"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Só o PCC ameaça São Paulo?

Breve dossiê revela: onda de assassinatos que apavora Estado foi iniciada e radicalizada pela PM. Governo Alckmin omite-se. Mídia silencia.
 
I.
     Ao descrever, num ensaiorecente (breve em português, em Outras Palavras), a situação tormentosa vivida pela Grécia, o jornalista Paul Mason, da BBC, recorre à história da Alemanha, às portas do nazismo. Só uma sucessão de erros crassos, mostra ele, pôde permitir que Hitler chegasse ao poder. Mas havia algo sórdido por trás destes enganos. Embora não fosse conscientemente partidária do terror, a maior parte das elites alemãs desejava o autoritarismo, pois já não conseguia tolerar o ambiente democrático da república de Weimar.
     As circunstâncias são distintas: não há risco de fascismo no cenário brasileiro atual. Mas é inevitável lembrar de Mason, e de sua observação sobre a aristocracia alemã, quando se analisa a espiral de violência que atormenta São Paulo há cinco meses. Em guerra com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), parte da Polícia Militar está envolvida numa onda de assassinatos que já fez dezenas de vítimas, elevou em quase 100% o índice de homicídios no Estado e aterroriza as periferias.
     Pior: a escalada foi iniciada (e é mantida e aprofundada) por integrantes da própria PM, a força que deveria garantir a segurança e o cumprimento da lei no Estado. Mas apesar de inúmeras evidências, o governo do Estado não age para refrear tal atitude. E a mídia omite, ao tratar da onda de mortes, a participação e responsabilidade evidentes da polícia. É como se tivessem interesse em manter, em São Paulo, um corpo armado, imune à lei e ao olhar da opinião pública, capaz de se impor à sociedade e diretamente subordinado a um governador cujos laços com a direita conservadora são nítidos.
     Para ocultar o papel de parte da PM na avalanche de brutalidade, a mídia criou um padrão de cobertura. As mortes de autoria do PCC são noticiadas, corretamente, como assassinatos de PMs. Informa-se que o número de crimes deste tipo cresce de modo acelerado — já são 90 vítimas, este ano. Mas se associa a insegurança que passou a dominar o Estado apenas a estes atos. Também informa-se sobre parte das mortes praticadas pela PM — seria impossível escondê-las por completo. No entanto, aceita-se, sempre sem investigação jornalística alguma, a versão da polícia: morreram “em confronto”, depois de terem reagido.
     Este estratagema permite silenciar sobre três fatos essenciais e gravíssimos: a) parte da PM abandonou seu compromisso com a lei e a ordem pública e passou a agir à moda de um grupo criminoso, colocando em risco a população e a grande maioria dos próprios policiais, honestos e interessados em cumprir seu papel; b) diante desta subversão do papel da PM, o comando da corporação e o governo do Estado estão, ao menos, omissos; c) procura-se preservar este estado, evitando, recorrentemente, caracterizar a atitude do setor criminoso da polícia e, muito menos, puni-lo.
 II.
Algumas iniciativas permitiram, nos últimos dias, começar a quebrar a cortina de silêncios e omissões. O jornalista Bob Fernandes, editor-chefe do TerraMagazine, sustentou, num comentário corajoso, em noticiário da TV Gazeta, que havia algo além do crime organizado, por trás da onda de assassinatos. “Rompeu-se um pacto entre polícia militar e PCC”, frisou Fernandes — e atribuiu a esta ruptura tanto a “guerra” entre os dois grupos como a espiral de morte que se seguiu. “Criminosos matam de um lado? Vem a resposta: alguns, quase sempre em motos, com munição de uso exclusivo de forças policiais, dão o troco e também matam.”
     A fala do editor do Terra Magazine teve o mérito de romper o consenso que a mídia fabricava, até então, em torno de uma explicação inconsistente. Mas a que se referiria ele, ao mencionar, em linguagem quase enigmática, a ruptura de um pacto?
     Uma das pistas, para encontrar a resposta, é seguir o fio da meada da onda criminosa. Quando ela teria começado? Por quais motivos? Entre o final de maio e o presente, os jornais estão fartos de notícias sobre os assassinatos, sempre no padrão descrito acima. Mas não é difícil encontrar um ponto de inflexão, o momento a partir do qual o cenário se transforma.
     Ele situa-se precisamente em 29 de maio. Nesta data, quando ainda não adotava a confirmação sem checagem das versões da Polícia Militar, O Estado de S. Paulo registra um massacre. Seis pessoas foram mortas pela ROTA, uma unidade da PM conhecida pela truculência. Estavam num estacionamento, próximo à favela da Taquatira, Zona Leste da capital. Foram vítimas de um comando constituído por 26 policiais. A própria PM afirmou, na ocasião, que eram integrantes do PCC. Alegou-se que estariam reunidas (num estacionamento?) para “traçar um plano de resgate de um preso”. Segundo as primeiras versões, teriam “atirado contra os policiais”. Apesar de numerosas (segundo a PM, 14 pessoas, das quais três foram capturadas e cinco fugiram), e “fortemente armadas”, nenhum soldado sequer se feriu.
     Esta versão fantasiosa foi desmentida logo em seguida. Pouco depois da ação policial, um dos mortos “em confronto” seria executado a sangue frio, por parte dos PMs que haviam participado da operação. Os assassinos agiram em pleno acostamento da rodovia Ayrton Senna, e em área habitada. Uma testemunha presenciou o crime e o denunciou, enquanto acontecia, pelo telefone 190. A sensação de impunidade dos assassinos levou-os a ser fotografados pela próprias câmeras de vigilância da estrada. Nove dos 26 policiais foram presos, horas depois. Destes, seis foram soltos em dois dias. Três — apenas os que teriam praticado diretamente a execução — permaneceram detidos. Não é possível encontrar, nos jornais, informações sobre sua situação atual.
     Atingido, o PCC reagiu recorrendo, embora em escala limitada, ao método que marcou sua atuação em 2006. Na região de Cidade Tiradentes, uma das mais pobres da cidade e local de moradia de um dos mortos, o grupo obrigou a população a um toque de recolher no dia do enterro do comparsa, 31 de maio. Tiveram de fechar as portas, entre outras, as escolas municipais Adoniran Barbosa e Wladimir Herzog… Mas, também repetindo o que fizera em 2006, a facção não se limitou a isso. Começaria, logo em seguida, a longa série de assassinatos de policiais militares.
     No ano passado, 47 PMs paulistas foram mortos, em serviço ou suas folgas. Não é um número excepcional, para uma corporação que reúne quase 100 mil soldados, exerce atividade de risco e vive sob tensão permanente (o índice anual de suicídios é muito próximo ao das vítimas de homicídio). Em 2012, tudo mudou. Até o incidente fatídico de 29/5, haviam sido contabilizadas 29 mortes de PMs — pouco acima da média registrada no ano anterior. Entre 29/5 e 4/11, os ataques disparam. São 61 novos assassinatos, em apenas cinco meses. Há casos dramáticos: uma policial morta diante de sua filha; um garoto assassinado apenas por ser filho de policial, ocasiões em que as próprias bases da PM são atacadas. Inúmeros relatos narram a situação de pânico vivida por milhares de soldados honestos, cuja vida foi subitamente colocada em risco numa “guerra” provocada por uma minoria.
     Mas aos poucos — e aqui começa um dos pontos mais obscuros de todo o episódio –, a PM parece inclinar-se em favor de sua banda violenta. Além de ter provocado o PCC à luta no final de maio, num ataque cujo caráter criminoso está demonstrado, a polícia paulista empenhou-se, nos meses seguintes, em tornar a disputa cada vez mais sangrenta e mais letal para a população civil.
     Alguns episódios são emblemáticos desta tendência e da barbárie produzida por ela. Em 10 de outubro, por exemplo, um soldado de 36 anos foi executado em Taboão da Serra, oeste da Grande São Paulo. Dois homens dispararam seis tiros em seu corpo. Nas horas seguintes, no mesmo município, nove pessoas foram assassinadas. Duas delas foram vítimas da ROTA — execuções, segundo testemunhas. As sete outras, em circunstâncias nunca esclarecidas, mas muito assemelhadas às descritas por Bob Fernandes, em seu comentário recente. Poucos dias antes, na Baixada Santista, um outroepisódio, em condições muito semelhantes, deixou, em cinco dias, um rastro de quinze mortos. Em nenhum destes casos houve investigações sobre o comportamento dos policiais — nem por parte de seus pares, nem da mídia…
A esta altura é perturbador, porém inevitável, traçar um paralelo. Radicalizar ao máximo a guerra contra o PCC; afogar o “inimigo” em sangue, sem se importar com o risco de atingir a população como um todo, foi a estratégia que prevaleceu na PM em 2006, quando a força enfrentou pela primeira vez o grupo criminoso. Entre 12 e 20 de maio daquele ano, mais de 500 pessoas foram assassinadas em chacinas e execuções na capital, região metropolitana, interior e litoral de São Paulo. A grande maioria não tinha relação alguma com o PCC, como denunciam, desde então, as Mães de Maio. Adotou-se aparentemente a ideia de que deflagrar terror indiscriminado contra a população forçaria o grupo criminoso a recuar, temeroso de perder apoio de suas bases sociais.

