"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

domingo, 16 de junho de 2013

O Estado contra a sociedade

Onda de protestos contra aumento das passagens de ônibus em São Paulo provoca reação exagerada da polícia e declarações polêmicas por parte dos governantes.
     “Se a passagem não baixar, a cidade vai parar.” E parou. Não uma, mas várias vezes. Na última semana, uma série de protestos levou milhares de pessoas às ruas de São Paulo contra o reajuste de R$ 0,20 na tarifa cobrada pela passagem de ônibus. O aumento gerou uma onda de insatisfação tão grande que foi capaz de tirar até mesmo a tal geração Y da frente de seus computadores. Encabeçados pelo Movimento Passe Livre, os manifestantes deram nó no trânsito ao fechar as principais avenidas da cidade. O fato foi encarado pelas autoridades como crime contra a ordem pública e a resposta dos governantes veio por meio de um truculento aparato de “segurança”, expandindo o movimento para além dos próprios limites.
     O reajuste das passagens na capital paulista foi anunciado pelo prefeito Fernando Haddad (PT) em maio deste ano e entrou em vigor no último dia 2 de junho, num domingo. Na quinta-feira da mesma semana, a população já tomava conta das ruas e uma faixa, entre tantas outras, com os dizeres “vamos repetir Porto Alegre” deixava claro: a onda de protestos iniciada na capital gaúcha tomaria conta do Brasil. Porto Alegre foi o primeiro caso em que as manifestações conseguiram barrar o reajuste da tarifa, reduzindo o valor da passagem de R$ 3,05 para R$ 2,85 e mostrando que lutas populares, ao contrário do que pensa o senso comum, têm lá sua força.
     Na última terça-feira (11), em Paris, o governador do Estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), afirmou que a interrupção do trânsito durante um protesto é “ato de vandalismo” e, portanto, deve ser tratado como "caso de polícia". E como caso de polícia ele vem sendo tratado. Só nesta quinta-feira (13), a polícia deteve ao menos 235 pessoas durante o quarto dia de manifestações, que reuniu cerca de 5.000 manifestantes, segundo a polícia. Entre os presos estavam um repórter da Carta Capital e outras 40 pessoas, levadas para a 78º DP, nos Jardins, por porte de vinagre (que, em tese, ameniza os efeitos do gás lacrimogênio). Quatro jovens seguem presos, sem direito a pagamento de fiança. O motivo? Formação de quadrilha. Aos afiançáveis, a bagatela é de R$ 20 mil.
     Em entrevista no Palácio dos Bandeirantes  realizada nesta sexta-feira (14), Alckmin disse que a corporação tem o dever de "proteger a população, garantir o direito de o comércio abrir e preservar o patrimônio público". Além disso, o governador afirmou que os batalhões de choque da Polícia Militar agem desta forma no intuito de evitar manifestações mais violentas.
     Não é de hoje que “questão social é caso de polícia”. A célebre expressão foi atribuída ao ex-presidente brasileiro Washington Luís e resumiu sua postura frente às revoltas populares que incomodavam o governo, entre 1926 a 1930.  Aparentemente, 80 anos se passaram e a ação truculenta do Estado diante de movimentos sociais permanece. Para o historiador Paulo Terra, a conivência da grande imprensa com o discurso marginalizante acompanha este processo.
     “Ambas as formas de criminalização, por parte do Estado e por parte da imprensa, não são novidade na história do país. Desde o primeiro movimento contra o aumento do valor das passagens, ainda no século XIX, é possível observar a forte repressão policial e a cobertura, muitas vezes, detratora nas folhas dos jornais”, diz ele referindo-se à chamada Revolta do Vintém, de 1879.
     Em ação semelhante a das autoridades paulistas, o governador do Rio de Janeiro,  Sérgio Cabral (PMDB) tentou deslegitimar as manifestações ao afirmar, nesta quinta-feira, que os protestos têm um “ar político” e “não espontâneo”.  Segundo ele, os “baderneiros” não estavam ali para defender interesses públicos, mas para gerar um clima de confusão.
     A postura de Alckmin e Cabral – assim como do prefeito Haddad que negou qualquer redução nas tarifas - conta, ainda, com o apoio do Governo Federal. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo (PT), também andou tecendo críticas às manifestações e pediu à Polícia Federal o acompanhamento dos protestos. “O governo federal está à disposição do governo de São Paulo e de qualquer outro estado em que isso aconteça para apoiar naquilo que for solicitado”, disse.
     Para o historiador Rafael Lima, da PUC-Rio, não há justificativa plausível para a truculência do poder público que – independente da filiação partidária – acusa os manifestantes de vandalismo e formação de quadrilha. “É deplorável que a maioria dos meios de comunicação subestime nossa inteligência e acusem as mobilizações de constituírem veículo de interesse político-partidário”, argumenta.
E conclui: “As mobilizações ganham as ruas porque é nelas que a população se sente mais ultrajada, mais usurpada em sua cidadania, mais desrespeitada enquanto coletividade. Na rua está a alma da cidade, para usar a feliz expressão de João do Rio. E se causam transtornos, paciência. Significa que, felizmente, a cidade ainda dá sinais de vida em meio a tanta especulação e espetacularização.”

