"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pisando no "sexo frágil"

Ainda na passagem para o século XX, as mulheres eram alvo de descrédito em suas lutas pela emancipação. Depois de tanto lutar, elas hoje ocupam 41 % do mercado de trabalho.
Rachel Soihet
      Nas últimas décadas do século XIX, a Revista Ilustrada, comandada por Ângelo Agostini, era uma das publica­ções mais importantes do país. Com grande aceitação popular, publicava artigos bem-humorados e irônicos que defendiam posições po­líticas avançadas para a época, contra a escravidão e o conservadorismo do governo imperial. Mas, co­mo se pode ler num de seus editoriais, intitulado "Com as damas", de 1886, a situação da mulher e sua reivindicação por maior participação na socie­dade não eram vistas com bons olhos, merecendo até mesmo tratamento caricato:
     "Não será da nossa parte que as legítimas aspira­ções do sexo gentil, da mais simpática e apreciável metade do gênero, encontrarão qualquer embaraço, por mais insignificante que seja, à sua justa expansão. Confiamos muito no bom senso e na inteligência ser­vida pela educação para recear que as mães, as irmãs e as esposas, abandonando a serenidade dos lares, se atirem à política e aos meetings, obrigando-nos a velar pela cozinha e pelos recém-nascidos. Não! A mu­lher manter-se-á na órbita que lhe convém e, se algu­ma exceção houver, estamos certos que esse papel fi­cara reservado às sogras."
     A emancipação feminina era vista pelos mais di­versos setores sociais e tendências políticas co­mo grave ameaça à or­dem estabelecida, e o predomínio masculino encontrava legitimidade até no pensamento cien­tífico da época. A filosofia considerava que a infe­rioridade da razão entre as mulheres era fato incontestável, cabendo a elas apenas cultivá-la na medida necessária ao cumprimento de seus deve­res naturais: obedecer ao marido e cuidar dos fi­lhos. A medicina do século XIX afirmava que a fra­gilidade, o recato e o predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais eram características biologicamente femininas, assim como a subordi­nação da sexualidade ao instinto maternal. Em oposição, o homem somaria à sua força física uma natureza autoritária, empreendedora, racional, e uma sexualidade sem freios.
     O recurso da ironia e da comédia foi um pode­roso instrumento para desmoralizar a luta pela emancipação feminina e reforçar o mito da inferioridade e passividade da mulher.
Numa crônica maliciosamente intitulada "Emancipada" (revista Careta, Rio de Janeiro, 20/2/1909), depois de ressaltar de forma grotes­ca a inversão dos papéis naturais de cada sexo, faz-se quase um alerta lançando mão de um desfecho trá­gico: os homens teriam de "velar pe­la cozinha e pelos recém-nascidos". Madame Linhares, após um longo dia no escritório, encontra a casa em polvorosa: "Os meninos ainda não haviam jantado (...) por­que o Cazuza Linhares não havia acertado com o meio de fazer a sopa e o assado." O Cazuza, que fi­cara em casa tomando conta dos filhos, presta con­tas à esposa de suas dificuldades, informando que já vinha há três horas tentando sem sucesso prepa­rar o jantar. O diálogo que se segue acentua a sub­serviência do marido e o autoritarismo da mulher. Era a inversão do quadro habitual, o horror que ameaçava as famílias de bem:
-   Tambêm você para nada presta.
-   Mas, Milu, se eu nunca aprendi a fazer isso...
-   E o que foi que aprendeu, não me dirá? O se­nhor é um imprestável.
-   Mas Milu...
-   Cale-se homem, cale-se! (...) Irra! Molenga! Banana! Pastelão!
-   Eu só queria ver você na cozinha...
-   Sim? Queria? Pois esse gosto não há de ter, meu caro. Então eu, uma mulher superior, vou lá me ocupar com esses cuidados domésticos...
-   E as crianças?
-   Pois aí não tem queijo? Não tem pão? Vá ferver água para o chá.
-   Chá, pão e queijo? Mas isso é lá um jantar?
-   E basta. Também você só cuida da barriga (...). E passará a dormir na sala de visitas durante três meses. É para ensiná-lo a respeitar uma mulher emancipada.
     Apesar do tom de galhofa, essa abordagem não estava tão distante da adotada por criminalistas e médicos da época, que alertavam para o perigo re­presentado pelas mulheres intelectualizadas. No Rio de Janeiro, vários médicos concordavam com essas afirmações. Comentando os motivos que levariam a mulher a cometer o terrível crime do infanticídio, o Dr. Augusto Militão Pacheco aponta as "mulheres originais", distintas das demais "pela extrema devassidão (...) pelo gosto infrene de pintar, escrever, viajar etc." Interessante notar que são en­quadradas, em primeiro lugar, a mu­lher infiel e, em segundo, a emanci­pada. Para grande parte dos estudio­sos em comportamento da virada do século XIX para o XX, a intelectual emancipada era mau exemplo para as outras mulheres, pois faria com que acreditassem que poderiam so­breviver sem o auxílio do marido. Ao se recusarem a restringir seu univer­so à maternidade e ao lar, desprezando suas funções naturais, essas mulheres de comportamento dife­renciado seriam a fonte de todos os flagelos sociais.
