"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Cadê a paz?

Emboscadas, rebeliões, insurreições, batalhas e mais batalhas. Dizem que o Brasil é pacífico. Resta saber onde.
     A última vez que terras brasileiras serviram de palco para uma ação militar contra estrangeiros foi no século XIX, na Guerra do Paraguai (1864-1870). Esta afirmação pode dar a entender que o Brasil não é muito de briga, principalmente se for comparado a países que vivem em estado de alerta, como Iraque e Estados Unidos. Mas, contrariando o senso comum, esses dados não são suficientes para se reconhecer o país como pacífico. Em matéria de paz, a língua portuguesa pode provar que há uma série de termos entranhados na História do Brasil cujos significados chegam muito perto de uma guerra.
     Dependendo do contexto, alguns vocábulos podem ser considerados sinônimos – rebelião, motim, sublevação, insurreição e sedição. Mas o pesquisador português Caetano M. de F. Albuquerque já alertava, em 1911, para as diferenças de algumas expressões em seu
Diccionário Téchnico Militar de terra: “Entre batalha e combate há grande diferença: aquela envolve ao mesmo tempo uma ideia abstrata e concreta, é um ato de concepção que pode não ter completa execução; o combate é o fato material e a execução do ato de concepção”. Apesar destes significados, no mesmo verbete o autor define “batalha” como um “combate geral entre dois exércitos ou qualquer que seja sua melhor definição, não resta dúvida de que é a mais solene e grandiosa de todas as ações de guerra, a pedra de toque da capacidade dos vários comandos superiores, e Bonaparte dizia que nada desejava tanto como uma grande batalha”.
     Com nuances de significados aqui e ali – “insurreição”, por exemplo, é mais apropriado para o caso de levante contra a autoridade, e “rebelião” pode ser uma resistência à mão armada às ordens superiores –, o fato é que os brasileiros esbarram nestas palavras durante todo o período escolar. Os episódios conflituosos são tantos que está para ser lançada a quarta edição do
Dicionário das batalhas brasileiras: Dos conflitos com indígenas aos choques da reforma agrária (1996), de Hernâni Donato. O escritor, que se dedica ao tema desde a adolescência, está preparando quatrocentos novos verbetes. Quando começou a elaborar o dicionário, há cerca de 60 anos, Donato não tinha ideia de que conseguiria listar mais de dois mil episódios históricos. É que, para ele, batalhas não precisam ser aquelas que envolvem milhares de homens. “Considerando a ‘pequenez’ do evento, sempre que algumas pessoas foram à luta em defesa de uma ideia, houve uma batalha. Os conflitos agrários, por exemplo, geralmente têm poucas vítimas”, exemplifica.
     Dentre esses novos verbetes, alguns são do período da invasão holandesa em Pernambuco (1630-1654). “A cada semana descubro mais um evento da guerra contra os holandeses realizado no interior das capitanias”, diz Donato, que, diante de tanto trabalho, fica indignado com uma máxima brasileira: “Infelizmente, essa pesquisa contesta a máxima que diz que o brasileiro é pacífico”.
     Mesmo sem consultar os livros, é possível perceber esta, digamos, falta de talento para se viver em paz no Brasil. A Amazônia que o diga... Até o fechamento desta edição, cinco trabalhadores rurais haviam sido assassinados em emboscadas – mais um termo violento comum em nossa história – em menos de três semanas, e os jornais estampavam reportagens que mostravam uma tendência ao agravamento da situação.
     De acordo com o Global Peace Index (Índice de Paz Mundial), o Brasil ocupa a 74ª posição num ranking de 153 países. Numa escala mundial, isto significa que somos muito mais pacíficos do que nações como a Somália, que aparece em último lugar, Iraque (152º), Israel (145º) e Afeganistão (150º), mas não estamos tão longe assim dos Estados Unidos (84º). Se a comparação for feita com os vizinhos, o Brasil não tem do que se gabar. O Uruguai, que já foi disputado a tiros de canhão, hoje é o país mais pacífico de toda a América Latina, ocupando o 21º lugar mundial. Argentina, Paraguai e Chile também nos ultrapassam com facilidade.
     Se Poliana, a personagem otimista do clássico infanto-juvenil, soubesse disso, talvez ela recuperasse um livro do escritor Oliveira Lima (1867-1928), no qual era exaltado o caráter pacífico do país, em comparação exatamente com os nossos vizinhos. Os tempos eram outros – mais precisamente 1914 – quando ele publicou o seguinte: “O Brasil imperial constituiu um modelo de liberdade e paz para a América Latina e forneceu pelo menos uma imagem real de civilização, emanada do trono, ao tempo em que as sociedades hispano-americanas se debatiam em meio à desordem e selvajaria”.
     Mas quando Oliveira Lima fez esta afirmação, o mito já estava criado havia tempo. O Grito do Ipiranga sem derramamento de sangue, escolhido como símbolo da Independência, contribuiu para esta visão, mesmo sendo seguido por uma guerra
[Ver RHBN nº 48]. A ideia de país pacífico foi fortalecida durante a Regência (1831-1840), década em que diversas rebeliões contestaram o poder central. Associar a imagem pacifista a uma fase turbulenta da História soa, no mínimo, contraditório. No entanto, o discurso da vitória da monarquia sobre liberais e separatistas era feito “em nome da paz”. Pelo menos esta foi a conclusão a que chegou o brasilianista norte-americano Henry H. Keith. Em artigo publicado em 1970 no livro Conflito e continuidade na sociedade brasileira (Civilização Brasileira), ele se refere ao período como sendo de “paz forçada”. E chama atenção para o fato de que, durante o Império, defensores do regime, como o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), “arranjaram uma série impressionante de argumentos contra a violência rebelde e em defesa da conservadora e disciplinada tradição da monarquia”.
     O mito estava criado, atravessando o Império e chegando à República. E a tal “paz forçada” continuou sendo um recurso usado pelos governos. Em nome dela foram abafados movimentos como a Revolução Federalista (1893-1895), no Sul; Canudos (1896-1987), na Bahia; a Revolta da Chibata (1910), no Rio de Janeiro, e a Revolta do Contestado (1912-1916), no Paraná e em Santa Catarina, entre tantos outros. Já durante as ditaduras, a impressão que se tem é de que a força tinha muito mais importância do que a paz, já que tortura e assassinato eram práticas comuns.
     Keith também aponta que o historiador Sérgio Buarque de Holanda reforçou o mito da não violência quando explicou a boa índole própria do brasileiro, a teoria do “homem cordial”. Mas parece que o brasilianista não entendeu o que Buarque de Holanda desenvolveu em seu Raízes do Brasil (1936): “Nossa forma ordinária de convívio social é, no fundo, justamente o contrário da polidez”, escreveu o historiador, que ainda definiu essa mesma polidez como “um disfarce que permitirá a cada qual preservar intatas sua sensibilidade e suas emoções”. Portanto, a cordialidade não tem relação com a ideia de paz, e sim com o tratamento emocional. Por isso, nada impede que o “homem cordial” seja violento.
     Apesar de não ser polido, o Brasil tem bastante experiência em diplomacia, talvez tanta quanto tem em conflitos. A conciliação volta e meia aparece na pauta das relações exteriores do governo: em 1998, o Brasil foi um dos mediadores do acordo de paz entre Equador e Peru, envolvidos em conflitos em suas fronteiras havia décadas; em 2009, o país ofereceu apoio para a construção de um processo de paz entre israelenses e palestinos.
     Entra governo, sai governo, a tentativa de se buscar a paz permanece, pelo menos no discurso. Recentemente, na comemoração do Dia do Exército (19 de abril), a presidente Dilma Rousseff lembrou esta particularidade do país, afirmando que se trata de “um país de vocação pacífica e democrática” – atenção: ela não disse “país pacífico”. Tomara que ela esteja certa, mas, por via das dúvidas, o escritor Hernâni Donato já está treinando seu filho e seu neto para darem continuidade ao seu Dicionário de Batalhas Brasileiras.


