"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Guerrilheiro que incendiou o mundo

Jornalista lança biografia sobre o militante político Carlos Marighella, em Porto Alegre, Pelotas, Rio de Janeiro, Fortaleza e Ouro Preto. Foram nove anos de pesquisas para concluir a obra
Por Mauro de Bias
     Preso político da ditadura militar, militante do PCB, deputado constituinte, torturado, guerrilheiro. Carlos Marighella (1911-1969) tem um longo histórico na luta política no Brasil. Já teve a vida retratada duas vezes no cinema e, agora, contada no livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012), de Mario Magalhães.
    (...) Magalhães se mostrou muito animado com a receptividade do público e contou sobre o trabalho para a produção da biografia. “Eu sou um repórter, estava com 39 anos e queria mergulhar em um projeto sem as amarras próprias de tempo e espaço de uma redação”. Ele começou o trabalho em 2003 e só terminou em 2012. Dos nove anos de trabalho, cinco foram em dedicação exclusiva à obra. “Entrevistei 256 pessoas, trabalhei com documentos da Rússia, da República Tcheca, dos Estados Unidos, do Paraguai e do Brasil. No fim do livro há 2580 notas sobre fontes. Assim, o leitor sabe qual foi a fonte de cada informação relevante sobre Marighella”, explicou o autor.

Guerrilha urbana no cinema
Por Cristina Romanelli
     “Para mim, ele era o tio Carlos, brincalhão, que fazia paródias das músicas de Roberto Carlos com os nomes dos nossos colegas. Ele sempre se escondia lá em casa. Uma vez, para explicar as ausências, inventou que tinha ido à África e trazido várias cobras dentro de caixas de sapato, para o Butantan, em São Paulo”, lembra a cineasta Isa Grinspum Ferraz. O tio de Isa era Carlos Marighella, um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Em agosto, estreou um filme sobre ele, dirigido pela sobrinha.
     A produção de “Marighella” enfrentou alguns desafios logo de cara. A equipe pesquisou em Cuba, Moscou, Pequim e em vários arquivos do Brasil, mas não achou nenhuma imagem em movimento do militante. E as fotos – pouco mais de 20 – são todas do acervo da família. “Ele não podia deixar rastro. Queimavam coisas dele depois que ele saía lá de casa. Muitas pessoas que o conheceram mantiveram segredo sobre isso e só agora estão falando. Talvez por eu ser sobrinha, consegui que se abrissem comigo”, conta a diretora, que entrevistou ex-guerrilheiros e alguns parentes, como a viúva do ativista, Clara Charf, e o filho, Carlinhos Marighella.
     A pesquisa, que incluiu documentos da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e gravações feitas em Cuba nos anos 1960, rendeu descobertas interessantes. “Os documentos da CIA confirmam como a agência estava envolvida na formação de torturadores na época. Mas em outros arquivos descobrimos coisas que não conhecíamos, como um movimento de apoio na Europa. Artistas como Joan Miró e Jean-Luc Godard enviaram dinheiro para Marighella”, revela Isa.
     Segundo Daniel Aarão Reis Filho, historiador da Universidade Federal Fluminense, Marighella ganhou respeito mundo afora, em grande parte pela militância na clandestinidade e pela experiência no Partido Comunista Brasileiro. “Ele representava uma espécie de síntese das virtudes então mais consideradas entre as esquerdas radicais. Tinha audácia, decisão de partir para o enfrentamento, capacidade de trabalho prático e comunicação fácil e fluente, inclusive com os jovens. Tudo isso misturado a muita irreverência, um bom humor permanente e uma ironia cortante na crítica às velhas tendências hegemônicas. Tais virtudes fizeram com que Marighella fosse ao mesmo tempo respeitado, admirado e querido”, explica.
     Esse documentário não é o primeiro sobre o militante. Silvio Tendler já havia lançado na televisão, em 2010, “Marighella – Retrato falado do guerrilheiro”. Mas Isa quis mostrar um recorte diferente: “Perguntaram se eu não ia ouvir o outro lado dessa história, a direita política. Eu não vou gastar tempo do meu filme para falar do ponto de vista que todo mundo sabe. Estou mostrando o ponto de vista de quem conviveu com ele”.

