"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

Mostrando postagens com marcador História da Ciência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História da Ciência. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Abaixo a vacina!

Há exatamente um século, o carioca liderava a maior revolta urbana a que o Rio de Janeiro já assistiu, dizendo "Não!" à obrigatoriedade da vacina contra a varíola e à invasão de seus lares imposta pelo governo.
José Murilo de Carvalho
          Com 800 mil habitantes, o Rio de Janeiro de 1904 era uma cidade perigosa. Espreitando a vida dos cariocas estava todo tipo de doenças bem como autoridades capazes de promover, sem qualquer cerimônia, uma invasão de privacidade. Tuberculose, febre amarela, peste bubônica, varíola, malária, tifo, cólera e outras enfermidades contagiosas vitimavam a população e assustavam os estrangeiros. A capital da jovem República era uma vergonha para a nação. Desmentindo o apelido de "Soneca", o presidente Rodrigues Alves decidiu agir rápido. Iria acabar com esse vexame e ao mesmo tempo embelezar a cidade nos seus quatro anos de governo (1902-1906). Para essa dupla tarefa, convocou, respectivamente, o sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) e o engenheiro Pereira Passos (1836-1913).
          Com suas políticas de saneamento, Oswaldo Cruz mexeu com a vida de todo mundo, sobretudo dos pobres. Em junho de 1904, o governo propôs uma lei que tornou obrigatória a vacinação, motivando petições contrárias assinadas por cerca de 15 mil pessoas. A lei foi aprovada em 31 de outubro; no dia 9 de novembro, Oswaldo Cruz propôs uma drástica regulamentação, exigindo comprovantes de vacinação para matrículas em escolas, empregos, viagens, hospedagens e casamento. Estava até previsto o pagamento de multas para quem resistisse. A proposta vazou para a imprensa e, indignado, o povo do Rio disse não, na maior revolta urbana já vista na capital. O motim começou no Largo de São Francisco, em torno da estátua de José Bonifácio. Estudantes protestavam contra a vacina, quando um delegado de polícia prendeu um deles, levando-o para a Praça Tiradentes, onde ficava a Secretaria de Justiça. Houve confrontos entre os manifestantes e a cavalaria. Foi então que se ouviram os primeiros gritos de "Morra a polícia!", "Abaixo a vacina!". Isso, já no dia 10, uma quinta-feira, quando a regulamentação de Oswaldo Cruz sequer havia sido aprovada. No dia 11, repetiram-se os protestos. No dia 12, segundo o Correio da Manhã, 4 mil pessoas, "de todas as classes sociais", concentraram-se no Centro das Classes Operárias, na Rua do Espírito Santo - atual Rua Pedro I -, próximo à Praça Tiradentes, para fundar uma Liga Contra a Vacina Obrigatória. Depois, a multidão seguiu rumo ao Palácio do Catete, já fortemente guardado, trocando tiros com a polícia no caminho. O Exército entrou em prontidão.
          No dia 13, um domingo, a revolta se generalizou. A Praça Tiradentes virou campo de batalha. Partindo de lá, a luta se estendeu por toda a região entre o Largo de São Francisco e a Praça da República. Ouviam-se descargas de revólver e carabina, bondes começaram a ser queimados, barricadas foram erguidas na Avenida Passos. Na Rua de São Jorge, as prostitutas aderiram à luta. A população assaltou delegacias, quartéis, casas de armas. A essa altura, o conflito atingia a região portuária da Saúde e da Gamboa, seguindo para Laranjeiras e Botafogo, hoje Zona Sul do Rio, e também para a Tijuca, Rio Comprido e Engenho Novo, na Zona Norte. Na Rua Larga de São Joaquim, atual Avenida Marechal Floriano, as colunas dos lampiões de gás foram quebradas e enormes chamas lambiam os ares.
          Ao amanhecer, a paisagem era de devastação, e foi assim descrita pelo Jornal do Commercio, na edição do dia 15: "(...) paralelepípedos revolvidos, que serviam de projéteis para essas depredações, coalhavam a via pública; em todos os pontos destroços de bondes quebrados e incendiados, portas arrancadas, colchões, latas, montes de pedras, mostravam os vestígios das barricadas feitas pela multidão agitada". A revolta se concentrara em dois redutos, o do distrito do Sacramento, entre o Largo de São Francisco e a Praça da República, e o da Saúde, na zona portuária localizada entre a Praça da Harmonia e o Morro da Gamboa. Nos dois pontos, a luta continuou durante todo o dia 14, havendo incidentes até na longínqua Copacabana.
          No Sacramento, combatia-se na rua a revólver e a porrete, enquanto dos sobrados os moradores jogavam latas, garrafas, pedaços de madeira e o que mais estivesse à mão. Na Saúde, os revoltosos assumiram o controle da delegacia de polícia e, segundo cálculos do Jornal do Commercio, duas mil pessoas construíram barricadas na Praça da Harmonia e ao longo da rua de mesmo nome. O clima era de tensão. O governo dividiu, então, o controle da cidade entre polícia, Exército e Marinha. As autoridades estavam tão inseguras que convocaram tropas do Exército de Niterói, Lorena (São Paulo) e São João dei Rei (Minas Gerais).
          Na esteira da rebelião popular contra a invasão de privacidade e a obrigatoriedade da vacina, surgiram outras reivindicações, de grupos sociais distintos. Declarações do presidente do Centro das Classes Operárias e líder da revolta, Vicente de Souza, atestam isso. Ele dizia que o levante contra a vacinação fora uma reação popular, que elementos belicosos da "classe temerosa" souberam aproveitar.
          Na Escola Preparatória e de Tática do Realengo, comandada pelo general Hermes da Fonseca, futuro presidente da República, houve uma tentativa de levante. Um dos revoltosos entrou na Escola gritando: "Prende o general! Mata o general!" O golpe falhou, mas o clima de sublevação se instalou na Escola Militar da Praia Vermelha. Cerca de trezentos cadetes, sob o comando do general Silvestre Travassos, se puseram em marcha para o Palácio do Catete. Eram 10 horas da noite e Botafogo estava às escuras, porque os lampiões tinham sido destruídos. O governo fortificou o palácio e mandou tropa para enfrentar os cadetes. Os dois grupos se enfrentaram na Rua da Passagem e trocaram tiros no escuro. O general Travassos caiu ferido. Sem saber o que acontecia do outro lado, as duas tropas debandaram. Ao Catete chegou, de início, a notícia de que os soldados do governo tinham fugido. Houve pânico e sugeriu-se a Rodrigues Alves que se refugiasse num navio de guerra para de lá organizar a resistência. O presidente recusou o conselho e logo veio o alívio com a informação da debandada também dos cadetes.
          No lugar da festa cívica, o dia 15, aniversário da República, foi de revolta popular. No alto do Morro da Mortona, na Saúde, foi hasteada uma bandeira vermelha. Um novo foco de rebelião surgiu no Jardim Botânico, onde seiscentos operários das fábricas de tecido Corcovado e Carioca, e da fábrica de meias São Carlos, atacaram a delegacia de polícia. Chegaram nesse dia as tropas de Minas e de São Paulo; no dia seguinte, o presidente Rodrigues Alves decretou estado de sítio. O reduto rebelde erguido em barricadas na Saúde era o que mais preocupava as autoridades. No final da Rua da Harmonia ergueu-se a principal delas.
          Um repórter do Jornal do Commercio assim descreveu a situação no local: "aquela multidão sinistra, de homens descalços, em mangas de camisa, de armas ao ombro uns, de garruchas e navalha à mostra outros". No comando dos rebeldes estavam os valentões Manduca Pivete e Prata Preta, o terror da polícia. Ao ser preso, Prata Preta matou um soldado do Exército e feriu dois policiais. Estava armado com dois revólveres, uma faca e uma navalha. O reduto da Harmonia foi atacado por terra e mar, desmobilizando os revoltosos, que não deram combate e simplesmente desapareceram. Ou, pelo menos, tentaram.