Saiba Mais: Documentário
   Lutas.doc faz uma reflexão profunda sobre a história da sociedade brasileira e o papel da violência na formação do povo. Dirigido por Luiz Bolognesi e Daniel Augusto, o documentário tem um ritmo dinâmico e utiliza recursos de animação, trechos de filmes, informação, entrevistas e análise. Os cinco episódios combinam densidade de reflexão com linguagem acessível, uma atração especial para o público jovem.
Grandes pensadores brasileiros, personalidades da política e da cultura do país, além de outros cidadãos, abordam várias facetas da violência no Brasil. Os depoimentos são intercalados por desenho animado. Essa animação é fruto do trabalho diário de uma equipe de 60 profissionais e levou três anos para ser produzido. Com um olhar crítico e ousado, duas dezenas de entrevistados passam em revista a história da sociedade brasileira. Entre eles, os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso, a ex-senadora Marina Silva, o escritor Ferréz, índios Guarani-Kaiowá, o jornalista Gilberto Dimenstein, o líder do MST João Pedro Stédile, os historiadores John Monteiro, Laura de Mello e Souza, Pedro Puntoni e Leandro Karnal, o sociólogo Luis Mir e a filósofa Márcia Tiburi, o psicanalista Contardo Calligaris, Soninha Francine; a professora de filosofia Olgária Matos, a professora Esther Hamburger, jornalista e ex-moradora de rua Esmeralda Oritiza, professora de comunicação Esther Hamburger, o pensador José Júnior, do AffroReggae.
     Os diretores da série propõem um grande debate e tentam contar a história do Brasil que não se aprende nas escolas.
Direção: Luiz Bolognesi e Daniel Augusto
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: +- 25 minutos/cada Episódio
Ep.01 - "Guerra sem fim", com demolidora argumentação, desmonta-se a imagem do Brasil como sociedade pacífica e do brasileiro como gentil por natureza. Mostra a história da violência no Brasil, a presença da luta desde antes da chegada dos colonizadores, ou seja, é uma constante na história nacional. Mesmo antes da chegada dos europeus, as nações indígenas tinham a guerra no centro de suas culturas. São enfocados conflitos pouco conhecidos, massacres, e revistos fatos históricos à luz de um olhar crítico, que questiona a história oficial com argumentos e insights.

Ep. 02 - "Recursos humanos", volta-se para a escravidão e revela as cicatrizes sociais com suas tensões, ambiguidades e a dificuldade de passar das palavras a atos de transformação. Enfoca como era a vida dos escravos no Brasil e como eles foram tratados pelas outras classes sociais. Os escravos foram libertados no país em 1888. Entretanto, "Nunca houve uma preparação intelectual dos escravos no Brasil, como aconteceu nos Estados Unidos com a Guerra Civil", observa o historiador Eduardo Gianetti. "Levamos mais de um século para integrar escravos na força de trabalho, mas não devemos ser orgulhosos, devemos ter vergonha."

Ep. 03 - "Fábrica de verdades", mostra como a mídia, especialmente a televisão, nega a violência e a brutalidade das relações sociais. "Se você imagina que são as novelas que fazem a educação do brasileiro... É uma inversão de princípio e de realidade. Impressionante", diz a professora de filosofia, Olgária Matos. "Estamos em um país em que as pessoas não são alfabetizadas", diz o escritor Ferrez. Da mesma opinião, o jornalista Gilberto Dimenstein constata: “Em São Paulo, se você pega as pessoas formadas no ensino médio, 5% apenas têm conhecimento adequado para ler e escrever. Lamento, eu não consigo ver violência maior do que uma pessoa chegar ao final da sua adolescência e não saber ler nem escrever. Não consigo ver quantas violências são maiores do que essa. Mas ninguém liga. E não causa comoção, não causa nenhum escândalo, não causa uma indignação nacional".

Ep. 04 - "Heroína sem estátua", investiga a discriminação silenciosa das mulheres. A luta das mulheres pela igualdade de direitos na sociedade brasileira. Na avaliação do historiador Pedro Puntoni, toda revolução histórica é marcada por conflitos e, no caso da questão feminina, o papel da rebelião foi fundamental nesse processo. "A rebeldia transforma a história", analisa. Ele conclui que, na política, o brasileiro ainda é muito conservador e a visão machista perdura nas grandes decisões. Mesmo com todo o avanço das mulheres, a série constata que apenas 9% das prefeituras brasileiras são ocupadas por elas. Outro índice que ainda é um diferencial são os salários: 40% menor do que os dos homens que ocupam a mesma função. Uma das representantes da mulher na política, a ex-senadora Marina Silva reconhece o rápido aprendizado das mulheres com os homens. E garante que "se os homens não aprenderem com elas terão um grande prejuízo".

Ep. 05 - "O que vem por aí", é uma conversa sobre o futuro polarizada entre quem acha que o Brasil está em guerra civil e quem acredita que o crescimento econômico e político pode mudar a situação.