Jorge Amado, para Carlos Marighella.

     “Chegas de longa caminhada a este teu chão natal, território de tua infância e adolescência.
     Vens de um silêncio de dez anos, de um tempo vazio, quando houve espaço e eco apenas para a mentira e a negação.
     Quando te vestiram de lama e sangue, quando pretenderam te marcar com o estigma da infâmia, quando pretenderam enterrar na maldição tua memória e teu nome.
     Para que jamais se soubesse da verdade de tua gesta, da grandeza de tua saga, do humanismo que comandou tua vida e tua morte.
     Trancaram as portas e as janelas para que ninguém percebesse tua sombra erguida, nem ouvisse tua voz, teu grito de protesto.
     Para que não frutificasses, não pudesses ser alento e esperança.
     Escreveram a história pelo avesso para que ninguém soubesse que eras pão e não erva daninha, que eras vozeiro de reivindicações e não pragas, que eras poeta do povo e não algoz.
     Cobriram-te de infâmia para que tua presença se apagasse para sempre, nunca mais fosse lembrada, desfeita em lama.
     Esquartejaram tua memória, salgaram teu nome em praça pública, foste proibido em teu país e entre os teus.
     Dez anos inteiros, ferozes, de calúnia e ódio, na tentativa de extinguir tua verdade, para que ninguém pudesse te enxergar.
     De nada adiantou tanta vileza, não passou de tentativa vã e malograda, pois aqui estás inteiro e límpido.
     Atravessaste a interminável noite da mentira e do medo, da desrazão e da infâmia, e desembarcas na aurora da Bahia, trazido por mãos de amor e de amizade.
     Aqui estás e todos te reconhecem como foste e serás para sempre: incorruptível brasileiro, um moço baiano de riso jovial e coração ardente.
     Aqui estás entre teus amigos e entre os que são tua carne e teu sangue. Vieram te receber e conversar contigo, ouvir tua voz e sentir teu coração.
     Tua luta foi contra a fome e a miséria, sonhavas com a fartura e a alegria, amavas a vida, o ser humano, a liberdade.
     Aqui estás, plantado em teu chão e frutificarás. Não tiveste tempo para ter medo, venceste o tempo do medo e do desespero.
     Antonio de Castro Alves, teu irmão de sonho, te adivinhou num verso: “era o porvir em frente do passado”.
     Estás em tua casa, Carlos; tua memória restaurada, límpida e pura, feita de verdade e amor.
     Aqui chegaste pela mão do povo. Mais vivo que nunca, Carlos”.

Texto escrito por Jorge Amado, amigo de Marighella e seu companheiro na bancada comunista da Assembleia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados entre 1946 e 1948.
Lido por Fernando Santana em 10 de dezembro de 1979 – Dia Universal dos Direitos do Homem – por ocasião do sepultamento dos restos mortais de Marighella no cemitério das Quintas, em Salvador.

Saiba Mais Documentário:
Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro
Carlos Marighella  autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, deputado constituinte em 1946 e um dos principais dirigentes do Partido Comunista. Cassado quando o partido foi posto na ilegalidade, Carlos Marighella foi um dos dirigentes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Em 66, ainda no PC, propôs o caminho da guerrilha e por isso foi expulso. Fundou a Ação Libertadora Nacional, primeiro movimento armado pós-64 do país. O documentário sobre a vida desta figura polêmica da recente história do Brasil contará a trajetória do professor Marighella, do deputado Marighella, do guerrilheiro Marighella. Mas, acima de tudo, contará a história do homem Marighella.
Direção: Silvio Tendler
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 56 minutos

Clara Sharf – A Companheira de Marighella
Documentário exibido pela TV Câmara- programa Memória Política
Em 1946, uma jovem aeromoça de origem judaica filiou-se ao Partido Comunista, assumindo a tarefa de assessorar a bancada parlamentar do partido no Congresso Nacional. Conheceu, assim, o então deputado Carlos Marighela, que viria a se tornar um líder revolucionário e o maior inimigo da ditadura militar. Sua união com Marighela levou-a à vida clandestina. Em 1969, o companheiro, responsável pela criação da primeira organização de luta armada contra o regime, a Ação Libertadora Nacional (ALN), foi morto por forças policiais. Ela exilou-se em Cuba, de onde só voltou em 1979, com a anistia. Concentrou-se na luta pelo resgate de mortos e desaparecidos do regime militar e no movimento de mulheres. E escreveu seu nome na história política do Brasil: Clara Sharf.
Direção: Ivan Santos
Ano: 2003
Áudio: Português
Duração: 59 minutos

