"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

domingo, 13 de julho de 2014

Presidentes da 1ª República - Rodrigues Alves

A República do conselheiro
Monarquista e conservador, Rodrigues Alves promoveu uma verdadeira revolução urbana na capital federal e foi o político mais influente da Primeira República
Rodrigo Elias
     Oswaldo Cruz, Pereira Passos, barão do Rio Branco. O leitor de Nossa História já conhece esses nomes de relevo do início da República, mas talvez não te­nha atentado para um fato, fundamental nesse perío­do, comum às atuações deles: todos se consa­graram sob a presi­dência de Rodrigues Alves (1902-1906).   
     Paulista de Gua­ratinguetá, filho de um imigrante português que se tornou grande agricultor, Fran­cisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) sem­pre se destacou nos estudos, tanto no Colégio Pedro II, no Rio de Janei­ro, onde se formou em Letras em 1865, como na Faculdade de Direito de São Paulo, concluída em 1870.
     Sua vida política come­çou em 1871, como depu­tado provincial de São Paulo pelo Partido Conservador. Em 1884, aos 36 anos, foi eleito depu­tado geral, fato repetido em 1886. Um ano depois foi nomeado pelo gabinete conservador do barão de Cotegipe para a presidência de São Paulo. Rodrigues Alves deparou com uma situação caótica: uma das principais províncias do Impé­rio, São Paulo estava praticamente em guerra civil. No interior, revol­tas e fugas em massa de escravos; na capital, os primeiros focos de agita­ção anarquista; e, no litoral, epide­mia de varíola. Frente à inutilidade de usar as forças públicas contra a agitação político-social, ele optou por centrar forças na questão da saúde e pediu crédito especial ao Império para combater a varíola. Após curtíssimo governo, de ape­nas cinco meses, controlou a epide­mia, o que rendeu elogios da prin­cesa Isabel na fala do trono de 1888.
     De volta à vaga de deputado ge­ral, votou a favor da Abolição na memorável sessão de 5 de maio de 1888, dias antes da assinatura da lei pela regente. Três meses depois, Ro­drigues Alves era feito conselheiro do Império, honraria concedida por decreto da princesa Isabel. Fiel ao regime e ao Partido Conserva­dor, o político não foi colocado de lado, após o golpe de 1889, pe­la nova elite política. O governo provisório de São Paulo o indicou como representante do estado pa­ra a Assembleia Constituinte con­vocada por Deodoro.
     Após a eleição de Deodoro, em 1891, a Assembleia Constituinte se transformou em Congresso Na­cional e Rodrigues Alves em depu­tado federal por São Paulo, passando a presidir a importante Comis­são de Orçamento. Floriano Peixo­to, ao assumir o governo ainda em 1891 - em meio à inédita es­peculação financeira, em grande parte deflagrada pela gestão de­sastrada de Rui Barbosa, ministro da Fazenda de Deodoro -, deci­diu chamar Rodrigues Alves, em tom que beirava a ameaça, para aquela pasta. Foi provavelmente a única decisão política acertada de Floriano, embora tenha se arre­pendido dela. Rodrigues Alves enfrentava um ano dificílimo: perdera a esposa, de complica­ções de parto, um mês após assu­mir o ministério, e a filha mais velha, vitimada pelo tifo.
     Mesmo assim o conselheiro era a imagem da serenidade política e econômica. Como resumiu Ni­colau Sevcenko, a esta altura, "so­mente a restauração da imagem austera e confortantemente conser­vadora herdada do Império pode­ria restabelecer as forças exauridas do Tesouro Nacional. É sobretudo sob este signo que se instaura a 'República dos Conselheiros', esbo­çada já desde a gestão de Rodrigues Alves como ministro da Fazenda de Floriano e colimada integral­mente pelos governos civis até a ir­rupção da Grande Guerra". Até na aparência o conselheiro preservava o estilo imperial: em vez do terno de casimira e do chapéu, típicos dos republicanos, continuou a os­tentar, até o final da vida, o jaque­tão preto e a cartola, ambos fora de moda. E ainda retomou em 1903, logo após assumir a presidência, um velho hábito de d. Pedro II: a temporada de verão em Petrópolis.
     Readquiriu a confiança do setor financeiro, mas foi obrigado a pedir exoneração do cargo em agosto de 1892, quando passou a ser ignorado por Floriano nas reuniões ministeriais, após a sua manifestação a favor da eleição presidencial. Em 1894 assumiu novamente a pasta da Fazenda no governo de Prudente de Moraes, quando conseguiu amealhar em­préstimos no país e no exterior e preparar o funding-loan - grande acordo financeiro externo que se­ria colocado em prática pelo go­verno seguinte, de Campos Salles (1898-1902), mas sob sua estrita orientação. Em 1895 perdeu outra filha, no Rio de Janeiro, de febre amarela, e prometeu à família um dia acabar com este mal.
     Assumiu novamente o gover­no de São Paulo em 1900. E este seu segundo governo foi, de fato, um ensaio de sua presidência: em pouco mais de um ano combateu a febre amarela e a peste bubóni­ca, que se alojaram no estado na onda da grande imigração; instalou o Instituto Butantã; promo­veu uma reforma judiciária; reali­zou obras de saneamento; cons­truiu escolas e pontes; contratou a vinda de imigrantes europeus e introduziu técnicas de conserva­ção do solo. Tudo isto em meio a uma grave crise de superprodu­ção de café, com acentuada baixa do preço. Com todo este esforço, já em 1901 as contas do governo acusavam um saldo orçamentário que ultrapassava 30% da receita.
