"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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segunda-feira, 11 de julho de 2016

Rochas de livres prazeres

Ao registrarem práticas sexuais variadas em suas pinturas rupestres, nossos ancestrais demonstram que lidavam naturalmente com o corpo e os desejos.
     Mais de 1.300 sítios arqueológicos já foram encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí. Desses, 900 contêm cenas rupestres, com representações dos afazeres cotidianos dos grupos que ali viveram no mínimo há 12 mil anos atrás. Gravadas nas rochas, há cenas de caçadas, lutas sociais, rituais e relações humanas diversas. Inclusive as sexuais.
     Entre as representações rupestres aparecem figuras humanas exibindo-se individualmente, com destaque para seus falos. Os caçadores e coletores praticavam suas relações sexuais, parece-nos, de forma um tanto livre de certos padrões ditos morais, de acordo com as representações vistas nas cenas rupestres. As cenas mostram diversas posições de sexo, envolvendo duplas, trios ou grupos maiores numa mesma ação. Há também ocasiões mais “românticas”, como a representação de um beijo. Tais sentimentos e desejos não são privilégios exclusivos dos corpos e mentes de hoje. Nossos ancestrais também os vivenciaram, como sugerem os vestígios que deixaram.
     Infelizmente ainda existem manuais didáticos escolares que consideram a História do Brasil apenas a partir de 1500, com a chegada dos portugueses. Em alguns casos, para se remeter ao período anterior, fala-se de “pré-história brasileira”, numa abordagem claramente eurocêntrica, que dá pouco ou nenhum relevo à longa experiência dos povos presentes no continente. Os homens e as mulheres da suposta “pré-história” viveriam em cavernas, vestidos com peles de animais, em alguns casos cobrindo aquelas que consideramos suas “partes íntimas”. É como se estivessem fora da história, num período que seria o prelúdio do desenvolvimento humano, no qual não existiria nada a não ser uma luta instintiva pela sobrevivência.
     Estudos desenvolvidos por arqueólogos brasileiros como Niède Guidon subvertem a concepção de “pré-história”. Ao focalizar a presença humana no continente e trazer ao debate a produção material e cultural dos povos ancestrais – com base em análise de suas artes rupestres, cerâmicas, instrumentos musicais, ossadas e códigos de DNA, entre outros vestígios – eles apontam para a compreensão de outra História. Quem sabe a História Antiga do Brasil, ou a História Ancestral do Brasil.
     Há 200 mil anos, os nossos ancestrais tinham as mesmas condições físicas e mentais que compartilhamos hoje, e empregavam os meios à sua disposição para realizar diferentes ações sociais, culturais, políticas e interpessoais, assim como fazemos atualmente. Sua vida social era mais elaborada do que se imaginava. Demonstram grande desenvoltura para o lazer, o prazer e para práticas hoje consideradas saudáveis, como caminhar, dançar e brincar. 
     As muitas cenas com representações do sexo nas pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara revelam que a sexualidade não era algo reprimido ou escondido, pois todos os membros dos grupos de caçadores e coletores da época tinham acesso àquelas cenas, feitas por eles mesmos ou por seus ancestrais. É possível identificar representações dos órgãos genitais femininos (vulva) e masculinos (falos eretos). Quando há representações de mãos voltadas para trás, são sinalizações de cenas femininas ou com mulheres. 
     O sexo, para aqueles grupos, devia ser considerado uma prática natural e prazerosa. Dificilmente estava submetido a excessivas restrições ou tabus religiosos. O mesmo se observa entre outros grupos de caçadores e coletores, inclusive os atuais. A sexualidade é compreendida de modo diferente por essas sociedades. Pintores antigos, tanto brasileiros quanto africanos, mostravam as cópulas humanas em posições variadas e com certo realismo. Nas pinturas rupestres africanas, especialmente na região abaixo do deserto do Saara, há uma série de representações de homens mascarados com seus falos eretos prestes a penetrarem as mulheres já em posição ginecológica. 
     A sexualidade é uma temática bastante recorrente nas cenas de pinturas rupestres da Tradição Nordeste, uma das tradições estilísticas de pinturas da região piauiense não somente na Serra da Capivara, mas também em outros locais do país, como no interior da Bahia e no Rio Grande do Norte. Na região de sua abrangência, inclusive em São Raimundo Nonato, além das representações do sexo entre humanos, há cenas de sexo com animais, o que chamamos atualmente de “zoofilia”. Cenas que aparecem também nos vestígios de outros povos do mundo.
     É válido considerar que nas cenas de “excitação” coletiva os falos representavam “espadas”, ou seja, simbolizavam poderio e força. Já a cena do beijo sugere que a boca se desenvolveu como importante zona erótica ao longo de toda a vida humana. 
     Filósofos como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau consideravam “selvagens” os homens das terras distantes da África, América e Ásia. Assim, segundo Hobbes, eles seriam incapazes de construir laços de amor, além de levarem uma vida sem ofício ou arte. Essa ideia se perpetuou através dos escritos de muitos ocidentais, mas já se comprovou que havia sim trabalho, amor e vida social entre esses grupos ancestrais, como evidenciam as pinturas e outros vestígios deixados pelos primeiros ocupantes das terras brasilis.
     Nas pinturas rupestres da Serra da Capivara há cenas de danças feitas com tamanha desenvoltura plástica que demonstram certa sensualidade. Algumas cenas de sexo grupal, com animais ou ainda, supostamente, com humanos “menores”, nos remetem a um período sem as restrições morais e éticas da tradição religiosa judaico-cristã. Um período em que os ritmos e as energias da vida humana se harmonizavam com os da natureza.