     Nenhum meio foi desprezado na difusão do princípio de que os cui­dados com os filhos exigiam que a esfe­ra feminina fosse aquela da casa, nessa campanha desenvolvida, a fim de salvaguardar os privilégios masculinos, incluin­do a música carnavalesca. Deixava-se claro que, além dos males acarretados aos filhos, a competi­ção, que se desenvolveria entre homens e mulheres, prejudicaria o relacionamento conjugal, levando à ruína a instituição do matrimônio. As ideias con­trárias ao feminismo circulavam também nas cama­das populares, e o papel de provedor, destinado aos homens na organização patriarcal, constituía-se em ideal que não escapava a todas as camadas, embora dificilmente se concretizasse.
     A charge foi um recurso muito utilizado para ri­dicularizar o movimento de emancipação feminina. O caricaturista Raul Pederneiras, que teve grande atuação na imprensa do Rio de Janeiro, foi um crí­tico implacável das mulheres que pretendiam am­pliar seu espaço de atuação na sociedade. Entre as cenas que privilegiava, buscava realçar a incompati­bilidade entre o exercício de atividades extradomésticas (o trabalho em especial) e as funções de mãe.
     Numa caricatura intitulada A mulher polícia, observa-se uma mulher gorda, pesadona, de rosto carrancudo, vestida com uniforme policial, en­quanto amamenta uma criança de colo. O conjun­to pretende denunciar o caráter grotesco da situa­ção, já que a figura está longe de representar a idea­lização difundida da fragilidade e docilidade das mães. A policial é instada por um homem a tomar uma medida, o que é mostrado, não apenas pela postura dele na figura, como na frase: "Acuda!... es­tão apitando lá fora!" Ao que ela responde: "Não vê que estou presa?" O autor, assim, procura desmora­lizar as pretensões das mulheres de acumular duas funções, de mãe e de profissional, demonstrando sua impossibilidade e o perigo que representa para a sociedade confiar nelas.
     O grande J. Carlos, por sua vez, costumava retratar em suas charges personagens femininas dos segmen­tos superiores - mulheres sedutoras, extremamente sofisticadas e ocupadas com a aparência. Mas a preo­cupação com o avanço do feminismo está demons­trada em pelo menos dois de seus trabalhos. Num de­les (na página 16), denominado Emancipação (revista Para Todos, 1926), um pai aparece sentado, totalmen­te rendido ao cansaço, segurando um bebé ao colo com a infalível mamadeira. Em torno dele, brinque­dos espalhados e três crianças entregues às mais di­versas travessuras. Elegante, a mãe chega então com um chapéu masculino na cabeça, indiferente à confu­são. A segunda caricatura (na mesma página 16), Mater Dolorosa (revista Fon-Fon, 1935), mostra tam­bém um homem abatido ao lado do bebé, cercado de grande quantidade de brinquedos espalhados.
     Raul Pederneiras, porém, aponta a solução para esses problemas. Em seu álbum Cenas da vida ca­rioca, de 1926, há um painel de quatro caricaturas representando um dia na rotina de uma mulher. Um deles, intitulado Dia útil, mostra justamente uma mulher com o filho ao colo, mexendo uma panela no fogão - a imagem perfeita para a boa or­dem da sociedade, segundo o ideal masculino. Havia, portanto, que alertar para os perigos da par­ticipação feminina em esferas consideradas do do­mínio dos homens, expondo-os a situações incom­patíveis com sua natureza.
     Mas não apenas a questão da profissionalização feminina mereceu severas críticas. As demais reivindicações do género, com vistas ao exercício da ple­na cidadania, particularmente a luta pelo voto, eram objeto de chacotas, com o propósito de ri­dicularizá-las. Um exemplo é a crónica "Mais uma reivindicação femi­nina" (revista Fon-Fon, 4/1/1908): "Já não são so­mente nas profissões, já não se limitam aos direi­tos civis e políticos; não param também nos vestuários as reivindicações das nossas ar­dentes feminis­tas. Há uma tendência pronunciada para usar coisas até agora permitidas ao sexo feio. É assim que bre­vemente aparecerá uma obra da ilustrada senhora X... reivindicando o direito de senhoras usarem barbas também."
     Por trás dessa piada sobre a pretensão feminina de usar barba parece estar a intenção de sugerir que a feminista é uma mulher ansiosa para não só assu­mir papéis considerados privativos dos homens, mas também seus atributos físicos. Para terminar, o autor destaca mais uma das alegadas fraquezas da mulher: "(a barba) servirá (...) para demonstrar a falsidade da alegação de que toda mulher é tagarela, pois necessariamente terão de ficar caladas, ao me­nos enquanto fizerem a barba".