     O conselheiro, ainda candidato, apresentou seu plano de governo em 1901, vinculando a reforma da capital federal à questão econômico-financeira. E logo os emprésti­mos da Grã-Bretanha ao Brasil saltaram de 37 milhões de libras para quase 113 milhões nos pri­meiros anos da República. A op­ção pela continuidade dessa polí­tica foi clara por parte dos chefes regionais: Rodrigues Alves foi eleito presidente em 1º de março de 1902, com mais de 590 mil vo­tos. Afonso Pena, seu sucessor, te­ve menos de 290 mil.
     Assim, quando assumiu o go­verno em 15 de novembro de 1902, Rodrigues Alves foi o pri­meiro governante brasileiro, des­de 1889, a trazer pronto um pro­grama de governo: manter o rigor financeiro, eliminar as epidemias que assolavam impiedosamente a cidade mais populosa do Brasil e inserir o país, definitivamente, na ordem civilizada internacional. Tinha à sua frente uma única missão: a "regeneração" do Brasil.
     A tarefa não foi fácil, a começar pela escolha do ministério. O con­selheiro fazia questão de selecionar o primeiro escalão do governo por critério de competência, atitu­de paulatinamente abandonada pelos seus sucessores. Um colabo­rador em especial, o futuro minis­tro das Relações Exteriores, relutou bravamente antes de aceitar o convite. Fora do país desde 1876, o barão do Rio Branco, monarquista convicto, tinha aversão à agitação e à inconstância republicanas. Mas foi convencido e teve participação brilhante no governo, com grande destaque para as questões do Acre, do Peru, dos limites com a Colôm­bia e com o Uruguai. Embora al­guns acordos tenham sido fecha­dos depois, as negociações foram feitas no governo de Rodrigues Al­ves e sob sua direta fiscalização.
     Outros dois ministros funda­mentais para a execução do projeto de Rodrigues Alves foram o baiano José Joaquim Seabra (1855-1942), do Interior e Justiça, e o ca­tarinense Lauro Muller (1863-1926), de Viação e Obras Públicas. O primeiro foi de extrema im­portância para o controle das epidemias, uma vez que a Saúde Pública era atrelada àquele mi­nistério. O segundo ficou basica­mente encarregado de levar a ca­bo a construção de um novo por­to na capital, uma vez que o anti­go não comportava mais o volu­me de negócios.
     Para colocar o plano em exe­cução, Rodrigues Alves lançou mão do experiente engenheiro Francisco Pereira Passos (1836-1913), nomeado com poderes ditatorias na prefeitura do Distrito Federal. Também convidou para o governo, garantindo liberdade total de ação, o jovem sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), de apenas trinta anos, nomeado chefe da Saúde Pública.
     Pereira Passos tratou da maio­ria das grandes obras realizadas no Rio de Janeiro desta época (ver gráfico ao lado). Alargou ruas e rasgou avenidas, certificando-se de que as novas construções esta­riam dentro dos padrões moder­nos de higiene. Os casarões colo­niais do centro, verdadeiros depó­sitos de gente, onde até os de­graus das escadas internas eram alugados como dormitório, fo­ram abaixo. A construção do no­vo porto, reivindicada há déca­das, foi assumida pelo governo, que realizou grande parte da obra, permitindo que o Rio de Ja­neiro recebesse na­vios de grande ca­lado. Para escoar os produtos para o centro comercial da cidade era pre­ciso uma larga ave­nida, que também servisse como vitri­ne de um país "re­generado". Construiu-se, assim, sob a responsabilidade do engenheiro Paulo de Frontin, a Avenida Cen­tral que, por sua exigência, pos­suía 33 metros de largura, para su­perar a Avenida de Mayo, em Buenos Aires, com trinta metros.
     Some-se a isto a ação enérgica de Oswaldo Cruz, atacando os mosquitos de for­ma implacável - sob protestos da imprensa e de po­líticos que não acreditavam que o inseto transmitis­se febre amarela - e reduzindo as mil mortes ocorridas em 1902 para 53 em 1904. O conse­lheiro tinha total confiança nos seus subordinados e não foi dife­rente com Oswaldo Cruz. Sua ação contra a varíola, que desen­cadeou a Revolta da Vacina, em 1904, foi apoiada integralmente pelo presidente, favorável à vaci­nação obrigatória - comum na Europa, mas considerada um ato de tirania no Brasil.
     Rodrigues Alves deixou o go­verno com popularidade. Afinal, criou uma capital para a Repúbli­ca, debelou epidemias e, de que­bra, deixou um saldo de 250 mil contos de réis ao seu sucessor, Afonso Pena. Governou o estado de São Paulo novamente, entre 1912 e 1916, quando fundou a Faculdade de Medicina, mas re­cusou voltar à presidência em 1909 e 1914. Mais tarde aceitou e em 1918 foi eleito presidente, mas morreu sem assumir, em ja­neiro de 1919, vítima, ironica­mente, de uma epidemia, a da gripe espanhola. Encerravam-se assim cinquenta anos de vida po­lítica que fizeram do conselheiro imperial o maior estadista da Pri­meira República.

