"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

domingo, 17 de fevereiro de 2013

A história secreta da renúncia de Bento XVI

Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral.
Tradução: Katarina Peixoto
     Os especialistas em assuntos do Vaticano afirmam que o Papa Bento XVI decidiu renunciar em março passado, depois de regressar de sua viagem ao México e a Cuba. Naquele momento, o papa, que encarna o que o diretor da École Pratique des Hautes Études de Paris (Sorbonne), Philippe Portier, chama “uma continuidade pesada” de seu predecessor, João Paulo II, descobriu em um informe elaborado por um grupo de cardeais os abismos nada espirituais nos quais a igreja havia caído: corrupção, finanças obscuras, guerras fratricidas pelo poder, roubo massivo de documentos secretos, luta entre facções, lavagem de dinheiro.
     Vaticano era um ninho de hienas enlouquecidas, um pugilato sem limites nem moral alguma onde a cúria faminta de poder fomentava delações, traições, artimanhas e operações de inteligência para manter suas prerrogativas e privilégios a frente das instituições religiosas.

Longe do Céu, Perto dos Pecados
     Muito longe do céu e muito perto dos pecados terrestres, sob o mandato de Bento XVI o Vaticano foi um dos Estados mais obscuros do planeta. Joseph Ratzinger teve o mérito de expor o imenso buraco negro dos padres pedófilos, mas não o de modernizar a igreja ou as práticas vaticanas.
     Bento XVI foi, como assinala Philippe Portier, um continuador da obra de João Paulo II: “desde 1981 seguiu o reino de seu predecessor acompanhando vários textos importantes que redigiu: a condenação das teologias da libertação dos anos 1984-1986; o Evangelium vitae de 1995 a propósito da doutrina da igreja sobre os temas da vida; o Splendor veritas, um texto fundamental redigido a quatro mãos com Wojtyla”. Esses dois textos citados pelo especialista francês são um compêndio prático da visão reacionária da igreja sobre as questões políticas, sociais e científicas do mundo moderno.

VatiLeaks
     O Monsenhor Georg Gänsweins, fiel secretário pessoal do papa desde 2003, tem em sua página web um lema muito paradoxal: junto ao escudo de um dragão que simboliza a lealdade o lema diz “dar testemunho da verdade”. Mas a verdade, no Vaticano, não é uma moeda corrente. Depois do escândalo provocado pelo vazamento da correspondência secreta do papa e das obscuras finanças do Vaticano, a cúria romana agiu como faria qualquer Estado. Buscou mudar sua imagem com métodos modernos. Para isso contratou o jornalista estadunidense Greg Burke, membro da Opus Dei e ex-integrante da agência Reuters, da revista Time e da cadeia Fox. Burke tinha por missão melhorar a deteriorada imagem da igreja. “Minha ideia é trazer luz”, disse Burke ao assumir o posto.

Mais:
     Muito tarde. Não há nada de claro na cúpula da Igreja Católica. A divulgação dos documentos secretos do Vaticano orquestrada pelo mordomo do papa, Paolo Gabriele, e muitas outras mãos invisíveis, foi uma operação sabiamente montada cujos detalhes seguem sendo misteriosos: operação contra o poderoso secretário de Estado, Tarcisio Bertone, conspiração para empurrar Bento XVI à renúncia e colocar em seu lugar um italiano na tentativa de frear a luta interna em curso e a avalanche de segredos, os vatileaks fizeram afundar a tarefa de limpeza confiada a Greg Burke. Um inferno de paredes pintadas com anjos não é fácil de redesenhar.
     Bento XVI acabou enrolado pelas contradições que ele mesmo suscitou. Estas são tais que, uma vez tornada pública sua renúncia, os tradicionalistas da Fraternidade de São Pio X, fundada pelo Monsenhor Lefebvre, saudaram a figura do Papa. Não é para menos: uma das primeiras missões que Ratzinger empreendeu consistiu em suprimir as sanções canônicas adotadas contra os partidários fascistóides e ultrarreacionários do Mosenhor Levebvre e, por conseguinte, legitimar no seio da igreja essa corrente retrógada que, de Pinochet a Videla, apoiou quase todas as ditaduras de ultradireita do mundo.

Obscuridade
     Bento XVI não foi o sumo pontífice da luz que seus retratistas se empenham em pintar, mas sim o contrário. Philippe Portier assinala a respeito que o papa “se deixou engolir pela opacidade que se instalou sob seu reinado”. E a primeira delas não é doutrinária, mas sim financeira. O Vaticano é um tenebroso gestor de dinheiro e muitas das querelas que surgiram no último ano têm a ver com as finanças, as contas maquiadas e o dinheiro dissimulado. Esta é a herança financeira deixada por João Paulo II, que, para muitos especialistas, explica a crise atual.
     Em setembro de 2009, Ratzinger nomeou o banqueiro Ettore Gotti Tedeschi para o posto de presidente do Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Próximo à Opus Deis, representante do Banco Santander na Itália desde 1992, Gotti Tedeschi participou da preparação da encíclica social e econômica Caritas in veritate, publicada pelo papa Bento XVI em julho passado. A encíclica exige mais justiça social e propõe regras mais transparentes para o sistema financeiro mundial. Tedeschi teve como objetivo ordenar as turvas águas das finanças do Vaticano.

Labirinto de Corrupção
     As contas da Santa Sé são um labirinto de corrupção e lavagem de dinheiro cujas origens mais conhecidas remontam ao final dos anos 80, quando a justiça italiana emitiu uma ordem de prisão contra o arcebispo norteamericano Paul Marcinkus, o chamado “banqueiro de Deus”, presidente do IOR e máximo responsável pelos investimentos do Vaticano na época. João Paulo II usou o argumento da soberania territorial do Vaticano para evitar a prisão e salvá-lo da cadeia. Não é de se estranhar, pois devia muito a ele.
     Nos anos 70, Marcinkus havia passado dinheiro “não contabilizado” do IOR para as contas do sindicato polonês Solidariedade, algo que Karol Wojtyla não esqueceu jamais. Marcinkus terminou seus dias jogando golfe em Phoenix, em meio a um gigantesco buraco negro de perdas e investimentos mafiosos, além de vários cadáveres. No dia 18 de junho de 1982 apareceu um cadáver enforcado na ponte de Blackfriars, em Londres.
     O corpo era de Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano. Seu aparente suicídio expôs uma imensa trama de corrupção que incluía, além do Banco Ambrosiano, a loja maçônica Propaganda 2 (mais conhecida como P-2), dirigida por Licio Gelli e o próprio IOR de Marcinkus.

Missão Quase Impossível
     Ettore Gotti Tedeschi recebeu uma missão quase impossível e só permaneceu três anos a frente do IOR. Ele foi demitido de forma fulminante em 2012 por supostas “irregularidades” em sua gestão. Tedeschi saiu do banco poucas horas depois da detenção do mordomo do Papa, justamente no momento em que o Vaticano estava sendo investigado por suposta violação das normas contra a lavagem de dinheiro.
     Na verdade, a expulsão de Tedeschi constitui outro episódio da guerra entre facções no Vaticano. Quando assumiu seu posto, Tedeschi começou a elaborar um informe secreto onde registrou o que foi descobrindo: contas secretas onde se escondia dinheiro sujo de “políticos, intermediários, construtores e altos funcionários do Estado”. Até Matteo Messina Dernaro, o novo chefe da Cosa Nostra, tinha seu dinheiro depositado no IOR por meio de laranjas.