     Alguns autores tentaram manifestar sua oposição às mudanças pretendidas pelas feministas apelando para um tom cavalheiresco, beirando a pieguice: "Não concebo a mulher fora do seu ciclo, apostro­fando os deuses ou discutindo a origem das espécies. Ela foi feita para domar o homem. Que será da hu­manidade no dia em que ela, rasgando o peignoir de rendas (...) sair para a rua, não mais com a leve som­brinha de seda, mas com o humilhante cacete do ca­panga eleitoral? Desaparecerá o encanto dos salões, a alma da paisagem, o amor do lar..." Repetem-se ve­lhos estereótipos sobre a importância de os diferen­tes atributos dos homens e mulheres serem respeitados - um conceito presente na religião, aprimorado pelos filósofos iluministas e adotado pela ciência da época. No fim, a crónica adota um tom vulgar: "Só (...) as muito feias hão de querer se emancipar... coi­tadas! As bonitas não (...). Que nos importa as feias! Salvem-se as belas, que a humanidade se aperfeiçoa­rá." ("Páginas da Cidade" Careta, 11/1/1919).
     A necessidade de a mulher ser bela é sempre res­saltada. Algumas crónicas propõem estratégias para a superação desse obstáculo, a fim de garantir às feias a possibilidade do casamento, única aspiração feminina considerada legítima pela mentalidade machista da época. Em certo artigo, a atuação das militantes brasileiras é atribuída à ociosidade: "Se não tiverem com o que se distrair em casa, vão para as fábricas, namorem ou façam-se telefonistas." Para finalizar, a suprema ameaça: "Se persistirem nessas bobagens... ficarão todas solteironas, o que é o dia­bo!" (Careta, 2/2/1918).
     Outro cronista propõe com sarcasmo que sejam realizados "leilões matrimoniais", recurso útil para que as moças feias tivessem mais chance de conse­guir o casamento: "Talvez fosse esse o único, excelente, maravilhoso meio de acabar duma vez com as sufragis­tas, as literatas, as neurastênicas, as cochichadeiras e as beatas, horríveis espécies femininas nascidas da classe imensa, descontente, vingativa e au­daz das vieilles filies" ("O leilão das moças", Fon-Fon, 5/1/1918). A curio­sa conclusão é que a mulher não agraciada com a beleza, vendo-se re­legada à humilhante situação de sol­teirona, a vieille filie, buscaria vin­gança questionando sua condição e aderindo aos movimentos de emancipação.
     Em outra caricatura de Raul Pederneiras, intitu­lada Miss Alma, tipo feminista, vê-se uma mulher magra e feia usando cha­péu e sapatos masculinos e portando um livro - estereótipo da intelectual solteirona. E outra mulher mais gorda, de ar arrogante, apresenta as mesmas características: feiúra, masculinização e o inevitável livro. Não é de admirar que esse tipo seja classifica­do na seção "Sapatos".
     Apesar desse bombardeio, mais e mais mulheres reagiam no sentido de alterar sua posição relativa às esferas pública e privada. Não poucas assumiam abertamente a campanha pela obtenção de seus di­reitos. Organizaram-se em associações; faziam pro­nunciamentos públicos, utilizando-se fartamente da imprensa; buscavam apoio de lideranças nos diversos campos, constituindo grupos de pressão para garantir apoio de parlamentares e de outras autoridades, da imprensa, da opinião pública etc. Mas, apesar disso, em sua maioria, procuravam revestir seu discurso com um tom moderado. Não apenas porque consideravam que esta seria a forma adequada de expressão feminina, mas, igualmente, por estratégia política.
     Curiosamente, uma revista mensal dirigida por uma mulher que contava com a colaboração de figuras destacadas da época, como a poetisa Cecília Meireles e até militantes do movimento feminista, a Única, e que publicava artigos sobre literatura, arte, elegância e sociologia, noticiava a invasão das pistas de corrida de cavalo e dos quarteirões elegantes de Londres por "mulheres apaches" de porte másculo e bem vestidas, pertencentes a um grupo cujo nome bizarro seria Bando dos Quarenta Elefantes. "Tais criaturas dedicam-se ao roubo nos grandes estabeleci­mentos, à violação das fechadu­ras, à chantagem e até ao assalto a mão armada... resultado dos direi­tos equiparados da mulher" ("Feminismo e suas desvanta­gens", outubro de 1925).
     Essa maneira debochada de apresentar as mulhe­res empenhadas na luta por direitos questionava a seriedade de certas preocupações femininas. Em consequência, não foram poucas as mulheres que rejeitaram o feminismo e adotaram o discurso con­servador, sempre presente nos diversos meios de co­municação, que acusava o movimento de ser in­compatível com o ideal vigente de beleza, meiguice, paciência e resignação, e identificava as mulheres engajadas como viragos, pesadas como elefantes, perigosas e inclinadas a cometer atos criminosos.