Saiba Mais - Links
A revolta da farinha  

sábado, 15 de junho de 2013

Curiosidade sobre a História do Brasil

Brasil dos insetos
Ronaldo Vainfas
     Não faltam exemplos na história do Ocidente em que animais se viram tratados pela Justiça como se fossem humanos. O código espanhol de Afonso, o Sábio, datado do século XIII, previa pena de morte para todos que tivessem relações sexuais com animais - a bestialidade - acrescentando que também o animal deveria morrer para apagar a lembrança do fato. Séculos depois, a Inquisição espanhola andou inventariando cabras e vacas que alguns andaram namorando nas lides do pastoreio. Na Idade Média francesa houve o caso de uma menina de 12 anos acusada de manter relações sexuais com seu cão. O mais incrível é que o cão esteve presente ao inquérito.
     Na História do Brasil também há casos bizarros de bestialidade. Mas há outros mais interessantes, envolvendo o combate aos insetos. A cruzada contra os insetos começou cedo. Basta ler a carta do jesuíta Jerônimo Rodrigues, datada de 1561, queixando-se do "grandíssimo número" de insetos minúsculos que não se via na Europa. As pulgas eram a perdição das ceroulas e camisas, que ficavam pintadas de sangue. Chegou a contar 450 pulgas em sua cama, certa noite, "sem falar nas que fugiram". Os grilos destruíam livros e vestidos. Baratas, dizia, "não se pode crer, porque o altar, a mesa, a comida, e tudo era cheio delas". Laura de Mello e Souza nos conta algumas destas queixas no seu livro O Diabo e a Terra de Santa Cruz, convencida de que, salvo pelas praias e mata virgem, poucos viram o Brasil como paraíso. Culpa dos insetos.
     Nada, porém, supera um processo movido pelos capuchos de São Luís do Maranhão, em 1713, contra formigas que flagelavam o convento de Santo Antônio, documento que me passou o historiador Ângelo de Assis. O caso foi ao juízo eclesiástico, testemunhas foram arroladas, e houve quem as defendesse em face do vigário-geral. Antônio da Silva Duarte se apresentou como advogado das formigas, apontadas como rés no processo, embargou testemunhas, ofereceu contraditas. Boa parte das testemunhas garantiu que as rés agiram sem nenhuma malícia, por serem criaturas desprovidas de razão, "e não saberem do bem nem do mal". Alguns acrescentaram que "antes da fundação do dito convento já as rés tinham suas moradias no dito convento", de sorte que não podiam ser consideradas intrusas. O caso se arrastou até 1714 e os autos de 19 fólios ficaram inconclusos.
     O leitor haverá de perguntar que importância pode ter, para a nossa história, esta disputa entre os capuchos do Maranhão e o formigueiro gigante que molestava os frades em 1713. A bem da verdade, pouquíssima. Mas, antes de achar que o Nosso Historiador da vez escreve abrasado pelo calor carioca, desmiolado, considere que o affaire das formigas faz parte de um outro mundo e outro tempo. Mundo encantado, barroco, onde o real e o fantástico se misturavam cotidianamente. Tempo em que os diabos e os espíritos eram tão reais quanto quaisquer criaturas. A outra hipótese para o caso se inspira num sermão clássico do jesuíta Antônio Vieira que, condenando os senhores de escravos maranhenses por capturarem os índios ao arrepio da lei, disse que o Maranhão começava com a letra M porque M era a letra da mentira. Vieira era implacável.
     De todo modo, no documento em causa, as testemunhas disseram que as formigas não agiram de má-fé contra os capuchos, nem poderiam. E a cruzada contra os insetos, que os jesuítas iniciaram e os franciscanos prosseguiram, fracassou completamente. As formigas seguiram em paz e os insetos continuaram a enxamear no Brasil.

Ronaldo Vainfas é professor titular de História Moderna na Universidade Federal Fluminense e autor de Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil colonial. 3ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Especial - Abolição da Escravatura 13-05-1888

     O texto é curto e direto: “Fica abolida a escravidão no Brasil. Revogam-se as disposições em contrário”. Onze palavras que mudariam o nosso futuro. Com o fim do cativeiro, o país entraria em uma nova fase, próspera e igualitária. Festa, júbilo, comoção coletiva nas ruas.
     Cento e vinte cinco anos depois, a promessa sugerida naquele belo pedaço de papel soa envelhecida como o próprio. Em que ponto do caminho as coisas deram errado? Provavelmente, antes mesmo daquele 13 de maio de 1888.
     As analises dos especialistas revelam o “jeitinho brasileiro” de acabar com a escravidão: do ponto de vista religioso, nos separamos do destino norte-americano. Na esfera política, a autoria do feito foi disputada por republicanos e monarquistas. A princesa Isabel virou santa, a reforma agrária foi engavetada e o papel dos próprios negros, ignorado.
     Abaixo, especialistas discutem o processo que levou o Brasil à Abolição da Escravatura e suas consequências.

Em nome de Deus
José Murilo de Carvalho
     Foi muito diferente o papel exercido pela  religião e pelas igrejas nos movimentos abolicionistas dos  Estados Unidos e do Brasil.
     O mais forte componente dos abolicionismos britânico e norte-americano foi justamente a convicção religiosa. Os quakers foram pioneiros na luta contra a escravidão na Grã-Bretanha. Esse grupo religioso puritano, conhecido como Sociedade dos Amigos, engajou-se na luta desde o final do século XVII. Apesar de não haver condenação da escravidão na Bíblia, eles decidiram que sua prática era incompatível com o princípio da igualdade de todos os homens perante Deus. Aliados a outros religiosos, organizaram-se em sociedades abolicionistas, mobilizaram a opinião pública e pressionaram o Parlamento para aprovar medidas contra a escravidão. Em 1807, esses militantes conseguiram sua primeira grande vitória quando o Parlamento decretou o fim do tráfico de escravos.
     A atuação dos quakers estendeu-se aos Estados Unidos, onde a luta foi muito mais dura, pois lá a escravidão estava dentro do país. Mesmo assim, na década de 1830 já funcionavam  várias sociedades abolicionistas, todas movidas por valores  puritanos e organizadas por quakers, metodistas e batistas.  A mais importante foi a American Anti-Slavery Society, criada em 1833.
     No Brasil, nem o pensamento abolicionista se baseou na religião, nem a Igreja Católica se empenhou na causa. Pelo contrário, padres e ordens religiosas eram coniventes e cúmplices da escravidão. A Bíblia, argumentava-se, não proibia a escravidão e, afinal, o que importava era a liberdade da alma livre do pecado, e não a liberdade civil. Além disso, padres eram empregados do Estado, cujos interesses tinham dificuldade em contrariar. Nosso abolicionismo baseou-se antes em razões políticas e humanistas.
     Esse contraste ajuda a entender por que, nos Estados Unidos, a abolição foi seguida de forte ação a favor dos ex-escravos, sobretudo nos campos da educação, dos direitos políticos e do acesso à propriedade da terra. Entre nós, nada foi feito, nem pelo  Estado, nem pela Igreja, nem pelos particulares.
José Murilo de Carvalho é professor titular da UFRJ e autor de Dom Pedro II: Ser ou não ser (São Paulo: Companhia das Letras, 2007).

