"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

A Persistência da Cultura do Estupro

Pela primeira vez, casos notificados no País superam os de mortes violentas; preconceito ainda interfere nos registros.
     Pela primeira vez desde que começaram a ser publicados os anuários de segurança pública no Brasil, os números de casos de estupros foram maiores que os de mortes vio­lentas. A taxa média brasileira ultrapassou 26,1 ocorrências por 100 mil habitantes, com 50.617 registros em 2012, contra 42.482 em 2011. Ape­sar do aumento, pesquisadores e profissionais que trabalham de alguma forma com a questão afir­mam que os números ainda estão muito aquém da realidade. De forma geral, as estatísticas policiais são pouco confiáveis, mas para crimes contra a li­berdade sexual, a subnotificação é muito grande, por várias razões. "Parte desse aumento reflete, na verdade, um ganho de consciência e uma mu­dança no trabalho da polícia, que agora é regula­do por uma legislação diferente", diz a socióloga Wânia Pasinato, que há 30 anos pesquisa o tema. A legislação brasileira está melhor do que era des­de a publicação da Lei 12.015, de agosto de 2009, que ampliou as punições para qualquer tipo de coerção sexual. Até então, só era considerado cri­me de estupro quando havia penetração vaginal.
     Qualquer outra agressão era considerada atenta­do violento ao pudor. Hoje, os crimes sexuais es­tão todos sob a denominação de "crimes contra a liberdade sexual", o que permite incluir os ataques que não chegam à penetração, envolvam outros atos libidinosos, agressões verbais e também a ga­rotos - que embora aconteçam em menor núme­ro, são mais comuns do que se imagina. "Como os números de 2012 uniram dois tipos de ocorrências diferentes e os índices de atentado também eram altos, pode estar havendo algum impacto", ressal­va a coordenadora técnica do Fórum Nacional de Segurança Pública, Patrícia Nogueira. Embora sutil, a nova nomenclatura provocou grandes alterações na rotina e no registro dos cri­mes, e também na sua punição. Com a nova lei, uma vítima tem mais chances de ver seu agressor condenado e punido, mas ao mesmo tempo está mais vulnerável do que nunca às distorções pro­vocadas pela mentalidade atrasada que perdura na sociedade, em geral marcada pelo que as fe­ministas estão chamando de "cultura do estupro". Por exemplo, se a vítima estava bêbada no momento do ataque, ou com roupas consideradas provocativas, ou ainda em local ou situação vul­nerável, esses detalhes são citados como atenuan­tes e, na maioria das vezes, desqualificam a vítima que, no limite, acaba sendo culpada pela agres­são que sofreu. "Já li sentenças em que o juiz ar­gumenta que não houve estupro porque a vítima era casada com o acusado e o sexo é uma obriga­ção conjugal", conta alarmada, a advogada Cyn-tia Semíramis, doutoranda na Universidade Fede­ral de Minas Gerais e militante na seção local da Marcha das Vadias.
     Outro problema é que como o texto da lei não de­fine exatamente o que é crime, essa decisão fica nas mãos do policial que atender a ocorrência. Cyntia diz que está no meio do caminho, traba­lhando com os policiais e as vítimas. "A situa­ção dos policiais é ruim, eles sofrem um estres­se grande por conta da militarização da polícia", afirma. Ela diz que há uma violência institucio­nal no treinamento da Polícia Militar, principal­mente, e uma grande cobrança nas duas corpo­rações por metas e resultados. "Ao mesmo tempo eles não têm segurança para trabalhar e moram no aglomerado (favela) ao lado dos bandidos e são hostilizados", diz. Segundo a pesquisadora, mesmo treinado e totalmente consciente de como deve agir, o atendimento não é bom. "Acontece de tudo. Da negligencia até o exagero", diz. Ela conta o caso de um turista italiano preso na pis­cina de um resort na Bahia em 2009 denunciado por estupro. "Ele havia dado um selinho na filha, que estava nadando apenas de calcinha", conta. "A culpabilização da vítima é hoje o maior pro­blema nessa área", diz Haydée Svab, estudan­te na Escola Politécnica de Engenharia da Universidade de São Paulo (Poli/USP), integrante do PoliGen, um coletivo feminista que atua na fa­culdade. Haydée cita o IntegraPoli, uma ginca­na organizada para receber os calouros como a mais pura expressão da cultura do estupro. "Es­tudantes da Poli fazem festas com conteúdos se­xistas e machistas, sempre em tom de brincadeira. A lista de tarefas publicada este ano incluía pro­vas como a piscina do Gugu, em que as calouras deveriam entrar na piscina de biquini e lutar com os veteranos; lavar carro com roupa branca, gra­var um vídeo com um "cumshot surprise" (vídeos em que um aluno ejacula em uma mulher sem o consentimento dela)", conta. A festa virou notícia por conta de uma prova bizarra, que consistia em construir uma metralhadora para atirar elásticos ao vivo em calouras vestidas apenas de biquini. O caso ganhou visibilidade nos jornais, provocou escândalo e a direção da Poli suspendeu o evento temporariamente. "Eles refizeram a lista, retiran­do as provas mais polêmicas, mas isso não sig­nifica que elas deixaram de existir. Na verdade, foram abafadas", conta a militante. A única me­dida foi contratar prostitutas para o banho na ba­nheira do Gugu. O IntegraPoli ocorre em março. Em agosto, na festa junina realizada pelo Centro Acadêmico, outro escândalo, desta vez por con­ta da barraca do tapa, uma versão torta da barra­ca do beijo. "Eles xingam a garota violentamente para que ela fique com raiva e pague para dar um tapa na cara do cara", conta Haydée. Organizações feminis­tas e alunas reagiram mal, o caso novamen­te ganhou visibilidade - desta vez por meio de um relato publi­cado no Facebook - e a direção do Centro Académico de Mecânica e Mecatrônica, respon­sável pela barraca, publicou uma nota de esclarecimento. Segundo o texto, os excessos foram promovidos por uma minoria e não são aprova­dos pela direção. Uma desculpa, já que o texto do convite da barraca é uma apologia ao preconcei­to e a discriminação de mulheres:
"Você já foi taxada de vagabunda pelos seus colegas de classe? (...)
Aquele babaca já te chamou de gorda? (...)
A sociedade te menospreza pelo simples fato de ser mulher? (...)
Se sim, saiba que nós, do CAM, incentivamos e apoiamos todos esses tipos de práticas que dei­xam vocês, mulheres, putas da vida."

