"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O adeus aos bancos centrais independentes

A mudança de paradigma dos bancos centrais na América Latina foi chamada de populista e demagógica por políticos, funcionários e colunistas do chamado primeiro mundo. Curiosamente, hoje, quando no mundo desenvolvido se sugere ou se pratica abertamente uma mudança de modelo, ninguém se lembra do epíteto. A análise é de Marcelo Justo, de Londres.
Tradução: Katarina Peixoto
     Os países desenvolvidos são velhos defensores do “faça o que digo, não faça o que eu faço”. Um artigo de fé da ortodoxia neoliberal, eixo do Consenso de Washington, era o lugar que ocupava o Banco Central em meio a um sistema financeiro e econômico desregulado. Neste marco, a independência ou autonomia do banco central era sagrada.
     A política monetária de um país devia estar em mãos de técnicos especializados e livres da influência dos governos de turno, sempre sujeitos à demagogia e à lógica do curto prazo. E o eixo central – muitas vezes exclusivo – da Carta Orgânica do Banco Central era o combate à inflação.
     A crise econômica que estourou em 2007-2008 está mudando as coisas. Com uma dívida descomunal nos Estados Unidos, Japão e em muitos países da União Europeia, com injeções de dinheiro eletrônico para sanear o sistema financeiro, os Bancos Centrais do mundo desenvolvido estão adotando um intervencionismo adaptado às necessidades dos governos. Esta mudança se reflete nos meios onde se discute cada vez mais abertamente a necessidade de esquecer o velho parâmetro e substituí-lo por um diferente adaptado à nova realidade.
     Em um artigo publicado recentemente no Financial Times, sugestivamente intitulado “A era dos bancos centrais independentes está chegando ao fim”, o economista chefe do HSBC, Stephen King, aponta nesta direção ao dizer que “não se pode seguir falando de independência dos bancos porque eles criam ganhadores e perdedores”.
     King não é uma exceção. O ex-assessor da Reserva Federal de Nova York, Zoltan Pozsar, e o economista que cunhou o termo “banca nas sombras”, Paul Mc Culley, sugeriram em um artigo sobre a emissão de dinheiro eletrônico ou aceleração quantitativa, que os bancos centrais devem trabalhar seguindo as ordens dos ministérios de finanças para coordenar medidas fiscais e monetárias que ajudem a lidar com a crise atual.
     O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, arrematou este debate dizendo que, na verdade, tratava-se de um equívoco, uma ilusão ou um engano deliberado. “Não há realmente instituições independentes. Todas têm que prestar contas. A questão é para quem”, disse Stiglitz em uma conferência na Índia neste mês de janeiro.

Gritos de batalha
     Desde a contração de crédito de 2007, a Reserva Federal nos Estados Unidos e o Banco da Inglaterra estimularam a economia e alavancaram os bancos com diversas medidas, entre elas a aceleração quantitativa, uma emissão eletrônica de dinheiro que procura expandir o crédito para estimular o setor produtivo e o consumo doméstico. O catedrático de sistemas financeiros da Universidade de Negócios de Manchester, Ismail Erturk, considera que estas medidas deixam claras as limitações do modelo autonômico bancário.
     É certo que havia uma relativa autonomia no manejo institucional dos bancos. Mas não nas nomeações em nível ideológico. Para ser presidente de um banco era preciso ser monetarista. Se o candidato fosse keynesiano estava fora. Não surpreende então que se definisse a inflação como controle de preços ao consumidor e se ignorasse o impacto que tinham outras apreciações dos preços como as bolhas especulativas imobiliárias ou financeiras. O resultado foi desastroso”, disse Erturk à Carta Maior.
     A hecatombe veio com a queda do Lehman Brothers em setembro de 2008 que forçou os governos a intervir para impedir uma corrida bancária e uma depressão mundial. O superendividamento atual do mundo desenvolvido vem desse momento. Mas nem com aquela intervenção fiscal massiva se conseguiu curar a enfermidade.
     O Banco Central Europeu (BCE) emprestou mais de um trilhão de euros aos bancos ameaçados por dívidas impagáveis contraídas na época do dinheiro fácil com o soterrado objetivo de salvar seus credores, as instituições financeiras dos países do norte, desde a Alemanha até o Reino Unido.
     A emissão de dinheiro eletrônico – a máquina impressora de cédulas deste século, tão criticada no século passado quando usada na América Latina – está na ordem do dia. Nos Estados Unidos, a emissão supera os dois trilhões de dólares. No Reino Unido, os 600 bilhões.
     O último caso deste novo intervencionismo é o Japão. Com um forte respaldo democrático das eleições de dezembro, o novo primeiro ministro japonês, Shinzo Abe, modificou a tradicional independência do Banco do Japão para comprometê-lo com seu gigantesco programa de estímulo fiscal e aumentar as metas inflacionárias que passaram de um estreito 1% para um ligeiramente mais folgado 2%.
     Para um dos mais duros defensores da ortodoxia, o presidente do Banco Central da Alemanha, Jens Weidmann, a conduta do governo japonês foi a gota que fez o copo d’água transbordar. “Nos casos do Japão e da Hungria estamos vendo uma clara ingerência na política do banco central que ameaçava a autonomia que deve reger seu funcionamento. Isso está levando a uma crescente politização de sua conduta”, disse Weidmann.


E a América Latina?
     Os países em desenvolvimento têm historicamente uma conduta mais sinuosa, flutuando entre a ortodoxia neoliberal e as próprias urgências de sua economia. Sinal de uma ruptura no consenso que predominava antes do estouro financeiro de 2008, os bancos centrais e reguladores financeiros dos chamados “países emergentes” assinaram em 2011 no México a declaração de Maya para a inclusão financeira dos setores excluídos da sociedade. O Brasil se encontrava entre os países que anunciaram iniciativas concretas para expandir o acesso ao crédito a amplas parcelas da população.
     No ano passado, Argentina e Bolívia modificaram a carta orgânica que regulamenta o funcionamento de seus bancos centrais mantendo o princípio de preservação do valor da moeda – evitando episódios inflacionários que erodissem seu valor -, mas acrescentando a seu mandato a necessidade de desenvolver políticas que contribuam ao desenvolvimento econômico e social do país. Em 2008, a nova Constituição equatoriana eliminou a autonomia do Banco Central do Equador.
     “A redefinição dos objetivos que está se ensaiando vai pelo bom caminho, mas é preciso lembrar que há limites sobre o que o um Banco Central pode realmente fazer. Além disso, na América Latina, um objetivo essencial dos bancos centrais é a questão cambial frente às flutuações que sofrem suas moedas”, assinalou Erturk.
     A mudança de paradigma dos Bancos Centrais na América Latina foi chamada de populista e demagógica por políticos, funcionários e colunistas do primeiro mundo. Curiosamente, hoje. Quando no mundo desenvolvido se sugere ou se pratica abertamente uma mudança de modelo, ninguém se lembra do epíteto.

