"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pisando no "sexo frágil"

Ainda na passagem para o século XX, as mulheres eram alvo de descrédito em suas lutas pela emancipação. Depois de tanto lutar, elas hoje ocupam 41 % do mercado de trabalho.
Rachel Soihet
      Nas últimas décadas do século XIX, a Revista Ilustrada, comandada por Ângelo Agostini, era uma das publica­ções mais importantes do país. Com grande aceitação popular, publicava artigos bem-humorados e irônicos que defendiam posições po­líticas avançadas para a época, contra a escravidão e o conservadorismo do governo imperial. Mas, co­mo se pode ler num de seus editoriais, intitulado "Com as damas", de 1886, a situação da mulher e sua reivindicação por maior participação na socie­dade não eram vistas com bons olhos, merecendo até mesmo tratamento caricato:
     "Não será da nossa parte que as legítimas aspira­ções do sexo gentil, da mais simpática e apreciável metade do gênero, encontrarão qualquer embaraço, por mais insignificante que seja, à sua justa expansão. Confiamos muito no bom senso e na inteligência ser­vida pela educação para recear que as mães, as irmãs e as esposas, abandonando a serenidade dos lares, se atirem à política e aos meetings, obrigando-nos a velar pela cozinha e pelos recém-nascidos. Não! A mu­lher manter-se-á na órbita que lhe convém e, se algu­ma exceção houver, estamos certos que esse papel fi­cara reservado às sogras."
     A emancipação feminina era vista pelos mais di­versos setores sociais e tendências políticas co­mo grave ameaça à or­dem estabelecida, e o predomínio masculino encontrava legitimidade até no pensamento cien­tífico da época. A filosofia considerava que a infe­rioridade da razão entre as mulheres era fato incontestável, cabendo a elas apenas cultivá-la na medida necessária ao cumprimento de seus deve­res naturais: obedecer ao marido e cuidar dos fi­lhos. A medicina do século XIX afirmava que a fra­gilidade, o recato e o predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais eram características biologicamente femininas, assim como a subordi­nação da sexualidade ao instinto maternal. Em oposição, o homem somaria à sua força física uma natureza autoritária, empreendedora, racional, e uma sexualidade sem freios.
     O recurso da ironia e da comédia foi um pode­roso instrumento para desmoralizar a luta pela emancipação feminina e reforçar o mito da inferioridade e passividade da mulher.
Numa crônica maliciosamente intitulada "Emancipada" (revista Careta, Rio de Janeiro, 20/2/1909), depois de ressaltar de forma grotes­ca a inversão dos papéis naturais de cada sexo, faz-se quase um alerta lançando mão de um desfecho trá­gico: os homens teriam de "velar pe­la cozinha e pelos recém-nascidos". Madame Linhares, após um longo dia no escritório, encontra a casa em polvorosa: "Os meninos ainda não haviam jantado (...) por­que o Cazuza Linhares não havia acertado com o meio de fazer a sopa e o assado." O Cazuza, que fi­cara em casa tomando conta dos filhos, presta con­tas à esposa de suas dificuldades, informando que já vinha há três horas tentando sem sucesso prepa­rar o jantar. O diálogo que se segue acentua a sub­serviência do marido e o autoritarismo da mulher. Era a inversão do quadro habitual, o horror que ameaçava as famílias de bem:
-   Tambêm você para nada presta.
-   Mas, Milu, se eu nunca aprendi a fazer isso...
-   E o que foi que aprendeu, não me dirá? O se­nhor é um imprestável.
-   Mas Milu...
-   Cale-se homem, cale-se! (...) Irra! Molenga! Banana! Pastelão!
-   Eu só queria ver você na cozinha...
-   Sim? Queria? Pois esse gosto não há de ter, meu caro. Então eu, uma mulher superior, vou lá me ocupar com esses cuidados domésticos...
-   E as crianças?
-   Pois aí não tem queijo? Não tem pão? Vá ferver água para o chá.
-   Chá, pão e queijo? Mas isso é lá um jantar?
-   E basta. Também você só cuida da barriga (...). E passará a dormir na sala de visitas durante três meses. É para ensiná-lo a respeitar uma mulher emancipada.
     Apesar do tom de galhofa, essa abordagem não estava tão distante da adotada por criminalistas e médicos da época, que alertavam para o perigo re­presentado pelas mulheres intelectualizadas. No Rio de Janeiro, vários médicos concordavam com essas afirmações. Comentando os motivos que levariam a mulher a cometer o terrível crime do infanticídio, o Dr. Augusto Militão Pacheco aponta as "mulheres originais", distintas das demais "pela extrema devassidão (...) pelo gosto infrene de pintar, escrever, viajar etc." Interessante notar que são en­quadradas, em primeiro lugar, a mu­lher infiel e, em segundo, a emanci­pada. Para grande parte dos estudio­sos em comportamento da virada do século XIX para o XX, a intelectual emancipada era mau exemplo para as outras mulheres, pois faria com que acreditassem que poderiam so­breviver sem o auxílio do marido. Ao se recusarem a restringir seu univer­so à maternidade e ao lar, desprezando suas funções naturais, essas mulheres de comportamento dife­renciado seriam a fonte de todos os flagelos sociais.
     Nenhum meio foi desprezado na difusão do princípio de que os cui­dados com os filhos exigiam que a esfe­ra feminina fosse aquela da casa, nessa campanha desenvolvida, a fim de salvaguardar os privilégios masculinos, incluin­do a música carnavalesca. Deixava-se claro que, além dos males acarretados aos filhos, a competi­ção, que se desenvolveria entre homens e mulheres, prejudicaria o relacionamento conjugal, levando à ruína a instituição do matrimônio. As ideias con­trárias ao feminismo circulavam também nas cama­das populares, e o papel de provedor, destinado aos homens na organização patriarcal, constituía-se em ideal que não escapava a todas as camadas, embora dificilmente se concretizasse.
     A charge foi um recurso muito utilizado para ri­dicularizar o movimento de emancipação feminina. O caricaturista Raul Pederneiras, que teve grande atuação na imprensa do Rio de Janeiro, foi um crí­tico implacável das mulheres que pretendiam am­pliar seu espaço de atuação na sociedade. Entre as cenas que privilegiava, buscava realçar a incompati­bilidade entre o exercício de atividades extradomésticas (o trabalho em especial) e as funções de mãe.
     Numa caricatura intitulada A mulher polícia, observa-se uma mulher gorda, pesadona, de rosto carrancudo, vestida com uniforme policial, en­quanto amamenta uma criança de colo. O conjun­to pretende denunciar o caráter grotesco da situa­ção, já que a figura está longe de representar a idea­lização difundida da fragilidade e docilidade das mães. A policial é instada por um homem a tomar uma medida, o que é mostrado, não apenas pela postura dele na figura, como na frase: "Acuda!... es­tão apitando lá fora!" Ao que ela responde: "Não vê que estou presa?" O autor, assim, procura desmora­lizar as pretensões das mulheres de acumular duas funções, de mãe e de profissional, demonstrando sua impossibilidade e o perigo que representa para a sociedade confiar nelas.