"Cu de Bêbado(a) Tem Dono Sim!"
     A frase acima tornou-se o bordão dos coletivos feministas da USP e título de uma tese de mestrado de uma aluna que aborda a questão. Como um microcosmo social, a Cidade Univer­sitária reflete o modo como a sociedade, de uma forma geral, trata da questão. Durante a apura­ção foram ouvidos vários relatos de casos ocor­ridos há poucos dias, em conversas informais com alunos, professores e funcionários, como o de uma professora que teria sido arrastada para uma obra do campus e atacada em ple­no sol de meio dia. Ou de ocorrências em fes­tas com alunas embriagadas, que são estupra­das por mais de um colega. "O bêbado é considerado, pela le­gislação, um incapaz e, portanto, esses ra­pazes cometeram cri­me, mas a sociedade considera que o erro é da garota", diz Sil­via Pereira de Cas­tro Casa Nova, mili­tante do Genera, um grupo da Faculdade de Economia e Adminis­tração da USP de pesquisa em género e raça. Nenhuma dessas ocorrências, no entanto, mes­mo as que foram constatadas pela comuni­dade, chegaram a ser registradas ou, se gera­ram algum registro, não foram investigadas.
     O último caso com esse enredo e noticiado na imprensa aconteceu no início do ano na Es­cola de Engenharia de Lorena, da USP, durante uma festa de república e entre amigos de classe. "A garota só entendeu que havia sido vítima de um crime depois de conversar conosco. Até en­tão, ela estava se sentindo mal, mas achava que a culpa era dela, por estar na república onde foi atacada e ter bebido mais do que devia", con­ta a estudante de ciências sociais Paula Kauf­mann, que faz parte da Frente Feminista da USP, criada em 2010 para tentar reduzir o número de casos e ampliar o debate em torno da ques­tão. "A primeira coisa que queremos é ter acesso às estatísticas, o que é importante para adotar medidas de controle", diz.
     Segundo Silvia, o Serviço de Assistência So­cial (SAS) tem dados sobre ocorrência não ape­nas de estupros, mas de vários tipos de violência cometida contra mulheres no campus. "Também são parciais, mas eles existem. O SAS administra o Crusp (Conjunto Residencial da USP) e é lá que acontece a maior parte dos casos", explica Silvia. Mas Paula reclama que esses dados não são divul­gados para a comunidade. "Não sei por que. Aqui atendemos, em média, dois casos por mês e elas nos procuram porque não há outra opção. É um número alarmante", avalia. Paula explica que a Frente é a reunião de todos os coletivos feministas da USP e foi criada para fortalecer o movimento e tentar mudar a situação. Hoje existe uma pauta de reivindicações em curso, que prevê a melhora da iluminação do campus, corte da vegetação rasteira e um plano de treinamento da guarda universitá­ria para atender as ocorrências. "Além de despreparada, a guarda é impedida de fazer a seguran­ça pessoal, pois o estatuto diz que ela foi criada para fazer a segurança patrimonial apenas", ex­plica Paula. A iluminação está sendo instalada.

