"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

sábado, 13 de abril de 2013

A marca dos anos Thatcher

Modelo político e econômico que ela ajudou difundir na década de 1980 resultou no mundo de extrema desigualdade em que estamos mergulhados hoje
      A maior vitória de Margaret Thatcher, morta hoje (08/04) aos 87 anos depois de um derrame, foi não ter assistido à formidável falência do mundo que ela ajudou tão poderosamente a construir na década de 1980.
     Fazia anos que Thatcher sofria de problemas mentais. Conforme relatou num livro sua filha Carol, ela chamava com frequência seu marido Denis, morto há muitos anos.
     Ela não viu a desagregação do que se convencionou chamar de neoliberalismo – um sistema que acabou levando ao célebre mundo dos 99% versus 1%.
     Thatcher de um lado do Atlântico e Ronald Reagan de outro comandaram com influência mundial – sentida no Brasil de Collor e mais ainda no de FHC – modelos econômicos que acabaram privilegiando enormemente os superricos e as grandes corporações.
     A grande crise econômica do final da década passada mostrou o quanto era insustentável este modelo, a começar pelo fato de que os cofres públicos em tantos países se esvaziaram por conta de políticas que permitiram aos bilionários e às multinacionais encontrar formas legais – embora imorais – de reduzir a quase nada os impostos a pagar.
     Thatcher viveu pela política, e começou a morrer quando foi traída por companheiros do Partido Conservador e derrubada depois de 11 anos de poder, em 1990.
     A mulher que em 1979 se instalou no Número 10, como os ingleses chamam a casa do primeiro ministro, era uma força da natureza. Chegou declamando São Francisco de Assis, mas agiu como uma ninja no poder.
     Derrotou os sindicalistas superpoderosos que frequentemente paravam o Reino Unido, deu uma surra fulminante nos militares argentinos que queriam tomar as Malvinas, ajudou a cravar os pregos no caixão da União Soviética e liderou um movimento global de privatização e desregulamentação com resultados que o tempo provou serem catastróficos.
     Margaret Thatcher pareceu, em certos momentos, maior que o Reino Unido. Seu único rival em prestígio, entre os líderes globais, era Reagan.  Mas, se Reagan parecia um ator de Hollywood fazendo o papel de presidente americano, Thatcher era 100% realidade, ele embalagem, ela conteúdo.
     Thatcher agarrou-se desesperadamente ao poder quando já era uma primeira ministra morta em atividade.  Desafiada na liderança dos conservadores em 1990, não conseguiu os votos necessários para permanecer como líder, embora tenha vencido seu oponente. Foi uma vitória inútil, mas Thatcher não quis ver isso.
     No Reino Unido, o poder fica na mão do líder do partido mais votado. Os companheiros de partido podem, em situações extremas, desafiar a liderança.  Foi isso que tirou da Thatcher o poder.  Seus liderados entre os conservadores já não suportavam sua brutalidade como chefe, e um deles a desafiou.
     Thatcher, sem votos suficientes para permanecer a despeito de ter batido o desafiador, ainda relutou durante dias em deixar Downing Street. Queria ir para a segunda e decisiva votação. Era formalmente uma possibilidade, mas na verdade é uma atitude não aceita na política britânica, pelo desrespeito implícito à vontade coletiva do partido. Foi a rainha Elizabeth quem afinal convenceu Thatcher a renunciar.
     Os problemas mentais ceifaram depois seu projeto de fazer fortuna com palestras e, muito pior para ela, a impediram de lutar no campo das ideias pela essência do thatcherismo: um Estado mínimo, com a menor regulamentação possível.
     Em 2011, a convite do premiê conservador David Cameron, ela visitou pela última vez Downing Street, o lugar de onde ela exerceu influência mundial durante onze anos.
     Andava com dificuldade e acenava confusamente, como se de alguma forma tivesse em sua mente destruída retornado aos dias em que foi conhecida como Dama de Ferro.
     Morreu como a mãe do 1% e a madrasta dos 99%.

