"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Documentário: A Primeira Guerra Mundial (The First World War)

Excelente documentário da BBC sobre o Primeiro Grande Conflito Mundial que ocorreu entre os anos de 1914-1918. Diferentemente dos documentários produzidos até hoje que sempre retrataram a Primeira Guerra Mundial sob a óptica norte-americana, este, retrata diferentes visões do conflito, mostrando a guerra na Rússia, Arábia, África e entre outros países. A Primeira Guerra Mundial, não se ateve somente aos seus 4 anos cronológicos, mas sim, teve consequências muito mais graves do que as milhares de mortes que causou. A pior dessas consequências foi a preparação para o maior conflito armado que a humanidade já viveu... A Primeira Guerra Mundial começou quase que por acidente. Terminou quase que tão estranhamente. No meio, foi mais destrutiva do que qualquer guerra jamais tinha sido. Morreram mais soldados britânicos, franceses e italianos na Primeira do que na Segunda Guerra. Foi o primeiro conflito genuinamente global, lutado não só nos campos da França e de Flandres mas no alto das montanhas, nos desertos, no mar e no ar.
A Primeira Guerra Mundial deu forma ao Século XX. Ela detonou a Revolução Russa. Lançou a América como potência mundial. As imperfeitas linhas do seu fracassado acordo de paz levaram o mundo a uma segunda e terrível guerra apenas 20 anos mais tarde, e depois à Guerra Fria.
A Primeira Guerra Mundial é baseada no livro best-seller de Professor Hew Strachan, Chichele Professor de História da Guerra da Universidade de Oxford e professor visitante na Universidade de Glasgow.

Direção: Marcus Kiggell e Corina Sturmer
Ano: 2003
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: 50 minutos/cada episódio 
Clique no nome do episódio para assistir On-Line

As origens complexas da Grande Guerra, e como aparentemente insignificantes tensões locais nos Bálcãs explodiram em Guerra Mundial.
A invasão alemã da Bélgica e França foi brutal e atrocidades acenderam as chamas da guerra.
Os impérios europeus entraram em choque em todo o mundo, dos mares do Atlântico Sul às planícies africanas.
O Império Turco Otomano provou ser um adversário formidável, como os Aliados descobriram à sua costa em Gallipoli e no Oriente Médio.
Como os alemães e austríacos entraram em confronto com os russos na frente oriental e a Itália ficou envolta em uma matança terrível.
O Somme e Verdun viu carnificina em uma escala sem precedentes, como exércitos lutaram para quebrar o impasse na Frente Ocidental.
A guerra no mar era tão amarga como a guerra em terra. A batalha em Jutland provou inconclusiva, mas a de U-Boat ameaçou a Grã-Bretanha como nunca antes. Enquanto isso, os Estados Unidos entravam na guerra.
Os efeitos da Grande Guerra fragmentaram nações, inspiraram rebeliões em massa por tropas desesperadas, causaram grande revolta no Fronte e mudaram o mundo para sempre.
Mais de um milhão de soldados alemães foram enviadas para Kaiserschlacht (Batalha Kaiser) - também conhecida como a Ofensiva de Ludendorff, a última grande ofensiva da guerra - enquanto o conflito ainda ocorria em muitas outras frentes.
A dramática vitória aliada em Amiens levou à vitória em apenas 100 dias, e, assinou amargamente a paz, enquanto outras nações falharam com seus acordos de cessar-fogo.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Soldados de Cristo