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sábado, 27 de abril de 2013

A França Antártica e Equinocial

Conflitos da França Antártica
Franceses se instalaram na Guanabara em 1555, mas diferenças religiosas enfraqueceram a empreitada. 
      Onde estava, afinal, o testamento no qual o “Pai Adão” legara o mundo às Coroas portuguesa e espanhola? Quem fez esta pergunta foi Francisco I (1494-1547), rei da França, que desafiou o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494 por Portugal e Espanha para assegurar o domínio ibérico sobre as terras do Novo Mundo. O monarca respondeu ao Tratado com uma provocação, declarando a política de mare liberum (em latim, “mar livre”). Como resultado, navios de comerciantes franceses percorreram o litoral brasileiro em meados do século XVI, criando bases de comércio ao longo da costa. Uma delas deu origem à colônia França Antártica, em 1555, situada na Baía de Guanabara, e assim batizada devido à crença de que se localizava perto do polo antártico. Doze anos depois, após um intenso combate, os portugueses conquistaram definitivamente a cidade do Rio de Janeiro.
     As forças portuguesas vitoriosas foram comandadas pelo governador-geral Mem de Sá (1500-1572), que, como o padre José de Anchieta (1534-1597), descreveu a colônia francesa como um ninho de hereges, composto exclusivamente de seguidores da Reforma Protestante. Diziam ainda que tinham sido encontrados livros sobre o protestantismo nas fortificações. Dessa forma, o combate ganhava ares de luta contra a heresia reformada, tornando-se meritório aos olhos de Deus e da comunidade católica. Mais que uma disputa territorial, a expulsão dos franceses se tornava uma guerra santa.
     Esses relatos portugueses foram usados mais tarde pelo historiador Francisco Adolfo Varnhagen (1816-1878) na elaboração de sua obra História do Brasil, escrita no século XIX. A ideia de uma França Antártica formada exclusivamente por protestantes foi confirmada pelo autor e propagada entre diversos historiadores brasileiros. Mas as narrativas francesas sobre o episódio mostram o contrário: a colônia abrigava diferentes tendências religiosas, e essa variedade causara conflitos internos que dividiram a comunidade. De fato, na Europa a Reforma protestante revolucionava a experiência religiosa em diversas terras e gerava grandes oposições. No âmbito francês, destacava-se a liderança de João Calvino (1509-1564), exilado em Genebra, de onde exercia grande influência, principalmente teológica, sendo suas intervenções no campo político pouco significativas.
     A versão dos derrotados diz que, em 1555, o monarca francês Henrique II (1519-1559) concedeu ao experiente militar Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1572) a elevada quantia de dez mil libras tornesas para conduzir uma esquadra da França ao Brasil. Nascido em família de nobreza recente, Villegagnon tornou-se cavaleiro da Ordem de Malta, organização militar e religiosa fundada no tempo das Cruzadas. Após uma longa ascensão social, ocupou o posto de vice-almirante da Bretanha.
     Os adversários protestantes de Villegagnon diriam mais tarde que o cavaleiro tinha se convertido à Reforma e desejava fundar um refúgio no Novo Mundo, onde seria possível “melhor servir a Deus”. De acordo com essa ideia, Villegagnon teria aderido ao protestantismo e depois traído a religião. Mas ao partir da Europa, sua companhia não deixava perceber nenhuma predileção religiosa. A bordo estavam o piloto adepto da Reforma Nicolas Barré (? –1562) e o cosmógrafo franciscano André Thévet (1504-1592).
     Após meses de viagem, em março de 1556 os navios franceses comandados por Villegagnon chegaram à Guanabara. Os viajantes ocuparam a ilha de Serigipe, iniciando a construção do Forte Coligny, assim batizado em homenagem a Gaspar de Coligny (1519-1572), almirante de França e um dos incentivadores do projeto.
     Segundo os primeiros relatos de Thévet e Barré, publicados em1557 na Europa, o convívio entre católicos e protestantes foi inicialmente pacífico. A relação amistosa com os índios tupinambás também foi fundamental para a consolidação da colônia. Os nativos forneciam alimentos e água aos franceses, pois a ilha de Serigipe, escolhida por razões puramente militares, não possuía fonte de água doce. Em troca, os indígenas obtinham mercadorias europeias, especialmente instrumentos de ferro.
     A comunicação com os índios era feita pelos trugimães, franceses que conviviam com os indígenas havia anos, tendo aprendido sua língua e seus hábitos. Mas em pouco tempo esses intérpretes entrariam em conflito com os novos colonos. Villegagnon exigiu que todos os homens que desejassem manter relações sexuais com as índias se casassem com elas. Os trugimães, que viviam na terra em contato com as mulheres nativas havia muito tempo, foram contra. Fez-se um complô contra os chefes da colônia para matá-los, mas o plano foi descoberto a tempo, permitindo a captura dos organizadores do motim e a morte dos líderes.
     Os meses seguintes de 1556 transcorreram sem sobressaltos, mas em março de 1557, uma comitiva de adeptos da Reforma, liderada pelo nobre Du Pont e por dois pastores, Pierre Richer e Guillaume Chartier, chegou à Guanabara vinda de Genebra. Eram convidados do almirante francês Gaspar de Coligny, que se convertera ao protestantismo. A iniciativa foi orientada pelo líder reformador João Calvino. Entre os recém-chegados também estava o huguenote Jean de Léry (1534-1611), que, após retornar à Europa, escreveu o relato História de uma viagem feita à Terra do Brasil, uma das mais importantes obras sobre a França Antártica.
     Inicialmente, o relacionamento entre o chefe da colônia e a comitiva de Du Pont foi amistoso, segundo as cartas de Villegagnon e dos pastores a Calvino. Porém, menos de um mês após a chegada dos protestantes, surgiu um conflito relacionado à celebração do culto de Páscoa. Para os católicos, o pão se transformava realmente no corpo de Cristo durante o ritual, enquanto para os protestantes seria apenas um símbolo da presença do filho de Deus. Para Villegagnon, a comunhão era uma das bases do poder real, e a negação da presença do corpo de Cristo abalava as bases em que a monarquia se apoiava.
     Num primeiro momento, os grupos em litígio tentaram chegar a um acordo. O pastor Guillaume Chartier foi enviado de volta à Europa para consultar Calvino sobre o tema. Mas os debates não se resolviam, e a divergência religiosa foi tamanha que no fim de 1557 a comitiva de Genebra retornou à Europa. Contudo, o navio começou a afundar quando estava ainda na altura de Cabo Frio, e cinco genebrinos resolveram voltar de bote. Os náufragos foram recebidos por Villegagnon, que executou três por afogamento poucos dias depois. Segundo Jean Crespin (1523-1572), célebre editor militante reformado, autor de importante martirológio protestante, os três eram mártires da causa reformada, condenados por razões religiosas. Mas para o cavaleiro de Malta, os ditos “mártires” teriam provocado tumultos, incitando os colonos à insurreição e, dessa forma, sua condenação se dava exclusivamente por motivos civis.
     O resto da comitiva seguiu para a Europa num navio em condições precárias. Segundo Jean de Léry, a viagem se prolongou além do esperado e os viajantes foram obrigados a devorar os macacos e papagaios que transportavam e, em seguida, os ratos. Por fim, hidrataram e comeram seus utensílios de couro. Muitos morreram de fome ao longo da tormentosa travessia. De acordo com Léry, apenas a piedade cristã os impedira de praticar a antropofagia.
     Finalmente, chegando à Europa, os huguenotes iniciaram uma campanha difamatória contra Villegagnon, acusando-o de ter se convertido à Reforma e depois traído a causa. Em 1559, o cavaleiro de Malta retornou à França para se defender das acusações e publicou um livro discutindo a teologia de Calvino, convidando o reformador para um debate, que jamais aconteceu. A fidelidade à ortodoxia católica demonstrada por Villegagnon provocou uma guerra de panfletos, com muitas respostas e réplicas por parte dos protestantes. Ele acabou reconquistando a confiança do jovem rei Francisco II (1544-1560), e preparava outra expedição rumo ao Novo Mundo, em 1561, quando chegou a notícia da queda do Forte Coligny, na França Antártica, tomado pelos portugueses em 1560. Villegagnon abandonaria este plano, tratando apenas de obter uma indenização da Coroa portuguesa. E ganhou, apesar das pretensões lusitanas de legitimidade do tratado de Tordesilhas.
     Os franceses ainda persistiram na Guanabara até 1567, quando seriam definitivamente expulsos por Mem de Sá. Embora tenham construído duas fortalezas nesse período, Paranapuã e Uruçumirim, a colônia jamais voltou a ser o que fora antes.
     Pouco se sabe do que se passou nesses últimos sete anos, mas os relatos portugueses apontam que nas fortificações havia muito mais indígenas que franceses.
     Na década de 1570, o debate foi retomado na França, quando André Thévet publicou a Cosmografia Universal, que acusava os protestantes pela perda da França Antártica. Respondendo a essa obra, Jean de Léry escreveu sua História de uma viagem feita à terra do Brasil, em que defenderia os huguenotes dessa acusação, atribuindo o verdadeiro fim da colônia às atitudes de Villegagnon, traidor da confiança de Coligny.
     Independentemente da disputa de versões, as obras de Thévet e Léry constituem preciosos registros sobre o Brasil da época. Embora a experiência da França Antártica tenha sido temporária, legou essas fontes de pesquisa e, mais ainda, a “cidade maravilhosa” de São Sebastião do Rio de Janeiro. Já dizia Jean de Léry que não havia no mundo paisagem mais bela que a Baía de Guanabara. Este talvez seja um dos raros fatos incontestáveis sobre o episódio da França Antártica.

Luiz Fabiano de Freitas Tavares é professor Universidade Castelo Branco e da Rede Municipal do Rio de janeiro, Autor do Livro entre Genebra e a Guanabara: A discussão política huguenote sobre a França Antártica (TopBooks, 2009).