Quando a dama de ferro amolece
Tendo Maryl Streep como protagonista, filme sobre Margareth Thatcher humaniza a jovem simples que, ao se tornar 'lady', conduz a Inglaterra numa onda de privatizações.
     O filme “A dama de ferro” recebeu críticas à época do lançamento em 2011 por não ter abordado, na opinião dos críticos, com a devida importância o lado liberal da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Thatcher, como se sabe, morreu nesta semana (08/04), aos 87 anos, vítima de um derrame.
     É verdade. O filme, da diretora Phyllida Lloyd [que já tinha feito “Mamma mia” igualmente com Meryl Streep], tenta dar um apanhado geral da vida da mulher que comandou as ilhas britânicas de 1979 a 1990. E, dentro desse apanhado, suas posições direitistas ocupam um espaço tão importante quanto qualquer outro aspecto, como sua adolescência trabalhando com o pai em uma vendinha, sua passagem para a Universidade de Oxford, sua entrada no partido Conservador e a sua escalada até o poder.
     São retratados, também, toda a onda de protestos que o governo dela enfrentou, por conta de suas políticas de estado-mínimo, que privatizou companhias estatais estratégicas, criou uma massa de descontentes, e deu nome a uma era: tatcherismo. É mostrado até o ataque a bomba perpetrado pelo Exército Revolucionário Irlandês em um encontro do partido conservador em 1984. Sua vida não foi pouco atribulada quiçá sem polêmica.
     No entanto, pareceu pouco, pouco, na opinião dos críticos, para mostrar a vida da única mulher que assumiu o principal cargo político das ilhas britânicas. A começar, a cinebiografia é narrada como se fosse um longo diálogo [imaginado] entre Margareth e seu marido, já então falecido, Denis Thatcher, de quem ela recebeu o sobrenome. Na cena inaugural, ela chega em casa e, como uma dona-de-casa comum, reclama do preço dos produtos do supermercado. A intenção é clara: Margareth não deixou de ser a filha do dono da quitanda.
     É esse o principal argumento de todo o longa. Mostrar que a dama considerada de ferro era, ao fim e ao cabo, uma mulher simples, que entendia de política e economia como qualquer pessoa que tem uma vendinha. Esse estigma, de ser filha de um quitandeiro, e não descendente de uma família nobre, como é razoavelmente comum entre os membros do partido Conservador inglês, é, inclusive, um motivo de chacota durante toda a sua carreira política.
     Essa forma de lidar com a política é, segundo a intepretação do filme, os principais pontos positivo e negativo de Thatcher. Se ela não deixou a simplicidade de lado jamais, também se colocou como um exemplo a ser seguido. Talvez o único. Sua política liberal, sua diminuição do estado social, era uma continuação da sua política da quitanda. Como se dissesse: se eu consegui sair de trás do balcão e chegar aqui, à frente de uma das nações mais importantes do mundo, qualquer um pode chegar também.
     A mulher do estado mínimo, da aposta na competição, no mercado, desconsidera um dos fatores mais importantes da questão: o indivíduo e todas as suas diferenças entre si. Acredita apenas numa ideia quase darwinista, em que os mais fortes sobreviverão, enquanto os mais fracos devem ser deixados para trás na cadeia evolutiva.
     Ao humanizá-la, ao tentar traçar uma explicação mais psicológica, menos maniqueísta, uma razão para as suas atitudes que reflitam sua biografia, de mulher bem sucedida, o filme mostra que ela não era um monstro que apenas pensava no bem de poucos, em detrimento de muitos. Isso não a impedia, claro, de tomar atitudes controversas, antipopulares, para seguir os seus ideais de vida e política. Ao fim, talvez não tenhamos uma grande coleção da vida política da dama de ferro. Mas percebemos que, ao menos, era uma mulher com princípios. Menos pior que uma direita disfarçada, é uma direita que não tem vergonha de mostrar a cara.
Direção: Phyllida Lloyd
http://www.torrenthound.com/torrent/13c564e12b1ba8ddeb9a72719ad379950f78a22c
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 105 minutos
Tamanho: 314 MB