Ouçam Salustiano
Wlamyra R. de Albuquerque
     Em 1889, um grupo de libertos da região de Vassouras, no Rio de Janeiro, endereçou a Rui Barbosa uma carta na qual exigia instrução pública para seus filhos. Vivia-se um período delicado; a escravidão fora extinta havia pouco tempo e a monarquia estava em colapso. Os signatários da carta se declaravam republicanos e diziam que foram eles, os ex-escravos, e não a família real, os autores da abolição. Esta declaração de protagonismo não agradava a Rui Barbosa (1849-1923) e a outros emancipacionistas mais conservadores, para quem a abolição era um problema nacional que tinha sido resolvido pelos “cidadãos”, os “homens esclarecidos”, categorias que não incluíam escravos e libertos.
     Mas nem de longe o fim de escravidão foi algo decidido e encaminhado apenas pelos senhores brancos e doutores do Império. Desde que aqui aportaram os primeiros tumbeiros, as autoridades policiais e políticas eram sobressaltadas por fugas e insurreições escravas a comprometerem, dia após dia, os negócios, o sossego e a autoridade senhorial.
     Na segunda metade do século XIX, a relevância da rebeldia negra para a falência do escravismo ficou ainda mais evidente. A historiografia está repleta de personagens negros que tinham na abolição a sua principal causa, como Luís Gama, José do Patrocínio e Manoel Querino. Houve outros menos famosos, mas também contundentes propagandistas da liberdade negra, como um certo Salustiano.
     Ele ficou conhecido na crônica baiana como o orador do povo, graças à veemência com que discursava a favor da abolição e em apoio a José do Patrocínio sempre que se desincumbia dos seus afazeres de sapateiro. A pregação de Salustiano contrariava de tal maneira a ordem vigente que um delegado de Cachoeira, no Recôncavo baiano, chegou a solicitar ao chefe de polícia orientação para fazer “calar o dito preto”.
     Ousadia foi a tônica da atuação dos negros que lutaram contra a escravidão, inclusive às vésperas da abolição. Há várias notícias do envolvimento de libertos africanos com sociedades abolicionistas. Muitos acoitavam escravos fugidos, ou seja, os escondiam enquanto advogados faziam correr na Justiça ações de liberdade.
     A intensidade das revoltas e fugas coletivas foi uma das maiores evidências da crise do escravismo. A movimentação negra foi tão decisiva que um dos argumentos abolicionistas era de que só o fim do cativeiro libertaria o homem branco, visto como refém da resistência dos seus escravos. 
     Tinham razão os libertos de Vassouras ao reivindicarem a autoria da abolição.
     Talvez por terem sido os ex-cativos os legítimos autores da sua liberdade, as comemorações do 13 de maio só existem hoje em comunidades negras, a exemplo dos candomblés do Recôncavo baiano e dos congados do Sudeste.
Wlamyra R. De Alburquerque é diretora de arquivos da Fundação Pedro Calmon/SECULT-BA, professora da Universidade Estadual de Feira de Santana e co-autora do livro "Uma História do negro no Brasil (Rio de Janeiro: Ministério da Cultura - Fundação Palmares, 2006).

A terra prometida
Maria Alice Rezende de Carvalho
     Diversos projetos abolicionistas invadiram a cena política brasileira no último quarto do século XIX. O de André Rebouças foi um dos mais radicais. Talvez por isso tenha acabado derrotado.
     Mulato, baiano, filho de um membro proeminente da elite política imperial, Rebouças aclimatou-se desde muito cedo à vida na corte. Formado engenheiro militar aos 22 anos, dedicou-se à modernização de portos e à construção de estradas, para dotar o Brasil de infraestrutura compatível com a chamada Segunda Revolução Industrial, que mobilizava a imaginação técnica de duas jovens nações emergentes: Estados Unidos e Alemanha. No entanto, frustrou-se em sucessivas iniciativas para a modernização material do país.
     Sua vida foi reanimada pelo abolicionismo. Era o primeiro movimento de formação de opinião no Brasil, e a ele o engenheiro e empresário emprestou toda a sua energia. Dedicado a compreender os mecanismos que emperravam o desenvolvimento do país, chegou à conclusão de que vivíamos um bloqueio estrutural para a emergência de indivíduos livres. E que a libertação dos escravos, por si só, não seria suficiente. Entendia a abolição como um primeiro passo, ao qual se seguiria uma necessária eliminação do monopólio da terra, pois a autonomia individual só seria possível com a transformação do ex-escravo em pequeno produtor independente. Era este, para Rebouças, o único caminho de libertação dos homens pobres do campo, pretos ou brancos, ex-escravos ou imigrantes. 
     Sua convicção resultou em diversas propostas, como a do imposto territorial progressivo. No entanto, como os outros liberais brasileiros de seu tempo, ele temia que uma revolução agrária e popular resultasse em guerra civil. E assim viu cancelado seu projeto de refundação nacional. A partir de meados dos anos 1880, passou a considerar que somente o imperador poderia dirigir o processo de libertação dos escravos e uma eventual reforma agrária. Por isso, quando D. Pedro II é banido, Rebouças conclui que não tem mais o que fazer no Brasil, e opta por exilar-se na Ilha da Madeira.
    Suicida-se em 1898, convencido de que a civilização brasileira, tal como a da Grécia antiga, se extinguira. Com a diferença de que, por aqui, ela sequer florescera.
Maria Alice R. De Carvalho é professora do Departamento de Sociologia e Política da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RIO) e autora do livro "O quinto século. André Rebouças e a construção do Brasil (Rio de Janeiro: REVAN, 1998)

