"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Delfim Moreira - Epitácio Pessoa

Presidente por acaso
Chamado a governar no impedimento do presidente eleito, o vice Delfim Moreira não teve tempo nem disposição para realizações.
Fabiano Vilaça dos Santos
     Aos trin­ta minutos do dia 16 de janeiro de 1919, Rodrigues Alves, último conselheiro do Império eleito pre­sidente da República, faleceu víti­ma da implacável "Espanhola". Restou ao vice, Delfim Moreira, um mineiro sem aspirações à Presidência e tido por apático e desinteressado dos negócios de Estado, ocupar temporariamente o Catete. Seu governo, apelidado de "regência republicana" - em alusão às regências no Império -, durou apenas oito meses e 16 dias e foi marcado pelas negociações sobre quem seria o verdadeiro su­cessor de Rodrigues Alves e por uma onda de greves operárias.
      Delfim Moreira da Costa Ri­beiro nasceu em Cristina, sul de Minas Gerais, em 7 de novem­bro de 1868. Filho de Antônio Moreira da Costa (1842-1903) - português que tra­balhou como caixeiro antes de se tornar proprietário de terras - e de Maria Cândida Ribeiro (1844-1921), come­çou os estudos no Colégio Padre Francisco Fraissat, em Santa Rita do Sapucaí, passan­do depois para o Colégio Men­donça, na vizinha Pouso Alegre. Quando cursava Letras no tra­dicional Seminário de Mariana, "Delfinzinho" passou por uma experiência que se transformou em lição para os filhos. Conta a paren­te distante Luzia Rennó Moreira -realçando os valores do antepassa­do - que um dia, voltando para ca­sa acompanhado de um amigo, Delfim perdeu todo o dinheiro da­do pelo pai para as despesas da viagem. Para se refazer, foi à fazen­da da família do companheiro de seminário, recebendo de sua mãe um farnel para completar a jorna­da. Afoito, comeu toda a carne e deixou o restante, que se estragou, mas nem assim foi jogado fora. Por isso, toda vez que um filho re­clamava da comida, Delfim repe­tia: "comam, meninos, nada faz mal, pois não estão vendo que quem comeu até arroz azulado aqui está rijo e forte!".
     Em 1886, após os preparató­rios no Colégio Joaquim Carlos, em São Paulo, entrou para a Fa­culdade de Direito do Largo de São Francisco. Republicano con­victo, declamava trechos do Mani­festo Republicano de 1870 e repe­tia de cor os nomes dos seus signa­tários. Militante, criou com os amigos Pinto de Moura e Estevão Lobo Leite Pereira, em 1888, os jornais Vinte e Um de Abril e República Mineira, participando também da fundação do Clube Republicano Acadêmico Mineiro, ao lado do primo Wenceslau Braz e de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada. Formado em 1890, casou-se no ano seguinte com Fran­cisca Ribeiro de Abreu (1873-1965), sua prima, com quem teve seis filhos. Construiu sua carreira entre Santa Rita do Sapucaí e Pouso Alegre, como promotor público e juiz. Mas logo a política seduziria definitivamente o mineiro "alto, magro, de bigode dis­creto e bem aparado", descrito pe­lo historiador Fábio Koifman.
     Eleito vereador em Santa Rita do Sapucaí, ocupou a presidência da Câmara municipal e foi depu­tado estadual entre 1894 e 1906. Neste ano, convidado para a secre­taria do Interior de Minas, preferiu uma vaga no Senado. Mas, em vez de comemorar a ascensão política, caiu em depressão - tinha 38 anos e acreditava que senadores deviam ser mais velhos e experientes. Re­colhido em uma propriedade da família, passou meses se "transfor­mando" em um homem à altura do cargo: não cortava os cabelos nem aparava a barba. Quando vol­tou para casa, disse a d. Maria Cândida: "Venha, minha mãe, cor­tar os cabelos deste velho senador". Estava pronto para tomar posse, dois anos depois de eleito.
     Em 1914, chegou à presidência de Minas pelo Partido Republica­no Mineiro (PRM) e concentrou esforços em duas áreas considera­das vitais: instrução pública e de­senvolvimento agrário. Para tanto, criou escolas técnicas e estimulou a imigração - com a República, a po­lítica de incentivo à vinda de es­trangeiros ficou a cargo dos esta­dos. Alertado por seu secretário de governo, Raul Soares de Moura, sobre os altos empréstimos para a promoção do ensino e da agricul­tura, Delfim teria dito: "Quando em Minas não houver um analfa­beto e na terra fertilíssima toda a gente souber manejar uma ferra­menta, haverá trabalho para todos, e com ele prosperi­dade, bem-estar e riqueza", conta Lu­zia Rennó Mo­reira. Mais que ex­pressões de um go­vernante preocu­pado com seu esta­do, suas palavras refletem o estágio de desenvolvimento da economia brasileira, ainda muito dependente da produção agrícola.
     Delfim ficou mais perto do Catete quando as principais oligar­quias do país começaram a deba­ter a sucessão de Wenceslau Braz (1914-1918). São Paulo se esfor­çava para emplacar a candidatura de Rodrigues Alves, considerado o político ideal para guiar o país na conjuntura do final da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e le­var adiante o esforço de recupera­ção econômica promovido por Wenceslau (ver Presidentes da 1ªRepública - Wenceslau Braz). Rodrigues Al­ves tornara-se res­peitado por ter se destacado como ministro da Fa­zenda em dois momentos críti­cos: durante a "crise do encilhamento" e na for­mulação do acordo financeiro conhecido como funding loan (ver Presidentesda 1ª República - Campos Salles).
     Em meio às negociações entre os líderes dos estados interessados na sucessão, o nome de Delfim Moreira chegou a ser cogitado por Nilo Peçanha, presidente do Rio de Janeiro, e por Francisco Antônio de Salles, influente político minei­ro. Mas, segundo a historiadora Cláudia Viscardi, a indicação não emplacou nem mesmo em Minas, tanto que o nome de Rodrigues Alves foi acolhido pelo grupo di­verso de Francisco de Salles após contatos entre o presidente de São Paulo, Altino Arantes (1876-1965), e o mineiro Sabino Barrozo (1859-1919), ex-ministro da Fazenda.
     A indicação de Rodrigues Alves para presidente e Delfim Moreira para vice acabou sendo uma solu­ção de conciliação entre paulistas e mineiros. De qualquer modo, nas fontes consultadas não há qual­quer indício de que Delfim tenha se entusiasmado quando seu nome foi apontado como possível candi­dato à Presidência, o que reforça a imagem de um governante indis­posto com o cargo. As eleições aconteceram em 1º de março de 1918, ficando a posse marcada pa­ra 15 de novembro. A vitória de Rodrigues Alves apenas confirmou as negociações entre as principais oligarquias do país, mas nos basti­dores do poder corria à boca miú­da que o conselheiro em breve en­tregaria a alma ao Criador - alguns achavam que ele morreria antes da posse. O que por pouco não acon­teceu. Com a saúde frágil desde a presidência de São Paulo (1912-1916) e prestes a completar setenta anos, Rodrigues Alves não resistiria à gripe espanhola contraída menos de um mês antes da posse.
     Declarando-se impedido de ocupar o cargo, o conselheiro se dirigiu, em carta, ao Congresso Nacional e conclamou Delfim Moreira a assumir como vice-presidente em exercício, conforme a Constituição. O fardo indesejável começava a pesar nos ombros do mineiro que, aos cinquenta anos, também não era saudável - consta que sofria havia alguns anos de um tipo de arteriosclerose. Mas a mor­te de Rodrigues Alves não lhe dei­xou alternativa. Delfim teve que governar até a realização de nova eleição, o que segundo a Carta de 1891 deveria acontecer em um ano.
     Os aborrecimentos não foram poucos nos oito meses de gestão, a começar pelos enfrentamentos com a equipe ministerial, montada pelo presidente moribundo, que não lhe foi amigável nem lhe deu paz. Antes mesmo da morte do conselheiro, o potiguar Amaro Cavalcanti (1851-1922), ministro da Fazenda, e o mineiro Afrânio de Mello Franco (1870-1943), da Via­ção e Obras Públicas, já andavam às turras disputando quem man­dava mais no governo. Diante da briga de egos, Delfim tomou uma resolução firme, talvez a única no período: ou governava com minis­tros "mais dóceis" ou se retirava para Minas. A solução foi a substi­tuição do titular da pasta da Fa­zenda, no dia seguinte à morte de Rodrigues Alves, pelo mineiro João Ribeiro (1863-1933), amigo do vi­ce-presidente em exercício. O "vencedor" da contenda, Afrânio de Mello Franco, tornou-se o ho­mem forte do país, pois o enfadado Delfim deixou para o conterrâneo a responsabilidade das decisões. Por isso, aqueles oito meses tam­bém ficaram conhecidos como o "consulado Mello Franco".