Michel Justamand é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) de Benjamin Constant e autor de A mulher rupestre. Representações do feminino nas cenas rupestres de São Raimundo Nonato – PI (Alexa Cultural, 2014).

Saiba mais – Bibliografia
 GUIDON, Niède. “As ocupações pré-históricas do Brasil”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da. História dos índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
MARTIN, Gabriela. “A tradição nordeste na arte rupestre do Brasil”. Revista Clio, nº 14. Série Arqueológica. Anais da X Reunião Científica da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Recife: EDUFPE, 2000.
PESSIS, Anne-Marie. Imagens da Pré-História. Parque Nacional Serra da Capivara. São Raimundo Nonato: FUMDHAM, 2003.
PINKER, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Cia. das Letras, 2004

Saiba mais – link

Saiba mais – Filmes
A Guerra do Fogo
O filme retrata um período na pré-história e dois grupos de hominídeos. O primeiro, que quase não se diferencia dos macacos por não ter fala e se comunicar através de gestos e grunhidos, é pouco evoluído e acha que o fogo é algo sobrenatural por não dominarem ainda a técnica de produzi-lo; o outro grupo é mais evoluído e tem uma comunicação e hábitos mais complexos, como a habilidade de fazer o fogo. Esses dois grupos entram em contato quando o fogo da primeira tribo é apagado em uma guerra com uma tribo de hominídeos mais primitivos, que disputam a posse do fogo e do território. Noah, Gaw e Amoukar (membros do primeiro grupo) são destacados então para uma jornada para trazer uma nova chama acesa para a tribo. Nesse caminho deparam-se com um grupo de canibais, e resgatam de lá Ika, uma mulher pertencente ao grupo mais evoluído. Do contato com essa mulher, os três caçadores do fogo aprendem muitas coisas novas, já que ela domina um idioma muito mais elaborado que o deles, assim como domina também a técnica de produção do fogo. Levados por diversas circunstâncias a um encontro com a tribo de Ika, percebem que há uma maneira diferente de viver; observam as diferentes formas de linguagem, o sorriso, a construções de cabanas, pintura corporais, o uso de novas ferramentas, e, um modo diferente de reprodução.
Direção: Jean Jacques Annaud
Duração: 100 minutos
Ano: 1981
Áudio: Legendado

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A Odisseia da Espécie - L'Odyssée De L'Espèce