Saiba Mais - Bibliografia:
LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.
MARIZ, Vasco e PROVENÇAL, Lucien. Villegagnon e a França Antártica. Rio de Janeiro: Bibliex, 2000.
MARIZ, Vasco (org.). Brasil França – relações históricas no período colonial. Rio de Janeiro: Bibliex, 2006.
MENDONÇA, Paulo Knauss de. O Rio de Janeiro da Pacificação. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esporte, Departamento de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1991.

Saiba Mais – Filme:
Como Era Gostoso o Meu francês
No Brasil de 1594, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes, no caso saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás e se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado e decide fugir. A índia se recusa a segui-lo e após a batalha com a tribo inimiga, o chefe Cunhambebe marca a data da execução: o ritual antropofágico será parte das comemorações pela vitória.
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 1971
Áudio: Português / Tupi / Francês
Duração: 84 minutos


O protestantismo de Calvino
Noventa e cinco teses contra os abusos da hierarquia eclesiástica afixadas na porta da igreja de Wittenberg, Alemanha, em 1517. Este gesto de denúncia, realizado por Martinho Lutero (1483-1546), geralmente é considerado o início da Reforma Protestante. O monge agostiniano é excomungado. Em resposta, a bula papal é queimada. Como um incêndio, as novas ideias vão se propagando: católicos e reformados se confrontam, sobretudo na Europa Central. O francês João Calvino (1509-1564) adere ao protestantismo, desenvolvendo uma linha particular que enfatiza a predestinação, segundo a qual o homem já nasce escolhido por Deus para a vida eterna ou para a condenação. Do ponto de vista moral, o calvinismo é marcado por um extremo rigor, visível na própria cidade de Genebra, governada por Calvino e seus seguidores, onde danças e jogos são proibidos, e é imposta uma rígida disciplina a todos os habitantes. A doutrina do reformador genebrino se difunde principalmente nos Países Baixos, na Escócia, na Inglaterra (dando origem a duas correntes: os presbiterianos, mais moderados, e os puritanos, mais radicais) e na França, onde os calvinistas recebem o nome de huguenotes. (Equipe RHBN)


Outra tentativa
No final do século XVI, franceses quiseram criar outra colônia no Maranhão.
     Muitos navios franceses começaram a frequentar a costa do Brasil logo depois de seu achamento oficial. Do ponto de vista português, eram invasores. Os franceses invocavam debates jurídicos em curso para discutir a exclusividade ibérica sobre as terras do Novo Mundo. Para os tupis da costa, se havia invasores, não eram os franceses, que sempre lhes pediram licença. E nunca deixaram de entrar: em meados do século XVI, já havia dezenas de pontos no litoral brasileiro nos quais súditos do rei da França tinham instalado bases de apoio para um comércio altamente rentável de pau-brasil e de outras madeiras, especiarias, papagaios e micos. Um desses pontos foi a região da Guanabara, base para a fundação da colônia chamada de França Antártica. Depois de serem expulsos pelos portugueses da Guanabara e da costa nordeste do Brasil, os franceses se voltaram para a região do Maranhão. Embora não atingida pela colonização portuguesa, ela  já havia sido brevemente explorada por Aires da Cunha, Diego Nunes e Luís de Mello, a serviço do rei de Portugal.
     No final do século XVI, uma dessas viagens de navios mercantes daria origem à segunda colônia francesa em território hoje brasileiro: a França Equinocial. Em 1596, um nobre francês de nome Charles des Vaux , depois de ter passado dois anos na costa norte da América do Sul, voltou à França para promover a ideia de estabelecer ali uma colônia. Sua estada na região do Maranhão tinha começado por um acidente: o capitão Jacques Riffault, que fazia viagens regulares à região havia alguns anos, perdera ali um de seus navios e fora obrigado a deixar parte de sua tripulação. Des Vaux foi um dos que ficaram com a gente de Uirapive – chefe tupi com quem Riffault tinha selado aliança – e tinha vários argumentos para convencer o rei Henrique IV a fundar uma colônia no Maranhão. A região estava “vazia” – como diziam – de ocupação europeia. Os franceses contavam com a aliança dos nativos, que já haviam declarado a des Vaux sua disposição de receber mais deles em suas terras.  Além disso, o lugar proposto, bem próximo da linha equinocial, ou Equador, tinha um clima abençoado, de temperaturas constantemente amenas, com muito sol e fartas riquezas, além de muitas terras férteis, regularmente regadas por chuvas e cortadas por grandes rios de água límpida. Uma colônia ali tinha tudo para prosperar e só poderia contribuir para a grandeza do reino de França.
     Henrique IV convocou outro fidalgo, Daniel de la Touche, senhor de La Ravardière, e ordenou-lhe que fosse com des Vaux para a região. Partiram em 1607, e La Ravardière pôde comprovar os relatos de des Vaux. Quando voltaram, o rei tinha sido assassinado e o projeto de fundação de uma colônia no Maranhão teve de esperar alguns anos, pois se Henrique IV havia prometido auxílio financeiro, após sua morte a Coroa francesa já não estava disposta a dar a La Ravardière mais do que seu aval.
     Em busca de parceiros, ele encontrou dois outros nobres interessados em investir tempo e recursos numa nova colônia: François de Rasilly e Nicolas Harlay de Sancy. Em 1611, a rainha regente nomeou-os “lugares-tenentes generais nas Índias Ocidentais e terras do Brasil”. Comprometiam-se a fundar no Maranhão uma colônia, para “o engrandecimento da França e a expansão da fé”. O monopólio do comércio na região, concedido pela Coroa, viabilizaria o projeto.
     No dia 19 de março de 1612, zarparam de Cancale, na Bretanha, três navios em direção ao Maranhão, levando nobres, colonos de vários ofícios e quatro capuchinhos que haviam sido escolhidos entre os quarenta que se apresentaram para integrar, a pedido da rainha-mãe, a nova missão no Maranhão: Yves d’Evreux, que era o superior da missão, Claude d’Abbeville, Arsène de Paris e Ambroise d’Amiens. Aos dois primeiros devemos as fontes mais importantes sobre essa colônia que estava para ser fundada.
     A viagem não foi tranquila, mas finalmente chegaram ao Maranhão em agosto. Os três navios lançaram âncora na pequena ilha desabitada – chamada de Sainte Anne pelos franceses e Ypaon miry pelos tupis – ao lado da Ilha Grande do Maranhão, hoje Ilha de São Luís. Charles des Vaux foi encarregado da primeira missão diplomática: confirmar se os índios continuavam dispostos a receber os franceses em sua ilha. Des Vaux convocou o conselho de chefes e anciões e disse-lhes que o rei da França tinha enviado valorosos soldados para lutar com eles nas guerras e padres para ensinar a palavra de Deus, com muitas mercadorias. Disse também que estavam à espera, e perguntou aos tupis se queriam recebê-los, continuar aliados dos franceses e aceitar o batismo. Se não quisessem mais, não desembarcariam e retornariam imediatamente à França. Consta que os tupis teriam respondido que muito os espantava que des Vaux, depois de ter passado tanto tempo com eles, fizesse tal pergunta, pois parecia não conhecê-los; deveria saber que eles nunca faltavam à palavra dada, e já tinham dito sim.
     Os recém-chegados, então, juntaram-se aos seus 400 conterrâneos – muitos deles marujos em uma de suas estadas de meses à espera do carregamento dos navios; outros, residentes – que já estavam na Ilha Grande. Logo iniciaram, com a ajuda dos tupis aliados, a construção das casas destinadas aos novos colonos e de um forte, ao qual La Ravardière deu o nome de São Luís, em homenagem ao menino-rei Luís XIII. Enquanto isso, Rasilly foi com des Vaux a cada uma das aldeias da Ilha Grande para se apresentar, assim como aos padres Claude e Arsène, e confirmar a aliança. Na expressão de d'Abbeville, os lírios – símbolo da realeza francesa – começavam a florescer na região equatorial. Tudo ia bem, mas a colônia precisava de mais gente, mais dinheiro e mais apoio para se manter. Resolveram, então, que Rasilly retornaria à França para prestar conta dos progressos da colônia nascente e buscar meios de sustentá-la. Quando Rasilly retornasse, La Ravardière passaria a ele o comando e voltaria definitivamente para casa.
     Conta d'Abbeville que, ao saberem dos projetos de Rasilly, os chefes da ilha de Maranhão resolveram enviar à França seis dos seus, dos quais apenas três sobreviveriam à umidade e à agitação da estada na terra de seus aliados. A chegada da comitiva que levava François de Rasilly, Claude d'Abbeville e os três Toupinambous Maragnans a Paris, em 12 de abril de 1613, foi marcada por grande comoção entre o povo e interesse na corte: desfilaram nas ruas e salões dançando com seus maracás, foram recebidos como embaixadores no Louvre, vestidos com roupas de tafetá, solenemente batizados – tendo como padrinho e madrinha o rei e a rainha regente – e casados com mulheres francesas. Em 1614, embarcaram de volta para o Maranhão os embaixadores, suas esposas, o padre Claude, doze capuchinhos, dezenas de artesãos e nobres decididos a integrar a nova colônia. Rasilly ficou na França, empenhado em conseguir mais apoio para a colônia.
     Enquanto isso, certos da solidez de suas fortificações na Ilha Grande e de sua aliança com os tupis, os franceses se puseram a explorar a costa e a expandir suas alianças pelo continente. Mas os portugueses, rapidamente alertados, começavam a se preparar para expulsá-los novamente. Gaspar de Souza, governador-geral do Brasil, chegara a Pernambuco em 1613 já com a ordem de reconquistar o Maranhão. La Ravardière voltou para o Forte São Luís assim que foi avisado da aproximação das tropas lusas. As primeiras batalhas entre os portugueses e seus aliados indígenas, de um lado, e franceses e seus aliados indígenas, do outro, ocorreram já no final de 1614. Após um período de trégua e conversações diplomáticas, no dia 1º de novembro de 1615 os portugueses tomaram o forte na batalha de Guaxenduba, após uma vitória por eles considerada milagrosa. Naquele mesmo mês de novembro, Luís XIII se casava com Ana de Áustria, herdeira do trono espanhol. O casamento selava uma aliança entre a França e a Espanha que condenaria a colônia do Maranhão ao abandono e ao esquecimento, em virtude da união das coroas ibéricas, entre 1580 e 1640. La Ravardière foi enviado a Lisboa, onde permaneceu preso na Torre de Belém por alguns anos até ser devolvido à França, onde tentaria recuperar a colônia. Rasilly, que estava na França no momento da tomada do forte, também continuou tentando salvar o projeto no Maranhão. Em vão.
     O projeto de engrandecimento da França e de expansão da fé que animara a fundação da França Equinocial seria realizado, mas na América do Norte, onde, na mesma época, os franceses fundavam duas outras colônias, Acádia e Nova França, hoje no Canadá. No Brasil, que fora destino de tantas viagens de navios franceses, palco de tantas alianças bélicas e comerciais com os tupis e razão de tantos entreveros diplomáticos e batalhas entre franceses e portugueses, essa segunda colônia francesa foi a última.