Em defesa de uma Igreja Católica acuada pela Reforma Protestante, os jesuítas ganharam o mundo.
     Criada em 1534 por iniciativa de Inácio de Loyola (1491-1556), a Companhia de Jesus foi um modelo de ordem religiosa nascida da Contrarreforma – ou da Reforma Católica, como quer a historiografia recente. A fundação da Societas Iesu ocorreu quase 20 anos depois de Martinho Lutero (1483-1556) afixar suas 95 teses na Catedral de Wittemberg, dividindo a cristandade romana. Os jesuítas se esforçaram ao máximo para defender uma Igreja acuada. E, assim, correram o mundo. Na Europa, procuravam reforçar o catolicismo por meio do ensino. Nas conquistas ultramarinas ibéricas, procuravam expandi-lo pela catequese. Desde cedo, afirmaram a vocação da Companhia e, não por acaso, seriam chamados de “soldados de Cristo”.
     Natural do país basco, Loyola estudava na Universidade de Paris quando criou uma congregação voltada para a propagação da fé católica no mundo. E os jesuítas levaram ao limite aquilo que os franciscanos e dominicanos haviam começado no final da Idade Média: difundir a fé junto ao povo. No preâmbulo das Constituições inacianas, o ânimo missionário aparece com nitidez: “procurar ajudar, com a graça divina, a salvação e perfeição dos próximos”.
     Em 1540, o papa Paulo III aprovou o instituto inaciano, e os jesuítas se lançaram ao Oriente português, sob a batuta de Francisco Xavier (1506-1552). No mesmo século, alcançaram a China, onde o padre Matteo Ricci (1552-1610) iniciou a adaptação do cristianismo à língua chinesa falada em Macau. Em 1549, chegaram ao Japão, onde Luís Fróes traduziu o cristianismo para a cultura local, experiência que terminou em tragédia, pois os jesuítas acabaram martirizados, em 1638, após uma revolta de camponeses cristãos.
     No mundo atlântico, alcançaram o Congo ainda em 1548, favorecidos pela conversão do manicongo, o governante do Reino do Congo, ao cristianismo. Logo se instalaram em Angola, fundando o colégio de Luanda. Como no Oriente, traduziram o cristianismo para a cultura dos povos bantos. Essa missionação da África centro-ocidental põe em xeque a tese de que os escravos enviados ao Brasil desconheciam o cristianismo.
     Ao Brasil, eles chegaram em 1549, liderados por Manuel da Nóbrega (1517-1570). Defrontando-se com uma sociedade menos complexa que as orientais, os jesuítas julgaram, de início, que a catequese seria mais fácil, e alguns chegaram a escrever que os tupinambás não tinham religião. Nóbrega esboçou em 1557 seu plano de aldeamento, cujo passo inicial era deslocar os índios para aldeias controladas pelos padres. Missionar no mundo indígena era ineficaz e perigoso: um deles, Pedro Correia, fora comido pelos carijós, na região de Cananeia, em 1554.
     Com muito esforço, sobretudo na doutrinação das crianças, construíram “índios cristãos”. Estes acabariam reforçando os portugueses na conquista da terra, como na Guanabara, onde os temiminós destroçaram, em 1567, a resistência dos tamoios.
     Também no Brasil os inacianos adaptaram o catolicismo à cultura local, no caso a tupi, a começar pela Gramática de José de Anchieta (1534-1597). Escrita em 1556, tornou-se leitura obrigatória para os regedores das aldeias. Em todo caso, tiveram que enfrentar a resistência das tradições nativas. Obstáculo maior enfrentado pela Companhia foi a avidez dos colonos em escravizar os nativos. Os jesuítas resistiram em toda parte, sobretudo no século XVII, arrancando da Coroa leis proibitivas do cativeiro indígena. Os colonos, por sua vez, sempre pressionaram pelo direito de apresar os índios em “guerra justa”, isto é, em suposta represália a índios hostis.
     Em 1640, colonos do Rio de Janeiro cercaram o colégio do morro do Castelo acusando os jesuítas de mentores de nova lei proibitiva do cativeiro. Foi a “Botada fora dos padres”, que só não foram mortos graças à intervenção do governador Salvador Correia de Sá e Benevides. No mesmo ano foram expulsos de São Paulo, só regressando em 1653. No Maranhão, foi Antônio Vieira (1608-1697) quem enfrentou os colonos. Os padres foram corridos dali em 1661, mas Vieira conseguiu autorização para seu retorno um ano depois.