Para inglês ver
Documentos liberados pelo Itamaraty apimentam discussão sobre apoio do Brasil à Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982. Postura oficial de neutralidade já era contestada naquele tempo.
     Na última semana, uma reportagem do jornal “O Globo” gerou um grande debate ao expor a participação do Brasil num tráfico internacional de armas, durante a Guerra das Malvinas, que ocorreu há exatos 30 anos. Os repórteres se basearam em documentos confidenciais, recentemente liberados pelos arquivos do Conselho de Segurança Nacional e do Itamaraty.   
     O material sugere que o governo brasileiro sabia do uso de territórios nacionais como posto de pouso de aviões carregados de armamentos, oriundos da Líbia e de Israel, com destino à Argentina. Os documentos revelados no periódico reiteram o que a historiografia vem discutindo há tempos: o Brasil não foi neutro durante o conflito.
     “Era muito interessante para o Brasil, em questões diplomáticas, mostrar-se oficialmente neutro – principalmente para a Inglaterra e para os Estados Unidos”, conta Adler Homero Fonseca, pesquisador do Iphan e especialista em armamento militar. “Mas, ao mesmo tempo, era positivo para o governo dizer à sociedade que estava apoiando secretamente a Argentina. Isso poderia ser visto como uma independência na política internacional”, destaca o historiador. Ele comenta que, já na época da guerra, a imprensa divulgou fotografias de aviões vindos da Líbia, estacionados em aeroportos nacionais, mas não se tinha certeza do que exatamente eles transportavam.
     Apesar do histórico de rivalidade política com os vizinhos, o Brasil tentou se aproximar da Argentina durante os anos 1980, pensando em sua projeção no cenário internacional – na época, as relações internacionais brasileiras ainda eram muito presas aos interesses norte-americanos, coisa que só começou a mudar nos últimos dez anos.

Empréstimos aos hermanos
     Ainda assim, o apoio à Argentina na Guerra das Malvinas não podia ser explícito: o governo do general argentino Leopoldo Galtiere chegou a pedir mísseis brasileiros para utilizar em ataques, mas teve a solicitação negada. Apesar do "não", o país comandado por João Batista Figueiredo à época disse "sim" a outros empréstimos e participou nesta aliança de outras formas, como cedendo aviões de patrulhamento marítimo, foguetes, caças e, em dado momento, até reteve uma aeronave inglesa em solo brasileiro.
     A reportagem “Disputa reacesa”, publicada no site da RHBN em 2010, traz um trecho de um documento liberado em 2006 pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) – no qual a embaixada britânica condena a postura das autoridades brasileiras frente ao conflito: “À luz das antigas e amistosas relações entre a Grã-Bretanha e o Brasil, o governo de Sua Majestade Britânica acredita ter o direito de esperar tratamento equilibrado na atual situação de crise. Nesse contexto, tem conhecimento de que aviões militares argentinos e outras aeronaves utilizaram e continuam utilizando aeroportos brasileiros ao transportarem equipamento militar para uso pela Argentina”. A postura era tão dúbia que não ficou camuflada nem aos olhos dos ingleses.

A guerra
     Em 1982, a ditadura militar argentina não ia bem das pernas: a crise econômica era grave e a população estava cada vez mais insatisfeita. Apelando para o sentimento nacionalista, o governo Galtiere invadiu as Ilhas Malvinas – chamadas pelos britânicos de Falklands – e desafiou a Inglaterra pela soberania do território. O conflito durou poucos meses (até junho do mesmo ano) e gerou consequências amargas à parte sul-americana envolvida: além dos mais de 400 mortos, a guerra produziu centenas de veteranos traumatizados e pôs um ponto final na administração autoritária do país sul-americano.
     Hoje, as ilhas continuam sob poder da Inglaterra, mas a Argentina ainda tenta trazer à tona o debate internacional sobre a soberania para tentar reavivar o nacionalismo da população num momento de crise política. “As Malvinas são um tema nacional, algo que toca o sentimento de todos os argentinos, independente da filiação politica. A presidente Cristina Kirchner aproveitou a efeméride dos 30 anos para reacender o nacionalismo, mas o exército argentino não tem condições psicológicas, financeiras e tecnológicas para enfrentar uma guerra contra a Grã-Bretanha”, conta Tomaz Espósito Neto, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados.
     Para ele, a situação política deve permanecer a mesma porque a Inglaterra não deve ceder. Principalmente porque o território envolveu um conflito armado há pouco tempo e, recentemente, foi apontado como uma possível grande reserva de petróleo. O conflito de interesses está longe de acabar.

Sigilo de documentos
     Os documentos que suscitaram o debate foram liberados pelo Itamaraty já obedecendo a nova "lei de arquivos", em vigor desde o ano passado (2011), que colocou fim ao sigilo eterno de documentos oficiais. Agora, textos rotulados como "ultrassecretos", por exemplo, têm prazo máximo de 50 anos para permanecer longe do acesso da sociedade. A medida vai facilitar a pesquisa sobre as decisões políticas do passado do país, por anos mantidas sob segredo absoluto.