Ninho de Corvos
     Aí começou o infortúnio de Tedeschi. Quem conhece bem o Vaticano diz que o banqueiro amigo do papa foi vítima de um complô armado por conselheiros do banco com o respaldo do secretário de Estado, Monsenhor Bertone, um inimigo pessoal de Tedeschi e responsável pela comissão de cardeais que fiscaliza o funcionamento do banco. Sua destituição veio acompanhada pela difusão de um “documento” que o vinculava ao vazamento de documentos roubados do papa.
     Mais do que querelas teológicas, são o dinheiro e as contas sujas do banco do Vaticano os elementos que parecem compor a trama da inédita renúncia do papa. Um ninho de corvos pedófilos, articuladores de complôs reacionários e ladrões sedentos de poder, imunes e capazes de tudo para defender sua facção. A hierarquia católica deixou uma imagem terrível de seu processo de decomposição moral. Nada muito diferente do mundo no qual vivemos: corrupção, capitalismo suicida, proteção de privilegiados, circuitos de poder que se autoalimentam, o Vaticano não é mais do que um reflexo pontual e decadente da própria decadência do sistema.

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Comoandam os princípios do Vaticano II?



sábado, 16 de fevereiro de 2013

Como andam os princípios do Vaticano II?

A assembleia que se reuniu de 1962 a 1965 em Roma trouxe ventos de primavera para o mundo católico. Especialistas avaliam a atual crise na igreja e os ecos do Concílio no mundo.
Mauro de Bias         
A assembleia que se reuniu de 1962 a 1965 em Roma trouxe ventos de primavera para o mundo católico, operando reformas e abrindo novas perspectivas. Meio século depois, que saldo restou do otimismo da época? Confirmações, enrijecimentos, mudanças de rota... Especialistas avaliam os ecos do Concílio no mundo atual.

Frei Betto, teólogo.
Aqueles que hoje comandam a Igreja Católica conservam uma visão negativa do mundo.
     A Igreja Católica se encontra em um impasse. Promoveu o Concílio Vaticano II, quando aprovou importantes mudanças estruturais, mas não levou os documentos à prática após a morte do papa Paulo VI. João Paulo II e Bento XVI simbolizam o empenho em fazer a Igreja retroceder frente ao programa conciliar. Portanto, não penso que haja necessidade de um Concílio Vaticano III, e sim que se apliquem as decisões do Vaticano II.
     Aqueles que hoje comandam a Igreja Católica conservam uma visão negativa do mundo (acusado de relativismo de valores); sentem-se incomodados com o pluralismo religioso; insistem em manter, como estrutura básica da instituição, o modelo paroquial, próprio de uma sociedade pré-moderna, na qual relações humanas eram determinadas por proximidade geográfica; miram com desconfiança a mulher, impedida de acesso ao sacerdócio, como ser ontologicamente inferior ao homem; conservam uma visão deturpada da sexualidade, a ponto de condenarem relações sexuais que não tenham como estrito objetivo a procriação dentro do matrimônio; abominam as relações homoafetivas, e têm pouca sensibilidade ao mundo da miséria e da pobreza.
     No entanto, dentro dessa mesma Igreja Católica vicejam novos modelos pastorais, como as Comunidades Eclesiais de Base e a Teologia da Libertação, que facilita a releitura da Bíblia pela ótica dos oprimidos e das mulheres.

Ana Maria Tepedino, teóloga (PUC-Rio)
Não conseguimos implementar tudo, mas há renovação dentro das igrejas, com pequenas experiências nos movimentos e comunidades.

     O Concílio visava a refletir sobre identidade e missão da Igreja Católica, buscar caminhos próprios e, com outras instituições, descobrir o que se poderia fazer pelo mundo. O Vaticano II mudou profundamente a Igreja e suas relações. Havia grande efervescência social, intelectual, política, econômica e religiosa.     
     Diante desse quadro, João XXIII convocou os bispos do mundo inteiro, professores de universidades católicas, movimentos e associações, pastores e teólogos de outras igrejas para dialogar e refletir.
Houve mudanças em relação aos leigos, agora convidados a uma participação maior e mais efetiva na Igreja. Houve mudança na linguagem, menos abstrata e mais metafórica e simbólica, que melhora a compreensão e nos chama a um novo protagonismo. E na hierarquia, a vivência de uma comunhão e corresponsabilidade maior entre os bispos. Surge uma teologia em que a Igreja é povo de Deus em comunhão, e expressa a relação de Pai, Filho e Espírito Santo, entre si e conosco, como modelo na perspectiva de abertura aos outros, da nossa relação com o transcendente, com a natureza e com a realidade.
     Muita gente gostaria de um novo concílio. Não conseguimos implementar tudo, mas há renovação dentro das igrejas, com pequenas experiências nos movimentos e comunidades, nas paróquias, nas organizações eclesiais, nas obras em que os responsáveis agem com seus dons pessoais, fazendo caminho para a experiência de Deus (espiritualidade).

Padre Sérgio Costa Couto (Arquidiocese do Rio de Janeiro)
Encontramos muito progresso, mas aqui e ali alguma coisa descarrilou. Devemos retomar seus textos, que ainda têm muito a nos falar.

     “Poucas vezes, ao longo de sua história, teve a própria Igreja, e todos os observadores de boa vontade, tão forte sensação de ser movida por uma grande esperança”. Esta observação otimista foi de Joseph Lortz, em 1965. Não é apenas a palavra de um historiador sério que reflete sobre a documentação, mas o ânimo de um padre que vivia aquele momento do Concílio Vaticano II. Segundo historiadores e testemunhas, o clima de universalidade superava as divergências.
     Os documentos, acaloradamente discutidos e emendados, eram por fim aprovados com maiorias espantosas: mais de 2.000 votos contra três ou quatro, por exemplo! Contudo, a Igreja também vive no seu tempo. Não conseguimos evitar as influências do “mundo”. Algumas são melhores do que outras. Em 1968, em pleno processo de aplicação das disposições conciliares, somos atingidos por um ambiente de revolução. Os documentos eram cada vez menos lidos, superados por um “espírito do concílio”, que, como jovem rebelde e inconsequente, recusava a própria e milenar herança.
     Nestes 50 anos, encontramos muito progresso, mas aqui e ali alguma coisa descarrilou. Devemos retomar seus textos, que ainda têm muito a nos falar. No Vaticano II, temos uma orientação para nossa época, como o Concílio de Trento o fez para a sua. Durante os pontificados de Paulo VI, João Paulo II (sobretudo) e Bento XVI não faltaram documentos urgindo, corrigindo e exortando, segundo a necessidade do momento. Quantos os conhecem? Penso ser este o problema de nosso tempo: a Igreja se expressa, mas a sua expressão chega fragmentada; cada um lê o que quer. Nossa missão é apresentar a fé cristã ao homem de hoje, mas fazê-lo com tranquilidade e sem esconder que algumas de suas exigências podem pesar, mas nunca serão impossíveis com a graça de Deus.