Rodrigo Elias é professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.

Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 29 – Março - 2006

Saiba Mais – Link
No início do século XX, os cariocas trocavam roedores por dinheiro e ajudavam no combate à peste.

Saiba Mais – Filme
Sonhos Tropicais
No início do século XX chegam ao Rio de Janeiro, no mesmo navio Esther, uma jovem polonesa com a promessa de se casar e iniciar uma nova vida, e Oswaldo Cruz, que retorna de Paris cheio de sonhos em transformar a saúde pública do país. Esther, uma jovem judia vinda da Polônia com a promessa de se casar, mas quando chega ao Rio de Janeiro é obrigada a trabalhar como prostituta em um bordel da Lapa. Esse tipo de situação era comum no inicio do século XX, pobres ou fugidas do antissemitismo acabavam se tornando prostitutas, ou por serem obrigadas ou por falta de opção, eram as chamadas “Polacas” ou “Escravas Brancas” - essa pratica só começo a decair após a década de 40. Já Oswaldo Cruz, foi nomeado chefe do departamento de Saúde Pública responsável por eliminar as várias doenças - peste bubônica, febre amarela e a varíola- que assolavam a população da cidade. Anos de insatisfação popular e forte oposição política explodem a "Revolta da Vacina".
 Direção: André Sturm
Ano: 2002
Áudio: Português/Legendado
Duração: 124 minutos

Saiba Mais – Documentário
A Peste Negra
No século 14, a peste bubônica deixou um saldo de 25 milhões de mortos e fez tantas vítimas que os corpos tinham de ser queimados em piras. Os primeiros sintomas da doença popularmente conhecida como “peste negra” eram semelhantes à de um simples resfriado. Na tentativa de fugir da peste, nobres vindos de Messina, Gênova, Marselha e Veneza lotavam navios que, em vão, tentavam desembarcar em Constantinopla. Muitos morreram em barcos à deriva. Levada para a cidade pelos ratos que saíam dos navios, a peste chegou à Turquia. O programa reconstitui o início da praga, como ela se espalhou pelo mundo e o cotidiano das pessoas que a enfrentaram.
Produção: The History Channel
Ano: 2005
Áudio: Português/Legendado
Duração: 90 min. 