Denúncias Crescem Mais
     A cientista política Natália Fontoura, pesqui­sadora da Coordenação de Igualdade de Género e Raça da diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisas e Econômicas Aplicadas (Ipea), diz que nos últimos anos surgiram reflexões interessantes que os nú­meros dos anuários ajudam a intensificar. "A discussão da cultura do estupro, em que o acesso ao corpo da mulher pelo homem é vis­to como natural e que não depende de con­sentimento, está vindo à tona e isso ajuda a aumentar a conscientização", diz. Inclusive das próprias mulheres, que segundo a pes­quisadora acabam assumindo posições ma­chistas e equivocadas. "O caldo cultural ser­ve para todo mundo. Muitas mulheres sequer percebem", conta. Ela cita uma pesquisa so­bre cantadas. "É considerado natural o fato de uma mulher não poder circular com a roupa que quer em qualquer lugar. Ou des­viar o caminho para não passar por grupos de homens em posturas agressivas", expli­ca. Movimentos como a Marcha das Vadias, que cresceu nos últimos anos, esclarecem o equívoco e também podem estar influen­ciando os números apresentados pelo fórum.
     Patrícia, a coordenadora do fórum, explica que foram tomadas várias medidas para tentar me­lhorar a qualidade dos dados e diminuir eventu­ais distorções nos resultados provocadas por fa­lhas na apuração. "Fizemos uma classificação por grupos de dados, com duas variáveis; a primei­ra sobre a qualidade da alimentação de dados pe­los estados do Sistema Nacional de Estatísticas de Segurança Pública e, a segunda, relativas à for­ma como os bancos de dados estaduais são cons­truídos", explica. Os dados recolhidos são com­parados com outras fontes, de forma a criar uma referência. Com relação às denúncias, os núme­ros de registros no sistema foram cruzados com o levantamento do Ligue 180, voltado para de­núncias de violência contra mulher. "Esse sistema tem registrado aumentos ano a ano e entre 2011 e 2012, o número de denúncias especificamente de violência sexual aumentou 66%", conta. O que para ela é um sinal claro de que a cons­cientização está crescendo no Brasil.
     Cyntia também aponta o aumento da cons­cientização, em especial entre as meninas das novas gerações, que engrossam as fileiras de movimentos como o Marcha das Vadias. Mas também vê o crescimento de grupos conser­vadores, ligados principalmente às igrejas neopentecostais. "Eles têm forte influência sobre as novas gerações e colocam a mulher ideal como a santa, que deve ser submissa ao homem, não tem direito ao prazer e só se re­laciona sexualmente para ter filhos", conta. Um quadro que gera grandes debates, mas ao mesmo tempo, em vez de promover a aproximação, reforça e acirra os conflitos entre homens e mulheres. 
Lilian Primi é repórter freelancer at Editora Abril, Revista PIB, Carta Capital.