Novos rumos para velhos dogmas
O Concílio Vaticano II tentou manter o catolicismo sintonizado com um mundo que mudava vertiginosamente. Mas terá sido bem interpretado?
     Até a década de 1960, o padre celebrava a missa em latim e de costas para os fiéis. Neste mesmo período, a Igreja Católica afirmou que a separação entre o Estado e a religião era um fruto positivo da filosofia moderna. Estas e outras profundas transformações abalaram alguns importantes alicerces em que a Igreja de Roma se baseou a partir do século XVI, com o Concílio de Trento (1545-1563). Era a crise da identidade tridentina, levada a termo com a realização do Concílio Vaticano II (1962-1965), o maior evento religioso do século passado, a 21ª grande reunião de bispos e alguns religiosos de todo o mundo com o intuito de discutir os rumos que a Igreja deve tomar.
     A Igreja foi se isolando e se fechando desde o século XVI, primeiramente como reação ao cisma protestante, que adveio das inquietações teológicas de Martinho Lutero (1483-1546), e, posteriormente, ao pensamento liberal e à doutrina comunista. Tornava-se uma “fortaleza sitiada”, interpretando a emergência da modernidade como um grande mal que se abatia sobre o cristianismo. No século XIX e no início do XX, esta tendência foi reforçada ainda mais com os papas Gregório XVI (1831-1846), Pio IX (1846-1878) e Pio X (1903-1914), que lançaram inúmeras condenações contra os principais elementos da cultura moderna, ficando conhecida como ultramontana, “detrás os montes”, ou seja, referente àqueles que estão aquém dos Alpes, com Roma e apoiando todas as decisões do Sumo Pontífice. Porém, essa tendência passou a conviver com diferentes movimentos no seio do catolicismo que, ao contrário, defendiam uma Igreja capaz de dialogar com o mundo, mais aberta à participação do fiel em suas atividades, e que respondesse de forma mais plausível aos desafios do mundo.
     Quando o Concílio Vaticano II foi convocado, o mundo já estava bem diferente daquele dos séculos anteriores: já vira duas grandes guerras, o surgimento do nazifascismo, a emergência e a consolidação de Estados comunistas por todo o mundo, a concretização das democracias liberais, o desenvolvimento dos meios de comunicação, a liberalização moral, o pluralismo religioso e a diminuição da influência das instituições religiosas na esfera pública. O Vaticano II foi a resposta da Igreja aos novos desafios colocados pelo novo mundo que surgia. Ou seja, uma grande tentativa de atualizar a Igreja – realizar seu aggiornamento, palavra em italiano que significa atualização, muito utilizada pelos bispos e religiosos participantes do concílio.
     O fato é que este concílio se diferenciou de todos os anteriores, pois não tinha sido convocado para condenar uma forma de se pensar e agir, nem para promulgar dogmas, como acorrera nos vinte já então realizados. Em quatro anos, de 1962 a 1965, inúmeras questões doutrinais, morais e políticas foram debatidas em uma assembleia instalada na nave central da Catedral de São Pedro, no Vaticano, com a presença de milhares de bispos e religiosos, vindos dos quatro cantos do planeta. A Igreja precisava dar uma resposta a esse mundo em transformação, reafirmar seu papel na contemporaneidade e apontar novos rumos. Precisava demonstrar que não era uma instituição tradicional e milenar já sem contato com a realidade circundante e sem ressonância no mundo.
     Foram debatidos temas que mudaram significativamente o rosto do catolicismo. Pretendia-se passar de uma Igreja fechada em si mesma a uma Igreja aberta ao mundo, capaz de seguir sua missão, levando a mensagem evangélica a todos os confins do mundo, e assim aprender com ele. Uma profunda mudança de compreensão de si mesma, que ainda se continua a sentir.
     A assembleia produziu quatro constituições, nove decretos e duas declarações. Um ponto de seus documentos mais centrais, a Constituição Pastoral Gaudium et spes (07/12/1965), afirma que a Igreja “está firmemente persuadida de que pode receber preciosa e diversificada ajuda do mundo, não só dos homens em particular, mas também da sociedade, dos seus dotes e atividades (…) caminha juntamente com a humanidade inteira. Experimenta com o mundo a mesma sorte terrena”. Com essa ideia, entendia-se o mundo moderno não mais como um inimigo a ser combatido, mas – naquilo em que trazia de positivo em relação ao homem e seus maiores dramas – um aliado.
     As principais questões discutidas foram as litúrgicas, isto é, aquelas relativas aos ritos do catolicismo; questões ecumênicas, sobre as relações entre os cristãos separados; sacerdócio; a missão; a educação; o diálogo inter-religioso e a liberdade religiosa. Entre estes temas, uma nova perspectiva é assumida, consolidando a imagem de “Povo de Deus”, a imagem de todos o fiéis, que agora são compreendidos como aqueles que exercem um “sacerdócio comum nos Sacramentos”. O lugar dos leigos é elevado a uma importância jamais assumida na história do catolicismo.
     Mas o caminho que levou à promulgação dos textos finais e seus avanços foi marcado por tensões entre sensibilidades diversas no interior do concílio. Logo apareceram grupos que buscaram orientar o concílio em suas decisões. Dois deles se mostraram extremamente aguerridos para fazer valer suas posições nos resultados finais: um, mais progressista, com a presença maciça de bispos de Alemanha, Áustria, Bélgica, Holanda e da América Latina, inclusive do Brasil, como Hélder Câmara (1909-1999), que defendiam uma distensão entre a Igreja e os valores modernos; e outro, que pode ser chamado de conservador e era minoria, com a presença marcante de italianos, ligados à Cúria Romana, franceses, norte-americanos e também alguns brasileiros, como Geraldo de Proença Sigaud (1909-1999) e Antônio de Castro Mayer (1904-1991). Além destes três bispos, que desempenharam importantes papéis no concílio, o Brasil teve mais 243 representantes, entre eles José Ivo Lorscheiter (1927-2007), Jaime de Barros Câmara (1894-1971), Eugenio de Araujo Sales (1920-2012) e Clemente José Carlos Isnard (1917-2005).
     Durante as reuniões, houve um crescente embate entre essas duas concepções, que acabou resultando em um movimento de conquista das mentes dos padres conciliares a partir de palestras, encontros e até mesmo panfletagem. O grupo que saiu “vitorioso” do concílio foi aquele defensor do diálogo com o mundo moderno, reconhecido como a “maioria conciliar”, pois conseguiu inserir nos textos finais a sensibilidade que os marcava, especialmente a compreensão de que o concílio não deveria condenar abertamente nenhuma corrente moderna de pensamento. Porém, a “minoria conciliar” – desejosa, entre outras coisas, de um novo dogma mariano, da manutenção da liturgia do Concílio de Trento e de uma condenação formal do comunismo – conseguiu inserir seus posicionamentos em alguns trechos dos textos finais. 
     As resoluções conciliares foram encontrando aplicação progressiva sob o comando do papa Paulo VI nos anos que se seguiram ao final do concílio, em dezembro de 1965. Porém, as posições contrárias presentes nos debates conciliares estenderam-se ao período posterior. Por um lado, grande entusiasmo e otimismo disseminavam-se em alguns meios, e, junto de alguns deles, também posicionamentos teológicos e litúrgicos que excediam em muito as determinações do concílio. De outro, aqueles não tão otimistas, defensores de uma aplicação calma e cautelosa, além dos que, como Marcel Lefebvre e Antonio de Castro Mayer, radicalizam seu discurso assumindo uma posição anticonciliar, afirmando inclusive ser o concílio ilegítimo.
     Hoje, entre os historiadores do catolicismo, há discussões sobre os significados do Concílio Vaticano II, sua atualidade, ou se um novo concílio se faz necessário. A questão central se debruça sobre os papados de João Paulo II (1978-2005) e Bento XVI. O primeiro cumpriu e o segundo cumpre os programas do concílio? Ou, ao contrário, como defendem alguns, eles dificultaram sua aplicação ao interpretar o concílio de maneira restrita?