Beatriz Perrone-Moisés É Professora Do Departamento De Antropologia Da Universidade De São Paulo E Autora Da Tese “Relações Preciosas: Franceses E Ameríndios No Século XVII” (Ppgas-Usp, 1996).

Saiba Mais - Bibliografia:
D'ABBEVILLE, CLAUDE. História da missão dos padres capuchinhos na Ilha de Maranhão e terras circunvizinhas. São Paulo: Edusp/Itatiaia, 1975.
D'EVREUX, YVES. Viagem ao norte do Brasil, feita nos anos de 1613 a 1614. São Paulo: Siciliano, 2002.

Saiba Mais – Links

sábado, 20 de abril de 2013

Antropofagias: a amorosa tapuia e a vingativa tupi.

“Viagem à Terra do Brasil”
Jean de Léry
Capítulo XV

De como os americanos tratam os prisioneiros de guerra e das cerimônias observadas ao matá-los e devorá-los.
     Resta saber agora como são tratados os prisioneiros. Logo depois de chegarem são não somente bem alimentados, mas ainda lhes concedem mulheres (mas não maridos às prisioneiras), não hesitando os vencedores em oferecer a própria filha ou irmã em casamento. Tratam bem o prisioneiro e satisfazem-lhe todas as necessidades. Não marcam antecipadamente o dia do sacrifício; se os reconhecem como bons caçadores e pescadores e consideram as mulheres boas para tratar das roças ou apanhar ostras conservam-nos durante certo tempo; depois de os engordarem matam-nos afinal e os devoram em obediência ao seguinte cerimonial.
     Todas as aldeias circunvizinhas são avisadas do dia da execução e breve começam a chegar de todos os lados homens, mulheres e meninos. Dançam então o cauinam. O próprio prisioneiro, apesar de não ignorar que a assembleia se reúne para seu sacrifício dentro de poucas horas, longe de mostrar-se pesaroso enfeita-se todo de penas e salta e bebe como um dos mais alegres convivas. Depois de ter comido e cantado durante seis ou sete horas com os outros, é ele agarrado por dois ou três dos personagens mais importantes do bando e sem que oponha a menor resistência, é amarrado pela cintura com cordas de algodão ou de fibra de uma árvore a que chamam vyire, semelhante à nossa tília. Deixam-lhe os braços livres e o fazem passear assim pela aldeia, em procissão, durante alguns momentos.
     Não se imagine, porém que o prisioneiro com isso se deprima. Ao contrário, com audácia e incrível segurança jacta-se das suas proezas passadas e diz aos que o mantém amarrado: "Também eu, valente que sou já amarrei e matei vossos maiores".
     Cada vez mais feroz volta-se para ambos os lados exclamando para uns e outros: "Comi teu pai, matei e moqueei teus irmãos; comi tantos homens e mulheres, filhos de vós outros tupinambás, a que capturei na guerra, que nem posso dizer-lhes os nomes; e ficai certos de que para vingar a minha morte os maracajás da nação a que pertenço hão de comer ainda tantos de vós quantos possam agarrar".
     Em seguida, após ter estado assim exposto às vistas de todos, os dois selvagens que o conservam amarrado afastam-se dele umas três braças de ambos os lados e esticam fortemente as cordas de modo a que o prisioneiro fique imobilizado. Trazem-lhe então pedras e cacos de potes; e os dois guardas, receosos de serem feridos, protegem-se com rodelas de couro de tapiruçu e dizem-lhe: "Vinga-te, antes de morreres". Começa o prisioneiro a atirar projéteis com todas as suas forças contra os que ali se reúnem em torno dele, algumas vezes em número de três ou quatro mil. E é desnecessário dizer que não escolhe suas vítimas.
     Com efeito, estando eu numa aldeia chamada Sariguá, vi um prisioneiro lançar uma pedra com tanta violência na perna de uma mulher que supus havê-la quebrado. Esgotadas as provisões de pedras e cacos e de tudo que o prisioneiro pode apanhar junto de si, o guerreiro designado para dar o golpe, e que permanecera longe da festa, sai de sua casa, ricamente enfeitado com lindas plumas, barrete e outros adornos; e armado de um enorme tacape aproxima-se do prisioneiro e lhe dirige as seguintes palavras: "Não és tu da nação dos maracajás, que é nossa inimiga? Não tens morto e devorado aos nossos pais e amigos?"
     O prisioneiro mais altivo do que nunca, responde no seu idioma (maracajás e tupiniquins se entendem reciprocamente) "pa, che tan tan ajucá atupavé"- "Sim, sou muito valente e realmente matei e comi muitos".
     Em seguida, para excitar ainda mais a indignação do inimigo, leva as mãos à cabeça e exclama: "Eu não estou a fingir, fui com efeito valente e assaltei e venci os vossos pais e comi". E assim continua até que seu adversário, prestes a matá-lo, exclama: "Agora estás em nosso poder e serás morto por mim e moqueado e devorado por todos". [...] a vítima ainda responde: "Meus parentes me vingarão".
     Embora os selvagens temam a morte natural, os prisioneiros julgam-se felizes por morrerem assim publicamente no meio de seus inimigos, não revelando nunca o mínimo pesar [...].
      [...]. O selvagem encarregado da execução levanta então o tacape com ambas as mãos e desfecha tal pancada na cabeça do pobre prisioneiro que ele cai redondamente morto sem sequer mover braço ou perna. [...] O executor costuma bater com tal destreza na testa ou na nuca que não se faz necessário repetir o golpe e nem a vítima perde muito sangue.
     Imediatamente depois de morto o prisioneiro, a mulher (já disse que a concedem a alguns) coloca-se junto do cadáver e levanta curto pranto; [...] lamenta-se e derrama fingidas lágrimas sobre o marido...
     Todas as partes do corpo, inclusive as tripas depois de bem lavadas, são colocadas no moquém, em torno do qual as mulheres, principalmente as gulosas velhas, se reúnem para recolher a gordura que escorre pelas varas dessas grandes e altas grelhas de madeira; e exortando os homens a procederem de modo que elas tenham sempre tais petiscos, lambem os dedos e dizem: iguatu, o que quer dizer “está muito bom”.