Saiba Mais – Documentários:
A Ascensão do Dinheiro (The Ascent of Money)
Niall Ferguson é um historiador britânico especialista em história financeira e econômica. Professor de economia, de mercado financeiro e de história econômica na Universidade de Harvard. Ferguson é autor de dois livros que analisam as crises do mercado financeiro global como consequências da expansão do crédito fácil: "The cash nexus", de 2001, e "The ascent of money", de 2008.
Baseado no livro de Niall Ferguson e apresentado pelo próprio autor, “A Ascensão do Dinheiro” explica a história financeira do mundo, explorando como o dinheiro moldou o caminho do desenvolvimento humano, como nosso complexo sistema financeiro atual evoluiu através dos séculos e como a mecânica desse sistema econômico global trabalha para criar riquezas aparentemente sem limites – ou perdas catastróficas.
Ferguson viaja por vários países explicando as origens do mundo financeiro que conhecemos hoje – crédito, ações, títulos, seguros e mercado imobiliário. Na Itália, desvenda a origem do crédito e débito e nos mostra por que os sistemas de crédito são indispensáveis para qualquer civilização. Apresentando fatos históricos, Ferguson nos conta sobre o advento dos títulos de governos, os quais financiaram guerras. Traçando paralelos entre eventos históricos e atuais, explica-nos como o mercado de ações produz bolhas e porque ninguém pode efetivamente prever quando elas vão acontecer. Em Nova York, ele pede ao gênio financeiro George Soros para explicar venda a descoberto de derivativos, um conceito que Soros introduziu no mercado de ações.
Por meio dessa reveladora história, aprendemos os fundamentos econômicos que regem as hipotecas de baixa qualidade e derivativos de crédito, e entendemos como a economia chinesa provavelmente dominará o mundo.
A história do dinheiro encontra-se de fato no centro da história humana, com a força econômica determinante do controlo político, das guerras com o intuito de criar riqueza e barões financeiros que influenciam o destino de milhões.
Direção: Adrian Pennin
Ano: 2010
Áudio: Inglês / Legendado
Duração: 48 minutos cada episódio
Clique no nome do episódio para assistir on-line

Saiba Mais – Filmes:
Wall Street - Poder e Cobiça
Nova York, 1985. Bud Fox (Charlie Sheen) é um jovem e ambicioso corretor que trabalha no mercado de ações. Após várias tentativas ele consegue falar com Gordon Gekko (Michael Douglas), um inescrupuloso bilionário. Durante a conversa Bud sente que precisa dar alguma dica muito quente para ter a atenção de Gekko e então lhe fala o que seu pai, Carl Fox (Martin Sheen), um líder sindical, tinha lhe dito, que a Bluestar, a companhia aérea para a qual trabalha, ganhou um importante processo. Esta informação não foi ainda divulgada oficialmente, mas quando isto acontecer as ações terão uma significativa alta. Gekko o adota como discípulo e logo Bud trabalha secretamente para Gekko, abandonando qualquer escrúpulo, ética e meios lícitos, pois só quer enriquecer. Bud obtém sucesso, o que faz seu padrão de vida mudar. Além disto se envolve Darien Taylor (Daryl Hannah), uma decoradora em ascensão, mas se os ganhos são bem maiores, os riscos também são.
“A história é o retrato de uma época em que o mercado americano passava por uma onda de otimismo que se encerrou com a crise de 1987 e que, assim como a crise de 2008, provocou perdas para muitos investidores e despertou a ira contra Wall Street. 
Nem se cogitava na época que o problema da falta de ética e a sede de enriquecer a qualquer custo poderia ir mais longe, chegando também às empresas, como mostraram as fraudes cometidas pela companhia de energia Enron. Ou mesmo como esse mercado acabaria envenenado pela ganância que levou ao exagero da bolha das operações subprime, de empréstimos imobiliários de alto risco. Ou que o simpático e insuspeito Bernard Madoff, presidente da Nasdaq, se mostraria um golpista que manteve por anos uma pirâmide que deu prejuízos de US$ 60 bilhões a milhares de investidores”. (Angelo Pavini)
Diretor: Oliver Stone
Ano: 1987
Áudio: Português
Duração: 126 minutos

Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme
Depois de passar oito anos na cadeia por fraudes financeiras, Gordon Gekko (Michael Douglas) deixa a prisão mas ninguém esperava por ele à saída do presídio. Impossibilitado de operar no mercado financeiro, ele dedica seu tempo a realizar palestras e a escrever um livro, onde critica o comportamento de risco dos mercados. A filha, Winnie Gekko (Carey Mulligan), o culpa por várias tragédias familiares e não quer mais vê-lo. A moça namora o jovem especialista financeiro Jacob Moore (Shia LaBeouf), que admira o seu patrão Lewis Zabel. A empresa de Zabel sofre uma crise financeira enquanto Moore se encontra com Gekko que lhe fala sobre Bretton James, um influente investidor de Wall Street. Moore descobre que James foi quem causou a ruina do patrão e também foi o responsável pela longa pena de Gekko. E Moore e Gekko se aliam buscando vingança contra James.
Diretor: Oliver Stone
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 133 minutos

Saiba Mais – Links:

sábado, 26 de janeiro de 2013

Missão quase impossível

Os jesuítas se surpreenderam com a cultura nipônica. Mas para difundir o cristianismo no Japão, eles enfrentaram traições e até massacres.
     Quando entraram em contato com os japoneses, em meados do século XVI, os padres da Companhia de Jesus julgaram ter encontrado a nata dos povos ultramarinos. Tendo uma cultura fortemente marcada pelo respeito às tradições e às hierarquias, o povo nipônico animou as expectativas dos católicos de uma larga difusão do cristianismo. No entanto, não foi bem assim que aconteceu. Por cerca de um século, os missionários enfrentaram muitas resistências no Japão.
     A aproximação entre portugueses e japoneses se deu em 1543, quando comerciantes lusitanos aportaram na ilha de Tanegashima, em Kyushu, região no sul do país. No século XVI, o Japão se encontrava em processo de unificação política. No período, chamado de Sengoku-Jidai (do século XV ao XVII), o território foi dividido em várias províncias autônomas. Os mercadores souberam tirar proveito da anarquia política e do enfraquecimento do governo do xógum – líder político-militar que assessorava o imperador –, oferecendo espingardas e porcelana à aristocracia guerreira japonesa em troca de prata. Os jesuítas chegaram poucos anos depois, em 1549, mas com intenções bem mais ousadas: iniciar as missões.
     Os padres encontraram o budismo e o xintoísmo, duas tradições religiosas que se entrelaçavam na região, e, aparentemente, o cristianismo não enfrentaria nenhuma hostilidade religiosa. Auxiliados por um intérprete cristão japonês, Anjirô, cujo nome cristão era Paulo de Santa Fé, os jesuítas Francisco Xavier, Cosme de Torres e João Fernandes foram recebidos em uma embaixada pelo daimyô (aristocrata) da província de Satsuma. Quando seguiram rumo à capital do Japão, Miyako (atual Kyoto), os padres conheceram a real situação do país, que vivia um momento de fraqueza do poder imperial. Embora tivessem sido recebidos pelo xógum, sua empreitada foi malsucedida porque eles não conseguiram autorização para evangelizar o povo. Os missionários se estabeleceram, então, em Yamaguchi, na província de Suô, em Honshu, onde o padre Xavier foi autorizado a iniciar a missão.
     Para Xavier, as dificuldades com a língua e com a escrita ideográfica eram um dos obstáculos a serem enfrentados. Por isso, era preciso que os missionários aprendessem o idioma e investissem na criação de um corpo de cristãos japoneses para lhes servirem de auxiliares e intérpretes, os chamados dojukus. Experiente em lidar com a aristocracia guerreira japonesa, o jesuíta pensou na possibilidade de converter o maior número de daimyôs e de samurais, com a intenção de estimular uma reação em cadeia na sociedade japonesa, já que a população estava hierarquicamente submetida à autoridade dessas elites.
     Essa estratégia até deu certo de início, mas esbarrou em sérios problemas. Devido à autonomia das províncias e à falta de unidade do país, era difícil manter as missões em vários locais. Quando os religiosos avançavam sobre novas cidades, as anteriores eram perdidas. Outro grande entrave era que, além de serem reféns do jogo político dos daimyôs – mais interessados nas armas estrangeiras do que na diversidade religiosa –, os jesuítas eram acusados de incitar a população contra sacerdotes japoneses. Por isso, os padres foram violentamente expulsos da maioria das comunidades em que tentaram penetrar.
     Em outras regiões, o catolicismo conseguiu melhor inserção, pois os jesuítas puseram em prática suas estratégias de conversão e suas obras de caridade. O padre Luís de Almeida foi responsável pela criação de um hospital e de um orfanato na cidade de Funai, em Bungo. Outros missionários se destacaram pela confecção de imagens religiosas e de catecismos em japonês, graças às técnicas de impressão trazidas pelos próprios religiosos. Em 1563, em Kyushu, a presença cristã ganhou um importante aliado: o daimyô de Hizen, Omura Sumitada, converteu-se e foi chamado de D. Bartolomeu. No tempo em que esteve no poder, defendeu a causa cristã, mandando queimar e destruir os templos e os santuários, além de autorizar a perseguição às pessoas que se negassem ao batismo.
     Já na capital, Miyako, a vida dos padres não era confortável. Embora fundassem ali uma pequena igreja, tiveram que resistir à perseguição dos bonzos – conselheiros religiosos – e dos gentios. O xógum, após ter seu castelo invadido, acabou cometendo o seppuku – técnica de se matar cortando as próprias vísceras – em 1565. Por medida de segurança, os jesuítas foram expulsos da capital e, novamente reclusos em Kyushu, puderam dar atenção a suas antigas freguesias.
     Enquanto isso, durante a guerra civil que dividia o Japão, o daimyô Oda Nobunaga vinha se destacando nos campos de batalha. O aristocrata percebeu que poderia tirar proveito da aliança com os estrangeiros, e, seduzido pelas espingardas europeias, defendeu os jesuítas para enfraquecer o poder político dos bonzos. No tempo em que liderou a guerra, parte de Kyushu e de Honshu, a maior ilha do Japão, estiveram sob seu domínio. Nesses locais, as missões prosperaram e os jesuítas puderam voltar a pregar na capital. Os padres concentravam grande parte de sua logística no povoado de Nagasaki, cujo porto se tornou um dos mais importantes para os negócios dos mercadores na década de 1580.
     Dois jesuítas se destacaram nesse período: Luís Fróis e Alessandro Valignano. O primeiro ganhou projeção ao se esforçar na compreensão do idioma, na produção de catecismos, na confecção de livros e tratados e na redação de um grande volume de cartas – 252 no século XVI. Circulou por quase todas as áreas de atuação dos jesuítas no Japão, o que deu a ele uma visão mais ampla do fenômeno missionário. Já Valignano esteve no Japão três vezes. Na primeira visita, o padre já havia se preocupado em investir na capacitação dos dojukus, adaptando o método jesuítico aos costumes locais. Participou também dos preparativos para a criação da Santa Casa da Misericórdia de Nagasaki.
     Quando tudo parecia bem para a expansão jesuítica, Nobunaga foi traído por um membro do seu exército e cometeu oseppuku. Foi a partir daí que as relações luso-nipônicas sofreram uma reviravolta. Seu sucessor, Toyotomi Hideyoshi, alegou que a cultura cristã desarticulava as tradições do bushido – o código de conduta dos samurais – e do xintoísmo, ameaçando as estruturas de poder e as hierarquias da sociedade japonesa. Partidário de uma nova estratégia política, rompeu com os missionários ao promulgar, em 1587, o Édito de Hakata, primeiro documento anticristão japonês, que determinava a expulsão dos jesuítas da região central do país.
     A partir do Édito de Hakata, da rivalidade luso-espanhola e das demais ordens religiosas no Extremo Oriente, o monopólio dos jesuítas sobre o Japão ficou mais vulnerável. Apesar disso, o cristianismo não recuou. Em Funai, foi construída uma diocese em 1588, e Nagasaki continuou a prosperar.
     Os portugueses tentaram se aproximar de Hideyoshi, promovendo uma embaixada liderada por Valignano em 1591. Porém, a ação não surtiu o efeito esperado e o édito foi mantido. Um ano depois, quando Hideyoshi reuniu os damiyôs vassalos de Kyushu para invadir a Coreia, os dominicanos chegaram ao Japão. Para estimular a rivalidade institucional entre os jesuítas e as ordens cristãs, o regente do imperador título adotado – autorizou a presença dos franciscanos no país em 1593. Mas o radicalismo de Hideyoshi foi ainda maior: ordenou o assassinato coletivo de vinte e seis cristãos, entre os quais alguns religiosos franciscanos e jesuítas, além de leigos japoneses. Ocorrido em 1597, o episódio ficou conhecido como o primeiro Martírio de Nagasaki. A partir daí, tanto os jesuítas quanto as demais ordens religiosas sentiram-se ameaçados. Após a morte de Hideyoshi, em 1598, o daimyô Tokugawa Ieyasu assumiu o xogunato, unificando o Japão.
     Nesse novo governo, os nanban-jins, como eram conhecidos os portugueses, perderam terreno no país. Além disso, as viagens entre Macau e Nagasaki foram interrompidas pela Companhia das Índias Orientais. Em 1609, os holandeses aumentaram sua presença em Kyushu e foram autorizados por Tokugawa Hidetada, filho de Ieyasu, a estabelecer uma feitoria na região.
     As restrições à presença estrangeira e ao cristianismo deram aos japoneses convertidos uma nova característica. Após 1614, ano de publicação de outro édito anticristão, o país ficou fechado para os estrangeiros. Muitos missionários passaram a viver clandestinamente no país, chamados de kakure kirishitan (cristão escondido). Os católicos utilizaram várias técnicas para se camuflar entre a população, a fim de não levantar suspeitas. Sabe-se que essas comunidades secretas resistiram até meados de 1685, quando os Tokugawa resolveram investir definitivamente contra a presença estrangeira no Japão.