Saiba Mais: Links

sábado, 6 de abril de 2013

Sem intermediários: evangélicos e protestantes no Brasil.

Sem intermediários
Teorias de Lutero romperam com a autoridade católica pregando o contato direto entre o homem e Deus pelo poder da fé.
     Evangélicos, batistas, presbiterianos, adventistas, pentecostais, protestantes, anabatistas e congregacionistas. Muitas vezes a discussão sobre a doutrina protestante se concentra no problema de classificar e diferenciar suas diferentes denominações. Mas, para além das definições dogmáticas e das confissões de fé, todas estas Igrejas – e outras que se desenvolveram ao longo da fragmentação religiosa da cristandade ocidental – têm o mesmo ponto de partida: o núcleo doutrinal luterano da justificação pela fé.
     Entender o protestantismo significa compreender o que era a fórmula da “salvação pela fé”, tal como foi elaborada pelo frade agostiniano Martinho Lutero, na primeira metade do século XVI, e retomada sucessivamente pelos demais movimentos reformados.
     Martinho Lutero (1483-1546) cresceu e se formou na fronteira eslava da cristandade, na Saxônia, Alemanha, ingressando aos 22 anos no Convento de Erfurt. Sete anos depois, tornou-se doutor em Teologia em Wittenberg, onde passou a lecionar Teologia e Exegese Bíblica. Este mergulho direto nas Sagradas Escrituras, entre 1513 e 1517, permitiu que ele formulasse uma nova interpretação do conceito de Deus e do Homem, condensada na sua doutrina da Teologia da Cruz.
     O impulso definitivo rumo a esta nova doutrina foi a chamada “experiência da torre”, na qual Lutero elaborou o seu conceito de justiça passiva, refletindo sobre um trecho da Epístola aos Romanos, de Paulo: “o justo viverá pela fé”. Muitos haviam meditado sobre o sentido daquelas palavras, mas em Lutero elas dispararam uma reviravolta teológica: o homem era justificado apenas pela fé e de nada valiam as ações individuais, já que não poderíamos modificar a natureza pecaminosa. Lutero, portanto, desenvolveu uma visão muito pessimista da natureza humana, que, em seu entender, permanecia corrompida mesmo após a redenção, a remissão dos pecados que se realiza, para a humanidade, após o sacrifício de Cristo na Cruz.
     Neste caso, a justificação do homem só poderia ocorrer por iniciativa divina: Cristo toma para si o fardo dos pecados dos homens, concentrando os rigores da justa e terrível cólera do Pai. Por mais que o homem fosse pecador, se tivesse uma fé maior que o pecado, Cristo o justificaria.
     Ter fé, no sentido luterano do termo, significava compreender o valor do sacrifício de Cristo e crer em sua graça redentora para abrir o horizonte da salvação. Como era um dom totalmente gratuito, sem nenhum correspondente nas ações humanas, implicava a recusa da noção de “obras meritórias” – sobre as quais o papado havia construído sua própria autoridade, inclusive pela teoria das indulgências (remissão das penas cabíveis para os pecados cometidos).
     Em suas 95 Teses (1517), Lutero condenava as indulgências, pois elas forneciam aos pecadores uma falsa segurança. Se o homem pecador não pode realizar obras boas, as indulgências são inúteis. O que salva o homem é somente a fé.
     Sua luta contra os “abusos” da Igreja Católica não nascera com o objetivo de provocar um rompimento. Tornar laica a vivência religiosa – independente de instituições, de rituais e da presença em locais de culto – e abolir a separação entre o clero e os fiéis eram vistos como um retorno à forma primitiva e apostólica da Igreja, baseada na pregação e na relação direta do crente com Deus, pelas Escrituras.
     No sentido católico do termo, ter fé era outra coisa: aderir à mensagem divina da Revelação do modo como os bispos e os párocos a ensinavam aos fiéis. A fé que salva era um sentimento subjetivo de misericórdia divina, a resposta para o problema angustiante da salvação, que seria alcançada, segundo a Igreja, quando se seguiam os seus ditames: confessar-se, arrepender-se e obter a absolvição libertadora, para realizar boas obras. A confissão, para ter valor, deveria ser completa, e os erros discriminados por quantidade, qualidade e circunstância. Era como contar as gotas de água em um oceano!
     Nos séculos XVI e XVII, aos olhos de mercadores, artesãos, soldados e camponeses, a Bíblia traduzida para uma linguagem familiar e acessível ao fiel, sem cortes e sem precisar da mediação de intérpretes, significava poder encontrar o que buscavam avidamente: por um lado, um Deus vivo, fraterno e humano para com suas fraquezas, e, por outro, uma nova concepção do sacerdócio.
     A definição reformada do sacerdócio universal, expressa pelo lema “Cada homem é pastor de si mesmo”, respondia a este desejo de contato direto com a Palavra de Deus e a uma recusa de todo tipo de intermediação. Para o mercador itinerante, por exemplo, o papel da Igreja como intermediária apagava seu mérito de ter obtido êxito em seu ofício graças ao empenho e a uma educação cultivada privadamente. O gosto pela autonomia e pelo governo de si mesmo não se manifesta apenas nas coisas políticas, refletindo-se também em uma religiosidade mais ativa. Fossem livres, rendeiros, assalariados ou servos, eles traduziam a atuação eclesiástica como mais uma forma de exploração senhorial ou como sua legitimação.
     Para a maioria dos fiéis, a Reforma não era um protesto contra os “abusos” das autoridades eclesiásticas, mas uma revolução de sentimentos. A vida deixava de buscar na morte o seu ponto de referência, e os vivos se empenhavam em usar seus méritos aqui na Terra mesmo.