LÉRY, Jean de. Viagem à Terra do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia, 1980.

Vingança e frenesi no banquete tupi
Ronald Raminelli

     Depois de morto, a carne era dividida entre músculos e entranhas. As partes duras eram moqueadas (secadas) e consumidas pelos homens; mulheres e crianças ingeriam as partes internas cozidas em forma de mingau. O matador, sempre masculino, não participava do banquete, entrava em resguardo e trocava de nome. Com a colonização, esse rito foi paulatinamente abandonado, provocando, segundo Eduardo Viveiros de Castro, a perda de uma dimensão essencial da sociedade tupinambá: a identidade. O antropólogo ainda comenta que a repressão ao canibalismo não foi o único motivo para o abandono. Os europeus passaram a ocupar o lugar e as funções dos inimigos, alterando a lógica do ritual.
     As mulheres exerciam importantes tarefas durante as festas canibalescas. Alemão quinhentista preso pelos tupinambás, Hans Staden escreveu que as índias pintavam os prisioneiros ainda vivos e depois exibiam-nos mortos, percorrendo a aldeia com suas pernas e braços retalhados. O sacrifício provocava nas mulheres muito prazer e ansiedade, queriam logo provar da carne do guerreiro inimigo. Para demonstrar tais sentimentos, elas gesticulavam, mordiam as mãos e braços, se contorciam, cantavam e bailavam, enquanto as demais espetavam com paus as partes decepadas sob a fogueira.
     O padre José de Anchieta, jesuíta do século XVI, descreveu como as nativas untavam mãos, caras e bocas com as gorduras desprendidas do "assado", colhiam o sangue com as mãos e o lambiam. Para os religiosos da época, por certo com uma visão depreciativa da mulher; a ingestão de carne humana deixava marcas profundas na fisionomia das mulheres canibais que logo envelheciam. As rugas e os odores malcheirosos tinham origem nesses "costumes abomináveis". A decrepitude e a decadência físicas das velhas revelavam o "terrível hábito" de comer carne e roer ossos humanos. Seios caídos, rostos enrugados, corpos em franco processo de degeneração somavam-se a dentes mais do que deteriorados. A alma pecadora provocava a degradação do corpo enquanto os santos, quando mortos, exalavam odores de rosas. Esse preconceito, por certo, dificulta nossa compreensão da real participação das mulheres no canibalismo, embora nos permita entender a cultura europeia na época da conquista da América.

Canibalismo em nome do amor
Mães devoravam filhos mortos, viúvas comiam os maridos, filhos banqueteavam-se com os pais. Nem sempre a antropofagia originava-se da luta entre rivais, poderia ser cerimônia fúnebre.

     Segundo os cronistas do século XVII, ao nascer uma criança, cortava-se o cordão umbilical com um caco afiado e depois cozinhava-o para que a mãe o comesse juntamente com o pelico (placenta). Caso uma mulher abortasse, imediatamente o feto era devorado, pois alegavam que não poderiam dar-lhe melhor túmulo. Por certo, as entranhas de onde veio - o corpo da mãe - eram preferíveis a cova na terra. Depois da morte de uma criança, os índios choravam a perda, em seguida, cortavam a cabeça e retalhavam o corpo, inserindo tudo em uma panela. Muitos parentes eram convidados para o evento e juntos comiam a falecida. Ao termino da refeição, punham -se a gritar e a chorar.
     Aos sacerdotes cabia talhar, membro a membro, os mortos, fossem eles abatidos nas guerras ou acometidos por morte natural. Enquanto isso, as velhas acendiam a fogueira para assar os membras e todos juntos celebravam o "enterro" com lagrimas e lamentações. As mulheres comiam as carnes do esposo, as raspavam até os ossos, não em sinal de inimizade, mas de afeto e fidelidade. Os cadáveres dos grandes chefes eram consumidos pelos demais chefes. Não ingeriam todo o corpo e guardavam cuidadosamente os ossos ate a celebração do festim solene seguinte, pois somente em rituais era possível a antropofagia. Na ocasião, os ossos tornavam-se carvão, raspados em seguida para serem reduzidos a pó e dissolvidos em agua. O mesmo se fazia com os cabelos do defunto. Os parentes bebiam essa mistura e não voltavam a suas danças e cantos depois de consumirem todos os restos do cadáver.
     Os cronistas procuram enfatizar as fronteiras entre a antropofagia amorosa tapuia e a vingativa tupi. O dado permite entender a tela de Albert Eckhout de modo diverso. A índia tarairiu carrega consigo partes do corpo humano e próxima à nativa encontrasse uma cena de guerra. Em principio, a mão e o pé decepados, em poder da mulher, pertenceriam ao inimigo morto no combate. Os relatos sabre a antropofagia tapuia permitem, porem, traçar outras relações. Assim, as partes do corpo pertenciam a um parente: irmão, marido ou filho da índia. O campo de guerra é o local de morte de um guerreiro da tribo e a índia carrega seus restos mortais para serem consumidos na aldeia em sinal de afeto e fidelidade.

RONALD RAMINELLI é professor de História Moderna, História da América e do Brasil Colonial na Universidade Federal Fluminense (UFF) e autor de Imagens da colonização. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1996.