     Também na América Espanhola os jesuítas se destacaram. Mas ali só chegaram nos anos 1560. Tiveram que disputar espaço com dominicanos e franciscanos, pioneiros na catequese do México e do Peru. Acabaram dominando a catequese somente no sul, junto aos guaranis, no atual Paraguai. Estenderam a missão ao continente de São Pedro, no atual Rio Grande do Sul, fundando os Sete Povos das Missões.
     Ao longo do século XVII, a Companhia se consolidou como instituição de poder no mundo católico. Sediada em Roma, era dividida em Assistências (europeias), subdividas em Províncias. Por mais que estivessem associados a reis católicos, o soberano da Companhia era o papa.
     Os colégios inacianos se espalharam por todos os continentes, atravessando os sete mares. Formavam professores, intelectuais e missionários. Dominaram o ensino em várias universidades, como a de Coimbra, consolidando a neoescolástica, com ênfase no estudo filosófico e teológico. Produziram intelectuais como Martin Azpicuelta Navarro, Juan de Mariana, Francisco Suarez, Baltazar Gracián e Antônio Vieira. Este último foi um autêntico ideólogo da Restauração portuguesa, na década de 1640, contra a dominação do reino pelos espanhóis. Legitimou o reinado de D. João IV (1640-1656) como manifestação da vontade divina, superando a polêmica sobre qual dinastia deveria reinar em Portugal – Bragança ou Habsburgo. Foi Vieira quem fez de D. João IV o herdeiro simbólico de D. Sebastião (1568-1578).
     Neste embate pelo rei, Vieira enfrentou a Inquisição portuguesa, de olho no apoio que os judeus portugueses podiam oferecer à causa da Restauração. Mas a Companhia de Jesus e a Inquisição portuguesa nunca foram muito amigas. Basta lembrar a estratégia missionária dos jesuítas, calcada na adaptação do catolicismo à cultura dos povos missionados, enquanto a Inquisição era obcecada pelo ideal de pureza da fé, sem mistura de nenhum tipo.
      Os serviços prestados pelos jesuítas à Igreja de Roma e às Coroas ibéricas transformaram a Companhia em uma potência econômica. Como de início ela foi beneficiada por doações e alguma esmola real, os jesuítas enriqueceram, metendo-se em todo tipo de negócio: emprestavam dinheiro, alugavam casas, controlavam o comércio das aldeias, arrendavam terras. Formaram vasto patrimônio fundiário nas Américas. Nas propriedades da Companhia, a escravidão africana era largamente utilizada. Não por acaso, os jesuítas se empenharam em justificar a legitimidade do “cativeiro dos etíopes”, como Alonso de Sandoval em Nova Granada e Vieira no Brasil. No entanto, sempre combateram os senhores leigos pelo excesso de castigos e negligência na doutrinação dos africanos. Tudo em prol de seu lema: Ad majorem Dei gloriam (para a maior glória de Deus).
     Na segunda metade do século XVIII, as Coroas ibéricas bateram de frente com os jesuítas, a começar pela portuguesa, no tempo do marquês de Pombal. Muitos alegam que o problema residia na riqueza dos jesuítas, alvo da cobiça real. Outros destacam a fidelidade deles ao papa, um “soberano estrangeiro”, e não ao rei. Há quem destaque o papel dos jesuítas na Guerra Guaranítica (1753-56), quando os índios aldeados enfrentaram tropas luso-espanholas, desafiando o Tratado de Madri, que definia os limites das colônias espanholas e portuguesas. Tudo isto teve o seu peso. Mas talvez o mais importante tenha sido a hegemonia intelectual que os inacianos exerciam no mundo ibérico, o que contrariava o projeto de modernização do despotismo ilustrado, isto é, um conjunto de reformas adotadas pela Coroa, sob a inspiração de alguns ideais iluministas, na segunda metade do século XVIII.
     O fato é que, por decreto de 1759, os jesuítas foram expulsos de Portugal e das colônias, tendo todos os bens confiscados. Outras monarquias seguiram o exemplo luso, por convicção ou interesse: a França, em 1762; a Espanha e o reino de Nápoles, em 1767; o ducado de Parma, em 1768. Em 1773, sob forte pressão, o papa Clemente XIV, franciscano, extinguiu a Companhia. Os inacianos foram presos e vários deles ingressaram em outras ordens.
     Por incrível que pareça, os jesuítas foram atraídos por Catarina, a grande, czarina da Rússia ortodoxa, e pelo luterano Frederico Guilherme II, rei da Prússia, que viram o potencial dos inacianos como professores. Os jesuítas tiveram que esperar até 1814 para ver sua Companhia restaurada. Depois do furacão napoleônico, a Roma dos papas percebeu que precisava deles outra vez.