     O grande J. Carlos, por sua vez, costumava retratar em suas charges personagens femininas dos segmen­tos superiores - mulheres sedutoras, extremamente sofisticadas e ocupadas com a aparência. Mas a preo­cupação com o avanço do feminismo está demons­trada em pelo menos dois de seus trabalhos. Num de­les (na página 16), denominado Emancipação (revista Para Todos, 1926), um pai aparece sentado, totalmen­te rendido ao cansaço, segurando um bebé ao colo com a infalível mamadeira. Em torno dele, brinque­dos espalhados e três crianças entregues às mais di­versas travessuras. Elegante, a mãe chega então com um chapéu masculino na cabeça, indiferente à confu­são. A segunda caricatura (na mesma página 16), Mater Dolorosa (revista Fon-Fon, 1935), mostra tam­bém um homem abatido ao lado do bebé, cercado de grande quantidade de brinquedos espalhados.
     Raul Pederneiras, porém, aponta a solução para esses problemas. Em seu álbum Cenas da vida ca­rioca, de 1926, há um painel de quatro caricaturas representando um dia na rotina de uma mulher. Um deles, intitulado Dia útil, mostra justamente uma mulher com o filho ao colo, mexendo uma panela no fogão - a imagem perfeita para a boa or­dem da sociedade, segundo o ideal masculino. Havia, portanto, que alertar para os perigos da par­ticipação feminina em esferas consideradas do do­mínio dos homens, expondo-os a situações incom­patíveis com sua natureza.
     Mas não apenas a questão da profissionalização feminina mereceu severas críticas. As demais reivindicações do género, com vistas ao exercício da ple­na cidadania, particularmente a luta pelo voto, eram objeto de chacotas, com o propósito de ri­dicularizá-las. Um exemplo é a crónica "Mais uma reivindicação femi­nina" (revista Fon-Fon, 4/1/1908): "Já não são so­mente nas profissões, já não se limitam aos direi­tos civis e políticos; não param também nos vestuários as reivindicações das nossas ar­dentes feminis­tas. Há uma tendência pronunciada para usar coisas até agora permitidas ao sexo feio. É assim que bre­vemente aparecerá uma obra da ilustrada senhora X... reivindicando o direito de senhoras usarem barbas também."
     Por trás dessa piada sobre a pretensão feminina de usar barba parece estar a intenção de sugerir que a feminista é uma mulher ansiosa para não só assu­mir papéis considerados privativos dos homens, mas também seus atributos físicos. Para terminar, o autor destaca mais uma das alegadas fraquezas da mulher: "(a barba) servirá (...) para demonstrar a falsidade da alegação de que toda mulher é tagarela, pois necessariamente terão de ficar caladas, ao me­nos enquanto fizerem a barba".
     Alguns autores tentaram manifestar sua oposição às mudanças pretendidas pelas feministas apelando para um tom cavalheiresco, beirando a pieguice: "Não concebo a mulher fora do seu ciclo, apostro­fando os deuses ou discutindo a origem das espécies. Ela foi feita para domar o homem. Que será da hu­manidade no dia em que ela, rasgando o peignoir de rendas (...) sair para a rua, não mais com a leve som­brinha de seda, mas com o humilhante cacete do ca­panga eleitoral? Desaparecerá o encanto dos salões, a alma da paisagem, o amor do lar..." Repetem-se ve­lhos estereótipos sobre a importância de os diferen­tes atributos dos homens e mulheres serem respeitados - um conceito presente na religião, aprimorado pelos filósofos iluministas e adotado pela ciência da época. No fim, a crónica adota um tom vulgar: "Só (...) as muito feias hão de querer se emancipar... coi­tadas! As bonitas não (...). Que nos importa as feias! Salvem-se as belas, que a humanidade se aperfeiçoa­rá." ("Páginas da Cidade" Careta, 11/1/1919).
     A necessidade de a mulher ser bela é sempre res­saltada. Algumas crónicas propõem estratégias para a superação desse obstáculo, a fim de garantir às feias a possibilidade do casamento, única aspiração feminina considerada legítima pela mentalidade machista da época. Em certo artigo, a atuação das militantes brasileiras é atribuída à ociosidade: "Se não tiverem com o que se distrair em casa, vão para as fábricas, namorem ou façam-se telefonistas." Para finalizar, a suprema ameaça: "Se persistirem nessas bobagens... ficarão todas solteironas, o que é o dia­bo!" (Careta, 2/2/1918).
     Outro cronista propõe com sarcasmo que sejam realizados "leilões matrimoniais", recurso útil para que as moças feias tivessem mais chance de conse­guir o casamento: "Talvez fosse esse o único, excelente, maravilhoso meio de acabar duma vez com as sufragis­tas, as literatas, as neurastênicas, as cochichadeiras e as beatas, horríveis espécies femininas nascidas da classe imensa, descontente, vingativa e au­daz das vieilles filies" ("O leilão das moças", Fon-Fon, 5/1/1918). A curio­sa conclusão é que a mulher não agraciada com a beleza, vendo-se re­legada à humilhante situação de sol­teirona, a vieille filie, buscaria vin­gança questionando sua condição e aderindo aos movimentos de emancipação.
     Em outra caricatura de Raul Pederneiras, intitu­lada Miss Alma, tipo feminista, vê-se uma mulher magra e feia usando cha­péu e sapatos masculinos e portando um livro - estereótipo da intelectual solteirona. E outra mulher mais gorda, de ar arrogante, apresenta as mesmas características: feiúra, masculinização e o inevitável livro. Não é de admirar que esse tipo seja classifica­do na seção "Sapatos".
     Apesar desse bombardeio, mais e mais mulheres reagiam no sentido de alterar sua posição relativa às esferas pública e privada. Não poucas assumiam abertamente a campanha pela obtenção de seus di­reitos. Organizaram-se em associações; faziam pro­nunciamentos públicos, utilizando-se fartamente da imprensa; buscavam apoio de lideranças nos diversos campos, constituindo grupos de pressão para garantir apoio de parlamentares e de outras autoridades, da imprensa, da opinião pública etc. Mas, apesar disso, em sua maioria, procuravam revestir seu discurso com um tom moderado. Não apenas porque consideravam que esta seria a forma adequada de expressão feminina, mas, igualmente, por estratégia política.
     Curiosamente, uma revista mensal dirigida por uma mulher que contava com a colaboração de figuras destacadas da época, como a poetisa Cecília Meireles e até militantes do movimento feminista, a Única, e que publicava artigos sobre literatura, arte, elegância e sociologia, noticiava a invasão das pistas de corrida de cavalo e dos quarteirões elegantes de Londres por "mulheres apaches" de porte másculo e bem vestidas, pertencentes a um grupo cujo nome bizarro seria Bando dos Quarenta Elefantes. "Tais criaturas dedicam-se ao roubo nos grandes estabeleci­mentos, à violação das fechadu­ras, à chantagem e até ao assalto a mão armada... resultado dos direi­tos equiparados da mulher" ("Feminismo e suas desvanta­gens", outubro de 1925).
     Essa maneira debochada de apresentar as mulhe­res empenhadas na luta por direitos questionava a seriedade de certas preocupações femininas. Em consequência, não foram poucas as mulheres que rejeitaram o feminismo e adotaram o discurso con­servador, sempre presente nos diversos meios de co­municação, que acusava o movimento de ser in­compatível com o ideal vigente de beleza, meiguice, paciência e resignação, e identificava as mulheres engajadas como viragos, pesadas como elefantes, perigosas e inclinadas a cometer atos criminosos.