III.
     Um personagem destacado é comum aos episódios de 2006 e aos de hoje: o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Não estava diretamente à frente do Palácio dos Bandeirantes, durante a primeira rebelião do PCC (deixara o posto um mês antes, para concorrer à presidência da República). Mas havia governado o Estado nos seis anos anteriores e executara uma política de segurança considerada ao mesmo tempo brutal e ineficiente. Sua ligação com os acontecimentos ficou patente ao abandonar, de modo abrupto, uma entrevista em que jornalistas britânicos (ao contrário da grande mídia brasileira) questionaram-no sobre o ocorrido.
     Apontado como membro da organização ultra-direitista Opus Dei, até mesmo por integrantes de seu partido (o PSDB), Alckmin é visto, por parte da elite brasileira, como uma liderança importante a preservar. As declarações que tem dado, desde maio, em favor das posições mais belicosas e agressivas, no interior da PM, são eloquentes.
     Falta muito a apurar, na trilha tenebrosa e caótica para a qual descambou a segurança (?) pública em São Paulo, desde maio. Por que, após uma tentativa fugaz de investigar ações ilegais e criminosas de parte de seus integrantes, a PM desistiu do esforço? Que levou a imprensa — que também denunciou a truculência, num primeiro momento — a silenciar e a repetir, desde junho, uma versão insustentável? Um setor de policiais especialmente violento terá conseguido impor sua postura? De que forma estarão envolvidos o governador e a imprensa?
     O certo é que, para interromper a escalada sangrenta, a sociedade precisa agir — o quanto antes.