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terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pisando no "sexo frágil"

Ainda na passagem para o século XX, as mulheres eram alvo de descrédito em suas lutas pela emancipação. Depois de tanto lutar, elas hoje ocupam 41 % do mercado de trabalho.
Rachel Soihet
      Nas últimas décadas do século XIX, a Revista Ilustrada, comandada por Ângelo Agostini, era uma das publica­ções mais importantes do país. Com grande aceitação popular, publicava artigos bem-humorados e irônicos que defendiam posições po­líticas avançadas para a época, contra a escravidão e o conservadorismo do governo imperial. Mas, co­mo se pode ler num de seus editoriais, intitulado "Com as damas", de 1886, a situação da mulher e sua reivindicação por maior participação na socie­dade não eram vistas com bons olhos, merecendo até mesmo tratamento caricato:
     "Não será da nossa parte que as legítimas aspira­ções do sexo gentil, da mais simpática e apreciável metade do gênero, encontrarão qualquer embaraço, por mais insignificante que seja, à sua justa expansão. Confiamos muito no bom senso e na inteligência ser­vida pela educação para recear que as mães, as irmãs e as esposas, abandonando a serenidade dos lares, se atirem à política e aos meetings, obrigando-nos a velar pela cozinha e pelos recém-nascidos. Não! A mu­lher manter-se-á na órbita que lhe convém e, se algu­ma exceção houver, estamos certos que esse papel fi­cara reservado às sogras."
     A emancipação feminina era vista pelos mais di­versos setores sociais e tendências políticas co­mo grave ameaça à or­dem estabelecida, e o predomínio masculino encontrava legitimidade até no pensamento cien­tífico da época. A filosofia considerava que a infe­rioridade da razão entre as mulheres era fato incontestável, cabendo a elas apenas cultivá-la na medida necessária ao cumprimento de seus deve­res naturais: obedecer ao marido e cuidar dos fi­lhos. A medicina do século XIX afirmava que a fra­gilidade, o recato e o predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais eram características biologicamente femininas, assim como a subordi­nação da sexualidade ao instinto maternal. Em oposição, o homem somaria à sua força física uma natureza autoritária, empreendedora, racional, e uma sexualidade sem freios.
     O recurso da ironia e da comédia foi um pode­roso instrumento para desmoralizar a luta pela emancipação feminina e reforçar o mito da inferioridade e passividade da mulher.
Numa crônica maliciosamente intitulada "Emancipada" (revista Careta, Rio de Janeiro, 20/2/1909), depois de ressaltar de forma grotes­ca a inversão dos papéis naturais de cada sexo, faz-se quase um alerta lançando mão de um desfecho trá­gico: os homens teriam de "velar pe­la cozinha e pelos recém-nascidos". Madame Linhares, após um longo dia no escritório, encontra a casa em polvorosa: "Os meninos ainda não haviam jantado (...) por­que o Cazuza Linhares não havia acertado com o meio de fazer a sopa e o assado." O Cazuza, que fi­cara em casa tomando conta dos filhos, presta con­tas à esposa de suas dificuldades, informando que já vinha há três horas tentando sem sucesso prepa­rar o jantar. O diálogo que se segue acentua a sub­serviência do marido e o autoritarismo da mulher. Era a inversão do quadro habitual, o horror que ameaçava as famílias de bem:
-   Tambêm você para nada presta.
-   Mas, Milu, se eu nunca aprendi a fazer isso...
-   E o que foi que aprendeu, não me dirá? O se­nhor é um imprestável.
-   Mas Milu...
-   Cale-se homem, cale-se! (...) Irra! Molenga! Banana! Pastelão!