Saiba Mais – Filme:
Marighella
Líder comunista, vítima de prisões e tortura, parlamentar, autor do mundialmente traduzido “Manual do Guerrilheiro Urbano”, Carlos Marighella atuou nos principais acontecimentos políticos do Brasil entre os anos 1930 e 1969, e foi considerado o inimigo número 1 da ditadura militar brasileira. Mas quem foi esse homem, mulato baiano, poeta, sedutor, amante de samba, praia e futebol, cujo nome foi por décadas impublicável? O filme, dirigido por sua sobrinha, é uma construção histórica e afetiva desse homem que dedicou sua vida a pensar o Brasil e a transformá-lo através de sua ação.
Direção: Isa Grinspum Ferraz
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 97 minutos


Batismo de Sangue
São Paulo, fim dos anos 60. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos,  passando por terríveis torturas.
Direção: Helvécio Ratton
Ano: 2006
Áudio: Português
Duração: 112 minutos


domingo, 4 de novembro de 2012

Jango e Kennedy trocam cartas na “crise dos mísseis” em Cuba

Presidentes dos EUA e Brasil debatem o grave momento mundial diante da presença de armas nucleares em Cuba 
Por Carlos Fehlberg 
     Numa hora delicada para a política internacional, as posições dos dois presidentes, John Kennedy e João Goulart, em outubro de 1962, há quase 50 anos, são conhecidas através de uma troca de correspondências diplomáticas. Era um dos momentos mais tensos da guerra fria, quando Estados Unidos e União Soviética estiveram muito perto de um conflito. A presença de armas nucleares em Cuba criou o que passou a ser chamada de crise dos mísseis. Kennedy tratou de ouvir outros países antes de uma decisão mais forte, daí a troca de cartas entre ele e o então presidente brasileiro, João Goulart. A posição de Jango gerou uma das correspondências importantes da diplomacia brasileira. E a troca de cartas entre os dois presidentes reflete a preocupação do momento e constituem documentos históricos importantes.
De Kennedy a Jango
      “Meu caro Senhor Presidente: Encaramos a necessidade e oportunidade neste hemisfério de determinar pela nossa ação conjunta nos próximos dias, o que pode ser todo o futuro da humanidade sobre esta terra. Vossa Excelência terá a oportunidade de constatar pela minha declaração ao povo norte-americano a natureza da grave ameaça ao hemisfério Ocidental que o regime atual em Cuba permitiu à URSS estabelecer em território cubano. Porém não se trata somente de ameaça militar aos EUA. Este comportamento da URSS apesar dos nossos bem conhecidos e sempre reiterados acordos de defesa e segurança do hemisfério, não leva em conta, pela sua continuidade, minha advertência de 4 de setembro, bem conhecida por eles. Os repetidos desmentidos soviéticos, seja em declarações públicas ou em conversações privadas, de que tal ação fosse empreendida ou mesmo estava sendo contemplada, tornam, perfeitamente evidente que os soviéticos estão lançando um desafio ousado e belicoso a todos os povos livres. Devemos responder a esta ação arrogante com uma determinação unida. Senão a URSS encaminhar-se-á a violações sempre mais flagrantes das exigências da paz internacional e da liberdade até chegarmos ao momento em que não teremos muita escolha senão a rendição completa ou o desencadear de um holocausto nuclear. Devemos tomar posição hoje; o mundo inteiro está nos olhando. Assuntos sobre os quais nós no hemisfério possamos ter desacertos marginais como também divergências políticas entre nossos povos tornam-se insignificantes diante dessa ameaça à paz. Espero que nessas circunstâncias Vossa Excelência sentirá que o seu país deseja unir-se ao nosso, expressando os seus sentimentos ultrajados frente a este comportamento cubano e soviético, e que Vossa Excelência achará por bem expressar publicamente os sentimentos do seu povo. Espero também que Vossa Excelência Vossa Excelência haverá de concordar comigo na necessidade urgente de convocar uma reunião imediata do Órgão de Consulta do Sistema Interamericano sob o Pacto do Rio de Janeiro. Os EUA proporão àquele órgão, uma vez reunido, a adoção de uma resolução para tratar eficazmente desta nova e perigosa situação. O meu embaixador poderá lhe fornecer o texto proposto. É claro que a colocação de armas ofensivas com capacidade nuclear em Cuba “coloca em perigo a paz e segurança do Continente” nos termos do art. 6 daquele pacto. Estou certo de que Vossa Excelência concorda com a urgência de tal resolução. Estou também pedindo uma reunião urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Dei instruções ao embaixador Stevenson para apresentar, em nome dos Estados Unidos, uma resolução que peça a retirada das bases de foguetes e de outras armas ofensivas em Cuba, sob a supervisão de observadores das Nações Unidas. Eu espero que Vossa Excelência dê instruções a seu representante em Nova York para trabalhar ativamente conosco e fale diretamente em apoio ao programa na Organização das Nações Unidas. Quero convidar Vossa Excelência para que as suas autoridades militares possam conversar com os meus militares sobre a possibilidade de participação em alguma base apropriada com os EUA e outras forças do hemisfério, de qualquer ação militar que se torne necessária pelo desenvolvimento da situação em Cuba. Tenho confiança de que, por intermédio de uma aproximação comum a esta ameaça, por meio de medidas sábias, que combinem a firmeza e a limitação necessária à natureza da crise, haveremos de marchar a um novo marco de progresso para o mundo livre com reduzido receio de dominação do mundo pelo comunismo internacional. Neste termo, após indicar os perigos à paz mundial do rumo que a URSS tem seguido em Cuba, escrevi ao senhor Kruchev pedindo-lhe que sejam adotadas medidas que haverão de nos permitir retornar o caminho de negociações pacíficas”.
John Kennedy
(22-10-1962. tradução informal possivelmente elaborada pela Embaixada dos EUA)