Ronaldo Vainfas é professor da Universidade Federal Fluminense e autor de A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial (Cia. das Letras, 2010).

Saiba Mais – Bibliografia
AGNOLIN, Adone. Jesuítas e selvagens – a negociação da fé. São Paulo: Humanitas, 2007.
ASSUNÇÃO, Paulo. Negócios jesuíticos. São Paulo: Edusp, 2009.
FRANCO, Eduardo & TAVARES, Célia Cristina. Jesuítas e Inquisição – cumplicidades e confrontações. Rio de Janeiro: EdUerj, 2007.

Saiba Mais – Links
Castigos físicos nas escolas faziam parte da campanha de disseminação do idioma português no período colonial.

Saiba Mais – Filmes
República Guarani
Entre 1610 e 1767, ano da expulsão de jesuítas das Américas, desenvolveu-se - em uma vasta área dominada por índios guaranis e banhada pelos rios Paraná, Uruguai e Paraguai - um discutido projeto sócio-político, religioso e também arquitetônico, único na história de relacionamento conquistador-índio: uma sociedade criada por jesuítas com sucessivas gerações de guaranis que chegou a abranger 500 mil pessoas.
O filme traz um registro da cultura e da história dos guaranis e do que fizeram com eles. Sua montagem meticulosa resultou numa versão sutilmente agressiva e hostil aos jesuítas. Por exemplo, Back esclarece que a figura e a função do cacique entre os guaranis foram impostos pelos padres que afastaram a liderança dos pajés, guias espirituais e curandeiros das tribos.
Direção: Sylvio Back
Ano: 1982
Áudio: Várias línguas/Legendado.
Duração: 100 minutos
Tamanho: 508 MB
O Rei Pasmado e a Rainha Nua (El Rey Pasmado)
Espanha, ano de 1625.O rei Felipe IV, de vinte anos de idade, nunca tinha visto uma mulher nua. Após ter uma noite de prazer com a prostituta Marfisa, se encanta de  tal maneira com o corpo feminino que fica obcecado por um perigoso desejo:  ver sua esposa nua, a rainha Isabel de Bourbon. Só que seu desejo tem repercussões no palácio real e é condenado pela Igreja, especialmente  por um padre fanático, que quer impedir a todo custo que o "capricho" do rei seja realizado. Entretanto, Felipe conta com dois cúmplices que poderão ajudá-lo na empreitada: um amigo conde e um padre jesuíta.
Uma sátira cheia de ironia e romance, onde a liberdade e a sensualidade confrontam-se com as forças da negação do prazer e da manipulação do poder. Baseado no romance de Gonzalo Torrente Ballester.
Direção: Imanol Uribe
Ano: 1991
Áudio: Espanhol/Legendado.
Duração: 105 minutos
Tamanho: 270 MB
Hábito negro (Black Robe)
Em 1734, padre jesuíta sai da Europa em direção ao novo mundo para catequizar índios de inóspita região canadense. Seu austero hábito negro e a celebração dos ritos cristãos são mal compreendidos pelos selvagens, que passam a vê-lo como uma entidade do Mal, abandonando-o à sua própria sorte. Inspirado em livro de Brian Moore.
Direção: Bruce Beresford
Ano: 1991
Áudio: Inglês, Cree, Algonquino/Legendado.
Duração: 101 minutos
Tamanho: 381 MB




A Missão
Composto de astros do porte de Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson, A Missão retrata a guerra estabelecida por portugueses e espanhóis contra jesuítas que catequisavam os índios de Sete Povos das Missões, na América do Sul no século XVIII.
Durante o século XVIII o movimento missionário enfrentou problemas na América do Sul, em áreas de litígio entre o colonialismo espanhol e português. No sul do Brasil, a população indígena dos Sete Povos das Missões, foi submetida pelo Tratado de Madrid (1750), um dos principais "tratados de limites" assinados por Portugal e Espanha para definir as áreas colonizadas.
Pelo Tratado de Madrid, ficava estabelecida a transferência dos nativos para margem ocidental do rio Uruguai, o que representaria para os guaranis a destruição do trabalho de muitas gerações e a deportação de mais de 30 mil pessoas. A decisão foi tomada em comum acordo entre Portugal, Espanha e a própria Igreja Católica, que enviou emissários para impor a obediência aos nativos. Os jesuítas ficaram numa situação delicadíssima, pois se apoiassem os indígenas seriam considerados rebeldes, e se contrário, perderiam a confiança deles. Alguns permaneceram ao lado da coroa, mas outros, como o padre Lourenço Balda da missão de São Miguel, deram todo apoio aos nativos, organizando a resistência desses índios à ocupação de suas terras e à escravização. Dá-se o nome de "Guerras Guaraníticas" para esse verdadeiro massacre dos nativos e seus amigos jesuítas por soldados de Portugal e Espanha. Apesar da absurda inferioridade militar, a resistência indígena estendeu-se até 1767, graças as táticas desenvolvidas e as lideranças de Sépé Tirayu e Nicolau Languiru.
No final do século XVIII, os índios já tinham sido dispersados, escravizados, ou ainda estavam refugiados, na tentativa de restabelecer a vida tribal, que os caracterizava antes das missões.
Direção: Roland Joffé
Ano: 1986
Áudio: Português
Duração: 125 minutos