     Apaziguados os ânimos no mi­nistério, 1919 reservava dissabores mais do que suficientes para um presidente que não teve tempo nem disposição para realizações - o senador gaúcho Soares dos San­tos chegou a dizer que Delfim era homem de "inteligência abaixo do medíocre e tão incompetente co­mo nulo". Os acontecimentos mais relevantes se resumiram às obras de remodelação da capital promo­vidas pelo prefeito Paulo de Fron­tin (1860–1933). 
     O país vivia um clima de in­tranquilidade gerado por inúme­ras greves operárias, sobretudo no Rio de Janeiro e em São Paulo, in­tensas desde 1917. E para isso con­tribuiu a ação de anarquistas e de comunistas, em muitos casos es­trangeiros que chegaram no período da Grande Imigração.  Além da atuação nas paralisações, os libertários di­vulgavam suas ideias em diversos jornais operários e fundaram, em junho de 1919, um Partido Comu­nista do Brasil. A mobilização dos trabalhadores por direitos, como a jornada de oito horas diárias de trabalho, levou a manifestações de peso. Nas comemorações do 1º de maio de 1919, segundo fontes ope­rárias, mais de 50 mil trabalhado­res teriam se reunido na Praça Mauá, na zona portuária da capi­tal. Cinco dias depois, lideranças proletárias apresentaram uma pe­tição a Delfim Moreira, cobrando uma posição do governo sobre a jornada de oito horas. Em res­posta, o presidente encaminhou uma mensagem ao Congresso que nomeou uma Comissão de Legislação Social. Mas as greves continuaram pressionando os patrões e o governo, que reagiu com prisões e deportações de anarquistas e de comunistas.
     Além da conturbada situação socioeconômica, nos corredores do poder negociava-se a indicação do verdadeiro sucessor de Rodri­gues Alves. Rui Barbosa ou Epitá­cio Pessoa? Depois da morte do conselheiro, São Paulo desejava emplacar a candidatura de Altino Arantes. E Minas, que se achava na si­tuação com Delfim, não queria que os paulistas tomassem a dian­teira. Como mostra Cláudia Viscardi em importante trabalho de revisão da "política do café-com-leite", a indicação de Rui Barbosa (1849-1923), apoiado por Rio, Ba­hia, Santa Catarina e Mato Gros­so, acabou enfraquecida, abrindo espaço à candidatura do paraibano Epitácio Pessoa (1865-1942). Desejado pelos mineiros e rejeita­do pelos paulistas, sua vitória foi possível graças à adesão do Rio Grande do Sul.
     Epitácio Pessoa, o verdadeiro sucessor de Rodrigues Alves, to­mou posse em 28 de julho de 1919. Mesmo depois de lhe entre­gar o cargo, Delfim continuava no direito de ser vice até 1922 e de ocupar a presidência do Senado. Mas, com a saúde abalada, decidiu encerrar a carreira política - sendo substituído por Francisco Álvaro Bueno de Paiva (1861-1928) - e voltar para Santa Rita do Sapucaí, onde ainda sofreu a perda da filha Alzira, em janeiro de 1920. Seis meses depois Delfim Moreira fale­ceu. Não havia completado um ano que deixara a Presidência.
Fabiano Vilaça dos Santos é doutorando em História Social na USP e pesquisador em Nossa História.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 34 – Agosto – 2006


Epitácio e o jeito brasileiro de governar
O paraibano Epitácio Pessoa tentou combater a seca do Nordeste, fez concessões a grupos políticos e foi acusado de uso da máquina administrativa em proveito próprio.
Nívia Pombo
    "Nunca aspirei à Presidência da República [...] porque a máquina política do país estava montada de tal maneira que ao represen­tante de um estado pequeno, co­mo a Paraíba, não era lícito levar tão longe a sua ambição." Ao dei­xar a Presidência, em 1922, Epi­tácio Pessoa tinha a certeza de ter realizado uma proeza a ser regis­trada nos livros de História do Brasil. Intelectual respeitado, orgulhava-se de sua posição neutra, independente de qualquer parti­do. Mas foi na Presidência que o paraibano descobriu que não se governava este país sem o apoio das oligarquias dos estados.
     Epitácio Lindolfo da Silva Pes­soa nasceu a 23 de maio de 1865, em Umbuzeiro, pequena localidade próxima à Serra do Cariri. Filho do coronel José da Silva Pessoa (1837-1873) e de Henriqueta Pereira de Lucena (1837-1873), era, tanto pe­lo lado paterno quanto materno, descendente de grandes senhores de terras e de escravos na Paraíba e em Pernambuco. Teve uma infân­cia simples de menino de enge­nho. Desde os cinco anos, acom­panhava o pai em longas viagens a cavalo pelo interior da província.
     Seus pais faleceram em 1873, vítimas da varíola. Órfão aos oito anos, foi enviado a Pernambuco, aos cuidados do tio, o desembar­gador Henrique Pereira de Luce­na, barão de Lucena (1835-1913). Figura de destaque no Império, Lucena governou Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia e Rio Grande do Sul e, na República, foi ministro da Fazenda e conse­lheiro do marechal Deodoro da Fonseca. Severo, não se preocupou em acolher afetuosamente o sobrinho, matriculando-o no Gi­násio Pernambucano.
     Na escola, sua inteligência rendeu-lhe o apelido de "menino prodígio". Mas era um "génio indoma­do": vivia de castigo e só não era expulso por causa de suas excelen­tes notas. No último ano, ao tacar um biscoito num funcionário, foi trancado num quarto escuro, a pão e água, fugindo três dias depois. Em 1882 ingressou na Faculdade de Direito do Recife, sendo apro­vado do primeiro ao último ano com distinção e louvor.
     Para custear os estudos, dava aulas particulares, chegando a as­sumir o posto de promotor em Ingá, no interior da Paraíba. Franzino, mas com uma elo­quência ferina, chamava a aten­ção do povoado que se amontoa­va para assistir suas acusações. Em 1886, foi nomeado promotor público em Bom Jardim e, no ano seguinte, foi transferido para a comarca de Cabo. O início da carreira parecia promissor, mas uma contenda com um juiz local o levou a pedir demissão e em­barcar para o Rio de Janeiro.
     Na capital, Epitácio reencon­trou seu irmão mais velho, o te­nente José Pessoa - ajudante-de-ordem do presidente Deodoro (1889-1891) - e o tio, barão de Lu­cena. Com trânsito fácil no gover­no, foi designado secretário-geral da Paraíba, em 1889, dando início a sua carreira política. Em 1890 foi eleito à Assembleia Nacional Constituinte. No ano seguin­te, deputado federal pela Paraíba, fez oposição ao presidente Flo­riano Peixoto (1891-1894). Como ministro da Justiça e Ne­gócios Interio­res, no governo Campos Salles (1898-1902), ela­borou com o ju­rista Clóvis Bevi­lacqua o projeto do Código Civil. Procurador da República e minis­tro do Supremo Tribunal Federal (STF) entre os anos de 1902 e 1912, foi incumbido de preparar o Código de Direito Internacional.
     A esta altura, Epitácio já era viúvo de Francisca Justiniana das Chagas, a "Chiquita", que faleceu ao dar à luz um menino natimorto, em 1895. Três anos depois se casou com a carioca Maria da Conceição Manso Sayão. Segundo Oswaldo Trigueiro (1905-1989) - autor de A política do meu tempo -, "Mary", como era chamada, não estreitava laços com famílias paraibanas, dizendo que "dos sel­vagens paraibanos, o melhorzi­nho era mesmo Epitácio". Tive­ram três filhas: Laura, Angelina e Helena. Pai "coruja", brincava com as meninas, levando-as para parques, circos e cinema.
