"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Wenceslau Braz - A gripe espanhola

De "Lalau" a santo
Com um jeito discreto e equilibrado, Wenceslau Braz presidiu o Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, reduziu o próprio salário e tirou o país da crise.
Rodrigo Elias
     A recepção não foi das melhores. Enquanto o presidente Wences­lau Braz (1914-1918) desfilava em carro aberto no dia da posse no Rio de Janeiro, alguém lhe ati­rou um objeto de dentro do Campo de Santana. Policiais da escolta pensaram se tratar de uma bomba, mas logo viram que não passava de uma jaca jogada por um gaiato que se escondeu entre as árvores. Entretanto, o medo não era infundado: Wen­ceslau herdou os inimigos de seu antecessor, Hermes da Fonseca (1910-1914), de quem fora vice-presidente, que ainda lhe deixou um país em frangalhos, uma dí­vida enorme e as instituições re­publicanas próximas à ruína.
     Filho de um poderoso coronel, Wenceslau Braz Pereira Gomes nasceu em fevereiro de 1868, em São Caetano da Vargem Grande, hoje Brazópolis, no sul de Minas Gerais. Sua mãe, Isabel Pereira dos Santos, administrava a casa nas constantes ausências do marido e ainda o substituía em compro­missos políticos. Seu pai, Francis­co Braz Pereira Gomes, era um chefe político importante da re­gião, apesar de nunca ter frequentado uma sala de aula - fato do qual se lastimava, fazendo questão de que os filhos estudassem. O velho Chico Braz era um entusiasta da educação, tendo fundado uma escola normal, além de destinar o dinheiro que recebia por exercício de cargos públicos a instituições de ensino e caridade.
     O jovem Wenceslau não foi, como o pai pretendia, aluno exemplar. Matriculado em 1884 na Faculdade de Direito de São Paulo - onde gravara o nome à ponta de canivete em sua cartei­ra -, suas notas não ultrapassavam a mediocridade. Chegou a afirmar em uma entrevista, já aos 96 anos (Wenceslau foi o presidente brasileiro mais longe­vo): "abusei da mocidade!"
     Mas seu discreto rendimento escolar não refletia o gosto pelos assuntos públicos. Ainda estudan­te, foi responsável pela instalação em sua cidade do Partido Republi­cano e Abolicionista, dedicando-se à libertação de escravos e à difusão da alfabetização. Antes de comple­tar vinte anos, foi convidado por políticos da região para ocupar uma vaga de deputado provincial, não podendo atender devido à pouca idade.
     Bacharelado em Direito em 1890, Braz voltou a Mi­nas para advogar. Pouco depois já era vereador e, em seguida, presiden­te da Câmara de Vereadores (equi­valente hoje ao cargo de prefeito) da cidade de Mon­te Santo. Deputado estadual entre 1892 e 1898, foi secretário de Inte­rior, Justiça e Segurança Pública de Minas de 1898 a 1902. Já estava casado, nesta época, com a filha de um chefe político do sul mineiro, Maria Carneiro Pereira Gomes, mãe dos seus sete filhos.
     A ascensão política de Wences­lau foi, de fato, meteórica, e aos 35 anos ele já era deputado federal e líder da bancada mineira no Con­gresso Nacional, passando rapida­mente a líder da maioria. Aos 41 anos, em 1909, assumia a presi­dência do estado de Minas Gerais, um dos mais poderosos da federa­ção e, no ano seguinte, era eleito vice-presidente da República na chapa de Hermes da Fonseca. Cabia-lhe, de acordo com a Constituição de 1891, a presidência do Senado, mas Wenceslau, mineiramente, retirou-se para Itajubá, próximo à sua ci­dade natal, dedi­cando-se a um de seus passatempos favoritos, a pesca­ria. Ficou de fora das crises políticas do azarado - e pouco competente - Dudu (ver Hermes da Fonseca), en­quanto o Senado e todo o gover­no eram conduzidos pelo sena­dor gaúcho Pinheiro Machado.
      Em 1913, a questão sucessória se apresentava. Uma acirrada ne­gociação entre líderes de todos os estados cogitou os nomes dos ex-presidentes Campos Salles e Ro­drigues Alves, além do senador Rui Barbosa. Mas forças políticas se uniram em torno de Wences­lau Braz - indicação de Pinheiro Machado, que supunha encontrar no mineiro o fantoche que lhe fora Hermes. Enganou-se.
     Eleito em 1914 com 532.107 votos, "seu Lalau", como Wences­lau também era conhecido, tomou posse na Presidência com o seu vice, o maranhense Urbano San­tos (1859-1922), em meio à des­confiança. Era o mais jovem pre­sidente eleito, e temia-se que a influência de Pinheiro Machado durante a "pagodeira hermista" se repetisse no seu mandato. Um jor­nal da época afirmou que Pinhei­ro pretendia "dispor eternamente dos governos como das suas éguas na fazenda da Boa Vista".
     O panorama ao início do go­verno Wenceslau Braz não era, portanto, promissor. Mas o apa­rentemente tímido e omisso Lalau revelou-se um determinado ho­mem de Estado. No discurso da posse, deu o tom do seu governo: "Ao patriotismo dos homens de responsabilidade do Brasil se im­põe, iniludivelmente, uma gran­de obra de construção política e econômica e restauração finan­ceira. Está bem claro que esta dupla obra exige uma mesma base: intransigência moral, administra­tiva, absoluto respeito às leis, im­parcial aplicação dessas, paz, or­dem em todas as modalidades".
     Assumindo uma economia à beira do colapso (300 mil contos de réis em dívidas a pagar, o que ultrapassava 70% da arrecadação bruta de 1914), sua primeira preocupação foi a contenção de gastos. Assim, enviou ao Congres­so um pedido de corte de 50% no próprio salário. O Congresso, tal­vez temeroso do mau exemplo, limitou a redução a 20%. Wences­lau utilizava o próprio carro, servindo-se de transporte oficial em raríssimas ocasiões e impedindo seus familiares de fazê-lo. À dife­rença da festa na qual se tornara o Palácio do Catete no governo an­terior, houve apenas uma celebra­ção naquela residência oficial du­rante o seu mandato, quando a primeira-dama, dona Maria Car­neiro, organizou uma recepção para angariar donativos para fla­gelados do Nordeste.
     Estas medidas, apesar de moralizadoras, não tinham efeitos prá­ticos no gigantesco rombo das contas estatais. Mas dava ao gover­no autoridade moral para agir em outras frentes, cobrando a unifica­ção das receitas e despesas da União; a abolição de remuneração nas convocações extraordinárias do Congresso e a eliminação das autorizações extra-orçamentárias, que considerava "ruinosa prática".
     A escolha do ministério favo­receu critérios de recuperação econômica e independência polí­tica, recusando-se Wenceslau a acatar indicações tanto de Pi­nheiro Machado quanto de seus opositores. Colocou à frente dos dois principais ministérios, Fa­zenda e Agricultura, dois homens ligados às finanças, respectiva­mente o mineiro Sabino Barroso e o fluminense Pandiá Calógeras, este último ligado a Minas. Wen­ceslau fiscalizava todo o trabalho de sua equipe; opinava sobre tu­do, e ficou conhecida a sua práti­ca de enviar bilhetes e recortes de jornal para os ministros e auxi­liares diretos. Sua antecipação so­bre vários assuntos causava, se­gundo um assessor, "perplexida­de de uns e admiração de outros".
     Outro problema com o qual se deparou foi a sucessão do governo do Rio de Janeiro. O candidato apoiado por Pinheiro Machado, Feliciano Sodré, havia vencido as eleições, mas o Supremo Tribunal Federal concedera habeas corpus ao seu adversário, o ex-presidente Nilo Peçanha, declarando-o habi­litado para a posse. Wenceslau, le­galista contumaz, não hesitou e obedeceu a decisão do STF, colo­cando tropas à disposição da Jus­tiça e empossando Nilo.