A santa e a dádiva
Lilia Schwarcz
     “Meu caro barão (de Penedo). Está feita a abolição! Ninguém podia esperar tão cedo tão grande fato e também nunca um fato nacional foi comemorado tanto entre nós. (...) Isabel ficou como a última acoitadora de escravos que fez do trono um quilombo (...). A monarchia está mais popullar do que nunca”. Assim Joaquim Nabuco descreveu os dias de júbilo que se seguiram ao 13 de maio de 1888.
     A Lei Áurea era mesmo popular, e conferia nova visibilidade à princesa Isabel e à monarquia. No entanto, politicamente, o Império tinha seus dias contados, ao perder o apoio dos fazendeiros do Vale do Paraíba. Apesar do clima de euforia reinante, parecia ser o último ato do teatro imperial.
     Mas, às vezes, o último é também o primeiro. Em meio a uma sociedade de marcas pessoais e de culto ao personalismo, a abolição foi entendida e absorvida como uma “dádiva”. Um belo presente que merecia, portanto, troco e devolução. Isabel converte-se em a “Redentora” e o ato transforma-se em mérito de “dono único”. Decadente e falida como sistema, a monarquia recuperava força no imaginário ao vincular-se ao ato mais popular do Império. A “realeza política” associava-se a uma “realeza mitificada”, quase mágica, senhora da justiça e da segurança.
      Nos jornais e nas imagens de época, Isabel passa a ser retratada como uma santa a redimir os escravos, que aparecem sempre descalços e ajoelhados, como a rezar e a abençoar a padroeira. Já a princesa surge de pé e ereta, contrastada com a posição curvada e humilde dos ex-escravos, que parecem manter a sua situação — se não mais real, ao menos simbólica. Aos escravos recém-libertos só restaria a resposta servil e subserviente, reconhecedora do tamanho do “presente” recebido.
      Estava inaugurada uma maneira complicada de lidar com a questão dos direitos civis. Sem a compreensão de que a abolição era resultado de um movimento coletivo, permanecíamos atados ao complicado jogo das relações pessoais, suas contraprestações e deveres: chave do personalismo e do próprio clientelismo. Nova versão para uma estrutura antiga, em que as relações privadas se impõem sobre as esferas públicas de atuação.
     Como se fôssemos avessos a qualquer associação com a violência, apenas reproduzimos hierarquias que, de tão assentadas, pareciam legitimadas pela própria natureza. Péssima lição de cidadania: a liberdade combinada com humildade e servidão, distante das noções de livre-arbítrio e de responsabilidade individual.
Lilia Moritz Schwarcz é professora titular da Universidade de São Paulo e autora do livro Espetáculo das raças. (São Paulo: Companhia das Letras, 2004).

Guerra de versões
Robert Daibert Jr.
     Desde a metade do século XIX a monarquia mostrou-se disposta a aprovar projetos abolicionistas. Em meio ao aumento da violência em conflitos entre escravos e senhores, as leis do Ventre Livre (1871) e dos Sexagenários (1885) buscavam manter a grande produção agrícola e preservar a ordem social.
     Este processo fez crescer a oposição dos proprietários escravocratas, que engrossavam as fileiras republicanas. Ao afastar-se deles, a monarquia se preparava para construir uma nova base de legitimidade, sintonizada com grupos emergentes (como os setores médios urbanos) e com as expectativas gerais da população. Para isso, investiu pesado na propaganda que associava a abolição a uma ação exclusiva da princesa Isabel. Uma espécie de febre monarquista, de natureza cultural e religiosa, foi difundida naquele momento. Valendo-se de concepções de realeza herdadas da África, foi natural para os negros adotar essa ideia da abolição como uma redenção concedida pela monarquia. Ela se espalhou pelos espaços da cultura popular, fortalecida em seu caráter místico e africanizado.
     Após a queda da monarquia, a República tentou ligar-se à memória da abolição. Seu principal argumento era a recusa do Exército em capturar os escravos fugidos. Reivindicava-se, assim, o reconhecimento dos republicanos militares como atores da abolição e redentores da pátria livre. Nos manuais escolares, o ensino da história da abolição exaltava como heróis republicanos Silva Jardim e Deodoro da Fonseca. Nas comemorações oficiais da abolição, o 13 de maio e o 15 de novembro eram apresentados como datas complementares de um mesmo processo de modernização do país, marcos de uma nova era que proporcionou o exercício pleno da cidadania, abrindo as portas do Brasil ao progresso e à civilização. De modo complementar, ligavam o sistema monárquico à escravidão e ao atraso do país, além de silenciar o nome da princesa Isabel no processo de aprovação do projeto convertido em lei.
     Mas a estratégia não conquistou os libertos e os afrodescendentes. Houve derramamento de sangue e tentativas de resistência após a proclamação da República. O novo regime foi assombrado por fuzilamentos em massa, espancamentos de negros fiéis à sua “Redentora”, prisão e deportação de líderes da Guarda Negra (espécie de milícia organizada para defender a monarquia e a princesa Isabel) e conflitos com ex-escravos que se recusavam a trabalhar para fazendeiros republicanos. Muitos negros, convencidos de que deviam sua liberdade ao trono, tornavam-se mártires pela monarquia. Consequentemente, foram esquecidos pela República. 
Robert Daibert Júnior é professor do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora e autor de "Isabel, a "redentora" dos escravos: Uma história da princesa entre olhares negros e brancos (1846-1988). (Bauru: Editora do Sagrado Coração - EDUSC, 2004)"