     Apesar de cultivar hábitos simples, como andar a pé e fazer compras nos armazéns próximos à residência de Petrópolis, Epitá­cio e a família costumavam pas­sar longas temporadas na Euro­pa. Nos finais de 1911, voltou de Paris com uma novidade: após uma cirurgia para a retirada da vesícula, resolve se aposen­tar do STF, aos 47 anos, sob a alegação de in­validez. Sem pu­dor, Epitácio ainda se conce­de vencimentos integrais. Em meio às críticas dos adversários - afinal viveu por mais trinta anos e chegou à Pre­sidência da Re pública -, voltou à Europa, mes­mo tendo acabado de ser eleito se­nador pela Paraíba (1912-1919).
    Com o fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o então mi­nistro das Relações Exteriores, Do­mício da Gama, convida Epitácio Pessoa para presidir a delegação brasileira à Conferência de Paz, em Versalhes. Acompanhado de nu­merosa comitiva - afinal, as despe­sas seriam pagas pelo erário públi­co -, seguiu para a França a fim de resolver duas questões: garantir que a Alemanha pagasse pelas 1.850.000 sacas de café destruídas nos ataques a navios brasileiros e que o Brasil restituísse - a preços módicos - os setenta navios ale­mães presos nos portos nacionais.
     A morte do presidente eleito Rodrigues Alves, em janeiro de 1919, mudaria o destino da Repú­blica. Desinteressado em assumir o mandato, o vice-presidente Del­fim Moreira, sem demora, convo­cou novas eleições. As elites dos principais estados, pegas de sur­presa, apresen­taram dificuldades em escolher um
sucessor.
     São Paulo queria o apoio de Minas para a candidatura de Altino Arantes, mas os mineiros propunham Arthur Bernardes e Afrânio de Mello Franco. Os gaúchos, sem nome para indicar, apenas vetavam os demais. Apolítica do café-com-leite parecia mais uma trans­bordante xícara de água quente.
     Reagindo às pretensões paulis­tas, Rio Grande do Sul, Rio de Janei­ro, Santa Catarina, Mato Grosso e Pa­rá formaram a "concentração de estados", com o aval de Delfim Moreira. Exigiam que o candidato fosse indicado numa Convenção, que de fato ocorreu em fevereiro de 1919. O nome de Epitácio foi lançado pelos gaúchos e apoiado pelos mineiros. São Paulo, contra­riado, apoiou Rui Barbosa.
     Epitácio Pessoa seria presidente da República, mesmo sem ter plei­teado o cargo. Fora do país, não fez campanha e, a despeito das acusa­ções de Rui Barbosa - que no "corpo-a-corpo" lembrava a aposenta­doria precoce do paraibano -, ga­nhou as eleições com 294.324 votos. Avisado por telegrama de que era o novo presidente, nem acreditou, e só voltou para casa dois meses depois. Suas viagens não passaram incólu­mes na imprensa. Em maio de 1919, a revista Careta publicou a quadrinha: "O papa que a nossa Pátria/ dedica amizade boa/ quando lá for o Epitácio,/ vai re­cebê-lo em pessoa".
     A gestão do paraibano foi conturbada. Tentou agradar, dividindo os ministérios entre paulistas, mineiros e gaúchos. Mas ao inovar, escolhendo civis para as pastas militares, arranjou foi confusão. Angariou a antipatia dos quartéis e, até o final do man­dato, a situação só piorou. O auge foi o episódio das "cartas falsas" - críticas ao marechal Hermes pu­blicadas na imprensa -, estopim para o Levante do Forte de Copaca­bana, ocorrido em julho de 1922.
     Outro barril de pólvora foi o mo­vimento operário. Epitácio herdara um país economi­camente equilibrado, graças à com­petência de Wen­ceslau Braz (ver Wen­ceslau Braz). O Brasil tinha aumentado sua atividade industrial e, de acordo com o Censo de 1920, possuía 13.346 fábricas, empregando cer­ca de 275 mil operários. Frente às exigências dos trabalhadores - co­mo a jornada de oito horas e a re­gularização do trabalho de meno­res e mulheres - o Legislativo mantinha-se inerte e o presidente, mostrando inabilidade para lidar com os protestos que se intensifi­cavam, fechava jornais, prendia e deportava líderes operários.
     Sem esquecer suas origens, Epi­tácio recordava-se das secas que atingiam a população nordestina. Com o apoio dos Estados Unidos, criou um pro­grama que previa a construção de açudes, barragens, poços, estradas de ferro e de rodagem. De custo elevado, o projeto para alguns deu origem à chamada "indústria da seca". Na imprensa, o uso de traba­lhadores debilitados pela fome foi motivo de piadas. Numa delas um matuto em Fortaleza, contemplan­do uma estátua de d. Pedro II, de­sabafou: "Papai Pedro mandava cozinhado e o Pitaço manda cru!" Lamentava que, ao contrário dos socorros oferecidos no Império, as obras de "Pitaço" levariam anos para serem concluídas.
     As obras do Nordeste custa­riam ainda mais caro ao "menino prodígio". Com o fim da guerra, o preço do café despencou no mer­cado internacional. Ameaçado pe­las bancadas dos estados, sobretu­do pelos paulistas, Epitácio con­traiu mais um empréstimo com os bancos londrinos e, pela terceira vez na República, implementou-se a política de valorização do café.
     A gestão foi marcada também por um saudosismo do Império. Em setembro de 1920, a visita dos reis da Bélgica fez a capital do país reviver dias de gala. Numa das festas, o rei Alberto I, sem saber, criou um constrangi­mento: presenteou a todos com condecorações, um dos símbolos da monarquia, porém objeto de aversão dos republicanos. Epitá­cio, já acostumado com esta honraria, autorizou o uso do mi­mo. A noite, o banquete foi dig­no de galhofas: ninguém sabia usar as insígnias.
     Epitácio revogou o decreto de 1889 que bania a família impe­rial. Determinou a transferência dos restos mortais de d. Pedro II e d. Teresa Cristina, que foram depositados num jazigo na Cate­dral de Petrópolis.
     No último ano do seu gover­no, o país comemorou o Cente­nário da Independência. Mesmo com os cofres públicos no verme­lho, o presidente fez questão de um grandioso espetáculo. O evento de maior destaque foi a Exposição Universal do Rio de Janeiro. Para edificar os pavi­lhões, demoliu-se parte do Mor­ro do Castelo. Na ocasião, a letra do Hino Nacional do Brasil, de Osório Duque Estrada, foi final­mente oficializada. Os festejos atraíram tanta gente que foi pre­ciso construir o Hotel Glória. A representação da Paraíba contava com tantos membros da família do presidente, que o comentário geral era: "Paraíba, terra boa/ Pouca gente, mas muitas pessoas".
     No último dia do seu governo, Epitácio despediu-se de cada um dos funcionários do Catete. De­sejou que seu sucessor, Arthur Bernardes (1922-1926), fizesse pelo Brasil, segundo suas pala­vras, "todo o bem que eu quis, mas não pude ou não soube fa­zer". Continuou ativo na política, mas não no Brasil: nomeado juiz da Corte Permanente da Justiça Internacional de Haia, seguiu pa­ra a Holanda, na manhã seguinte à posse de Bernardes. Em 1930, voltou ao país, após o assassinato do sobrinho João Pessoa (1878-1930), candidato a vice-presidente ao lado de Getúlio Vargas. Depois de mais uma temporada na Euro­pa, descobriu os primeiros sinto­mas do mal de Parkinson. Faleceu em 13 de fevereiro de 1942, em seu sítio, em Petrópolis.
Nívia Pombo é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e pesquisadora de Nossa História.

Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 35 – Setembro 2006

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Wenceslau Braz - A gripe espanhola

De "Lalau" a santo
Com um jeito discreto e equilibrado, Wenceslau Braz presidiu o Brasil durante a Primeira Guerra Mundial, reduziu o próprio salário e tirou o país da crise.
Rodrigo Elias
     A recepção não foi das melhores. Enquanto o presidente Wences­lau Braz (1914-1918) desfilava em carro aberto no dia da posse no Rio de Janeiro, alguém lhe ati­rou um objeto de dentro do Campo de Santana. Policiais da escolta pensaram se tratar de uma bomba, mas logo viram que não passava de uma jaca jogada por um gaiato que se escondeu entre as árvores. Entretanto, o medo não era infundado: Wen­ceslau herdou os inimigos de seu antecessor, Hermes da Fonseca (1910-1914), de quem fora vice-presidente, que ainda lhe deixou um país em frangalhos, uma dí­vida enorme e as instituições re­publicanas próximas à ruína.
