"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Índio falou, tá falado

Línguas indígenas sobrevivem no português, influenciam nossa fala e guardam sentidos ocultos.
     A prova está no dicionário: dos 228 mil verbetes que o Houaiss apresenta em uma de suas edições, cerca de 45 mil são palavras oriundas de línguas indígenas. Alguma dúvida de que o conhecimento dessa herança linguística, mesmo que superficial, é necessário para entender o português que falamos, e até mesmo para consolidar a nossa identidade?
     “Há várias línguas faladas em português”, afirma José Saramago no documentário Língua: vidas em português, e basta olhar as variedades regionais para dar razão ao escritor. Como explicar essas diferenças? Parte delas reside no fato de que os índios que aqui moravam falavam centenas de línguas autóctones de diversos troncos linguísticos.   Quando começaram a usar um idioma que veio de fora – o português – nele deixaram impressas suas marcas, fruto de uma relação que a sociolinguística denomina de “línguas em contato”. Como as línguas indígenas eram diversas, as marcas que deixaram não foram as mesmas em cada região.
     No início do século XVI, o poeta Sá de Miranda lançou aos mares do futuro a nau da língua portuguesa, vinculando seu destino à expansão do comércio marítimo. Durante um par de séculos, caravelas singraram “mares nunca dantes navegados”, carregando, entre outros, um bem imaterial: o português, que passou a ser falado na Índia, na Malásia, na Pérsia, na Turquia, na África, no Japão e até na China e na Cochinchina. Em muitos lugares tornou-se “língua franca”, isto é, um idioma usado para comunicação entre grupos de pessoas cujas línguas maternas são diferentes – como ocorre hoje com o inglês.
     A língua portuguesa já veio para cá marcada por outras línguas com as quais havia convivido. Aqui, no território que é hoje o Brasil, encontrou mais de 1.300 línguas, faladas por cerca de 10 milhões de habitantes, segundo estimativas de pesquisadores da Escola de Berkeley que estudaram a demografia histórica do período e consideram que no continente americano ocorreu "a maior catástrofe demográfica" da história da humanidade.
     As duas línguas gerais indígenas faladas no Grão-Pará e no Brasil – a Língua Geral Amazônica (LGA) e a Língua Geral Paulista (LGP) – nomearam conceitos, funções e utensílios novos trazidos pelos europeus com adaptações fonéticas e fonológicas: cavalo (cauarú), cruz (curusá), soldado (surára), calça ou ceroula (cerura), livro (libru ou ribru), papel (papéra), amigo ou camarada (camarára).
     Os portugueses começaram a falar essas línguas  e também tomaram delas muitos empréstimos, a maioria sendo do tronco tupi, que mantinha grande número de falantes espalhados por extenso território da costa atlântica. Desde o século XVI, portugueses que tinham interesse econômico em comunicar-se com os índios começaram a usar uma língua de base tupi que se tornou a Língua Geral. Os missionários fizeram então uma gramática explicando como funcionava essa língua e passaram a usá-la na catequese. Traduziram para ela orações, hinos e até peças de teatro.
     Apesar de extintas, algumas dessas línguas indígenas continuam sendo usadas por brasileiros, que nem desconfiam desses empréstimos, em nomes de lugares, animais, vegetais, ervas, flores, plantas, enfim, da flora e da fauna. Numa amostra coletada pelo linguista Aryon Rodrigues, 46% dos nomes populares de peixes e 35% dos nomes de aves são oriundos só de línguas tupi.
     De origem tupi é a palavra carioca, nome de um rio que, segundo alguns especialistas, significa “morada (oca) do acari”, um peixe que cava buracos na lama e ali mora como se fosse um anfíbio. Para outros, é o nome de uma aldeia, a “morada dos índios carijó”. Da mesma origem são os nomes de muitos lugares, como locais atuais do Rio de Janeiro que conservaram as denominações de antigas aldeias: Guanabara (baía semelhante a um rio), Niterói (baía sinuosa), Iguaçu (rio grande), Pavuna (lugar atoladiço), Irajá (cuia de mel), Icaraí (água clara) e tantos outros, como Ipanema, Sepetiba, Mangaratiba, Acari, Itaguaí.