Rachel Soihet é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e autora de Condição feminina e formas de violência. Mulheres pobres e ordem urbana (1890-1920). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

Saiba Mais: Bibliografia
ALVES, Branca Moreira. Ideologia e feminismo. A luta da mulher pelo voto no Brasil. Petrópolis: Ed.
Vozes, 1980.
HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino - a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850/1940, Editora Mulheres/Unisc, 2003. 

Saiba Mais – Link 

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Uma pedagogia poética para as crianças

Entrevista ao INTITUTO ALANA, em que Severino Antônio é conselheiro do projeto PRIORIDADE ABSOLUTA, sobre defesa da criança e do jovem.
A conversa sobre a escuta da criança como sujeito de direitos, como autora de ideias, palavras e imagens, está interligada à obra UMA PEDAGOGIA POETICA PARA AS CRIANÇAS, de Severino e Katia Tavares, publicado em 2013, pela editora Adonis, que já se encontra em 3ª edição.
"Quando nós cuidamos da criança, escutamos a sua voz; quando nós reconhecemos sua interpretação criadora do mundo, nós aprendemos muito com ela. Nós aprendemos empatia! Empatia é fundamental como recusa das violências, das indiferenças, das brutalidades…" (Severino Antônio)


À venda no site:
http://www.editoraadonis.com.br/loja/produto/uma-pedagogia-poetica-para-as-criancas-237

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Brasil e sua fama

Lúcia Murat é cineasta, diretora de “Quase Dois Irmãos” e “Olhar Estrangeiro”, documentário que retrata as várias idealizações que o cinema mundial faz em torno do Brasil. Baseando-se no livro O Brasil dos gringos, imagens no cinema, de Tunico Amâncio, Lúcia entrevistou grandes diretores, roteiristas e produtores responsáveis por filmes como “Feitiço do Rio” – em que as praias cariocas são povoadas por macacos e moças de topless – e “Amazônia em chamas”, sobre a vida do seringueiro Chico Mendes, no qual todos os brasileiros falam inglês com sotaque espanholado. Ela contou para a Revista de História como as fantasias que existiam em torno do nome Brasil foram perpetuadas e acentuadas pela indústria cinematográfica. Principalmente no que diz respeito à sensualidade.