     Filho de um poderoso coronel, Wenceslau Braz Pereira Gomes nasceu em fevereiro de 1868, em São Caetano da Vargem Grande, hoje Brazópolis, no sul de Minas Gerais. Sua mãe, Isabel Pereira dos Santos, administrava a casa nas constantes ausências do marido e ainda o substituía em compro­missos políticos. Seu pai, Francis­co Braz Pereira Gomes, era um chefe político importante da re­gião, apesar de nunca ter frequentado uma sala de aula - fato do qual se lastimava, fazendo questão de que os filhos estudassem. O velho Chico Braz era um entusiasta da educação, tendo fundado uma escola normal, além de destinar o dinheiro que recebia por exercício de cargos públicos a instituições de ensino e caridade.
     O jovem Wenceslau não foi, como o pai pretendia, aluno exemplar. Matriculado em 1884 na Faculdade de Direito de São Paulo - onde gravara o nome à ponta de canivete em sua cartei­ra -, suas notas não ultrapassavam a mediocridade. Chegou a afirmar em uma entrevista, já aos 96 anos (Wenceslau foi o presidente brasileiro mais longe­vo): "abusei da mocidade!"
     Mas seu discreto rendimento escolar não refletia o gosto pelos assuntos públicos. Ainda estudan­te, foi responsável pela instalação em sua cidade do Partido Republi­cano e Abolicionista, dedicando-se à libertação de escravos e à difusão da alfabetização. Antes de comple­tar vinte anos, foi convidado por políticos da região para ocupar uma vaga de deputado provincial, não podendo atender devido à pouca idade.
     Bacharelado em Direito em 1890, Braz voltou a Mi­nas para advogar. Pouco depois já era vereador e, em seguida, presiden­te da Câmara de Vereadores (equi­valente hoje ao cargo de prefeito) da cidade de Mon­te Santo. Deputado estadual entre 1892 e 1898, foi secretário de Inte­rior, Justiça e Segurança Pública de Minas de 1898 a 1902. Já estava casado, nesta época, com a filha de um chefe político do sul mineiro, Maria Carneiro Pereira Gomes, mãe dos seus sete filhos.
     A ascensão política de Wences­lau foi, de fato, meteórica, e aos 35 anos ele já era deputado federal e líder da bancada mineira no Con­gresso Nacional, passando rapida­mente a líder da maioria. Aos 41 anos, em 1909, assumia a presi­dência do estado de Minas Gerais, um dos mais poderosos da federa­ção e, no ano seguinte, era eleito vice-presidente da República na chapa de Hermes da Fonseca. Cabia-lhe, de acordo com a Constituição de 1891, a presidência do Senado, mas Wenceslau, mineiramente, retirou-se para Itajubá, próximo à sua ci­dade natal, dedi­cando-se a um de seus passatempos favoritos, a pesca­ria. Ficou de fora das crises políticas do azarado - e pouco competente - Dudu (ver Hermes da Fonseca), en­quanto o Senado e todo o gover­no eram conduzidos pelo sena­dor gaúcho Pinheiro Machado.
      Em 1913, a questão sucessória se apresentava. Uma acirrada ne­gociação entre líderes de todos os estados cogitou os nomes dos ex-presidentes Campos Salles e Ro­drigues Alves, além do senador Rui Barbosa. Mas forças políticas se uniram em torno de Wences­lau Braz - indicação de Pinheiro Machado, que supunha encontrar no mineiro o fantoche que lhe fora Hermes. Enganou-se.
     Eleito em 1914 com 532.107 votos, "seu Lalau", como Wences­lau também era conhecido, tomou posse na Presidência com o seu vice, o maranhense Urbano San­tos (1859-1922), em meio à des­confiança. Era o mais jovem pre­sidente eleito, e temia-se que a influência de Pinheiro Machado durante a "pagodeira hermista" se repetisse no seu mandato. Um jor­nal da época afirmou que Pinhei­ro pretendia "dispor eternamente dos governos como das suas éguas na fazenda da Boa Vista".
     O panorama ao início do go­verno Wenceslau Braz não era, portanto, promissor. Mas o apa­rentemente tímido e omisso Lalau revelou-se um determinado ho­mem de Estado. No discurso da posse, deu o tom do seu governo: "Ao patriotismo dos homens de responsabilidade do Brasil se im­põe, iniludivelmente, uma gran­de obra de construção política e econômica e restauração finan­ceira. Está bem claro que esta dupla obra exige uma mesma base: intransigência moral, administra­tiva, absoluto respeito às leis, im­parcial aplicação dessas, paz, or­dem em todas as modalidades".
     Assumindo uma economia à beira do colapso (300 mil contos de réis em dívidas a pagar, o que ultrapassava 70% da arrecadação bruta de 1914), sua primeira preocupação foi a contenção de gastos. Assim, enviou ao Congres­so um pedido de corte de 50% no próprio salário. O Congresso, tal­vez temeroso do mau exemplo, limitou a redução a 20%. Wences­lau utilizava o próprio carro, servindo-se de transporte oficial em raríssimas ocasiões e impedindo seus familiares de fazê-lo. À dife­rença da festa na qual se tornara o Palácio do Catete no governo an­terior, houve apenas uma celebra­ção naquela residência oficial du­rante o seu mandato, quando a primeira-dama, dona Maria Car­neiro, organizou uma recepção para angariar donativos para fla­gelados do Nordeste.
     Estas medidas, apesar de moralizadoras, não tinham efeitos prá­ticos no gigantesco rombo das contas estatais. Mas dava ao gover­no autoridade moral para agir em outras frentes, cobrando a unifica­ção das receitas e despesas da União; a abolição de remuneração nas convocações extraordinárias do Congresso e a eliminação das autorizações extra-orçamentárias, que considerava "ruinosa prática".
     A escolha do ministério favo­receu critérios de recuperação econômica e independência polí­tica, recusando-se Wenceslau a acatar indicações tanto de Pi­nheiro Machado quanto de seus opositores. Colocou à frente dos dois principais ministérios, Fa­zenda e Agricultura, dois homens ligados às finanças, respectiva­mente o mineiro Sabino Barroso e o fluminense Pandiá Calógeras, este último ligado a Minas. Wen­ceslau fiscalizava todo o trabalho de sua equipe; opinava sobre tu­do, e ficou conhecida a sua práti­ca de enviar bilhetes e recortes de jornal para os ministros e auxi­liares diretos. Sua antecipação so­bre vários assuntos causava, se­gundo um assessor, "perplexida­de de uns e admiração de outros".
     Outro problema com o qual se deparou foi a sucessão do governo do Rio de Janeiro. O candidato apoiado por Pinheiro Machado, Feliciano Sodré, havia vencido as eleições, mas o Supremo Tribunal Federal concedera habeas corpus ao seu adversário, o ex-presidente Nilo Peçanha, declarando-o habi­litado para a posse. Wenceslau, le­galista contumaz, não hesitou e obedeceu a decisão do STF, colo­cando tropas à disposição da Jus­tiça e empossando Nilo.
     Wenceslau Braz teve que lidar com grandes conflagrações den­tro e fora do país. A Guerra do Contestado, que se arrastava des­de 1912, nascida em meio à dispu­ta na demarcação de limites entre Paraná e Santa 
Catarina, agravada pela presença de um movimento messiânico que pegou em armas, revelou o estilo de governar de Wenceslau. Enérgico em um pri­meiro momento, o presidente despachou tropas federais que, após várias expedições e com apoio das forças locais, esmaga­ram os revoltosos em 1916. Após a força, a conciliação. "Perso­nificação do meio-termo", como um crítico o definiu, o presidente chamou ao Catete os líderes dos estados antagonistas, que acaba­ram por aceitar, em outubro de 1916, a divisão da área em litígio.
     No plano externo, encontrou a Europa em plena Primeira Gran­de Guerra, iniciada em julho de 1914. O Brasil tomou parte direta no conflito após o torpedeamento de quatro navios mercan­tes por submarinos alemães. Em outubro de 1917, em mensagem enviada ao Congresso, o presi­dente afirmava que não cabia ao governo mais do que reconhecer o estado de beligerância imposto pela Alemanha. Assim, em agosto de 1918, às vésperas do armistí­cio, foi enviada à Europa uma frota brasileira que, no entanto, não chegou a participar do con­flito, tendo-se abatido sobre a tri­pulação um surto de gripe espa­nhola, causando 156 baixas.