Quase uma década foi o tempo que o realizador Jacques Malaterre e o cientista Yves Coppens demoraram para alcançarem o ambicioso projeto de expressar em imagens a pré-história do Homem, desde os pré-hominídeos à fundação das primeiras civilizações, no que é a maior produção alguma vez realizada sobre as nossas origens. São mais de 8 milhões de anos de evolução recriados graças às últimas descobertas antropológicas, a dezenas de atores, às mais modernas técnicas de animação digital, com cenários naturais escolhidos e sequências dramatizadas que servem de reforço para as intervenções de prestigiosos cientistas de todo o mundo. A Odisseia da Espécie é a nossa história. Através de surpreendentes imagens em três dimensões e efeitos especiais espetaculares, vamos poder observar os primeiros passos de Orrorin, um dos mais antigos pré-humanos, viver ao pé do "homo habilis" que vai inventar o primeiro utensílio, e do "homo erectus" que inventará o fogo. Com o homem de Neandertal será a caça ao urso das cavernas e as primeiras sepulturas. Finalmente com o "homo sapiens" será o nascimento da arte.
Direção: Jacques Malaterre
Ano: 2003
Áudio: Francês – Legenda: Português
Duração: 48 minutos cada episódio

Episódio 1 -"Les Prehumains" (Os Pré-Hominídeos )

Episódio 2 -"Les Premiers Hommes" (Os Primeiros Homens) 

Episódio 3 -"Neandertal et Sapiens" (Neandertal e Sapiens) 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A Evolução da Humanidade – Armas, Germes e Aço (Guns, Germs and Steel)


“Por que vocês brancos desenvolveram tantos suprimentos, enquanto nós negros temos tão pouco dele?”. A Pergunta, aparentemente inocente de um nativo da Papua Guiné, em 1974, fez com que Jared Diamond escrevesse o premiado livro Armas, Germes e Aço, sempre tentando solucionar o maior mistério da história da humanidade: as raízes da desigualdade social. Baseado na obra do autor, este documentário da National Geographic traça a jornada dos seres humanos nos últimos 13 mil anos – desde o nascimento da agricultura, no final da Era Glacial, até a realidade da vida no século XXI. Gravado em quatro continentes, A Evolução da Humanidade apresenta gravações atuais, entrevista com historiadores, arqueólogos e cientistas, reconstrução histórica e animação computadorizada.
Direção: Tim Lambert, Cassian Harrison
Ano: 2005
Áudio: Inglês – legenda: Português
Duração: 54 Min. cada episódio

Ep.1 - Saindo do Jardim do Éden
"Por que algumas sociedades florescem mais do que as outras?", perguntou-se o pesquisador Jared Diamond, autor do consagrado "Armas, Germes e Aço". Para examinar as razões do sucesso europeu, ele voltou há treze mil anos, quando a agricultura e a pecuária começaram a se desenvolver. E encontrou pelo menos uma parte da solução para o seu enigma: a geografia privilegiada do chamado "Fértil Crescente", no Oriente Médio.

Ep.2 - Conquista
No dia 15 de novembro de 1531, 150 conquistadores espanhóis chegaram ao coração do Império Inca, no Peru, e derrotaram um exército de oitenta mil soldados, promovendo um massacre que se estenderia por toda a América. Para Diamond, o segredo estaria nos poderosos cavalos dos espanhóis, nas afiadas armas de aço e também nos germes que as tropas trouxeram da Europa, espalhando uma epidemia de varíola entre os Incas.

Ep.3 - Entre os Trópicos
A teoria do escritor Jared Diamond, autor do consagrado "Armas, Germes e Aço", para responder à pergunta "Por que algumas sociedades florescem mais do que as outras?" mostrava como a geografia favoreceu os europeus para que eles conquistassem boa parte do planeta. Mas o que teria acontecido com eles assim que sua sede de conquista recaiu sobre a África, o berço da humanidade? Será que as armas, germes e aço de outrora teriam efeito no meio do implacável e imprevisível clima tropical? Suas teorias poderiam explicar, enfim, como um continente tão rico em recursos naturais se transformou no mais pobre do planeta? No fim de sua jornada, Jared Diamond contesta suas próprias teorias ao se deparar com um cenário que nunca tinha sequer imaginado.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Coleção História Geral da África em português (Somente em PDF)