E Jango responde:
“Brasília, 24 de outubro de 1962
      Recebi com apreço e meditei com atenção a carta em que Vossa Excelência houve por bem comunicar-me ter sido constatada a presença em território cubano, de armas ofensivas capazes de constituírem ameaça aos países deste hemisfério. Nessa carta, Vossa Excelência também solicitou o apoio do Brasil para as medidas que o seu governo proporia ao Conselho de Segurança da OEA e ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, com fundamento nas disposições do Tratado do Rio de Janeiro e da Carta de São Francisco.
Já é do seu conhecimento o pronunciamento, no primeiro desses Conselhos, do delegado do Brasil. Quero, entretanto, aproveitar o ensejo para fazer a Vossa Excelência, com a franqueza e sinceridade a que não apenas me autorizam, mas me obrigam o meu apreço pessoal por Vossa Excelência e a tradicional amizade entre nossos povos, algumas considerações, tanto sobre a posição brasileira em face do caso de Cuba, como sobre os rumos que recentemente vêm prevalecendo nas decisões da OEA.
     Vossa Excelência conhece a fidelidade inalterável do Brasil aos princípios democráticos e aos ideais da civilização ocidental. Dentro dessa fidelidade, nossos países já combateram lado alado em duas guerras mundiais, que nos custaram o sacrifício de inúmeras vidas e nos impuseram, proporcionalmente e de modo diverso, pesados prejuízos materiais.
     Os sentimentos democráticos do povo brasileiro e de seu governo são hoje por ventura, maiores e mais arraigados do que no passado, porque com o volver dos anos e a aceleração do desenvolvimento econômico, fortaleceram-se e estabilizaram-se as nossas instituições políticas, sob o princípio da supremacia da lei. Era natural que paralelamente ao fortalecimento da democracia se desenvolvesse o sentido de responsabilidade internacional, levando-nos a participar dos acontecimentos e problemas não apenas regionais, mas mundiais, para nos situarmos em face deles à luz dos nossos interesses nacionais e ditames da nossa opinião pública.
     No discurso que tive a honra de pronunciar perante o Congresso norte-americano em 4 de abril de 1962, procurei resumir e enunciar com clareza os aspectos dominantes de nossa posição nos seguintes termos:
“A ação internacional do Brasil não responde a outro objetivo senão o de favorecer, por todos os meios ao nosso alcance, a preservação e fortalecimento da paz. Acreditamos que o conflito ideológico entre o Ocidente e Oriente não poderá e não deverá ser resolvido militarmente, pois de uma guerra nuclear, se salvássemos a nossa vida, não lograríamos salvar, quer vencêssemos, quer fôssemos vencidos, a nossa razão de viver. O fim da perigosa emulação armamentista tem de ser encontrado através de convivência e da negociação. O Brasil entende que a convivência entre o mundo democrático e o mundo socialista poderá ser benéfica ao conhecimento e à integração das experiências comuns, e temos a esperança de que esses contatos evidenciem que a democracia representativa é a mais perfeita das formas de governo e a mais compatível com a proteção ao homem e a preservação de sua liberdade.”
     A defesa do princípio de autodeterminação dos povos, em sua máxima amplitude, tornou-se o ponto crucial da política externa do Brasil, não apenas por motivos de ordem jurídica, mas por nele vermos o requisito indispensável à preservação da independência e das condições próprias sob as quais se processa a evolução de cada povo. É, pois, compreensível que desagrade profundamente à consciência do povo brasileiro, qualquer forma de intervenção num estado americano inspirada alegação de incompatibilidade com o seu regime político, para lhe impor a prática do sistema representativo por meios coercitivos externos, que lhes tiram o cunho democrático e a validade. Por isso o Brasil na VIII Consulta de chanceleres americanos se opôs à imposição de sanções ao regime cubano, tanto mais que não eram, apontadas então, como só agora veio a suceder, fatos concretos em se pudesse prefigurar a eventualidade de um ataque armado.