Rachel Soihet é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e autora de Condição feminina e formas de violência. Mulheres pobres e ordem urbana (1890-1920). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

Saiba Mais: Bibliografia
ALVES, Branca Moreira. Ideologia e feminismo. A luta da mulher pelo voto no Brasil. Petrópolis: Ed.
Vozes, 1980.
HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino - a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850/1940, Editora Mulheres/Unisc, 2003. 

Saiba Mais – Link 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Uma pedagogia poética para as crianças

Entrevista ao INTITUTO ALANA, em que Severino Antônio é conselheiro do projeto PRIORIDADE ABSOLUTA, sobre defesa da criança e do jovem.
A conversa sobre a escuta da criança como sujeito de direitos, como autora de ideias, palavras e imagens, está interligada à obra UMA PEDAGOGIA POETICA PARA AS CRIANÇAS, de Severino e Katia Tavares, publicado em 2013, pela editora Adonis, que já se encontra em 3ª edição.
"Quando nós cuidamos da criança, escutamos a sua voz; quando nós reconhecemos sua interpretação criadora do mundo, nós aprendemos muito com ela. Nós aprendemos empatia! Empatia é fundamental como recusa das violências, das indiferenças, das brutalidades…" (Severino Antônio)


À venda no site:
http://www.editoraadonis.com.br/loja/produto/uma-pedagogia-poetica-para-as-criancas-237

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Brasil e sua fama

Lúcia Murat é cineasta, diretora de “Quase Dois Irmãos” e “Olhar Estrangeiro”, documentário que retrata as várias idealizações que o cinema mundial faz em torno do Brasil. Baseando-se no livro O Brasil dos gringos, imagens no cinema, de Tunico Amâncio, Lúcia entrevistou grandes diretores, roteiristas e produtores responsáveis por filmes como “Feitiço do Rio” – em que as praias cariocas são povoadas por macacos e moças de topless – e “Amazônia em chamas”, sobre a vida do seringueiro Chico Mendes, no qual todos os brasileiros falam inglês com sotaque espanholado. Ela contou para a Revista de História como as fantasias que existiam em torno do nome Brasil foram perpetuadas e acentuadas pela indústria cinematográfica. Principalmente no que diz respeito à sensualidade.

Revista de História - Você acha que esse paraíso perdido chamado Brasil é uma invenção do cinema mundial?
Lúcia Murat - Não. O que nós vemos é uma repetição da carta de Caminha, com imagens do paraíso, da mulher sensual, “com as vergonhas expostas”. E isso se desdobra de maneira diferente. Há desde filmes europeus, em que essas imagens são tratadas de forma mais carinhosa, até produções um tanto picaretas e agressivas, que acabam vendo o Brasil com um misto de desprezo e admiração. O clichê é o mesmo, mas as abordagens são diferentes. Em “Feitiço do Rio”, o roteirista Larry Gelbart coloca um monte de gente seminua numa praia, com macaquinhos nos ombros, e inventa o que ele chama de “casamento à brasileira”, que é uma mistura de candomblé com uma aparente suruba. Em suma, uma visão totalmente preconceituosa.

RH - Você pode citar outros exemplos?
LM - O filme “Orquídea Selvagem” mostra os negros pela ótica da sensualidade. Eu também gostaria muito de ter feito uma entrevista com o grupo inglês de comédia Monty Python, que fez um filme sobre vikings que viajam para um paraíso repleto de mulheres e frutas chamado Brasil. Esse eterno clichê não surge do nada. Ele é a exacerbação de um aspecto que às vezes é acentuado pelos próprios brasileiros, como no caso das mulatas que dançam no exterior.

RH - Como assim?
LM - É um processo infindável. Existe a expectativa de que o país seja uma terra de fantasias. Você chega lá fora, quer ganhar dinheiro e acaba por reforçar isso. Às vezes, nós gostamos de nos vender de acordo com o que o olhar estrangeiro quer ver.

RH - Esses clichês têm ficado mais exacerbados nos últimos tempos?
LM - Eu sinto isso, principalmente no quesito da sensualidade. Mas vale lembrar que eu trabalhei apenas com filmes de ficção. Se pegarmos os documentários que retratam o Brasil, vem à tona a ideia de violência. Mas essa visão não é suficiente para que se crie uma outra imagem de Brasil. Quando saí nas ruas da Europa para fazer entrevistas aleatórias, perguntando às pessoas o que elas sabiam sobre o país, a visão predominante foi a do paraíso perdido, do sexo, do país onde ninguém trabalha, onde a vida é uma festa. Isso porque a maioria dos filmes de ficção busca reforçar os clichês.

RH - Você acha que a indústria cinematográfica pretende criar outra terra encantada?
LM - Acho que ela não quer descartar esse paraíso chamado Brasil. É óbvio que, à medida que a globalização se acentua, fica cada vez mais difícil lidar com essas idealizações, pois as pessoas viajam mais e acabam conhecendo outros países. Quando o Brasil era um país totalmente desconhecido, acessível somente por navio, era mais fácil que se fantasiasse. Hoje, há cada vez mais pessoas que conhecem Rio e São Paulo. A impressão que me dá é que esse paraíso selvagem vai acabar sendo deslocado para a Amazônia.