Publicada em oito volumes, a coleção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da coleção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projetos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a coleção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos.
 Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.
Download gratuito (somente na versão em português):
·         Volume I: Metodologia e Pré-História da África (PDF, 8.8 Mb)
o    ISBN: 978-85-7652-123-5
·         Volume II: África Antiga (PDF, 11.5 Mb)
o    ISBN: 978-85-7652-124-2
·         Volume III: África do século VII ao XI (PDF, 9.6 Mb)
o    ISBN: 978-85-7652-125-9
·         Volume IV: África do século XII ao XVI (PDF, 9.3 Mb)
o    ISBN: 978-85-7652-126-6
·         Volume V: África do século XVI ao XVIII (PDF, 18.2 Mb)
o    ISBN: 978-85-7652-127-3
·         Volume VI: África do século XIX à década de 1880 (PDF, 10.3 Mb)
o    ISBN: 978-85-7652-128-0
o    ISBN: 978-85-7652-129-7
·         Volume VIII: África desde 1935 (9.9 Mb)
o    ISBN: 978-85-7652-130-3 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pré-história ou história dos povos sem escrita?/Complemento

     Na segunda metade do século XIX, a História buscava se afirmar como ciência especializada no conhecimento do passado, com base em documentos escritos. O termo Pré-história, denominação do período anterior ao surgimento da escrita, que ocorreu por volta de 4000 a.C., foi adotado para se contrapor ao termo História, que designava o período posterior à escrita.
     De acordo com essa divisão de tempo, se o planeta Terra surgiu há 5 bilhões de anos e o primeiro hominídeo descoberto e datado pela pesquisa arqueológica teria vivido há cerca de 4 milhões de anos, é possível deduzir que a maior parte da trajetória da humanidade não teria ocorrido no período histórico. Será que isto é correto?
     A resposta é não. Podemos afirmar que a história da humanidade começou com os mais antigos antepassados, embora os vestígios desse tempo sejam muito raros. Assim, o termo Pré-história não é o mais adequado para definir os acontecimentos que marcaram a humanidade antes da escrita. Em vez do termo Pré-história, os historiadores têm utilizado história dos povos sem escrita, cujo estudo depende das escavações arqueológicas e da paleontologia, ciência dedicada à investigação dos fósseis.
     Afinal, até hoje há povos que vivem sem o uso da escrita. Nem por isso deixam de viver em sociedade, de produzir cultura, de fazer História.

Arte rupestre
     A arte rupestre se encontra presente em grande parte dos sítios arqueológicos na forma de estatuetas, gravuras e pinturas em cavernas e paredões rochosos. Para pintar, os homens pré-históricos usavam pigmentos que extraíam da natureza, misturando cera de abelhas, sangue, barro, gordura, resinas vegetais, minerais moídos, carvão, água e até excrementos.
     Acredita-se que a arte rupestre representava a primeira forma de expressão e comunicação dos homens pré-históricos, por meio da qual exibiam sua percepção e compreensão do mundo e de si mesmos. Em geral retratavam cenas de caça, mas havia as que representavam figuras humanas.