Exemplos a não seguir
Brasil e Cuba adiaram a libertação de seus escravos com leis que evitavamcolocar em risco as hierarquias raciais
     O século XIX estava perto do fim, mas Cuba e Brasil mantinham-se como as únicas regiões das Américas onde persistia a escravidão. A posição nada honrosa foi resultado de uma política de postergação do problema, com leis de emancipação gradual, até que a situação ficasse insustentável. Enfim, ficou.
     No Império do Brasil, a Lei do Ventre Livre, de 1871, libertava todas as crianças nascidas de mães escravas. A mesma lei instituiu medidas como a “alforria forçada”, obrigando o senhor a libertar o escravo que possuísse a quantia correspondente ao seu valor. Na Cuba ainda sob o domínio espanhol, a Lei Moret, de 1870, se assemelhava às iniciativas brasileiras: liberdade para todas as crianças nascidas de escravos a partir de 1868 e para todos os escravos com mais de 60 anos. A lei permitia ao escravo vítima de “crueldade excessiva”, submetido a uma grande quantidade de açoites, por exemplo, reivindicar a liberdade.
     Mas a legislação cubana foi aprovada por força de uma guerra anticolonial que agitou os escravos – muitos fugiram das fazendas, outros se incorporaram ao Exército Libertador, que lutava pela independência da ilha. Conhecida como Guerra dos Dez Anos (1868-1878), a campanha eclodiu em função de uma motivação nacionalista contra a Espanha, liderada por setores médios criollos (nascidos em Cuba), pequenos proprietários de escravos e negros livres urbanos. Durante a contenda, foi incorporada também a luta contra a escravidão. A independência mesmo só iria ocorrer em 1898, após outra guerra que durou três anos, e que teve a participação dos Estados Unidos, dando início à intervenção direta dos norte-americanos na ilha.
     Mesmo antes das leis emancipacionistas, escravos em Cuba e no Brasil já recorriam à Justiça para obter alforria. Os brasileiros usavam como argumentos a punição excessiva e situações como a de já ter sido libertado ou de ter entrado no país após a abolição do tráfico. Os cubanos iam aos tribunais por conflitos com seus amos sobre o preço da alforria. Com a aprovação da Lei Moret e da Lei do Ventre Livre, o Judiciário tornou-se um espaço ainda mais importante de disputa pela liberdade.
     A abolição do cativeiro em quase toda a América pressionava os últimos redutos escravocratas. Em 1879, uma comissão de parlamentares reuniu-se em Madri para discutir, entre outros temas, a escravidão em Cuba. As imagens da Guerra de Secessão (1861-1865) nos Estados Unidos, terminada 14 anos antes, ainda impressionavam as elites cubanas e as autoridades espanholas. Temia-se, para a ilha caribenha, um desfecho semelhante ao do vizinho Haiti – onde uma revolução dos negros em 1791 pôs fim à escravidão e, de quebra, ao domínio colonial francês. Alguns escravos e negros livres de Cuba tomavam a experiência haitiana como inspiração. No início do século XIX, circulavam por Havana gravuras com a imagem de Toussaint Louverture (1743-1803), escravo que se tornou o maior líder da revolução haitiana. Nas décadas seguintes, cativos envolvidos em conspirações antiescravistas, quando interrogados, demonstravam saber que os escravos haviam tomado o poder no Haiti – e alguns contavam com uma suposta ajuda dos haitianos para promover sua emancipação.
     Parlamentares e homens de governo que compunham a comissão de 1879 queriam evitar guerras sangrentas como as do Haiti e a dos Estados Unidos. Nos acirrados debates em Madri, a situação do Brasil foi bastante citada. A legislação emancipacionista brasileira era vista como exemplo de sucesso, pois, segundo os parlamentares, teria evitado o confronto armado, o declínio da produção e os conflitos raciais. Parecia ser uma lição para Cuba: a solução gradual extinguiria paulatinamente a escravidão sem colocar em risco as hierarquias raciais. Mas a marcha da liberdade no Brasil estava lenta demais. Em discurso dissonante na comissão, um dos parlamentares criticou: “E a opinião pública do Brasil, o que tem feito? Resolver a questão no sentido da abolição gradual. E como? (...) Pois bem: a lei gradual do Brasil é muito inferior à da abolição gradual de 1870 [Lei Moret]; cem anos pode viver o escravo naquele império sem que lhe alcance o benefício da redenção”.
     Cuba não podia se dar ao luxo de esperar mais. Havia notícias de “desordens e perturbações” nas plantações. Escravos da parte oriental da ilha começavam a desertar em massa das fazendas. Muitos dos que permaneciam promoviam uma “resistência” passiva ao trabalho. Em 1878, após dez anos de guerra, havia sido assinado um tratado de paz (Pacto de Zanjón). Os revoltosos capitularam e saíram da guerra sem a independência e sem a abolição. Mas alguns líderes do Exército Libertador, descontentes, iniciaram uma nova insurreição cerca de um mês antes da primeira reunião da comissão. É o caso de Antonio Maceo (1845-1896). Negro livre da província de Santiago de Cuba, Maceo havia se ligado à Guerra de Dez Anos em 1868 como soldado, destacara-se nas batalhas e chegara a ocupar o posto de general do Exército Libertador. Leitor de biografias de Toussaint Loverture, ele defendia a abolição completa e incondicional. Exortava os escravos a que deixassem as plantações e lutassem com as armas pela liberdade. O governo colonial, para enfraquecer o movimento, caracterizou a mobilização negra pela independência e pela abolição como “guerra racial”.
     Diante de tais pressões, a comissão reunida em Madri elaborou e enviou aos parlamentares cinco projetos de abolição. Um deles previa um período de “patronato”, em que os ex-escravos permaneceriam sob a tutela dos ex-senhores. Com algumas modificações, este projeto se transformou na Lei do Patronato, que foi aprovada pelas cortes espanholas em 13 de fevereiro de 1880. Embora falasse de “abolição imediata” em Cuba, o texto instituiu o patronatodos antigos senhores, concedendo aos ex-escravos o direito de receberem um pagamento, módico e simbólico, de três pesos mensais. A partir de 1884, os patronos estariam obrigados a liberar um quarto dos patrocinados em seu poder, começando pelos mais velhos. Quando a Lei do Patronato foi aprovada, havia em Cuba cerca de 194 mil escravos. No término do prazo estabelecido, em 7 de outubro de 1886, restavam apenas 25.381 patrocinadosa serem libertos.
     No final de 1886, o Brasil era o último país das Américas a manter a escravidão. Calcula-se que naquele momento ainda existiam mais de meio milhão de escravos. Minas Gerais (191.952), Rio de Janeiro (162.421), São Paulo (107.329) e Bahia (76.838) eram as províncias com o maior número de cativos no país. Nenhum projeto de abolição havia sido apresentado no Parlamento, e vigorava ainda a Lei dos Sexagenários, que em 1885 libertou todos os escravos com mais de 60 anos e que previa cerca de 13 anos para a extinção total da escravidão. Para muitos contemporâneos, isso significava que a escravidão já estava abolida no Brasil. Mas a opinião pública exigia a resolução imediata do problema servil. O movimento abolicionista estava a todo vapor. Comícios, saraus, peças teatrais e eventos para arrecadar fundos para a compra de alforrias movimentavam as cidades. Redes envolvendo intelectuais, advogados, negros livres e escravos aliavam a luta pela liberdade nos tribunais e na imprensa com ações como fuga e acoitamento (ocultação) de escravos. Escravos fugiam em massa das fazendas (sobretudo em São Paulo, mas também em outras regiões do Brasil) e recusavam-se a continuar trabalhando nas plantações.
     Nesse clima de “desordem” foi assinada a Lei da Abolição. Diferentemente das leis do Ventre Livre (1871) e dos Sexagenários (1885), a lei de 13 de maio foi aprovada às pressas, não tendo sido objeto de muitas discussões. A temperatura do debate público exigia urgência na solução da questão. O projeto foi apresentado à Câmara dos Deputados no dia 8 de maio, aprovado em segunda discussão no dia 9 e convertido em lei no dia 13. Escravistas de plantão exigiram indenização para os ex-senhores e leis que obrigassem os libertos a trabalhar. Mas não havia clima político para a tomada de medidas que sugerissem um novo tipo de escravidão. Foi aprovada a liberdade imediata e incondicional. Neste dia, encerrava-se a longa história de escravidão negra nas Américas.
Iacy Maia Mata é professora da Universidade do Estado da Bahia, autora da tese “Conspirações da ‘Raça de Cor’: escravidão, liberdade e tensões raciais em Santiago de Cuba (1864-1881)” (Unicamp, 2012).