sábado, 5 de julho de 2014

Presidentes da 1ª República - Prudente de Moraes - Campos Salles

Um caipira no palácio
Tido como reservado e sovina, Prudente de Moraes não era um presidente popular, até que um fracassado atentado contra sua vida o fez cair nas graças da população.
Jonas Soares de Souza
      "Meu Deus! Meu Deus! É um horror", murmurou o marechal Carlos Machado Bittencourt (1840-1897) ao ser conduzido à sala de espera do Arsenal de Guerra pelo comandante Edmundo Bittencourt e o alferes Gonçalves. O presidente da República, muito emocionado, também o acompanhou. Momentos depois morria o marechal, ministro da Guerra do governo Prudente de Moraes (1894-1898). A notícia se espalhou como pólvora, bandeiras de todos os jornais foram postas a meio pau e em pouco tempo uma multidão se aglomerava nas ruas da capital federal.
     A intenção do assassino, o soldado do 10° Batalhão de Infantaria Marcelino Bispo de Melo (1878-1898), era matar o presidente. No dia 5 de novembro de 1897, Prudente de Moraes estava no arsenal para recepcionar o general Silva Barbosa e dois batalhões da coluna que lutara em Canudos e chegava ao Rio de Janeiro a bordo do navio Espírito Santo. Um grupo de inimigos políticos e conspiradores instigava a multidão a provocar o presidente. Nesse momento, Marcelino Bispo surgiu à sua frente e disparou. Num movimento instintivo, Prudente desviou-se do tiro. O marechal Bittencourt derrubou o agressor, mas ele tinha uma faca e golpeou o ministro.
     O assassino foi recolhido a uma das celas das proximidades prometendo fazer graves declarações. O inquérito aberto pelo primeiro delegado auxiliar, Vicente Neiva, arrolou entre os suspeitos militantes oposicionistas que atacavam o presidente pelos jornais. Marcelino Bispo, após alguns dias de interrogatório, apareceu morto, pendurado em um pedaço de lençol preso à grade da cela.
     O atentado vinha sendo tramado há um bom tempo. Logo após a Proclamação da República, civis e militares de forte orientação nacionalista formaram um movimento conhecido como jacobinismo, em alusão aos radicais da Revolução Francesa. Ao assumir a Presidência, o marechal Floriano Peixoto (1839-1895) tratou de capitalizar as esperanças desse movimento. Já Prudente de Moraes era visto como o sabotador da obra nacionalista do antecessor. A primeira ideia dos assassinos era alugar uma casa no Catete, de onde o presidente seria alvejado quando passasse pelas ruas do bairro. A segunda, como conta a historiadora Isabel Lustosa, era posicionar "um certeiro atirador no morro mais próximo para atirar no presidente quando se postasse - como fazia todas as manhãs - à janela do palacete presidencial, para, enrolando o seu prosaico cigarro de palha, ler o jornal do dia". O plano acabou nas mãos do fanático Marcelino Bispo. O atentado que matou o ministro da Guerra devolveu ao presidente a popularidade perdida, o apoio de parte da imprensa e de parlamentares que passaram a cobrar medidas enérgicas contra a oposição. Prudente obteve do Congresso o estado de sítio.
     Nada mal para um presidente cuja posse, em 15 de novembro de 1894, não tinha sequer uma cerimónia de transmissão de cargo preparada. O Palácio do Itamaraty, então sede do governo, estava quase vazio. Na ausência de Floriano, o ministro da Justiça e Negócios do Interior, Alexandre Cassiano do Nascimento (1859 -1912), transmitiu o cargo a Prudente de Moraes sem solenidades.  O novo presidente recebia como herança um país combalido pela crise financeira, irritado com o alto custo de vida provocado pela política econômica do início da República, convulsionado pela Revolução Federalista e pela Revolta da Armada, e ameaçado pela ideia do retorno à monarquia. A estrutura agrária, que condenava à miséria a maioria da população rural, e a situação no arraial de Canudos, no sertão da Bahia, agravavam ainda mais as dificuldades da sua gestão. Politicamente o mandato de Prudente de Moraes também enfrentava dificuldades. A parcela do Partido Republicano Federal vinculada aos florianistas e chefiada pelo ex-ministro Francisco Glicério (1846-1916) abandonara o presidente. Além disso, no Congresso a bancada paulista se dividiu. Os estados menores não aceitavam pacificamente o domínio de São Paulo sobre o governo federal. As camadas urbanas e algumas facções militares, especialmente aquelas ligadas ao florianismo, se opunham ao seu governo. A tensão culminou com o atentado.
     Prudente José de Moraes Barros nasceu num sítio perto de Itu, São Paulo, a 4 de outubro de 1841. Aprendeu as primeiras letras com a mãe, Catarina Maria de Moraes, viúva de José Marcelino de Barros. O pai, lavrador e tropeiro, morrera assassinado quando o menino Prudente mal tinha completado três anos de vida. Ajudado pelo padrinho Antônio José da Silva Gordo, lavrador e comerciante, Prudente continuou os estudos, mudou-se para São Paulo e entrou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Estudante pobre, metódico e pão-duro, como se pode deduzir de algumas cartas, ele mesmo cuidava de sua roupa, lavando, passando e fazendo eventuais pequenos consertos. Mesmo depois de ocupar os mais altos cargos da República hospedava-se em hotéis baratos e não se esquecia de pedir descontos em assinaturas de jornais e revistas. Nas Arcadas teve como colegas Campos Salles (1841-1913), Bernardino de Campos (1841-1915) e Francisco Rangel Pestana (1839-1903). Formado em Direito, Prudente abriu escritório de advogado em Piracicaba, cidade onde já estava instalado o seu irmão Manuel de Moraes Barros (1836-1902).