Saiba Mais – Filmes:
Salve Geral
Salve Geral (2009), é um filme de Sérgio Rezende. A história aborda os acontecimentos envolvendo a violência do Primeiro Comando da Capital (PCC) em São Paulo, em 2006.
Lúcia (Andréia Beltrão) é uma viúva de classe média que sonha em tirar o filho Rafael (Lee Thalor), de 18 anos, da prisão. Em suas frequentes visitas à penitenciária ela conhece Ruiva (Denise Weinberg), advogada do Professor (Bruno Perillo), líder do Comando. As duas ficam amigas e logo Lúcia é usada em missões ligadas à organização criminosa. Precisando do dinheiro, ela aceita realizar as tarefas. Paralelamente o Comando passa por uma luta interna pelo poder, ampliada pelo confronto dos prisioneiros com o sistema carcerário. Quando o governo decide transferir, de uma só vez, centenas de presos para penitenciárias de segurança máxima no interior do estado, o Comando envia a ordem para que seus integrantes realizem uma série de ataques em pleno Dia das Mães, deixando a cidade de São Paulo sitiada. Inspirado em fatos verídicos, ‘Salve Geral’ conta uma história de ficção das mulheres por trás do Comando e mostra que quando a lei e a ética são postas em questão o que impera é a força. Foi escolhido para ser o representante brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010.
Direção: Sérgio Rezende
http://ul.to/bhkfeugv
Ano: 2009
Áudio: Português
Duração: 121 min.

 Verônica
Verônica (Andréa Beltrão) é uma professora da rede municipal do Rio de Janeiro. Depois de vinte anos na profissão, ela encontra-se estressada. Um dia, após o final da aula, ela repara que ninguém veio buscar Leandro (Matheus de Sá), seu aluno de oito anos. Tarde da noite, ela decide levar Leandro para casa, ao chegar à favela, descobre que os pais do garoto foram assassinados e que os assassinos estão atrás dele. Diante da situação, Verônica decide levar o menino consigo e conta com a ajuda de seu ex-marido e policial, Paulo (Marco Ricca). Ela procura ajuda e descobre que a policia também está ligada ao assassinato dos pais do menino. Sem poder confiar em ninguém, ela decide esconder o garoto.
Assim, Verônica é obrigada a enfrentar policiais e traficantes para sobreviver. E enquanto procura uma maneira de escapar com o menino, redescobre sentimentos que estavam adormecidos na sua vida solitária e difícil.
Direção: Maurício Farias
Ano: 2009
http://ul.to/f5ft3gcqÁudio: Português
Duração: 91 min.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Quanto poder tem um banco?

Enquanto a população europeia se desespera com a crise, banqueiros do outro lado do mundo comemoram o momento pelo qual tanto esperavam. Não é teoria da conspiração, é a realidade do mundo financeiro: um gigante como o GoldmanSachs  aconselha seriamente os seus clientes a investirem no colapso financeiro da Europa.
No documentário “Os segredos do Goldman Sachs”, são destrinchadas as relações, os esquemas e o imenso poder desse banco. O Goldman Sachs é responsável direto (junto com outras entidades) por uma série de crises nos últimos 80 anos, incluindo a atual e o famoso crash de 1929.
Como isso é possível? Sem mistério. As corporações conseguiram ampliar sua influência para além do mundo financeiro, colocando pessoas de dentro bem próximas da esfera política, quando não nos governos. Sendo assim, podem manipular nações inteiras com bastante facilidade. Se o momento não está lucrativo o suficiente, é fácil gerar uma crise para agitar o mercado financeiro.
Vivemos então em uma “corporatocracia”, já que as corporações controlam governos, universidades e meios de comunicação, não só dos Estados Unidos, mas do mundo inteiro. E suas imagens continuam intactas. Quem nunca ouviu dizer que seria ótimo trabalhar para um superbanco como o Goldman Sachs?
Veja o filme:

Comida para especular?

O que os mercados financeiros têm a ver com o preço dos alimentos? O vídeo a seguir mostra como a fome está associada à especulação financeira e à crise econômica mundial. Mais de 20 países estão emsituação de emergência alimentar, e, pela primeira vez na história, mais de umbilhão de pessoas passam fome.
A partir de um bem elaborado encadeamento de ilustrações, o vídeo apresenta os eventos dessa crise e defende uma nova governança global para dar conta dos problemas.
Uma realização do Ibase, por meio do projeto Liberalização Financeira eGovernança Global, o vídeo teve o apoio da Fundação Ford.
Veja o filme:

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Guerrilheiro que incendiou o mundo

Jornalista lança biografia sobre o militante político Carlos Marighella, em Porto Alegre, Pelotas, Rio de Janeiro, Fortaleza e Ouro Preto. Foram nove anos de pesquisas para concluir a obra
Por Mauro de Bias
     Preso político da ditadura militar, militante do PCB, deputado constituinte, torturado, guerrilheiro. Carlos Marighella (1911-1969) tem um longo histórico na luta política no Brasil. Já teve a vida retratada duas vezes no cinema e, agora, contada no livro Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras, 2012), de Mario Magalhães.
    (...) Magalhães se mostrou muito animado com a receptividade do público e contou sobre o trabalho para a produção da biografia. “Eu sou um repórter, estava com 39 anos e queria mergulhar em um projeto sem as amarras próprias de tempo e espaço de uma redação”. Ele começou o trabalho em 2003 e só terminou em 2012. Dos nove anos de trabalho, cinco foram em dedicação exclusiva à obra. “Entrevistei 256 pessoas, trabalhei com documentos da Rússia, da República Tcheca, dos Estados Unidos, do Paraguai e do Brasil. No fim do livro há 2580 notas sobre fontes. Assim, o leitor sabe qual foi a fonte de cada informação relevante sobre Marighella”, explicou o autor.