Saiba Mais - Filmes
Como Era Gostoso o Meu francês
No Brasil de 1594, um aventureiro francês prisioneiro dos Tupinambás escapa da morte graças aos seus conhecimentos de artilharia. Segundo a cultura Tupinambás, é preciso devorar o inimigo para adquirir todos os seus poderes, no caso saber utilizar a pólvora e os canhões. Enquanto aguarda ser executado, o francês aprende os hábitos dos Tupinambás e se une a uma índia e através dela toma conhecimento de um tesouro enterrado e decide fugir. A índia se recusa a segui-lo e após a batalha com a tribo inimiga, o chefe Cunhambebe marca a data da execução: o ritual antropofágico será parte das comemorações pela vitória.
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Ano: 1971
Áudio: Português / Tupi / Francês
Duração: 84 minutos


Hans Staden
Hans Staden (Carlos Evelyn) é um imigrante alemão que naufragou no litoral de Santa Catarina (1550). Dois anos depois, chegou a São Vicente, concentração da colônia portuguesa no Brasil, onde trabalhou por mais dois anos, visando juntar dinheiro para retornar à Europa. Neste tempo em que viveu em São Vicente, Staden passou a ter um escravo da tribo Carijó, que o ajudava. Preocupado com seu sumiço repentino após ter ido pescar, Staden parte em sua procura, sendo encontrado por sete índios Tupinambás, inimigos dos portugueses, que o prendem no intuito de matá-lo e devorá-lo. É a partir de então que passa a ter que arranjar meios para convencer os índios a não devorá-lo e permanecer vivo. O filme aborda os primórdios da colonização, envolvendo o povo indígena Tupinambá, que então habitava o litoral brasileiro. Conta a história do alemão capturado pelos Tupinambás da Aldeia de Ubatuba, litoral de São Paulo, onde seria devorado em ritual antropofágico. O projeto do filme começou em janeiro de 1996. Da preparação para as filmagens constaram, entre outras coisas, os ensaios com os atores para o aprendizado da língua Tupi e a construção de uma réplica de Aldeia Tupinambá do século XVI em Ubatuba. Também foram rodadas cenas no Forte Bertioga, em trilhas, rios, matas, em canoas no mar e em Lisboa, Portugal, na Caravela Boa Esperança.
Direção: Luiz Alberto Pereira
Ano: 1999
Áudio: Português / Tupi / Alemão
Duração: 92 minutos

sábado, 13 de abril de 2013

A marca dos anos Thatcher

Modelo político e econômico que ela ajudou difundir na década de 1980 resultou no mundo de extrema desigualdade em que estamos mergulhados hoje
      A maior vitória de Margaret Thatcher, morta hoje (08/04) aos 87 anos depois de um derrame, foi não ter assistido à formidável falência do mundo que ela ajudou tão poderosamente a construir na década de 1980.
     Fazia anos que Thatcher sofria de problemas mentais. Conforme relatou num livro sua filha Carol, ela chamava com frequência seu marido Denis, morto há muitos anos.
     Ela não viu a desagregação do que se convencionou chamar de neoliberalismo – um sistema que acabou levando ao célebre mundo dos 99% versus 1%.
     Thatcher de um lado do Atlântico e Ronald Reagan de outro comandaram com influência mundial – sentida no Brasil de Collor e mais ainda no de FHC – modelos econômicos que acabaram privilegiando enormemente os superricos e as grandes corporações.
     A grande crise econômica do final da década passada mostrou o quanto era insustentável este modelo, a começar pelo fato de que os cofres públicos em tantos países se esvaziaram por conta de políticas que permitiram aos bilionários e às multinacionais encontrar formas legais – embora imorais – de reduzir a quase nada os impostos a pagar.
     Thatcher viveu pela política, e começou a morrer quando foi traída por companheiros do Partido Conservador e derrubada depois de 11 anos de poder, em 1990.
     A mulher que em 1979 se instalou no Número 10, como os ingleses chamam a casa do primeiro ministro, era uma força da natureza. Chegou declamando São Francisco de Assis, mas agiu como uma ninja no poder.
     Derrotou os sindicalistas superpoderosos que frequentemente paravam o Reino Unido, deu uma surra fulminante nos militares argentinos que queriam tomar as Malvinas, ajudou a cravar os pregos no caixão da União Soviética e liderou um movimento global de privatização e desregulamentação com resultados que o tempo provou serem catastróficos.
     Margaret Thatcher pareceu, em certos momentos, maior que o Reino Unido. Seu único rival em prestígio, entre os líderes globais, era Reagan.  Mas, se Reagan parecia um ator de Hollywood fazendo o papel de presidente americano, Thatcher era 100% realidade, ele embalagem, ela conteúdo.
     Thatcher agarrou-se desesperadamente ao poder quando já era uma primeira ministra morta em atividade.  Desafiada na liderança dos conservadores em 1990, não conseguiu os votos necessários para permanecer como líder, embora tenha vencido seu oponente. Foi uma vitória inútil, mas Thatcher não quis ver isso.
     No Reino Unido, o poder fica na mão do líder do partido mais votado. Os companheiros de partido podem, em situações extremas, desafiar a liderança.  Foi isso que tirou da Thatcher o poder.  Seus liderados entre os conservadores já não suportavam sua brutalidade como chefe, e um deles a desafiou.
     Thatcher, sem votos suficientes para permanecer a despeito de ter batido o desafiador, ainda relutou durante dias em deixar Downing Street. Queria ir para a segunda e decisiva votação. Era formalmente uma possibilidade, mas na verdade é uma atitude não aceita na política britânica, pelo desrespeito implícito à vontade coletiva do partido. Foi a rainha Elizabeth quem afinal convenceu Thatcher a renunciar.
     Os problemas mentais ceifaram depois seu projeto de fazer fortuna com palestras e, muito pior para ela, a impediram de lutar no campo das ideias pela essência do thatcherismo: um Estado mínimo, com a menor regulamentação possível.
     Em 2011, a convite do premiê conservador David Cameron, ela visitou pela última vez Downing Street, o lugar de onde ela exerceu influência mundial durante onze anos.
     Andava com dificuldade e acenava confusamente, como se de alguma forma tivesse em sua mente destruída retornado aos dias em que foi conhecida como Dama de Ferro.
     Morreu como a mãe do 1% e a madrasta dos 99%.