Direção: Lúcia Murat
Ano: 2006
Áudio: Português
Duração: 69 minutos

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Para o Brasil, com amor (e fúria)

Animação nacional percorre seis séculos de História do Brasil sob uma ótica que não está nos livros didáticos.
     “Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.” Já dizia Pero Vaz de Caminha sobre os nativos de Vera Cruz. E em Uma História de Amor e Fúria, é assim mesmo que eles aparecem... Com tudo à mostra. A animação, que de infantil não tem nada e é mais voltada para o público adulto, narra a história de amor entre Janaína e Abeguar – um guerreiro tupinambá que sobrevive aos séculos ao assumir a forma de um pássaro. E põe séculos nisso: a narrativa dura seiscentos anos, atravessando um tanto de acontecimentos históricos. (...)
     “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro.” Com seus traços duros e uma linguagem tradicional das revistas de histórias em quadrinho, o filme tem como mote a internalização do passado, para que o presente não seja um completo desperdício. Abeguar (Selton Melo), além de protagonista, é quem conduz a narrativa. É sob sua ótica e perspectiva, que quatro fases da trajetória do Brasil são desenhadas diante de nossos olhos: a colonização, a escravidão, o regime militar e o futuro, em 2096. 
     No comecinho da colonização portuguesa, no século XVI, a região da Bertioga era considerada a transição entre o território tupinambá, que ia desde o cabo de São Tomé, no que hoje é o Rio de Janeiro, até o rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba e o território dos tupiniquins, que ia desde as cercanias de São Vicente, passando por Itanhaém e Peruíbe, até Cananeia. Sofrendo constantemente com os ataques dos tupinambás de Ubatuba, os portugueses do núcleo vicentino decidiram construir o forte de São José da Bertioga.
     É mais ou menos neste contexto que se dá o início do filme. Abeguar atinge sua “maioridade” ou, trocando em miúdos, acaba de virar “macho” – segundo a tradição tupinambá, o menino vira homem ao matar sua primeira onça – quando lhe é concedida a “singela” missão de salvar o mundo da fúria de Anhangá. Opositor direto de Munhã, espécie de guia espiritual indígena, Anhangá representa a invasão dos portugueses, o extermínio dos índios e todas as mazelas decorrentes disto, como a prevalência do mais forte sobre o mais fraco, do mais rico sobre o mais pobre, do poder sobre a justiça.
     A vitória dos portugueses na Bertioga representa, também, a primeira falha do guerreiro indígena, que vê sua amada Janaína (Camila Pitanga) morrer pouco tempo depois. Destinado a se transformar em pássaro sempre que vencido pelo “lado negro da força”, o espírito de Abeguar vaga até o ano de 1825 e só desperta ao se deparara com uma versão maranhense de Janaína.
     Durante o período regencial brasileiro, o Maranhão algodoeiro passava por uma grave crise econômica, devido à concorrência com os Estados Unidos. Aqui, o protagonista aparece na pele de Manuel dos Balaios, um vaqueiro benfeitor dos arredores de São Luís, que ajudava escravos fugidos das plantações e, posteriormente, vem a se tornar líder da rebelião que ficou conhecida como Balaiada. Os líderes balaios - na História e no filme - foram mortos em batalha ou capturados. Abeguar/Manuel, claro, vira pássaro e dá prosseguimento à sua jornada.
     Ele só reencontra Janaína – aquela que parece ser a única força motriz capaz de transformá-lo em homem novamente e no herói que a História precisa, como previu Munhã – no Rio de Janeiro de 1968, em plena Ditadura Militar. Abeguar é Cau, um jovem estudante que adentra no dito (e fictício) Movimento Revolucionário da Ação Democrática, uma fabriqueta de guerrilheiros esquentadinhos, para ficar mais próximo da garota que de nada se lembra sobre suas vidas passadas. O velho tupinambá vive em Cau até 1980, quando é baleado durante uma batida policial na favela em que mora com o amigo Feijão, antigo companheiro de cela na época do regime militar.
     “Meus heróis nunca viraram estátua. Morreram lutando contra os caras que viraram.” A frase, que parece tentar resumir, ainda que de forma simplista, a História do Brasil é uma crítica ao nosso passado e presente, mas também ao futuro. Futuro este que, na visão do roteirista e diretor Luiz Bolognesi, está perdido. Da década de 80, Abeguar alça voo para a futurística Cidade Maravilhosa de 2096. E a partir daí são apenas previsões em tom de alerta. A “cidade mais segura do mundo”, protegida por milicianos que têm até ações na bolsa de valores é também a cidade do sexo, a cidade onde a água custa mais caro do que uísque importado.
     Diz-se da História que ela é sempre contada a partir do ponto de vista dos vencedores, este filme é uma boa oportunidade para conhecer um pouco do amor e da fúria dos derrotados.

Uma História de Amor e Fúria
Direção: Luiz Bolognesi
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 74 minutos

Saiba Mais: Link
Guarani, a língua proibida. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Histórias do Brasil a Série

Cotidiano, família e cultura na formação do povo brasileiro.
     O Brasil não conhece o Brasil. E os brasileiros conhecem ainda menos os brasileiros. Por trás dos clichês para consumo interno e dos estereótipos tipo exportação, da caricatura da alegria tropical à autocrítica amarga, há a história de um povo feito de pessoas muito diferentes umas das outras.
     Histórias do Brasil é uma série de dez docudramas, contando a história do Brasil, desde antes do descobrimento até os dias atuais, sob o prisma da chamada "história das mentalidades". Ela mostra não apenas os fatos, mas também os comportamentos, hábitos e costumes do povo brasileiro através dos séculos, por meio de conteúdo documental costurado a narrativas dramáticas ambientadas em dez períodos da nossa história.
     Para cada fase, uma história de ficção envolve personagens comuns que ajudaram a formar o Brasil. As narrativas dramáticas são construídas a partir de uma rigorosa pesquisa, e reproduzem fielmente os hábitos, as tecnologias e as formas de interação humana de cada período.
     Esta história da vida privada, contada a partir de elementos dramáticos ficcionais, se entrelaça com a narrativa documental, pontuada por entrevistas com historiadores e iconografia histórica, para revelar a formação do Brasil pela ótica da construção de um povo a partir de pessoas de diversas origens: colonizadores, escravos, imigrantes e nativos brasileiros.

Episódio 01 – Antes do Brasil, Cabo Frio, 1530
Acreditando tratar-se de um francês, um grupo de índios captura o alemão Franz Hessen. E como os franceses são considerados inimigos da tribo, o alemão poderá ser devorado pelos índios. A única saída para Franz é convencer Pero Dias, um português ganancioso que vive entre os índios, a desfazer a confusão.

Episódio 02 – Escravos no Engenho, Bahia, 1574
O engenho de Fernão Barreto é movido por braços de negros da terra, como são chamados os índios. Mas as fugas constantes, as doenças e as revoltas das tribos das redondezas fazem Barreto repensar a mão-de-obra de sua propriedade.

Episódio 03 – Guerra pelo açúcar, Pernambuco, 1645
Portugueses e brasileiros lutam para livrar Pernambuco das mãos holandesas. Endividado e ameaçado de perder seu engenho, João Azevedo não vê alternativa a não ser fazer negócio com os inimigos. Mesmo correndo o risco de perder sua vida.

Episódio 04 –  Entradas e Bandeiras, São Vicente, 1690
O mameluco Jerônimo domina os segredos da mata. Como guia de uma expedição bandeirante, é ele quem aponta o caminho, decifra os rastros dos animais, encontra comida e água. Jerônimo terá que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida do jovem Pedro, seu patrão e meio-irmão.

Episódio 05 – Ouro e Cobiça, Ouro Preto, 1719
O artesão Manuel Correia confecciona imagens de santos. Com um detalhe: as imagens são ocas para esconder o ouro em pó contrabandeado por seu patrão Antônio Vidal. Apaixonado pela escrava Inácia, Manuel está prestes a cometer uma loucura por amor.