Silvia Patuzzié professora da PUC-Rio e da Fundação Getulio Vargas e autora de “Humanistas, príncipes e reformadores no Renascimento”, no livro Modernas Tradições. Percursos da Cultura Ocidental, séculos XV-XVII (Editora Access/Faperj, 2002).

Saiba Mais - Bibliografia
BAINTON, RolandH. Erasmo da Cristandade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.
FEBVRE, Lucien. Martinho Lutero, um destino. São Paulo: Três Estrelas, 2012.
MAFRA, Clara.  Os Evangélicos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Saiba Mais - Filmes
Lutero (Luther)
Após quase ser atingido por um raio, Martim Lutero (Joseph Fiennes) acredita ter recebido um chamado. Ele se junta ao monastério, mas logo fica atormentado com as práticas adotadas pela Igreja Católica na época. Após pregar em uma igreja suas 95 teses, Lutero passa a ser perseguido. Pressionado para que se redima publicamente, Lutero se recusa a negar suas teses e desafia a Igreja Católica a provar que elas estejam erradas e contradigam o que prega a Bíblia. Excomungado, Lutero foge e inicia sua batalha para mostrar que seus ideais estão corretos e que eles permitem o acesso de todas as pessoas a Deus.
Direção: Eric Till
Ano: 2003
Áudio: Português
Duração: 121 minutos