     Muitos topônimos indígenas perderam seu sentido original. Os tupinambás denominaram de Itaorna uma praia em Angra dos Reis. Nessa área, na década de 1970, foi construída a Central Nuclear Almirante Álvaro Alberto, mas os engenheiros responsáveis desconheciam que o nome dado pelos índios continha informação sobre a estrutura do solo – minado por águas pluviais, que provocavam deslizamentos de terra das encostas da Serra do Mar. Somente em fevereiro de 1985, quando fortes chuvas destruíram o Laboratório de Radioecologia que mede a contaminação do ar na região, eles descobriram o que significa itaorna: “pedra podre”.
     A influência das línguas indígenas nas variedades usadas no Brasil não se resume em uma listagem de palavras exóticas ou "folclóricas". Existem outras influências entranhadas nas camadas profundas da língua, que penetraram em seus alicerces, mexendo com seu sistema nos campos sintático, fonológico e morfológico. É o que os linguistas chamam de "substrato".
     No caso da fala individual, o substrato é o conjunto de transferências adquiridas pela primeira língua, ou língua materna, depois do contato com uma segunda língua. Do ponto de vista coletivo, o substrato é o conjunto de vestígios que uma língua, quase sempre extinta, deixa sobre outra língua, em geral a de um povo invasor. É a influência da língua perdida sobre a língua imposta, que só se estabiliza após diversas gerações. Exemplos disto são alguns processos de modalização do nome, característicos do tupi, que deixaram suas marcas no português não pela via do empréstimo cristalizado, mas pelo próprio mecanismo. Tanto na palavra netarana, usada no Pará, quanto em outras do português regional, como sagarana, canarana, cajarana, tatarana, há o uso do sufixo tupi rana (“como se fosse”).
     Esses resíduos ainda não foram completamente inventariados, mas alguns deles foram identificados. O indigenista Telêmaco Borba recolheu, em 1878, dados sobre a língua oti, que era então falada no sertão de Botucatu, em São Paulo, e que foi extinta. Descobriu que aquela língua, do tronco Jê, possuía sons que os grupos de língua tupi não tinham, como o r retroflexo. E seus falantes levaram esse traço para o português quando adquiriram a nova língua. Ele ali permanece até hoje no r paulista, conhecido como r caipira.
No interior do Amazonas, no rio Madeira, há o processo de “alçamento” e “abaixamento” de vogais. “Alçamento” é o fechamento vocálico, como no caso de “popa da canoa”, que se pronuncia pupa da canua, o que também é atribuído ao substrato da língua indígena.
     Nem sempre tais mudanças foram aceitas pelos puristas da língua. Da mesma forma que o Império Romano considerou como “línguas estropiadas” as variedades do latim faladas na Península Ibérica (que mais tarde deram origem ao português, ao espanhol, ao catalão, ao galego, ao mirandês), assim também os portugueses consideraram a variedade aqui falada como “língua mutilada”. No Sermão do Ano Bom, em 1642, o jesuíta Antonio Vieira, que viveu no Grão Pará, afirmou que “A língua portuguesa (...) tem avesso e direito; o direito é como nós a falamos, e o avesso como a falam os naturais”. Classificou as variedades locais do português de "meias línguas, porque eram meio políticas [civilizadas] e meio bárbaras: meias línguas, porque eram meio portuguesas e meio de todas as outras nações que as pronunciavam, ou mastigavam a seu modo”.
     Uma resposta a Vieira está na letra da canção “Língua”, de Caetano Veloso: “Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões / (…) E deixe os Portugais morrerem à míngua / 'Minha pátria é minha língua'/ Fala Mangueira! Fala! / Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó/ O que quer / O que pode esta língua?/ (…) Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas”.
     As línguas indígenas permanecem no substrato do português e guardam informações e saberes, funcionando como uma espécie de arquivo. Conhecer a contribuição efetiva que legaram à língua portuguesa é entender como viviam os povos que as falavam e se apropriar dessa experiência milenar.