Episódio 06 – Leituras Perigosas, Rio de Janeiro, 1794
Membro de uma Sociedade Literária, o cirurgião Manuel Toledo está disposto a burlar o controle da Metrópole sobre a circulação de livros. Ele compra de um contrabandista uma edição das Fábulas de La Fontaine, que pretende fazer chegar ao maior número possível de leitores. Mas as autoridades estão na pista do contrabandista e podem descobrir os planos de Toledo.

Episódio 07 – O Sangrador e o Doutor, Rio de Janeiro, 1820
O ex-escravo Benedito é o maior sangrador e curandeiro da Cidade Nova. Aplica sanguessugas, arranca dentes e corta cabelo como ninguém. Graças a seu talento, consegue curar o rico advogado João Alencar. Mas nem seu talento o livrará de ter que explicar suas praticas religiosas suspeitas.

Episódio 08 – Vida e morte no Paraguai, Tuiuti, 1866
Toda história tem mais de uma versão. Três soldados conhecem três divertidas versões para o ferimento do amigo Alfredo, internado no hospital do acampamento. Mas os soldados vão descobrir que na guerra nada é divertido.

Episódio 09 – Propaganda e Repressão, Rio de Janeiro, 1942
O jovem jornalista Alves tem a oportunidade de conhecer o Estado Novo por dentro ao participar de uma reunião do Departamento de Imprensa e Propaganda. Inteligente, Alves causa boa impressão na reunião. Mas os ideais defendidos pelo DIP parecem não agradar o jovem.

Episódio 10 – O Sonho de Juscelino, Brasília, 1958
Brasília está quase pronta. Sebastião, mordomo do presidente Kubitscheck desde os tempos do Rio, passa o cargo para o jovem Nascimento. Apesar de compartilharem a admiração pelo presidente, os dois mordomos têm visões muito distintas sobre a nova capital.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Especial - Maçonaria

Herança medieval
Exposta ao mundo no início do século XVIII, a Maçonaria teria suas raízes na aproximação entre corporações de ofício e ordens como a dos templários.
Ziéde C. Moreira
     Alguns autores acreditam que as atividades maçônicas tenham existido nos tempos da Antiguidade, citando indícios no cenário cultural dos mundos egípcio, hebreu, grego e romano. Mas suas raízes estão situadas mais claramente na Europa da Idade Média.
     Nesse período surgiram as universidades, as companhias de comércio e as corporações de ofício, sociedades fechadas que reuniam trabalhadores especializados. Durante a Idade Média multiplicaram- se também as chamadas Ordens religiosas e as militares. Para completar o cenário, a Europa vivia inquieta pela expansão do islamismo. Para expulsar os muçulmanos da Terra Santa, os cristãos promoveram, a partir do século XI, as cruzadas.
     Antes de iniciar-se a segunda cruzada (1147-1149), alguns remanescentes da anterior, especialmente nove cavaleiros franceses, que elegeram Hugo de Paiens como seu primeiro grão-mestre, fundaram em 1118 a Ordem dos Cavaleiros do Templo de Jerusalém, também conhecida como "Ordem do Templo".
     Ao longo de duzentos anos, os templários desenvolveram atividades militares, culturais e econômicas que lhes renderam uma enorme fortuna - e despertaram atrozes inimizades. Em 1307, instigado pelo rei francês Felipe IV, o Belo, o Papa Clemente V declarou a ordem proscrita. Seu último grão-mestre, Jacques de Molay, foi queimado vivo em Paris em 1314, enquanto o rei Felipe apossava-se dos bens dos templários.
     Grande parte dos cavaleiros que escaparam da perseguição fugiu para a Escócia, onde ampliaram o ponderável apoio material e cultural (que, ali, já acontecia) à Corporação de Ofício integrada pelos
profissionais da construção arquitetural.
     Os construtores, intitulados maçons, na Europa (de masson, no francês arcaico, mason no inglês e makio, termo que os germânicos adotavam para construtores), compunham uma respeitada e próspera Corporação de Ofício, responsável pela criação de prédios monumentais e pela aplicação de uma avançada engenharia ornamental.
     Esses trabalhadores não estavam submetidos à servidão medieval, que prendia o súdito ao senhor feudal. Assim, estavam livres para circular e agir de uma região a outra. Suas técnicas e habilidades eram guardadas em sigilo e transmitidas confidencialmente. Os interessados que demonstrassem as muitas aptidões exigidas eram admitidos como aprendizes do ofício.
     O ingresso do aprendiz na Corporação dos maçons compreendia procedimentos ritualísticos, assimilados com os das celebrações exercidas pelas antigas sociedades secretas, que ocultavam seus mistérios aos profanos. Os pedreiros livres de uma Corporação de Ofício, a exemplo das outras, repartiam-se em três graus de capacitação hierárquica, investidos por meio de rituais litúrgicos próprios: aprendizes, companheiros e mestres.
     Existem versões de que três cavaleiros templários, refugiados na Escócia, teriam contratado com a Corporação de Ofício dos maçons (arquitetos pedreiros) e com a Confraria dos Cavaleiros de Santo André a fundação de uma Ordem Capitular, em 1340, organizada conforme os moldes do regime usual na Maçonaria simbólica.
     Consta que, provavelmente nas últimas décadas do século XVI, havia associações de maçons aliadas a confrarias escocesas que aceitavam a parceria com pessoas estranhas às regras da ação operativa. Os obreiros maçons da Escócia, com o apoio e o patronato da dinastia Stuart, receberam instruções e formalismos que impregnaram sua organização com inclinações para novos rumos teóricos.
     Existem registros sobre a admissão, na confraria corporativa maçónica, em 1646, do alquimista Elias
Ashmole, estranho às práticas dos obreiros construtores escoceses. O sistemático ingresso de membros teóricos induziu à introdução de temas filosóficos nos salões dos maçons práticos. Os membros teóricos
eram instruídos em artes e ciências diversas, acrescentando outros assuntos aos temas dos construtores.
Desse processo nasceu o filosofismo maçónico e a criação de novos graus, além dos três originais.
     Os núcleos de ação maçónica tomaram a designação de loja. A partir de 1691, além da palavra britânica
mason, usada para identificar o integrante de uma loja, passou-se a empregar a expressão free and accepted mason (maçom livre e aceito), que se referia ao membro não-operativo.
     As inovações metodológicas se difundiram por toda a Grã-Bretanha, de tal maneira que, em 24 de junho de 1717, dia de São João Batista, as quatro células da capital inglesa decidiram fundar a Grande Loja de Londres. Com uma administração colegiada, ela teve a incumbência de revisar e consolidar os princípios básicos, de acordo com o regulamento das atividades maçónicas anteriores.
     Em 1721, James Anderson, clérigo da Igreja Anglicana, foi encarregado de redigir um manual com os "marcos" (land marks), um compêndio que se prestasse para uniformizar o simbolismo maçónico. O livro das Constituições de Anderson foi publicado em 1723, trazendo uma série de dispositivos, extensivos a todas as lojas. Entre eles estão os princípios da igualdade dos seres humanos, da liberdade de pensamento, da amizade fraternal e do sigilo. O texto determina também que só podem ser admitidos homens adultos, livres, de bons costumes e que acreditem na existência de Deus - independentemente da religião que professam.
     Desde aqueles tempos, surgiu uma instituição formal e regular, disseminada em todos os continentes e em quase todas as nações, com o nome de Maçonaria, também cognominada Franco Maçonaria. Como consequência da multiplicação universal das lojas maçónicas (federadas em Grandes Lojas ou em Grandes Orientes, termo criado na França) e, diante do interesse pela conservação dos antigos princípios, catalogados em roteiro regulamentar credenciado, fundou-se a Grande Loja da Inglaterra, em 1751, que supervisiona a unidade mundial do funcionamento simbólico da Maçonaria.
Ziéde C. Moreira é professor aposentado na Universidade Federal Fluminense, mestre maçom instalado, grau 33, membro da Academia Maçónica de Ciências, Artes e Letras do Grande Oriente do Estado do Rio de Janeiro e autor de O caminho do ofício místico. São Paulo: Madras Editora, 2004.