Jorge Henrique Cardoso Leão é pesquisador do Núcleo de Estudos Japoneses (UFSC) e autor da dissertação “A arte de evangelizar: jesuítas, dojukus e mediações culturais no Japão (1549-1587)” (UERJ, 2010).

Saiba Mais - Bibliografia
BOXER, Charles Ralph. The Christian Century in Japan (1549-1650). Califórnia: University of California Press, 1951.
COSTA, João Paulo de Oliveira e. Portugal e o Japão: o século Nanban. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1993.
PINTO, Ana Fernandes. Uma Imagem do Japão: a aristocracia guerreira nipônica nas Cartas Jesuíticas de Évora, 1598.Macau: Instituto Português do Oriente e Fundação Oriente, 2004.
THOMAZ, Luís Felipe. Nanban Jins: os portugueses no Japão. Lisboa: CTT Correios, 1993.

Saiba Mais - Link

Saiba Mais - Filme
Kagemusha: a sombra do samurai
No século XVI o Japão passou por uma guerra civil. Os chefes de clã ansiavam alcançar a Kyoto, a capital, cuja conquista significava a soberania sobre o Japão. Entre os mais fortes há três rivais: Shingen Takeda (Tatsuya Nakadai), Nobunaga Oda (Daisuke Ryu) e Ieyasu Tokugawa (Masayuki Yui). Em 1572, Shingen marcha em direção a Kyoto. Nobunaga e Ieyasu juntam-se para impedi-lo e são repelidos. Então Shingen cerca o forte de Ieyasu, o castelo Noda. Após dois anos de cerco, a luta ainda continua e em breve virá um inverno inclemente, que não poupará nenhum dos lados. No meio desta guerra há um segredo que poucos conhecem: trata-se de um ladrão comum que, por causa da semelhança surpreendente com Shingen, foi escolhido para fazer se passar por ele enquanto o verdadeiro Shingen fica a salvo. Porém, Shingen resolve presenciar a queda do castelo Noda e é alvejado. Surgem rumores que Shingen está morto, mas o que aconteceu é que ele foi ferido e ordenou aos seus conselheiros que, se ele vier a falecer, que sua morte seja ocultada por pelo menos três anos, que os domínios deles sejam guardados tendo o cuidado de nunca se deslocar, pois se ignorarem estas ordens e atacarem será o fim do clã Takeda. Ele pede que considerem isto como seu testamento. Seus exércitos abandonam o cerco e, enquanto retornavam, Shingen vê Kyoto e morre. Assim seu desejo é mantido e, para que seus inimigos não ataquem e as tropas se mantenham motivadas, seu sósia devidamente treinado toma seu lugar como chefe do clã. Assim por um período de três anos o kagemusha, seu sósia, é tratado por todos, inclusive pelo filho e pela amante, como se fosse o real Shingen. Só os conselheiros mais íntimos sabem a verdade, pois é importante que amigos e inimigos acreditem que Shingen está vivo. Seu sósia, que no início fazia esta tarefa com bastante insegurança, gradativamente vai aprendendo todos os sutis detalhes que compunham o modo de ser de Shingen. Assim ele cria respeito no clã Takeda e medo nos inimigos, que creem que o grande guerreiro está vivo.
Direção: Akira Kurosawa
http://ul.to/p69uwv8uAno: 1980
Áudio: Japonês/legendado
Duração: 180 minutos

Saiba Mais – Documentários
Japão - Memórias de um Império Secreto
Os japoneses têm escritas e cerimônias tão diferentes de todas outras nações. As coisas que fazem é além da imaginação e deve ser verdade o que dizem que Japão é o mundo inverso da Europa.
Para os primeiros ocidentais no Japão esse era um mundo misterioso, era a fábula da ilha de Zipangu que Marco Polo tinha apenas ouvido, a terra de riquezas que Cristóvão Colombo tinha partido para encontrar.
Quando os portugueses chegaram ao Japão em 1543 eles encontraram um país estourando em guerra civil
no meio desse caos um guerreiro samurai emergiria ele criaria um regime tão forte que durou mais de 250 anos, testemunhas desse mundo, ambos ocidentais e japoneses escreveram sobre esses tempos de mudança. Lá estão histórias da florescente cultura de rituais poéticos e de luta violenta pelo poder, é a saga da abertura comercial com a Europa e depois o fechamento das portas para o Ocidente.
Essas são memórias do império secreto do Japão.

Direção: Deborah DeSnoo, Lyn Goldfarb
Ano: 2004
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: 55 minutos/cada episódio
http://ul.to/r7ftu6p4
Episódio-01- O Estilo dos Samurais
Em meios as vindas de europeus ao Japão e ao trabalho dos Jesuítas em converter a nação ao cristianismo, Tokugawa Ieyasu, um samurai, unifica o Japão e estabelece uma dinastia que irá governar o Japão por mais de 250 anos.
Episódio-02- A Vontade do Xogum
O neto de Ieyasu, Tokugawa Iemitsu, assume os comandos japoneses e começa uma campanha para expulsar os estrangeiros do Japão.
Episódio-03- O Retorno dos Bárbaros
Isolados do Ocidente, no começo do século 18, floresce toda uma cultura e economia bem definida, tornando o Japão uma das cidades mais prósperas do mundo. Mas forças estrangeiras estão chegando. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Caça ao rato