José R. Bessa Freire é professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e autor do artigo “Da fala boa ao Português na Amazônia Brasileira”, in Amazônia em cadernos (Manaus, 2000).

Saiba Mais - Bibliografia
NOLL, Volker & DIETRICH, Wolf (orgs.). O português e o tupi no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2010.
LIMA, Ivana Stolze & CARMO, Laura do (orgs.). História Social da língua nacional. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 2008.
FREIRE, José R. Bessa & ROSA, Maria Carlota (orgs.). Línguas Gerais. Política Linguística e Catequese na América do Sul no Período Colonial. Rio de Janeiro: Eduerj, 2003.
LAGORIO, Consuelo Alfaro; ROSA, Maria Carlota & FREIRE, José R. Bessa (orgs.). Política de Línguas no Novo Mundo. Rio de Janeiro: Eduerj, 2012.

Saiba mais – Links

Saiba Mais - Filme
Língua: vidas em português
Documentário que foi filmado no ano de 2001 e lançado nos cinemas brasileiros no ano de 2004. Todo dia duzentas milhões de pessoas levam suas vidas em português. Fazem negócios e escrevem poemas. Brigam no trânsito, contam piadas e declaram amor. Todo dia a língua portuguesa renasce em bocas brasileiras, moçambicanas, goesas, angolanas, japonesas, cabo-verdianas, portuguesas, guineenses. Novas línguas mestiças, temperadas por melodias de todos os continentes, habitadas por deuses muito mais antigos e que ela acolhe como filhos. Língua da qual povos colonizados se apropriaram e que devolvem agora, reinventada. Língua que novos e velhos imigrantes levam consigo para dizer certas coisas que nas outras não cabe. O filme conta com a participação especial de José Saramago (escritor português), João Ubaldo Ribeiro (escritor brasileiro), Martinho da Vila (cantor e compositor), Teresa Salgueiro (do grupo Madredeus) e Mia Couto (escritor moçambicano).
Direção: Victor Lopes
Ano: 2002
Áudio: Português
Duração: 90 minutos

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

A Odisseia da Espécie - L'Odyssée De L'Espèce

Quase uma década foi o tempo que o realizador Jacques Malaterre e o cientista Yves Coppens demoraram para alcançarem o ambicioso projeto de expressar em imagens a pré-história do Homem, desde os pré-hominídeos à fundação das primeiras civilizações, no que é a maior produção alguma vez realizada sobre as nossas origens. São mais de 8 milhões de anos de evolução recriados graças às últimas descobertas antropológicas, a dezenas de atores, às mais modernas técnicas de animação digital, com cenários naturais escolhidos e sequências dramatizadas que servem de reforço para as intervenções de prestigiosos cientistas de todo o mundo. A Odisseia da Espécie é a nossa história. Através de surpreendentes imagens em três dimensões e efeitos especiais espetaculares, vamos poder observar os primeiros passos de Orrorin, um dos mais antigos pré-humanos, viver ao pé do "homo habilis" que vai inventar o primeiro utensílio, e do "homo erectus" que inventará o fogo. Com o homem de Neandertal será a caça ao urso das cavernas e as primeiras sepulturas. Finalmente com o "homo sapiens" será o nascimento da arte.
Direção: Jacques Malaterre
Ano: 2003
Áudio: Francês – Legenda: Português
Duração: 48 minutos cada episódio

Episódio 1 -"Les Prehumains" (Os Pré-Hominídeos )

Episódio 2 -"Les Premiers Hommes" (Os Primeiros Homens) 

Episódio 3 -"Neandertal et Sapiens" (Neandertal e Sapiens) 

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

A Evolução da Humanidade – Armas, Germes e Aço (Guns, Germs and Steel)


“Por que vocês brancos desenvolveram tantos suprimentos, enquanto nós negros temos tão pouco dele?”. A Pergunta, aparentemente inocente de um nativo da Papua Guiné, em 1974, fez com que Jared Diamond escrevesse o premiado livro Armas, Germes e Aço, sempre tentando solucionar o maior mistério da história da humanidade: as raízes da desigualdade social. Baseado na obra do autor, este documentário da National Geographic traça a jornada dos seres humanos nos últimos 13 mil anos – desde o nascimento da agricultura, no final da Era Glacial, até a realidade da vida no século XXI. Gravado em quatro continentes, A Evolução da Humanidade apresenta gravações atuais, entrevista com historiadores, arqueólogos e cientistas, reconstrução histórica e animação computadorizada.
Direção: Tim Lambert, Cassian Harrison
Ano: 2005
Áudio: Inglês – legenda: Português
Duração: 54 Min. cada episódio

Ep.1 - Saindo do Jardim do Éden
"Por que algumas sociedades florescem mais do que as outras?", perguntou-se o pesquisador Jared Diamond, autor do consagrado "Armas, Germes e Aço". Para examinar as razões do sucesso europeu, ele voltou há treze mil anos, quando a agricultura e a pecuária começaram a se desenvolver. E encontrou pelo menos uma parte da solução para o seu enigma: a geografia privilegiada do chamado "Fértil Crescente", no Oriente Médio.

Ep.2 - Conquista
No dia 15 de novembro de 1531, 150 conquistadores espanhóis chegaram ao coração do Império Inca, no Peru, e derrotaram um exército de oitenta mil soldados, promovendo um massacre que se estenderia por toda a América. Para Diamond, o segredo estaria nos poderosos cavalos dos espanhóis, nas afiadas armas de aço e também nos germes que as tropas trouxeram da Europa, espalhando uma epidemia de varíola entre os Incas.