Guerrilha urbana no cinema
Por Cristina Romanelli
     “Para mim, ele era o tio Carlos, brincalhão, que fazia paródias das músicas de Roberto Carlos com os nomes dos nossos colegas. Ele sempre se escondia lá em casa. Uma vez, para explicar as ausências, inventou que tinha ido à África e trazido várias cobras dentro de caixas de sapato, para o Butantan, em São Paulo”, lembra a cineasta Isa Grinspum Ferraz. O tio de Isa era Carlos Marighella, um dos principais líderes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Em agosto, estreou um filme sobre ele, dirigido pela sobrinha.
     A produção de “Marighella” enfrentou alguns desafios logo de cara. A equipe pesquisou em Cuba, Moscou, Pequim e em vários arquivos do Brasil, mas não achou nenhuma imagem em movimento do militante. E as fotos – pouco mais de 20 – são todas do acervo da família. “Ele não podia deixar rastro. Queimavam coisas dele depois que ele saía lá de casa. Muitas pessoas que o conheceram mantiveram segredo sobre isso e só agora estão falando. Talvez por eu ser sobrinha, consegui que se abrissem comigo”, conta a diretora, que entrevistou ex-guerrilheiros e alguns parentes, como a viúva do ativista, Clara Charf, e o filho, Carlinhos Marighella.
     A pesquisa, que incluiu documentos da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e gravações feitas em Cuba nos anos 1960, rendeu descobertas interessantes. “Os documentos da CIA confirmam como a agência estava envolvida na formação de torturadores na época. Mas em outros arquivos descobrimos coisas que não conhecíamos, como um movimento de apoio na Europa. Artistas como Joan Miró e Jean-Luc Godard enviaram dinheiro para Marighella”, revela Isa.
     Segundo Daniel Aarão Reis Filho, historiador da Universidade Federal Fluminense, Marighella ganhou respeito mundo afora, em grande parte pela militância na clandestinidade e pela experiência no Partido Comunista Brasileiro. “Ele representava uma espécie de síntese das virtudes então mais consideradas entre as esquerdas radicais. Tinha audácia, decisão de partir para o enfrentamento, capacidade de trabalho prático e comunicação fácil e fluente, inclusive com os jovens. Tudo isso misturado a muita irreverência, um bom humor permanente e uma ironia cortante na crítica às velhas tendências hegemônicas. Tais virtudes fizeram com que Marighella fosse ao mesmo tempo respeitado, admirado e querido”, explica.
     Esse documentário não é o primeiro sobre o militante. Silvio Tendler já havia lançado na televisão, em 2010, “Marighella – Retrato falado do guerrilheiro”. Mas Isa quis mostrar um recorte diferente: “Perguntaram se eu não ia ouvir o outro lado dessa história, a direita política. Eu não vou gastar tempo do meu filme para falar do ponto de vista que todo mundo sabe. Estou mostrando o ponto de vista de quem conviveu com ele”.

Jorge Amado, para Carlos Marighella.

     “Chegas de longa caminhada a este teu chão natal, território de tua infância e adolescência.
     Vens de um silêncio de dez anos, de um tempo vazio, quando houve espaço e eco apenas para a mentira e a negação.
     Quando te vestiram de lama e sangue, quando pretenderam te marcar com o estigma da infâmia, quando pretenderam enterrar na maldição tua memória e teu nome.
     Para que jamais se soubesse da verdade de tua gesta, da grandeza de tua saga, do humanismo que comandou tua vida e tua morte.
     Trancaram as portas e as janelas para que ninguém percebesse tua sombra erguida, nem ouvisse tua voz, teu grito de protesto.
     Para que não frutificasses, não pudesses ser alento e esperança.
     Escreveram a história pelo avesso para que ninguém soubesse que eras pão e não erva daninha, que eras vozeiro de reivindicações e não pragas, que eras poeta do povo e não algoz.
     Cobriram-te de infâmia para que tua presença se apagasse para sempre, nunca mais fosse lembrada, desfeita em lama.
     Esquartejaram tua memória, salgaram teu nome em praça pública, foste proibido em teu país e entre os teus.
     Dez anos inteiros, ferozes, de calúnia e ódio, na tentativa de extinguir tua verdade, para que ninguém pudesse te enxergar.
     De nada adiantou tanta vileza, não passou de tentativa vã e malograda, pois aqui estás inteiro e límpido.
     Atravessaste a interminável noite da mentira e do medo, da desrazão e da infâmia, e desembarcas na aurora da Bahia, trazido por mãos de amor e de amizade.
     Aqui estás e todos te reconhecem como foste e serás para sempre: incorruptível brasileiro, um moço baiano de riso jovial e coração ardente.
     Aqui estás entre teus amigos e entre os que são tua carne e teu sangue. Vieram te receber e conversar contigo, ouvir tua voz e sentir teu coração.
     Tua luta foi contra a fome e a miséria, sonhavas com a fartura e a alegria, amavas a vida, o ser humano, a liberdade.
     Aqui estás, plantado em teu chão e frutificarás. Não tiveste tempo para ter medo, venceste o tempo do medo e do desespero.
     Antonio de Castro Alves, teu irmão de sonho, te adivinhou num verso: “era o porvir em frente do passado”.
     Estás em tua casa, Carlos; tua memória restaurada, límpida e pura, feita de verdade e amor.
     Aqui chegaste pela mão do povo. Mais vivo que nunca, Carlos”.