Rodrigo Coppe Caldeira é professor da PUC-MG e autor de Os baluartes da tradição: o conservadorismo católico brasileiro no Concílio Vaticano II (CRV, 2011).

Saiba Mais - Bibliografia
ALBERIGO, Giuseppe. Breve História do Concílio Vaticano II. Aparecida: Santuário, 2006.
BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II. São Paulo: Paulinas, 2005.

Saiba Mais – Links
Em defesa de uma Igreja Católica acuada pela Reforma Protestante, os jesuítas ganharam o mundo.
Desde o início
Cristãos-novos chegaram com portugueses no século XVI e se integraram rapidamente à sociedade da época.
Uma escolha de fé?
Em “Habemus Papam”, papa foge na hora de assumir o cargo com medo de não ser apto para liderar a Igreja. Filme faz uma leve caricatura dos bastidores do conclave e problematiza a situação da Itália hoje

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

As perseguidas

Ora lascivas, ora virtuosas, as mulheres foram estereotipadas nos romances filosóficos do século XVIII.
     Seres tomados por paixões, as mulheres não raciocinavam com a cabeça, e sim com a genitália. Pelo menos era nisso que acreditava o filósofo Denis Diderot (1713-1784), que ainda emendava: as mulheres estariam tão submetidas a seus impulsos que suas almas – se é que mulher possuía alguma – estariam em suas vaginas. Em seus escritos, ele chamava a genitália feminina, “carinhosamente”, de “joia”: “Acho que a joia leva uma mulher a fazer mil coisas sem que ela perceba. Já reparei, mais de uma vez, que uma mulher que pensava estar seguindo sua cabeça, na verdade estava obedecendo à sua joia. Um grande filósofo situava a alma masculina no cérebro. Se eu atribuísse às mulheres uma alma, sei onde a situaria.”  
     Diderot não foi o único a pensar na mulher desta forma. Boa parte dos “romances filosóficos” concebia suas personagens femininas como “emocionalmente desequilibradas” e “irascíveis em suas paixões”, mais propensas a caírem, inclusive, em um desregramento sexual. A origem desses romances, no século XVIII, está relacionada ao Iluminismo. Alguns filósofos da chamada “Época das Luzes” tentaram responder a perguntas sobre uma possível natureza feminina. Afinal, o que se vê nas mulheres que não é possível ver nos homens? Existe uma superioridade masculina com relação ao controle dos sentimentos? Quais seriam, então, os “atributos” de uma “mulher virtuosa”? Em diferentes oportunidades, os pensadores responderam a suas inquietações por meio dos chamados “romances filosóficos”.
     Além de Diderot, Montesquieu (1689-1755), Voltaire (1694-1778), Rousseau (1712-1778) e Crebillon Fils (1707-1777) fizeram dos romances importantes veículos para a divulgação das ideias e dos ideais iluministas, que criticavam a sociedade hierarquizada e a Igreja Católica. Talvez tenha sido esse um dos motivos que levaram os romances a ser tão perseguidos pela censura portuguesa no século XVIII.

Belo sexo
     Mas as Luzes – e, consequentemente, os romances – não se preocuparam apenas em avaliar e ironizar o trono e o clero. É certo que entre os temas mais abordados pelas narrativas também apareceu, de forma recorrente, a questão do feminino. Não teria sido fortuito, por exemplo, o fato de que vários romances, logo em seus títulos, já fizessem menção ao “belo sexo”. Foi o caso dos romances Teresa Filósofa (1749), de Jean-Baptiste de Boyer, o marquês d’Argens (1704-1771), A Religiosa (1760), de Denis Diderot, Júlia ou A Nova Heloísa (1761), de Rousseau, e A Princesa de Babilônia (1768), de Voltaire.
     Duas fases marcaram as opiniões dos “romances filosóficos” sobre as mulheres. Em uma fase inicial – na primeira metade do século XVIII –, as mulheres foram descritas de forma bastante pejorativa, quase sempre relacionadas a “paixões”. Mas as mulheres não eram descritas como possuidoras de uma paixão que, bem moderada, incentivava as pessoas a cumprir seus objetivos. Não! Elas eram associadas a uma “má paixão”, descontrolada, sem limites. Em suma: uma paixão que transformava os seres humanos em criaturas quase irracionais.
     Essa imagem lasciva da mulher teve importantes consequências na caracterização das personagens dos romances. Em geral, as heroínas da primeira metade do século XVIII possuíam características físicas e psicológicas – juventude, beleza e voluptuosidade – que as inclinavam “naturalmente” a viver suas paixões. Jovens, as personagens representavam uma dupla imagem: a da mulher a ser deflorada e a da menina que começava a ser impelida ao sexo por seus próprios sentidos – situação vivida, por exemplo, pela personagem Teresa, do romance Teresa Filósofa. Bonitas, elas seriam sempre desejadas e convidadas a viver suas paixões. Manon Lescaut, a sensual protagonista de A História do Cavalheiro Des Grieux e Manon Lescaut (1731), escrita pelo abade Prévost (1697-1763), é um exemplo lapidar. Voluptuosas, as mulheres estariam constantemente com suas paixões afloradas, como Fatmé, coadjuvante de Cartas Persas, romance de Montesquieu publicado em 1721 e proibido pela censura portuguesa em 1771.