Revista de História - Você acha que esse paraíso perdido chamado Brasil é uma invenção do cinema mundial?
Lúcia Murat - Não. O que nós vemos é uma repetição da carta de Caminha, com imagens do paraíso, da mulher sensual, “com as vergonhas expostas”. E isso se desdobra de maneira diferente. Há desde filmes europeus, em que essas imagens são tratadas de forma mais carinhosa, até produções um tanto picaretas e agressivas, que acabam vendo o Brasil com um misto de desprezo e admiração. O clichê é o mesmo, mas as abordagens são diferentes. Em “Feitiço do Rio”, o roteirista Larry Gelbart coloca um monte de gente seminua numa praia, com macaquinhos nos ombros, e inventa o que ele chama de “casamento à brasileira”, que é uma mistura de candomblé com uma aparente suruba. Em suma, uma visão totalmente preconceituosa.

RH - Você pode citar outros exemplos?
LM - O filme “Orquídea Selvagem” mostra os negros pela ótica da sensualidade. Eu também gostaria muito de ter feito uma entrevista com o grupo inglês de comédia Monty Python, que fez um filme sobre vikings que viajam para um paraíso repleto de mulheres e frutas chamado Brasil. Esse eterno clichê não surge do nada. Ele é a exacerbação de um aspecto que às vezes é acentuado pelos próprios brasileiros, como no caso das mulatas que dançam no exterior.

RH - Como assim?
LM - É um processo infindável. Existe a expectativa de que o país seja uma terra de fantasias. Você chega lá fora, quer ganhar dinheiro e acaba por reforçar isso. Às vezes, nós gostamos de nos vender de acordo com o que o olhar estrangeiro quer ver.

RH - Esses clichês têm ficado mais exacerbados nos últimos tempos?
LM - Eu sinto isso, principalmente no quesito da sensualidade. Mas vale lembrar que eu trabalhei apenas com filmes de ficção. Se pegarmos os documentários que retratam o Brasil, vem à tona a ideia de violência. Mas essa visão não é suficiente para que se crie uma outra imagem de Brasil. Quando saí nas ruas da Europa para fazer entrevistas aleatórias, perguntando às pessoas o que elas sabiam sobre o país, a visão predominante foi a do paraíso perdido, do sexo, do país onde ninguém trabalha, onde a vida é uma festa. Isso porque a maioria dos filmes de ficção busca reforçar os clichês.

RH - Você acha que a indústria cinematográfica pretende criar outra terra encantada?
LM - Acho que ela não quer descartar esse paraíso chamado Brasil. É óbvio que, à medida que a globalização se acentua, fica cada vez mais difícil lidar com essas idealizações, pois as pessoas viajam mais e acabam conhecendo outros países. Quando o Brasil era um país totalmente desconhecido, acessível somente por navio, era mais fácil que se fantasiasse. Hoje, há cada vez mais pessoas que conhecem Rio e São Paulo. A impressão que me dá é que esse paraíso selvagem vai acabar sendo deslocado para a Amazônia.

Direção: Lúcia Murat
Ano: 2006
Áudio: Português
Duração: 69 minutos

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Para o Brasil, com amor (e fúria)