Saiba mais - Bibliografia
ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de. O jogo da dissimulação: abolição e cidadania negra no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
FERRER, Ada; GARCIA RODRIGUEZ, Gloria; Opatrný, Josef. El rumor de Haití en Cuba: temor, raza y rebeldía, 1789-1844. Madrid: Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2004.
MENDONÇA, Joseli Nunes. Cenas da Abolição: escravos e senhores no Parlamento e na Justiça. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001. 
SCOTT, Rebecca J. Emancipação escrava em Cuba: a transição para o trabalho livre, 1860-1899. Rio de Janeiro: Paz e Terra; Campinas: Unicamp, 1991.

Saiba mais – Documentários

Abolição
Produzido em 1988, faz o resgate de 100 anos de abolição no país, através de um olhar preto. Entrevistas com personagens importantes para a preservação da cultura, como Abdias do Nascimento, Lélia Gonzalés, Beatriz do Nascimento, Grande Otelo, Joel Ruffino, Dom Elder Câmera em contraposição com D. João de Orleans e Bragança e Gilberto Freire. Um importante documento das ideias desses pensadores, como também de presidiários, mendigos e artistas populares na sua maioria negros. Questiona que tipo de abolição houve neste país já que a situação 100 anos depois continuava de muita luta, desigualdade e racismo.
Direção: Zózimo Bulbul
Ano: 1988
Áudio: Português
www.torrentdownloads.me/download/1651757159/Aboli+O+%28z+Zimo+Bulbul+1988%29Duração: 152 minutos
Tamanho: 676 MB

A Negação Do Brasil
Vencedor do Festival É Tudo Verdade de 2001, o documentário traz à tona a história das lutas dos atores negros pelo reconhecimento de sua importância na história da telenovela brasileira. O filme é enriquecido ainda mais com depoimentos de atores como Milton Gonçalves, Ruth de Souza, Léa Garcia, Zezé Motta e Maria Ceiça, entre outros, que contam suas experiências e discutem o preconceito contra artistas negros. O diretor Joel Zito Araújo, baseado em suas memórias, e em uma minuciosa investigação, analisa as influências das telenovelas nos processos de identidade étnica dos afro-brasileiros. Junto ao documentário, o autor lançou no mesmo ano (dezembro de 2000) o livro "A Negação do Brasil – o negro na telenovela brasileira" pela Editora Senac.
Direção: Joel Zito Araújo
Ano: 2000
Áudio: Português
http://thepiratebay.sx/torrent/9210072 Duração: 91 minutos
Tamanho: 343 MB

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Curso Preparatório para o ENEM

Para o novo ENEM, Concursos Públicos e Vestibulares. O Kit Preparatório para o Novo Enem possibilita ao aluno o conhecimento necessário para que ele tenha um bom desempenho na resolução da prova do ENEM. Contando com vídeo aulas, este curso foi elaborado por professores com ampla experiência em cursos preparatórios para os mais concorridos vestibulares.

Clique no nome do dvd para baixar

- Literatura Portuguesa;
- Literatura;
- Artes.

- Física;
- Química;
- Biologia.

- Física;
- Química;
- Biologia.

- Matemática.

sábado, 25 de maio de 2013

Por uma onda de paz na Faixa de Gaza

     Tal e Naim vivem em terras tensas a apenas 80 km de distância, em que brigas e mortes são uma constante, com um histórico imenso de guerra, violência e intolerância religiosa. Apesar de morarem próximos, os dois jovens têm vidas bem diferentes: Tal é uma francesa judia que vive em Jerusalém; Naim é palestino e mora em Gaza.
     Sem entender o porquê dos ataques constantes a Gaza, um lugar tão perto e tão longe de sua realidade, Tal manda um recado dentro de uma garrafa, atirada ao mar por seu irmão, soldado militar que vai lutar em Gaza. Na mensagem, uma clara vontade de saber quem encontrou a tal carta e vários questionamentos a respeito da situação que tanto agride os dois povos. Semanas depois, Tal recebe uma mensagem de Naim, que até encontrou a carta, mas, desconfiado, assinou o e-mail apenas como Gazaman. Assim começa o filme “Uma garrafa no mar de Gaza”, dirigido por Thierry Binisti e baseado no romance de Valérie Zenatti.
     Mesmo com as barreiras políticas – e físicas (separados por um muro, o “outro lado”) – que proíbem qualquer tipo de contato entre eles, Tal e Naim conversavam cada vez mais, diariamente, através dos e-mails, mesmo com todos os conflitos que os cercam.
     - Era preciso inventar um modo de comunicação que juntasse o arcaico (a garrafa no mar) com o moderno (a troca de e-mails). Só assim os dois conseguiriam se comunicar – conta Thierry Binisti, no texto de lançamento do longa.
     Entre uma troca e outra de e-mails, sempre escondida, os dois se apaixonam, compartilham experiências e descobrem a diferença cultural e a história de seus povos. Enquanto isso, perguntam-se “de que lado eu estou?” e percebem que, apesar de todas as diferenças, são iguais. E reféns de uma situação que está longe de terminar.
     O filme é um convite para olhar o conflito entre os dois povos sob novas perspectivas, sem se deixar fechar apenas às interpretações dominantes e tão parciais.
Direção: Thierry Binisti
Ano: 2013
Áudio: Francês, Hebraico, Árabe
Duração: 95 minutos

Inch’Allah
Chloé é uma jovem médica canadense que divide seu tempo entre o Ramallah, onde trabalha com a Organização Humanitária “Red Crescent”, e Jerusalém, onde mora ao lado de sua amiga Ava, uma jovem soldada israelense. Cada vez mais sensível ao conflito, Chloé vai diariamente pelo posto entre as duas cidades para chegar ao campo de refugiados, onde monitora as gestações de mulheres jovens.
Como se torna amiga de Rand, uma de suas pacientes, Chloé aprende mais sobre a vida nos territórios ocupados e começa a passar algum tempo com a família de Rand. Dividida entre os dois lados do conflito, Chloé tenta tudo que pode para criar elos entre suas amigas, mas sofre por permanecer uma eterna estrangeira para ambos os lados.
Direção: Anaïs Barbeau-Lavalette
Ano: 2013
Áudio: Inglês, Francês, Hebraico,Árabe
Duração: 100 minutos

