultas, Emeria tinha 20 anos, de cor meio fula, bastante magra, com a testa e o rosto riscados, dentes limados, seios pequenos, dois riscos compridos do canto dos ombros ao um­bigo; Constança, 20 anos, era retinta, tinha o rosto lanhado de cada lado da face com três riscos e seu corpo era marcado por três cicatrizes em cada bra­ço, principiando no cotovelo, subindo pelas costas e descendo para o assento; Urânia, 24 anos, era al­ta, retinta, de seios caídos, com o rosto marcado por quatro lanhos horizontais e quatro transversais de cada lado.
     Dos 500 embarcados, não se sabe quantos morreram na viagem, no desembarque ou na fuga no meio do mato, durante a perseguição da polí­cia aos traficantes. Dos 300 da rela­ção oficial, há referências nos autos a três africanos dados como mortos nos hospitais da cidade e a um fugiti­vo da Santa Casa da Misericórdia, de nome Caio. Dos demais 296, seis fo­ram ouvidos e os outros apenas nu­merados e nomeados pelas autorida­des. Todos receberam nomes em por­tuguês que nada tinham a ver com suas vidas. Seus corpos foram descritos como peças de mercado. Os auditores da Marinha sequer per­guntaram os seus nomes originais, as nações a que pertenciam, os países, regiões e aldeias de procedên­cia. A todos eles se impôs um nome cristão, sem qualquer critério, retirado mecanicamente do alma­naque e do devocionário católico.
     O olhar dos auditores e escrivães não era apenas o de policiais técnicos preocupados com a identificação de indivíduos. Pelo cuidado em destacar os altos e os espigados, homens e mulheres mais cobiçados para as tarefas domésticas e de representa­ção, tais como os servidores de mesa e os carregadores de cadeirinha, percebe-se claramente o olho de toda uma sociedade escravista, buscando em cada corpo as referências de uso e de abuso para a exploração do trabalho, para a ostentação de riqueza e para a exploração sexual.
     Toda esta arqueologia corporal deve ser tratada e decodificada. No entanto, nosso primeiro im­pulso foi o da reportagem histórica, iconográfica e descritiva, movida pela curiosidade de imaginar qual teria sido a fisionomia, a face e todos os ou­tros elementos reveladores da diversidade indivi­dual dos nossos antepassados, no momento em que desembarcavam neste porto de escravidão. É preciso ver nossos tetravôs não apenas agrupados em denominações étnicas impostas pelo tráfico, mas como indivíduos, de corpo e alma.

Ubiratan Castro de Araújo é professor-adjunto do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia e presidente da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura.

Saiba Mais: Bibliografia
CONRAD, Robert. Tumbeiros: o tráfico escravista para o Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985.
LOVEJOY, Paul E. A escravidão na África: uma história e suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

Saiba Mais: Link

Saiba Mais: Filme
Amistad
     O filme, baseado em fatos verídicos, inicia com uma turbulenta jornada marítima numa embarcação que é identificada como "La Amistad". Trata-se de um navio negreiro que sofre um enorme revés ao ver os prisioneiros se rebelarem e trucidarem grande parte da tripulação. Desconhecendo os caminhos marítimos pelos quais conseguiriam voltar para casa, os líderes da rebelião mantêm dois prisioneiros que devem levá-los de volta a África. São traídos e aportam na América do Norte.
     Aprisionados são levados a julgamento. Os sobreviventes da tripulação pleiteiam a posse da "mercadoria" humanas transportadas no Amistad, são contestados pela rainha da Espanha, que também quer se apropriar do conteúdo da embarcação (com base no fato de que o navio era de bandeira espanhola); além deles, também os oficiais norte-americanos que apreenderam o barco e controlaram o motim desejam a posse dos cativos para vendê-los.
     Contra eles se levantam abnegados defensores da liberdade humana, lutando contra a espoliação e a exploração características da escravidão. Capitaneados por Theodore Joadson (Morgan Freeman) e defendidos no tribunal pelo jovem e impetuoso advogado Roger Baldwin (Matthew McConaughey), os escravos liderados por Cinqué (Djimou Hounsou,) desafiam as leis e impingem um recomeço para a história republicana norte-americana. Contam, para isso, com o auxílio inestimável do ex-presidente John Quincy Addams (Anthony Hopkins).
Direção: Steven Spielberg
Ano: 1998
Áudio: Português
Duração: 154 minutos

Saiba Mais: Documentário
Pierre Verger: mensageiro entre dois mundos
     Documentário traz um importante trabalho de pesquisa realizado pelo diretor Lula Buarque e o roteirista Marcos Bernstein (Central do Brasil), que estiveram na África, na França e na Bahia em busca da trajetória do fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger.
Gilberto Gil é quem narra e apresenta Verger: Mensageiro entre Dois Mundos. O filme traz a última entrevista de Pierre Verger (filmada um dia antes de seu falecimento, em 11 de fevereiro de 1996), além de extenso material fotográfico, textos produzidos por Verger e depoimentos de amigos como o documentarista Jean Rouche (Musée de l´Homme, Paris), Jorge Amado, Zélia Gattai, Mãe Stella, Pai Agenor Maurice Baquet, Mestre Braga, Mestre Zé Carlos, Mestre Curió, Mestre João Grande, Mestre Neco, Mestre Pastinha, Mestre João Pequeno e o historiador Cid Teixeira.
     A tão famosa ponte criada por Verger entre a cultura negra na Bahia e na África, rompida desde os anos 40, é reestabelecida no filme quando Gilberto Gil refaz o papel de Mensageiro e percorre os mesmos caminhos do fotógrafo.
     Outra descoberta de Verger apresentada no filme, são os descendentes da única colonização feita por brasileiros: os "Agouda", africanos, habitantes do Benin e da Nigéria, que ainda hoje cultivam influências brasileiras trazidas por ex-escravos que retornaram do Brasil ao continente africano.
Direção: Lula Buarque de Hollanda
Ano: 1998
Áudio: Português/Legendado
Duração: 83 minutos