     Wenceslau Braz teve que lidar com grandes conflagrações den­tro e fora do país. A Guerra do Contestado, que se arrastava des­de 1912, nascida em meio à dispu­ta na demarcação de limites entre Paraná e Santa 
Catarina, agravada pela presença de um movimento messiânico que pegou em armas, revelou o estilo de governar de Wenceslau. Enérgico em um pri­meiro momento, o presidente despachou tropas federais que, após várias expedições e com apoio das forças locais, esmaga­ram os revoltosos em 1916. Após a força, a conciliação. "Perso­nificação do meio-termo", como um crítico o definiu, o presidente chamou ao Catete os líderes dos estados antagonistas, que acaba­ram por aceitar, em outubro de 1916, a divisão da área em litígio.
     No plano externo, encontrou a Europa em plena Primeira Gran­de Guerra, iniciada em julho de 1914. O Brasil tomou parte direta no conflito após o torpedeamento de quatro navios mercan­tes por submarinos alemães. Em outubro de 1917, em mensagem enviada ao Congresso, o presi­dente afirmava que não cabia ao governo mais do que reconhecer o estado de beligerância imposto pela Alemanha. Assim, em agosto de 1918, às vésperas do armistí­cio, foi enviada à Europa uma frota brasileira que, no entanto, não chegou a participar do con­flito, tendo-se abatido sobre a tri­pulação um surto de gripe espa­nhola, causando 156 baixas.
     A gripe, aliás, foi grande em­pecilho à normalização nacional. Apenas no Rio de Janeiro, entre setembro e novembro de 1918, os mortos já chegavam a 17 mil. As ruas, escolas, lojas e repartições públicas desertas contrastavam com os hospitais e cemitérios su­perlotados. A doença não foi ven­cida no mandato de Wenceslau, e chegou a matar o seu sucessor, Rodrigues Alves, em 1919, antes de tomar posse da Presidência.
     Para piorar a situação finan­ceira do país, que apresentou em 1914 déficit na balança comercial pelo segundo ano consecutivo, o conflito europeu praticamente fe­chou o principal mercado para o café. Da mesma forma, recursos externos antes disponíveis para investimento no país foram cana­lizados para os gastos bélicos.
     O conflito na Europa, nocivo ao Brasil em um primeiro momento, favoreceu o desenvolvimento da indústria nacional, uma vez que o parque industrial europeu se vol­tou para o esforço de guerra. Pôde-se notar considerável incre­mento industrial em várias re­giões, sobretudo a partir da ex­ploração do carvão mineral e da produção de ferro-gusa. O Brasil também passou a exportar outros produtos, como o manganês, cujas rendas alfandegárias saltaram de 1.200 contos em 1914 para 57 mil contos em 1917. Assim, o incremento do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, negativo em 1,25% em 1914, subiu 9,4% em 1917.
     Durante o seu governo foi ela­borado ainda o Código Civil, promulgado em 1916, conhecido como "Código Wenceslau", que vigorou até 2002. Wenceslau ain­da promoveu uma reforma no ensino, restaurando o rigor nos exames de humanidades e con­tratando professores mais quali­ficados através de concursos. Os resultados da mudança, já no pri­meiro ano, foram enormes: as re­provações passaram de 2% para 60% nos exames finais do ensino médio, e as aprovações nos con­cursos para os cursos superiores na capital federal saltaram na mesma proporção.
     Deixando a Presidência, não se dedicaria mais à política. Se­gundo suas palavras, "depois de ter sido presidente, a nada mais deve aspirar um homem na vida pública". Voltando a Itajubá, onde morreria, aos 98 anos, em 1966, dedicou-se aos negócios, dirigin­do empresas como uma fábrica de tecidos e um banco, não dei­xando, entretanto, de reservar tempo para o que mais gostava de fazer: caçar e pescar.
     Sua obra política, financeira, legislativa e administrativa deu vigor a um país à beira do abis­mo. Seu Lalau, recebido em 1914 com arremessos de jaca, deixou a capital federal em 15 de novem­ novem­bro de 1918, aclamado pelo povo, pelos políticos e pela imprensa. A esta altura, já o chamavam de "São Wenceslau".
Rodrigo Elias é professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 32 – Julho - 2006



Memória da peste
Parecia o fim do mundo: cadáveres insepultos, falta de comida e de remédios para enfrentar a maior epidemia de todos os tempos. No Rio de Janeiro, usada politicamente, a gripe espanhola construiu e destruiu reputações.
Adriana da Costa Goulart
      Num espaço de oito meses, a gripe espa­nhola matou entre 50 a 100 milhões de pessoas no mundo. Na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, os índices de mortalidade alcançaram cifras nunca imaginadas. No mês de setembro de 1918 morreram 48 pessoas, e em outubro os óbitos aumentaram em 2.000%. Apenas no dia 22 desse mês registra-ram-se 890 mortes.
     Vistas no passado como consequência dos mias­mas que habitam as imundícies e os ares fétidos, as epidemias evocam medos ancestrais, que remontam à antiguidade e à Idade Média. De fato, sobreviven­tes da espanhola, entrevistados por mim, hesitaram em pronunciar o nome da gripe, como se sua sim­ples menção pudesse desencadear novamente a tra­gédia vivida.
     Nas suas memórias, o médico Pedro Nava des­creve aquele dramático período da seguinte forma: "Aqueles dias ninguém que os tenha vivido poderá jamais esquecê-los; tudo era de um cinza purulento, dum roxo podre, poente de chuva, saimento, mar­cha fúnebre, viscosidade e catarro."
     Os primeiros brasileiros a contraírem a gripe fo­ram os oficiais do Exército que integravam a Missão Médica Brasileira. Estavam a caminho de Dacar, no Senegal, com a missão de auxiliar as forças aliadas. Durante o trajeto, muitos adoeceram e morreram, tendo seus corpos lançados ao mar. A notícia che­gou ao Brasil, por cabograma, no dia 26 de setem­bro de 1918. A gravidade do acontecimento e a ex­pansão da moléstia foi, no entanto, ignorada pelas autoridades, na verdade sem recursos para montar uma estratégia de socorro à população.
     As primeiras notícias sobre a peste que devastava a Europa, publicadas pela imprensa nos últimos dias de setembro de 1918, também foram encaradas com displicência. Algumas vezes, como aparece na revista A Careta, as notícias eram abordadas de for­ma cômica e num tom de crítica política: a gripe vista como arma bacteriológica criada pelos ale­mães para vencer a Primeira Guerra e afastar dos combates os países neutros.
     Tal visão da espanhola só se desfez quando as pes­soas começaram a adoecer em massa e as ruas da ci­dade a se encher de cadáveres. A incubação da gripe durava de três a sete dias. De uma simples zoeira nos ouvidos, surdez, dores de cabeça e oscilação de tem­peratura, a doença se desenvolvia com os infectados apresentando calafrios, hemorragias intensas, urina e vómitos misturados a sangue. Tal quadro era acompanhado de perturbações nos nervos cardía­cos, infecções nos intestinos, pulmões e meninges, levando as vítimas a sufocações, a diarreias, dores lancinantes, à letargia, ao coma, à intoxicação pela falta de funcionamento dos rins, a cianose (azulamento da pele), à síncope e finalmente à morte em algumas horas ou dias, cuja proximidade era conhe­cida pelo escurecimento dos pés das vítimas. O doente passava a maior parte do tempo em delírio, devido à febre alta.
     Em muitas casas, famílias inteiras caíam acama­das, dependendo de quem pela rua passasse para que se pudessem alimentar e receber remédios. Essa função acabava sendo exercida por lixeiros, coveiros e policiais, que acudiam os "espanholados". Colovavam-se panos negros nas janelas para indicar que na casa havia doentes necessitando de socorro.
     Quando as mortes se intensificaram e não se dava mais vazão às demandas por enterros, punham-se os pés dos mortos escorados nas janelas das casas para que a Assistência Pública viesse recolher o corpo. Para cobrir a demanda por caixões, passaram a fabricá-los com tábuas retiradas dos tetos e assoalhos das casas. Com o acirramento da crise nos serviços funerários, a população deixava no meio da rua os corpos dos pa­rentes que já apresentavam sinais de decomposição.
     Numa tentativa de normalizar a coleta dos cadá­veres insepultos foram utilizados caminhões de lixo e bondes, estes apelidados pela população de "trens fantasmas", pois transportavam os defuntos amortalhados em lençóis brancos, não sendo raro encon­trar alguns vivos entre os mortos. Visando contornar a falta de coveiros, para os serviços funerários convocaram-se os presos da Casa de Correção, pre­sídio localizado no Rio de Janeiro, o que só fez au­mentar o pânico da população. Circulavam boatos de que os detentos mutilavam os dedos e as orelhas dos mortos para roubar brincos e anéis, entre ou­tros mais assombrosos e impactantes.