-   Eu só queria ver você na cozinha...
-   Sim? Queria? Pois esse gosto não há de ter, meu caro. Então eu, uma mulher superior, vou lá me ocupar com esses cuidados domésticos...
-   E as crianças?
-   Pois aí não tem queijo? Não tem pão? Vá ferver água para o chá.
-   Chá, pão e queijo? Mas isso é lá um jantar?
-   E basta. Também você só cuida da barriga (...). E passará a dormir na sala de visitas durante três meses. É para ensiná-lo a respeitar uma mulher emancipada.
     Apesar do tom de galhofa, essa abordagem não estava tão distante da adotada por criminalistas e médicos da época, que alertavam para o perigo re­presentado pelas mulheres intelectualizadas. No Rio de Janeiro, vários médicos concordavam com essas afirmações. Comentando os motivos que levariam a mulher a cometer o terrível crime do infanticídio, o Dr. Augusto Militão Pacheco aponta as "mulheres originais", distintas das demais "pela extrema devassidão (...) pelo gosto infrene de pintar, escrever, viajar etc." Interessante notar que são en­quadradas, em primeiro lugar, a mu­lher infiel e, em segundo, a emanci­pada. Para grande parte dos estudio­sos em comportamento da virada do século XIX para o XX, a intelectual emancipada era mau exemplo para as outras mulheres, pois faria com que acreditassem que poderiam so­breviver sem o auxílio do marido. Ao se recusarem a restringir seu univer­so à maternidade e ao lar, desprezando suas funções naturais, essas mulheres de comportamento dife­renciado seriam a fonte de todos os flagelos sociais.
     Nenhum meio foi desprezado na difusão do princípio de que os cui­dados com os filhos exigiam que a esfe­ra feminina fosse aquela da casa, nessa campanha desenvolvida, a fim de salvaguardar os privilégios masculinos, incluin­do a música carnavalesca. Deixava-se claro que, além dos males acarretados aos filhos, a competi­ção, que se desenvolveria entre homens e mulheres, prejudicaria o relacionamento conjugal, levando à ruína a instituição do matrimônio. As ideias con­trárias ao feminismo circulavam também nas cama­das populares, e o papel de provedor, destinado aos homens na organização patriarcal, constituía-se em ideal que não escapava a todas as camadas, embora dificilmente se concretizasse.
     A charge foi um recurso muito utilizado para ri­dicularizar o movimento de emancipação feminina. O caricaturista Raul Pederneiras, que teve grande atuação na imprensa do Rio de Janeiro, foi um crí­tico implacável das mulheres que pretendiam am­pliar seu espaço de atuação na sociedade. Entre as cenas que privilegiava, buscava realçar a incompati­bilidade entre o exercício de atividades extradomésticas (o trabalho em especial) e as funções de mãe.
     Numa caricatura intitulada A mulher polícia, observa-se uma mulher gorda, pesadona, de rosto carrancudo, vestida com uniforme policial, en­quanto amamenta uma criança de colo. O conjun­to pretende denunciar o caráter grotesco da situa­ção, já que a figura está longe de representar a idea­lização difundida da fragilidade e docilidade das mães. A policial é instada por um homem a tomar uma medida, o que é mostrado, não apenas pela postura dele na figura, como na frase: "Acuda!... es­tão apitando lá fora!" Ao que ela responde: "Não vê que estou presa?" O autor, assim, procura desmora­lizar as pretensões das mulheres de acumular duas funções, de mãe e de profissional, demonstrando sua impossibilidade e o perigo que representa para a sociedade confiar nelas.