O Filho do Outro ( Le Fils de l'autre)
Prestes a integrar o exército israelense para cumprir seu serviço militar, Joseph descobre que foi trocado na infância com Yacine, filho de uma família palestina da Cisjordânia. A vida das duas famílias se transforma radicalmente com esta descoberta, forçando cada um a reconsiderar seus valores e sua identidade.
Direção: Lorraine Levy
Ano: 2012
Áudio: Inglês, Francês, Hebraico, Árabe
Duração: 100 minutos


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Um imperador sob suspeita

Conhecido como incendiário, Nero teria sido vítima de interpretações anacrônicas de historiadores antigos.
     O homem que matou a mãe, o meio-irmão e a própria esposa. Um tirano excêntrico, cujo reinado foi marcado por embates com a aristocracia, mas que se considerava um artista talentoso. Cantava, tocava cítara e escrevia poesia, participando de apresentações públicas e tendo inclusive viajado à Grécia nos anos de 67 e 68 para participar de competições artísticas. Mas foi principalmente como um incendiário enlouquecido que Nero entrou para a história.
     Sua biografia, porém, pode ter sido distorcida pelos historiadores que retrataram a sua vida até quase 200 anos depois. Uma diferença de tempo que não afetou apenas a conferência às informações, mas a interpretação desses próprios dados.
     Seu reinado é conhecido basicamente por meio das obras de três autores: Tácito (Anais, livros 13-16), Suetônio (Vida de Nero) e Dião Cássio (História Romana, livros 61-63). Essas obras foram compostas entre a primeira metade do século II e a primeira metade do século III, ou seja, bem depois dos eventos que se propõem a narrar. Esses autores estão alinhados a uma tradição negativa que se propagou a respeito de Nero nos círculos políticos em Roma após sua morte. A visão que eles têm do imperador se deve, em larga medida, a uma visão dos aristocratas contra aqueles que tentaram concentrar demais o poder. Os eventos que eram desfavoráveis ao imperador foram destacados em detrimento daqueles que fossem positivos. Por isso a construção da figura histórica de Nero pode ser compreendida a partir da comparação entre os diversos testemunhos de época e, mesmo posteriores, que relatam suas ações.
     Nero governou o Império Romano entre 54 e 68. Ascendeu ao trono com 17 anos de idade, com a morte do imperador Cláudio, provavelmente envenenado por sua terceira esposa, Agripina, que anos antes fizera com que o marido adotasse Nero, filho dela de um casamento anterior. Com o apoio dos pretorianos (a guarda imperial), Agripina conseguiu garantir a ascensão de Nero ao trono, o que, no entanto, não evitou que ele a eliminasse em 59 para afirmar ainda mais sua autoridade. Considerado inimigo público pelo Senado, e enfrentando um levante militar na Gália, o imperador suicidou-se em 68.
     O principal alvo da crítica de historiadores e biógrafos na Antiguidade a Nero foi o palácio que ele ergueu após o incêndio de Roma em 64, sua “Casa Dourada”, a Domus Aurea. O complexo palaciano foi ampliado e chegou a cobrir uma área estimada em cerca de 50 hectares. A Domus Aurea não compreendia apenas uma residência no monte Palatino, onde os imperadores costumavam construir suas moradas, mas um enorme parque – incluindo um lago artificial – que cobria as colinas do Célio e Esquilino, assim como o vale entre ambas, área hoje ocupada pelo Coliseu.
     “O lago, análogo a um mar, era rodeado de edifícios que davam o aspecto de uma cidade”, escreveu Suetônio, fazendo questão de ressaltar a suntuosidade da construção: “Além disso, planícies com terrenos cultivados, vinhedos, pastagens, florestas com uma quantidade extraordinária de animais domésticos e selvagens de todas as espécies. Nos demais lugares do palácio, tudo se cobria de ouro e se incrustava de gemas e madrepérolas”. Tudo isso era, na interpretação de Suetônio, uma demonstração de poder do imperador frente aos demais aristocratas. Mas, como uma espécie de compensação, essa construção foi acompanhada de uma reurbanização das partes da cidade que ficavam além do palácio. Medidas que, para Tácito, trouxeram melhorias à cidade. Nero ordenou que ruas fossem traçadas de forma regular e alinhada, que os edifícios tivessem a altura reduzida e foram proibidas as paredes comuns para impedir a disseminação do fogo.
     Sobre o incêndio provocado por Nero, Tácito escreve o seguinte em seus Anais: “Seguiu-se uma grave calamidade, atribuída por uns a Nero, por outros ao acaso”. Havia diferentes versões sobre o incêndio à época de Tácito, algumas inocentando o imperador. Mas sua narrativa contribui para sustentar uma leitura ambígua da participação do imperador no evento. Por exemplo, é negado que tenha havido qualquer esforço coletivo no combate às chamas: “Ninguém ousava combater o fogo pois ouviam frequentes vozes ameaçadoras que o impediam, e até mesmo se viram pessoas abertamente lançando tochas e dizendo-se autores do incêndio, ou para exercerem com mais liberdade o roubo ou porque tivessem mesmo ordens para isso”.
     Suetônio é mais direto em relação a apontar o culpado. “Desgostoso com a deformidade das velhas construções e com as vias estreitas e tortas, [Nero] incendiou a cidade tão abertamente que muitos antigos cônsules não se atreveram a impedir seus camareiros, embora deparassem com eles portando tochas.” Já Dião Cássio menciona que “guardas noturnos” – em alusão às coortes de vigília de Roma, tropas formadas por libertos responsáveis por combates a incêndios – estavam  presentes, mas apenas para saquear e começar novos focos de incêndio.
     Os relatos paralelos entre as fontes indicam que não houve uma atividade organizada pelas coortes de vigília para debelar o fogo. Mas a imagem de Nero como incendiário, no entanto, não deve ser aceita de imediato. A partir da leitura de Tácito, o fogo parece ter ocorrido em dois estágios. Irrompeu inicialmente na parte oriental do Circo Máximo, espraiando-se rapidamente devido às casas de madeira e à ação do vento pelas ruas tortuosas e estreitas. Esse incêndio durou cerca de seis dias, quando o monarca encontrava-se em Âncio, a 50 quilômetros do sul de Roma.
     Tácito narra que o imperador retornou apenas quando o fogo ameaçou sua casa e o palácio. Ele também agiu no sentido de ajudar a população: permitiu que a população desabrigada se acolhesse no Campo de Marte e nos jardins de Agripa, que era então de sua propriedade. Construiu edifícios e mandou buscar utensílios domésticos em outros municípios, e até baixou o preço do trigo. Essa reação do imperador não evitou que ele próprio fosse apontado como incendiário, pois um rumor se espalhou, dizendo que, enquanto o fogo consumia a cidade, ele tocava lira.
     Num segundo momento, o fogo reapareceu na propriedade de Ofônio Tigelino, prefeito do Pretório – comandante da guarda pretoriana, responsável pela segurança do imperador e sua família – e principal conselheiro de Nero. Este fato induziu Tácito a supor que esse incêndio foi proposital, e praticado para permitir que Nero construísse o majestoso palácio no centro de Roma. Porém, também é provável que as coortes de vigília tenham conscientemente ateado fogo em determinadas partes da cidade para queimar o que restava de material combustível. Essa alternativa não deve ser descartada. Ainda mais porque Tigelino possivelmente estava à frente das operações de demolição para cercar o fogo. As coortes de vigília eram chefiadas por um praefectus vigilum, o equivalente a um chefe de polícia, mas tal cargo estava vago à época (seu titular, Aneu Sereno, morrera em 62 e não há registro de seu sucessor imediato), o que complicou a logística de combate ao fogo. Tigelino, que estivera à frente dessas coortes antes de se tornar prefeito do Pretório, assumiu a liderança.
     Essas suposições revelam que os rumores sobre a intenção incendiária do monarca poderiam ter se originado pelo envolvimento de seu principal homem de confiança, que se serviu de guardas pretorianos e outros funcionários imperiais para controlar o incêndio. O ressentimento daqueles que perderam suas casas e bens certamente levou-os a imputarem ao imperador a responsabilidade, esperando com isto uma compensação.
     Nero rebateu os rumores de seu envolvimento lançando a culpa nos cristãos, cuja comunidade em Roma começava a ganhar expressão. De acordo com Tácito, alguns cristãos foram presos e torturados, outros lançados às feras e alguns queimados como tochas em espetáculos públicos. Este último castigo, aliás, era reservado justamente a incendiários. Embora tal perseguição tenha tido uma curta duração e ficado restrita a Roma, autores cristãos posteriores aceitaram as alegações de Tácito, figurando Nero como o primeiro imperador romano a perseguir os cristãos. A transmissão de uma imagem negativa de Nero se deve, assim, em boa medida, à visão que a Cristandade produziu da história das perseguições.
     Não é possível saber se Nero foi o principal responsável pelo incêndio de Roma em 64. Mas o estudo mais atento às principais fontes demonstra que, antes de se afirmar verdades inabaláveis, a história precisa refletir melhor sobre como cada época produz sua própria visão do passado.