          Assim que os manifestantes se dispersaram, a polícia iniciou a varredura das áreas atingidas pela revolta, prendendo quem lhe parecesse suspeito. A caçada se prolongou pelos dias seguintes. Seu ato final foi uma batida no Morro da Favela, no dia 23. O nome fora dado por soldados retornados da Guerra de Canudos e depois acabou se generalizando, sendo atribuído a todas as comunidades pobres dos morros do Rio. Os moradores do Morro da Favela haviam fugido. Mas a essa altura já havia na Ilha das Cobras mais de setecentos presos, chegando a 945 no final das operações de busca dos supostos culpados. Nas ruas, o saldo de vítimas era desolador: trinta mortos, 110 feridos e 461 deportados para o Acre sem qualquer processo.
          A classificação dos revoltosos variava. Para a oposição, cuja principal voz era o Correio da Manhã, o povo - estudantes, operários, comerciantes e militares - é que tinha se rebelado. Para os jornais que apoiavam o presidente, como O Paiz, para o chefe de polícia, Cardoso de Castro, e para o governo, a revolta tinha sido obra de desordeiros, arruaceiros, desocupados. Castro se referiu ao "rebotalho", às "fezes sociais". A elite intelectual concordava. O poeta Olavo Bilac atribuía os acontecimentos à "matula desenfreada", à "turba-multa irresponsável de analfabetos".
          Na raiz dos distúrbios estava um problema sanitário sério. Oswaldo Cruz escolheu três doenças como foco de sua empreitada: a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Combater o mosquito transmissor da febre era fundamental para conter o avanço da doença. Brigadas de mata-mosquitos saíam pela cidade invadindo residências, cortiços, casas de cômodos. Limpavam, desinfetavam, exigiam reformas e interditavam esses ambientes, removendo os doentes de seus lares. Só no segundo semestre de 1904, foram 110 mil visitas. Quanto à peste bubônica, o controle da epidemia exigia o extermínio dos ratos e das pulgas. O governo, acreditando poder assim tornar mais eficaz o trabalho, decidiu comprar ratos. Não demorou para que o carioca começasse a criá-los para faturar uns trocados. Um ou outro chegou mesmo a importar o roedor de Niterói para vendê-lo no Rio. No Carnaval de 1904, a população cantava a própria desgraça. Caiu na folia dançando a polca - ritmo originário da antiga Tchecoslováquia - "Rato-rato", da dupla Casemiro Rocha e Claudino Costa (Clique e ouça).
          Exatamente um século depois da Revolta da Vacina, quais conclusões podem ser tiradas daqueles dias turbulentos de novembro de 1904? Uma coisa é certa: houve várias revoltas dentro da revolta. Uma delas foi, sem dúvida, a dos militares. Outra, a dos operários do Centro das Classes Operárias e das fábricas do Jardim Botânico. E ainda uma terceira, a do "povão" do Sacramento e da Saúde, reunindo capoeiras, prostitutas da Rua de São Jorge, portuários e gente com passagens pelas delegacias de polícia.
          A mobilização começou no Centro das Classes Operárias, dirigido pelo socialista Vicente de Souza hoje, nome de uma rua em Botafogo. Há informação sobre a ocupação de 10.199 dos 14.812 signatários das petições contra a vacinação obrigatória. Verifica-se que 78 eram militares; os outros, isto é, quase a totalidade, eram operários. A análise dos documentos e jornais de época revela a presença desproporcional desse grupo entre as vítimas. Do total de feridos, ele representa 71%. E do total de mortos, 86%. Esses números ganham proporções ainda mais relevantes se levarmos em conta que os operários representavam apenas 20% da população carioca. É por isso que, para entender os motivos da Revolta da Vacina de 1904, temos de voltar os olhos para os trabalhadores.
          Naquele momento, outros grupos se aproveitaram da revolta dos pobres. Os militares e políticos da oposição queriam derrubar o governo, queriam acabar com o que chamavam de república prostituída dos fazendeiros e restaurar a pureza que viam em Floriano Peixoto e Benjamin Constant. Para o "povão" do Sacramento e da Saúde, talvez a intervenção sanitária de Oswaldo Cruz não fosse exatamente o principal motivo das manifestações. É possível que tenha aproveitado a revolta para bater em seu tradicional inimigo, a polícia. Mas, e os operários e os que poderíamos chamar de pobres honestos, por que se rebelaram?
          Não foi por motivos econômicos. Tinham passado os anos duros do governo de Campos Sales (1898-1902) e a economia voltara a crescer e gerar empregos. Teria sido por causa dos deslocamentos de pessoas causados pelas obras na cidade? Não parece. Quase não se fez referência à reforma nos discursos, nos jornais operários, nas manifestações de rua. Os executores dessa mudança radical, Pereira Passos e Paulo de Frontin, escaparam da ira popular. Mais ainda, os dois principais redutos da revolta, Sacramento e Saúde, foram pouco afetados pelas obras. Tampouco cresceu sua população em virtude da expulsão dos moradores das centenas de casas derrubadas para a construção da Avenida Central, hoje Rio Branco, e da Avenida Passos.
          Resta indagar se os motivos da revolta foram, no final das contas, as campanhas de combate às epidemias e a vacinação obrigatória. Todas as evidências indicam que sim. Para mencionar uma só, Oswaldo Cruz foi massacrado, acusado - pela sociedade de alto a baixo - de despótico e arbitrário, quando não de irresponsável. Políticos, Rui Barbosa entre eles, qualificavam as medidas adotadas de violação dos direitos civis e da Constituição.
          Para entender por que a intervenção sanitária revoltou a todos, é preciso ter em mente os valores e os costumes do início do século XX. O líder dos operários, o socialista Vicente de Souza, argumentava que era uma ofensa à honra do chefe de família ter seu lar, em sua ausência, invadido por um desconhecido. E, muito pior, saber que diante dele sua mulher e filhas seriam obrigadas a desvendar seus corpos. Em que consistiria tal desvendamento?
          A vacinação era feita no braço, nos postos médicos ou em casa, com o auxílio de uma lanceta, instrumento cirúrgico de dois gumes. O deputado oposicionista Barbosa Lima admitiu a possibilidade de aplicação na coxa. Nos comícios, oradores inflamados deslocaram o local para as virilhas. O escritor José Vieira nos conta, no romance O bota-abaixo, que, no Largo de São Francisco, eles radicalizaram, dizendo que "cafajestes de esmeralda" (referiam-se à pedra que representava a profissão de médico) invadiriam os lares para "inocular o veneno sacrílego nas nádegas das esposas e das filhas". O impacto de tais argumentos foi devastador. A vacinação e a revacinação se reduziram de 23 mil em julho para pouco mais de mil em outubro. Na Saúde, só 14 pessoas se vacinaram em outubro e apenas 18 tomaram uma segunda dose.
          A Revolta da Vacina se distinguiu de protestos anteriores por sua amplitude e intensidade. O que lhe deu esta característica foi a força da justificação moral. Houve um trágico desencontro de boas intenções, as de Oswaldo Cruz e as da população. Mas em nenhum momento podemos acusar o povo de falta de clareza sobre o que acontecia à sua volta. Embora não se interessasse por política, embora não votasse, ele tinha noção clara dos limites da ação do Estado. Seu lar e sua honra não eram negociáveis. A revolta deixou entre os participantes um forte sentimento de autoestima, indispensável para formar um cidadão. Um repórter de A Tribuna ouviu de um negro acapoeirado frases que atestam esse sentimento. Chamando sintomaticamente o jornalista de cidadão, o negro afirmou que a sublevação se fizera para "não andarem dizendo que o povo é carneiro". O importante - acrescentou - era "mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo".