A rainha Margot
Filme inspirado na obra de Alexandre Dumas apresenta as intrigas por trás da noite de São Bartolomeu, um dos principais massacres da França, acontecido há 440 anos.
     Ao olhar pela janela, as ruas de Paris parecem calmas, vazias. O silêncio, no entanto, engana. Pouco antes da meia noite, os sinos de uma igreja próxima ao palácio do Louvre dão o sinal para tropas que avançam na sombra. Os momentos seguintes são de pânico, gritos medonhos, lutas de espada, corpos seminus espalhados pelo chão, pescoços degolados e eventuais fugitivos, que correm ensanguentados e atônitos. Na passagem de 23 para 24 de agosto de 1572, há exatos 440 anos, acontecia a noite de São Bartolomeu, um dos principais massacres da história da França. Sob ordens do rei Carlos IX, católicos assassinaram cerca de três mil protestantes. O episódio ocorrido durante as guerras de religião (1562-1592) foi retratado pelo romance A rainha Margot (1845), de Alexandre Dumas,  adaptado fielmente para o cinema pelo diretor Patrice Chéreau, em 1993.
     Margot, interpretada pela encantadora atriz Isabelle Adjani, é o apelido de Margarida de Valois (1553-1615), irmã de Carlos IX e filha do rei Henrique II com Catarina de Médecis. A posição nobre fez com que ela testemunhasse e fizesse parte – ainda que forçosamente – das disputas por poder alimentadas pelos conflitos religiosos. Menos de uma semana antes da noite de São Bartolomeu, Margot havia sido obrigada a se casar com o líder protestante Henrique de Navarra (Daniel Auteil), numa tentativa de manter a paz no reino. Logo no início do filme, Margot avisa ao marido: “É um casamento pela paz. Ninguém me obriga a dormir com você”.
     A união, idealizada por Catarina de Médecis, de nada adiantou para diminuir a tensão no reino. O filme não mostra, mas a rainha-mãe já havia feito Carlos IX assinar, dois anos antes, o tratado de Paz de Saint-Germain, concedendo liberdade de culto aos protestantes em regiões específicas e permitindo que eles fossem admitidos em empregos da administração pública. No entanto, os católicos não gostaram das concessões e os protestantes não as acharam suficientes. E o conflito continuou.
     A origem das disputas, que aconteciam também em outros países da Europa, está no ano de 1517, quando Martinho Lutero proclamou seu rompimento com a Igreja Católica. João Calvino, em Genebra, logo o seguiu, inspirando e coordenando os protestantes franceses. Os massacres pelo reino foram generalizados.
     Catarina de Médecis foi uma figura importante na busca pela paz. No filme, no entanto, o destaque é dado a seu lado manipulador, brilhantemente encarnado pela atriz italiana Virna Lisi. Ela aparece como culpada pela morte de pelo menos três importantes personagens históricos, incluindo o próprio filho, Carlos IX.
     No longa-metragem, na obra de Dumas e, possivelmente, também na vida real – como ilustram livros como Histoire de France, de Pierre Miquel -, a rainha-mãe teria encomendado o assassinato do almirante Coligny, importante chefe protestante. Dumas relata a grande admiração que Carlos IX tinha pelo almirante, chamando-o inclusive de “meu segundo pai”. Na adaptação para o cinema, fica claro que Catarina não teria gostado da aproximação, que permitia a Coligny ter forte influência sobre o rei. No dia 22 de agosto, a tentativa de assassinato acabou falhando e, ao ser descoberta pelos protestantes, gerou grande revolta.
     A partir deste ponto, outro personagem que ganha espaço no filme é o estranho rei Carlos IX (Jean-Hugues Anglade). Instável, infantil e certamente despreparado para o posto, ele vive cansado da influência da rainha-mãe e dos interesseiros à sua volta. Sem saber como reagir à provável revolta protestante depois do atentado a Coligny, é influenciado por Catarina e ordena que todos os chefes da religião sejam assassinados. Henrique de Navarra é um dos únicos a escapar da morte ao abandonar o protestantismo e se tornar católico. Ele repetiria o gesto alguns anos depois, já como Henrique IV da França, e diria a famosa frase: “Paris bem vale uma missa”.

Dumas e a pesquisa histórica
     Alexandre Dumas tinha o hábito de criar suas narrativas baseado em documentos e, neste caso, não o fez de outra maneira. Apesar de florear e acrescentar novas situações, A Rainha Margot é um de seus romances que mais se aproxima dos fatos narrados pelos historiadores – e, em tese, pela própria Margot em um livro de memórias atribuído a ela.
     A cena (tanto no livro de Dumas, quanto no filme) em que o quarto de Margot é invadido por um protestante ferido durante a noite de São Bartolomeu, por exemplo, pode ser mais do que uma invenção do escritor francês. O fato foi inspirado nas memórias da própria Margot. Dumas, no entanto, substituiu o nome citado por ela – Monsieur de Teian – pelo de Joseph La Môle, conhecido como um de seus amantes.
     O problema ao se tentar entender a história oficial é que há dúvida, entre alguns historiadores, se essas memórias de Margarida de Valois foram realmente escritas por ela. A francesa Éliane Viennot, professora de literatura da Universidade de Saint-Étienne, por exemplo, publicou em 1996 um artigo defendendo a veracidade das memórias. Seja como for, o documento utilizado por Dumas tem posicionamentos importantes: Margot tira boa parte da culpa de sua mãe Catarina em relação ao massacre, e afirma que os idealizadores teriam sido seu irmão duque de Anjou (futuro Henrique III) e o duque de Guise. Este último também estaria na origem do atentado contra Coligny.