     A gripe, aliás, foi grande em­pecilho à normalização nacional. Apenas no Rio de Janeiro, entre setembro e novembro de 1918, os mortos já chegavam a 17 mil. As ruas, escolas, lojas e repartições públicas desertas contrastavam com os hospitais e cemitérios su­perlotados. A doença não foi ven­cida no mandato de Wenceslau, e chegou a matar o seu sucessor, Rodrigues Alves, em 1919, antes de tomar posse da Presidência.
     Para piorar a situação finan­ceira do país, que apresentou em 1914 déficit na balança comercial pelo segundo ano consecutivo, o conflito europeu praticamente fe­chou o principal mercado para o café. Da mesma forma, recursos externos antes disponíveis para investimento no país foram cana­lizados para os gastos bélicos.
     O conflito na Europa, nocivo ao Brasil em um primeiro momento, favoreceu o desenvolvimento da indústria nacional, uma vez que o parque industrial europeu se vol­tou para o esforço de guerra. Pôde-se notar considerável incre­mento industrial em várias re­giões, sobretudo a partir da ex­ploração do carvão mineral e da produção de ferro-gusa. O Brasil também passou a exportar outros produtos, como o manganês, cujas rendas alfandegárias saltaram de 1.200 contos em 1914 para 57 mil contos em 1917. Assim, o incremento do PIB (Produto Interno Bruto) nacional, negativo em 1,25% em 1914, subiu 9,4% em 1917.
     Durante o seu governo foi ela­borado ainda o Código Civil, promulgado em 1916, conhecido como "Código Wenceslau", que vigorou até 2002. Wenceslau ain­da promoveu uma reforma no ensino, restaurando o rigor nos exames de humanidades e con­tratando professores mais quali­ficados através de concursos. Os resultados da mudança, já no pri­meiro ano, foram enormes: as re­provações passaram de 2% para 60% nos exames finais do ensino médio, e as aprovações nos con­cursos para os cursos superiores na capital federal saltaram na mesma proporção.
     Deixando a Presidência, não se dedicaria mais à política. Se­gundo suas palavras, "depois de ter sido presidente, a nada mais deve aspirar um homem na vida pública". Voltando a Itajubá, onde morreria, aos 98 anos, em 1966, dedicou-se aos negócios, dirigin­do empresas como uma fábrica de tecidos e um banco, não dei­xando, entretanto, de reservar tempo para o que mais gostava de fazer: caçar e pescar.
     Sua obra política, financeira, legislativa e administrativa deu vigor a um país à beira do abis­mo. Seu Lalau, recebido em 1914 com arremessos de jaca, deixou a capital federal em 15 de novem­ novem­bro de 1918, aclamado pelo povo, pelos políticos e pela imprensa. A esta altura, já o chamavam de "São Wenceslau".
Rodrigo Elias é professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 32 – Julho - 2006



Memória da peste
Parecia o fim do mundo: cadáveres insepultos, falta de comida e de remédios para enfrentar a maior epidemia de todos os tempos. No Rio de Janeiro, usada politicamente, a gripe espanhola construiu e destruiu reputações.
Adriana da Costa Goulart
      Num espaço de oito meses, a gripe espa­nhola matou entre 50 a 100 milhões de pessoas no mundo. Na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal, os índices de mortalidade alcançaram cifras nunca imaginadas. No mês de setembro de 1918 morreram 48 pessoas, e em outubro os óbitos aumentaram em 2.000%. Apenas no dia 22 desse mês registra-ram-se 890 mortes.
     Vistas no passado como consequência dos mias­mas que habitam as imundícies e os ares fétidos, as epidemias evocam medos ancestrais, que remontam à antiguidade e à Idade Média. De fato, sobreviven­tes da espanhola, entrevistados por mim, hesitaram em pronunciar o nome da gripe, como se sua sim­ples menção pudesse desencadear novamente a tra­gédia vivida.
     Nas suas memórias, o médico Pedro Nava des­creve aquele dramático período da seguinte forma: "Aqueles dias ninguém que os tenha vivido poderá jamais esquecê-los; tudo era de um cinza purulento, dum roxo podre, poente de chuva, saimento, mar­cha fúnebre, viscosidade e catarro."
     Os primeiros brasileiros a contraírem a gripe fo­ram os oficiais do Exército que integravam a Missão Médica Brasileira. Estavam a caminho de Dacar, no Senegal, com a missão de auxiliar as forças aliadas. Durante o trajeto, muitos adoeceram e morreram, tendo seus corpos lançados ao mar. A notícia che­gou ao Brasil, por cabograma, no dia 26 de setem­bro de 1918. A gravidade do acontecimento e a ex­pansão da moléstia foi, no entanto, ignorada pelas autoridades, na verdade sem recursos para montar uma estratégia de socorro à população.
     As primeiras notícias sobre a peste que devastava a Europa, publicadas pela imprensa nos últimos dias de setembro de 1918, também foram encaradas com displicência. Algumas vezes, como aparece na revista A Careta, as notícias eram abordadas de for­ma cômica e num tom de crítica política: a gripe vista como arma bacteriológica criada pelos ale­mães para vencer a Primeira Guerra e afastar dos combates os países neutros.
     Tal visão da espanhola só se desfez quando as pes­soas começaram a adoecer em massa e as ruas da ci­dade a se encher de cadáveres. A incubação da gripe durava de três a sete dias. De uma simples zoeira nos ouvidos, surdez, dores de cabeça e oscilação de tem­peratura, a doença se desenvolvia com os infectados apresentando calafrios, hemorragias intensas, urina e vómitos misturados a sangue. Tal quadro era acompanhado de perturbações nos nervos cardía­cos, infecções nos intestinos, pulmões e meninges, levando as vítimas a sufocações, a diarreias, dores lancinantes, à letargia, ao coma, à intoxicação pela falta de funcionamento dos rins, a cianose (azulamento da pele), à síncope e finalmente à morte em algumas horas ou dias, cuja proximidade era conhe­cida pelo escurecimento dos pés das vítimas. O doente passava a maior parte do tempo em delírio, devido à febre alta.
     Em muitas casas, famílias inteiras caíam acama­das, dependendo de quem pela rua passasse para que se pudessem alimentar e receber remédios. Essa função acabava sendo exercida por lixeiros, coveiros e policiais, que acudiam os "espanholados". Colovavam-se panos negros nas janelas para indicar que na casa havia doentes necessitando de socorro.
     Quando as mortes se intensificaram e não se dava mais vazão às demandas por enterros, punham-se os pés dos mortos escorados nas janelas das casas para que a Assistência Pública viesse recolher o corpo. Para cobrir a demanda por caixões, passaram a fabricá-los com tábuas retiradas dos tetos e assoalhos das casas. Com o acirramento da crise nos serviços funerários, a população deixava no meio da rua os corpos dos pa­rentes que já apresentavam sinais de decomposição.
     Numa tentativa de normalizar a coleta dos cadá­veres insepultos foram utilizados caminhões de lixo e bondes, estes apelidados pela população de "trens fantasmas", pois transportavam os defuntos amortalhados em lençóis brancos, não sendo raro encon­trar alguns vivos entre os mortos. Visando contornar a falta de coveiros, para os serviços funerários convocaram-se os presos da Casa de Correção, pre­sídio localizado no Rio de Janeiro, o que só fez au­mentar o pânico da população. Circulavam boatos de que os detentos mutilavam os dedos e as orelhas dos mortos para roubar brincos e anéis, entre ou­tros mais assombrosos e impactantes.
     A Santa Casa da Misericórdia, único hospital vol­tado para o atendimento do público na cidade, rece­beu da população a alcunha de "Casa do Diabo". Devido ao elevado número de mortes na instituição, difundiu-se pela cidade que ali se ministrava aos doentes mais crônicos uma tisana letal, imortalizada na memória popular como "chá da meia-noite" - su­postamente uma mistura de chá com arsénico.