JOSÉ MURILO DE CARVALHO é professor titular de História do Brasil na Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e autor de Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.           

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2 -  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Link

Outros textos do autor

Saiba Mais – Filme
Sonhos Tropicais
          No início do século XX chegam ao Rio de Janeiro, no mesmo navio Esther, uma jovem polonesa com a promessa de se casar e iniciar uma nova vida, e Oswaldo Cruz, que retorna de Paris cheio de sonhos em transformar a saúde pública do país. Esther, uma jovem judia vinda da Polônia com a promessa de se casar, mas quando chega ao Rio de Janeiro é obrigada a trabalhar como prostituta em um bordel da Lapa. Esse tipo de situação era comum no inicio do século XX, pobres ou fugidas do antissemitismo acabavam se tornando prostitutas, ou por serem obrigadas ou por falta de opção, eram as chamadas “Polacas” ou “Escravas Brancas” - essa pratica só começa a decair após a década de 40. Já Oswaldo Cruz, foi nomeado chefe do departamento de Saúde Pública responsável por eliminar as várias doenças - peste bubônica, febre amarela e a varíola - que assolavam a população da cidade. Anos de insatisfação popular e forte oposição política explodem a "Revolta da Vacina".
Direção: André Sturm
Ano: 2002
Áudio: Português/Legendado

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Heróis do Clima

A aventura e a ciência por trás das mudanças climáticas
     História em quadrinhos desenhada por Caco Galhardo conta como sabemos o que conhecemos sobre a alteração do clima no planeta. Com bom humor e simplicidade, retrata as descobertas e o envolvimento de cientistas e líderes mundiais nesta que é uma das mais importantes questões da atualidade.
     Bom humor e linguagem simples pautam a publicação, tornando-a indicada para leigos, iniciados, jovens e adultos. A história que começa ainda no século 19 e envolve décadas de pesquisas, expedições a áreas remotas, polêmicas – incluindo até ataque de hackers – e estudos sobre os impactos das mudanças climáticas, inclusive no Brasil. Mostra o empenho de pessoas determinadas em suas buscas por informações e em dar voz à urgência do tema.
Autor: Caco Galhardo
Roteiro: Alessandro Meiguins e Caco Galhardo
Coordenação: Matthew Shirts e Chiaki Karen Tada
Direção e ideia original: Caco de Paula
52 páginas
Editora: Planeta Sustentável
Editora Abril Ano de publicação: 2014

sábado, 28 de março de 2015

O sexo a quem compete?