Animação nacional percorre seis séculos de História do Brasil sob uma ótica que não está nos livros didáticos.
     “Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas.” Já dizia Pero Vaz de Caminha sobre os nativos de Vera Cruz. E em Uma História de Amor e Fúria, é assim mesmo que eles aparecem... Com tudo à mostra. A animação, que de infantil não tem nada e é mais voltada para o público adulto, narra a história de amor entre Janaína e Abeguar – um guerreiro tupinambá que sobrevive aos séculos ao assumir a forma de um pássaro. E põe séculos nisso: a narrativa dura seiscentos anos, atravessando um tanto de acontecimentos históricos. (...)
     “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro.” Com seus traços duros e uma linguagem tradicional das revistas de histórias em quadrinho, o filme tem como mote a internalização do passado, para que o presente não seja um completo desperdício. Abeguar (Selton Melo), além de protagonista, é quem conduz a narrativa. É sob sua ótica e perspectiva, que quatro fases da trajetória do Brasil são desenhadas diante de nossos olhos: a colonização, a escravidão, o regime militar e o futuro, em 2096. 
     No comecinho da colonização portuguesa, no século XVI, a região da Bertioga era considerada a transição entre o território tupinambá, que ia desde o cabo de São Tomé, no que hoje é o Rio de Janeiro, até o rio Juqueriquerê, em Caraguatatuba e o território dos tupiniquins, que ia desde as cercanias de São Vicente, passando por Itanhaém e Peruíbe, até Cananeia. Sofrendo constantemente com os ataques dos tupinambás de Ubatuba, os portugueses do núcleo vicentino decidiram construir o forte de São José da Bertioga.
     É mais ou menos neste contexto que se dá o início do filme. Abeguar atinge sua “maioridade” ou, trocando em miúdos, acaba de virar “macho” – segundo a tradição tupinambá, o menino vira homem ao matar sua primeira onça – quando lhe é concedida a “singela” missão de salvar o mundo da fúria de Anhangá. Opositor direto de Munhã, espécie de guia espiritual indígena, Anhangá representa a invasão dos portugueses, o extermínio dos índios e todas as mazelas decorrentes disto, como a prevalência do mais forte sobre o mais fraco, do mais rico sobre o mais pobre, do poder sobre a justiça.
     A vitória dos portugueses na Bertioga representa, também, a primeira falha do guerreiro indígena, que vê sua amada Janaína (Camila Pitanga) morrer pouco tempo depois. Destinado a se transformar em pássaro sempre que vencido pelo “lado negro da força”, o espírito de Abeguar vaga até o ano de 1825 e só desperta ao se deparara com uma versão maranhense de Janaína.
     Durante o período regencial brasileiro, o Maranhão algodoeiro passava por uma grave crise econômica, devido à concorrência com os Estados Unidos. Aqui, o protagonista aparece na pele de Manuel dos Balaios, um vaqueiro benfeitor dos arredores de São Luís, que ajudava escravos fugidos das plantações e, posteriormente, vem a se tornar líder da rebelião que ficou conhecida como Balaiada. Os líderes balaios - na História e no filme - foram mortos em batalha ou capturados. Abeguar/Manuel, claro, vira pássaro e dá prosseguimento à sua jornada.
     Ele só reencontra Janaína – aquela que parece ser a única força motriz capaz de transformá-lo em homem novamente e no herói que a História precisa, como previu Munhã – no Rio de Janeiro de 1968, em plena Ditadura Militar. Abeguar é Cau, um jovem estudante que adentra no dito (e fictício) Movimento Revolucionário da Ação Democrática, uma fabriqueta de guerrilheiros esquentadinhos, para ficar mais próximo da garota que de nada se lembra sobre suas vidas passadas. O velho tupinambá vive em Cau até 1980, quando é baleado durante uma batida policial na favela em que mora com o amigo Feijão, antigo companheiro de cela na época do regime militar.
     “Meus heróis nunca viraram estátua. Morreram lutando contra os caras que viraram.” A frase, que parece tentar resumir, ainda que de forma simplista, a História do Brasil é uma crítica ao nosso passado e presente, mas também ao futuro. Futuro este que, na visão do roteirista e diretor Luiz Bolognesi, está perdido. Da década de 80, Abeguar alça voo para a futurística Cidade Maravilhosa de 2096. E a partir daí são apenas previsões em tom de alerta. A “cidade mais segura do mundo”, protegida por milicianos que têm até ações na bolsa de valores é também a cidade do sexo, a cidade onde a água custa mais caro do que uísque importado.
     Diz-se da História que ela é sempre contada a partir do ponto de vista dos vencedores, este filme é uma boa oportunidade para conhecer um pouco do amor e da fúria dos derrotados.

Uma História de Amor e Fúria
Direção: Luiz Bolognesi
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 74 minutos

Saiba Mais: Link
Guarani, a língua proibida. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