     Casado com Adelaide Benvinda, filha do padrinho Silva Gordo, Prudente ingressou na carreira política como vereador pelo Partido Liberal e presidiu a Câmara de Piracicaba em 1865-1868. Elegeu-se deputado provincial em São Paulo para a legislatura de 1868-1869. Enquanto seu irmão Manuel participara desde os primeiros momentos do movimento da propaganda republicana, Prudente se mantinha fiel ao Partido Liberal. O seu nome não aparece na lista subscrita em Piracicaba em apoio ao Clube Republicano e publicada na edição de 30 de março de 1871 do jornal A República. Ele também não figura no livro de presença da Convenção de Itu. Contudo, Prudente de Moraes consta da ata dessa assembleia, realizada a 18 de abril de 1873. O seu nome está grafado com caligrafia e tinta diferentes daquelas utilizadas na redação da ata, o que nos leva a pensar que ele tenha sido incluído posteriormente, talvez quando já era um nome famoso. Pode até ter sido parte da estratégia de valorização da Convenção de Itu, considerada o acontecimento instituidor do Partido Republicano Paulista (PRP). Mas, quando Prudente de Moraes se decidiu pelo PRP, daí em diante foi um dos mais ardorosos defensores da autonomia municipal, da federação, das ideias republicanas e dos interesses da política do café. Pelo PRP foi eleito deputado à Assembleia Legislativa Provincial de São Paulo (1878-1879, 1881-1883 e 1888- 1889) e deputado à Câmara dos Deputados (1885-1886).
     Com Francisco Rangel Pestana e Joaquim de Sousa Mursa (1833-1893), Prudente de Moraes integrou o triunvirato designado para governar São Paulo após a Proclamação da República, exercendo depois, durante dez meses, o cargo de presidente (governador) do estado. Em seguida, ingressou como senador na Assembleia Constituinte da República, da qual foi presidente e dirigiu os debates da Constituição aprovada em 1891. Derrotado por Deodoro da Fonseca na primeira eleição (indireta) à Presidência da República, Prudente foi candidato único na eleição direta de 1º de março de 1894, elegendo-se com cerca de 290 mil votos. Prudente assumiu o cargo a 15 de novembro de 1894. O seu governo apoiou os interesses dos produtores agrícolas e atuou como um dos mais eficientes defensores da política do café. Os cafeicultores paulistas representavam, desde antes da Proclamação, a força econômica dominante, mas ainda não tinham conseguido traduzir essa dominação em termos políticos institucionais. O sociólogo Raymundo Faoro (1925-2003), em Os donos do poder (1958), reconhece que o governo de Prudente de Moraes, ao contrário do que poderia indicar o momento da posse, seria de cautela e bom senso, continuando o trabalho de Floriano Peixoto na unificação e pacificação nacional. Prudente assegurou o controle do governo da República pelos civis, explorando com precaução e habilidade as dissensões internas das Forças
Armadas. Mas o seu governo teve que enfrentar vários focos de oposição herdados do governo anterior e protagonizados pelo Exército, funcionalismo público e governadores de estados.
     Em seu governo, a sede do Poder Executivo se transferiu do Palácio do Itamaraty para o Palácio do Catete, que passara às mãos do Governo Federal em 1896. Mas a transferência acabou se transformando
numa crise política. Problemas de saúde fizeram com que Prudente se licenciasse da Presidência em 11 de novembro de 1896, e viajasse para Petrópolis para se recuperar de uma cirurgia de extração de cálculos da bexiga. Seu estado de saúde fez com que oposicionistas defendessem sua renúncia. Apostando na impossibilidade de Prudente reassumir o cargo, o vice Manoel Vitorino (1854-1903) sentiu-se dono do poder e organizou, em 24 de fevereiro de 1897, sexto aniversário da promulgação da Constituição da República, uma luxuosa festa para marcar a inauguração do Palácio do Catete como sede do governo. Prudente voltou depressa com a família e, em segredo, desembarcou na estação da Estrada de Ferro Leopoldina, tomou um carro de praça e dirigiu-se ao Catete. Num recado curto e grosso, avisou o vice de que voltava ao exercício de suas funções.
     A 15 de novembro de 1898 entregaria o cargo ao sucessor, Campos Salles, numa situação bem diferente daquela de sua posse. O caipira avesso às solenidades fez absoluta questão de que a posse de seu sucessor se revestisse de pompa e circunstância. Prudente era um homem reservado, de pouca prosa e, desde os tempos da vereança em Piracicaba, fugia de reuniões festivas ou muito formais. Rui Barbosa o chamava de "taciturno do Itamaraty". Mas agora se tratava de entregar a Presidência para um velho colega de faculdade e companheiro de militância no PRP. No "Salão Liberdade" os dois paulistas se abraçaram e trocaram discursos protocolares em meio a uma ovação triunfal. Fortalecido no período final do governo e com a popularidade recuperada, deixou o Palácio do Catete acompanhado de uma multidão, que o levou à pensão Beethoven, no Largo da Glória, onde reservara aposentos.
     O atentado, único da história do país, teve como efeito a reversão do quadro político. Prudente, antes impopular, recuperou o prestígio e passou a ser entusiasticamente aclamado pelas multidões. Ao relatar as homenagens e manifestações tributadas ao ex-presidente, a Gazeta de Notícias de 16 de novembro de 1898 dizia: "Uma delirante expressão de simpatia do povo, comovedora até às lágrimas, foi a mais bela consagração do mérito do seu governo e ao mesmo tempo uma prova clara e esmagadora da conquista feita pela ideia republicana na alma popular, graças à sabedoria, à moderação e à tolerância desse mesmo governo que findou". Prudente de Moraes deixou o Rio de Janeiro no dia 19 de novembro e foi recebido com grande festa em todas as escalas na viagem de trem até Piracicaba, onde chegou no dia 23 daquele mês. Quatro anos depois, no dia 3 de dezembro de 1902, morria o ex-presidente, doente e enfraquecido pela insistente tuberculose.