Texto escrito por Jorge Amado, amigo de Marighella e seu companheiro na bancada comunista da Assembleia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados entre 1946 e 1948.
Lido por Fernando Santana em 10 de dezembro de 1979 – Dia Universal dos Direitos do Homem – por ocasião do sepultamento dos restos mortais de Marighella no cemitério das Quintas, em Salvador.

Saiba Mais Documentário:
Marighella - Retrato Falado do Guerrilheiro
Carlos Marighella  autor do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, deputado constituinte em 1946 e um dos principais dirigentes do Partido Comunista. Cassado quando o partido foi posto na ilegalidade, Carlos Marighella foi um dos dirigentes da luta armada contra a ditadura militar no Brasil. Em 66, ainda no PC, propôs o caminho da guerrilha e por isso foi expulso. Fundou a Ação Libertadora Nacional, primeiro movimento armado pós-64 do país. O documentário sobre a vida desta figura polêmica da recente história do Brasil contará a trajetória do professor Marighella, do deputado Marighella, do guerrilheiro Marighella. Mas, acima de tudo, contará a história do homem Marighella.
Direção: Silvio Tendler
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 56 minutos

Clara Sharf – A Companheira de Marighella
Documentário exibido pela TV Câmara- programa Memória Política
Em 1946, uma jovem aeromoça de origem judaica filiou-se ao Partido Comunista, assumindo a tarefa de assessorar a bancada parlamentar do partido no Congresso Nacional. Conheceu, assim, o então deputado Carlos Marighela, que viria a se tornar um líder revolucionário e o maior inimigo da ditadura militar. Sua união com Marighela levou-a à vida clandestina. Em 1969, o companheiro, responsável pela criação da primeira organização de luta armada contra o regime, a Ação Libertadora Nacional (ALN), foi morto por forças policiais. Ela exilou-se em Cuba, de onde só voltou em 1979, com a anistia. Concentrou-se na luta pelo resgate de mortos e desaparecidos do regime militar e no movimento de mulheres. E escreveu seu nome na história política do Brasil: Clara Sharf.
Direção: Ivan Santos
Ano: 2003
Áudio: Português
Duração: 59 minutos

Saiba Mais – Filme:
Marighella
Líder comunista, vítima de prisões e tortura, parlamentar, autor do mundialmente traduzido “Manual do Guerrilheiro Urbano”, Carlos Marighella atuou nos principais acontecimentos políticos do Brasil entre os anos 1930 e 1969, e foi considerado o inimigo número 1 da ditadura militar brasileira. Mas quem foi esse homem, mulato baiano, poeta, sedutor, amante de samba, praia e futebol, cujo nome foi por décadas impublicável? O filme, dirigido por sua sobrinha, é uma construção histórica e afetiva desse homem que dedicou sua vida a pensar o Brasil e a transformá-lo através de sua ação.
Direção: Isa Grinspum Ferraz
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 97 minutos


Batismo de Sangue
São Paulo, fim dos anos 60. O convento dos frades dominicanos torna-se uma trincheira de resistência à ditadura militar que governa o Brasil. Movidos por ideais cristãos, os freis Tito (Caio Blat), Betto (Daniel de Oliveira), Oswaldo (Ângelo Antônio), Fernando (Léo Quintão) e Ivo (Odilon Esteves) passam a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertadora Nacional (ALN), comandado por Carlos Marighella (Marku Ribas). Eles logo passam a ser vigiados pela polícia e posteriormente são presos,  passando por terríveis torturas.
Direção: Helvécio Ratton
Ano: 2006
Áudio: Português
Duração: 112 minutos