     Ainda, agora, entretanto, Senhor Presidente, não escondo a Vossa Excelência a minha apreensão e a insatisfação do povo brasileiro pelo modo por que foi pleiteada e alcançada a decisão do Conselho da OEA, sem que se tivesse preliminarmente realizado, ou pelo menos deliberado, uma investigação in loco, e sem que se tivesse tentado através de uma negociação, como a que propusemos em fevereiro do corrente ano, o desarmamento de Cuba com a garantia recíproca de não invasão.
     Receio que nos tenhamos abeirado sem, antes esgotar todos os recursos para evitá-lo, de um risco que o povo brasileiro teme tanto como o norte-americano: o de guerra nuclear. E é na atuação de Vossa Excelência, no seu espírito declaradamente pacifista, que depositamos a esperança de que não sejam usadas contra Cuba medidas militares capazes de agravar o risco já desmedido da presente situação. Para tudo que possa significar esforço de preservação de paz, sem quebra de respeito à soberania dos povos, pode Vossa Excelência contar com a colaboração sincera do governo e do povo do Brasil.
     Não quero, porém, encerrar esta carta, senhor Presidente, asem acrescentar às considerações nela feitas a expressão de meus receios sobre o futuro imediato da OEA. Nos últimos tempos observo que as suas decisões vêm perdendo autoridade à medida que se afastam da correta aplicação das suas próprias normas estatutárias, e que são tomadas por maioria numérica com injustificável precipitação. A isso cabe acrescentar a tendência para transformar a Organização num bloco ideológico intransigente, em que, entretanto, encontram o tratamento mais benigno os regimes de exceção de caráter reacionário.
Permito-me pedir a atenção de Vossa Excelência para a violação do Art. 22 da Carta de Bogotá, que se está correndo o risco de cometer para evitar a adesão de novos Estados por motivos de ordem ideológica.
Permito-me ainda recordar a aplicação imprópria da Resolução H de Punta del Este sobre a vigilância e defesa social, que não autoriza a Organização a encomendar investigações sobre a situação interna de nenhum país, para evitar que se firam os melindres de Estados soberanos, e que agora se pretende abusivamente invocar justamente para execução de uma investigação dessa natureza. A esses casos acrescento o da criação do Colégio Interamericano de Defesa. Este órgão não pode merecer senão a nossa simpatia e cooperação, desde que se limite a apreciar problemas técnicos e de segurança externa, mas seus efeitos podem ser negativos se a titulo de problemas de segurança interna passar ele a estudar questões de competência privativa dos estudos sobre as quais convém que os militares recebam uma formação e orientação puramente nacionais.
     Estou certo de que Vossa Excelência compreenderá as razões de minha apreensão. O Brasil é um país democrático, em que o povo e o governo condenam e repelem o comunismo internacional, mas onde se fazem sentir ainda perigosas pressões reacionárias, que procuram sob o disfarce do anticomunismo defender posições sociais e privilégios econômicos, contrariando desse modo o próprio processo democrático de nossa evolução. Acredito que o mesmo se passa em outros países latino-americanos. E nada seria mais perigoso do que ver-se a OEA ser transformada em sua índole e no papel que até aqui desempenhou, para passar a servir a fins ao mesmo tempo anticomunistas e antidemocráticos, divorciando-se da opinião pública latino-americana.
     Veja Vossa Excelência, senhor Presidente, nestas considerações, que pretendia desenvolver pessoalmente, ao grato ensejo de sua visita ao Brasil, uma expressão do propósito de melhor esclarecimento mútuo sobre as aspirações e as diretrizes do povo brasileiro.
     Renovo a Vossa Excelência a certeza de minha melhor estima e apreço”.
João Goulart
(Íntegra dos dois textos foi publicada no livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira “O governo João Goulart”.)