Sangue e luxúria
     Dumas se apropria das informações fornecidas por Margot e por outros memorialistas, acrescentando detalhes sórdidos, enfatizados na película de Patrice Chéreau. O longa-metragem pode surpreender os fãs mais tradicionais do escritor, não acostumados a tantas cenas de violência e nudez - acentuadas por fortes insinuações de incesto e banhos de sangue sobre roupas mais brancas do que em comercial de sabão em pó (como no cartaz francês, acima). Margot seria uma libertina: dormiu com seus três irmãos, além do marido Henrique de Navarra, o duque de Guise e o conde de La Môle. Em uma das cenas mais marcantes do filme, ela é assediada pelos irmãos, que a deixam praticamente nua enquanto mostram marcas deixadas por La Môle em seu pescoço e coxas. O duque de Alençon, mais novo dos irmãos, escancara: “Se não fosse estéril, teríamos um bastardo”.
     Talvez com medo de afastar as plateias mais tradicionais, o cartaz do filme foi alterado em muitos países, mostrando apenas o casal apaixonado Margot e La Môle. No entanto, mesmo os desavisados que buscam um romance calmo, segundo parece indicar o cartaz ou a capa do DVD, dificilmente se decepcionarão. Além das excelentes atuações, que renderam o prêmio de melhor atriz em Cannes para Virna Lisi, o filme consegue cativar o espectador e incentivar o interesse pelas guerras de religião.
     Teria Margot relações sexuais com seus próprios irmãos? Catarina de Médicis seria a responsável por uma série de envenenamentos? Para Dumas, isso pouco importava. Ele já havia sido acusado por seus adversários de violar a história de forma insolente em outros de seus romances. Sua resposta era simples e irônica: “Reconheço que a violento, mas faço lindos filhos com ela”. 
     Assim sendo, Patrice Chéreau apropriou-se de uma das maiores obras de Dumas, e fez um filme que pode ser considerado, facilmente, um lindo bastardo do escritor francês.
Direção: Patrice Chéreau
Ano: 1994
Áudio: Francês/Legendado
Duração: 137 minutos

Henrique IV: O Grande Rei da França
França, 1563. Protestantes e católicos lutam por terras e poder, usando a religião como justificativa.
No comando dos protestantes está Henrique de Navarra, que conduz seus homens contra a poderosa rival de sua mãe, Catarina de Médici, rainha da França. Catarina oferece a Henrique a mão de sua filha, Margot, em sinal de reconciliação, mas o casamento termina num banho de sangue. Ele sobrevive ao Massacre do dia de São Bartolomeu, mas é feito prisioneiro durante quatro anos.
Embora recorrendo a qualquer tática para obter o trono, Henrique se torna um rei que, pela sua liberdade de religião e de opinião, pode genuinamente dizer que é um dos verdadeiros humanistas.
Direção: Jo Baier
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 148 minutos