domingo, 4 de novembro de 2012

Jango e Kennedy trocam cartas na “crise dos mísseis” em Cuba

Presidentes dos EUA e Brasil debatem o grave momento mundial diante da presença de armas nucleares em Cuba 
Por Carlos Fehlberg 
     Numa hora delicada para a política internacional, as posições dos dois presidentes, John Kennedy e João Goulart, em outubro de 1962, há quase 50 anos, são conhecidas através de uma troca de correspondências diplomáticas. Era um dos momentos mais tensos da guerra fria, quando Estados Unidos e União Soviética estiveram muito perto de um conflito. A presença de armas nucleares em Cuba criou o que passou a ser chamada de crise dos mísseis. Kennedy tratou de ouvir outros países antes de uma decisão mais forte, daí a troca de cartas entre ele e o então presidente brasileiro, João Goulart. A posição de Jango gerou uma das correspondências importantes da diplomacia brasileira. E a troca de cartas entre os dois presidentes reflete a preocupação do momento e constituem documentos históricos importantes.
De Kennedy a Jango
      “Meu caro Senhor Presidente: Encaramos a necessidade e oportunidade neste hemisfério de determinar pela nossa ação conjunta nos próximos dias, o que pode ser todo o futuro da humanidade sobre esta terra. Vossa Excelência terá a oportunidade de constatar pela minha declaração ao povo norte-americano a natureza da grave ameaça ao hemisfério Ocidental que o regime atual em Cuba permitiu à URSS estabelecer em território cubano. Porém não se trata somente de ameaça militar aos EUA. Este comportamento da URSS apesar dos nossos bem conhecidos e sempre reiterados acordos de defesa e segurança do hemisfério, não leva em conta, pela sua continuidade, minha advertência de 4 de setembro, bem conhecida por eles. Os repetidos desmentidos soviéticos, seja em declarações públicas ou em conversações privadas, de que tal ação fosse empreendida ou mesmo estava sendo contemplada, tornam, perfeitamente evidente que os soviéticos estão lançando um desafio ousado e belicoso a todos os povos livres. Devemos responder a esta ação arrogante com uma determinação unida. Senão a URSS encaminhar-se-á a violações sempre mais flagrantes das exigências da paz internacional e da liberdade até chegarmos ao momento em que não teremos muita escolha senão a rendição completa ou o desencadear de um holocausto nuclear. Devemos tomar posição hoje; o mundo inteiro está nos olhando. Assuntos sobre os quais nós no hemisfério possamos ter desacertos marginais como também divergências políticas entre nossos povos tornam-se insignificantes diante dessa ameaça à paz. Espero que nessas circunstâncias Vossa Excelência sentirá que o seu país deseja unir-se ao nosso, expressando os seus sentimentos ultrajados frente a este comportamento cubano e soviético, e que Vossa Excelência achará por bem expressar publicamente os sentimentos do seu povo. Espero também que Vossa Excelência Vossa Excelência haverá de concordar comigo na necessidade urgente de convocar uma reunião imediata do Órgão de Consulta do Sistema Interamericano sob o Pacto do Rio de Janeiro. Os EUA proporão àquele órgão, uma vez reunido, a adoção de uma resolução para tratar eficazmente desta nova e perigosa situação. O meu embaixador poderá lhe fornecer o texto proposto. É claro que a colocação de armas ofensivas com capacidade nuclear em Cuba “coloca em perigo a paz e segurança do Continente” nos termos do art. 6 daquele pacto. Estou certo de que Vossa Excelência concorda com a urgência de tal resolução. Estou também pedindo uma reunião urgente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Dei instruções ao embaixador Stevenson para apresentar, em nome dos Estados Unidos, uma resolução que peça a retirada das bases de foguetes e de outras armas ofensivas em Cuba, sob a supervisão de observadores das Nações Unidas. Eu espero que Vossa Excelência dê instruções a seu representante em Nova York para trabalhar ativamente conosco e fale diretamente em apoio ao programa na Organização das Nações Unidas. Quero convidar Vossa Excelência para que as suas autoridades militares possam conversar com os meus militares sobre a possibilidade de participação em alguma base apropriada com os EUA e outras forças do hemisfério, de qualquer ação militar que se torne necessária pelo desenvolvimento da situação em Cuba. Tenho confiança de que, por intermédio de uma aproximação comum a esta ameaça, por meio de medidas sábias, que combinem a firmeza e a limitação necessária à natureza da crise, haveremos de marchar a um novo marco de progresso para o mundo livre com reduzido receio de dominação do mundo pelo comunismo internacional. Neste termo, após indicar os perigos à paz mundial do rumo que a URSS tem seguido em Cuba, escrevi ao senhor Kruchev pedindo-lhe que sejam adotadas medidas que haverão de nos permitir retornar o caminho de negociações pacíficas”.
John Kennedy
(22-10-1962. tradução informal possivelmente elaborada pela Embaixada dos EUA)