Mulheres orientais
     Nessa obra, as “mulheres orientais” são descritas por Montesquieu como seres tão desejosos de sexo que, para não se “perderem”, deveriam ser trancafiadas e vigiadas, dia e noite, por eunucos. Vistas como lúbricas ao extremo, estas infelizes prisioneiras não conseguiam suportar – literalmente – a ausência do falo masculino. Somente por meio dele suas “paixões” poderiam ser temporariamente saciadas. Fatmé, ao longo de todo o romance, ilustrou bem este discurso. Presa em um serralho e distante de Usbek, seu “senhor”, ela lamentava não poder saciar os desejos que tanto a castigavam. Sofrendo com os ataques de suas paixões, Fatmé oscilava entre a resignação – a fidelidade a Usbek – e o desespero – o anseio incontrolável por sexo. Até que, no limite de sua resistência, desabafa, com rara franqueza, em carta a Usbek: “Como é infeliz a mulher que tem desejos tão violentos quando está privada do único meio de saciá-los; quando abandonada a si mesma, nada tendo que a possa distrair, ela tem de habituar-se aos suspiros e viver no furor de uma paixão irritada”.  
     Se havia interesse pela juventude e pela voluptuosidade, o mesmo não se pode dizer sobre personagens que viessem a representar os papéis de esposas e mães. Pouquíssimas obras, entre 1721 a 1760, apresentavam esse perfil. A razão parece óbvia: maternidade e matrimônio exigiam uma postura mais equilibrada das mulheres. E, definitivamente, os romances da primeira metade do século XVIII não viam, nem queriam ver, o feminino de tal forma. Interessavam-se mais pelas mulheres apaixonadas. Afinal, na opinião manifestada em alguns romances, eram as que melhor representavam a tão discutida e controvertida “natureza feminina”. Além disso, tais personagens seriam, segundo os escritores do período, mais interessantes para o público leitor. Sendo loucas em suas paixões, a possibilidade de as heroínas se envolverem em cenas lascivas seria bastante considerável. E entre ver esposas cuidando de seus afazeres domésticos e bisbilhotar belas jovens se entregando ao sexo, havia os que preferiam esta última opção.
     Uma alternativa que agradava aos leitores deveria desagradar, e muito, aos censores portugueses. Basta lembrar que boa parte dos romances proibidos foi de obras escritas e publicadas na primeira metade do século XVIII. Boa parte, mas não a totalidade. A censura portuguesa também proibiu um número considerável de obras lançadas após 1750. Dentre elas estava Júlia ou A Nova Heloísa, de Jean-Jacques Rousseau, proibida pelo Edital da Real Mesa Censória em 24 de setembro de 1770. Uma proibição que – pensando especificamente no feminino – chega a surpreender. Sob vários aspectos, a obra proibida de Rousseau se alinhava às opiniões de uma moral religiosa que era apregoada às mulheres e que os tribunais censórios portugueses tanto defendiam. Muito antes de corromper e ridicularizar valores como a virgindade, o casamento, a fidelidade conjugal, o “dever” da mulher de ser obediente ao homem – primeiro ao pai, depois ao marido – e o zelo materno, temas caros à religião católica, A Nova Heloísa os defendeu de forma explícita.

Olhar filosófico
     Romance epistolar, com narrativa desenvolvida a partir de cartas trocadas entre os personagens, A Nova Heloísa marcou outro momento dos “romances filosóficos”, com novas opiniões sobre o feminino. Nele, as mulheres não foram descritas apenas pelo ângulo das “paixões”. O “belo sexo” passava a ser relacionado também a uma ideia de virtude, que estava estreitamente ligada a três pilares: à virgindade na juventude – afinal, “o amor nas moças é indecente e escandaloso e apenas um esposo autorizaria um amante” –, ao matrimônio e à maternidade. Segundo Rousseau, quando adulta, a mulher deveria saber qual é o seu lugar. A “mulher virtuosa” seria a esposa casta e submissa e a mãe que prepara os filhos para serem educados pelos homens: “Mas há um longo caminho dos seis anos aos 20; meu filho não será sempre criança e, à medida que sua razão comece a nascer, a intenção de seu pai é de realmente a deixar exercer. Quanto a mim, minha missão não vai até lá. Alimento crianças e não tenho a presunção de querer formar homens. Espero, disse, olhando seu marido, que mãos mais dignas se encarregarão desse trabalho. Sou mulher e mãe, sei manter-me em meu lugar. Ainda uma vez, a função de que estou encarregada não é a de educar meus filhos, mas de prepará-los para serem educados”.
     Essas opiniões novamente se refletiram na caracterização das próprias personagens. Se nos romances anteriores à obra de Rousseau as heroínas não foram pensadas para viver a maternidade e o matrimônio, e sim para deixarem transparecer “os efeitos das paixões”, na Nova Heloísa a situação se inverte. Neste romance, as personagens estão envolvidas com suas futuras obrigações de mãe e esposa durante quase toda a narrativa.
     De Montesquieu a Rousseau, os “romances filosóficos” estiveram longe de propagandear uma emancipação feminina. Suas personagens bem demonstraram isso. Apaixonadas ou virtuosas, as mulheres foram sempre vistas nas obras como seres inferiores aos homens, tanto em sua capacidade psicológica quanto nos seus direitos perante a sociedade. A situação era bem difícil: se ousassem expor seus sentimentos, seriam encaradas como escravas de suas paixões. Se optassem por não abraçar a maternidade e o matrimônio, estariam se afastando da virtude. Mas, apesar de tanta resistência, as mulheres, mesmo vivendo em tal contexto, conquistaram importantes avanços. E continuam conquistando. Apaixonadas e virtuosas.    

Renato Sena Marques é autor da dissertação “O Discurso Iluminista sobre as Mulheres: paixões, “funções” e virtudes femininas em personagens de romances” (UFJF, 2011).

Saiba Mais - Bibliografia
BADINTER, Elisabeth. Émilie, Émilie – A ambição feminina no século XVIII (Paz e Terra, 2003).
CASNABET, Michèle Crampe. “A mulher no pensamento filosófico do século XVIII”. (Tradução de Maria Carvalho Torres). In: DUBY, Georges; PERROT, Michelle (orgs). História das mulheres no Ocidente, vol. 3. Porto: Edições Afrontamento; São Paulo: Ebradil, 1990.
MATOS, Luiz F. Franklin. “Livre gozo e Livre exame. Ensaios sobre a obra Les Bijoux Indiscrets, de Diderot”. In: NOVAES, Adauto (org). Libertinos Libertários. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
RIBEIRO, Renato Janine. “Literatura e Erotismo no Século XVIII francês. O caso de Teresa Filósofa”. In: NOVAES, Adauto (org). Libertinos Libertários. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
VILLALTA, Luiz Carlos. “Bibliotecas privadas e práticas de leitura no Brasil colonial”. In: www.Caminhosdo romance.iel.unicamp.br