Jonas Soares de Souza é historiador do Museu Republicano de Itu / Museu Paulista da Universidade de São Paulo e organizador de Prudente de Moraes: discursos e mensagens. São Paulo: Universidade de São Paulo / Editora Ottoni, 2003.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 27 – Janeiro - 2005


Pioneiro do marketing político
Fundando jornais republicanos e escrevendo diretamente aos eleitores, Campos Salles se tornou presidente do Brasil num governo marcado pelo saneamento das contas públicas
Victor Kraide Corte Real
     Fazendo uma busca nos porões de nossa memória, talvez seja possível lembrar que em algum momento das aulas de História do Brasil ouvimos falar que Campos Salles foi o segundo presidente civil da República, governando o país entre Prudente de Moraes e Rodrigues Alves. Quando muito, isso é tudo o que conseguimos recordar sobre nossos presidentes do passado.
     Ao assumir o governo, em 1898, Campos Salles preocupou-se principalmente com a economia e com a consolidação da República recém-proclamada. Uma altíssima dívida externa – que atingiu, em valores atuais, cerca de US$ 195,9 milhões em 1898 - inibia investimentos e afastava a possibilidade de novos empréstimos estrangeiros. A solução foi recorrer ao banco britânico London and River Plate Bank que, acreditando na seriedade do novo presidente, aceitou o acordo de financiamento denominado funding-loan, que escalonou os pagamentos da dívida. Para sanear as finanças domésticas, Campos Salles lançou
impostos e conteve duramente as despesas. No entanto, a população em geral foi obrigada a enfrentar anos de empobrecimento.
     Campos Salles conseguiu estabilizar a República através da controversa "Política dos Estados", firmando o revezamento entre paulistas e mineiros na liderança do país durante o período da República Velha. 
     Manuel Ferraz de Campos Salles nasceu no dia 13 de fevereiro de 1841, em Campinas, São Paulo. Ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo em 1859, ao lado de outros futuros personagens importantes da História do Brasil, entre eles Prudente de Moraes (1841-1902), que seria presidente da República, e Bernardino de Campos (1841-1915), que presidiria por duas vezes o estado de São Paulo.
     Aos 21 anos, durante o quarto ano do curso de Direito, já envolvido com a militância política, Campos Salles dedicou-se ao tabloide A Razão, jornal liberal de ampla circulação no ambiente estudantil paulistano. Anos mais tarde, em 1869, participou da fundação da Gazeta de Campinas, convidado por Francisco Quirino (1841-1886).
     Em 1867, com apenas 26 anos, disputou pelo Partido Liberal uma vaga na Assembleia Legislativa da
Província de São Paulo. Seu trabalho de comunicação foi simples e intuitivo. Manuscritos, enviados aos eleitores, sensibilizaram e convenceram, tornando-o deputado provincial. Três anos depois, em dezembro de 1870, atuou na fundação do Clube Republicano e no lançamento do jornal A República, estampando
em seu primeiro número o celebrado Manifesto Republicano.
     Ainda constituindo uma chapa dentro da facção Liberal, os republicanos disputam as eleições municipais
de 1872. Campos Salles foi um dos escolhidos como vereador em Campinas. No ano seguinte, a Convenção de Itu decidiu pela formação do Partido Republicano Paulista (PRP), organizando os clubes e núcleos dispersos. Campos Salles assumiu o cargo de secretário, responsável pelo contato entre os correligionários através das circulares na imprensa. Ao lado de Américo Brasiliense de Almeida Mello (1833-1896) ajudou a fundar, em janeiro de 1875, o principal veículo de comunicação republicano: A Província de S. Paulo (atual O Estado de S. Paulo).
     A relação com o jornalismo não ficou na fundação de veículos. Em sua autobiografia, Da propaganda à Presidência (1908), Campos Salles deixa claro o apoio financeiro aos jornais que lhe fossem favoráveis, argumentando que desde a monarquia eram usados os "fundos secretos" do Tesouro para o serviço da imprensa. Como presidente da República, conta, também fez uso da verba secreta governamental destinada aos jornalistas. "Se isso constitui um crime, eu o confesso, sem declinar de mim a responsabilidade inteira", escreveu.
     Entre a eleição para vereador de Campinas, em 1872, até a Presidência da República, em 1898, foram muitos degraus. Nas eleições de 1876 assumiu, novamente, uma cadeira na Câmara de Campinas. Em 1881, elegeu-se deputado provincial pela segunda vez, não representando os liberais, como em 1867, mas sim os republicanos, que já formavam um partido.
     Em 1884 ocorrem novas eleições provinciais e gerais. Todos os esforços de Campos Salles foram direcionados para a Assembleia Geral. Utilizando os melhores recursos existentes na época, os republicanos desenvolvem uma ostensiva e inovadora forma de comunicação. Seus candidatos estampam na primeira página do jornal A Província de S. Paulo materiais de propaganda ilustrados com enorme retrato de cada um deles. A edição de 16 de novembro de 1884 foi dedicada a Campos Salles, que saiu vitorioso da eleição de 31 de dezembro.
O movimento republicano ficou mais enérgico a partir de 1886, devido às perspectivas de subida ao trono da princesa Isabel (1846-1921) e do príncipe consorte, Gastão de Orléans (1842-1922), o conde d'Eu. Nos últimos momentos da Monarquia, o Partido Republicano Paulista atuava como uma poderosa força política, contando com o apoio de 74 jornais.
     Em meio ao clima de grande efervescência, Campos Salles assumiu, em 1888, pela terceira vez, o cargo de deputado provincial em São Paulo. Como presidente da Comissão Permanente do PRP, manteve contato com alguns oficiais do 10° Batalhão da Cavalaria do Exército. Era o republicano responsável por manter a troca de informações entre Rio de Janeiro e São Paulo, dando suporte ao braço militar que almejava implantar a República.
     Com a queda do Império, assume o governo provisório o marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892). Ao invés dos dois grandes partidos nacionais (Conservador e Liberal), regendo uniformemente todas as províncias do país, apareceram em cada uma delas agremiações diversas. Em São Paulo, assumiu o governo um triunvirato republicano, liderado por Prudente de Moraes. Muitos achavam que o cargo deveria ser de Campos Salles, mas ele fora convidado para uma posição de maior destaque nacional, o Ministério da Justiça.
     Sob o comando de Francisco Glicério (1846-1916) foi criado, em 1893, o Partido Republicano Federal (PRF), que recebeu desde os primeiros propagandistas republicanos até antigos defensores dos partidos monarquistas. Não concordando com as propostas da nova agremiação, Campos Salles manteve-se afastado.
     No pleito de 1º de março de 1894, o PRF obteve ampla vitória, elegendo Prudente de Moraes à Presidência da República. Campos Salles assumiu a Presidência (nome então dado ao governo local) de São Paulo depois da eleição de 15 de fevereiro de 1896.
     O governo Prudente de Moraes passou por sérias dificuldades com a Guerra de Canudos (1893-1897). Diante do clamor de setores da sociedade pela volta da Monarquia, Campos Salles enviou tropas para auxiliar o restabelecimento da paz na Bahia, aumentando seu prestígio junto ao forte colégio eleitoral baiano.
     Além do conflito no Nordeste, o comando do país se encontrava abalado com os desentendimentos que brotavam no núcleo do PRF, a ponto de Francisco Glicério passar de aliado a opositor de Prudente de Moraes. Por sua neutralidade e por contar com imenso respeito entre os republicanos, Campos Salles foi procurado por ambos os lados para propor uma reconciliação. Seu esforço não impediu que, em 7 de julho de 1897, fosse oficializado o rompimento entre Governo e PRF. A cisão representava um grande triunfo nas mãos de Campos Salles. Devido ao seu engajamento reconciliatório, seu valor pessoal ficou em evidência e sua candidatura à Presidência da República ganhou brilho e destaque.
     O Partido Republicano Federal não possuía uma opção interna unânime para a sucessão presidencial. A liderança nacional, assim como a maioria dos governos estaduais, encontrava em Campos Salles a melhor alternativa para trazer estabilidade para a República. Sua candidatura oficial foi lançada no Rio de Janeiro, no dia 12 de outubro de 1897. O escritor Alcindo Guanabara (1865-1918) registrou aquela opção estratégica como sendo uma capitulação formal do governo que esperava obter com a astúcia o que não conseguira com a força, ou seja, consolidar a República.
     Contando com o reconhecimento, inclusive, de muitos dos seus adversários, Campos Salles foi eleito em 1898, com 420.286 votos, contra os 38.929 do segundo colocado, Lauro Sodré. Como chefe da nação recebeu a denominação de "paladino do presidencialismo" pelo historiador Célio Debes, por ter aplicado, em seu Plano de Governo, todas as propostas de sua plataforma de candidato, com destaque para a política de austeridade econômica.
     O presidente também procurou estreitar o relacionamento entre os governos estaduais com a criação da "Política dos Estados", também conhecida como "Política dos Governadores". Fortaleceu a figura do presidente e garantiu a estabilidade da nação. Uma estabilidade, de certa forma, forçada e maquiada, por estar apoiada na oligarquia e que viria a ruir com o golpe de 1930 e o fim do período chamado República Velha. Entre seus ministros, na pasta da Justiça, estava o político paraibano Epitácio Pessoa (1865-1942), de apenas 33 anos, que se tornaria presidente em 1919.
     Campos Salles deixou a Presidência em 1902 e recusou uma nova candidatura federal em 1905. Faleceu em 1913, em Santos. A coragem e a honestidade levaram-no à ruína financeira; no entanto, manteve firmemente seus ideais republicanos até o fim. Casado com Ana Gabriela Campos Salles, declarou, em seu Manifesto Eleitoral de 31 de outubro de 1897, que o Partido Republicano era como uma família: "Esta família é o Partido Republicano; a ela pertenço, vivo no seu seio, aí tenho lutado, aí tenho sofrido, aí morrerei".