     A Santa Casa da Misericórdia, único hospital vol­tado para o atendimento do público na cidade, rece­beu da população a alcunha de "Casa do Diabo". Devido ao elevado número de mortes na instituição, difundiu-se pela cidade que ali se ministrava aos doentes mais crônicos uma tisana letal, imortalizada na memória popular como "chá da meia-noite" - su­postamente uma mistura de chá com arsénico.
     Algumas instituições foram de grande importân­cia no auxílio da população como a Cruz Vermelha Brasileira, que improvisou vários hospitais pela cida­de para atender ao público, e o Corpo de Bombeiros que distribuía sopas aos necessitados. Os bombeiros eram responsáveis também pela venda das galinhas que passaram a ser confiscadas pelo governo em granjas e casas particulares. A canja, feita com arroz e galinha, era tida como um ótimo alimento na recupe­ração dos doentes. Isso originou um mercado negro de galinhas e vários quebra-quebras pela cidade, con­sequentes da acirrada disputa pelas valiosas aves. O colapso das instituições de saúde pública, jun­tamente com a falta de médicos, leitos nos hospitais, remédios e alimentos, despertou a ira da população. Mesmo diante do caos instaurado, as autoridades políticas e sanitárias insistiam em defender publica­mente a benignidade do mal reinante, tornando mais agudas as tensões sociais instauradas pela pan­demia, que construiu e destruiu reputações. A im­prensa conduziu à execração pública, por exemplo, o diretor-geral da Saúde Pública, Carlos Seidl. Bode expiatório da gripe espanhola, sua perda de prestígio social foi tamanha que ele jamais se recuperou.
     Foi nesse contexto que a figura de Carlos Chagas emergiu como herdeiro científico de Oswaldo Cruz. A opinião pública exigiu que o comando dos servi­ços de socorro público no combate à gripe fosse en­tregue a ele. Chagas foi então requisitado pelo presi­dente da República, Venceslau Brás, para adminis­trar as atividades de socorro à população enferma.
     No auge da epidemia tudo se desorganizou, invia­bilizando funcionamento da cidade, na época cen­tro administrativo e político do país. As repartições fecharam por falta de funcionários e os colégios suspenderam as aulas. Diante de todos esses problemas, o próprio presidente Venceslau Brás (1914-1918) foi acusado de incompetência política. Saiu do episódio achincalhado pelos seus adversários políticos e pela opinião pública. Não se candidatou a cargo político pelo resto da vida.
     A epidemia foi manipulada, politicamente, por partidários do conselheiro Rodrigues Alves, que se candidatara a novo mandato presidencial. Ironia do destino, acabaria como uma das vítimas mais ilus­tres da espanhola. Idoso, não resistiu à investida da gripe e morreu no dia 16 de janeiro de 1919.
     De todo modo, a gripe contribuiu para que as questões de saúde ganhassem mais atenção na agenda política do governo seguinte. Permaneceu, no entanto, como um enigma. Desde a década de 80 do século passado, cientistas americanos, ingle­ses e canadenses percorrem o mundo atrás de cor­pos conservados de vítimas, de onde possam de­sentranhar o vírus adormecido. Até hoje, não se conseguiu produzir em laboratório a carga viral completa da maior epidemia de todos os tempos. O trabalho de detetive desses cientistas se justifica: não estamos livres de uma nova gripe assassina. Para a ciência, é apenas uma questão de tempo. Resta saber se até lá teremos instrumentos eficazes para impedir ou pelo menos atenuar os seus efeitos catastróficos.
Adriana da Costa Goulart é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense onde defendeu dissertação intitulada Um cenário mefistofélico: a gripe espanhola no Rio de Janeiro, no ano de 2003.
Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

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domingo, 10 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Hermes da Fonseca - Revolta da Chibata

O presidente urucubaca
Com fama de azarado, Hermes da Fonseca trouxe os militares de volta ao cenário político e desbancou o poder das oligarquias estaduais.
Nívia Pombo
     Baixo, gordo e calvo. Hermes da Fonseca era dono de traços físicos pouco atraentes. Pesava ainda so­bre o presidente a fama de ser in­deciso, ignorante e pé-frio. Du­rante todo o seu governo, a opi­nião pública o azucrinou: pela sua presumida ignorância foi apelidado de "Dudu". Na imprensa, as caricatu­ras e paródias faziam mais sucesso do que suas ações administrativas, o que fez dele a maior vítima presiden­cial de chacotas.
     Sobrinho do primeiro presi­dente da Repú­blica, o mare­chal Deodoro da Fonseca, Hermes nasceu em 1855, na vila de São Ga­briel, no Rio Gran­de do Sul. Na infân­cia, a brincadeira dileta era cavalgar, passa tempo que iria manter até a idade adulta. Ouvindo os ecos da Guerra do Paraguai, divertia-se também em assistir aos exercícios diários no Corpo de Ar­tilharia a Cavalo, onde seu pai, Her­mes Ernesto da Fonseca, servia.
     Fugindo do ambiente sombrio do conflito, em 1866, sua mãe, Ri­ta Rodrigues Barbosa da Fonseca, veio para o Rio de Janeiro com seus oito filhos. No ano seguinte, Hermes ingressou no Colégio Saint-Louis, na atual Praça Tiradentes. Pouco afeito aos estudos, foi expulso após brigar com três colegas e rasgar a batina de um padre. Passou a estudar no Colé­gio de Pedro II e a frequentar as aulas do Liceu de Artes e Ofícios. Logo a aptidão para a caserna co­meçou a aflorar e, a contragosto do pai, entrou no Batalhão de Ar­tilharia a Pé e na Escola Militar da Praia Vermelha, em 1871.
     Não tinha ambição política, falando-lhe mais alto a carrei­ra militar. Com a ajuda do tio-presidente, Hermes chegou às mais altas patentes do Exército. Em 1890, foi eleva­do a tenente-coronel, assumindo o "Regimento dos Fonseca", uni­dade assim no­meada por ser reduto de mui­tos oficiais da família. A promoção a mare­chal ocorreu du­rante o governo de Rodrigues Alves, quando enfrentou a Revolta da Vacina. A esta altura, já esta­va casado com sua prima-irmã, Orsina Francione da Fonseca. Namoro de infância, Orsina era uma noiva ideal: "vir­tuosa, bem-educada e econômi­ca". O enlace, em dezembro de 1877, foi marcado por um fato inusitado: o padre se recusou a subir a ladeira que conduzia até a capela, reclamando de cansaço. O noivo teve que ir buscá-lo junto com outros companheiros mili­tares. O casal teve oito filhos.
     A nomeação para o Ministério da Guerra em 1906, no governo de Afonso Pena, marcou sua en­trada na política. Militar presti­giado, era nome certo para os planos de reorganização do Exér­cito. Acumulou ainda o posto de ministro do Supremo Tribunal Militar. Tudo caminhava bem pa­ra Hermes da Fonseca até 1909, quando surpreendeu a todos com suas ambições à Presidência.
 
    Naquele ano, os discursos no Senado sobre o substituto de Afonso Pena apontavam para uma crise. Durante todo o seu governo, Pena não escondia a predileção pelo seu conterrâneo, o então presidente de Minas Ge­rais, João Pinheiro, cria do Jardim de infância (ver Um tico-tico no Catete). Mas a ideia acabou abortada, pois o jovem mineiro morreu em 1908. Outro nome cogitado foi o do talentoso ministro das Finan­ças, David Campista, repelido pe­los correligionários de Pena e pe­la opinião pública.
     Numa coligação entre Minas e Rio Grande do Sul, foi lançada a candidatura de Hermes da Fon­seca, tendo como vice Wenceslau Braz. São Paulo e Bahia se uniram em torno de Rui Barbosa. Pela primeira vez, o esquema "café-com-leite" fora quebrado. A dispu­ta prometia ser quente. Os civilis­tas defendiam princípios de­mocráticos e achavam que os mi­litares não deveriam exercer mais a Presidência, embora reconhe­cessem a importância do Exército na fundação da República.