Nas Olimpíadas de 1968, as atletas tinham que comprovar que eram mulheres submetendo-se a testes constrangedores.
     “Olimpíadas vencem a guerra dos sexos”, anunciou o Jornal dos Sports no dia 30 de outubro de 1968. O tom da manchete reflete a empolgação em torno de uma novidade implantada no megaevento disputado na Cidade do México: o exame científico para confirmar o sexo das atletas.
     O texto da notícia parecia imparcial: “A presença de indivíduos cujo sexo não pode ser perfeitamente definido nas provas femininas das Olimpíadas está completamente banida e a prova é que muitos dos maiores atletas que o mundo já viu ou não chegam ao México ou, lá chegados, se negaram a submeter-se às provas para comprovação de sexo – disse ontem na redação do JS o Dr. Aníbal Silva e Costa, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Esportiva. 'A obrigatoriedade dos exames de sexo há muito tempo devia constar dos regulamentos olímpicos para evitar a sobrevivência dos hermafroditas no esporte. Sempre fui a favor dos exames porque existem mulheres que competem em tal categoria que na realidade são homens. Com a obrigatoriedade dos exames, alguns fenômenos esportivos como as irmãs Irina e Tâmara Press, da União Soviética, não compareceram ao México'”.
     Pela primeira vez as mulheres atletas tinham seus corpos vasculhados, sua sexualidade questionada, seu sexo verificado cientificamente. Sob a orientação de um comitê médico, os testes de feminilidade, também divulgados como testes de sexo, garantiam uma “carteira rosa” às atletas consideradas aptas a competir. Reduzidas à equação XX, através da contagem dos cromossomos, somente assim elas poderiam participar de Jogos oficialmente organizados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI).
     Nos primeiros Jogos Olímpicos da era moderna, em 1896, as mulheres não podiam competir. Sua inserção nas competições internacionais foi gradativa. A antiga crença na vulnerabilidade biológica e na fragilidade inata deixava as mulheres de fora de muitos eventos desportivos. Fragilidade, vulnerabilidade e passividade foram consideradas características totalmente desfavoráveis à exigência de desempenho atlético. Durante todo o século XIX, na Europa, essa ideologia da natureza feminina foi fundamentada “cientificamente”: buscava-se provar que a mulher é fisicamente inferior ao homem, inclusive pela capacidade de engravidar. As disciplinas requisitadas para defender tais argumentos eram a obstetrícia, a biologia, a sociologia, a psicologia, a antropologia e a ginecologia. Esta última consolidou a imagem da mulher como um ser submetido ao império de seus órgãos genitais – que determinariam sua natureza nervosa, frágil e inconstante e sua predisposição a doenças e perturbações mentais, moldando assim suas capacidades sociais.
     Alguns biólogos e médicos, como Cesare Lombroso (1836-1909), reforçaram naquele século que o cérebro da mulher era menor que o do homem e que o ovário e o útero exigiam muita energia e repouso para funcionar apropriadamente. Em consequência, as meninas deveriam ser mantidas longe de escolas e faculdades a partir do momento em que começassem a menstruar. Sem esse tipo de precaução, seus úteros e ovários poderiam se atrofiar e a raça humana se extinguir.
     A mesma análise não se estendia às mulheres pobres, obrigadas a trabalhar duramente e censuradas por se reproduzirem demais. Na verdade, justamente por conseguirem trabalhar tanto e ainda assim gerar muitos filhos, elas eram consideradas mais próximas dos animais e menos evoluídas do que as mulheres das classes altas.
     No século XIX pesquisas da craniometria ressaltaram a inferioridade das mulheres devido ao tamanho da estrutura óssea, incluindo quadril. Com os avanços das mulheres nos esportes, isto perde a importância e a força. Foi nas décadas de 1960 e 1970 – quando os movimentos feministas aumentaram – que as pesquisas sobre diferenças sexuais voltaram a ganhar força. Os sociobiologistas tentavam agora provar que os comportamentos sociais constituem características humanas universais e acabam sendo transmitidas geneticamente. A agressividade e o “instinto de caça”, por exemplo, seriam essencialmente masculinos. 
     Em 1968, diante da notícia de que haveria regras taxativas contra o dopping e contra mulheres de “sexo duvidoso”, a imprensa se mostrou complacente com as versões científicas da comprovação da inferioridade feminina e de sua inaptidão para os esportes. Naquele momento, a indeterminação do sexo por um exame “científico” soava como uma ameaça ao regime social heterossexista. Ao mesmo tempo, a homossexualidade feminina colocava em risco o regime patriarcal predominante, no qual as mulheres assumem papéis sociais considerados hierarquicamente inferiores aos dos homens, tornando-se consciente ou inconscientemente submissas a eles. Mulheres lésbicas ou com gênero indeterminado eram uma ameaça ao pretenso equilíbrio social. Por isso o teste de sexualidade das Olimpíadas do México foi tão bem recebido. “O exame para a comprovação de sexo – masculino ou feminino – é bastante simples e pode ser feito através de pesquisa de dois materiais: saliva ou sangue. Colhido o material, os cromossomos são contados. Se atingir um índice X, morfologicamente a atleta é impedida de competir entre as mulheres, já que passa a ser considerada uma anomalia”, explicava o Jornal dos Sports.
     Em uma seção especial destinada aos Jogos Olímpicos, o Jornal do Brasil também comentou a novidade: “Sobre a questão do controle de sexo, exigido pelo regulamento, o secretário geral Joanes Westterohff disse que a Federação Internacional de Natação foi a única que não respondeu oficialmente ao convite que lhe fez o presidente da comissão médica para as nadadoras se submeterem à verificação sexual, apesar de as nadadoras, em sua petição de inscrição, terem firmado o compromisso de se submeterem ao controle de sexo e controle sobre o uso de drogas. O presidente da comissão médica acrescentou que várias atletas femininas inscritas nos Jogos já haviam aceito voluntariamente as exigências regulamentares”.
     “Aceito voluntariamente as exigências” é uma contradição, pois se é uma exigência jamais será voluntária. Além disso, o olhar retrospectivo para aqueles acontecimentos desperta dúvidas sobre o vínculo entre os testes e o dopping. Sobretudo pela recusa das nadadoras, pois a natação era o esporte com mais casos de uso de substâncias químicas para melhoria do desempenho em edições anteriores das Olimpíadas. Talvez fosse mais fácil duvidar da “natureza do sexo” do que assumir que o dopping era usado em grande escala – algo desaconselhável diante de uma indústria fármaco-química em franca ascensão mundial.
     Os testes de feminilidade duraram oito edições dos Jogos Olímpicos, de 1968 até 2000. Por que duraram mais de três décadas mesmo diante das críticas, tanto de associações e entidades médicas e científicas como da imprensa e das próprias atletas? Essa medida e sua duração podem ser vistas como barreira à participação feminina e como uma forma de mascarar o fato de que o dopping assumira proporções incontroláveis com o advento da indústria fármaco-química.
     A imagem de uma mulher forte e atlética confundia as certezas criadas pela ciência do sexo e do gênero como norma catalogável. Vale dizer que, antes das Olimpíadas de 1968, o teste de sexo era feito da seguinte forma: as mulheres expunham seus corpos nus a um comitê de “peritos”, que julgavam e certificavam se sua morfologia era compatível com a ideia que tinham de feminilidade. Como tal prática significava uma exposição pública dos corpos das atletas e vinha ganhando críticas das entidades esportivas, o comitê resolveu “modernizá-la”.
     O parâmetro genético adotado no teste de cromossomos indicava uma nova realidade: a política tecnológica de monitoramento e catalogação dos corpos femininos. A “carteira rosa” simbolizava feminilidade. Era o passaporte das mulheres para o universo idílico de um feminino universal, naturalizado e definido por uma equipe de peritos composta por homens.

Patrícia Lessa é professora da Universidade Estadual de Maringá e autora do relatório de pós-doutorado “A fabricação dos tecno-bio-corpos e a produção do sexismo na linguagem”, (UFF, 2010).

Saiba mais - bibliografia
DEVIDE, Fabiano Pries. Gênero e mulheres no esporte: história das mulheres nos jogos olímpicos modernos. Ijuí: Unijui, 2005.
VOTRE. Sebastião (org.). Gênero e atividade física. Rio de Janeiro: Mauad/Faperj, 2011.

Saiba mais - vídeo
JC Debate sobre Violência Obstétrica - 06/03/2014
Você já ouviu falar em violência obstétrica? Milhares de brasileiras são humilhadas, desrespeitadas e perdem o direito de escolher a melhor forma que gostariam de dar a luz.