Ep.3 - Entre os Trópicos
A teoria do escritor Jared Diamond, autor do consagrado "Armas, Germes e Aço", para responder à pergunta "Por que algumas sociedades florescem mais do que as outras?" mostrava como a geografia favoreceu os europeus para que eles conquistassem boa parte do planeta. Mas o que teria acontecido com eles assim que sua sede de conquista recaiu sobre a África, o berço da humanidade? Será que as armas, germes e aço de outrora teriam efeito no meio do implacável e imprevisível clima tropical? Suas teorias poderiam explicar, enfim, como um continente tão rico em recursos naturais se transformou no mais pobre do planeta? No fim de sua jornada, Jared Diamond contesta suas próprias teorias ao se deparar com um cenário que nunca tinha sequer imaginado.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Uma questão de limites

Refeito recentemente, mapa das capitanias hereditárias ganha nova cara, 150 anos depois da publicação de sua versão mais conhecida
     Mapa redesenhado pelo engenheiro Jorge Cintra mostra que as capitanias do norte da colônia eram divididas de forma vertical e não horizontal, como se pensava.
Por questões políticas, o rei Dom João III autorizou a colonização do Brasil 30 anos após a chegada de Pedro Álvares Cabral a este lado do Atlântico. Em 1533, a Coroa decidiu repartir as terras do além-mar entre 15 capitães donatários, gente que não tinha grande fortuna ou negócios na metrópole, mas que teria condições de administrar a nova colônia. Assim nasceram as capitanias hereditárias que, durante mais de cem anos, pareciam ser (geograficamente) “uma série de linhas paralelas ao equador que iam do litoral ao meridiano de Tordesilhas”, conforme explicou o historiador Boris Fausto em História do Brasil (1996). Um estudo publicado recentemente nos Anais do Museu Paulista, no entanto, contesta a versão clássica do mapa das capitanias presente até hoje em livros didáticos, e mostra que a divisão de terras do norte do país, na verdade, seguia linhas verticais e não horizontais.
     O engenheiro Jorge Cintra, professor titular de Informações Espaciais na Escola Politécnica da USP, é o autor da pesquisa que pode mudar a maneira como se visualiza a configuração do Brasil nos primeiros 50 anos de colonização. “Eu comecei a fazer um estudo sobre os limites da região Sul e encontrei alguns erros. Decidi conferir tudo e vi que o maior quebra-cabeça estava no norte”, conta.
     Ao ter acesso a cópias de documentos originais, como a carta de doação a João de Barros (da capitania do Rio Grande), Cintra pôde perceber que se as linhas dos segmentos do norte seguissem para oeste, o rei estaria repassando pedaços de mar a alguns donatários. E, além disso, se mantivessem o ritmo, em paralelo, jamais se cruzariam, conforme sugere a seguinte declaração do rei de Portugal: “Léguas se estenderão e serão de largo ao longo da costa e entrarão na mesma largura pelo sertão e terra firme adentro tanto quanto puder entrar e for de minha conquista, que não sejam por mim providas a outro capitão".
     Temístocles Cézar, professor do Departamento de História da UFRGS, diz que o estudo de Cintra é “mais do que uma nova cartografia”, é uma “forma de entender o que já existe através de um exercício de desconstrução original, erudito e consistente, sem fechar a questão, mas colocando-a em um patamar mais sofisticado de argumentação”. Um tipo de estudo que não é muito realizado no Brasil.
     O mapa com que Cintra dialoga – usado nos livros didáticos – foi feito no século XIX pelo historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), responsável em grande parte pela construção de uma visão de Brasil que prevalece até hoje. Para desenhar aquele mapa Varnhagen teria recorrido a uma cartografia de Luis Teixeira, de 1586, quando a configuração do que viria a ser o território brasileiro já era diferente. Especialista nas publicações deste grande pioneiro da historiografia brasileira, Cézar comenta que, “no caso de Varnhagen, em que pesem o número de críticas que recebe desde a publicação da História geral do Brazil  [1854-1857] e sua peculiar tendência para a polêmica, ele pouco foi contestado em relação ao material iconográfico e cartográfico de suas produções”.
     Cético em relação ao alcance que este estudo pode ter, o historiador Guilherme Pereira das Neves, da UFF, opina que talvez o redesenho leve muito tempo para ser conhecido pelo grande público. “O resultado do mapa é importantíssimo, mas acho que difícil que deem importância a isso. É um tipo de resultado que se tem na história que não representa uma nova teoria. É uma correção de rumo”. Para ele, existe “um problema específico de como o Brasil lida com sua história”. Exemplo disto seria “a pouca importância que
se dá a essa história. Há exemplos de best-sellers que romanceiam personagens e eventos [do nosso passado], mas que repetem os grandes jargões. Não existe preocupação em provocar o leitor a pensar uma coisa diferente. Portanto, a história não tem função crítica no Brasil, é uma memória identitária”.
     Para além deste problema estrutural da relação do país com seu passado, se existe uma esperança de que a releitura chegue ao grande público, ela vai demorar ao menos três anos para se materializar, já que a seleção do MEC de material didático para a rede pública de ensino (refeita neste intervalo de tempo) acabou de ser concluída. Por enquanto, não há indícios de que editoras deste tipo de livro publicarão o estudo em suas páginas.