Quando a dama de ferro amolece
Tendo Maryl Streep como protagonista, filme sobre Margareth Thatcher humaniza a jovem simples que, ao se tornar 'lady', conduz a Inglaterra numa onda de privatizações.
     O filme “A dama de ferro” recebeu críticas à época do lançamento em 2011 por não ter abordado, na opinião dos críticos, com a devida importância o lado liberal da ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Thatcher, como se sabe, morreu nesta semana (08/04), aos 87 anos, vítima de um derrame.
     É verdade. O filme, da diretora Phyllida Lloyd [que já tinha feito “Mamma mia” igualmente com Meryl Streep], tenta dar um apanhado geral da vida da mulher que comandou as ilhas britânicas de 1979 a 1990. E, dentro desse apanhado, suas posições direitistas ocupam um espaço tão importante quanto qualquer outro aspecto, como sua adolescência trabalhando com o pai em uma vendinha, sua passagem para a Universidade de Oxford, sua entrada no partido Conservador e a sua escalada até o poder.
     São retratados, também, toda a onda de protestos que o governo dela enfrentou, por conta de suas políticas de estado-mínimo, que privatizou companhias estatais estratégicas, criou uma massa de descontentes, e deu nome a uma era: tatcherismo. É mostrado até o ataque a bomba perpetrado pelo Exército Revolucionário Irlandês em um encontro do partido conservador em 1984. Sua vida não foi pouco atribulada quiçá sem polêmica.
     No entanto, pareceu pouco, pouco, na opinião dos críticos, para mostrar a vida da única mulher que assumiu o principal cargo político das ilhas britânicas. A começar, a cinebiografia é narrada como se fosse um longo diálogo [imaginado] entre Margareth e seu marido, já então falecido, Denis Thatcher, de quem ela recebeu o sobrenome. Na cena inaugural, ela chega em casa e, como uma dona-de-casa comum, reclama do preço dos produtos do supermercado. A intenção é clara: Margareth não deixou de ser a filha do dono da quitanda.
     É esse o principal argumento de todo o longa. Mostrar que a dama considerada de ferro era, ao fim e ao cabo, uma mulher simples, que entendia de política e economia como qualquer pessoa que tem uma vendinha. Esse estigma, de ser filha de um quitandeiro, e não descendente de uma família nobre, como é razoavelmente comum entre os membros do partido Conservador inglês, é, inclusive, um motivo de chacota durante toda a sua carreira política.
     Essa forma de lidar com a política é, segundo a intepretação do filme, os principais pontos positivo e negativo de Thatcher. Se ela não deixou a simplicidade de lado jamais, também se colocou como um exemplo a ser seguido. Talvez o único. Sua política liberal, sua diminuição do estado social, era uma continuação da sua política da quitanda. Como se dissesse: se eu consegui sair de trás do balcão e chegar aqui, à frente de uma das nações mais importantes do mundo, qualquer um pode chegar também.
     A mulher do estado mínimo, da aposta na competição, no mercado, desconsidera um dos fatores mais importantes da questão: o indivíduo e todas as suas diferenças entre si. Acredita apenas numa ideia quase darwinista, em que os mais fortes sobreviverão, enquanto os mais fracos devem ser deixados para trás na cadeia evolutiva.
     Ao humanizá-la, ao tentar traçar uma explicação mais psicológica, menos maniqueísta, uma razão para as suas atitudes que reflitam sua biografia, de mulher bem sucedida, o filme mostra que ela não era um monstro que apenas pensava no bem de poucos, em detrimento de muitos. Isso não a impedia, claro, de tomar atitudes controversas, antipopulares, para seguir os seus ideais de vida e política. Ao fim, talvez não tenhamos uma grande coleção da vida política da dama de ferro. Mas percebemos que, ao menos, era uma mulher com princípios. Menos pior que uma direita disfarçada, é uma direita que não tem vergonha de mostrar a cara.
Direção: Phyllida Lloyd
http://www.torrenthound.com/torrent/13c564e12b1ba8ddeb9a72719ad379950f78a22c
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 105 minutos
Tamanho: 314 MB

Para inglês ver
Documentos liberados pelo Itamaraty apimentam discussão sobre apoio do Brasil à Argentina na Guerra das Malvinas, em 1982. Postura oficial de neutralidade já era contestada naquele tempo.
     Na última semana, uma reportagem do jornal “O Globo” gerou um grande debate ao expor a participação do Brasil num tráfico internacional de armas, durante a Guerra das Malvinas, que ocorreu há exatos 30 anos. Os repórteres se basearam em documentos confidenciais, recentemente liberados pelos arquivos do Conselho de Segurança Nacional e do Itamaraty.   
     O material sugere que o governo brasileiro sabia do uso de territórios nacionais como posto de pouso de aviões carregados de armamentos, oriundos da Líbia e de Israel, com destino à Argentina. Os documentos revelados no periódico reiteram o que a historiografia vem discutindo há tempos: o Brasil não foi neutro durante o conflito.
     “Era muito interessante para o Brasil, em questões diplomáticas, mostrar-se oficialmente neutro – principalmente para a Inglaterra e para os Estados Unidos”, conta Adler Homero Fonseca, pesquisador do Iphan e especialista em armamento militar. “Mas, ao mesmo tempo, era positivo para o governo dizer à sociedade que estava apoiando secretamente a Argentina. Isso poderia ser visto como uma independência na política internacional”, destaca o historiador. Ele comenta que, já na época da guerra, a imprensa divulgou fotografias de aviões vindos da Líbia, estacionados em aeroportos nacionais, mas não se tinha certeza do que exatamente eles transportavam.
     Apesar do histórico de rivalidade política com os vizinhos, o Brasil tentou se aproximar da Argentina durante os anos 1980, pensando em sua projeção no cenário internacional – na época, as relações internacionais brasileiras ainda eram muito presas aos interesses norte-americanos, coisa que só começou a mudar nos últimos dez anos.

Empréstimos aos hermanos
     Ainda assim, o apoio à Argentina na Guerra das Malvinas não podia ser explícito: o governo do general argentino Leopoldo Galtiere chegou a pedir mísseis brasileiros para utilizar em ataques, mas teve a solicitação negada. Apesar do "não", o país comandado por João Batista Figueiredo à época disse "sim" a outros empréstimos e participou nesta aliança de outras formas, como cedendo aviões de patrulhamento marítimo, foguetes, caças e, em dado momento, até reteve uma aeronave inglesa em solo brasileiro.
     A reportagem “Disputa reacesa”, publicada no site da RHBN em 2010, traz um trecho de um documento liberado em 2006 pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) – no qual a embaixada britânica condena a postura das autoridades brasileiras frente ao conflito: “À luz das antigas e amistosas relações entre a Grã-Bretanha e o Brasil, o governo de Sua Majestade Britânica acredita ter o direito de esperar tratamento equilibrado na atual situação de crise. Nesse contexto, tem conhecimento de que aviões militares argentinos e outras aeronaves utilizaram e continuam utilizando aeroportos brasileiros ao transportarem equipamento militar para uso pela Argentina”. A postura era tão dúbia que não ficou camuflada nem aos olhos dos ingleses.

A guerra
     Em 1982, a ditadura militar argentina não ia bem das pernas: a crise econômica era grave e a população estava cada vez mais insatisfeita. Apelando para o sentimento nacionalista, o governo Galtiere invadiu as Ilhas Malvinas – chamadas pelos britânicos de Falklands – e desafiou a Inglaterra pela soberania do território. O conflito durou poucos meses (até junho do mesmo ano) e gerou consequências amargas à parte sul-americana envolvida: além dos mais de 400 mortos, a guerra produziu centenas de veteranos traumatizados e pôs um ponto final na administração autoritária do país sul-americano.
     Hoje, as ilhas continuam sob poder da Inglaterra, mas a Argentina ainda tenta trazer à tona o debate internacional sobre a soberania para tentar reavivar o nacionalismo da população num momento de crise política. “As Malvinas são um tema nacional, algo que toca o sentimento de todos os argentinos, independente da filiação politica. A presidente Cristina Kirchner aproveitou a efeméride dos 30 anos para reacender o nacionalismo, mas o exército argentino não tem condições psicológicas, financeiras e tecnológicas para enfrentar uma guerra contra a Grã-Bretanha”, conta Tomaz Espósito Neto, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Grande Dourados.
     Para ele, a situação política deve permanecer a mesma porque a Inglaterra não deve ceder. Principalmente porque o território envolveu um conflito armado há pouco tempo e, recentemente, foi apontado como uma possível grande reserva de petróleo. O conflito de interesses está longe de acabar.

Sigilo de documentos
     Os documentos que suscitaram o debate foram liberados pelo Itamaraty já obedecendo a nova "lei de arquivos", em vigor desde o ano passado (2011), que colocou fim ao sigilo eterno de documentos oficiais. Agora, textos rotulados como "ultrassecretos", por exemplo, têm prazo máximo de 50 anos para permanecer longe do acesso da sociedade. A medida vai facilitar a pesquisa sobre as decisões políticas do passado do país, por anos mantidas sob segredo absoluto.

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