 Saiba mais - links

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A Odisseia da Espécie - L'Odyssée De L'Espèce

Quase uma década foi o tempo que o realizador Jacques Malaterre e o cientista Yves Coppens demoraram para alcançarem o ambicioso projeto de expressar em imagens a pré-história do Homem, desde os pré-hominídeos à fundação das primeiras civilizações, no que é a maior produção alguma vez realizada sobre as nossas origens. São mais de 8 milhões de anos de evolução recriados graças às últimas descobertas antropológicas, a dezenas de atores, às mais modernas técnicas de animação digital, com cenários naturais escolhidos e sequências dramatizadas que servem de reforço para as intervenções de prestigiosos cientistas de todo o mundo. A Odisseia da Espécie é a nossa história. Através de surpreendentes imagens em três dimensões e efeitos especiais espetaculares, vamos poder observar os primeiros passos de Orrorin, um dos mais antigos pré-humanos, viver ao pé do "homo habilis" que vai inventar o primeiro utensílio, e do "homo erectus" que inventará o fogo. Com o homem de Neandertal será a caça ao urso das cavernas e as primeiras sepulturas. Finalmente com o "homo sapiens" será o nascimento da arte.
Direção: Jacques Malaterre
Ano: 2003
Áudio: Francês – Legenda: Português
Duração: 48 minutos cada episódio

Episódio 1 -"Les Prehumains" (Os Pré-Hominídeos )

Episódio 2 -"Les Premiers Hommes" (Os Primeiros Homens) 

Episódio 3 -"Neandertal et Sapiens" (Neandertal e Sapiens) 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A Evolução da Humanidade – Armas, Germes e Aço (Guns, Germs and Steel)


“Por que vocês brancos desenvolveram tantos suprimentos, enquanto nós negros temos tão pouco dele?”. A Pergunta, aparentemente inocente de um nativo da Papua Guiné, em 1974, fez com que Jared Diamond escrevesse o premiado livro Armas, Germes e Aço, sempre tentando solucionar o maior mistério da história da humanidade: as raízes da desigualdade social. Baseado na obra do autor, este documentário da National Geographic traça a jornada dos seres humanos nos últimos 13 mil anos – desde o nascimento da agricultura, no final da Era Glacial, até a realidade da vida no século XXI. Gravado em quatro continentes, A Evolução da Humanidade apresenta gravações atuais, entrevista com historiadores, arqueólogos e cientistas, reconstrução histórica e animação computadorizada.
Direção: Tim Lambert, Cassian Harrison
Ano: 2005
Áudio: Inglês – legenda: Português
Duração: 54 Min. cada episódio

Ep.1 - Saindo do Jardim do Éden
"Por que algumas sociedades florescem mais do que as outras?", perguntou-se o pesquisador Jared Diamond, autor do consagrado "Armas, Germes e Aço". Para examinar as razões do sucesso europeu, ele voltou há treze mil anos, quando a agricultura e a pecuária começaram a se desenvolver. E encontrou pelo menos uma parte da solução para o seu enigma: a geografia privilegiada do chamado "Fértil Crescente", no Oriente Médio.

Ep.2 - Conquista
No dia 15 de novembro de 1531, 150 conquistadores espanhóis chegaram ao coração do Império Inca, no Peru, e derrotaram um exército de oitenta mil soldados, promovendo um massacre que se estenderia por toda a América. Para Diamond, o segredo estaria nos poderosos cavalos dos espanhóis, nas afiadas armas de aço e também nos germes que as tropas trouxeram da Europa, espalhando uma epidemia de varíola entre os Incas.

Ep.3 - Entre os Trópicos
A teoria do escritor Jared Diamond, autor do consagrado "Armas, Germes e Aço", para responder à pergunta "Por que algumas sociedades florescem mais do que as outras?" mostrava como a geografia favoreceu os europeus para que eles conquistassem boa parte do planeta. Mas o que teria acontecido com eles assim que sua sede de conquista recaiu sobre a África, o berço da humanidade? Será que as armas, germes e aço de outrora teriam efeito no meio do implacável e imprevisível clima tropical? Suas teorias poderiam explicar, enfim, como um continente tão rico em recursos naturais se transformou no mais pobre do planeta? No fim de sua jornada, Jared Diamond contesta suas próprias teorias ao se deparar com um cenário que nunca tinha sequer imaginado.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A Ciência e o Islã (Science and Islam)

     Jim Al-Khalili, professor de Física na Universidade de Surrey. Nasceu e foi criado em Bagdá, de mãe inglesa e pai iraquiano, deixou Iraque com sua família no fim dos anos 70, quando Sadam Hussain chegou ao poder. O físico viajara pela Síria, Irã, Tunísia e Espanha para contar a história do grande avanço científico no conhecimento que ocorreu no mundo islâmico entre os séculos VIII e XIV.
     Segundo Jim Al-Khalili: “Ainda me lembro dos meus tempos de escola no Iraque de me ensinarem sobre a era de ouro do conhecimento islâmico. Que entre os séculos IX e XII, um grande avanço no conhecimento científico ocorreu em Bagdá, Damasco, Cairo e Córdoba.
     Quero desenterrar essa história oculta para descobrir seus grandes personagens e avaliar exatamente qual foi a sua contribuição para a ciência. Há cientistas medievais muçulmanos que deviam ser falados da mesma forma que Galileu, Newton e Einstein? E, principalmente, qual a relação entre a Ciência e o Islã?
Direção: Tim Usborne
Ano: 2009
Áudio: Inglês
Legenda: Português/no post
Duração: +- 58 minutos /cada episódio

Ep.01 - A Linguagem da Ciência
“Minha viagem pela ciência do mundo medieval islâmico irá me levar à Síria, ao Irã e ao norte da África.
Comecei nas ruelas da capital egípcia do Cairo, com a percepção de que a linguagem da ciência moderna ainda tem muitas referências de origens árabes. Por exemplo, termos científicos como álgebra, algoritmo, álcali. Eu instantaneamente reconheço essas palavras como árabes. E elas estão no centro do que a ciência faz. Não haveria matemática ou física modernas sem álgebra. Nem computadores sem algoritmos ou química sem álcalis. Surpreendentemente, poucas pessoas no Ocidente hoje, inclusive cientistas, sabem desse legado medieval islâmico.

Ep.02 - O Império da Razão
O professor Jim Al-Khalili  ira investigar como uma das ideias mais importantes do mundo surgiu no império islâmico. “Descobrirei como a matemática e a experimentação se fundiram quando o império adotou uma revolução industrial medieval. E, no Cairo, descobrirei como essas ideias levaram diretamente ao mundo atual da ciência e tecnologia”.