A Ordem e o Império
Trazida para o Brasil oficialmente no primeiro ano do século XIX, a Maçonaria participou ativamente do processo de independência do país.
Marco Morel
     Marcado por luzes e trevas, surgimento das maçonarias no Brasil ainda é pouco conhecido. Superdimensionadas por escritores maçons ou banalizadas por pesquisadores que não têm acesso a documentos consistentes, as maçonarias, entretanto, estavam entre as mais importantes formas de associação do período da Independência e início da construção do Estado nacional brasileiro e desafiam até hoje o conhecimento histórico.
     Apesar das especulações em contrário, a Loja Reunião, do Rio de Janeiro, é comprovadamente a primeira a ser criada e a reunir-se regularmente no Brasil, em 1801. Tal testemunho veio de um dos mais importantes líderes maçónicos, José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), conhecido como "Patriarca da Independência" e que atribuiu a fundação desta "primeira Loja Simbólica Regular" no país, ligada ao Grand Orient d'lle-de-France, à iniciativa de um misterioso "cavalheiro Laurent", viajante no navio de guerra francês Hydre, que fazia a rota para a ilha Bourbon. Antes disso pode ter havido agremiações secretas não maçônicas. Ou, então, as que existiram foram tão clandestinas que não deixaram maiores rastros, atiçando a chama da curiosidade de autores do século XX que, mesmo sem documentação, procuraram "evidências", com destaque para a Conjuração Mineira de 1789, muitas vezes apontada como obra de maçons, da mesma forma que a Conjuração Baiana de 1798.
     Existiram raras e nebulosas agremiações maçónicas nos principais centros brasileiros no fim do período colonial, como Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, onde a derrotada República de 1817 tornou evidente a presença deste tipo de entidade. Hipólito da Costa, que redigiu em Londres o pioneiro Correio Braziliense entre 1808 e 1822, fazia propaganda maçónica em seu jornal.
     A referência às maçonarias no plural parece ser a mais exata, pois não havia um centro possante, homogéneo e unificado, mas uma concepção de organização que se espalhou por diversos países. As maçonarias representaram desde meados do século XVIII  , em diferentes casos de passagem de um antigo a um novo regime, uma das mais expressivas formas de organização política. Pode-se afirmar que tais associações tiveram desempenho significativo nos primeiros esboços de modernidade política, seja no caso de independências nacionais americanas ou na crise dos absolutismos europeus.
     Haveria uma ideologia maçónica? Mantendo o plural, é possível pensar em ideários maçónicos e não numa ideologia coerente, com práticas diferenciadas e até contraditórias entre si. Seria cômodo escrever que tais organizações apenas refletiam as ações e ideias de cada tempo e lugar. Isto é correto, mas não basta, pois estas instituições, permeadas por valores e interesses externos a elas, deram uma contribuição própria à vida política dos séculos XVIII e XIX. E apesar das características locais havia uma espécie de fundo comum teórico, prático e simbólico das lojas maçónicas, sem esquecer os laços internacionais que chegaram a se estabelecer.
     O ideário maçónico apresentava duas características centrais: a Razão e a Perfeição, como formadoras das Luzes. Ou seja, a racionalidade envolvida com a busca do progresso humano. E neste encontro entre segredo e esclarecimento há um paradoxo bem característico: as Luzes só poderiam florescer à sombra. Tal ideário fazia parte dos chamados princípios maçônicos, mas compunha a visão de mundo de uma época, além de tais associações.
     É prudente evitar a ligação simplista entre maçonarias e revoluções, mesmo se os Grandes Orientes e suas lojas desempenharam papel importante nas desagregações de antigos regimes, como na Revolução
Francesa e em outros países europeus. Os maçons nem sempre eram revolucionários - havia uma espécie de gradualismo evolucionista nesta liberação da Humanidade. Se cada indivíduo atingisse o degrau máximo e hierarquizado desta escala da perfeição, as revoluções se tornariam desnecessárias. A conquista de um mundo novo, neste sentido, tinha sua dimensão interior ou espiritualizada, e a liberação da sociedade seria quase uma consequência das Luzes expandidas, sem rupturas sociais.
     No período da Independência brasileira as atividades maçónicas cresceram ao lado de outros tipos de associações filantrópicas, políticas, culturais ou de ajuda mútua. É conhecido o exemplo do Grande Oriente Brasileiro de 1822, que se tornou importante foro de debate, mobilização e contato entre forças políticas
que efetivaram a separação do Brasil de Portugal - e tal escolha se explica também pelo caráter reservado. No quadro ainda do absolutismo, embora abalado pelo movimento constitucional português desde 1820, o espaço maçônico era adequado para realizar tal articulação que, tornada pública, seria ilegal.
     As reuniões do Grande Oriente se mostraram decisivas neste momento. Emissários foram enviados às demais províncias para articularem a adesão à Independência. E foi durante um desses encontros que surgiu a ideia de se chamar de "Império" o país que seria independente e de "imperador" seu primeiro governante.
     Este primeiro Grande Oriente do Brasil se tornou referência historiográfica obrigatória e mesmo formadora de memória histórica, na medida em que outras maçonarias, posteriores, se apresentavam como autênticas herdeiras desta matriz. A instituição, com sede na Rua do Conde (atual Rua Visconde de Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro), foi reconhecida pelos Grandes Orientes da França, Inglaterra e Estados Unidos e era adepta do Rito Francês Moderno, um dos modelos de organização simbólica mais difundidos na época.
     Em seus primórdios, o Grande Oriente brasileiro teve como membros mais influentes: Gonçalves Ledo
(que breve se exilaria em Buenos Aires), José Bonifácio (o grão-mestre), todo-poderoso ministro, e o próprio d. Pedro (ver box).
     O Grande Oriente brasileiro aglutinava em 1822 três lojas cariocas: Comércio e Artes, Esperança de
Niterói e União e Tranquilidade. Este primeiro avanço do movimento associativo moderno será logo reprimido pelo novo Império, com a proibição, assinada pelo irmão Guatimozim (d. Pedro I) em 21 de outubro de 1822, dos trabalhos maçónicos e das associações políticas durante todo o Primeiro Reinado. A escalada repressiva culminaria, cerca de um ano depois, com o fechamento da primeira Assembleia Constituinte brasileira, a prisão e o exílio de deputados.
     Apesar da repressão, sabe-se que algumas dessas agremiações continuaram a existir na clandestinidade no Rio de Janeiro, como a Loja Bouclier d'Honneur (Escudo da Honra) e o Apostolado, ambos em 1823 e, dois anos depois, a Vigilância da Pátria, de tendências liberais e oposicionistas, integrada por Nicolau de Campos Vergueiro (futuro senador em 1828 e regente em 1831). Sem falar do jornal Despertador Constitucional Extraordinário, redigido em 1825 pelo baiano Domingos Alves Branco Muniz Barreto, conhecido dirigente maçom, em cujas páginas havia pregações maçónicas.
     Mas será somente com a crise e o fim do Primeiro Reinado e no período das Regências (1831-1840) que os trabalhos maçónicos serão retomados de maneira regular, embora já sem a importância de 1822. Nos anos 1830 assistiu-se a um crescimento considerável das maçonarias e, ao mesmo tempo, a um verdadeiro "canibalismo" maçom, com a existência de cinco Grandes Orientes somente no Rio de Janeiro, além de dissidências e intrincadas brigas entre os grupos, revelando como era difícil a busca de fraternidade e perfeição. Neste período surgiram os primeiros textos formalmente maçónicos impressos e tornados públicos no Brasil.
Marco Morel é professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autor de As transformações dos espaços públicos: imprensa, atores políticos e sociabilidades na cidade imperial (1820 - 1840). São Paulo: Hucitec, 2005.