Victor Kraide Corte Real é mestre em Comunicação Social e leciona nos cursos de Jornalismo / Publicidade e Propaganda da Faculdade Prudente de Moraes e do Centro Universitário Barão de Mauá.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 28 - Fevereiro 2005

sábado, 28 de junho de 2014

Presidentes da 1ª República - Deodoro da Fonseca - Floriano Peixoto

O generalíssimo
Nome de ruas, praças e monumentos em várias cidades do país, o militar Manuel Deodoro da Fonseca entrou para a história como o proclamador e o primeiro presidente da República.
William de Souza Nunes Martins
     Em 5 de agosto de 1827 nascia em Alagoas, então capital da província de Alagoas, hoje cidade Marechal Deodoro, aquele que viria a ser o primeiro presidente do Brasil, Manuel Deodoro da Fonseca. Seu pai era militar e sua mãe teve oito filhos homens, todos militares, e duas mulheres. Deodoro da Fonseca ingressou no colégio militar do Rio de Janeiro aos 16 anos e, dois anos depois, já havia se tornado cadete de primeira classe. Em 1847 terminou o curso de artilharia e no ano seguinte foi para Recife, no que seria sua primeira missão militar: a "Revolta Praieira".
     Casou aos 33 anos com Mariana Cecília de Souza Meireles, também filha de militar, não tiveram filho, mas trataram o sobrinho Hermes da Fonseca como se o fosse. Alguns cronistas dizem que nos momentos de fúria com Hermes, Deodoro falava: "Quando Deus não nos dá filhos, o diabo nos dá sobrinhos". Embora tenha tido um casamento duradouro, ele sempre foi lembrado como um homem belo, galante. Deodoro nutria grande paixão por Adelaide, uma gaúcha, mas ela preferiu o político Gaspar Silveira Martins, um dos líderes da Revolta Federalista. Essa derrota Deodoro nunca esqueceu.
     Dentro do exército, foi bastante citado por sua atuação na "Guerra do Paraguai" (1864 - 1870), para onde foi, em março de 1865, comandando o segundo Batalhão de Voluntários da Pátria. Devido a seu desempenho, recebeu em 1866 a comenda no grau de Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro e foi nomeado major. Em 1868 conquistou a patente de tenente-coronel, e em dezembro do mesmo ano chegou, por atos de bravura, ao cargo de coronel, sendo promovido por Caxias. Ferido gravemente na Batalha de Itororó foi obrigado a se afastar da guerra. A carreira militar de Deodoro seguia adiante fazendo com que ganhasse respeito e notoriedade. Em 1874, foi promovido a general-de-brigada e em 1884, aos 57 anos, alcançaria o posto máximo da carreira militar, sendo nomeado marechal de campo. No ano seguinte tornou-se comandante das armas do Rio Grande do Sul e presidente da mesma província, mas foi exonerado do cargo devido a sua participação no grupo de militares que se recusava a perseguir escravos. Voltou para
Corte em 1887 e foi eleito primeiro presidente do Clube Militar, cargo que ocupou até 1889.
     Em 1888, o governo imperial designou Deodoro para o comando militar do Mato Grosso, no qual permaneceu até meados de 1889, quando retornou ao Rio de Janeiro. Na corte, percebeu de perto a instabilidade e o desgaste político que o império vinha sofrendo, o que se acirrou com o fim da escravidão.
     Convocado pelos insurgentes do regime monárquico, Deodoro da Fonseca liderou assim a proclamação da República em 15 de novembro de 1889, tendo entrado no antigo quartel-general do Exército no Rio de Janeiro e bradado: "Viva a República!" acompanhado de uma salva de 21 tiros. Alguns cronistas da época, porém, afirmam que não foi bem assim. Deodoro da Fonseca, que era amigo do imperador d. Pedro II, teria ido com os insurgentes para derrubar o gabinete liberal chefiado pelo visconde de Ouro Preto e, quando chegou ao antigo quartel-general, teria bradado "Viva o imperador!", que logo foi abafado pelos tiros. Mas o que ficou para a história foi que o Marechal Deodoro da Fonseca proclamou a República brasileira e tornou-se então chefe do Governo Provisório, sendo aclamado Generalíssimo de Terra e Mar em 15 de janeiro de 1890.
     Mas após a proclamação, as divergências entre os militares começaram a aflorar mais fortemente. A primeira rivalidade era no interior das Forças Armadas, pois enquanto o exército teria proclamado a República, a marinha era identificada como ligada a Monarquia. A outra diferença estava no interior do próprio exército, divido em duas facções que disputavam acirradamente o controle do poder político de um regime recém-instalado e ainda sem rumos ideológicos definidos. O primeiro grupo era liderado por Deodoro da Fonseca e reunia os militares mais velhos, quase todos combatentes na Guerra do Paraguai; e o outro tinha como líder Floriano Peixoto, em torno do qual se agruparam os jovens da Escola Militar.
     O governo provisório se caracterizou pelo esforço de consolidação da República e também por grande instabilidade política. Eram especialmente intensas as divergências entre elementos da sociedade civil e do governo quanto à centralização do poder.
     Em 1891, foi realizada a primeira eleição presidencial. Naquele momento, o presidente e o vice-presidente eram votados separadamente. Concorreram à presidência Deodoro da Fonseca, Prudente de Moraes, Floriano Peixoto, Joaquim Saldanha Marinho e José Higyno Duarte Pereira, sendo que Floriano também se candidatou a vice-presidente em outra chapa. Após a contagem dos votos - 129 contra 97 de Prudente de Morais -, o resultado: "Está eleito presidente da República dos Estados Unidos do Brasil o Sr. Manuel Deodoro da Fonseca".
     Deodoro da Fonseca foi eleito em um momento especialmente delicado da vida nacional: estava em vigor a política econômica conhecida como Encilhamento, implementada por Rui Barbosa, então no ministério da Economia, que incentivava a emissão de moeda sem lastro em ouro por alguns bancos e a criação de sociedades anônimas; o que gerou especulação financeira, falência de empresas e de estabelecimentos bancários.
     Sua permanência como primeiro presidente brasileiro foi curta, durou quase nove meses, de 25 de fevereiro a 23 de novembro de 1891, menos tempo do que permaneceu à frente do governo provisório. Além das disputas que existiam no interior do próprio círculo militar, Deodoro passou a se indispor com o parlamento. Em determinada ocasião teria dito ao barão de Lucena: "Não posso por mais tempo suportar esse Congresso, é preciso que ele desapareça para o bem do Brasil."
     E no dia 3 de novembro de 1891 partiu para o ataque e colocou os batalhões em frente à Câmara e ao Senado, fechando ambos. Naquele momento prometeu novas eleições e uma revisão da
Constituição. O fechamento do Congresso tinha como principal objetivo o fortalecimento do poder Executivo, mas como não havia unidade entre os militares, as intenções de Deodoro da Fonseca acabaram não vingando. Pressionado por setores da marinha e pelos florianistas, mandou chamar seu vice-presidente, Floriano Peixoto, e desistiu do cargo 19 dias depois de ter fechado o congresso. Em sua carta de renúncia, afirmava que "As condições em que nestes últimos dias se acha o país, a ingratidão daqueles por quem mais me sacrifiquei e o desejo de não deixar atear-se a guerra civil em minha cara pátria, aconselho-me a renunciar o poder nas mãos do funcionário a que incumbe substituir-me."
     Os relatos que fizeram da vida de Deodoro contam que depois não mais saía de sua casa, a não ser para andar, mesmo assim seguindo indicação médica. Aos 65 anos, no dia 23 de agosto de 1892, às 12h20, morria em sua casa na rua Senador Vergueiro, no bairro carioca do Flamengo.