No início do século XX, os cariocas trocavam roedores por dinheiro e ajudavam no combate à peste.
     “Rato, rato, rato!” Ao ouvir esse grito no Rio de Janeiro no início do século XX, nada de olhar para o chão nem ficar em um pé só. O melhor seria correr atrás do rato, dar-lhe uma paulada e entregá-lo ao “ratoeiro”, provável autor do grito. Esse funcionário pagava a quem recolhesse ratos na rua e revendia os animais para o governo. A simples iniciativa tirou de circulação mais de 1,6 milhão desses animais entre 1903 a 1907, diminuindo os casos de peste bubônica. Mas também aguçou a malandragem dos cariocas: muitos chegaram a fabricar ratos de papelão e cera para vender.
     A esperteza desses enganadores não era o problema mais grave. Parte da população e até alguns cientistas se recusavam a aceitar que a cidade estava assolada pela mesma peste que aterrorizou a Europa na Idade Média e no início da Idade Moderna, com muito mais mortes que no Rio de Janeiro. Segundo o escritor Daniel Defoe (1659? - 1731), só no ano de 1665, em Londres, a doença teria dizimado cerca de 68 mil pessoas de uma população total de 450 mil.
     Já no Rio de 1900, que tinha uma população de 690 mil habitantes, um pouco maior que a da capital inglesa no século XVII, 360 pessoas morreram em 1903, o pior ano da epidemia. Até 1907, foram duas mil mortes. Como era difícil estabelecer o diagnóstico e muitas famílias escondiam seus doentes, talvez este número tenha sido até maior, mas não o suficiente para impressionar a população e a comunidade científica.
     O governo do presidente Campos Sales (1898-1902) também demorou a admitir que a chegada da peste representava um perigo. A doença desembarcou no Brasil em outubro de 1899 pelo porto de Santos (SP), provavelmente trazida por algum viajante do Porto, em Portugal. A primeira vítima no Rio de Janeiro foi registrada em janeiro de 1900, mas o ministro da Justiça, Epitácio Pessoa (1865-1942), disse que o foco inicial na capital havia sido combatido “satisfatoriamente” e a doença “exterminada em seu nascedouro”. No entanto, o aparecimento de novos casos em abril, que vitimaram não só imigrantes vindos de Portugal, mas também brasileiros, levou o governo a reconhecer oficialmente, em 21 de maio, que a peste estava instalada na cidade.
     Os primeiros esforços para acabar com a doença foram pouco objetivos. A maior dificuldade era definir que tarefas cabiam à Higiene Municipal e à Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), órgão federal responsável pelo combate às grandes epidemias. O médico Nuno de Andrade (1851-1922), diretor da DGSP de 1897 a 1903, só podia dar ordens aos serviços de saúde municipais com autorização do prefeito, o que só ocorria nos momentos mais críticos das epidemias. A falta de integração entre os órgãos de saúde voltava a ser regra depois que os casos diminuíam.
     Diante dessas dificuldades, a estratégia do governo contra a peste foi a mesma usada para combater outra epidemia, a da febre amarela. Os doentes eram removidos e isolados, e suas casas e bens passavam por desinfecção ou eram destruídos. Essas medidas dificultaram a expansão da peste, mas não a exterminaram. A cada mês de agosto, um mês frio, quando as pessoas ficavam mais tempo juntas em casa, a doença voltava a atacar.
     Quando Rodrigues Alves (1848-1919) assumiu a Presidência da República em 1902, sua meta era o saneamento da capital federal. Naquele momento, o Brasil tinha como projeto político a sua modernização segundo os padrões europeus. As epidemias que atingiam o Rio de Janeiro, como a febre amarela, a varíola e a peste, eram vistas como indícios de atraso. Para mudar a situação, o presidente indicou para prefeito do Distrito Federal o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836-1913), que comandou uma ampla reforma na cidade. O sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) foi nomeado para a direção da DGSP, e assumiu o cargo em março de 1903 com total responsabilidade sobre o combate às doenças epidêmicas na capital.
     Além das medidas que já vinham sendo cumpridas, como as desinfecções e os isolamentos, Oswaldo Cruz combateu de maneira enérgica os vetores, isto é, os organismos que hospedam os vírus e as bactérias que causam as doenças. Criou as brigadas de mata-mosquitos para combater a febre amarela e a figura do caçador-comprador de ratos. Ele usou como base as descobertas do cientista franco-suíço Alexandre Yersin (1863-1943), que havia identificado o bacilo da peste em 1894, provando que sua transmissão ocorria pelas pulgas do rato. Mas a ideia de caçar esses roedores não era nova. Já havia sido testada e aprovada pelos americanos nas Filipinas.
     Os “ratoeiros” foram criados por um decreto de setembro de 1903. Eles tinham como obrigação recolher 150 ratos por mês, pelos quais recebiam 60 mil-réis, o que serviria para comprar uma cesta básica na época. O salário, considerado baixo, era um estímulo para que capturassem mais ratos, já que recebiam 300 réis por animal excedente, o que permitia comprar três cafezinhos. Por isso, não paravam de sair às ruas – principalmente na zona portuária, onde a incidência da peste era maior – munidos de ratoeiras, venenos e potes com creolina, onde colocavam os ratos capturados. E ainda levavam uma pequena corneta, que usavam para anunciar sua chegada.
     A medida criou um novo mercado e, é claro, virou tema de carnaval, como na polca “Rato, rato, rato”, composta por Casemiro da Rocha (1880-1912) em 1904 (Clique e ouça). A música usava como refrão o pregão dos ratoeiros e terminava com uma alusão ao comércio dos roedores:

 “Rato, rato, rato / Por que motivo tu roeste meu baú?
Rato, rato, rato / Audacioso e malfazejo gabiru.
Rato, rato, rato / Eu hei de ver ainda o teu dia final
A ratoeira te persiga e consiga, / Satisfazer meu ideal.
(...)
Rato velho, descarado, roedor/ Rato velho, como tu faz horror!
Vou provar-te que sou mau / Meu tostão é garantido
Não te solto nem a pau.”