A tensão
     A crise dos mísseis terminaria domingo 28 de outubro de 1962, quando após os difíceis, tensos e longos entendimentos entre Kennedy e Kruschev, o governo soviético divulgou um comunicado. O governo russo, além de instruções anteriores sobre a interrupção do trabalho nos locais de construção de armas em Havana, dava nova ordem para desmontar as descritas como ofensivas, encaixotá-las e trazê-las de volta à União Soviética. Mas até chegar a essa decisão houve muito jogo diplomático com negociações em meio a um quadro de tensão. E Kennedy comunicou-se com Kruschev várias vezes, buscando e encontrando saídas. A temida terceira guerra era evitada.

Saiba Mais – Filmes:
Treze Dias Que Abalaram o Mundo
O filme relata a crise dos mísseis de Cuba. Em outubro de 1962, fotografias aéreas tiradas pelos aviões americanos que espionavam regularmente Cuba. Nessas fotos são detectados mísseis de origem soviética sendo instalados a poucas milhas da Flórida. Armas dotadas de ogivas nucleares, de médio e longo alcance que, instaladas nas terras de Fidel poderiam detonar as principais cidades do Tio Sam em poucos minutos. E o pior, sem tempo para reações de defesa ou ataque por parte das autoridades norte-americanas.
A informação restrita aos círculos mais altos da cúpula governamental norte-americana é confirmada pelo movimento de embarcações e construção de uma base em território cubano verificadas através de novas fotos. O que fazer?
"Treze dias" mostra os bastidores políticos norte-americanos quando se discutia como reagir a atitude dos soviéticos e dos cubanos. Personagens de vulto desse momento da história americana como John e Bobby Kennedy, Kenny O´Donnell (Kevin Costner), Robert MacNamara, Adlai Stevenson e a alta cúpula militar são os protagonistas de toda a trama. Manchetes de jornal de época e imagens das discussões na ONU permeadas por aparições em preto e branco do jornalista Walter Cronkyte falando dos acontecimentos aumentam ainda mais o nervosismo em relação ao desfecho dos desencontros entre russos e americanos.
A possibilidade de um conflito nuclear e, consequentemente, a destruição do planeta servem como fio condutor. Eletrizante do começo ao fim.
http://www.youtube.com/watch?v=1hW7PgbOdFcDireção: Roger Donaldson 
Ano: 2000
http://ul.to/ou80orhqÁudio: Português
Duração: 145 minutos