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"Índios no Brasil"- Construindo Imagens e Desconstruindo Estereótipos.

A série de vídeos Índios no Brasil é dividida em dez programas, de aproximadamente 20 minutos, nos quais a questão indígena é abordada visando enriquecer o currículo escolar, romper estereótipos e inverter papéis, já que não apenas os índios são objeto de investigação, mas a própria sociedade não indígena ocupa o lugar do "outro".
A intenção foi flagrar o descompasso entre a imagem de um índio genérico cristalizada no imaginário dos brasileiros e a realidade de vários grupos indígenas, que estão cada vez mais articulados politicamente e mobilizados para garantir o exercício de sua identidade cultural.
Dessa maneira, os vídeos mostram que, se o índio não é coisa do passado, a possibilidade de isolamento cultural certamente é. E nem por isso é preciso sucumbir aos modelos hegemônicos ditados pela sociedade industrial. O que se observa é um desenvolvimento desses povos, tanto numericamente – eram 150 mil em décadas passadas e hoje são cerca de 350 mil – quanto no resgate de suas terras, línguas e rituais. A série não deixa dúvidas: são sujeitos atuantes e, mais do que nunca, atuais.
Apresentada pelo líder indígena Ailton Krenak, Índios no Brasil faz um painel dos costumes, valores e perspectivas de índios de nove povos dispersos no território nacional, escolhidos entre mais de 200 etnias: os Ashaninka e Kaxinawá do Acre, os Baniwa do Rio Negro no Amazonas, os Krahô de Tocantins, os Maxacali de Minas Gerais, os Pankararu de Pernambuco, os Yanomami de Roraima, os Kaiowá do Mato Grosso do Sul e os Kaingang do sul do país. Os entrevistados são professores ou líderes de organizações indígenas e, por isso, bastante convincentes e articulados. Em suas falas transparece a recusa em encaixar-se nesses modelos construídos ao longo de 500 anos de invasões, exploração e, não raro, etnocídio.

Realização: TV ESCOLA/MEC/VIDEO NAS ALDEIAS
Direção: Vincent Carelli
Ano: 2000
Áudio: Português
Clique no nome do episódio para assistir on-line