Guerra e Paz

Programa Especial da RBS do Rio Grande do Sul sobre a Segunda Guerra Mundial: histórias de vida de quem esteve no front, de quem ficou, a expectativa de que o conflito se alastrasse para o resto do mundo, o medo e o drama de quem viveu esse período da História. No Rio Grande do Sul eram planejados abrigos antiaéreos, haviam ensaios de blackout e treinamento militar para caso o conflito se estendesse ao sul da América Latina.
Direção: Cláudia Dreyer
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 70 minutos cada episódio
https://mega.co.nz/#!ORMgTKpD!m8MW-G7H3x1Bd4HzW9S9dtDW_JExSsCK0vBL5M4ANuMTamanho: 258 MB

  
Episódio 01 - O Falsário de Hitler A história do judeu Salomon “Sally” Smollanoff, artista plástico e falsificador, que foi preso num campo de concentração e obrigado a falsificar as matrizes de libra e dólar para que Hitler financiasse o seu projeto de dominação do mundo. Sally, depois de viver no Uruguai, terminou seus dias, anonimamente, na Avenida João Pessoa em Porto Alegre (RS). 
Episódio 02 – Ensaios de Guerra:  Enquanto a Europeu vivia os terrores da II Guerra Mundial, o Brasil enviava seus pracinhas para lutar ao lado das forças Aliadas e vivia um período de tensão. Como viveram 12 dos soldados que se preparam para defender as costas gaúchas dos ataques nazistas. Eles são os remanescentes de um grupo de 800 soldados que receberam treinamento em São José do Norte (RS). 
Episódio 03 – Aos Olhos de Santa Bárbara: Às nove horas da manhã de 22 de julho 1943, um estrondo marcou a história de uma cidade no alto da serra rio-grandense. Seis moças, entre 16 e 20 anos de idade, morriam vítimas de uma explosão na linha de montagem de bombas e granadas em uma tradicional indústria metalúrgica. O palco da II Guerra Mundial, a milhares de quilômetros de distância, do outro lado do mar, pairava sinistro no céu de Caxias do Sul. Naquele 22 de julho, os sinos de todas as torres da cidade tocavam tristemente. 
Episódio 04 – O Soldado Kleine:  Em 1935, Theodor foi para a Alemanha estudar. Lá conheceu Mari Agnes cuja família também tinha regressado para a Alemanha e se casaram. Em 1942, ele se naturalizou alemão e duas semanas depois o chamaram para o exército. Ele trabalhou numa instituição para a manutenção da cultura alemã no Exterior. Quando um chefe da SS encampou esta instituição Theodor foi obrigado a ir como “voluntário” para o front. O drama desse brasileiro obrigado a lutar nos exércitos alemães e a grande paixão de sua mulher tornam esse programa comovente.
Episódio 05 – Prisioneiros Durante a II Guerra cresceu a desconfiança, o medo e a perseguição para quem não falasse português. Italianos, alemães, japoneses, muitos imigrantes foram perseguidos, espancados e, segundo alguns historiadores e testemunhas, colocados em campos de concentração, aqui chamados de “campos de confinamento”. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Tragédia oculta