     A nova profissão também foi eternizada pelo escritor Paulo Barreto (1881-1921), que assinava com o pseudônimo João do Rio, em seu livro de crônicas A alma encantadora das ruas, de 1908:
“A mais nova (...) dessas profissões, que saltam dos ralos, dos buracos, do cisco da grande cidade, é a dos ratoeiros, o agente de ratos, o entreposto entre as ratoeiras das estalagens e a Diretoria de Saúde. Ratoeiro não é um cavador – é um negociante. Passeia pela Gamboa, pelas estalagens da Cidade Nova, pelos cortiços e bibocas da parte velha da urbs, vai até ao subúrbio, tocando um cornetinha com a lata na mão. Quando está muito cansado, senta-se na calçada e espera tranquilamente a freguesia, soprando de espaço a espaço no cornetim.”
     Além de cantar e escrever sobre os ratos, alguns cariocas aproveitavam também para levar vantagem nesse comércio. Criavam os roedores em currais e até os “importavam” de cidades vizinhas, como Niterói. Entre os animais incinerados no Desinfectório Central estavam alguns feitos de papelão e cera.
     Um dos principais “empresários” deste ramo ganhou as páginas dos jornais da época. Conhecido apenas como Amaral, acabou preso pelo contrabando de ratos. Desvios como esse eram amplamente noticiados pelos jornais, que aproveitavam para criticar a iniciativa de Oswaldo Cruz.
     No entanto, os números comprovam que a campanha foi um sucesso. Nos primeiros meses em que esteve em vigor, de setembro a dezembro de 1903, de acordo com relatórios de Oswaldo Cruz, foram capturados e incinerados mais de 24 mil ratos. Já no ano seguinte, esse total chegou a quase 296 mil. Em 1907, quando a operação começou a diminuir, foi divulgado o número oficial de 1,6 milhão de ratos incinerados nos quatro anos anteriores. O cronista Luís Edmundo (1878-1961), entusiasta da reforma de Passos, afirmou que “só na zona dos bacalhoeiros da Rua do Mercado e na de certos trapiches da Saúde se conseguiu um número de ratos maior que o da população do Distrito”, que na época estava em torno de 800 mil pessoas.
     Toda essa caça teve resultados positivos: à medida que o número de ratos diminuía na cidade, a quantidade de óbitos por causa da peste declinava progressivamente, passando de 360 em 1903, quando a operação começou, para 73 em 1907. Mesmo com muita gente querendo se aproveitar da epidemia, a política foi um sucesso para a saúde pública.
Dilene Raimundo do Nascimento é pesquisadora da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz e autora do livro As pestes do século XX (Editora Fiocruz, 2005).
Matheus Alves Duarte da Silva é graduando em História pela UFRJ e bolsista de Iniciação Científica CNPq/Fiocruz, na Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
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Saiba Mais - Bibliografia
BENCHIMOL, Jaime. “Reforma urbana e revolta da vacina na cidade do Rio de Janeiro”. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucília de Almeida Neves. O Brasil republicano: o tempo do liberalismo excludente – da Proclamação da República à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
DEFOE, Daniel. Um diário do ano da peste. Porto Alegre: L&PM, 1987.
EDMUNDO, Luís. O Rio de Janeiro do meu tempo. Brasília: Conquista, 2003.
RIO, João do. A alma encantadora das ruas. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Saiba Mais – Filme
Sonhos Tropicais
No início do século XX chegam ao Rio de Janeiro, no mesmo navio Esther, uma jovem polonesa com a promessa de se casar e iniciar uma nova vida, e Oswaldo Cruz, que retorna de Paris cheio de sonhos em transformar a saúde pública do país. Esther, uma jovem judia vinda da Polônia com a promessa de se casar, mas quando chega ao Rio de Janeiro é brigada a trabalhar como prostituta em um bordel da Lapa. Esse tipo de situação era comum no inicio do século XX, pobres ou fugidas do antissemitismo acabavam se tornando prostitutas, ou por serem obrigadas ou por falta de opção, eram as chamadas “Polacas” ou “Escravas Brancas” - essa pratica só começo a decair após a década de 40. Já Oswaldo Cruz, foi nomeado chefe do departamento de Saúde Pública responsável por eliminar as várias doenças - peste bubônica, febre amarela e a varíola- que assolavam a população da cidade. Anos de insatisfação popular e forte oposição política explodem a "Revolta da Vacina".
 Direção: André Sturm
Ano: 2002
Áudio: Português/Legendado
Duração: 124 minutos

Saiba Mais – Documentário
A Peste Negra
No século 14, a peste bubônica deixou um saldo de 25 milhões de mortos e fez tantas vítimas que os corpos tinham de ser queimados em piras. Os primeiros sintomas da doença popularmente conhecida como “peste negra” eram semelhantes à de um simples resfriado. Na tentativa de fugir da peste, nobres vindos de Messina, Gênova, Marselha e Veneza lotavam navios que, em vão, tentavam desembarcar em Constantinopla. Muitos morreram em barcos à deriva. Levada para a cidade pelos ratos que saíam dos navios, a peste chegou à Turquia. O programa reconstitui o início da praga, como ela se espalhou pelo mundo e o cotidiano das pessoas que a enfrentaram.
Produção: The History Channel
Ano: 2005
Áudio: Português/Legendado
Duração: 90 min

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ofícios de outrora

Em Minas,museu dedicado ao trabalho resgata profissões derrubadas pelas indústrias.
     Por onde andam os calceteiros, tropeiros e funileiros? Varridas do mapa desde que as grandes indústrias começaram a pipocar pelo mundo, profissões como essas deixaram seu rastro no Museu de Artes e Ofícios (MAO). Com ferramentas que fazem as novas gerações franzirem a testa, o acervo conta a história da labuta desde o século XVIII aos dias de hoje.
     São mais de dois mil objetos confeccionados em madeira, ferro, couro e cerâmica. Tudo feito na munheca, conforme pediam aqueles tempos. A localização do museu é adequada: fica na Praça Rui Barbosa, s/n, Centro, colado à Estação Central de Belo Horizonte, por onde passam milhares de trabalhadores todos os dias. Visitas às terças, quintas e sextas, das 12h às 19h, fins de semana das 11h às 17h e quartas-feiras das 12h às 21h. Ingressos a R$ 4 (meia-entrada para estudantes e idosos). Aos sábados, a entrada é franca.
     Mais informações no site do MAO ou pelo telefone: (31) 3248-8600.

Telefonista
Além de solícitas, as telefonistas tinham que ser discretas: afinal, precisavam ouvir a conversa inteira dos assinantes para que, após a despedida, encerrassem a ligação.
     “Número, faz favor”, atendia a voz doce, que às vezes ouvia não o número a ser chamado, mas uma declaração de amor vinda do outro lado da linha. Além de solícitas, as telefonistas tinham que ser discretas: afinal, precisavam ouvir a conversa inteira dos assinantes para que, após a despedida, encerrassem a ligação.
     A profissão que empregou milhares de mulheres no Brasil durante a primeira metade do século XX surgiu nos Estados Unidos em 1876: no início, eram homens que faziam a conexão para as conversas quando notavam a luz piscando no painel da central telefônica. Depois a função passou a ser predominantemente feminina. Além de terem a voz suave, facilmente reconhecível nas chamadas ainda cheias de ruídos, as damas eram consideradas mais educadas e “faladoras”. Num momento em que a mulher começava a entrar no mercado de trabalho, ser telefonista não trazia muitos problemas em casa, já que o expediente tinha horário fixo e a tarefa era executada em espaço fechado, junto a outras moças.
     Durante a Segunda Guerra (1939-1945), telefonistas do mundo inteiro trabalharam dia e noite para transmitir recados urgentes, que poderiam salvar vidas. “Nesses instantes dramáticos em que o seu esforço é incompreendido, a telefonista lança ao mundo a súplica dos heróis humildes, obscuros, esquecidos”, escreveu um repórter na revista Sino Azul, em maio de 1943. Nos anos 1970, com a difusão de aparelhos eletrônicos, o serviço de telefonista começou a cair em desuso, assim como boa parte do romantismo da profissão original. Migrando para “centrais de atendimento ao cliente” de empresas, e em vez de ouvirem conversas de outras pessoas, aturam irritadas reclamações, quase sempre passando o problema adiante.