As origens
O criacionismo
     As civilizações mais antigas já elaboravam explicações sobre a aparição do homem, seu lugar no mundo e suas relações com outras espécies.
     Muitos povos inventaram histórias sobre a criação, ligadas a mitos ou a crenças religiosas. Para os antigos egípcios, por exemplo, os homens teriam se originado das lágrimas do deus Sol Rá. Já os maias acreditavam que os homens foram feitos a partir de uma massa de milho.
     Os mitos e as lendas sobre a origem do homem, que têm como ponto comum a crença de que a humanidade foi criada por um ser superior, fazem parte de uma corrente de pensamento chamada
criacionismo.
     O criacionismo no mundo ocidental é baseado na tradição judaico-cristã. Nesse caso, defende-se a ideia de que Deus é o criador de tudo aquilo que existe e que, depois de ter criado a Terra e todos os seres vivos, teria criado Adão e Eva, dos quais toda a humanidade, até os nossos dias, descenderia.
Os fundamentos dessa interpretação criacionista são encontrados no Livro do Gênesis, no Antigo Testamento da Bíblia:
“Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança, e que ele submeta os peixes do mar, os pássaros do céu, os animais grandes, toda a terra e todos os animais pequenos que rastejam sobre a terra!’
Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou; criou-os macho e fêmea.
Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos e prolíficos, enchei a terra e dominai-a. Submetei os peixes do mar, os pássaros do céu e todo animal que rasteja sobre a terra!’ [...]
Deus viu tudo o que havia feito. Eis que era muito bom. Houve uma tarde, houve uma manhã: sexto dia.
O céu, a terra e todos os seus elementos foram terminados.
Deus terminou no sétimo dia a obra que havia feito.
Ele cessou no sétimo dia toda a obra que fazia.
Deus abençoou o sétimo dia e o consagrou, pois tinha cessado, neste dia, toda a obra que ele, Deus, havia criado pela sua ação.
Este é o nascimento do céu e da terra quando da sua criação.”
(Gênesis 1,26 – 2,4. Bíblia: tradução ecumênica. São Paulo: Loyola, 1994. P. 25-26.)

     Até O século XVII, a visão criacionista era dominante no mundo ocidental. Existiam até mesmo cálculos que estabeleciam a data precisa em que Deus teria criado o homem, como a datação estabelecida pelo teólogo irlandês James Usher, em 1650. Segundo Usher, a criação do mundo ocorreu em 23 de outubro de 4004 a.C; um domingo, e Adão e Eva, os primeiros humanos, foram criados em 28 de outubro de 4004 a.c., uma sexta-feira.

Explicações científicas
     No século XIX, período de afirmação do pensamento científico, essas explicações foram contestadas. Dentre os vários pensadores da época, o mais revolucionário no assunto foi o cientista inglês Charles Darwin (1809-1882), que desenvolveu a teoria do evolucionismo. No seu livro A origem das espécies, publicado em 1859, ele propôs que os seres vivos evoluíram ao longo de milhões de anos, de acordo com um processo de seleção natural. Segundo ele, aqueles que se adaptavam melhor ao meio ambiente, em constante mutação, conseguiam sobreviver.
     As explicações religiosas para a criação do mundo sofreram outro golpe no início do século XX, com o trabalho de Georges-Henri Lemaitre (1894-1966), físico belga que, curiosamente, era padre católico. Estudioso da teoria da relatividade do físico alemão Albert Einstein (1879-1955), Lemaitre propôs, entre 1927 e 1931, que o universo possuía cerca de 10 a 20 bilhões de anos e teria se originado da explosão de um átomo primogênito ou “ovo cósmico”: Sua teoria ficou conhecida como Big Bang ou a “grande explosão”: A Terra, apenas um planeta dentro de um dos incontáveis sistemas estelares do universo, teria surgido na cadeia dessas explosões cósmicas.
     A teoria do Big Bang combinou muito bem com a teoria evolucionista de Darwin e permitiu aos pesquisadores, apoiados na Arqueologia, na Paleontologia e em outras áreas do saber, avançar no conhecimento das origens da humanidade.