Política contra a seca no Ceará confinava flagelados famintos em campos de concentração para impedir que invadissem as cidades e as enfeassem com suas súplicas e penúria.
Frederico de Castro Neves
     Sempre que pronunciamos as palavras "campos de concentração" surgem imediatamente as imagens dos horrores nazistas. No entanto, a expressão "campos de concentração" é anterior à Segunda Guerra Mundial e pode ser utilizada para designar experiências dife­rentes, sem genocídio programado. Foi este o caso das políticas de controle estatal sobre a população de retirantes das secas no Ceará na primeira metade do século XX, tema que, com algumas exceções, esteve ausente por muito tempo dos trabalhos dos historia­dores e cronistas. As "obras contra as secas" apare­ciam como uma extensão do progresso, e com isso as formas de assistência aos miseráveis eram tomadas como necessárias e inevitáveis, não importando quais mecanismos tenham sido usados para impedir as migrações e promover o trabalho árduo e mal re­munerado. O objetivo destes campos cearenses, os chamados "currais do governo", era combater as in­vasões de retirantes nas cidades mais abastadas.
     Em Fortaleza, a primeira destas invasões ocorreu em 1877, quando cerca de 120 mil camponeses arruinados ocuparam as principais praças e ruas de uma ci­dade que se procurava "aformosear" com a implanta­ção de jardins, cafés e edifícios de padrões europeus, e portanto exigia do governo provincial uma resposta rápida e segura, sobretudo para preservar o quadrilá­tero central de Fortaleza, onde os principais prédios públicos estavam sendo construídos e as famílias mais abastadas possuíam seus casarões. Os acampamentos - ou "abarracamentos" - dos retirantes passaram a ser o objeto da preocupação dos governantes, médicos e policiais, que viam nessa aglomeração de famintos e doentes uma fonte de epidemias, criminalidade e prostituição. De fato, a varíola chegou a infectar cerca de 80 mil pessoas, deixando o sistema de transporte e sepultamento dos cadáveres em colapso. Os poucos coveiros, às vezes recrutados entre os próprios retiran­tes, nem sempre conseguiam dar conta da quantidade de mortos a serem enterrados, deixando corpos empi­lhados para o dia seguinte. Não é à toa que o historiador Raimundo Girão afirmou que Fortaleza, naqueles anos, se transformou na "metrópole da fome, a capital de um pavoroso reino". O governo provincial, nestas graves circunstâncias, tentou disciplinar os abarracamentos, dividindo a cidade em distritos administra­dos por comissários, os quais tinham a função de organizar a distribuição de comida, o alistamento de trabalhado­res para as várias obras públicas iniciadas no período e garantir a ordem in­terna, impedindo a circulação dos re­tirantes pela cidade e combatendo a criminalidade e a prostituição.
     A repetição das invasões em menor escala em 1888-1889 e 1899-1900 dei­xava claro para as autoridades que al­go mais definitivo deveria ser feito pa­ra poupar a população urbana das in­vestidas dos miseráveis, que pediam esmolas, furta­vam as casas, saqueavam os armazéns e prostituíam suas mulheres e filhas. Consolidava-se entre as elites cearenses uma concepção segregacionista da assistên­cia aos pobres em momentos de seca, que levaria à criação do Campo de Concentração do Alagadiço, em 1915. Naquele ano, os agricultores arruinados come­çaram a chegar em Fortaleza, anunciando mais uma seca. O clima político era tenso: três anos antes o go­verno provincial havia sido deposto por uma revolta popular, e após a sedição de Juazeiro em 1914 "cabras" armados saqueavam as cidades em nome do Padre Cícero e de Floro Bartolomeu. Pesando todos estes fatores, o governo decidiu adotar uma solução radical para os retirantes. Na estação de Otávio Bonfim, na peri­feria da cidade, eles eram desembarca­dos e conduzidos diretamente para um terreno previamente preparado, cerca­do, iluminado e vigiado por homens armados, de onde não poderiam mais sair. O coronel Benjamin Barroso, pre­sidente do estado na época, chamou este espaço de "campo de concentração", mas o povo continuou a chamar de "curral", em referência aos currais abandonados durante as secas, que eram ocupados pelos re­tirantes em sua trajetória em direção às cidades.
     Ao contrário dos "abarracamentos" das secas ante­riores, que eram tentativas de controle sobre os acam­pamentos espontâneos dos retirantes, o campo foi pla­nejado com o objetivo de conter o aumento descon­trolado da criminalidade e da prostituição. A distri­buição de alimentos, roupas ou remédios era realizada em seu interior, atraindo mais e mais retirantes, que não paravam de chegar. Mas, apesar da obrigatorieda­de e do confinamento, o governo não oferecia uma si­tuação de conforto sanitário, nem permitia que as fa­mílias se acomodassem em espaço suficiente. O "cam­po" apenas impedia o contato dos retirantes famintos com a população da cidade, concentrando em um pe­queno cercado todos os recursos disponíveis para a as­sistência. Em pouco tempo, mais de 8 mil pessoas se aglomeravam em casebres de taipa e cobertura de pa­lha, sem as mínimas condições de higiene, configuran­do um ambiente extremamente favorável às doenças e aos conflitos. De fato, os poucos registros deixam uma impressão de horror e morte, com corpos empilhados ao lado do campo, esperando transporte para o cemi­tério, onde seriam atirados em valas comuns.