     O grande J. Carlos, por sua vez, costumava retratar em suas charges personagens femininas dos segmen­tos superiores - mulheres sedutoras, extremamente sofisticadas e ocupadas com a aparência. Mas a preo­cupação com o avanço do feminismo está demons­trada em pelo menos dois de seus trabalhos. Num de­les (na página 16), denominado Emancipação (revista Para Todos, 1926), um pai aparece sentado, totalmen­te rendido ao cansaço, segurando um bebé ao colo com a infalível mamadeira. Em torno dele, brinque­dos espalhados e três crianças entregues às mais di­versas travessuras. Elegante, a mãe chega então com um chapéu masculino na cabeça, indiferente à confu­são. A segunda caricatura (na mesma página 16), Mater Dolorosa (revista Fon-Fon, 1935), mostra tam­bém um homem abatido ao lado do bebé, cercado de grande quantidade de brinquedos espalhados.
     Raul Pederneiras, porém, aponta a solução para esses problemas. Em seu álbum Cenas da vida ca­rioca, de 1926, há um painel de quatro caricaturas representando um dia na rotina de uma mulher. Um deles, intitulado Dia útil, mostra justamente uma mulher com o filho ao colo, mexendo uma panela no fogão - a imagem perfeita para a boa or­dem da sociedade, segundo o ideal masculino. Havia, portanto, que alertar para os perigos da par­ticipação feminina em esferas consideradas do do­mínio dos homens, expondo-os a situações incom­patíveis com sua natureza.
     Mas não apenas a questão da profissionalização feminina mereceu severas críticas. As demais reivindicações do género, com vistas ao exercício da ple­na cidadania, particularmente a luta pelo voto, eram objeto de chacotas, com o propósito de ri­dicularizá-las. Um exemplo é a crónica "Mais uma reivindicação femi­nina" (revista Fon-Fon, 4/1/1908): "Já não são so­mente nas profissões, já não se limitam aos direi­tos civis e políticos; não param também nos vestuários as reivindicações das nossas ar­dentes feminis­tas. Há uma tendência pronunciada para usar coisas até agora permitidas ao sexo feio. É assim que bre­vemente aparecerá uma obra da ilustrada senhora X... reivindicando o direito de senhoras usarem barbas também."
     Por trás dessa piada sobre a pretensão feminina de usar barba parece estar a intenção de sugerir que a feminista é uma mulher ansiosa para não só assu­mir papéis considerados privativos dos homens, mas também seus atributos físicos. Para terminar, o autor destaca mais uma das alegadas fraquezas da mulher: "(a barba) servirá (...) para demonstrar a falsidade da alegação de que toda mulher é tagarela, pois necessariamente terão de ficar caladas, ao me­nos enquanto fizerem a barba".
     Alguns autores tentaram manifestar sua oposição às mudanças pretendidas pelas feministas apelando para um tom cavalheiresco, beirando a pieguice: "Não concebo a mulher fora do seu ciclo, apostro­fando os deuses ou discutindo a origem das espécies. Ela foi feita para domar o homem. Que será da hu­manidade no dia em que ela, rasgando o peignoir de rendas (...) sair para a rua, não mais com a leve som­brinha de seda, mas com o humilhante cacete do ca­panga eleitoral? Desaparecerá o encanto dos salões, a alma da paisagem, o amor do lar..." Repetem-se ve­lhos estereótipos sobre a importância de os diferen­tes atributos dos homens e mulheres serem respeitados - um conceito presente na religião, aprimorado pelos filósofos iluministas e adotado pela ciência da época. No fim, a crónica adota um tom vulgar: "Só (...) as muito feias hão de querer se emancipar... coi­tadas! As bonitas não (...). Que nos importa as feias! Salvem-se as belas, que a humanidade se aperfeiçoa­rá." ("Páginas da Cidade" Careta, 11/1/1919).