O fim de um monopólio
Só com a vinda da família real os protestantes conseguiram instalar-se e disseminar sua diversidade religiosa no Brasil.
     Poucas décadas após a morte de Martinho Lutero (1483-1546), seus ideais desembarcaram no Brasil. A chamada França Antártica, que ocupou o Rio de Janeiro entre 1555 e 1560, foi a primeira experiência protestante em nossas terras. No século seguinte haveria um episódio mais duradouro: os holandeses que governaram parte do atual Nordeste brasileiro de 1630 a 1654 também compartilhavam da religião protestante.
     Mas os dois casos foram exceções. Depois de expulsos os franceses e os holandeses, a estrutura religiosa da Igreja Reformada foi desfeita, e o Brasil voltou ao monopólio da catequização católica. Assim permaneceria até o século XIX.
     A transferência da família real portuguesa, em 1808, foi um marco para a entrada de estrangeiros, e suas crenças, na nova sede do governo português. O Tratado de Comércio e Navegação assinado em 1810, que garantiu a abertura dos portos brasileiros para produtos ingleses, assegurava também, em um de seus artigos, a liberdade de consciência e culto, permitindo igrejas protestantes com aparência discreta e sem buscar a conversão dos católicos. No ano seguinte, já se instalava, no Rio de Janeiro, a primeira igreja protestante, de denominação anglicana. Atendia os súditos ingleses, que antes tinham que se reunir para os cultos em residências ou navios britânicos ancorados. Em 1824, a nova Constituição reafirmou o catolicismo como religião do Império, mas reconhecia outras crenças cristãs, desde que não houvesse catequese nem ataques à religião oficial.
     A imigração alemã trouxe as primeiras comunidades luteranas, instaladas em 1824 em Nova Friburgo (RJ) e em São Leopoldo (RS). A forte imigração no Sul contribuiu para o aparecimento de diversas outras colônias. As igrejas luteranas eram simples, sem sinos, torres ou qualquer identificação, construídas e organizadas pelo esforço dos colonos.
     Na mesma época, formaram-se também colônias suecas, suíças, holandesas, escocesas, inglesas e norte-americanas, espalhando diversas vertentes dos cultos reformados Brasil afora. A influência dos protestantes norte-americanos foi importantíssima. Com a Guerra Civil nos Estados Unidos (1861-1865), muitos vieram em busca de refúgio e de terras. Incentivavam e financiavam a expansão de missões, enxergando no Brasil uma seara fértil para a conversão. Fundaram templos presbiterianos (o termo deriva da organização governada por uma assembleia de presbíteros ou anciãos), batistas (que enfatizam o batismo de adultos como exposição bíblica e pública da fé) e metodistas (que pregam o estudo metódico da Bíblia e a relação pessoal entre o indivíduo e Deus). Essas igrejas contaram com a simpatia dos que viam no protestantismo sinais do progresso norte-americano e dos preceitos republicanos, ao mesmo tempo que viam o atraso do Brasil e da monarquia como influência do catolicismo.
     Os protestantes divulgaram sua mensagem nas cidades e nos campos, atendendo os mais diversos grupos sociais e distribuindo Bíblias de Norte a Sul. Aos poucos, eles se estruturaram e aumentaram o raio de ação, difundindo ideias e criando missões, centros de auxílio, hospitais, obras assistenciais e escolas. A educação sofreu transformações fundamentais ao incorporar experiências de outros países, como jardins de infância, classes mistas de meninos e meninas, prédios projetados especificamente para o ensino, salas próprias para aulas práticas, novos conteúdos e disciplinas.
     A evangelização protestante teve, portanto, diferentes etapas no Brasil: os franceses visavam os índios; no período holandês, alcançou índios, negros e brancos; com as migrações do século XIX, os brancos e negros. O século XX, por fim, veria o avanço pentecostal, logo após seu surgimento nos Estados Unidos.
     Embora “evangélico” e “protestante” sejam vistos como sinônimos, os termos têm significados distintos. Em sua origem, “evangélico” diz respeito àquele que se submete ao ensinamento do Evangelho, sendo apenas a Bíblia sua fonte de revelação. O termo “protestante”, por sua vez, advém de um documento de protesto apresentado pelos luteranos na segunda Dieta de Spira (1529), que declarava a fé católica como a única legal. No Brasil, em geral, “protestante” se refere aos fiéis das igrejas oriundas da Reforma, como os presbiterianos, luteranos e anglicanos, enquanto “evangélicos” abrange os seguidores das igrejas pentecostais e neopentecostais.
     O Pentecostes é uma data importante do calendário cristão: comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos de Jesus Cristo e é celebrada 50 dias depois do domingo de Páscoa. A doutrina pentecostal se caracteriza pela crença no Espírito Santo e na plenitude da vida moral. Sua primeira igreja no país foi instaurada em 1910, em Belém do Pará, pelos suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. Chamada de Missão da Fé Apostólica, mais tarde ganharia o nome com que alcançou todo o Brasil: Assembleia de Deus. Também em 1910, o italiano Luigi Francescon deu início à Congregação Cristã, que teve forte presença ao Sul do país, a partir de São Paulo.
     Novas denominações pentecostais ganharam espaço a partir dos anos 1970, como as igrejas Deus é Amor, O Brasil para Cristo, Internacional da Graça e a Universal do Reino de Deus. Todas enfatizam o batismo com o Espírito Santo, recorrem a cânticos de louvor, sessões de cura e de libertação, incentivam a prosperidade, dão testemunhos de graças e milagres alcançados e promovem o assistencialismo. Assim multiplicaram seus fiéis e aumentam cada vez mais sua influência.

Angelo Adriano Faria de Assis é professor da Universidade Federal de Viçosa e autor de Macabeias da colônia – criptojudaísmo feminino na Bahia (Alameda, 2012).

Saiba Mais - Bibliografia
CÉSAR, Elben M. Lenz. História da Evangelização do Brasil. Viçosa: Ultimato, 2000.
MENDONÇA, Antônio Gouvêa, VELASQUES FILHO, Prócoro. Introdução ao protestantismo no Brasil. São Paulo: Loyola, 2002.
VAINFAS, Ronaldo. Traição: um jesuíta a serviço do Brasil holandês processado pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

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