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

'Argo' em cartaz não é coincidência

Ao olharmos para a atual conjuntura de incertezas, o filme 'Argo', de Ben Affleck, torna-se um importante componente na campanha de desinformação sobre as instabilidades no Oriente Médio. Trata-se de uma produção recheada de estereótipos que difamam o Oriente e os orientais (no caso, os iranianos), e reforçam o velho maniqueísmo hollywoodiano, baseado na “luta do bem contra o mal”.
     A estreia do longa Argo nas salas de cinema não é por acaso. O filme dirigido pelo ator norte-americano Ben Affleck já pode ser considerado um forte concorrente a muitas premiações no Oscar 2013. Ao atentarmos à atual conjuntura de incertezas e ameaças, 'Argo' torna-se um importante componente na campanha de desinformação com relação às instabilidades no Oriente Médio e no mundo. Isso porque a produção, muito elogiada por diversos especialistas, é recheada de estereótipos e clichês tendentes a difamar o Oriente e os orientais (no caso, os iranianos), e a reforçar o velho maniqueísmo hollywoodiano, baseado na “luta do bem contra o mal”.
     Muito oportunamente, há poucos dias, antes das eleições israelenses, assistimos a uma campanha movida pelo tema da “segurança” contra o Irã, e, nesse sentido, altamente favorável à expansão dos assentamentos judaicos nos territórios ocupados. Para isso, foi utilizado o seguinte slogan: “Eu não vou tirar uma família judia de seu lar”, então proferido por Naftali Bennet, candidato e idealizador de uma agremiação religiosa e ultranacionalista, o Lar Judaico. O mesmo assunto esteve, da mesma forma, presente em um dos últimos discursos do premier Benjamin Netanyahu, o qual chegou inclusive a comparar a ameaça nuclear do Irã com as atribuições da Alemanha nazista, durante a Segunda Guerra Mundial.
     O enredo de 'Argo' inicia-se no dia 4 de novembro de 1979, data da grande manifestação em frente à embaixada dos Estados Unidos em Teerã, motivada pela exigência do retorno do Xá para que fosse devidamente julgado por seus crimes. Nessa ocasião, muitos manifestantes invadiram a embaixada e sequestraram norte-americanos, que ficaram retidos por 444 dias. Para melhor entendermos os motivos da insurreição, é necessário compreender o contexto histórico sem omissões sobre a conjuntura do filme.
     Precisamente entre os anos de 1925 e 1979, as relações entre o Irã e o Ocidente foram marcadas por subordinação, pouca autonomia e muita corrupção. A dinastia Pahlavi havia sido instaurada por intermédio de um golpe militar, liderado pelo general Reza Khan. A partir de então, a dinastia iniciou um processo político caracterizado por uma relação de intensa proximidade com o Ocidente e pela falta de democracia e agenda social, o que acarretou numa série de crises sistêmicas e tensões internas na sociedade iraniana.
     O aumento dos conflitos internos desembocou na nomeação de Mohammad Mosadegh para o cargo de primeiro-ministro em 1951. Mosadegh detinha ideias nacionalistas, sobretudo com relação ao controle do petróleo. Por isso, atuou contra a exploração injusta do óleo e promoveu a nacionalização do insumo com a criação da Companhia Nacional Iraniana do Petróleo (NIOC). Atitude que irritou as potências anglo-saxãs, pois não aceitavam perder todos os benefícios anteriores. Para isso, foi instaurado imediatamente um embargo contra o país.
     Ainda por temer a ascensão de um governo comunista, principalmente com o advento da guerrilha denominada de Fedayin-e-Khalk (de ideologia marxista e islâmica) em plena Guerra Fria, e a fim de manter o fornecimento contínuo de petróleo, Estados Unidos e Grã Bretanha derrubaram o governo Mossadegh através da operação conhecida como Operação Ajax. Foi por meio dessa operação que possibilitaram a restituição de todo o poder do Xá Mohammad Reza Pahlavi, o que gerou, a parti daí, um regime muito repressivo, simbolizado na conduta da polícia secreta Savak, em 1957. O governo norte-americano tolerava todos os abusos de direitos humanos desde que mantivesse o Irã como aliado regional. Nesse ínterim, as relações políticas e comerciais com as potências ocidentais cresceram. Até mesmo com Israel o governo iraniano se aproximou.
     Houve levantes na cidade sagrada de Qom e muitas greves foram violentamente reprimidas, com um saldo de mais de mil mortos na cidade. Na capital Teerã, houve assassinatos em massa, episódio conhecido internacionalmente como a “Sexta-Feira Negra”. Todo o movimento em oposição ao regime havia sido liderado pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini, que, em decorrência disso, foi preso e exilado em 1965 no Iraque, e, por um curto período, na França.
     O projeto islâmico, por sua vez, era simbolizado pela autonomia política e o nacionalismo a partir da religião. Visava-se, portanto, um Estado que teria por base uma sociedade mais justa e, de acordo com o plano islâmico, o Irã não seria mais explorado externamente. A invasão da embaixada representou, no entanto, o rompimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e o Irã, e isso possibilitou que a sociedade iraniana se reorganizasse e eliminasse os vestígios do regime anterior e da ocidentalização do país.
     Os Estados Unidos reagiram à revolução em 1979 com a promulgação da Doutrina Carter, medida a qual visava o uso de tropas americana para a garantia do acesso ao petróleo do Golfo Pérsico, além de pressões adicionais, como o ataque de Israel (com o apoio dos Estados Unidos) a um reator nuclear em 1981, e o estímulo de intensos conflitos no Líbano, Síria e na Palestina durante a primeira Intifada em 1987. As ações israelo-americanas contra o Irã chegaram ao ápice na derrubada de um airbus civil iraniano, divulgado nos meios de comunicação como sendo “por engano”.
     O atual presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, é apontado pelos americanos como sendo um dos responsáveis pelo episódio do sequestro da embaixada, além de comprovadamente ter participado na linha de frente da revolução em 1979, o que imediatamente torna o filme 'Argo' excepcionalmente essencial para os dias de hoje.
     De acordo com a obra ‘Orientalismo’, de Edward Said, foi após a guerra árabe-israelense em 1973 que o árabe e o oriental (iraniano) apareceu como algo mais ameaçador. Muitos estereótipos eram utilizados a fim de aterrorizar o mundo ocidental, ou o “mundo civilizado”, como é dito em uma das cenas do filme, e esses povos geralmente apareciam com narizes grandes “e um olhar malévolo sobre o bigode”.
     Todos esses estereótipos surgiram em um era de crise, em 1973, portanto não é de modo algum coincidência que esses mesmo modelo continue a permear o imaginário durante a atual crise financeira que assola os Estados Unidos. É interessante manter a região do Oriente Médio, mais precisamente o Irã, sob um sentido desumanizado, o que de certo modo facilita a veiculação dos discursos ameaçadores, podendo chegar até a legitimar futuramente um possível ataque militar. Edward Said, nunca esteve tão atual.
Luciana Garcia de Oliveira integra o Grupo de Trabalho sobre o Oriente Médio e o Mundo Muçulmano do Laboratório de Estudos sobre a Ásia da Universidade de São Paulo (LEA-USP)

Saiba mais – Filme


Argo
Direção: Ben Affleck
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 120 minutos
Tamanho: 556 MB