     Para Afonso Pena, a candida­tura de Hermes foi um duro gol­pe. Houve quem dissesse que a morte do presidente (1909) foi provocada por um "trauma moral" resultante de uma reunião com o marechal. E pior: houve quem dissesse que a morte fora provocada pela urucubaca que ele espalhava. Coincidência ou não, a morte de Pena inverteu o cená­rio eleitoral: Hermes passou de oposição para situação, porque o então presidente Nilo Peçanha apoiou a campanha militarista.
     Após duas décadas de regime re­publicano, o país teria sua primeira campanha eleitoral de verdade. Na plataforma dos militaris­tas estava a derrubada da "política dos gover­nadores" implementada por Campos Salles. Tinham como símbolo uma vassoura para “varrer a rou­balheira dos civilistas" e imple­mentar a política das "salvações". Já os civilistas percorreram o Brasil defendendo o voto secreto e o combate ao analfabetismo. Após uma disputa incendiária, Hermes venceu as eleições: 403.897 votos contra os 223.784 de Rui Barbosa.
     Mal despiu a farda, o presi­dente foi acusado de vencer gra­ças às fraudes eleitorais.  Não bastasse a denúncia, estoura na capital da República a Revolta da Chibata. Intolerante, expulsou da Mari­nha os integrantes do movimen­to. Os excessos na aplicação das penas resultaram na morte da maioria dos revoltosos. O Rio de Janeiro ficou oito meses em esta­do de sítio, o que minou sua té­nue base política e foi um prato cheio para as críticas civilistas. Eram os primeiros indícios de que a gestão do marechal Hermes seria turbulenta. E azarada.
     Em 1910, em visita oficial a Portugal, durante uma recepção oferecida pelo rei d. Manuel II, um movimento político derrubou a monarquia. Apavorado, d. Manuel sequer aceitou o asilo político ofe­recido pelo marechal. Outro epi­sódio teria resultado mais desas­troso para o Brasil: ao pedir um empréstimo de 2,4 milhões de libras ao Lloyds Bank, em 1912 - para saldar dívidas contraídas por governos anteriores -, metade da quantia foi depositada num banco russo e seria perdida com a Revolução Socialista de 1917. Enquanto isso, o povo declamava: "o Dudu, pobre coitado, parecia um cão sem dono/ Todos os jor­nais só o chamavam de vaca/ de cretino/ urucubaca...".
     Em janeiro de 1911, inicia-se a chamada "política das salvações", no­me atribuído às derrubadas dos presidentes esta­duais com o apoio do governo fede­ral. Oligarcas fo­ram substituídos por militares da confiança do marechal Hermes. No final, a política acabou se tor­nando um desastre. Encontrando resistências em Salvador e em Manaus, o marechal ordenou o bombardeio das cidades.
     Sem experiência administrati­va, o presidente ganhava os adjeti­vos de "indeciso" e "influenciável". Anedotas e caricaturas registravam a ascendência do senador Pinheiro Machado sobre Hermes. Uma de­las relatava uma confidência do presidente ao seu vice: "Olha, Wen­ceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a gover­nar pela gente". Para reverter esta imagem, o próprio Pinheiro Machado criou o Partido Republicano Conser­vador (PRC), na tentativa de preser­var o Executivo.
     O marechal ten­tou ganhar popu­laridade se aproximando do opera­riado. Com a ajuda do filho Mario Hermes, ouviu reivindicações tra­balhistas. Construiu vilas operá­rias, como a de Sapopemba, atual bairro de Marechal Hermes, no Rio de Janeiro. Fundou um sindicato, a Liga do Operariado do Distrito Federal, em outubro de 1912. Atento à saúde pública, por inter­médio do Instituto Oswaldo Cruz incentivou viagens de cien­tistas renomados, como Belizário Pena e Artur Neiva, incumbidos de diagnosticar as principais doenças que afligiam a popula­ção do interior do Brasil.
     Se sua gestão andava caótica, um fato viraria de cabeça para baixo a vida do "Dudu". Sua es­posa falece em 1912 e, sem que o luto terminasse, casa-se com Nair de Teffé. Moça rica e da mais alta aristocracia da República, era fi­lha do almirante Antonio Luiz Von Hovnholtz, o barão de Teffé, e, pasmem, 31 anos mais jovem do que o presidente!
     Educada na França, Nair falava diversas línguas, tocava violão, era atriz e, por ironia, a primeira caricaturista do Brasil. Ousada, fre­quentava o Café Jeremias, um dos redutos da boêmia carioca, onde conviveu com literatos como João do Rio e Arthur Azevedo. O namoro teve início em janeiro de 1913, em Petrópolis, quando o marechal se recuperava da perda da esposa. Recebido pela família Teffé, logo se apaixonou por Nair. Entre cavalgadas matutinas e ca­fezinhos na casa do barão, Her­mes se declarou: "Estou encanta­do com a beleza de mademoiselle. Queria fazê-la minha esposa".
     Foi um escândalo. Uma menina culta e jovem não deveria se casar com um velho que acabara de ficar viúvo, na opinião dos mais conser­vadores. Os filhos do marechal também não toleraram o consór­cio. Para os opositores do presiden­te a notícia foi um prato quente. O marechal estava caduco, diziam. Mas o casamento ocorreu em 8 de dezembro de 1913, sem lua-de-mel, devido à pobreza do noivo.
     Nair trouxe descontração à vi­da palaciana, e seus salões se tor­naram famosos pelas festas e sa­raus. As recepções eram tantas que Rui Barbosa apelidou o Catete de "Versailles do século XVII", numa alusão à Corte fran­cesa. Mas nenhum evento causou tanto frisson quanto o sarau do "Corta-jaca". Considerada chula e pornográfica, a composição era um dengoso maxixe de Chiquinha Gonzaga. A opinião pública não perdoou: do casamento à noite do "Corta-jaca", tudo foi motivo para mais caricaturas e canções irreverentes: "o Dudu sai a cavalo/ o ca­valo logo empaca/ e só recomeça a andar/ ao ouvir o Corta-jaca..."
     Distraído, o marechal não per­cebeu que o Brasil rumava para uma terrível crise. O país assistia mais um episódio sangrento: a Guerra do Contestado. Ocorrida na divisa do Paraná com Santa Ca­tarina, tinha
caráter messiânico e foi liderada pelo "monge" José Ma­ria. O marechal não conseguiu contornar o conflito, iniciado em 1912, e sobrou para o próximo presidente, Wenceslau Braz, con­trolar a revolta que durou até 1916.
     Para completar, crise financei­ra. Entre 1913 e 1914 foi pedido um novo empréstimo internacio­nal para a manutenção do Con­vénio de Taubaté, firmado em 1906 para garantir os preços do café. Mas a medida foi em vão, pois as exportações despencaram. Na Amazônia, a produção de borracha dava sinais de ago­nia. No último ano de governo, o marechal Hermes negociava no­vo funding-loan, acordo feito em 1898 para o parcelamento da dí­vida externa. Mas a deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) dificultou a obten­ção de novos empréstimos.
     Hermes da Fonseca entregou ao sucessor um país endividado. Cansado das críticas e chacotas, desiludido com a política, desaba­fou: "Passei pela triste decepção de verificar que 'amigos' meus o eram mais dos oligarcas". Com o fim do mandato, recolheu-se em Petrópolis e passou a fazer móveis e casinhas para passarinhos. Após exílio voluntário na Europa, re­tornou em 1920. Dois anos de­pois, foi preso pelo envolvimento numa conspiração militar contra o presidente Epitácio Pessoa. Em liberdade e doente, voltou a Petrópolis onde faleceu de um ataque cardíaco, em 9 de setem­bro de 1923. Seu último desejo foi ser enterrado em trajes civis, dis­pensando as honras militares.
Nívia Pombo é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e pesquisadora de Nossa História.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 32 – Junho - 2006


Contra a chibata, canhões
As reivindicações que levaram os marinheiros à Revolta da Chibata iam muito além da extinção do castigo inevitavelmente associado à escravidão.