E Jango responde:
“Brasília, 24 de outubro de 1962
      Recebi com apreço e meditei com atenção a carta em que Vossa Excelência houve por bem comunicar-me ter sido constatada a presença em território cubano, de armas ofensivas capazes de constituírem ameaça aos países deste hemisfério. Nessa carta, Vossa Excelência também solicitou o apoio do Brasil para as medidas que o seu governo proporia ao Conselho de Segurança da OEA e ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, com fundamento nas disposições do Tratado do Rio de Janeiro e da Carta de São Francisco.
Já é do seu conhecimento o pronunciamento, no primeiro desses Conselhos, do delegado do Brasil. Quero, entretanto, aproveitar o ensejo para fazer a Vossa Excelência, com a franqueza e sinceridade a que não apenas me autorizam, mas me obrigam o meu apreço pessoal por Vossa Excelência e a tradicional amizade entre nossos povos, algumas considerações, tanto sobre a posição brasileira em face do caso de Cuba, como sobre os rumos que recentemente vêm prevalecendo nas decisões da OEA.
     Vossa Excelência conhece a fidelidade inalterável do Brasil aos princípios democráticos e aos ideais da civilização ocidental. Dentro dessa fidelidade, nossos países já combateram lado alado em duas guerras mundiais, que nos custaram o sacrifício de inúmeras vidas e nos impuseram, proporcionalmente e de modo diverso, pesados prejuízos materiais.
     Os sentimentos democráticos do povo brasileiro e de seu governo são hoje por ventura, maiores e mais arraigados do que no passado, porque com o volver dos anos e a aceleração do desenvolvimento econômico, fortaleceram-se e estabilizaram-se as nossas instituições políticas, sob o princípio da supremacia da lei. Era natural que paralelamente ao fortalecimento da democracia se desenvolvesse o sentido de responsabilidade internacional, levando-nos a participar dos acontecimentos e problemas não apenas regionais, mas mundiais, para nos situarmos em face deles à luz dos nossos interesses nacionais e ditames da nossa opinião pública.
     No discurso que tive a honra de pronunciar perante o Congresso norte-americano em 4 de abril de 1962, procurei resumir e enunciar com clareza os aspectos dominantes de nossa posição nos seguintes termos:
“A ação internacional do Brasil não responde a outro objetivo senão o de favorecer, por todos os meios ao nosso alcance, a preservação e fortalecimento da paz. Acreditamos que o conflito ideológico entre o Ocidente e Oriente não poderá e não deverá ser resolvido militarmente, pois de uma guerra nuclear, se salvássemos a nossa vida, não lograríamos salvar, quer vencêssemos, quer fôssemos vencidos, a nossa razão de viver. O fim da perigosa emulação armamentista tem de ser encontrado através de convivência e da negociação. O Brasil entende que a convivência entre o mundo democrático e o mundo socialista poderá ser benéfica ao conhecimento e à integração das experiências comuns, e temos a esperança de que esses contatos evidenciem que a democracia representativa é a mais perfeita das formas de governo e a mais compatível com a proteção ao homem e a preservação de sua liberdade.”
     A defesa do princípio de autodeterminação dos povos, em sua máxima amplitude, tornou-se o ponto crucial da política externa do Brasil, não apenas por motivos de ordem jurídica, mas por nele vermos o requisito indispensável à preservação da independência e das condições próprias sob as quais se processa a evolução de cada povo. É, pois, compreensível que desagrade profundamente à consciência do povo brasileiro, qualquer forma de intervenção num estado americano inspirada alegação de incompatibilidade com o seu regime político, para lhe impor a prática do sistema representativo por meios coercitivos externos, que lhes tiram o cunho democrático e a validade. Por isso o Brasil na VIII Consulta de chanceleres americanos se opôs à imposição de sanções ao regime cubano, tanto mais que não eram, apontadas então, como só agora veio a suceder, fatos concretos em se pudesse prefigurar a eventualidade de um ataque armado.
     Ainda, agora, entretanto, Senhor Presidente, não escondo a Vossa Excelência a minha apreensão e a insatisfação do povo brasileiro pelo modo por que foi pleiteada e alcançada a decisão do Conselho da OEA, sem que se tivesse preliminarmente realizado, ou pelo menos deliberado, uma investigação in loco, e sem que se tivesse tentado através de uma negociação, como a que propusemos em fevereiro do corrente ano, o desarmamento de Cuba com a garantia recíproca de não invasão.
     Receio que nos tenhamos abeirado sem, antes esgotar todos os recursos para evitá-lo, de um risco que o povo brasileiro teme tanto como o norte-americano: o de guerra nuclear. E é na atuação de Vossa Excelência, no seu espírito declaradamente pacifista, que depositamos a esperança de que não sejam usadas contra Cuba medidas militares capazes de agravar o risco já desmedido da presente situação. Para tudo que possa significar esforço de preservação de paz, sem quebra de respeito à soberania dos povos, pode Vossa Excelência contar com a colaboração sincera do governo e do povo do Brasil.
     Não quero, porém, encerrar esta carta, senhor Presidente, asem acrescentar às considerações nela feitas a expressão de meus receios sobre o futuro imediato da OEA. Nos últimos tempos observo que as suas decisões vêm perdendo autoridade à medida que se afastam da correta aplicação das suas próprias normas estatutárias, e que são tomadas por maioria numérica com injustificável precipitação. A isso cabe acrescentar a tendência para transformar a Organização num bloco ideológico intransigente, em que, entretanto, encontram o tratamento mais benigno os regimes de exceção de caráter reacionário.
Permito-me pedir a atenção de Vossa Excelência para a violação do Art. 22 da Carta de Bogotá, que se está correndo o risco de cometer para evitar a adesão de novos Estados por motivos de ordem ideológica.
Permito-me ainda recordar a aplicação imprópria da Resolução H de Punta del Este sobre a vigilância e defesa social, que não autoriza a Organização a encomendar investigações sobre a situação interna de nenhum país, para evitar que se firam os melindres de Estados soberanos, e que agora se pretende abusivamente invocar justamente para execução de uma investigação dessa natureza. A esses casos acrescento o da criação do Colégio Interamericano de Defesa. Este órgão não pode merecer senão a nossa simpatia e cooperação, desde que se limite a apreciar problemas técnicos e de segurança externa, mas seus efeitos podem ser negativos se a titulo de problemas de segurança interna passar ele a estudar questões de competência privativa dos estudos sobre as quais convém que os militares recebam uma formação e orientação puramente nacionais.
     Estou certo de que Vossa Excelência compreenderá as razões de minha apreensão. O Brasil é um país democrático, em que o povo e o governo condenam e repelem o comunismo internacional, mas onde se fazem sentir ainda perigosas pressões reacionárias, que procuram sob o disfarce do anticomunismo defender posições sociais e privilégios econômicos, contrariando desse modo o próprio processo democrático de nossa evolução. Acredito que o mesmo se passa em outros países latino-americanos. E nada seria mais perigoso do que ver-se a OEA ser transformada em sua índole e no papel que até aqui desempenhou, para passar a servir a fins ao mesmo tempo anticomunistas e antidemocráticos, divorciando-se da opinião pública latino-americana.
     Veja Vossa Excelência, senhor Presidente, nestas considerações, que pretendia desenvolver pessoalmente, ao grato ensejo de sua visita ao Brasil, uma expressão do propósito de melhor esclarecimento mútuo sobre as aspirações e as diretrizes do povo brasileiro.
     Renovo a Vossa Excelência a certeza de minha melhor estima e apreço”.
João Goulart
(Íntegra dos dois textos foi publicada no livro de Luiz Alberto Moniz Bandeira “O governo João Goulart”.)