Darwin e a origem das espécies
     Charles Robert Darwin nasceu na Inglaterra em 1809 e desde cedo interessou-se pelas ciências naturais. Em 1825 foi para Edimburgo estudar medicina, mas logo abandonou o curso. Matriculou-se então no Christ’s College, em Cambridge, decidido a tornar-se clérigo. Ali fez amizade com o botânico John Stevens Henslow, cuja influência foi decisiva para que Darwin fosse convidado a participar, como naturalista, da viagem de circum-navegação do navio Beagle, promovida pelo Almirantado britânico.
     Realizada entre 1831 e 1836, a viagem deu suporte às pesquisas iniciais de Darwin sobre a origem das espécies. Ele pôde verificar como espécies aparentadas apresentavam características distintas, de uma região para outra. Notou ainda que entre as espécies extintas e as atuais existiam traços comuns, embora diferenciados. Tais fatos levaram-no a supor que os seres vivos não são imutáveis, mas se transformam. Tal conclusão abalou suas convicções religiosas, a ponto de, por mais de duas décadas, ele se recusar a studata-la.
     Na base de sua teoria evolucionista, Darwin colocou a luta pela vida, segundo a qual somente os mais aptos conseguem sobreviver e transmitir suas características genéticas favoráveis a seus descendentes. Assim, as transformações que favorecem a adaptação do indivíduo ao meio ambiente continuam a se propagar por meio dos descendentes e, após longo tempo, é possível identificar uma nova espécie originária da antecedente, mas diferente dela.
     Sua obra Sobre a origem das espécies por meio da seleção natural ou a conservação das raças favorecidos na luta pela vida, publicada em 1859, colocou-o no centro de acirradas polêmicas.
     Darwin morreu em consequência de um ataque cardíaco em 19 de abril de 1882.

A antropologia biológica
A antropologia biológica é uma ciência que ajuda os arqueólogos a obterem preciosas informações sobre os primeiros hominídeos que viveram na Terra.

     “Se perguntarmos ao arqueólogo qual vestígio o coloca mais próximo do passado, sem dúvida a resposta será: os esqueletos humanos. Retirar esqueletos da terra durante as escavações e, depois, estuda-los cuidadosamente em laboratório faz com que o pesquisador lide com os restos das próprias pessoas que procura entender. E para isto existe a chamada antropologia biológica, que se volta ao estudo das características biológicas, evolutivas e adaptativas do homem. [...]
     Por exemplo, a definição do sexo de um indivíduo sepultado é obtida a partir da distinção que existe em uma determinada porção do esqueleto: a pélvis (ou bacia). Os homens apresentam a pélvis menos dilatada do que as mulheres. Afinal, são elas quem carregam por nove meses os bebês em gestação e depois dão à luz. [...]
     Para definir a idade de um esqueleto existem diferentes indicadores. Um deles é a análise da presença ou substituição dos dentes de leite e dos permanentes na arcada dentária. Outro indicador é o fechamento da calota craniana, que na criança é aberta, fundindo-se e enrijecendo-se com o passar do tempo. [...]
     Além de conhecer a idade, a altura e o sexo, pode-se calcular a expectativa de vida de uma população, ou seja, a idade estimada que as pessoas alcançavam. Em algumas sociedades a mulher tem menor expectativa de vida, devido a complicações derivadas da gravidez e do parto. Já em tempos de guerra, é compreensível que a expectativa de vida da população masculina seja menor.
     Esses estudos demográficos fornecem informações a respeito do tamanho da população tratada, taxas de nascimento e óbito, índices de crescimento e densidade populacional numa região.
     Porém, esses estudos exigem sofisticados programas estatísticos, já que os restos humanos são bastante frágeis à conservação, não suportando mudanças de clima ou a umidade do solo, representando apenas parcela de uma população. [...]
     Um ramo da antropologia biológica (a paleopatologia) se dedica à origem, frequência, dispersão e tipos de doenças nas populações antiga. Analisando os esqueletos, o pesquisador identifica várias anomalias, que podem ter sido causadas por doenças infecciosas, hormonais, nutricionais, metabólicas, tumores, stress mecânico ou inflamação dos tecidos moles. Porém somente algumas doenças deixam marcas evidentes nos ossos, como a lepra, o câncer, a pólio, a sífilis, a artrite e a osteoporose. Nas fezes fossilizadas e preservadas (coprólitos), os estudiosos obtêm informações detalhadas sobre parasitas intestinais. [...]
     E como teria sido a alimentação dos nossos antepassados? [...] Algumas marcas permitem avaliar a questão: ossos mais finos podem indicar uma dieta não adequada, assim como uma tendência para diminuir a altura das pessoas. A saúde dos dentes também é afetada, havendo uma incidência de cáries muito maior em populações que desenvolveram o cultivo do que em grupos apenas caçadores e coletores. Isto porque os produtos cultivados provocam fermentação de açúcares e, com isto, a formação de placa bacteriana, resultando em dentes cariados.”
(Arqueologia da morte. Instituto Itaú Cultural. Disponível em: www.itaucultural.org.br).