Che
O filme “Che” tem cerca de quatro horas de duração e é dividido em duas partes. Filmado em 2008, e dirigido por Steven Soderbergh, é uma co-produção de EUA, França e Espanha.
O roteiro é assinado por Peter Buchman, que baseou a história no livro de memórias de Ernesto Che Guevara. O personagem de Che Guevara é protagonizado pelo ator Benício Del Toro, vencedor do prêmio de melhor ator do Festival de Cannes.
O elenco ainda conta com Santiago Cabrera que interpreta Camillo Cienfuegos, Demián Bichir que interpreta Fidel Castro, e Rodrigo Santoro como Raul Castro.
O filme inicia quando Fidel e Che se conhecem num jantar familiar, decidem lutar juntos pela independência social de Cuba. Em 26 de novembro de 1956, o comandante Fidel segue de barco para Cuba acompanhado pelos rebeldes, entre eles Che Guevara, com o objetivo de lutar contra a ditadura de Fulgêncio Batista.
Che aprende a lutar no método de guerrilha, de médico é promovido a comandante e herói revolucionário.
A segunda parte do filme aborda os últimos momentos de Che Guevara na Bolívia. O filme, desde a primeira parte, é intercalado com momentos de Che Guevara em Nova York, onde concedeu entrevistas, aparições públicas e participou da convenção internacional da ONU.
As sequências em Nova York foram filmadas em preto e branco, expressando um caráter documental ao filme. O filme Che, além de cenas de ação, também mostra um comandante intelectual inspirado em ideais socialistas e que incentiva os seus comandados a respeitar os trabalhadores cubanos e a estudar.
Direção: Steven Soderbergh
Ano: 2008
Áudio: Português
Duração: 268 minutos
Che parte 1: O Argentino
Che parte 2: A Guerrilha
http://ul.to/glzfldqg

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Páginas abertas


     Mais três editoras universitárias brasileiras anunciaram parceria com a plataforma SciELO Livros, que disponibiliza online e gratuitamente obras produzidas por pesquisadores de diversas áreas de conhecimento científico, incluindo História. Editora UNESP, Editora Fiocruz, EDUFBA, EDUEL, EDUEPB e EDUFSCAR agora selecionam diariamente o quê de seu acervo pode ou não ser publicado na web. O projeto começou no início do ano e já conta com 250 títulos disponíveis para download – os organizadores do projeto estimam que até o fim do ano este número dobre.
     João Canossa, editor executivo da Editora Fiocruz, diz que o projeto serve de vitrine para os títulos publicados e que, provavelmente, a disponibilização de obras na internet não deve prejudicar as vendas nas livrarias. “Na medida em que um acesso mais amplo é garantido a interessados nos temas publicados por nossa editora, há uma contribuição significativa para a difusão do conhecimento e, ainda, para a formação de leitores qualificados”. Não só no Brasil, mas em outros países falantes de língua portuguesa, já que a SciELO é uma rede internacional.
 Atualmente, o grupo possui 75 livros na ferramenta, como História Oral: desafios para o século XXI, organizado pela historiadora Verena Alberti e Marieta de Moraes Ferreira, Antropologia da saúde:traçando identidades e explorando fronteiraspor Paulo César Alves e Miriam Rabelo; e Filosofia, história e sociologia das ciências I:abordagens contemporâneas, de Vera Portocarrero.
     Adriana Luccisana, supervisora do projeto e integrante da equipe de coordenação e organização, comenta que “a Rede SciELO Livros compartilha objetivos, recursos, metodologias e tecnologias com a Rede SciELO de periódicos científicos de modo a contribuir com o desenvolvimento da comunicação científica em ambos meios de publicação”. A ideia é de levar títulos interessantes a estudantes e pesquisadores e que possam servir de base para pessoas que estejam próximas ou não destes núcleos de produção de conhecimento.