A tensão
     A crise dos mísseis terminaria domingo 28 de outubro de 1962, quando após os difíceis, tensos e longos entendimentos entre Kennedy e Kruschev, o governo soviético divulgou um comunicado. O governo russo, além de instruções anteriores sobre a interrupção do trabalho nos locais de construção de armas em Havana, dava nova ordem para desmontar as descritas como ofensivas, encaixotá-las e trazê-las de volta à União Soviética. Mas até chegar a essa decisão houve muito jogo diplomático com negociações em meio a um quadro de tensão. E Kennedy comunicou-se com Kruschev várias vezes, buscando e encontrando saídas. A temida terceira guerra era evitada.

Saiba Mais – Filmes:
Treze Dias Que Abalaram o Mundo
O filme relata a crise dos mísseis de Cuba. Em outubro de 1962, fotografias aéreas tiradas pelos aviões americanos que espionavam regularmente Cuba. Nessas fotos são detectados mísseis de origem soviética sendo instalados a poucas milhas da Flórida. Armas dotadas de ogivas nucleares, de médio e longo alcance que, instaladas nas terras de Fidel poderiam detonar as principais cidades do Tio Sam em poucos minutos. E o pior, sem tempo para reações de defesa ou ataque por parte das autoridades norte-americanas.
A informação restrita aos círculos mais altos da cúpula governamental norte-americana é confirmada pelo movimento de embarcações e construção de uma base em território cubano verificadas através de novas fotos. O que fazer?
"Treze dias" mostra os bastidores políticos norte-americanos quando se discutia como reagir a atitude dos soviéticos e dos cubanos. Personagens de vulto desse momento da história americana como John e Bobby Kennedy, Kenny O´Donnell (Kevin Costner), Robert MacNamara, Adlai Stevenson e a alta cúpula militar são os protagonistas de toda a trama. Manchetes de jornal de época e imagens das discussões na ONU permeadas por aparições em preto e branco do jornalista Walter Cronkyte falando dos acontecimentos aumentam ainda mais o nervosismo em relação ao desfecho dos desencontros entre russos e americanos.
A possibilidade de um conflito nuclear e, consequentemente, a destruição do planeta servem como fio condutor. Eletrizante do começo ao fim.
http://www.youtube.com/watch?v=1hW7PgbOdFcDireção: Roger Donaldson 
Ano: 2000
http://ul.to/ou80orhqÁudio: Português
Duração: 145 minutos

Che
O filme “Che” tem cerca de quatro horas de duração e é dividido em duas partes. Filmado em 2008, e dirigido por Steven Soderbergh, é uma co-produção de EUA, França e Espanha.
O roteiro é assinado por Peter Buchman, que baseou a história no livro de memórias de Ernesto Che Guevara. O personagem de Che Guevara é protagonizado pelo ator Benício Del Toro, vencedor do prêmio de melhor ator do Festival de Cannes.
O elenco ainda conta com Santiago Cabrera que interpreta Camillo Cienfuegos, Demián Bichir que interpreta Fidel Castro, e Rodrigo Santoro como Raul Castro.
O filme inicia quando Fidel e Che se conhecem num jantar familiar, decidem lutar juntos pela independência social de Cuba. Em 26 de novembro de 1956, o comandante Fidel segue de barco para Cuba acompanhado pelos rebeldes, entre eles Che Guevara, com o objetivo de lutar contra a ditadura de Fulgêncio Batista.
Che aprende a lutar no método de guerrilha, de médico é promovido a comandante e herói revolucionário.
A segunda parte do filme aborda os últimos momentos de Che Guevara na Bolívia. O filme, desde a primeira parte, é intercalado com momentos de Che Guevara em Nova York, onde concedeu entrevistas, aparições públicas e participou da convenção internacional da ONU.
As sequências em Nova York foram filmadas em preto e branco, expressando um caráter documental ao filme. O filme Che, além de cenas de ação, também mostra um comandante intelectual inspirado em ideais socialistas e que incentiva os seus comandados a respeitar os trabalhadores cubanos e a estudar.
Direção: Steven Soderbergh
Ano: 2008
Áudio: Português
Duração: 268 minutos
Che parte 1: O Argentino
Che parte 2: A Guerrilha
http://ul.to/glzfldqg