01) Quem são eles? (18 min.)
O primeiro programa da série traz a tona, por meio de entrevistas com pessoas de diversas partes do país, ideias e valores arraigados no senso comum sobre a realidade indígena, os quais estão na base do processo de discriminação sofrido por essas comunidades. Os nove personagens escolhidos para representarem seus povos rebatem esses equívocos. A conclusão é que a população indígena brasileira não está fadada ao desaparecimento como muitos pensam.
02) Nossas Línguas (20 min.)
O episódio apresenta a língua como fator de resistência cultural. Relata a repressão histórica às línguas indígenas praticada ao longo destes 500 anos pelas missões religiosas, funcionários de governo ou pela população não índia.
Contudo, ainda são faladas mais de 180 línguas indígenas no Brasil. A Constituição de 1988 finalmente lhes reconheceu o direito à diferença e ao ensino de suas línguas, como vemos na Escola da Floresta do professor Joaquim Kaxinawá (AC).
03) Boa Viagem Ibantu! (18 min.)
Para vivenciarem a diversidade cultural, quatro jovens, com diferentes perfis sociais e de diferentes regiões do Brasil, são convidados a viajarem até a aldeia dos Krahô (TO). Os jovens chegam cheios de expectativas e ideias preconcebidas. A experiência oferece a oportunidade não só de estranhar a cultura do outro, mas também de criar identidades. Os jovens participam das cerimônias e dos trabalhos realizados na aldeia; têm o corpo pintado com urucum e jenipapo; são batizados e recebem nomes indígenas. A despedida é pura emoção.
04) Quando Deus Visita a Aldeia(18 min.)
Os mesmos jovens visitam a aldeia dos Kaiowás (S), esperando encontrar algo similar à aldeia dos Krahô. Mais uma vez suas expectativas caem por terra. Já nas primeiras impressões, os jovens sentem as diferenças: as casas dispersas, já não existem mais matas ao redor e as pessoas estão maltrapilhas. Para além das aparências, eles descobrem a intensa vida religiosa dos Kaiowá e a opressão de que são vítimas por parte dos colonos que tomaram as suas terras. No final, eles observam que cada povo indígena é único, tão diferente entre si como o povo japonês do alemão.
05) Uma Outra história (17 min.)
O Brasil foi descoberto ou invadido? O filme de Humberto Mauro de 1940 dá a sua versão do "Descobrimento do Brasil". Mas os índios são unânimes em afirmar que o Brasil foi invadido porque eles já estavam aqui. Os índios contam suas versões da história do Brasil. A cartilha de história das escolas indígenas do Acre, por exemplo, divide a história do Brasil em quatro períodos: o tempo das malocas, antes da chegada de Cabral; o tempo das correrias, quando os índios foram caçados para a ocupação dos seus territórios; o tempo do cativeiro, quando eles foram usados como mão-de-obra escrava no corte de seringa; o tempo dos direitos, quando finalmente conquistaram o direito à terra e à sua cultura.
06) Primeiros Contatos (19 min.)
O processo de conquista iniciado por Cabral prossegue neste século, com a ocupação do Planalto Central na década de 50 e da Amazônia na década de 70. Retratados em imagens históricas, a "pacificação" dos índios Xavantes (no filme “Entre os Índios do Brasil Central”, de Genil Vasconcelos), e dos índios Cinta Larga em Rondônia e Parakana no sul do Pará (no filme Guerra de Pacificação na Amazônia, de Yves Billon), assistimos à catástrofe do contato que dizima as suas populações. Finalmente assistimos ao caso de pequenos grupos atropelados pelo desenvolvimento no sul de Rondônia, até um único sobrevivente de um povo que se recusa ao contato no ano 2000.
07) Nossas Terras (20 min.)
Nos últimos 20 anos, a maior parte das notícias sobre os índios foi sobre a questão de terras, o maior problema existente na relação entre índios e "brancos". Muita gente diz que "índio tem muita terra". Os grandes territórios indígenas encontram-se na região amazônica, e correm o risco em algumas décadas de tornarem-se as únicas reservas florestais deste país. Em compensação, nas áreas mais colonizadas, os índios perderam quase tudo e travam uma luta incessante para a reconquista de um espaço mínimo necessário ao crescimento de suas populações.
08) Filhos da Terra (18 min.)
Como os índios relacionam-se com os seus territórios ancestrais? O uso sustentável dos recursos da natureza é um conceito milenar dessas populações. Agora, ingressando na economia de mercado, muitos povos desenvolvem experiências de desenvolvimento sustentável com a exploração não predatória dos recursos da floresta, inspirada na filosofia dos seus antepassados.
09) Do outro lado do Céu (18 min.)
A religiosidade e o sentido místico da cultura indígena, tendo como referência as tribos Yanomami (RR), Pankararu (PE) e Maxacali (MG). No caso da tribo Maxacali, o índio José Ferreira discorre sobre o conceito de religiosidade para a sua etnia. Acreditam em seres espirituais bons, que vivem acima do céu, e ruins, que vagam pela terra. Os xamãs da aldeia Yanomami, verdadeiros "médicos espirituais", tratam da relação do mundo dos homens e com as forças da natureza. Também são mostradas as festas realizadas pela tribo Pankararu, onde os índios invocam os espíritos encantados que os protegem.
10) Nossos Direitos (17 min.)
Depoimentos sobre os direitos já conquistados e legitimados pela Constituição atualmente vigente: o direito à terra, à saúde, ao ensino de suas línguas e à livre organização de suas comunidades. Lideranças indígenas reiteram a necessidade de respeitar-se os direitos conquistados pelos povos indígenas. Há depoimentos do líder da federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN), Pedro Garcia, e lideranças das tribos indígenas Kaiowá, Kaxinawá, Yanomami, Ashaninka e Kaingang.