Questão de fé
Ideais de liberdade religiosa e ensino laico puseram a Maçonaria em rota de colisão com a Igreja Católica, num conflito que, no Brasil, culminou com a prisão de bispos em 1874.
Eliane Lúcia Colussi
     A historiografia brasileira dedicou pouco espaço aos estudos sobre a Maçonaria. Em 1939, Gustavo Barroso (1888-1959) chamou a atenção sobre a importância da instituição maçônica na sua História secreta do Brasil. Um dos principais expoentes do pensamento conservador-católico, o autor afirmava que a história brasileira poderia ser explicada através da teoria do complô judaico-cabalístico-maçônico. A conspiração, que combinava elementos místicos e étnicos, agia subterraneamente e seria a responsável por muitos dos desfechos da política brasileira.
     Diversos mitos presentes até hoje na Maçonaria no Brasil tiveram sua origem nas teses de Barroso, entre os quais ela ser fonte de influência na política. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a ordem fez pesada oposição ao absolutismo e à Igreja, congregando a elite econômica e intelectual ascendente. Essa postura gerou uma série de conflitos com o clero, que reagiu tentando restaurar e até mesmo endurecer um catolicismo autoritário, quase medieval.
     O crescente desprestígio do catolicismo no século XIX motivou a Igreja a adotar políticas que revigoraram o chamado ultramontanismo - movimento que pregava a retomada da autoridade papal "além das montanhas" que separavam a Itália do resto da Europa. O ultramontanismo foi uma reação a leis que, nos países católicos, subordinavam a Igreja à autoridade do Estado, como acontecia no Brasil. Do outro lado, o pensamento anticlerical reunia um amplo leque de pensadores, incluindo liberais, maçons, nacionalistas, positivistas, anarquistas e socialistas.
     O confronto entre clérigos e maçons recrudesceu quando repercutiram no Brasil os ventos da política de romanização católica. Implementada pelo Papa Pio IX (1848-1879), essa política pretendia, a partir da retomada de posicionamentos conservadores, do prosseguimento de uma política de centralização da Igreja em torno da figura do papa e da intransigência liberal, reverter o quadro negativo enfrentado pelo catolicismo em escala mundial.
     Um dos espaços importantes na disputa entre os posicionamentos clericais e anticlericais foi a política institucional. Os maçons transitavam com muita intimidade neste terreno. Muitos pertenciam ao Partido
Conservador e outros tantos, ao Partido Liberal. A Maçonaria não orientava seus integrantes a seguirem uma ou outra corrente política. A liberdade de expressão tanto religiosa como política, constituía-se em ponto fundamental a ser respeitado pelos maçons.
     Tal postura não significava, porém, que a Maçonaria evitasse exercer algum tipo de influência no cenário político. No período em que se radicalizou a luta entre a ordem e a Igreja Católica, houve diversas iniciativas que revelaram a necessidade de uma atuação mais intensa dos maçons na política. Tratava-se de defender a liberdade de imprensa e discutir temas que envolviam a relação de Igreja e Estado, como o ensino religioso na rede pública, subsídios para a vinda de padres estrangeiros para o Brasil e a destinação de recursos para a construção e reforma de igrejas.
     As irmandades religiosas foram outro espaço de disputas entre Maçonaria e Igreja Católica, especialmente a partir de 1872, quando aconteceu a chamada Questão Religiosa. Até então, era pública a presença de muitos integrantes do clero nas lojas maçônicas e de maçons nas irmandades religiosas - a maioria dos integrantes da Maçonaria no Brasil era formada por católicos. Apesar da aparente contradição, esse fato estava em sintonia com a situação mundial da ordem: a religião predominante num país tende a ser a mais comum dentro das lojas locais.
     A Igreja Católica no Brasil, porém, mobilizou-se contra essa situação e passou a contra-atacar, publicando bulas e cartas pastorais condenando a Maçonaria e as sociedades secretas. Os documentos de condenação previam várias penalidades aos anticlericais, incluindo a expulsão de padres maçons que não abjurassem a ordem e a suspensão dos trabalhos das irmandades e confrarias que estivessem sob suspeita de influência maçônica.
     No início da década de 1870 o pensamento ultramontano já dominava o clero brasileiro. Havia um conflito de consciência entre a lealdade às diretrizes da Santa Sé e às leis do Império. A Constituição de 1824 determinava que a publicação e aplicação no Brasil de decretos, bulas e cartas papais dependiam do beneplácito (consentimento) do imperador. Em 1872, os bispos de Olinda, d. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e de Belém, d. Antônio de Macedo Costa, resolveram cumprir as ordens de Roma. Desobedecendo ao beneplácito, suspenderam as irmandades religiosas que haviam se recusado a expulsar os maçons de seus quadros.
     Em muitas cidades do Brasil ocorreu uma verdadeira caça às bruxas no interior das irmandades. Houve até mesmo a interdição dos templos de irmandades que não quiseram excluir das suas fileiras os membros maçons. Em 16 de janeiro de 1873, d. Vital lançou o interdito, como penalidade pela desobediência de expulsar os maçons de seus quadros, à Irmandade do Santíssimo Sacramento. No Pará, d. Macedo Costa editou uma pastoral em 25 de março de 1873 proibindo a presença de maçons nas irmandades. Foram punidas as Irmandades da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos e da Ordem Terceira de São Francisco.
     As irmandades recorreram ao imperador que ordenou aos bispos que cancelassem a suspensão. Como eles se recusaram a obedecer, foram presos e condenados "no grau médio do Artigo 96 do Código Criminal que previa quatro anos de prisão com trabalhos". Anistiados em 1875, os prelados mantiveram suas decisões contra as irmandades, o que contribuiu para que as relações entre Igreja e Império ficassem cada vez mais estremecidas. Por trás da presença ou não de maçons nas irmandades religiosas grande tema da Questão Religiosa foi a subordinação da Igreja Católica ao Estado brasileiro.
     Além da liberdade política e religiosa, a educação popular foi sempre um tema muito caro à Maçonaria, com ideias comuns à dos liberais no século XIX. Eles acreditavam que a sociedade moderna, necessariamente laica e secular, originária da revolução intelectual dos finais do século XVIII, deveria assentar-se no conhecimento científico e racional, eliminando os vestígios medievais da influência católica.
     As divergências entre as duas instituições adquiriram contornos de uma disputa político-institucional na educação. A ideia que se tinha era a de que por meio da educação das crianças e dos jovens se construiria o "futuro". Mas qual seria esse futuro? Para a maçonaria, ele estava intimamente ligado ao racionalismo/cientificismo, a modernidade e ao progresso. Para tanto era fundamental retirar das escolas públicas a obrigatoriedade do ensino religioso. Uma das vitórias nessa luta foi um decreto de 1874, que dispensava das aulas de religião os alunos não católicos. O fim do ensino religioso obrigatório só viria com a Constituição republicana de 1891. A Igreja Católica lutou bravamente contra a adoção do sistema educacional laico no Brasil. Seu discurso alertava os católicos contra “o falso brilho das doutrinas da época".
     É possível compreender o complexo quadro político e cultural brasileiro do século XIX também a partir da luta dessas duas instituições. O campo das ideias e das disputas em torno delas foi muito mais amplo do que os posicionamentos anticlericais e clericais abordados aqui. Num quadro em que a vida social se desenvolvia em poucos espaços públicos, a Maçonaria tornou-se efetivamente um lugar onde ocorria a sociabilidade da maior parte da elite. A Igreja Católica precisou empenhar-se muito para recuperar os espaços perdidos ou, talvez, até então não consolidados.
Eliane Lúcia Colussi é professora de História na Universidade de Passo Fundo (RS) e autora de A maçonaria gaúcha no século XIX. 3. ed. Passo Fundo: Ediupf, 2003.