Fonte:
Conexões com a História / Alexandre Alves, Letícia Fagundes de Oliveira. - 1.ed. - São Paulo. Moderna, 2010.
História: das cavernas ao terceiro Milênio /Patrícia Ramos Braick. Myriam Becho Mata. 2. ed. - São Paulo: Moderna, 2010.
História: das sociedades sem Estado às monarquias absolutistas, volume 1 /Ronaldo Vainfas... [et al.] - São Paulo: Saraiva, 2010.

Saiba Mais: Filme
A Guerra do Fogo
O filme retrata um período na pré-história e dois grupos de hominídeos. O primeiro, que quase não se diferencia dos macacos por não ter fala e se comunicar através de gestos e grunhidos, é pouco evoluído e acha que o fogo é algo sobrenatural por não dominarem ainda a técnica de produzi-lo; o outro grupo é mais evoluído e tem uma comunicação e hábitos mais complexos, como a habilidade de fazer o fogo. Esses dois grupos entram em contato quando o fogo da primeira tribo é apagado em uma guerra com uma tribo de hominídeos mais primitivos, que disputam a posse do fogo e do território. Noah, Gaw e Amoukar (membros do primeiro grupo) são destacados então para uma jornada para trazer uma nova chama acesa para a tribo. Nesse caminho deparam-se com um grupo de canibais, e resgatam de lá Ika, uma mulher pertencente ao grupo mais evoluído. Do contato com essa mulher, os três caçadores do fogo aprendem muitas coisas novas, já que ela domina um idioma muito mais elaborado que o deles, assim como domina também a técnica de produção do fogo. Levados por diversas circunstâncias a um encontro com a tribo de Ika, percebem que há uma maneira diferente de viver; observam as diferentes formas de linguagem, o sorriso, a construções de cabanas, pintura corporais, o uso de novas ferramentas, e, um modo diferente de reprodução.
Direção: Jean Jacques Annaud
http://ul.to/8g8x37px
Duração: 100 minutos
Ano: 1981
Áudio: Legendado

 Criação
Charles Darwin (Paul Bettany) tem em torno de 40 anos e leva uma vida pacata em uma vila inglesa. Darwin é devotado à sua família, mas ao mesmo tempo é bastante distante deles. A causa principal é o vazio existente com sua esposa Emma (Jennifer Connelly). Darwin apenas se sente bem quando escapa para seu escritório, onde discute o dia com sua filha Annie (Martha West), de apenas 10 anos. Só que há um problema: Emma está morta, há muitos anos. Darwin conversa, ou acredita conversar, com seu fantasma. É o jeito que ele encontra para amenizar a dor que sente e o conflito que possui, ao perceber que a existência de Deus não se encaixa no mundo real.
Direção: Jon Amiel
Duração: 108 minutos
http://ul.to/fv6l1knzAno: 2010
Áudio: Português



Saiba Mais: Documentário
Darwin: A Viagem que Abalou o Mundo
Em 1831, um jovem cientista amador, Charles Darwin, embarcou no HMS Beagle numa viagem épica de 5 anos que culminaria com a descoberta que abalaria o mundo. Neste documentário, o HMS Beagle zarpa mais uma fez para retraçar a viagem de Charles Darwin, examinando suas descobertas e conclusões incríveis – e suas implicações – à luz do conhecimento moderno. Filmado na Amrica do Sul, Reino Unido, América do Norte, Austrália e Europa, “Darwin: A Viagem que Abalou o Mundo” mostra recriações do período e surpreendente cinematografia natural, tudo intercalado por estudiosos, cientistas e especialistas em Darwin que compartilham suas diferentes perspectivas sobre o homem e a polêmica que ele lançou.
Direção: Steve Murray
Duração: 52 minutos
http://ul.to/558mk3g2Ano: 2009
Áudio: Inglês/Legendado