     Algumas instituições foram de grande importân­cia no auxílio da população como a Cruz Vermelha Brasileira, que improvisou vários hospitais pela cida­de para atender ao público, e o Corpo de Bombeiros que distribuía sopas aos necessitados. Os bombeiros eram responsáveis também pela venda das galinhas que passaram a ser confiscadas pelo governo em granjas e casas particulares. A canja, feita com arroz e galinha, era tida como um ótimo alimento na recupe­ração dos doentes. Isso originou um mercado negro de galinhas e vários quebra-quebras pela cidade, con­sequentes da acirrada disputa pelas valiosas aves. O colapso das instituições de saúde pública, jun­tamente com a falta de médicos, leitos nos hospitais, remédios e alimentos, despertou a ira da população. Mesmo diante do caos instaurado, as autoridades políticas e sanitárias insistiam em defender publica­mente a benignidade do mal reinante, tornando mais agudas as tensões sociais instauradas pela pan­demia, que construiu e destruiu reputações. A im­prensa conduziu à execração pública, por exemplo, o diretor-geral da Saúde Pública, Carlos Seidl. Bode expiatório da gripe espanhola, sua perda de prestígio social foi tamanha que ele jamais se recuperou.
     Foi nesse contexto que a figura de Carlos Chagas emergiu como herdeiro científico de Oswaldo Cruz. A opinião pública exigiu que o comando dos servi­ços de socorro público no combate à gripe fosse en­tregue a ele. Chagas foi então requisitado pelo presi­dente da República, Venceslau Brás, para adminis­trar as atividades de socorro à população enferma.
     No auge da epidemia tudo se desorganizou, invia­bilizando funcionamento da cidade, na época cen­tro administrativo e político do país. As repartições fecharam por falta de funcionários e os colégios suspenderam as aulas. Diante de todos esses problemas, o próprio presidente Venceslau Brás (1914-1918) foi acusado de incompetência política. Saiu do episódio achincalhado pelos seus adversários políticos e pela opinião pública. Não se candidatou a cargo político pelo resto da vida.
     A epidemia foi manipulada, politicamente, por partidários do conselheiro Rodrigues Alves, que se candidatara a novo mandato presidencial. Ironia do destino, acabaria como uma das vítimas mais ilus­tres da espanhola. Idoso, não resistiu à investida da gripe e morreu no dia 16 de janeiro de 1919.
     De todo modo, a gripe contribuiu para que as questões de saúde ganhassem mais atenção na agenda política do governo seguinte. Permaneceu, no entanto, como um enigma. Desde a década de 80 do século passado, cientistas americanos, ingle­ses e canadenses percorrem o mundo atrás de cor­pos conservados de vítimas, de onde possam de­sentranhar o vírus adormecido. Até hoje, não se conseguiu produzir em laboratório a carga viral completa da maior epidemia de todos os tempos. O trabalho de detetive desses cientistas se justifica: não estamos livres de uma nova gripe assassina. Para a ciência, é apenas uma questão de tempo. Resta saber se até lá teremos instrumentos eficazes para impedir ou pelo menos atenuar os seus efeitos catastróficos.
Adriana da Costa Goulart é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense onde defendeu dissertação intitulada Um cenário mefistofélico: a gripe espanhola no Rio de Janeiro, no ano de 2003.
Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

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domingo, 10 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Hermes da Fonseca - Revolta da Chibata

O presidente urucubaca
Com fama de azarado, Hermes da Fonseca trouxe os militares de volta ao cenário político e desbancou o poder das oligarquias estaduais.
Nívia Pombo
     Baixo, gordo e calvo. Hermes da Fonseca era dono de traços físicos pouco atraentes. Pesava ainda so­bre o presidente a fama de ser in­deciso, ignorante e pé-frio. Du­rante todo o seu governo, a opi­nião pública o azucrinou: pela sua presumida ignorância foi apelidado de "Dudu". Na imprensa, as caricatu­ras e paródias faziam mais sucesso do que suas ações administrativas, o que fez dele a maior vítima presiden­cial de chacotas.
     Sobrinho do primeiro presi­dente da Repú­blica, o mare­chal Deodoro da Fonseca, Hermes nasceu em 1855, na vila de São Ga­briel, no Rio Gran­de do Sul. Na infân­cia, a brincadeira dileta era cavalgar, passa tempo que iria manter até a idade adulta. Ouvindo os ecos da Guerra do Paraguai, divertia-se também em assistir aos exercícios diários no Corpo de Ar­tilharia a Cavalo, onde seu pai, Her­mes Ernesto da Fonseca, servia.
     Fugindo do ambiente sombrio do conflito, em 1866, sua mãe, Ri­ta Rodrigues Barbosa da Fonseca, veio para o Rio de Janeiro com seus oito filhos. No ano seguinte, Hermes ingressou no Colégio Saint-Louis, na atual Praça Tiradentes. Pouco afeito aos estudos, foi expulso após brigar com três colegas e rasgar a batina de um padre. Passou a estudar no Colé­gio de Pedro II e a frequentar as aulas do Liceu de Artes e Ofícios. Logo a aptidão para a caserna co­meçou a aflorar e, a contragosto do pai, entrou no Batalhão de Ar­tilharia a Pé e na Escola Militar da Praia Vermelha, em 1871.
     Não tinha ambição política, falando-lhe mais alto a carrei­ra militar. Com a ajuda do tio-presidente, Hermes chegou às mais altas patentes do Exército. Em 1890, foi eleva­do a tenente-coronel, assumindo o "Regimento dos Fonseca", uni­dade assim no­meada por ser reduto de mui­tos oficiais da família. A promoção a mare­chal ocorreu du­rante o governo de Rodrigues Alves, quando enfrentou a Revolta da Vacina. A esta altura, já esta­va casado com sua prima-irmã, Orsina Francione da Fonseca. Namoro de infância, Orsina era uma noiva ideal: "vir­tuosa, bem-educada e econômi­ca". O enlace, em dezembro de 1877, foi marcado por um fato inusitado: o padre se recusou a subir a ladeira que conduzia até a capela, reclamando de cansaço. O noivo teve que ir buscá-lo junto com outros companheiros mili­tares. O casal teve oito filhos.
     A nomeação para o Ministério da Guerra em 1906, no governo de Afonso Pena, marcou sua en­trada na política. Militar presti­giado, era nome certo para os planos de reorganização do Exér­cito. Acumulou ainda o posto de ministro do Supremo Tribunal Militar. Tudo caminhava bem pa­ra Hermes da Fonseca até 1909, quando surpreendeu a todos com suas ambições à Presidência.
 
    Naquele ano, os discursos no Senado sobre o substituto de Afonso Pena apontavam para uma crise. Durante todo o seu governo, Pena não escondia a predileção pelo seu conterrâneo, o então presidente de Minas Ge­rais, João Pinheiro, cria do Jardim de infância (ver Um tico-tico no Catete). Mas a ideia acabou abortada, pois o jovem mineiro morreu em 1908. Outro nome cogitado foi o do talentoso ministro das Finan­ças, David Campista, repelido pe­los correligionários de Pena e pe­la opinião pública.
     Numa coligação entre Minas e Rio Grande do Sul, foi lançada a candidatura de Hermes da Fon­seca, tendo como vice Wenceslau Braz. São Paulo e Bahia se uniram em torno de Rui Barbosa. Pela primeira vez, o esquema "café-com-leite" fora quebrado. A dispu­ta prometia ser quente. Os civilis­tas defendiam princípios de­mocráticos e achavam que os mi­litares não deveriam exercer mais a Presidência, embora reconhe­cessem a importância do Exército na fundação da República.
     Para Afonso Pena, a candida­tura de Hermes foi um duro gol­pe. Houve quem dissesse que a morte do presidente (1909) foi provocada por um "trauma moral" resultante de uma reunião com o marechal. E pior: houve quem dissesse que a morte fora provocada pela urucubaca que ele espalhava. Coincidência ou não, a morte de Pena inverteu o cená­rio eleitoral: Hermes passou de oposição para situação, porque o então presidente Nilo Peçanha apoiou a campanha militarista.
     Após duas décadas de regime re­publicano, o país teria sua primeira campanha eleitoral de verdade. Na plataforma dos militaris­tas estava a derrubada da "política dos gover­nadores" implementada por Campos Salles. Tinham como símbolo uma vassoura para “varrer a rou­balheira dos civilistas" e imple­mentar a política das "salvações". Já os civilistas percorreram o Brasil defendendo o voto secreto e o combate ao analfabetismo. Após uma disputa incendiária, Hermes venceu as eleições: 403.897 votos contra os 223.784 de Rui Barbosa.