Acendedor de lampiões e Cocheiro
Profissões que desaparecem ou se transformam podem ajudar a contar a história de uma sociedade. Relembre os ofícios de acendedor de lampiões e cocheiro.

Acendedor de lampiões
     “Lá vem o acendedor de lampiões da rua!/ Parodiar o sol e associar-se à lua”, saudava o poeta Jorge de Lima em 1909. Hoje poucos sabem, mas antes de as cidades serem amplamente iluminadas pela luz elétrica, lampiões eram colocados em pontos estratégicos da cidade. E acendê-los era uma função muito apreciada.
     Os acendedores de lampiões entravam em cena no finzinho da tarde, com uma vara especial dotada de uma esponja de platina na ponta. Ao amanhecer, apagavam, limpavam os vidros e abasteciam, quando necessário. Em 1830, na cidade de São Paulo, usavam azeite como combustível. Somente na metade do século o gás chegou à capital paulista. No Rio de Janeiro, em 1850, o célebre barão de Mauá iluminou a atual Av. Presidente Vargas da mesma maneira.
     O lampião a gás foi inventado em 1792, na Inglaterra, e serviu para aumentar a jornada de trabalho nas fábricas. Mas seu impacto foi ainda maior no dia a dia das cidades. Com eles, a noite ganhou vida. Teatros, cafés, restaurantes – a vida social passou a não depender mais da luz do sol. Nas noites de lua cheia, quando era possível aproveitar a luz natural, os acendedores eram dispensados de sua função. Até que em 1879 a iluminação elétrica foi anunciada em grande escala. Durante um bom tempo, os dois sistemas coexistiram, mas, pouco a pouco, a novidade ganhou mais espaço. No último dia de 1933, seguindo o curso inevitável da modernidade, apagou-se o último candeeiro na cidade do Rio de Janeiro. Junto com ele desaparecia a simpática profissão de acendedor de lampiões.

Cocheiro
     Antes da chegada da família real, não era fácil se deslocar no Brasil. Andava-se a pé, em carros de boi ou no lombo de animais. A partir de 1808... continuou difícil. Mas, em compensação, que classe! Junto com a nobreza europeia vieram coches, carruagens, seges e cabriolets, que fizeram a alegria dos mais abastados. Para o resto da população, a única maneira de utilizar os novos meios de transporte era conseguindo o emprego de cocheiro.
     Nas décadas seguintes, a profissão ganhou espaço, com o surgimento de novas opções de transporte, como veículos coletivos e carroças. Os cocheiros estavam por toda parte, mas não tinham vida fácil. Em protesto contra os baixos salários, multas e excesso de horas trabalhadas, eles organizaram várias greves. João do Rio, em A alma encantadora das ruas (1908), descreve outros problemas: “O ofício, longe de tornar ágeis os corpos, faz lesões cardíacas, atrofia as pernas, hipertrofia os braços”.
     A chegada dos automóveis, produzidos em larga escala, praticamente decretou o sumiço dos cocheiros nos centros urbanos. Hoje eles são vistos naquelas cerimônias metidas a chiques que resolvem ressuscitar as carruagens. Provavelmente, meros atores contratados para o papel. Para encontrar um mais próximo do “original”, melhor buscar, numa cidade do interior, o clássico passeio de charrete. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Especial - Alejandro Gonzáles Iñárritu

     Mexicano nascido a 15 de agosto de 1963, na Cidade do México, apelidado de El Negro, faz parte do seleto grupo de diretores latino-americanos a atingir reconhecimento mundial nos últimos anos. Em 1984, porém, ele era apenas um DJ de uma rádio da Cidade do México. Nessa época, estudava teatro e cinema, o que o ajudou a se tornar, no final da década de 80, um produtor da Televisa, uma das maiores redes de televisão do continente. Com bons contatos e muito talento, ele conheceu o roteirista Guillermo Arriaga, com o qual assinou o script de Amores Brutos. Foi a sua primeira experiência ao dirigir um longa-metragem e se tornou também a primeira vez que ele apresentou um filme no Festival de Cannes. O filme foi também indicado ao Oscar, na categoria Melhor Filme Estrangeiro.
     Junto com Win Wenders, Sean Penn, Amos Gitai e outros grandes cineastas, dirigiu um dos onze episódios de 11´09´´01 - September 11, no qual 11 diretores faziam interpretações do atentado ao World Trade Center, em Nova York. Consagrado após apenas duas obras, ele conseguiu acesso a Hollywood e fez 21 Gramas, com o porto-riquenho Benicio Del Toro e Naomi Watts. O filme também foi aclamado. Em 2006, com Babel, o terceiro trabalho da dupla, ele venceu o Festival de Cannes.
PREMIOS:
·         Prêmio da Crítica no Festival de Cannes, por Amores perros (2000)
·         Prêmio da Crítica na Mostra Internacional de São Paulo, por Amores perros (2000)
·         Ganhou o BAFTA de Melhor Filme Estrangeiro, por Amores perros (2000)
·         Palma de Ouro em Cannes como Melhor Diretor por Babel (2006)
Filmes:
Amores Brutos (Amores Perros)
Em plena Cidade do México, um terrível acidente automobilístico ocorre. A partir deste momento, três pessoas envolvidas no acidente se encontram e têm suas vidas mudadas para sempre. Um deles é o adolescente Octavio (Gael García Bernal), que decidiu fugir com a mulher de seu irmão, Susana (Vanessa Bauche), usando seu cachorro Cofi como veículo para conseguir o dinheiro para a fuga. Ao mesmo tempo, Daniel (Álvaro Guerrero) resolve abandonar sua esposa e filhas para ir viver com Valeria (Goya Toledo), uma bela modelo por quem está apaixonado. Também se envolve no acidente Chivo (Emilio Echevarría), um ex-guerrilheiro comunista que agora atua como matador de aluguel, após passar vários anos preso. Ali, em meio ao caos, ele encontra Cofi e vê a possibilidade de sua redenção.
Direção: Alejandro G. Iñárritu
Ano: 2000
Áudio: Espanhol/Legendado
Duração: 145 minutos