Outros projetos
     Há uma infinidade de obras em domínio público presentes nas estantes das bibliotecas públicas virtuais, que permitem pegar livros “emprestados” por tempo indeterminado. É o caso, por exemplo, de um dos nossos mais célebres escritores. Machadode Assis conta até com um site especial, feito pelo Ministério da Educação, que disponibiliza em formato PDF a obra completa do primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras. Até as correspondências do escritor podem ser baixadas para o seu computador ou tablet.
     O site Domínio Público, do Ministério da Educação, por exemplo, é o oásis dos novos leitores, com mais de 180 mil obras à disposição. Quem não tem tablet não precisa se preocupar: os livros são disponibilizados, na maioria das vezes, em formato PDF e HTML, padrão das páginas de internet que pode ser visto em qualquer computador. Desde 2004, já foram feitos mais de 30 milhões de downloads de livros diversos.
     Apenas sobre História Geral, são 1.263 obras – 726 delas em português. A mais acessada é “A escravidão”, de Joaquim Nabuco, lida virtualmente por mais de 33 mil pessoas. Outro que se destaca é “História do Brasil: 1500-1627”, de Frei Vicente de Salvador. Quem não leu o célebre “Capítulos de História Colonial(1500-1800)”, de João Capistrano de Abreu, pode começar a qualquer momento.
Obviamente, a benesse não se restringe aos autores nacionais. Basta um clique para ter acesso a obras de William ShakespeareFernando Pessoa e Dante Alighieri – best seller online, com mais de 1,7 milhão de livros baixados –, passando por Pero Vaz de Caminha e Luís de Camões. Não há por que se preocupar com o idioma: o site oferece 16 opções – de latim a sânscrito! –, incluindo, obviamente, versões em português.

Bibliotecas virtuais estaduais e independentes
     Outras opções interessantes são o GoogleLivros e os sites independentes Biblio e eBooksBrasil. Porém, há alguns problemas: o Google não permite a busca por disciplina, mas torna-se uma boa opção para quem sabe o que procura. Já os outros não têm uma navegabilidade muito fácil de lidar.
Mas o melhor é que a ideia se irradia por outros estados. O governo do Amazonas, por exemplo, criou sua própria Biblioteca Virtual onde é possível encontrar o “Almanaque do Amazonas para 1908”, repleto de informações sobre Manaus no início do século XX, com direito a fotos e informações gerais da cidade. Já a editora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) resolveu disponibilizar, gratuitamente, 120 títulos acadêmicos em formato digital. Desde o ano passado, mais de 60 mil pessoas fizeram o download.

“Democratização da leitura”
     Por outro lado, vários sites e blogs disponibilizam obras inteiras pirateadas – em alguns casos, envoltas num viés ideológico de democratização da leitura. Num manifesto na internet, os idealizadores do projeto argumentam que a democratização do acesso à tecnologia e a precariedade dos espaços físicos de leitura obrigam a “reconhecer a falência do governo em prover sua população com as ferramentas tradicionais de inclusão cultural, como as bibliotecas”.
     O projeto – que conta com mais de 50 mil usuários cadastrados – parte da hipótese de que “as bibliotecas digitais têm o potencial de provocar mudanças no hábito de leitura e ampliar o acesso a livros”. Até aí, tudo bem. Só falta combinar com os autores que, afinal, precisam sobreviver para manter a "causa".
Num desses sites são oferecidos, só de História Geral, 19 títulos, como o “Livro das moedas do Brasil – 1643 até o presente”, de Cláudio Amato, Irlei Neves e Arnaldo Russo, e até os oito volumes de “História da Geral África”. Nenhuma editora escapa, ao ponto de algumas capas de livros ganharem até selo do site pirata.

Iniciativas em prol de pesquisadores e leitores
     Mas como a nova ordem veio para ficar, a Biblioteca Nacional, claro, não ficaria de fora e está com um laboratório de digitalização a todo vapor, seguindo a tendência das bibliotecas mundo afora. A BN faz parte do projeto Biblioteca Digital Mundial, juntamente com instituições de Alexandria, Egito e Rússia. O projeto prevê a digitalização de documentos, cartas, fotos e mapas nas seis línguas oficiais da ONU (inglês, francês, espanhol, árabe, chinês e russo), além do português, graças à participação da Biblioteca Nacional. Estão sendo digitalizados 1.500 mapas raros dos séculos XVI a XVIII, além de 42 álbuns com cerca de 1.200 fotos da Coleção Thereza Christina Maria, doada pelo Imperador D. Pedro II à BN.
     Mas, quem não aguenta de saudade do cheirinho de papel, a internet também oferece uma solução. O site Trocando Livros faz, justamente, o que o nome propõe: você cria uma lista de livros que quer trocar e fica aguardando o interesse de algum usuário. Quando houver a solicitação, você envia pelos correios e ganha um crédito para solicitar outro livro. E quem estiver de olho na estante alheia, pode comprar crédito por uma quantia pré-fixada. 
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