     Em 22 de novembro de 1910, os moradores da cidade do Rio de Janeiro acordaram sobressaltados. Tiros de canhão eram ouvidos por todos os lados. O que estaria ocorrendo dessa vez? Mais uma tentativa de golpe de Estado?  Revoltas contra o aumento das passagens dos bondes? Uma nova vacinação obrigatória? Ou alguma outra atitude impopular do governo? Os rumores foram desfeitos na manhã seguinte, quando os principais jornais do Brasil e do mundo passaram a publicar as notícias da Revolta dos Marinheiros. 
     A Marinha de Guerra havia encomendado diversos navios aos estaleiros ingleses de Newcastle, como parte do seu projeto de reaparelhamento naval, e, em 1910, chegaram os modernos e poderosos encouraçados: Minas Gerais e São Paulo. Foram esses dois navios e mais duas embarcações – Deodoro e Bahia – que os marinheiros utilizaram para exigir o cumprimento das suas reivindicações. Aos gritos de “Viva a liberdade” e “Abaixo a chibata”, os amotinados foram matando e expulsando oficiais, sargentos e marinheiros contrários ao movimento. Logo após, apontaram os enormes canhões contra a cidade e atiraram, vitimando pessoas em duas residências.
     As alternativas de contragolpe eram nulas. Sob a liderança de João Cândido Felisberto e Francisco Dias Martins, os marinheiros, negros em sua imensa maioria, mostraram-se habilidosos na condução das embarcações e na sobriedade com que encararam a luta por melhores condições de trabalho. O uso de bebidas, a prática dos jogos de azar e diversas outras atividades foram proibidas. Afinal, eles estavam planejando essa revolta havia meses e não poderiam comprometer seu sucesso.
     Hermes da Fonseca fora empossado presidente apenas sete dias antes. Com a surpresa do ataque e a dimensão da organização, o marechal se viu obrigado a negociar, sob a pressão de retirar a capital federal da República — e o seu próprio governo — da estranha condição de reféns de centenas de marinheiros amotinados.
     Os debates no Congresso foram fervorosos e puseram em lados opostos os senadores Rui Barbosa e Pinheiro Machado. O primeiro defendia a votação de um projeto imediato de anistia e o segundo entendia que tal direito só deveria ser satisfeito caso os marinheiros primeiro entregassem as armas. Rui Barbosa foi vitorioso, e a anistia encerrou a revolta dos marinheiros naquele mês de novembro. Pensaram os amotinados que os debates no Poder Executivo e a cobertura jornalística nacional e internacional seriam suficientes para terminar com seus problemas. Afinal, haviam conseguido revelar a humilhante realidade a que eram submetidos no interior da armada por seus oficiais superiores. 
     No entanto, em 27 de novembro, os oficiais ordenaram o desarmamento dos poderosos navios e, no dia seguinte, começaram a expulsar dezenas de ex-amotinados, desrespeitando a anistia. A tensão entre marinheiros e oficiais aumentou, e os líderes já não mais conseguiam comandar todos os colegas. Dias depois, em 9 de dezembro do mesmo ano, outra revolta estourou no navio Rio Grande do Sul e no Batalhão Naval da ilha das Cobras. O navio foi logo dominado pelos oficiais, e o Batalhão Naval passou a ser brutalmente bombardeado pelas forças do Exército. Sendo um alvo fixo e sem a liderança e a organização existentes em novembro, os amotinados do Batalhão Naval foram sendo mortos e feridos ao longo daquela intensa noite.  Não há dados que revelem a quantidade de mortos, mas alguns jornais chegaram a noticiar mais de trezentos. 
     Tanto os marinheiros de novembro quanto os de dezembro foram sendo presos.  Dezesseis deles morreram asfixiados numa masmorra da ilha das Cobras. Mais de cem outros foram enviados para o Acre, junto a mais de duzentos presos e presas da Casa de Detenção. Lá foram obrigados a trabalhar nos seringais e na construção da ferrovia Madeira-Mamoré. João Cândido foi um dos dois sobreviventes da cela da ilha das Cobras. Passou dois anos preso, incomunicável, e só conseguiu sua liberdade após um arrastado processo militar, que o acusava de participação no movimento de dezembro.
      Raros eram aqueles que desejavam ser marinheiros. Os homens eram recrutados à força nas ruas ou prisões. Havia também o alistamento de menores pobres, órfãos e desvalidos que eram enviados por pais, juízes e tutores. O governo incentivava esse tipo de alistamento através do pagamento de prêmios aos responsáveis dos garotos.  Entre os receios que afastavam voluntários para o serviço estavam o tempo de serviço militar obrigatório (entre nove e quinze anos), o baixo salário e as violências sexuais. No entanto, as formas de disciplinamento usadas pelos oficiais eram o que maior aversão gerava entre os possíveis candidatos.
     Há diversos casos de cem, 250 e até quinhentas chibatadas num único dia. Embora o castigo da chibata em marinheiros seja facilmente associado à recém-abolida escravidão no Brasil, é importante ter em mente que esse tipo de disciplinamento era comum na maior parte das forças armadas no mundo (Inglaterra, Estados Unidos, Rússia).  Mas não havia  maiores questionamentos por parte dos marinheiros aos castigos considerados justos e sem excessos e, até a República, não ocorreram revoltas contra os castigos na armada.
     Com o fim da guerra do Paraguai, a Abolição e as mudanças no pensamento ilustrado, esse tipo de castigo começou a ser contestado. Além disso, um outro fato mexeu com as normas de punição.  No segundo dia da República, o ministro da Marinha, Eduardo Wandenkolk, decidiu abolir os castigos corporais a bordo dos navios. Essa decisão não foi gratuita.  Um ano antes, os marinheiros haviam conseguido pôr as ruas do Rio de Janeiro em estado de guerra, quando atacaram as forças da polícia, devido a antigas questões entre as duas corporações. O barulho foi tão grande e a oposição explorou tanto a situação pelos jornais que a princesa Isabel teve de sair de Petrópolis para dar um basta àquela situação. Wandenkolk estava nas ruas do Rio nesse dia e muito certamente notou a importância de ter os marinheiros avessos à monarquia e inclinados às iniciativas da jovem República.
     No entanto, cinco meses após o fim dos castigos físicos, os oficiais passaram a pressionar Wandenkolk, que instaurou um novo regime de punição, mais rigoroso que o anterior, resgatando inclusive o castigo de chibata. As primeiras revoltas de marinheiros começaram a estourar em estados como Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Sul ainda na década de 1890. A liderada por João Cândido, no entanto, foi a mais organizada, alcançou maior sucesso que as anteriores e demonstrou a consciência a que os marinheiros haviam chegado. 
     Não era somente uma revolta contra a chibata. Os marinheiros expuseram os problemas e apresentaram propostas concretas de mudança. De um lado, a chegada dos novos navios exigiu maior quantidade de homens, sobrecarregando o trabalho dos existentes. As irritações e os castigos aumentaram consideravelmente. Além disso, os oficiais receberam aumentos de salários, mas os marinheiros não tiveram a mesma sorte. O aumento dos salários e a criação de uma nova tabela de serviços, que diminuísse o excesso de trabalho, foram duas reivindicações reveladoras dessa insatisfação.
     Por outro lado, exigiam o fim dos castigos físicos. Um código penal permitia tal punição, mas diversos oficiais castigavam mais que o ratificado nos seus parágrafos, impiedosamente. Daí exigirem a mudança do código penal e a demissão desses oficiais.  Mas eles também sabiam que mudanças no comportamento dos marinheiros eram necessárias. Havia muitos colegas seus que se embriagavam com frequência, implicavam com colegas, roubavam objetos do fardamento, trapaceavam no jogo.  Eram essas atitudes que geralmente levavam o marinheiro indisciplinado e outros envolvidos por ele a sofrer castigos físicos, descontos de salários, rebaixamento de posto. Assim, exigiram “educação” para os marinheiros indisciplinados. As lideranças certamente discutiram estes problemas nas reuniões preparatórias para a revolta de novembro de 1910.
     Em 1911, a maior parte dos envolvidos tinha sido desligada, morta ou fugira.  Anos depois da revolta, os resultados começaram a aparecer. Em 1923, a Escola de Aprendizes da Bahia teve todas as 47 vagas preenchidas rapidamente. No entanto, o oficial comandante dessa instituição começou a reprovar diretamente todos os menores negros, dando lugar aos brancos. Segundo ele, esta era uma seleção “natural”.  Parte dos oficiais, enfim, desejava embranquecer a armada. 