21 Gramas
A exemplo do filme anterior de Arriaga e González Iñarritu, Amores brutos (2000), 21 Gramas entrelaça vários enredos, ao redor das consequências de um trágico acidente automobilístico. Penn interpreta um matemático acadêmico em estado crítico de saúde, Watts interpreta uma mãe ferida pelo luto, e del Toro interpreta um ex presidiário, convertido ao cristianismo, cuja fé é impiedosamente testada, com o resultado do acidente.
21 Gramas é apresentado em uma estrutura não-linear, onde as vidas dos personagens são retratadas antes e depois do acidente. Cada um dos três personagens principais tem 'passado', 'presente' e 'futuro', os quais são mostrados como fragmentos não-lineares que pontuam elementos da história como um todo, todos aproximando-se um dos outros e aderindo-se enquando a estória avança.
O título refere-se a uma teoria propagada na pesquisa de 1907 do físico dr. Duncan MacDougall, que se propunha a fornecer evidências científicas da existência da alma humana, através do registro de uma pequena perda de massa corpórea (representando a partida da alma) imediatamente após a morte. A pesquisa, mostrou grandes variações de resultados (21 gramas é uma quantia arbitrária; os verdadeiros resultados de MacDougall não apresentaram média confiável), e foram firmemente rejeitados pela comunidade científica, mesmo em sua época. O filme apresenta as descobertas de MacDougall como aceitas cientificamente em forma de licença poética.
Direção: Alejandro G. Iñárritu
Ano: 2003
Áudio: Dublado
Duração: 119 minutos

Babel
Um ônibus repleto de turistas atravessa uma região montanhosa do Marrocos. Entre os viajantes estão Richard (Brad Pitt) e Susan (Cate Blanchett), um casal de americanos. Ali perto os meninos Ahmed (Said Tarchani) e Youssef (Boubker At El Caid) manejam um rifle que seu pai lhes deu para proteger a pequena criação de cabras da família. Um tiro atinge o ônibus, ferindo Susan. A partir daí o filme mostra como este fato afeta a vida de pessoas em vários pontos diferentes do mundo: nos Estados Unidos, onde Richard e Susan deixaram seus filhos aos cuidados da babá mexicana; no Japão, onde um homem (Kôji Yakusho) tenta superar a morte trágica de sua mulher e ajudar a filha surda (Rinko Kinkuchi) a aceitar a perda; no México, para onde a babá (Adriana Barraza) acaba levando as crianças; e ali mesmo, no Marrocos, onde a polícia passa a procurar suspeitos de um ato terrorista.
Direção: Alejandro G. Iñárritu
Ano: 2006
Áudio: Inglês, Espanhol, árabe.../Legendado
Duração: 144 minutos

Biutiful
Catalunha. Uxbal (Javier Bardem) coordena vários negócios ilícitos, que incluem a venda de produtos nas ruas da cidade e a negociação do trabalho de um grupo de chineses, cujo custo é bem menor por não serem legalizados e viverem em condições precárias. Além disto, ele possui o dom de falar com os mortos e usa esta habilidade para cobrar das pessoas que desejam saber mais sobre seus entes que partiram há pouco tempo. Uxbal precisa conciliar sua agitada vida com o papel de pai de dois filhos, já que a mãe deles, Marambra (Maricel Álvarez), é instável. Até que, após sentir fortes dores por semanas, ele resolve ir ao hospital. Lá descobre que está com câncer e que tem poucos meses de vida.
Direção: Alejandro G. Iñárritu
Ano: 2011
Áudio: Dublado
Duração: 148 minutos

Documentário:
11 de Setembro (11’9″01 – September 11)
Após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, o produtor artístico Alain Brigand pediu a 11 diretores que contribuíssem cada um com um curta-metragem para uma coletânea que seria exibida internacionalmente. Inspirados naquele dia, todos os realizadores tiveram liberdade artística para refletir sobre o atentado, obedecendo à duração de 11 minutos, 9 segundos e 1 frame - ou 11'09''01.
Onze curta-metragens abordando diversos aspectos dos ataques terroristas aos Estados Unidos, ocorridos em 11 de setembro de 2001. Danis Tanovic e Ken Loach relacionam a data do atentado a outros acontecimentos. Tanovic lembra-se do dia 11 de julho de 1995, quando ocorreu o massacre em Srebrnica e Loach rememora que Salvador Allende foi deposto do governo chileno em 11 de setembro de 1973. Idrissa Ouedraogo realizou uma comédia reflexiva sobre Burkina Faso. Samira Makhmalbaf mostra uma professora que tenta explicar o ataque a um grupo de crianças. Sean Penn evoca a vida de uma viúva que morava à sombra das duas torres desabadas. Claude Lelouch descreve as reações de vários surdos ao evento ou que testemunharam o evento. Shonei Imamura recorre às memórias japonesas da Segunda Guerra Mundial e Mira Nair mostra os problemas das minorias étnicas. Amos Gitai dá a sua interpretação sobre o papel da mídia em uma informação de significado internacional. Alejandro González Iñárritu apresenta 11 minutos de preces na escuridão, enquanto Youssef Chahine reflete a perspectiva do Oriente Médio.
Direção: Alejandro González Iñárritu, Youssef Chahine, Amos Gitai, Shohei Imamura, Claude Lelouch, Ken Loach, Samira Makhmalbaf, Mira Nair, Idrissa Ouedraogo, Sean Penn, Danis Tanovic
Ano: 2002
Áudio: espanhol, inglês, francês, árabe, hebraico, persa/Legendado
Duração: 128 minutos

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Os Pilares da Terra (The Pillars of the Earth) Minissérie Completa.

Minissérie em 8 episódios, baseado no Best Seller de Ken Follett “Os Pilares da Terra”. O autor procura traçar o painel de um tempo varrido por conspirações, jogos intrincados de poder, violência e surgimento de uma nova ordem social e cultural, buscando captar simultaneamente o que acontece nos castelos, feiras, florestas e igrejas. É um épico sobre o bem e o mal, traição e intriga, violência e beleza. Durante esse período, é construída uma magnífica catedral em Kingsbridge, na Inglaterra. As histórias de amor e guerra entre diferentes personagens se misturam às turbulências políticas da Inglaterra do século XII, criando um mundo relevante e atual para muitas gerações.
Direção: Sergio Mimica-Gezzan
Ano: 2010
Áudio: Inglês/Legendado
Duração:+- 60 minutos cada episódio

Episódio 1 – Anarquia
Episódio 2 - Mestre Construtor
Episódio 3 - Redenção
Episódio 4 - Campo de Batalha
Episódio 5 - O Legado
Episódio 6 - Feitiçaria
Episódio 7 - Recomeço  
Episódio 8 - Obra dos Anjos