Ep.03 - O Poder da Dúvida
No último episódio, Jim Al-Khalili  vai à Síria e ao norte do Irã para descobrir acerca dos grandes cientistas islâmicos que revolucionaram a astronomia, transformando-a numa ciência moderna.
“E também descobrirei como o homem que muitos consideram o pai da renascença científica europeia, Copérnico, utilizou-se de teorias astronômicas islâmicas. E revelarei o mistério de como a Era de Ouro da ciência islâmica chegou ao fim”.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Wenceslau Braz - A gripe espanhola

De "Lalau" a santo
Com um jeito discreto e equilibrado, Wenceslau Braz presidiu o Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, reduziu o próprio salário e tirou o país da crise.
Rodrigo Elias
     A recepção não foi das melhores. Enquanto o presidente Wences­lau Braz (1914-1918) desfilava em carro aberto no dia da posse no Rio de Janeiro, alguém lhe ati­rou um objeto de dentro do Campo de Santana. Policiais da escolta pensaram se tratar de uma bomba, mas logo viram que não passava de uma jaca jogada por um gaiato que se escondeu entre as árvores. Entretanto, o medo não era infundado: Wen­ceslau herdou os inimigos de seu antecessor, Hermes da Fonseca (1910-1914), de quem fora vice-presidente, que ainda lhe deixou um país em frangalhos, uma dí­vida enorme e as instituições re­publicanas próximas à ruína.
     Filho de um poderoso coronel, Wenceslau Braz Pereira Gomes nasceu em fevereiro de 1868, em São Caetano da Vargem Grande, hoje Brazópolis, no sul de Minas Gerais. Sua mãe, Isabel Pereira dos Santos, administrava a casa nas constantes ausências do marido e ainda o substituía em compro­missos políticos. Seu pai, Francis­co Braz Pereira Gomes, era um chefe político importante da re­gião, apesar de nunca ter frequentado uma sala de aula - fato do qual se lastimava, fazendo questão de que os filhos estudassem. O velho Chico Braz era um entusiasta da educação, tendo fundado uma escola normal, além de destinar o dinheiro que recebia por exercício de cargos públicos a instituições de ensino e caridade.
     O jovem Wenceslau não foi, como o pai pretendia, aluno exemplar. Matriculado em 1884 na Faculdade de Direito de São Paulo - onde gravara o nome à ponta de canivete em sua cartei­ra -, suas notas não ultrapassavam a mediocridade. Chegou a afirmar em uma entrevista, já aos 96 anos (Wenceslau foi o presidente brasileiro mais longe­vo): "abusei da mocidade!"
     Mas seu discreto rendimento escolar não refletia o gosto pelos assuntos públicos. Ainda estudan­te, foi responsável pela instalação em sua cidade do Partido Republi­cano e Abolicionista, dedicando-se à libertação de escravos e à difusão da alfabetização. Antes de comple­tar vinte anos, foi convidado por políticos da região para ocupar uma vaga de deputado provincial, não podendo atender devido à pouca idade.
     Bacharelado em Direito em 1890, Braz voltou a Mi­nas para advogar. Pouco depois já era vereador e, em seguida, presiden­te da Câmara de Vereadores (equi­valente hoje ao cargo de prefeito) da cidade de Mon­te Santo. Deputado estadual entre 1892 e 1898, foi secretário de Inte­rior, Justiça e Segurança Pública de Minas de 1898 a 1902. Já estava casado, nesta época, com a filha de um chefe político do sul mineiro, Maria Carneiro Pereira Gomes, mãe dos seus sete filhos.
     A ascensão política de Wences­lau foi, de fato, meteórica, e aos 35 anos ele já era deputado federal e líder da bancada mineira no Con­gresso Nacional, passando rapida­mente a líder da maioria. Aos 41 anos, em 1909, assumia a presi­dência do estado de Minas Gerais, um dos mais poderosos da federa­ção e, no ano seguinte, era eleito vice-presidente da República na chapa de Hermes da Fonseca. Cabia-lhe, de acordo com a Constituição de 1891, a presidência do Senado, mas Wenceslau, mineiramente, retirou-se para Itajubá, próximo à sua ci­dade natal, dedi­cando-se a um de seus passatempos favoritos, a pesca­ria. Ficou de fora das crises políticas do azarado - e pouco competente - Dudu (ver Hermes da Fonseca), en­quanto o Senado e todo o gover­no eram conduzidos pelo sena­dor gaúcho Pinheiro Machado.
      Em 1913, a questão sucessória se apresentava. Uma acirrada ne­gociação entre líderes de todos os estados cogitou os nomes dos ex-presidentes Campos Salles e Ro­drigues Alves, além do senador Rui Barbosa. Mas forças políticas se uniram em torno de Wences­lau Braz - indicação de Pinheiro Machado, que supunha encontrar no mineiro o fantoche que lhe fora Hermes. Enganou-se.
     Eleito em 1914 com 532.107 votos, "seu Lalau", como Wences­lau também era conhecido, tomou posse na Presidência com o seu vice, o maranhense Urbano San­tos (1859-1922), em meio à des­confiança. Era o mais jovem pre­sidente eleito, e temia-se que a influência de Pinheiro Machado durante a "pagodeira hermista" se repetisse no seu mandato. Um jor­nal da época afirmou que Pinhei­ro pretendia "dispor eternamente dos governos como das suas éguas na fazenda da Boa Vista".
     O panorama ao início do go­verno Wenceslau Braz não era, portanto, promissor. Mas o apa­rentemente tímido e omisso Lalau revelou-se um determinado ho­mem de Estado. No discurso da posse, deu o tom do seu governo: "Ao patriotismo dos homens de responsabilidade do Brasil se im­põe, iniludivelmente, uma gran­de obra de construção política e econômica e restauração finan­ceira. Está bem claro que esta dupla obra exige uma mesma base: intransigência moral, administra­tiva, absoluto respeito às leis, im­parcial aplicação dessas, paz, or­dem em todas as modalidades".
     Assumindo uma economia à beira do colapso (300 mil contos de réis em dívidas a pagar, o que ultrapassava 70% da arrecadação bruta de 1914), sua primeira preocupação foi a contenção de gastos. Assim, enviou ao Congres­so um pedido de corte de 50% no próprio salário. O Congresso, tal­vez temeroso do mau exemplo, limitou a redução a 20%. Wences­lau utilizava o próprio carro, servindo-se de transporte oficial em raríssimas ocasiões e impedindo seus familiares de fazê-lo. À dife­rença da festa na qual se tornara o Palácio do Catete no governo an­terior, houve apenas uma celebra­ção naquela residência oficial du­rante o seu mandato, quando a primeira-dama, dona Maria Car­neiro, organizou uma recepção para angariar donativos para fla­gelados do Nordeste.