     A necessidade de a mulher ser bela é sempre res­saltada. Algumas crónicas propõem estratégias para a superação desse obstáculo, a fim de garantir às feias a possibilidade do casamento, única aspiração feminina considerada legítima pela mentalidade machista da época. Em certo artigo, a atuação das militantes brasileiras é atribuída à ociosidade: "Se não tiverem com o que se distrair em casa, vão para as fábricas, namorem ou façam-se telefonistas." Para finalizar, a suprema ameaça: "Se persistirem nessas bobagens... ficarão todas solteironas, o que é o dia­bo!" (Careta, 2/2/1918).
     Outro cronista propõe com sarcasmo que sejam realizados "leilões matrimoniais", recurso útil para que as moças feias tivessem mais chance de conse­guir o casamento: "Talvez fosse esse o único, excelente, maravilhoso meio de acabar duma vez com as sufragis­tas, as literatas, as neurastênicas, as cochichadeiras e as beatas, horríveis espécies femininas nascidas da classe imensa, descontente, vingativa e au­daz das vieilles filies" ("O leilão das moças", Fon-Fon, 5/1/1918). A curio­sa conclusão é que a mulher não agraciada com a beleza, vendo-se re­legada à humilhante situação de sol­teirona, a vieille filie, buscaria vin­gança questionando sua condição e aderindo aos movimentos de emancipação.
     Em outra caricatura de Raul Pederneiras, intitu­lada Miss Alma, tipo feminista, vê-se uma mulher magra e feia usando cha­péu e sapatos masculinos e portando um livro - estereótipo da intelectual solteirona. E outra mulher mais gorda, de ar arrogante, apresenta as mesmas características: feiúra, masculinização e o inevitável livro. Não é de admirar que esse tipo seja classifica­do na seção "Sapatos".
     Apesar desse bombardeio, mais e mais mulheres reagiam no sentido de alterar sua posição relativa às esferas pública e privada. Não poucas assumiam abertamente a campanha pela obtenção de seus di­reitos. Organizaram-se em associações; faziam pro­nunciamentos públicos, utilizando-se fartamente da imprensa; buscavam apoio de lideranças nos diversos campos, constituindo grupos de pressão para garantir apoio de parlamentares e de outras autoridades, da imprensa, da opinião pública etc. Mas, apesar disso, em sua maioria, procuravam revestir seu discurso com um tom moderado. Não apenas porque consideravam que esta seria a forma adequada de expressão feminina, mas, igualmente, por estratégia política.
     Curiosamente, uma revista mensal dirigida por uma mulher que contava com a colaboração de figuras destacadas da época, como a poetisa Cecília Meireles e até militantes do movimento feminista, a Única, e que publicava artigos sobre literatura, arte, elegância e sociologia, noticiava a invasão das pistas de corrida de cavalo e dos quarteirões elegantes de Londres por "mulheres apaches" de porte másculo e bem vestidas, pertencentes a um grupo cujo nome bizarro seria Bando dos Quarenta Elefantes. "Tais criaturas dedicam-se ao roubo nos grandes estabeleci­mentos, à violação das fechadu­ras, à chantagem e até ao assalto a mão armada... resultado dos direi­tos equiparados da mulher" ("Feminismo e suas desvanta­gens", outubro de 1925).
     Essa maneira debochada de apresentar as mulhe­res empenhadas na luta por direitos questionava a seriedade de certas preocupações femininas. Em consequência, não foram poucas as mulheres que rejeitaram o feminismo e adotaram o discurso con­servador, sempre presente nos diversos meios de co­municação, que acusava o movimento de ser in­compatível com o ideal vigente de beleza, meiguice, paciência e resignação, e identificava as mulheres engajadas como viragos, pesadas como elefantes, perigosas e inclinadas a cometer atos criminosos.