O simbolismo maçônico
Alguns significados dos principais símbolos usados pelos maçons em seus rituais:
Acácia - Acácia mimosa, a planta símbolo por excelência da Maçonaria encontrada largamente em cemitérios: representa a segurança, a clareza, e também a inocência ou pureza de espírito de todo maçom.
Avental Símbolo do trabalho maçônico: branco, e de pele, para os aprendizes (com a abeta erguida) e companheiros (com a abeta baixada); branco orlado de vermelho ou azul (dependendo do rito), e com diversos símbolos maçônicos para os mestres.
Colunas - Símbolos dos limites do mundo criado, da vida e da morte, do elemento masculino e do elemento feminino, do ativo e do passivo, do mundo material e do espiritual.
Compasso Símbolo do espírito, do pensamento nas diversas formas de raciocínio, e também do relativo (círculo) dependente do ponto inicial (absoluto). Os círculos traçados com o compasso representam as próprias lojas maçônicas ou o Universo maçônico.
Delta luminoso com o olho que tudo vê – Triângulo luminoso com um olho no centro, símbolo da força expandindo-se; também representa o próprio Grande Arquiteto do Universo e sua onisciência.
Esquadro - Resultante da união da linha vertical com a linha horizontal, é o símbolo da retidão e também da ação do homem sobre a matéria e sobre si mesmo.
Malhete - Pequeno martelo, emblema da vontade ativa, do trabalho e da força material; instrumento de direção, poder e autoridade.
Pavimento em mosaico - Chão em xadrez de quadrados pretos e brancos, com que devem ser revestidos os templos; símbolo da diversidade do globo e das raças, unidas pela Maçonaria; símbolo também da dualidade entre os mais diversos temas, como bem e mal, espírito e corpo, luz e trevas.
Pedra bruta - Símbolo das imperfeições do espírito que o maçom deve procurar corrigir; e também da liberdade total do aprendiz e do maçom em geral. Simboliza o caminho inicial na preparação do maçom.
Templo - Símbolo da construção maçônica por excelência, da paz profunda para que tendem todos os maçons. Local de trabalho e das ritualísticas.
Três pontos - Símbolo com várias interpretações, aliás conciliáveis: fé, esperança e caridade; liberdade, igualdade e fraternidade; luz, trevas e tempo; passado, presente e futuro; sabedoria, força e beleza; nascimento, vida e morte. O triângulo formado por esses três pontos representa também a primeira forma geométrica perfeita, dotada de tamanho e área num espaço.
Consultoria: Fabiano Jacobi, mestre maçom Adonhiramita do GOB GOERj, Loja Scripta et veritas, n1641

Fonte: Revista Nossa História / Ano 02 - nº 20 - Junho-2005

Saiba Mais - Filmes:
Mauá - O Imperador e o Rei
Com direção de Sérgio Rezende, o filme retrata a biografia de Irineu Evangelista de Souza, personalidade da história brasileira que se destacou como empresário no Segundo Império do país. Irineu construiu a primeira indústria brasileira, uma fundição e estaleiro em Ponta de Areia, Niterói (RJ).
Gaúcho, Mauá nasceu na cidade de Arroio Grande e o início de sua vida não indicava um destino tão brilhante. Ainda garoto, Irineu se tornou órfão, quando seu pai foi morto por ladrões de gado. Dois anos depois, sua mãe decidiu se casar novamente com João Jesus, que mandou o enteado para o Rio de Janeiro com Batista, seu tio.
No Rio, Irineu vai trabalhar no armazém do português Pereira de Almeida, onde descobre sua aptidão para os negócios. Torna-se funcionário de confiança e um cobrador impiedoso. Seu talento é reconhecido pelo escocês Richard Carruthers, que o emprega em sua firma de exportação e lhe dá as primeiras noções das teorias econômicas. No entanto, Carruthers decide voltar a sua terra natal e deixa Irineu no comando. Em uma viagem a Liverpool, Mauá se encanta com a potência das fábricas e decide arriscar tudo para construir uma indústria no Brasil.
Direção: Sérgio Resende
Ano: 1999
Áudio: Inglês/legendado
Duração: 134 minutos