     Estas medidas, apesar de moralizadoras, não tinham efeitos prá­ticos no gigantesco rombo das contas estatais. Mas dava ao gover­no autoridade moral para agir em outras frentes, cobrando a unifica­ção das receitas e despesas da União; a abolição de remuneração nas convocações extraordinárias do Congresso e a eliminação das autorizações extra-orçamentárias, que considerava "ruinosa prática".
     A escolha do ministério favo­receu critérios de recuperação econômica e independência polí­tica, recusando-se Wenceslau a acatar indicações tanto de Pi­nheiro Machado quanto de seus opositores. Colocou à frente dos dois principais ministérios, Fa­zenda e Agricultura, dois homens ligados às finanças, respectiva­mente o mineiro Sabino Barroso e o fluminense Pandiá Calógeras, este último ligado a Minas. Wen­ceslau fiscalizava todo o trabalho de sua equipe; opinava sobre tu­do, e ficou conhecida a sua práti­ca de enviar bilhetes e recortes de jornal para os ministros e auxi­liares diretos. Sua antecipação so­bre vários assuntos causava, se­gundo um assessor, "perplexida­de de uns e admiração de outros".
     Outro problema com o qual se deparou foi a sucessão do governo do Rio de Janeiro. O candidato apoiado por Pinheiro Machado, Feliciano Sodré, havia vencido as eleições, mas o Supremo Tribunal Federal concedera habeas corpus ao seu adversário, o ex-presidente Nilo Peçanha, declarando-o habi­litado para a posse. Wenceslau, le­galista contumaz, não hesitou e obedeceu a decisão do STF, colo­cando tropas à disposição da Jus­tiça e empossando Nilo.
     Wenceslau Braz teve que lidar com grandes conflagrações den­tro e fora do país. A Guerra do Contestado, que se arrastava des­de 1912, nascida em meio à dispu­ta na demarcação de limites entre Paraná e Santa 
Catarina, agravada pela presença de um movimento messiânico que pegou em armas, revelou o estilo de governar de Wenceslau. Enérgico em um pri­meiro momento, o presidente despachou tropas federais que, após várias expedições e com apoio das forças locais, esmaga­ram os revoltosos em 1916. Após a força, a conciliação. "Perso­nificação do meio-termo", como um crítico o definiu, o presidente chamou ao Catete os líderes dos estados antagonistas, que acaba­ram por aceitar, em outubro de 1916, a divisão da área em litígio.
     No plano externo, encontrou a Europa em plena Primeira Gran­de Guerra, iniciada em julho de 1914. O Brasil tomou parte direta no conflito após o torpedeamento de quatro navios mercan­tes por submarinos alemães. Em outubro de 1917, em mensagem enviada ao Congresso, o presi­dente afirmava que não cabia ao governo mais do que reconhecer o estado de beligerância imposto pela Alemanha. Assim, em agosto de 1918, às vésperas do armistí­cio, foi enviada à Europa uma frota brasileira que, no entanto, não chegou a participar do con­flito, tendo-se abatido sobre a tri­pulação um surto de gripe espa­nhola, causando 156 baixas.
     A gripe, aliás, foi grande em­pecilho à normalização nacional. Apenas no Rio de Janeiro, entre setembro e novembro de 1918, os mortos já chegavam a 17 mil. As ruas, escolas, lojas e repartições públicas desertas contrastavam com os hospitais e cemitérios su­perlotados. A doença não foi ven­cida no mandato de Wenceslau, e chegou a matar o seu sucessor, Rodrigues Alves, em 1919, antes de tomar posse da Presidência.
     Para piorar a situação finan­ceira do país, que apresentou em 1914 déficit na balança comercial pelo segundo ano consecutivo, o conflito europeu praticamente fe­chou o principal mercado para o café. Da mesma forma, recursos externos antes disponíveis para investimento no país foram cana­lizados para os gastos bélicos.
     O conflito na Europa, nocivo ao Brasil em um primeiro momento, favoreceu o desenvolvimento da indústria nacional, uma vez que o parque industrial europeu se vol­tou para o esforço de guerra. Pôde-se notar considerável incre­mento industrial em várias re­giões, sobretudo a partir da ex­ploração do carvão mineral e da produção de ferro-gusa. O Brasil também passou a exportar outros produtos, como o manganês, cujas rendas alfandegárias saltaram de 1.200 contos em 1914 para 57 mil contos em 1917. Assim, o incremento do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, negativo em 1,25% em 1914, subiu 9,4% em 1917.
     Durante o seu governo foi ela­borado ainda o Código Civil, promulgado em 1916, conhecido como "Código Wenceslau", que vigorou até 2002. Wenceslau ain­da promoveu uma reforma no ensino, restaurando o rigor nos exames de humanidades e con­tratando professores mais quali­ficados através de concursos. Os resultados da mudança, já no pri­meiro ano, foram enormes: as re­provações passaram de 2% para 60% nos exames finais do ensino médio, e as aprovações nos con­cursos para os cursos superiores na capital federal saltaram na mesma proporção.
     Deixando a Presidência, não se dedicaria mais à política. Se­gundo suas palavras, "depois de ter sido presidente, a nada mais deve aspirar um homem na vida pública". Voltando a Itajubá, onde morreria, aos 98 anos, em 1966, dedicou-se aos negócios, dirigin­do empresas como uma fábrica de tecidos e um banco, não dei­xando, entretanto, de reservar tempo para o que mais gostava de fazer: caçar e pescar.
     Sua obra política, financeira, legislativa e administrativa deu vigor a um país à beira do abis­mo. Seu Lalau, recebido em 1914 com arremessos de jaca, deixou a capital federal em 15 de novem­ novem­bro de 1918, aclamado pelo povo, pelos políticos e pela imprensa. A esta altura, já o chamavam de "São Wenceslau".
Rodrigo Elias é professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 32 – Julho - 2006