Persépolis 
Persépolis é um filme francês de animação de 2007, baseado no romance gráfico autobiográfico homônimo de Marjane Satrapi. Sua trama começa pouco antes da Revolução Iraniana. O título é uma referência à cidade histórica de Persépolis.
Marjane é uma jovem iraniana de oito anos, que sonha em ser uma profetisa do futuro, para assim salvar o mundo. Querida pelos pais cultos e modernos e adorada pela avó, ela acompanha avidamente os acontecimentos que conduzem à queda do Xá e de seu regime brutal. A entrada da nova República Islâmica inaugura a era dos "Guardiões da Revolução", que controlam como as pessoas devem agir e se vestir. Marjane, que agora deve usar véu, deseja se transformar numa revolucionária. Mas, para tentar protegê-la, seus pais a enviam para a Áustria.
O filme estreou no Festival de Cannes de 2007, onde recebeu o prêmio do júri. Em seu discurso, Marjane disse que "apesar desse filme ser universal, eu gostaria de dedicar o prêmio a todos iranianos".
Persépolis foi escolhido pelo governo francês para representar o país na disputa ao Oscar de melhor filme estrangeiro e, apesar de não ter sido indicado na categoria, foi um dos três indicados ao prêmio de melhor filme de animação.
Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
Ano2007
Duração: 92 minutos
Áudio: Francês/Legendado
Tamanho: 313 MB

Saiba mais – Documentário
Ruins, Árabes Malvados: Como Hollywood Vilificou um Povo.
Documentário que expõe de maneira detalhada como o cinema de Hollywood, desde o início da sua história até os mais recentes blockbusters, mostrou os árabes de forma distorcida e preconceituosa. O filme tem como apresentador o aclamado autor do livro “Reel Bad Arabs”, Dr. Jack Shaheen, Professor da Universidade de Illinois e estudioso do assunto. O filme faz uma análise, baseado em uma longa lista de imagens de filmes, de como os árabes são apresentados como beduínos bandidos, mulheres submissas, homens violentos, sheiks sinistros ou idiotas perdulários, ou ainda como terroristas armados e prestes a explodir pessoas e lugares. Uma maneira brilhante de mostrar em uma narrativa bem construída, como as imagens contribuíram e contribuem para formar os estereótipos em torno dos árabes, suas origens e sua cultura. Para escrever o livro, o autor analisou mais de 900 filmes, o que possibilitou formar esta contra narrativa, reforçando a necessidade de mostrar a realidade e a riqueza da Cultura e da História Árabes. O filme foi exibido em diversos festivais nos EUA, Europa e Mundo Árabe e recebeu o apoio do Comitê Anti-Discrimição dos Árabes.
Direção: Sut Jhally
Ano2001
Duração: 51 minutos
Áudio: Inglês/Legendado
Tamanho: 566 MB


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

O adeus aos bancos centrais independentes

A mudança de paradigma dos bancos centrais na América Latina foi chamada de populista e demagógica por políticos, funcionários e colunistas do chamado primeiro mundo. Curiosamente, hoje, quando no mundo desenvolvido se sugere ou se pratica abertamente uma mudança de modelo, ninguém se lembra do epíteto. A análise é de Marcelo Justo, de Londres.
Tradução: Katarina Peixoto
     Os países desenvolvidos são velhos defensores do “faça o que digo, não faça o que eu faço”. Um artigo de fé da ortodoxia neoliberal, eixo do Consenso de Washington, era o lugar que ocupava o Banco Central em meio a um sistema financeiro e econômico desregulado. Neste marco, a independência ou autonomia do banco central era sagrada.
     A política monetária de um país devia estar em mãos de técnicos especializados e livres da influência dos governos de turno, sempre sujeitos à demagogia e à lógica do curto prazo. E o eixo central – muitas vezes exclusivo – da Carta Orgânica do Banco Central era o combate à inflação.
     A crise econômica que estourou em 2007-2008 está mudando as coisas. Com uma dívida descomunal nos Estados Unidos, Japão e em muitos países da União Europeia, com injeções de dinheiro eletrônico para sanear o sistema financeiro, os Bancos Centrais do mundo desenvolvido estão adotando um intervencionismo adaptado às necessidades dos governos. Esta mudança se reflete nos meios onde se discute cada vez mais abertamente a necessidade de esquecer o velho parâmetro e substituí-lo por um diferente adaptado à nova realidade.
     Em um artigo publicado recentemente no Financial Times, sugestivamente intitulado “A era dos bancos centrais independentes está chegando ao fim”, o economista chefe do HSBC, Stephen King, aponta nesta direção ao dizer que “não se pode seguir falando de independência dos bancos porque eles criam ganhadores e perdedores”.
     King não é uma exceção. O ex-assessor da Reserva Federal de Nova York, Zoltan Pozsar, e o economista que cunhou o termo “banca nas sombras”, Paul Mc Culley, sugeriram em um artigo sobre a emissão de dinheiro eletrônico ou aceleração quantitativa, que os bancos centrais devem trabalhar seguindo as ordens dos ministérios de finanças para coordenar medidas fiscais e monetárias que ajudem a lidar com a crise atual.
     O Prêmio Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, arrematou este debate dizendo que, na verdade, tratava-se de um equívoco, uma ilusão ou um engano deliberado. “Não há realmente instituições independentes. Todas têm que prestar contas. A questão é para quem”, disse Stiglitz em uma conferência na Índia neste mês de janeiro.

Gritos de batalha
     Desde a contração de crédito de 2007, a Reserva Federal nos Estados Unidos e o Banco da Inglaterra estimularam a economia e alavancaram os bancos com diversas medidas, entre elas a aceleração quantitativa, uma emissão eletrônica de dinheiro que procura expandir o crédito para estimular o setor produtivo e o consumo doméstico. O catedrático de sistemas financeiros da Universidade de Negócios de Manchester, Ismail Erturk, considera que estas medidas deixam claras as limitações do modelo autonômico bancário.
     É certo que havia uma relativa autonomia no manejo institucional dos bancos. Mas não nas nomeações em nível ideológico. Para ser presidente de um banco era preciso ser monetarista. Se o candidato fosse keynesiano estava fora. Não surpreende então que se definisse a inflação como controle de preços ao consumidor e se ignorasse o impacto que tinham outras apreciações dos preços como as bolhas especulativas imobiliárias ou financeiras. O resultado foi desastroso”, disse Erturk à Carta Maior.
     A hecatombe veio com a queda do Lehman Brothers em setembro de 2008 que forçou os governos a intervir para impedir uma corrida bancária e uma depressão mundial. O superendividamento atual do mundo desenvolvido vem desse momento. Mas nem com aquela intervenção fiscal massiva se conseguiu curar a enfermidade.
     O Banco Central Europeu (BCE) emprestou mais de um trilhão de euros aos bancos ameaçados por dívidas impagáveis contraídas na época do dinheiro fácil com o soterrado objetivo de salvar seus credores, as instituições financeiras dos países do norte, desde a Alemanha até o Reino Unido.
     A emissão de dinheiro eletrônico – a máquina impressora de cédulas deste século, tão criticada no século passado quando usada na América Latina – está na ordem do dia. Nos Estados Unidos, a emissão supera os dois trilhões de dólares. No Reino Unido, os 600 bilhões.
     O último caso deste novo intervencionismo é o Japão. Com um forte respaldo democrático das eleições de dezembro, o novo primeiro ministro japonês, Shinzo Abe, modificou a tradicional independência do Banco do Japão para comprometê-lo com seu gigantesco programa de estímulo fiscal e aumentar as metas inflacionárias que passaram de um estreito 1% para um ligeiramente mais folgado 2%.
     Para um dos mais duros defensores da ortodoxia, o presidente do Banco Central da Alemanha, Jens Weidmann, a conduta do governo japonês foi a gota que fez o copo d’água transbordar. “Nos casos do Japão e da Hungria estamos vendo uma clara ingerência na política do banco central que ameaçava a autonomia que deve reger seu funcionamento. Isso está levando a uma crescente politização de sua conduta”, disse Weidmann.