Histórias do Brasil a Série

Cotidiano, família e cultura na formação do povo brasileiro.
     O Brasil não conhece o Brasil. E os brasileiros conhecem ainda menos os brasileiros. Por trás dos clichês para consumo interno e dos estereótipos tipo exportação, da caricatura da alegria tropical à autocrítica amarga, há a história de um povo feito de pessoas muito diferentes umas das outras.
     Histórias do Brasil é uma série de dez docudramas, contando a história do Brasil, desde antes do descobrimento até os dias atuais, sob o prisma da chamada "história das mentalidades". Ela mostra não apenas os fatos, mas também os comportamentos, hábitos e costumes do povo brasileiro através dos séculos, por meio de conteúdo documental costurado a narrativas dramáticas ambientadas em dez períodos da nossa história.
     Para cada fase, uma história de ficção envolve personagens comuns que ajudaram a formar o Brasil. As narrativas dramáticas são construídas a partir de uma rigorosa pesquisa, e reproduzem fielmente os hábitos, as tecnologias e as formas de interação humana de cada período.
     Esta história da vida privada, contada a partir de elementos dramáticos ficcionais, se entrelaça com a narrativa documental, pontuada por entrevistas com historiadores e iconografia histórica, para revelar a formação do Brasil pela ótica da construção de um povo a partir de pessoas de diversas origens: colonizadores, escravos, imigrantes e nativos brasileiros.

Episódio 01 – Antes do Brasil, Cabo Frio, 1530
Acreditando tratar-se de um francês, um grupo de índios captura o alemão Franz Hessen. E como os franceses são considerados inimigos da tribo, o alemão poderá ser devorado pelos índios. A única saída para Franz é convencer Pero Dias, um português ganancioso que vive entre os índios, a desfazer a confusão.

Episódio 02 – Escravos no Engenho, Bahia, 1574
O engenho de Fernão Barreto é movido por braços de negros da terra, como são chamados os índios. Mas as fugas constantes, as doenças e as revoltas das tribos das redondezas fazem Barreto repensar a mão-de-obra de sua propriedade.

Episódio 03 – Guerra pelo açúcar, Pernambuco, 1645
Portugueses e brasileiros lutam para livrar Pernambuco das mãos holandesas. Endividado e ameaçado de perder seu engenho, João Azevedo não vê alternativa a não ser fazer negócio com os inimigos. Mesmo correndo o risco de perder sua vida.

Episódio 04 –  Entradas e Bandeiras, São Vicente, 1690
O mameluco Jerônimo domina os segredos da mata. Como guia de uma expedição bandeirante, é ele quem aponta o caminho, decifra os rastros dos animais, encontra comida e água. Jerônimo terá que usar todo o seu conhecimento para salvar a vida do jovem Pedro, seu patrão e meio-irmão.

Episódio 05 – Ouro e Cobiça, Ouro Preto, 1719
O artesão Manuel Correia confecciona imagens de santos. Com um detalhe: as imagens são ocas para esconder o ouro em pó contrabandeado por seu patrão Antônio Vidal. Apaixonado pela escrava Inácia, Manuel está prestes a cometer uma loucura por amor.

Episódio 06 – Leituras Perigosas, Rio de Janeiro, 1794
Membro de uma Sociedade Literária, o cirurgião Manuel Toledo está disposto a burlar o controle da Metrópole sobre a circulação de livros. Ele compra de um contrabandista uma edição das Fábulas de La Fontaine, que pretende fazer chegar ao maior número possível de leitores. Mas as autoridades estão na pista do contrabandista e podem descobrir os planos de Toledo.

Episódio 07 – O Sangrador e o Doutor, Rio de Janeiro, 1820
O ex-escravo Benedito é o maior sangrador e curandeiro da Cidade Nova. Aplica sanguessugas, arranca dentes e corta cabelo como ninguém. Graças a seu talento, consegue curar o rico advogado João Alencar. Mas nem seu talento o livrará de ter que explicar suas praticas religiosas suspeitas.

Episódio 08 – Vida e morte no Paraguai, Tuiuti, 1866
Toda história tem mais de uma versão. Três soldados conhecem três divertidas versões para o ferimento do amigo Alfredo, internado no hospital do acampamento. Mas os soldados vão descobrir que na guerra nada é divertido.

Episódio 09 – Propaganda e Repressão, Rio de Janeiro, 1942
O jovem jornalista Alves tem a oportunidade de conhecer o Estado Novo por dentro ao participar de uma reunião do Departamento de Imprensa e Propaganda. Inteligente, Alves causa boa impressão na reunião. Mas os ideais defendidos pelo DIP parecem não agradar o jovem.

Episódio 10 – O Sonho de Juscelino, Brasília, 1958
Brasília está quase pronta. Sebastião, mordomo do presidente Kubitscheck desde os tempos do Rio, passa o cargo para o jovem Nascimento. Apesar de compartilharem a admiração pelo presidente, os dois mordomos têm visões muito distintas sobre a nova capital.