Memória da peste
Parecia o fim do mundo: cadáveres insepultos, falta de comida e de remédios para enfrentar a maior epidemia de todos os tempos. No Rio de Janeiro, usada politicamente, a gripe espanhola construiu e destruiu reputações.
Adriana da Costa Goulart
      Num espaço de oito meses, a gripe espa­nhola matou entre 50 a 100 milhões de pessoas no mundo. Na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, os índices de mortalidade alcançaram cifras nunca imaginadas. No mês de setembro de 1918 morreram 48 pessoas, e em outubro os óbitos aumentaram em 2.000%. Apenas no dia 22 desse mês registra-ram-se 890 mortes.
     Vistas no passado como consequência dos mias­mas que habitam as imundícies e os ares fétidos, as epidemias evocam medos ancestrais, que remontam à antiguidade e à Idade Média. De fato, sobreviven­tes da espanhola, entrevistados por mim, hesitaram em pronunciar o nome da gripe, como se sua sim­ples menção pudesse desencadear novamente a tra­gédia vivida.
     Nas suas memórias, o médico Pedro Nava des­creve aquele dramático período da seguinte forma: "Aqueles dias ninguém que os tenha vivido poderá jamais esquecê-los; tudo era de um cinza purulento, dum roxo podre, poente de chuva, saimento, mar­cha fúnebre, viscosidade e catarro."
     Os primeiros brasileiros a contraírem a gripe fo­ram os oficiais do Exército que integravam a Missão Médica Brasileira. Estavam a caminho de Dacar, no Senegal, com a missão de auxiliar as forças aliadas. Durante o trajeto, muitos adoeceram e morreram, tendo seus corpos lançados ao mar. A notícia che­gou ao Brasil, por cabograma, no dia 26 de setem­bro de 1918. A gravidade do acontecimento e a ex­pansão da moléstia foi, no entanto, ignorada pelas autoridades, na verdade sem recursos para montar uma estratégia de socorro à população.
     As primeiras notícias sobre a peste que devastava a Europa, publicadas pela imprensa nos últimos dias de setembro de 1918, também foram encaradas com displicência. Algumas vezes, como aparece na revista A Careta, as notícias eram abordadas de for­ma cômica e num tom de crítica política: a gripe vista como arma bacteriológica criada pelos ale­mães para vencer a Primeira Guerra e afastar dos combates os países neutros.
     Tal visão da espanhola só se desfez quando as pes­soas começaram a adoecer em massa e as ruas da ci­dade a se encher de cadáveres. A incubação da gripe durava de três a sete dias. De uma simples zoeira nos ouvidos, surdez, dores de cabeça e oscilação de tem­peratura, a doença se desenvolvia com os infectados apresentando calafrios, hemorragias intensas, urina e vómitos misturados a sangue. Tal quadro era acompanhado de perturbações nos nervos cardía­cos, infecções nos intestinos, pulmões e meninges, levando as vítimas a sufocações, a diarreias, dores lancinantes, à letargia, ao coma, à intoxicação pela falta de funcionamento dos rins, a cianose (azulamento da pele), à síncope e finalmente à morte em algumas horas ou dias, cuja proximidade era conhe­cida pelo escurecimento dos pés das vítimas. O doente passava a maior parte do tempo em delírio, devido à febre alta.
     Em muitas casas, famílias inteiras caíam acama­das, dependendo de quem pela rua passasse para que se pudessem alimentar e receber remédios. Essa função acabava sendo exercida por lixeiros, coveiros e policiais, que acudiam os "espanholados". Colovavam-se panos negros nas janelas para indicar que na casa havia doentes necessitando de socorro.
     Quando as mortes se intensificaram e não se dava mais vazão às demandas por enterros, punham-se os pés dos mortos escorados nas janelas das casas para que a Assistência Pública viesse recolher o corpo. Para cobrir a demanda por caixões, passaram a fabricá-los com tábuas retiradas dos tetos e assoalhos das casas. Com o acirramento da crise nos serviços funerários, a população deixava no meio da rua os corpos dos pa­rentes que já apresentavam sinais de decomposição.
     Numa tentativa de normalizar a coleta dos cadá­veres insepultos foram utilizados caminhões de lixo e bondes, estes apelidados pela população de "trens fantasmas", pois transportavam os defuntos amortalhados em lençóis brancos, não sendo raro encon­trar alguns vivos entre os mortos. Visando contornar a falta de coveiros, para os serviços funerários convocaram-se os presos da Casa de Correção, pre­sídio localizado no Rio de Janeiro, o que só fez au­mentar o pânico da população. Circulavam boatos de que os detentos mutilavam os dedos e as orelhas dos mortos para roubar brincos e anéis, entre ou­tros mais assombrosos e impactantes.
     A Santa Casa da Misericórdia, único hospital vol­tado para o atendimento do público na cidade, rece­beu da população a alcunha de "Casa do Diabo". Devido ao elevado número de mortes na instituição, difundiu-se pela cidade que ali se ministrava aos doentes mais crônicos uma tisana letal, imortalizada na memória popular como "chá da meia-noite" - su­postamente uma mistura de chá com arsénico.
     Algumas instituições foram de grande importân­cia no auxílio da população como a Cruz Vermelha Brasileira, que improvisou vários hospitais pela cida­de para atender ao público, e o Corpo de Bombeiros que distribuía sopas aos necessitados. Os bombeiros eram responsáveis também pela venda das galinhas que passaram a ser confiscadas pelo governo em granjas e casas particulares. A canja, feita com arroz e galinha, era tida como um ótimo alimento na recupe­ração dos doentes. Isso originou um mercado negro de galinhas e vários quebra-quebras pela cidade, con­sequentes da acirrada disputa pelas valiosas aves. O colapso das instituições de saúde pública, jun­tamente com a falta de médicos, leitos nos hospitais, remédios e alimentos, despertou a ira da população. Mesmo diante do caos instaurado, as autoridades políticas e sanitárias insistiam em defender publica­mente a benignidade do mal reinante, tornando mais agudas as tensões sociais instauradas pela pan­demia, que construiu e destruiu reputações. A im­prensa conduziu à execração pública, por exemplo, o diretor-geral da Saúde Pública, Carlos Seidl. Bode expiatório da gripe espanhola, sua perda de prestígio social foi tamanha que ele jamais se recuperou.
     Foi nesse contexto que a figura de Carlos Chagas emergiu como herdeiro científico de Oswaldo Cruz. A opinião pública exigiu que o comando dos servi­ços de socorro público no combate à gripe fosse en­tregue a ele. Chagas foi então requisitado pelo presi­dente da República, Venceslau Brás, para adminis­trar as atividades de socorro à população enferma.
     No auge da epidemia tudo se desorganizou, invia­bilizando funcionamento da cidade, na época cen­tro administrativo e político do país. As repartições fecharam por falta de funcionários e os colégios suspenderam as aulas. Diante de todos esses problemas, o próprio presidente Venceslau Brás (1914-1918) foi acusado de incompetência política. Saiu do episódio achincalhado pelos seus adversários políticos e pela opinião pública. Não se candidatou a cargo político pelo resto da vida.
     A epidemia foi manipulada, politicamente, por partidários do conselheiro Rodrigues Alves, que se candidatara a novo mandato presidencial. Ironia do destino, acabaria como uma das vítimas mais ilus­tres da espanhola. Idoso, não resistiu à investida da gripe e morreu no dia 16 de janeiro de 1919.
     De todo modo, a gripe contribuiu para que as questões de saúde ganhassem mais atenção na agenda política do governo seguinte. Permaneceu, no entanto, como um enigma. Desde a década de 80 do século passado, cientistas americanos, ingle­ses e canadenses percorrem o mundo atrás de cor­pos conservados de vítimas, de onde possam de­sentranhar o vírus adormecido. Até hoje, não se conseguiu produzir em laboratório a carga viral completa da maior epidemia de todos os tempos. O trabalho de detetive desses cientistas se justifica: não estamos livres de uma nova gripe assassina. Para a ciência, é apenas uma questão de tempo. Resta saber se até lá teremos instrumentos eficazes para impedir ou pelo menos atenuar os seus efeitos catastróficos.
Adriana da Costa Goulart é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense onde defendeu dissertação intitulada Um cenário mefistofélico: a gripe espanhola no Rio de Janeiro, no ano de 2003.
Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

Saiba Mais: Link