     Devido ao racismo na Marinha, negros não poderiam ser oficiais. Mesmo que distantes do oficialato, os marinheiros de 1910 desejaram construir uma nova realidade capaz de alavancar suas carreiras.  Numa cidade onde a disputa por empregos no mercado de trabalho criou e recriou conflitos por nacionalidade, cor e gênero, os amotinados de 1910 tentaram garantir um espaço no qual assegurassem dias mais felizes para suas vidas.
Álvaro Pereira Nascimento é doutor em história pela Unicamp e autor de A ressaca da marujada: recrutamento e disciplina na armada imperial.  Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001.



O mestre-sala dos mares
Em 1975, os compositores João Bosco e Aldir Blanc fizeram uma música em homenagem a revolta da Chibata que aconteceu no Brasil em 1910. Nos anos 1970, o Brasil era governado por uma ditadura militar e as criações artísticas, como as letras de música, de­viam ser aprovadas pelas autoridades. A Censura Federal vetava ou alterava artigos de jornal, livros, filmes, músicas, etc. A letra da música de Bosco e Blanc desagradava aos militares e foi censurada. Abaixo estão reproduzidas as duas versões da mú­sica: a versão original e a versão modificada para passar pela censura.

domingo, 3 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Afonso Pena - Nilo Peçanha

Um tico-tico no Catete
Voluntarioso, o monarquista Afonso Pena rompeu com o liberalismo de Rodrigues Alves, colocou os cafeicultores no poder e morreu antes de concluir o mandato.
Rodrigo Elias
     Primeiro representante de Minas Gerais a ocupar a Presidência da República, Afonso Pena era pe­queno, determinado e viciado em trabalho. Quando chegou ao Palácio do Catete, em 1906, foi apelidado de "Tico-tico", em re­ferência à baixa estatura e à ati­tude voluntariosa.
     Filho de um imigrante portu­guês com uma filha de portugue­ses, Afonso Augusto Moreira Pe­na nasceu em 1847 na vila de Santa Bárbara do Mato Dentro, próximo a Ouro Preto. Estudioso, formou-se em Humanidades no Colégio do Caraça em 1863 com nota máxima em todas as disci­plinas e menção de louvor pela direção da escola.
     Ingressou em 1866 na Faculda­de de Direito de São Paulo, onde foi colega, entre outros, de Rodri­gues Alves e Rui Barbosa. Aliou os estudos jurídicos às mais diversas atividades, como a participação em umasociedade secreta chamada Burschenschaft, de orientação liberal e abolicionista. Teve participação ativa em periódicos universitários. Em 1870 disputou eleição para o cargo de redator-chefe do jornal Imprensa Acadêmica, obtendo o mesmo número de votos do seu concorrente, Rodrigues Alves. Os dois futuros presidentes da República acabaram exercendo o cargo conjuntamente.
     Concluiu o bacharelado em 1870 e seis meses depois era o único de sua turma a obter o título de doutor. Voltou para Santa Bárbara e exerceu a advocacia até 1874, um ano antes de se casar com Maria Guilhermina de Oliveira, com quem teve 12 filhos e por quem nutriu até o fim da vida uma paixão arrebatadora. Seus arquivos mostram cartas cheias de amor juvenil trocadas em 1906, quando já tinham 31 anos de casados. Nelas, referiam-se um ao outro como "Negrão" e "Mariquinhas".
     Afonso Pena foi deputado provincial pelo Partido Liberal entre 1874 e 1878 e assumiu vaga de deputado geral em 1879. Isso tudo apesar do comentário geral de que era um mau orador, de dic­ção difícil, e gesticulação epilética. O político mineiro defendeu o liberalismo econômico, atacou a escravidão e liderou a ala radical do Partido Liberal, mas jamais se bandeou para o lado dos republi­canos. Entre 1882 e 1885, antes de completar quarenta anos, ocupou por cinco vezes o cargo de conse­lheiro do Império (equivalente a ministro na República), incluin­do as pastas da Guerra e da Justiça.
     Após os "lutuo­sos acontecimen­tos do dia 15", co­mo se referiu à Proclamação da República, Pena tentou se retirar da vida política. Mo­narquista e liberal, estava incompati­bilizado com a no­va elite, republicana e conserva­dora. Mas foi convocado em 1890 para elaborar a Constituição mi­neira, o que aceitou após muita relutância. Liderou a Constituinte e foi relator do texto final, de 1891. Constava no documento a decisão de retirar a capital minei­ra de Ouro Preto, considerada feia e anti-higiênica. Durante o seu trabalho nesta comissão, gostava de ouvir ideias e propostas dos co­legas de pouca idade, entre eles David Campista, jovem deputado de origem fluminense.
     Com a ascensão de Floriano Pei­xoto à Presidência, em 1891, e a no­meação de Rodrigues Alves para o Ministério da Fazenda, Afonso Pe­na passou a corresponder-se com este sobre assuntos financeiros.
     O presidente de Minas Gerais, Cesário Alvim, opositor de Floria­no, renunciou em 1892. Pena, com atuação reconhecida por to­das as facções políticas, foi eleito para o cargo em maio daquele ano. Hábil administrador, duas realizações marcaram seu governo em Minas: a criação da nova capi­tal, Belo Horizonte (inaugurada em 1897) e a fundação da Facul­dade Livre de Direito, em 1892.
     Trabalhador compulsivo, as­sumiu a direção da faculdade e foi regente de uma de suas cadei­ras. Causava especial impressão nos moradores de Ouro Preto ver o presidente do Estado sair do palácio do governo e entrar na sala de aula como simples professor. Em 1895, um ano após deixar o go­verno de Minas, foi convidado pa­ra ser ministro do Supremo Tribunal Federal. Mas pre­feriu continuar no magistério.
     Um jornalista que passou pela capital estadual na época relatou a sim­plicidade na qual vivia o ex-presidente do Estado. O professor Afonso Pena morava em uma ca­sa modesta, sem área externa ou luz elétrica.
     Assumiu em 1895, por articula­ção do ministro Rodrigues Alves, a direção do Banco da República do Brasil, instituição mista controla­da pelo governo federal, que tinha grande papel na definição da polí­tica financeira do país. Neste car­go, Afonso Pena ajudou na recu­peração do crédito brasileiro fren­te aos investidores, sobretudo de­vido à austeridade fiscal e respeito aos compromissos assumidos.
     Mas começou a apresentar si­nais de exaustão física entre 1896 e 1897: "tenho trabalhado como um mouro (...), sinto-me cansa­do e tenho receio de haver com­prometido minha saúde (...). Tenho muitos filhos e preciso vi­ver para educá-los". Os médicos diagnosticavam: sofria por exces­so de trabalho. Em outubro de 1897, foi obrigado a repousar. Seguiu para Águas Virtuosas, atual Lambari (MG), onde permaneceu algumas semanas. Entre passeios e conversas, achou tem­po para um dos passatempos preferidos em sua juventude pau­listana: jogar peteca.
     Em 1902, com a morte de Silviano Brandão, presidente de Minas e vice-presidente da República eleito na chapa de Rodrigues Al­ves, Afonso Pena foi indicado pa­ra o cargo federal. Eleito em mar­ço de 1903, tomou posse três me­ses depois. Teve grande entendi­mento com o presidente até 1905, quando começaram as articula­ções para a sucessão presidencial.
     Rodrigues Alves havia feito um governo memorável. Sua obra, em termos econômicos e, principalmente, de infraestrutura, rendera-lhe o título de "gran­de presidente". Mas a agricultura caminhava para um colapso: o principal produto da pauta de exportações, o café, apresentaria no ano seguinte um excedente de cerca de 16 milhões de sacas. Os principais produtores do país não aceitariam mais a postura não intervencionista do presi­dente ou de seu sucessor.
     Abandonando a postura libe­ral que ajudara a recuperar a eco­nomia brasileira na virada do sé­culo XIX para o XX, o vice-presi­dente se voltou para o interven­cionismo. Em acordo com o cau­dilho e senador gaúcho Pinheiro Machado, de grande influência no Parlamento, decidiu que o próximo presidente seria minei­ro, e não um paulista seguidor da cartilha liberal, como queria Rodrigues Alves.