     Mal despiu a farda, o presi­dente foi acusado de vencer gra­ças às fraudes eleitorais.  Não bastasse a denúncia, estoura na capital da República a Revolta da Chibata. Intolerante, expulsou da Mari­nha os integrantes do movimen­to. Os excessos na aplicação das penas resultaram na morte da maioria dos revoltosos. O Rio de Janeiro ficou oito meses em esta­do de sítio, o que minou sua té­nue base política e foi um prato cheio para as críticas civilistas. Eram os primeiros indícios de que a gestão do marechal Hermes seria turbulenta. E azarada.
     Em 1910, em visita oficial a Portugal, durante uma recepção oferecida pelo rei d. Manuel II, um movimento político derrubou a monarquia. Apavorado, d. Manuel sequer aceitou o asilo político ofe­recido pelo marechal. Outro epi­sódio teria resultado mais desas­troso para o Brasil: ao pedir um empréstimo de 2,4 milhões de libras ao Lloyds Bank, em 1912 - para saldar dívidas contraídas por governos anteriores -, metade da quantia foi depositada num banco russo e seria perdida com a Revolução Socialista de 1917. Enquanto isso, o povo declamava: "o Dudu, pobre coitado, parecia um cão sem dono/ Todos os jor­nais só o chamavam de vaca/ de cretino/ urucubaca...".
     Em janeiro de 1911, inicia-se a chamada "política das salvações", no­me atribuído às derrubadas dos presidentes esta­duais com o apoio do governo fede­ral. Oligarcas fo­ram substituídos por militares da confiança do marechal Hermes. No final, a política acabou se tor­nando um desastre. Encontrando resistências em Salvador e em Manaus, o marechal ordenou o bombardeio das cidades.
     Sem experiência administrati­va, o presidente ganhava os adjeti­vos de "indeciso" e "influenciável". Anedotas e caricaturas registravam a ascendência do senador Pinheiro Machado sobre Hermes. Uma de­las relatava uma confidência do presidente ao seu vice: "Olha, Wen­ceslau, o Pinheiro é tão bom amigo que chega a gover­nar pela gente". Para reverter esta imagem, o próprio Pinheiro Machado criou o Partido Republicano Conser­vador (PRC), na tentativa de preser­var o Executivo.
     O marechal ten­tou ganhar popu­laridade se aproximando do opera­riado. Com a ajuda do filho Mario Hermes, ouviu reivindicações tra­balhistas. Construiu vilas operá­rias, como a de Sapopemba, atual bairro de Marechal Hermes, no Rio de Janeiro. Fundou um sindicato, a Liga do Operariado do Distrito Federal, em outubro de 1912. Atento à saúde pública, por inter­médio do Instituto Oswaldo Cruz incentivou viagens de cien­tistas renomados, como Belizário Pena e Artur Neiva, incumbidos de diagnosticar as principais doenças que afligiam a popula­ção do interior do Brasil.
     Se sua gestão andava caótica, um fato viraria de cabeça para baixo a vida do "Dudu". Sua es­posa falece em 1912 e, sem que o luto terminasse, casa-se com Nair de Teffé. Moça rica e da mais alta aristocracia da República, era fi­lha do almirante Antonio Luiz Von Hovnholtz, o barão de Teffé, e, pasmem, 31 anos mais jovem do que o presidente!
     Educada na França, Nair falava diversas línguas, tocava violão, era atriz e, por ironia, a primeira caricaturista do Brasil. Ousada, fre­quentava o Café Jeremias, um dos redutos da boêmia carioca, onde conviveu com literatos como João do Rio e Arthur Azevedo. O namoro teve início em janeiro de 1913, em Petrópolis, quando o marechal se recuperava da perda da esposa. Recebido pela família Teffé, logo se apaixonou por Nair. Entre cavalgadas matutinas e ca­fezinhos na casa do barão, Her­mes se declarou: "Estou encanta­do com a beleza de mademoiselle. Queria fazê-la minha esposa".
     Foi um escândalo. Uma menina culta e jovem não deveria se casar com um velho que acabara de ficar viúvo, na opinião dos mais conser­vadores. Os filhos do marechal também não toleraram o consór­cio. Para os opositores do presiden­te a notícia foi um prato quente. O marechal estava caduco, diziam. Mas o casamento ocorreu em 8 de dezembro de 1913, sem lua-de-mel, devido à pobreza do noivo.
     Nair trouxe descontração à vi­da palaciana, e seus salões se tor­naram famosos pelas festas e sa­raus. As recepções eram tantas que Rui Barbosa apelidou o Catete de "Versailles do século XVII", numa alusão à Corte fran­cesa. Mas nenhum evento causou tanto frisson quanto o sarau do "Corta-jaca". Considerada chula e pornográfica, a composição era um dengoso maxixe de Chiquinha Gonzaga. A opinião pública não perdoou: do casamento à noite do "Corta-jaca", tudo foi motivo para mais caricaturas e canções irreverentes: "o Dudu sai a cavalo/ o ca­valo logo empaca/ e só recomeça a andar/ ao ouvir o Corta-jaca..."
     Distraído, o marechal não per­cebeu que o Brasil rumava para uma terrível crise. O país assistia mais um episódio sangrento: a Guerra do Contestado. Ocorrida na divisa do Paraná com Santa Ca­tarina, tinha
caráter messiânico e foi liderada pelo "monge" José Ma­ria. O marechal não conseguiu contornar o conflito, iniciado em 1912, e sobrou para o próximo presidente, Wenceslau Braz, con­trolar a revolta que durou até 1916.
     Para completar, crise financei­ra. Entre 1913 e 1914 foi pedido um novo empréstimo internacio­nal para a manutenção do Con­vénio de Taubaté, firmado em 1906 para garantir os preços do café. Mas a medida foi em vão, pois as exportações despencaram. Na Amazônia, a produção de borracha dava sinais de ago­nia. No último ano de governo, o marechal Hermes negociava no­vo funding-loan, acordo feito em 1898 para o parcelamento da dí­vida externa. Mas a deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) dificultou a obten­ção de novos empréstimos.
     Hermes da Fonseca entregou ao sucessor um país endividado. Cansado das críticas e chacotas, desiludido com a política, desaba­fou: "Passei pela triste decepção de verificar que 'amigos' meus o eram mais dos oligarcas". Com o fim do mandato, recolheu-se em Petrópolis e passou a fazer móveis e casinhas para passarinhos. Após exílio voluntário na Europa, re­tornou em 1920. Dois anos de­pois, foi preso pelo envolvimento numa conspiração militar contra o presidente Epitácio Pessoa. Em liberdade e doente, voltou a Petrópolis onde faleceu de um ataque cardíaco, em 9 de setem­bro de 1923. Seu último desejo foi ser enterrado em trajes civis, dis­pensando as honras militares.
Nívia Pombo é mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e pesquisadora de Nossa História.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 32 – Junho - 2006


Contra a chibata, canhões
As reivindicações que levaram os marinheiros à Revolta da Chibata iam muito além da extinção do castigo inevitavelmente associado à escravidão.
     Em 22 de novembro de 1910, os moradores da cidade do Rio de Janeiro acordaram sobressaltados. Tiros de canhão eram ouvidos por todos os lados. O que estaria ocorrendo dessa vez? Mais uma tentativa de golpe de Estado?  Revoltas contra o aumento das passagens dos bondes? Uma nova vacinação obrigatória? Ou alguma outra atitude impopular do governo? Os rumores foram desfeitos na manhã seguinte, quando os principais jornais do Brasil e do mundo passaram a publicar as notícias da Revolta dos Marinheiros. 
     A Marinha de Guerra havia encomendado diversos navios aos estaleiros ingleses de Newcastle, como parte do seu projeto de reaparelhamento naval, e, em 1910, chegaram os modernos e poderosos encouraçados: Minas Gerais e São Paulo. Foram esses dois navios e mais duas embarcações – Deodoro e Bahia – que os marinheiros utilizaram para exigir o cumprimento das suas reivindicações. Aos gritos de “Viva a liberdade” e “Abaixo a chibata”, os amotinados foram matando e expulsando oficiais, sargentos e marinheiros contrários ao movimento. Logo após, apontaram os enormes canhões contra a cidade e atiraram, vitimando pessoas em duas residências.