Rachel Soihet é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e autora de Condição feminina e formas de violência. Mulheres pobres e ordem urbana (1890-1920). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

Saiba Mais: Bibliografia
ALVES, Branca Moreira. Ideologia e feminismo. A luta da mulher pelo voto no Brasil. Petrópolis: Ed.
Vozes, 1980.
HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino - a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850/1940, Editora Mulheres/Unisc, 2003. 

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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Uma pedagogia poética para as crianças

Entrevista ao INTITUTO ALANA, em que Severino Antônio é conselheiro do projeto PRIORIDADE ABSOLUTA, sobre defesa da criança e do jovem.
A conversa sobre a escuta da criança como sujeito de direitos, como autora de ideias, palavras e imagens, está interligada à obra UMA PEDAGOGIA POETICA PARA AS CRIANÇAS, de Severino e Katia Tavares, publicado em 2013, pela editora Adonis, que já se encontra em 3ª edição.
"Quando nós cuidamos da criança, escutamos a sua voz; quando nós reconhecemos sua interpretação criadora do mundo, nós aprendemos muito com ela. Nós aprendemos empatia! Empatia é fundamental como recusa das violências, das indiferenças, das brutalidades…" (Severino Antônio)


À venda no site:
http://www.editoraadonis.com.br/loja/produto/uma-pedagogia-poetica-para-as-criancas-237

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

O Brasil e sua fama

Lúcia Murat é cineasta, diretora de “Quase Dois Irmãos” e “Olhar Estrangeiro”, documentário que retrata as várias idealizações que o cinema mundial faz em torno do Brasil. Baseando-se no livro O Brasil dos gringos, imagens no cinema, de Tunico Amâncio, Lúcia entrevistou grandes diretores, roteiristas e produtores responsáveis por filmes como “Feitiço do Rio” – em que as praias cariocas são povoadas por macacos e moças de topless – e “Amazônia em chamas”, sobre a vida do seringueiro Chico Mendes, no qual todos os brasileiros falam inglês com sotaque espanholado. Ela contou para a Revista de História como as fantasias que existiam em torno do nome Brasil foram perpetuadas e acentuadas pela indústria cinematográfica. Principalmente no que diz respeito à sensualidade.

Revista de História - Você acha que esse paraíso perdido chamado Brasil é uma invenção do cinema mundial?
Lúcia Murat - Não. O que nós vemos é uma repetição da carta de Caminha, com imagens do paraíso, da mulher sensual, “com as vergonhas expostas”. E isso se desdobra de maneira diferente. Há desde filmes europeus, em que essas imagens são tratadas de forma mais carinhosa, até produções um tanto picaretas e agressivas, que acabam vendo o Brasil com um misto de desprezo e admiração. O clichê é o mesmo, mas as abordagens são diferentes. Em “Feitiço do Rio”, o roteirista Larry Gelbart coloca um monte de gente seminua numa praia, com macaquinhos nos ombros, e inventa o que ele chama de “casamento à brasileira”, que é uma mistura de candomblé com uma aparente suruba. Em suma, uma visão totalmente preconceituosa.

RH - Você pode citar outros exemplos?
LM - O filme “Orquídea Selvagem” mostra os negros pela ótica da sensualidade. Eu também gostaria muito de ter feito uma entrevista com o grupo inglês de comédia Monty Python, que fez um filme sobre vikings que viajam para um paraíso repleto de mulheres e frutas chamado Brasil. Esse eterno clichê não surge do nada. Ele é a exacerbação de um aspecto que às vezes é acentuado pelos próprios brasileiros, como no caso das mulatas que dançam no exterior.

RH - Como assim?
LM - É um processo infindável. Existe a expectativa de que o país seja uma terra de fantasias. Você chega lá fora, quer ganhar dinheiro e acaba por reforçar isso. Às vezes, nós gostamos de nos vender de acordo com o que o olhar estrangeiro quer ver.

RH - Esses clichês têm ficado mais exacerbados nos últimos tempos?
LM - Eu sinto isso, principalmente no quesito da sensualidade. Mas vale lembrar que eu trabalhei apenas com filmes de ficção. Se pegarmos os documentários que retratam o Brasil, vem à tona a ideia de violência. Mas essa visão não é suficiente para que se crie uma outra imagem de Brasil. Quando saí nas ruas da Europa para fazer entrevistas aleatórias, perguntando às pessoas o que elas sabiam sobre o país, a visão predominante foi a do paraíso perdido, do sexo, do país onde ninguém trabalha, onde a vida é uma festa. Isso porque a maioria dos filmes de ficção busca reforçar os clichês.

RH - Você acha que a indústria cinematográfica pretende criar outra terra encantada?
LM - Acho que ela não quer descartar esse paraíso chamado Brasil. É óbvio que, à medida que a globalização se acentua, fica cada vez mais difícil lidar com essas idealizações, pois as pessoas viajam mais e acabam conhecendo outros países. Quando o Brasil era um país totalmente desconhecido, acessível somente por navio, era mais fácil que se fantasiasse. Hoje, há cada vez mais pessoas que conhecem Rio e São Paulo. A impressão que me dá é que esse paraíso selvagem vai acabar sendo deslocado para a Amazônia.

Direção: Lúcia Murat
Ano: 2006
Áudio: Português
Duração: 69 minutos