     Enquanto Pena, Pinheiro Ma­chado e outros líderes políticos se uniam no chamado "Bloco" con­tra a indicação do paulista Ber­nardino de Campos, candidato de Rodrigues Alves, os presiden­tes dos principais estados cafei­cultores se reuniam em Taubaté, no interior paulista, e articulavam a salvação dos produtores: o go­verno federal deveria servir como fiador de um empréstimo de 15 milhões de libras esterlinas para compra e estocagem do exceden­te de café, e o valor da moeda na­cional seria controlado por uma agência governamental, fixando o câmbio. Com estas resoluções, os presidentes de São Paulo (Jorge Tibiriçá), Minas Gerais (Fran­cisco Antônio de Sales) e Rio de Janeiro (Nilo Peçanha) assinam em fevereiro de 1906 o documen­to final do Convénio de Taubaté.
     Rodrigues Alves opunha-se às medidas sugeridas pelos cafeicul­tores, mas Afonso Pena, já candi­dato à Presidência da República, defendia-as abertamente. Para completar a ligação com os agri­cultores, Nilo Peçanha foi esco­lhido para a vice-presidência em sua chapa.
     Candidato único, Pena foi elei­to em 1906 com 288.285 votos, a segunda menor votação de toda a história republicana brasileira (supera apenas Epitácio Pessoa, eleito em 1919 com pouco mais de 286 mil votos). Após a eleição, fez questão de deixar claro quem mandaria no governo: "quem faz a política sou eu", disse, em setem­bro de 1906, a Pinheiro Machado, que passaria à oposição.
     Ainda em maio daquele ano, o presidente eleito iniciou uma ex­cursão pelo país, percorrendo-o de norte a sul. No Rio Grande do Sul, última escala da viagem, ou­viu da sacada do Palácio do Go­verno o discurso de um represen­tante estudantil que havia sido impedido pelas autoridades locais de encontrá-lo. Seu nome era Ge­túlio Vargas, e elogiava Pinheiro Machado, "sentinela do Sul", que teria colocado fim ao continuis­mo nas sucessões presidenciais.
     Ao assumir a Presidência, com 59 anos, Afonso Pena cercou-se de ágeis colaboradores, como o baia­no Miguel Calmon, de apenas 27 anos, ministro da Viação. Outros importantes colaboradores, além do seu filho Álvaro Pena, hábil ofi­cial de gabinete, e do barão do Rio Branco, "intocável" no Itamarati, eram David Campista, alçado ao Ministério da Fazenda, e Carlos Peixoto, presidente da Câmara dos Deputados. O grupo de auxiliares de Pena passou a ser conhecido como "Jardim da Infância", e ren­deu várias anedotas na imprensa.
     Sua primeira medida como presidente foi a transformação do Convênio de Taubaté em lei. Ape­sar de abalar o crédito internacio­nal dos estados cafeicultores, as primeiras consequências da alte­ração econômico-financeira não foram tão funestas. A presença de um velho conselheiro imperial na Presidência da República aquieta­va os ânimos dos capitalistas.
     Pena teve espaço para impor­tantes realizações, como a reor­ganização do Exército através da lei do serviço militar obrigatório, a renovação da esquadra, a finali­zação do porto do Rio de Janeiro e o incremento da imigração (foi responsável pela entrada de qua­se um milhão de europeus).
     Criou ainda a Comissão de Li­nhas Telegráficas, colocando à frente o capitão Cândido Rondon, instalando mais de 2 mil quilóme­tros de linha telegráfica e colocan­do o Brasil em contato com uma população indígena enorme e des­conhecida. Incentivou a expansão ferroviária, inaugurando ramais de norte a sul do país, construindo a Estrada de Ferro do Noroeste do Brasil, que ligou o Mato Grosso ao Sudeste, e iniciando a obra da fer­rovia Madeira-Mamoré, no inte­rior da Amazônia.
     Em 1908, para comemorar o centenário da abertura dos por­tos, Pena mandou organizar uma exposição na capital federal. Reformada no governo anterior, a cidade do Rio serviu de vitrine para a produção nacional, obten­do grande êxito, tanto para expo­sitores quanto para o público.
Mas o aparente mar-de-rosas acabou em 1909. O lançamento de David Campista à Presidência, obra de Pena, não foi aceito no meio político. Uns não aceitavam que a sucessão fosse definida pelo presidente, outros já faziam acir­rada oposição ao "Jardim da In­fância". Surgiu, como opção, o no­me do gaúcho Hermes da Fonseca, militar e, para agravar a situação, ministro da Guerra. Alheio à par­ticipação política mais efetiva, foi finalmente convencido pelo grupo de Pinheiro Machado e rompeu com o governo em episódio que pode ter agravado a saúde do pre­sidente - já abalado emocional­mente com a morte de seu filho Álvaro no início de 1909.
Combalido pelos aconteci­mentos da cena política e da vida pessoal, Pena não diminuiu o rit­mo de trabalho. Aos 61 anos - idade avançada para a época -, acometido por violenta pneumo­nia, continuou a fazer viagens pe­lo Brasil e a despachar com mi­nistros e auxiliares. Aceitou ficar de cama quando já sentia arrit­mia cardíaca. Mas era tarde. Na semana seguinte, no dia 14 de ju­nho de 1909, Afonso Pena tornou-se o primeiro presidente a morrer no Catete, no exercício da Presidência. E o único a expirar por excesso de trabalho.
Rodrigo Elias é professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 30 – Abril - 2006



Da padaria à Presidência
Com a morte de Afonso Pena, o vice Nilo Peçanha foi o primeiro brasileiro de origem humilde a se tornar presidente da República.
Fabiano Vilaça dos Santos
     No dia 14 de junho de 1909, o "pequeno do Sebastião da pada­ria", o menino de pele morena que entregava pães e entrou para a política, chegou ao topo de sua trajetória: a Presidência da Repú­blica, ainda que para governar 17 meses. Com a morte do presiden­te Afonso Pena (1847-1909) an­tes do fim do mandato, o vice, Nilo Peçanha, assumiu o poder de acordo com a Constituição de 1891. Concentrou esforços no desenvolvimento da agricultura e da indústria e enfrentou acirrada disputa entre os candidatos à su­cessão presidencial.
     Nilo Procópio Peçanha nasceu em Campos dos Goytacazes, norte do Rio de Janeiro, em 2 de outubro de 1867. Filho de Sebastião de Sou­sa Peçanha, lavrador que trocou as terras por uma padaria, passou a infância em um sítio onde recebeu as primeiras letras da mãe, Joaqui­na Anália de Sá Freire Peçanha. Além do aprendizado, entregava-se às brincadeiras - gostava de apa­nhar goiabas -, e por isso ganhou o apelido de "Nilo goiabada".
     Fez parte da primeira turma do Liceu de Humanidades de Campos, onde começou a defen­der o ideal republicano. Nesta época, quando ouvia no comércio do pai as conversas sobre política, escreveu o único número do jor­nal A República. No Liceu, redigiu com os irmãos e alguns colegas a folha O Liberal, enquanto os sim­patizantes do Partido Conserva­dor criaram O Diáfano. Comple­tou o ensino secundário no Rio de Janeiro, onde se preparou para entrar na Faculdade de Direito (iniciou o curso em São Paulo e terminou em Recife). Nesta oca­sião, divulgou entre os colegas um artigo que sintetizava sua visão dos acontecimentos políticos que se ensaiavam: "A República e a Abolição são irmãs gémeas. Preci­samos, desde já, organizar social­mente o nosso povo". Mas não só da militância e dos estudos vivia o "menino da padaria". Na capital pernambucana, costumava apre­ciar as belezas femininas nas horas vagas, como registrou o ex-ministro Brígido Tinoco (1910-1982).
     Formado em 1887, voltou pa­ra Campos e abriu banca de ad­vogado. Dedicou-se pouco à pro­fissão, preferindo a política. Elegeu-se deputado constituinte (1890-1891) e deputado federal pelo Partido Republicano Flumi­nense, entre 1891 e 1903. Nessa época, casou-se com a campista Ana de Castro Belisário Soares de Sousa, mais co­nhecida por Anita, filha de fazendeiros. Republi­cana, foi companheira fiel e conselheira políti­ca do marido. Tiveram quatro filhos: a primei­ra, natimorta, seguida por Nilo, Zulma e Mário. Em 1903 chegou ao Senado, mas trocou a vaga pela presidência do Rio de Janeiro sucedendo ao "republicano históri­co" Quintino Bocaiúva (1836-1912), seu padrinho de casamento.