William de Souza Nunes Martins é mestre em História Social pela UFRJ, autor da dissertação Paschoal Segreto: "ministro das diversões" do Rio de Janeiro (1883-1920), e doutorando em História Social pela UFRJ.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 25 – Novembro - 2005

Saiba Mais – Biografia
Chefe militar de grande prestígio na tropa, desferiu um golpe na escravidão quando decidiu que o Exército não mais perseguiria negros fugitivos. Proclamador e primeiro presidente da República, preferiu renunciar a lançar o país numa guerra civil. 
Nasceu na cidade de Alagoas (atual cidade de Marechal Deodoro), em Alagoas, no dia 5 de agosto de 1827, e morreu em 23 de agosto de 1892, no Rio de Janeiro (RJ).


Presidente de ferro
Segundo governante da República, Floriano Peixoto dividiu radicalmente a opinião dos brasileiros, e enfrentou uma guerra civil no início de seu mandato.
Lincoln de Abreu Penna
     O nome do marechal Floriano Peixoto (1839-1895) está presente em vários momentos do Brasil republicano. Os cadetes da Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, fizeram-no símbolo da nacionalidade. Os participantes da campanha pelo monopólio do petróleo, em 1947, evocavam o caráter patriótico de sua ação governamental. Luiz Carlos Prestes (1898-1990), falando a seus companheiros da Aliança Nacional Libertadora, antes do levante de 1935, ressaltava o episódio em que Floriano Peixoto questionado sobre qual seria sua reação diante da ameaça de intervenção estrangeira - para impedir o bloqueio do porto do Rio de Janeiro pelos revoltosos da Armada, sob a liderança de Custódio José de
Mello (1849-1902) respondeu sem se alterar: "a bala!".
     A enérgica atitude de Floriano fez surgir no país um modelo de presidencialismo forte – aquele que, a despeito das pressões de forças internas e externas, não abre mão da supremacia das ações governamentais, independentemente do juízo de outros poderes da República quanto ao mérito de tais ações. Ao longo de seu governo (1891-1894) enfrentou seis meses de confrontos militares, atraindo para si o foco das tensões políticas, polarizadas pela possibilidade de sua continuidade no poder. Naquela época, o presidencialismo foi vítima de um federalismo conservador, isto é, voltado à manutenção de estruturas de poder locais, como as oligarquias que queriam governar o país com base exclusivamente em seus interesses. Floriano tentou limitar essa influência sobre os destinos da República, mas não alcançou êxito.
     O regime republicano que se instalou no Brasil em 15 de novembro de 1889 foi instituído através de um golpe de Estado que derrubou o regime monárquico. O marechal Deodoro da Fonseca (1827-1892), que governou de 1889 a 1891, entregou a maior parte de seu mandato a Floriano - ambos se conduziram na Presidência como comandantes militares. Nove meses depois da promulgação do texto constitucional, e dez dias após a queda de Deodoro, o marechal Floriano foi empossado na Presidência, em 23 de novembro de 1891. O vice-presidente em exercício (como gostava de ser tratado) e seus aliados empenharam-se na defesa da legitimidade de um regime que ainda não se encontrava consolidado.
     Quando Floriano assumiu o governo, a oligarquia de São Paulo - estado economicamente mais poderoso da Federação devido à cafeicultura, tendo à frente políticos de grande habilidade, como Campos Salles (1841-1913) - resolveu apoiar a sua permanência no poder, interessado na estabilidade política e com olhos bem abertos para a sucessão. Mesmo assim ele teve que enfrentar opositores dentro e fora das
forças armadas, numa guerra civil que se estendeu de setembro de 1893 a março de 1894, a chamada
Revolta da Armada. Ela era liderada pelo contra-almirante Custódio José de Mello, que encarnava ao mesmo tempo os descontentamentos da Marinha e dos legalistas, como Rui Barbosa (1849-1923), que também se insurgiu quando o Artigo 48 da Constituição de 1891 não foi observado: a Carta previa nova eleição se o presidente deixasse o cargo antes da metade do mandato, como foi o caso com Deodoro.
     Durante esses enfrentamentos, que tornaram a vida dos habitantes da cidade do Rio de Janeiro um inferno, surgiu o florianismo, formado pelos admiradores do "marechal de ferro" - como ficou conhecido em razão de sua forte determinação na defesa da República e por sua resistência à revolta nas fortalezas de Lajes e Santa Cruz (1892), no Rio de Janeiro, e à Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893-1895). Mas o adjetivo florianista se aplica, sobretudo, aos que transformaram o marechal em encarnação de um ideal de identificação com os mais necessitados. Medidas como o congelamento de preço dos aluguéis, controle da especulação financeira e o fim de impostos sobre açougues para baratear a carne ajudaram a produzir uma empatia que aproximou Floriano dos setores radicais da República, que se proclamavam jacobinos, em alusão aos revolucionários franceses de 1789, responsáveis pela onda de terror que levou a nobreza à guilhotina.
     Estes nossos jacobinos manifestavam uma aversão às elites dominantes e suas práticas. O florianismo encontrou na Escola Militar da Praia Vermelha a sua mais genuína acolhida e representação. Adeptos de um regime republicano austero, os cadetes eram contrários às práticas políticas de uma elite dominante e sem escrúpulos. A influência da doutrina positivista - que consistia na crença de que a humanidade chegara finalmente ao estágio de domínio da ciência, e que a República representava o regime que melhor combinava com esses tempos - só reforçava a convicção da mocidade militar na necessidade de uma República unitária, ou seja, vinculada a um poder central que espelhasse a vontade soberana da res publica, isto é, de todos os cidadãos.
     Floriano vivia um dilema, comum, por sinal, aos presidentes em busca de maioria e apoios para governarem. Doutrinária e politicamente nutria simpatias com os que o transformaram no "Robespierre brasileiro" [referência a Maximilien François Robespierre (1758-1794), líder dos jacobinos na Revolução Francesa], mas não podia desprezar a ajuda financeira da oligarquia paulista, diante da guerra civil desencadeada pela Revolta da Armada. No início de sua gestão ele se viu cercado não só por um florianismo de governo, constituído por frações das classes dominantes interessadas na governabilidade, como também pelos que espontaneamente fundaram o florianismo popular, ocupando as ruas do Rio, como a do Ouvidor.
     Seu governo conviveu também com outra batalha, de ideias, em torno dos rumos da República. De um lado, os defensores de um presidencialismo forte, austero, antioligárquico, altivo em relação aos interesses externos e repressor em face das ameaças, reais ou imaginárias, ao bom funcionamento do regime republicano. De outro, os federalistas, liberais, defensores de maior independência dos governos estaduais, ciosos das prerrogativas constitucionais, e que mostravam contrariedade à permanência dos militares na vida política do país. Eram eles os representantes dos partidos republicanos regionais, como o Partido Republicano Paulista. O marechal mantinha-se aparentemente indiferente. Não incentivava abertamente essas manifestações de apoio à continuidade do governo e dele próprio no poder, mas tampouco as refreava. Jogava com a contenda para discipliná-la.
     Mas como esse militar, uma referência para os seus comandados desde a Guerra do Paraguai, ampliou essa liderança a ponto de obter apoio de setores intermediários e populares da sociedade? As medidas por ele adotadas no combate à especulação financeira herdada de seu antecessor e à sonegação de géneros de primeira necessidade tornaram-no popular. No que se refere à especulação, o decreto que unificou o sistema bancário brasileiro teve como propósito controlar a moeda e dotar de austeridade os gastos públicos, uma obsessão de Floriano. Por outro lado, preocupava-se em manter a ordem republicana, mas entendia que esta tinha de estar a serviço de um regime avesso aos privilégios.
     O Tribunal de Contas da União, concebido por Serzedello Correia (1858-1932), ministro das pastas da Justiça, da Fazenda e das Relações Exteriores, criado em fins de 1891, é um legado importante deixado pela administração de Floriano e surgiu justamente para instituir o controle dos gastos públicos; acabou, porém, tornando-se impotente diante da sanha dilapidadora dos maus representantes do povo, como demostram os frequentes casos de corrupção.
     Alcindo Guanabara (1865-1918), jornalista e advogado que exerceu influência nos primeiros governos da República, foi um dos muitos a instigar os historiadores para a tarefa de situar o papel desempenhado por Floriano, que considerava um tipo "tão raro que dificilmente se encontrará uma fórmula precisa para defini-lo". Euclides da Cunha (1866-1909) comparou a figura enigmática do marechal a uma esfinge. Sílvio Romero (1851-1914), em artigos de teor político, não escondia suas simpatias pelas ações enérgicas de Floriano. Ao passo que Lima Barreto (1881-1922) guardava a ambiguidade traduzida de forma mordaz em
seu livro O triste fim de Policarpo Quaresma. Foram florianistas, cada qual a seu modo.

Lincoln de Abreu Penna é professor aposentado da UFRJ, leciona no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO) e é autor de O progresso da ordem. O florianismo e a construção da República. Rio de Janeiro: Sete Letras, 1997.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 26 – Dezembro - 2005

Saiba Mais – Biografia
Filho de lavradores, passou de soldado raso a Marechal do Exército. Exerceu a Presidência defendendo os interesses nacionais e o povo brasileiro. Seu maior feito foi derrotar as tentativas de restauração da Monarquia, e assim consolidou a República.
Nasceu em Ipioca (AL), no dia 30 de abril de 1839, e morreu em 29 de junho de 1895, na cidade de Barra Mansa (RJ).