     Para os retirantes, o "campo" era o último recurso, cheio de sofrimento e dor, que sua condição de sem-terra tornava inevitável. Mas nestes anos eles apren­deram a se organizar em multidões aparentemente disformes e sem controle, que levavam o medo às au­toridades e aos comerciantes de alimentos. O simples ajuntamento de retirantes já era suficiente para ater­rorizar as populações das cidades mais próximas às áreas secas. Em 1932, quando os saques a mercados no interior começaram a acontecer já no início do ano, os governantes sabiam que algo mais grave pode­ria acontecer, caso os conflitos se generalizassem por todo o Ceará. Porém, o clima político nacional era muito instável, com as forças militares de São Paulo levantando-se em armas contra o governo provisório de Getúlio Vargas. O governo não poderia permitir mais uma fonte de conflito no norte do país. Um am­plo programa de "socorros públicos" foi então organizado, tendo como base a construção de vários "cam­pos de concentração" espalhados por todo o território afetado pela seca. Desta vez, os retirantes deveriam ser enviados a campos de trabalho, com o propósito de ocupar a mente instável e arredia daqueles homens pobres, que, pressionados pela fome, não hesitavam em atacar os armazéns.
     Como se vê, o alto índice de mortalidade entre os "concentrados" de Fortaleza em 1915 não foi considerado um obstáculo para o planejamento das ações governamentais; pelo contrário, a ideia de concentrar e isolar os retirantes foi aperfeiçoada e ampliada. Em 1932, foram criados sete campos de concentração em locais estrategicamente escolhidos, para que a rota de migração dos camponeses em direção a Fortaleza fosse interrompida, reduzindo o número de retirantes que chegavam à capital. Contudo, os campos de concentração não procuravam interferir apenas na mobilidade dos homens pobres do mundo rural. No interior de cada cam­po, uma série de medidas visava a com­bater costumes arraigados e inserir no­vos comportamentos, tanto no que diz respeito ao trabalho quanto ao trato com o próprio corpo. O trabalho era organizado por engenheiros e chefes da Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas (IFOCS) e obedecia a um padrão coletivo, em que a divisão de tarefas era fundamental. Os camponeses eram divididos em grupos e executa­vam serviços simples e repetitivos, sob o controle e a vi­gilância de um "feitor" e de um "apontador". Ao menor sinal de atraso, desleixo ou rebeldia, o trabalhador era cortado da lista de pagamento e não recebia sua ração diária de alimentos. Na construção dos açudes, as tur­mas de retirantes removiam manualmente pedras e areia das áreas a serem alagadas, sob os olhares sempre severos dos chefes, sem domínio sobre o significado daquilo que estavam construindo.
     Quanto ao trato com o corpo, no momento em que os retirantes entra­vam no campo eram obrigados a cor­tar o cabelo, fazer a barba e tomar banho, sendo observados por médicos e enfermeiros que administravam remé­dios e ditavam normas de comporta­mento coletivo a serem rigorosamente seguidas, sob pena de exclusão imedia­ta e perda do acesso às rações. A vaci­nação também era obrigatória, e os exames frequentes procuravam evitar a proliferação de doenças graves, mas eram vistos pelos retirantes como uma invasão da intimidade e muitas vezes as crianças eram escondidas, mesmo estando doentes, para não serem examinadas. Alguns campos, como o do Ipu, tinham postos médicos, que procuravam zelar pelo controle das epidemias, embora muitos enfermeiros tenham si­do acusados de abusos e desrespeito. Os testes laboratoriais com os mortos, por outro lado, eram vistos co­mo profanação dos cadáveres e, mais uma vez, o direi­to à assistência em tempos de seca foi sentido pelos agricultores como sofrimento e humilhação.
     Apesar da mortalidade intensa e das medidas de disciplinamento, controle e vigilância, as diferenças entre os campos brasileiros de refugiados das secas e os campos de extermínio de judeus e outros dissidentes são claras. Burity não era Auschwitz. Os reti­rantes não eram conduzidos deliberadamente para a morte, embora as condições em que eram levados a viver debilitassem seriamente sua saúde. A concepção que criou os campos no Ceará era, definiti­vamente, de assistência social e de "socorros públicos". É preciso, contudo, que nossa avaliação, dis­tante no tempo e no espaço, não se deixe levar pelas aparências e consiga situar o uso das expressões e as formas de lidar com os pobres a partir das pressões e tradições vigentes em cada momento.
     No total, segundo os dados do Ministério da Via­ção e Obras, cerca de 90 mil retirantes estiveram concentrados ao mesmo tempo nos "campos de concen­tração" do governo, em 1932. O campo do Burity, na cidade do Crato, chegou a abrigar quase 60 mil pes­soas - mais da metade da população de Fortaleza à época, que era de 100 mil pessoas. As dimensões des­sa experiência social de isolamento e concentração dos retirantes em tempos de seca ilustram o investimento feito pelo governo e as opiniões expressas nos jornais da época demonstram que os setores mais abastados de Fortaleza apoiaram e legitimaram a formação dos campos, saudando seus resultados.
     O relacionamento destas camadas com os retiran­tes no Ceará passou por diversas modificações ao longo do período tratado aqui. A caridade e o conforto pessoal, mecanismos de proteção à pobreza mais co­muns no universo das relações paternalistas rurais, pa­recem perder validade diante da formação da socieda­de aburguesada e individualista das cidades, onde os pobres só encontram lugar nas instituições impessoais de assistência social. Todavia, essa passagem nunca se processou completamente, e o clientelismo, os alista­mentos, a violência pessoal e o apadrinhamento con­vivem com projetos e programas sociais, estatais e pri­vados, que buscam amenizar a miséria dos retirantes. Os "campos de concentração" expressam essa contra­dição, em que valores de dois mundos se combinam na formação de uma imagem dos pobres ora como vi­gorosos trabalhadores que tudo perderam com a seca, ora como preguiçosos que preferem as esmolas do go­verno ao trabalho pesado nas frentes de serviço.