Fábio Duarte Joly é professor da Universidade Federal de Ouro Preto e autor de Libertate opus est: escravidão, manumissão e cidadania à época de Nero (Editora Progressiva, 2010).

Saiba mais - Bibliografia
MACHADO, Carlos Augusto Ribeiro. Roma e seu Império. São Paulo: Saraiva, 2000.
SILVA, Gilvan Ventura e MENDES, Norma Musco (orgs.). Repensando o Império Romano: Perspectiva socioeconômica, política e cultural. Rio de Janeiro: Mauad, 2006.
SUETÔNIO. A vida dos doze Césares. Trad. Sady-Garibaldi. São Paulo: Ediouro, s/d.
TÁCITO. Anais. Trad. Leopoldo Pereira. São Paulo: Ediouro, s/d.

Saiba mais - Documentário
Roma Antiga - Ascensão e Queda de um Império (Ancient Rome: The Rise and Fall of an Empire)
Documentário dramatizado conta a história da ascensão e queda da Antiga Roma através de 6 momentos decisivos. Baseado em fatos acurados e extensa pesquisa histórica, ele revela como a avidez, luxúria e ambição de homens como César, Nero e Constantino moldaram o Império Romano. Ele descreve como Roma destruiu Cartago, como foi dominada por César, como sufocou a revolta judia e como foi convertida ao Cristianismo. Animações gráficas, atuações convincentes e espetaculares batalhas ao vivo foram utilizadas para contar a história de como o Império se formou, como atingiu seu máximo apogeu e porque finalmente decaiu.
01- César
Este episódio se concentra no Romano mais famoso de todos – Caesar. Charmoso, selvagem, obcecado pelo poder, oportunista e brilhante, ele derrubou 500 anos da antiga república e deu início à Era dos Imperadores.
02- Nero
Este programa focaliza Nero, acompanha sua obsessão em se tornar um deus, como seus planos de transformar Roma numa cidade gloriosa arruinou o Império, como se casou com seu escravo e matou sua amada esposa num frenesi e como finalmente foi derrubado.
03- Rebelião
Este episódio conta a história da Revolta Judia que varreu a Judéia em 66 D.C. e ameaçou desestabilizar todo o Império. Roma recorreu ao General Vespasiano e seu filho Titus para enfrentar os rebeldes. Repleto de ataques espetaculares e enormes cenas de ação, o filme contrapõe a disciplina e a ingenuidade do exército Romano contra a paixão e comprometimento dos rebeldes.
04- Revolução
Roma foi outrora uma grande sociedade democrática, com eleições regulares. Esta República durou 500 anos até a chegada de Tiberius Gracchus. Ele acreditava nos ideais da República – justiça, decência e lealdade – mas ficou horrorizado com o tratamento que os aristocratas dispensavam ao povo. Então ele liberou o poder da turba sobre as ruas de Roma, com consequências devastadoras.
05- Constantino
O episódio conta a história de como o Imperador Constantino trouxe o Cristianismo para o mundo Ocidental. Em 312 D.C., Roma estava em crise. O Império fora dividido em 4 partes, cada uma com seu próprio Imperador que lutavam entre si. Constantino interveio e unificou Roma, usando meios militares e uma nova religião – o Cristianismo.
06- A Queda de Roma
Em 410 D.C., os Godos saquearam a cidade. Este evento simboliza o colapso de Roma. Em 70 anos, o Império Ocidental – o que entendemos como Roma Antiga – desapareceu. Mas não para sempre.
Direção: Nick Murphy
Ano: 2006
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: +- 59 minutos

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