     As alternativas de contragolpe eram nulas. Sob a liderança de João Cândido Felisberto e Francisco Dias Martins, os marinheiros, negros em sua imensa maioria, mostraram-se habilidosos na condução das embarcações e na sobriedade com que encararam a luta por melhores condições de trabalho. O uso de bebidas, a prática dos jogos de azar e diversas outras atividades foram proibidas. Afinal, eles estavam planejando essa revolta havia meses e não poderiam comprometer seu sucesso.
     Hermes da Fonseca fora empossado presidente apenas sete dias antes. Com a surpresa do ataque e a dimensão da organização, o marechal se viu obrigado a negociar, sob a pressão de retirar a capital federal da República — e o seu próprio governo — da estranha condição de reféns de centenas de marinheiros amotinados.
     Os debates no Congresso foram fervorosos e puseram em lados opostos os senadores Rui Barbosa e Pinheiro Machado. O primeiro defendia a votação de um projeto imediato de anistia e o segundo entendia que tal direito só deveria ser satisfeito caso os marinheiros primeiro entregassem as armas. Rui Barbosa foi vitorioso, e a anistia encerrou a revolta dos marinheiros naquele mês de novembro. Pensaram os amotinados que os debates no Poder Executivo e a cobertura jornalística nacional e internacional seriam suficientes para terminar com seus problemas. Afinal, haviam conseguido revelar a humilhante realidade a que eram submetidos no interior da armada por seus oficiais superiores. 
     No entanto, em 27 de novembro, os oficiais ordenaram o desarmamento dos poderosos navios e, no dia seguinte, começaram a expulsar dezenas de ex-amotinados, desrespeitando a anistia. A tensão entre marinheiros e oficiais aumentou, e os líderes já não mais conseguiam comandar todos os colegas. Dias depois, em 9 de dezembro do mesmo ano, outra revolta estourou no navio Rio Grande do Sul e no Batalhão Naval da ilha das Cobras. O navio foi logo dominado pelos oficiais, e o Batalhão Naval passou a ser brutalmente bombardeado pelas forças do Exército. Sendo um alvo fixo e sem a liderança e a organização existentes em novembro, os amotinados do Batalhão Naval foram sendo mortos e feridos ao longo daquela intensa noite.  Não há dados que revelem a quantidade de mortos, mas alguns jornais chegaram a noticiar mais de trezentos. 
     Tanto os marinheiros de novembro quanto os de dezembro foram sendo presos.  Dezesseis deles morreram asfixiados numa masmorra da ilha das Cobras. Mais de cem outros foram enviados para o Acre, junto a mais de duzentos presos e presas da Casa de Detenção. Lá foram obrigados a trabalhar nos seringais e na construção da ferrovia Madeira-Mamoré. João Cândido foi um dos dois sobreviventes da cela da ilha das Cobras. Passou dois anos preso, incomunicável, e só conseguiu sua liberdade após um arrastado processo militar, que o acusava de participação no movimento de dezembro.
      Raros eram aqueles que desejavam ser marinheiros. Os homens eram recrutados à força nas ruas ou prisões. Havia também o alistamento de menores pobres, órfãos e desvalidos que eram enviados por pais, juízes e tutores. O governo incentivava esse tipo de alistamento através do pagamento de prêmios aos responsáveis dos garotos.  Entre os receios que afastavam voluntários para o serviço estavam o tempo de serviço militar obrigatório (entre nove e quinze anos), o baixo salário e as violências sexuais. No entanto, as formas de disciplinamento usadas pelos oficiais eram o que maior aversão gerava entre os possíveis candidatos.
     Há diversos casos de cem, 250 e até quinhentas chibatadas num único dia. Embora o castigo da chibata em marinheiros seja facilmente associado à recém-abolida escravidão no Brasil, é importante ter em mente que esse tipo de disciplinamento era comum na maior parte das forças armadas no mundo (Inglaterra, Estados Unidos, Rússia).  Mas não havia  maiores questionamentos por parte dos marinheiros aos castigos considerados justos e sem excessos e, até a República, não ocorreram revoltas contra os castigos na armada.
     Com o fim da guerra do Paraguai, a Abolição e as mudanças no pensamento ilustrado, esse tipo de castigo começou a ser contestado. Além disso, um outro fato mexeu com as normas de punição.  No segundo dia da República, o ministro da Marinha, Eduardo Wandenkolk, decidiu abolir os castigos corporais a bordo dos navios. Essa decisão não foi gratuita.  Um ano antes, os marinheiros haviam conseguido pôr as ruas do Rio de Janeiro em estado de guerra, quando atacaram as forças da polícia, devido a antigas questões entre as duas corporações. O barulho foi tão grande e a oposição explorou tanto a situação pelos jornais que a princesa Isabel teve de sair de Petrópolis para dar um basta àquela situação. Wandenkolk estava nas ruas do Rio nesse dia e muito certamente notou a importância de ter os marinheiros avessos à monarquia e inclinados às iniciativas da jovem República.
     No entanto, cinco meses após o fim dos castigos físicos, os oficiais passaram a pressionar Wandenkolk, que instaurou um novo regime de punição, mais rigoroso que o anterior, resgatando inclusive o castigo de chibata. As primeiras revoltas de marinheiros começaram a estourar em estados como Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Sul ainda na década de 1890. A liderada por João Cândido, no entanto, foi a mais organizada, alcançou maior sucesso que as anteriores e demonstrou a consciência a que os marinheiros haviam chegado. 
     Não era somente uma revolta contra a chibata. Os marinheiros expuseram os problemas e apresentaram propostas concretas de mudança. De um lado, a chegada dos novos navios exigiu maior quantidade de homens, sobrecarregando o trabalho dos existentes. As irritações e os castigos aumentaram consideravelmente. Além disso, os oficiais receberam aumentos de salários, mas os marinheiros não tiveram a mesma sorte. O aumento dos salários e a criação de uma nova tabela de serviços, que diminuísse o excesso de trabalho, foram duas reivindicações reveladoras dessa insatisfação.
     Por outro lado, exigiam o fim dos castigos físicos. Um código penal permitia tal punição, mas diversos oficiais castigavam mais que o ratificado nos seus parágrafos, impiedosamente. Daí exigirem a mudança do código penal e a demissão desses oficiais.  Mas eles também sabiam que mudanças no comportamento dos marinheiros eram necessárias. Havia muitos colegas seus que se embriagavam com frequência, implicavam com colegas, roubavam objetos do fardamento, trapaceavam no jogo.  Eram essas atitudes que geralmente levavam o marinheiro indisciplinado e outros envolvidos por ele a sofrer castigos físicos, descontos de salários, rebaixamento de posto. Assim, exigiram “educação” para os marinheiros indisciplinados. As lideranças certamente discutiram estes problemas nas reuniões preparatórias para a revolta de novembro de 1910.
     Em 1911, a maior parte dos envolvidos tinha sido desligada, morta ou fugira.  Anos depois da revolta, os resultados começaram a aparecer. Em 1923, a Escola de Aprendizes da Bahia teve todas as 47 vagas preenchidas rapidamente. No entanto, o oficial comandante dessa instituição começou a reprovar diretamente todos os menores negros, dando lugar aos brancos. Segundo ele, esta era uma seleção “natural”.  Parte dos oficiais, enfim, desejava embranquecer a armada. 
     Devido ao racismo na Marinha, negros não poderiam ser oficiais. Mesmo que distantes do oficialato, os marinheiros de 1910 desejaram construir uma nova realidade capaz de alavancar suas carreiras.  Numa cidade onde a disputa por empregos no mercado de trabalho criou e recriou conflitos por nacionalidade, cor e gênero, os amotinados de 1910 tentaram garantir um espaço no qual assegurassem dias mais felizes para suas vidas.
Álvaro Pereira Nascimento é doutor em história pela Unicamp e autor de A ressaca da marujada: recrutamento e disciplina na armada imperial.  Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001.



O mestre-sala dos mares
Em 1975, os compositores João Bosco e Aldir Blanc fizeram uma música em homenagem a revolta da Chibata que aconteceu no Brasil em 1910. Nos anos 1970, o Brasil era governado por uma ditadura militar e as criações artísticas, como as letras de música, de­viam ser aprovadas pelas autoridades. A Censura Federal vetava ou alterava artigos de jornal, livros, filmes, músicas, etc. A letra da música de Bosco e Blanc desagradava aos militares e foi censurada. Abaixo estão reproduzidas as duas versões da mú­sica: a versão original e a versão modificada para passar pela censura.