Frederico de Castro Neves é professordo Departamento de História da Universidade Federal do Ceará e autor de A Multidão e a História: saques e outras ações de massas no Ceará. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.

Fonte: Revista Nossa História - Ano I - nº 2 - Dez. 2003 

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Munduruku lutam pelo território

“Esse é um projeto (a construção da hidrelétrica no rio Tapajós) que traz morte. Acaba com a vida, a cultura, expulsa e tira dignidade do povo Munduruku. Dizima crenças, a cultura e a identidade desse povo”.
     Indígenas do povo Munduruku ocuparam na última sexta-feira, dia 28 de novembro, a sede da Funai na cidade de Itaituba, no sudoeste do Pará. Alguns veículos de comunicação estão noticiando o fato, mas a maioria deles não contextualiza a situação, de modo a facilitar uma interpretação agressiva da atitude dos índios. O que não se explica, no entanto, é a violência que os Munduruku estão vivenciando diariamente, sob pressão do governo brasileiro, em aliança com interesses privados. O objetivo da pressão é a construção da hidrelétrica no rio Tapajós, como parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
     O que os povos Munduruku querem é a publicação do Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da Terra Indígena Sawré Muybu Dajê Kapap Eypi, como garantia de permanência do povo no local que ocupam há centenas de anos. O relatório já está pronto. Basta que a Funai o publique e o que emperra o processo são os interesses envolvidos na região. Como o órgão não avança, os indígenas iniciaram um processo de estudo e demarcação próprios, com apoio de entidades da sociedade civil. (Leia carta de autodemarcação dos Munduruku)
     Mas a queda de braço ainda está longe de terminar. A resposta da sociedade civil à tentativa de imposição da hidrelétrica tem sido forte. Segundo previsões da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a megausina São Luís do Tapajós, no Pará, deveria entrar em operação em 2016. Os conflitos socioambientais (que não se limitam à questão com os índios, mas incluem a redução de áreas de floresta amazônica) já empurraram a previsão para 2020.
     Mas a briga continua, como mostra o documentário abaixo, lançado em novembro. A documentarista Nayana Fernandez, brasileira de 33 anos, percorreu aldeias da tribo indígena ao longo do rio Cururu, afluente do Tapajós, para registrar a luta dos munduruku contra o complexo hidrelétrico. O projeto prevê a construção de mais de 20 barragens na bacia do Tapajós, com recursos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento). O resultado das filmagens é o documentário “Índios Munduruku: Tecendo a Resistência”, lançado simultaneamente no Brasil e na Inglaterra. A produção independente contou com o apoio de organizações britânicas e de lideranças da etnia mundurucu.
     Ana Laide Barbosa, do Projeto Xingu Vivo para Sempre afirma no vídeo: “Esse é um projeto que traz morte. Acaba com a vida, a cultura, expulsa e tira dignidade do povo Munduruku. Dizima crenças, a cultura e a identidade desse povo”.   
     O link do documentário está abaixo, na íntegra. Para mais informações sobre a luta do povo Munduruku, acesse o site sobre a autodemarcação no Tapajós.
Reino Unido/Brasil, 25min
Dir.: Nayana Fernandez