     No governo do estado (1903-1906), Peçanha desenvolveu uma plataforma intervencionista - em voga no país devido à crise do ca­fé - de incentivo à agricultura e à indústria. Para tanto, diminuiu a carga tributária sobre os produ­tores, ampliou ferrovias, criou es­colas profissionalizantes e arro­chou as despesas com o funcio­nalismo público.
     O fim da gestão no Rio coinci­diu com o início da campanha para a Presidência da República. Na primeira ruptura entre Minas e São Paulo na "política do café-com-leite", Afonso Pena foi escolhido para suceder a Rodrigues Alves (1848-1919) e Nilo Peçanha para vice-presidente por sua ligação com os agricultores fluminenses. Foi eleito com 272.529 votos.
     No cargo, protagonizou uma história curiosíssima: no início do governo, presidente e vice eram próximos, mas aos poucos se afas­taram. Para não cair no esqueci­mento típico dos vices, Nilo ado­tou uma estratégia relatada pela historiadora Isabel Lustosa: toda vez que desaparecia da cena polí­tica postava em sua varanda um cabide repleto de quepes de mili­tares, supostamente reunidos com ele, a fim de demonstrar prestígio.
     Com a morte de Afonso Pena, o filho de comerciante, com perfil político distinto de seus dois antecessores (conselheiros do Im­pério) e malvisto pelos traços mu­latos, tornou-se o primeiro flumi­nense a ocupar o Catete. Tocou o programa de governo de Pena, marcado pelo incentivo à indus­trialização - associado ao protecionismo alfandegário -, à imi­gração e à construção de ferrovias.
     Mas deixou sua marca. Estru­turou o Ministério da Agricultu­ra, criado na gestão anterior, e fa­voreceu a atividade (67% dos brasileiros, que contavam cerca de 23 milhões, viviam no cam­po). Criou o ensino agronômico e estações experimentais de culti­vo da cana-de-açúcar. Para in­centivar o setor destinou certa vez um prémio de sessenta mil-réis (sufi­ciente para abastecer de lenha uma casa em São Paulo por dois meses) aos sericicultores (produtores de seda) "que apresentassem casulos de produção nacional" e compro­vassem manter pelo menos 3 mil amorei­ras "regularmente tra­tadas". Criou a Diretoria de Meteorologia, subordinada ao Ministé­rio da Agricultura, em 1909 e, no ano seguinte, o Serviço de Proteção ao índio. No campo da indústria, a side­rurgia teve atenção especial. Afi­nal, o Brasil precisava se inserir na conjuntura mundial de avan­ços tecnológicos, iniciada na se­gunda metade do século XIX - a chamada Segunda Revolução Industrial-, intimamente ligada à utilização do ferro. E como o go­verno pretendia ampliar as ferro­vias, planejou tirar partido das jazidas nacionais uma vez que o país exportava ferro e importava trilhos. Para promover a siderur­gia, foi montada uma comissão de estudos e procurou-se atrair ca­pitais externos. Mas este modelo industrial só seria plenamente con­cretizado em 1941, com a fun­dação da Compa­nhia Siderúrgica Nacional (CSN).
     A imprensa, atenta a todas as ações do gover­no, levantou dúvidas de que o presidente estaria envolvido em acordos suspeitos com a Leopol­dina Railway, empresa britânica que em 1898 encampou a Com­panhia Estrada de Ferro Leopol­dina. Os acordos visavam à ex­pansão da malha ferroviária e ren­deram a Nilo Peçanha mais um apelido, dessa vez nada singelo: "moleque presepeiro", referência preconceituosa à ascendência ne­gra do presidente.
     Se por um lado Nilo se esfor­çava para promover o desenvol­vimento do país, por outro não de­sejava se ocupar da disputa suces­sória - ao assumir adotou o lema "Paz e Amor", alvo de várias sátiras. Mas os rumos da política mudaram seus planos. Em cam­pos opostos estavam o general gaúcho Hermes da Fonseca (1855-1923) e o senador baiano Rui Bar­bosa (1849-1923). O primeiro, apoiado pelas oligarquias do Rio Grande do Sul, de Minas Gerais, e pelo senador Pinheiro Macha­do (1851-1915), seu conterrâneo, eminência-parda na política da Primeira República. O segundo, mentor da Campanha Civilista, contra mais um militar no poder, apoiado por São Paulo e Bahia.
     O caldo quente da disputa res­pingou em alguns estados moti­vando a intervenção federal. O ca­so mais rumoroso foi o da depo­sição do presidente do Amazonas, Antônio Clemente Ribeiro Bitten­court (1908-1913), substituído pelo vice, Sá Peixoto. Simpático a Rui Barbosa, ele foi cassado por uma manobra de Pinheiro Ma­chado junto aos parlamentares amazonenses que acusavam Bit­tencourt de improbidade por ser sócio de uma tipografia que pres­tava serviços ao estado.
     Desejando restituir à legalida­de o governo do Amazonas, se as­sim permitisse a Constituição, Peçanha convocou o ministro da Guerra, general José Bernardino Bormann (1844-1919), e decla­rou: "procederei fira a quem fe­rir". Era um recado a Pinheiro Machado. Mesmo diante do pa­recer contrário de Rui Barbosa, Antônio Bittencourt foi recondu­zido ao cargo com apoio federal.
     Com essa atitude o presidente rompeu com Pinheiro Machado e colocou uma pá de cal no pas­sado de participação nas concor­ridas reuniões políticas, regadas a chimarrão, na casa do senador. Muito comentados na imprensa, os encontros renderam aos fre­quentadores o rótulo de bajula­dores pelo hábito de segurar o bi­co da chaleira para ver se a água da tradicional bebida gaúcha ain­da estava quente, conhecido pe­jorativamente a partir daí como "pega-na-chaleira".
      A vitória de Hermes da Fonse­ca confirmou a influência de Pi­nheiro Machado. Depois de en­tregar o cargo ao novo presidente, Nilo e d. Anita viajaram à Europa onde ficaram até 1912. De volta, foi eleito senador pelo Rio de Janeiro (1912-1914) e mais uma vez renunciou para ser presidente do estado (1914-1917). Foi mi­nistro interino das Relações Exte­riores no governo de Wenceslau Braz (1914-1918) e senador de 1918 a 1920. Neste ano, viajou mais uma vez à Europa e ao retor­nar, em 1921, preparou-se para o último lance importante de sua carreira: disputar a Presidência.
     Nilo teve que enfrentar a im­prensa e a opinião pública, como se pode perceber nos trechos da marchinha "Goiabada" (1922), de Eduardo Souto (1882-1942): "Meu benzinho/ Caladinho escu­ta/A goiaba/Nunca foi boa fruta" e "O arroz de Pendotiba/ Nunca chegou aqui ao mercado/ Nem mesmo lá em riba/ O tal arroz nunca foi achado", que ironizava a origem do candidato, lembran­do o doce típico de Campos, e seus planos frustrados de plantar arroz nos pântanos de Pendotiba, em Niterói.
     Para suceder a Epitácio Pessoa (1919-1922), compôs a chapa da Reação Republicana - uma alter­nativa das oligarquias do Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambu­co e Rio de Janeiro à indicação de Arthur Bernardes (1875-1955), apoiada por Minas e São Paulo - tendo como candidato a vice seu antigo professor de Direito e en­tão presidente da Bahia, José Joa­quim Seabra (1855-1942). Apesar do empenho da Reação Republi­cana, Bernardes venceu.
     No saldo da derrota veio o abalo da saúde. Nilo Peçanha so­freu uma cirurgia de vesícula, mas faleceu em 31 de março de 1924. Ironicamente, se fosse elei­to, morreria antes de completar dois anos de mandato, o que exi­giria, pela Constituição, a escolha de um novo presidente.

Fabiano Vilaça dos Santos é doutorando em História Social na USP e pesquisador em Nossa História.

Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 31 – Maio - 2006