E a América Latina?
     Os países em desenvolvimento têm historicamente uma conduta mais sinuosa, flutuando entre a ortodoxia neoliberal e as próprias urgências de sua economia. Sinal de uma ruptura no consenso que predominava antes do estouro financeiro de 2008, os bancos centrais e reguladores financeiros dos chamados “países emergentes” assinaram em 2011 no México a declaração de Maya para a inclusão financeira dos setores excluídos da sociedade. O Brasil se encontrava entre os países que anunciaram iniciativas concretas para expandir o acesso ao crédito a amplas parcelas da população.
     No ano passado, Argentina e Bolívia modificaram a carta orgânica que regulamenta o funcionamento de seus bancos centrais mantendo o princípio de preservação do valor da moeda – evitando episódios inflacionários que erodissem seu valor -, mas acrescentando a seu mandato a necessidade de desenvolver políticas que contribuam ao desenvolvimento econômico e social do país. Em 2008, a nova Constituição equatoriana eliminou a autonomia do Banco Central do Equador.
     “A redefinição dos objetivos que está se ensaiando vai pelo bom caminho, mas é preciso lembrar que há limites sobre o que o um Banco Central pode realmente fazer. Além disso, na América Latina, um objetivo essencial dos bancos centrais é a questão cambial frente às flutuações que sofrem suas moedas”, assinalou Erturk.
     A mudança de paradigma dos Bancos Centrais na América Latina foi chamada de populista e demagógica por políticos, funcionários e colunistas do primeiro mundo. Curiosamente, hoje. Quando no mundo desenvolvido se sugere ou se pratica abertamente uma mudança de modelo, ninguém se lembra do epíteto.

Saiba Mais – Documentários:
A Ascensão do Dinheiro (The Ascent of Money)
Niall Ferguson é um historiador britânico especialista em história financeira e econômica. Professor de economia, de mercado financeiro e de história econômica na Universidade de Harvard. Ferguson é autor de dois livros que analisam as crises do mercado financeiro global como consequências da expansão do crédito fácil: "The cash nexus", de 2001, e "The ascent of money", de 2008.
Baseado no livro de Niall Ferguson e apresentado pelo próprio autor, “A Ascensão do Dinheiro” explica a história financeira do mundo, explorando como o dinheiro moldou o caminho do desenvolvimento humano, como nosso complexo sistema financeiro atual evoluiu através dos séculos e como a mecânica desse sistema econômico global trabalha para criar riquezas aparentemente sem limites – ou perdas catastróficas.
Ferguson viaja por vários países explicando as origens do mundo financeiro que conhecemos hoje – crédito, ações, títulos, seguros e mercado imobiliário. Na Itália, desvenda a origem do crédito e débito e nos mostra por que os sistemas de crédito são indispensáveis para qualquer civilização. Apresentando fatos históricos, Ferguson nos conta sobre o advento dos títulos de governos, os quais financiaram guerras. Traçando paralelos entre eventos históricos e atuais, explica-nos como o mercado de ações produz bolhas e porque ninguém pode efetivamente prever quando elas vão acontecer. Em Nova York, ele pede ao gênio financeiro George Soros para explicar venda a descoberto de derivativos, um conceito que Soros introduziu no mercado de ações.
Por meio dessa reveladora história, aprendemos os fundamentos econômicos que regem as hipotecas de baixa qualidade e derivativos de crédito, e entendemos como a economia chinesa provavelmente dominará o mundo.
A história do dinheiro encontra-se de fato no centro da história humana, com a força econômica determinante do controlo político, das guerras com o intuito de criar riqueza e barões financeiros que influenciam o destino de milhões.
Direção: Adrian Pennin
Ano: 2010
Áudio: Inglês / Legendado
Duração: 48 minutos cada episódio
Clique no nome do episódio para assistir on-line

Saiba Mais – Filmes:
Wall Street - Poder e Cobiça
Nova York, 1985. Bud Fox (Charlie Sheen) é um jovem e ambicioso corretor que trabalha no mercado de ações. Após várias tentativas ele consegue falar com Gordon Gekko (Michael Douglas), um inescrupuloso bilionário. Durante a conversa Bud sente que precisa dar alguma dica muito quente para ter a atenção de Gekko e então lhe fala o que seu pai, Carl Fox (Martin Sheen), um líder sindical, tinha lhe dito, que a Bluestar, a companhia aérea para a qual trabalha, ganhou um importante processo. Esta informação não foi ainda divulgada oficialmente, mas quando isto acontecer as ações terão uma significativa alta. Gekko o adota como discípulo e logo Bud trabalha secretamente para Gekko, abandonando qualquer escrúpulo, ética e meios lícitos, pois só quer enriquecer. Bud obtém sucesso, o que faz seu padrão de vida mudar. Além disto se envolve Darien Taylor (Daryl Hannah), uma decoradora em ascensão, mas se os ganhos são bem maiores, os riscos também são.
“A história é o retrato de uma época em que o mercado americano passava por uma onda de otimismo que se encerrou com a crise de 1987 e que, assim como a crise de 2008, provocou perdas para muitos investidores e despertou a ira contra Wall Street. 
Nem se cogitava na época que o problema da falta de ética e a sede de enriquecer a qualquer custo poderia ir mais longe, chegando também às empresas, como mostraram as fraudes cometidas pela companhia de energia Enron. Ou mesmo como esse mercado acabaria envenenado pela ganância que levou ao exagero da bolha das operações subprime, de empréstimos imobiliários de alto risco. Ou que o simpático e insuspeito Bernard Madoff, presidente da Nasdaq, se mostraria um golpista que manteve por anos uma pirâmide que deu prejuízos de US$ 60 bilhões a milhares de investidores”. (Angelo Pavini)
Diretor: Oliver Stone
Ano: 1987
Áudio: Português
Duração: 126 minutos

Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme
Depois de passar oito anos na cadeia por fraudes financeiras, Gordon Gekko (Michael Douglas) deixa a prisão mas ninguém esperava por ele à saída do presídio. Impossibilitado de operar no mercado financeiro, ele dedica seu tempo a realizar palestras e a escrever um livro, onde critica o comportamento de risco dos mercados. A filha, Winnie Gekko (Carey Mulligan), o culpa por várias tragédias familiares e não quer mais vê-lo. A moça namora o jovem especialista financeiro Jacob Moore (Shia LaBeouf), que admira o seu patrão Lewis Zabel. A empresa de Zabel sofre uma crise financeira enquanto Moore se encontra com Gekko que lhe fala sobre Bretton James, um influente investidor de Wall Street. Moore descobre que James foi quem causou a ruina do patrão e também foi o responsável pela longa pena de Gekko. E Moore e Gekko se aliam buscando vingança contra James.
Diretor: Oliver Stone
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 133 minutos

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