"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O Brasil de todos os pecados

Erotismo e religião se mesclavam nos tempos da colônia
Ronaldo Vainfas
     “Não existe pecado do lado de baixo do equador!” Este ditado que corria na Europa no século XVII e que se tornou verso de Chico Buarque é quase um lugar-comum quando se fala da liberdade sexual nos tempos coloniais. Já Gilberto Freyre, um dos maiores intérpretes do Brasil antigo, dizia que os portugueses aqui desembarcavam "escorregando em índia nua", que neles se esfregavam, fogosas e ar­dentes. Um verdadeiro clima de "in­toxicação sexual" teria explodido já no século XVI, o que nosso grande pernambucano não deixou de cele­brar com a linguagem libérrima de sempre. Afinal era a primeira prova da vocação do português e da índia, depois da negra e da mulata, para a mistura de raças que marcou nossa história desde 1500.
     Gilberto Freyre celebrou o frenesi sexual do período colonial, mas foi durante muito tempo uma voz solitá­ria. Muitos historiadores, antes e de­pois dele, lastimaram profundamente este clima de liberdade excessiva que todos julgavam existir na infância do Brasil. Um deles, Paulo Prado, autor de Retrato do Brasil, dizia que um dos grandes males de nossa for­mação foi a luxúria, palavra que usou, aliás, para dar nome a um dos capítulos do livro. Escreveu Paulo Prado que, também por causa desta desenfreada libidinagem, o brasileiro se tornou um povo triste. Sexo excessivo, desânimo, preguiça. Paulo Prado até citou um provérbio latino para ilustrar sua convicção: post coitum animal triste, nisigallus qui cantat (após o coi­to os animais ficam tristes, exceto o galo, que canta).
     A opinião implacável de Paulo Prado, que escreveu na década de 1920, parece repetir o desespero dos je­suítas e de outros cronistas do tempo colonial, sempre incansáveis em denunciar e lastimar a "dissolução de costumes" que grassava na terra. Américo Vespúcio, o célebre navegador, disse que tamanha luxúria era culpa dos índios, pois eles tinham tantas mulheres quantas qui­sessem, "o filho se unindo com a mãe, o primo com a prima e o encontrado com a que encontra". Grande exagero, sem dúvida, do florentino que deu no­me ao continente, pois os Tupinambá observavam vários tabus sexuais. Mas o português Gabriel Soares de Sousa, que escreveu no meado do século XVI, carregou nas tintas contra os índios. Deu a um de seus capítulos o título "Que trata da luxúria destes bárbaros" dizendo que, entre eles, enquanto as velhas ensinavam aos rapazes as artes do sexo, os homens costumavam pôr no pênis o pêlo de um bicho peçonhento, "que lho faz logo inchar, com o que se lhe faz o seu cano tão disforme de grosso, que os não podem as mulheres esperar, sem sofrer..." (Tratado descriti­vo do Brasil em 1557).
     Manuel da Nóbrega, primeiro provincial dos jesuí­tas no Brasil, em 1549, ficou tão desesperado com o que via, portugueses e índias gemendo pelos matos, que suplicou ao rei o envio urgente de mulheres brancas para casar com os portugueses. Nem que fos­sem "mulheres de má vida", isto é, prostitutas - dizia o jesuíta -, desde que viessem para casar! O recente filme Desmundo mostrou, por sinal com muito realismo e plasticidade, o destino que aguardava essas "ór­fãs" que desembarcavam no Brasil daquele tempo, obrigadas a casar com qualquer um que as quisesse. Nem por isso o ardor geral esfriava. Tempos depois de Nóbrega, outro je­suíta, este italiano, exclamou num ser­mão: "Oh! Se pudessem falar as ruas e becos das cidades e povoações do Brasil! Quantos pecados publicariam, que encobre a noite, e não descobre o dia! (...) Porque ainda a pena treme e pasma de os escrever" (Economia cris­tã dos senhores no governo dos escravos, 1700). Por essas e outras, frei Vicente do Salvador, que escreveu o primeiro livro chamado História do Brasil, ain­da em 1627, disse que não vingou por aqui o nome Terra de Santa Cruz que se lhe dera em 1500. Para o frei, fora tudo obra do Diabo, que, empenhado em remover o nome cristão da terra, trabalhou para que triunfasse outro nome, no caso o de "um pau de cor abrasada e vermelha" (o pau-brasil), mais ade­quado a seus propósitos.
     Brasil, terra de pecados, que muitos cronistas e historiadores associaram, em tom moralista, à liber­dade sexual e à ausência quase completa de religião. Afinal, nosso clero aqui sempre foi escasso, a Igreja desorganizada e muitos padres mal ligavam para seu ofício espiritual. Padres mal preparados e poucos, com a exceção quase solitária dos jesuítas, vale insis­tir, que Gilberto Freyre chamou, com bom humor, de "donzelões intransigentes" - incansáveis no propósi­to de propagar a fé e moralizar os costumes.
     Mas teria sido assim mesmo? Corria solto o pecado sem o menor vestígio de religião? Outro exagero é o que nos mostram os documentos da Inquisição que, por volta de 1591, mandou um visitador do Santo Ofício ao Brasil para averiguar a quantas andava a fé e o comportamento dos colonos. O que tais documentos revelam, antes de tudo, é o sentimento de culpa que atormentava - ou podia atormentar - os próprios portugueses, sabedores do quanto pecavam na terra, sobretudo com as índias. Mas como é possível saber o que se passava na consciência daqueles portugueses há 500 anos? A resposta está num tipo de denúncia que a Inquisição recolheu, naquele tempo, contra os que di­ziam que fornicar não era pecado: muitos colonos acusavam os que diziam, sobretudo em conversas masculinas nas tavernas, engenhos e vilas, regadas a vinho, que fornicar não era pecado. Narrando suas aventuras sexuais, muitos riam, enquanto alguns po­lemizavam, dizendo que fornicar era pecado sim, e pe­cado mortal que condenava ao inferno.
     Nessas polêmicas cotidianas é possível flagrar, sem dúvida, a evidência de que os portu­gueses viviam mesmo entre as índias, dando-lhes qualquer coisa em troca, um espelhinho, um pano, um mimo. Mas é também possível flagrar algum escrúpulo e o medo que todos tinham do inferno. Só o fato de discutirem muito este assunto, como era o caso, já dá mostra do quanto Deus e o Diabo impregnavam o cotidiano desses ho­mens. As reações dos fornicários mais presunçosos não deixa de ter interes­se. Uns diziam que fornicar só era pe­cado venial, mas não mortal. Outros diziam que dormir uma ou duas vezes com índia - que chamavam de negra da terra - não era pecado mortal, nem condenava ao inferno. Mas se dormisse sete vezes, aí sim, o inferno era certo. Alguns diziam que tinham mesmo que fornicar neste mundo, pois o Diabo ha­veria certamente de fornicá-los no Além, sendo ne­cessário compensar de antemão.
     O mais significativo, porém, é que quase todos que diziam não haver pecado tão grave assim na tal fornica­ção alegavam que só fornicavam com índias, pois eram elas "mulheres públicas", mulheres de má vida, prostitutas. Se fosse com virgens - diziam - com mulheres ca­sadas ou, principalmente, com mulheres brancas, aí sim o pecado era grave. Machismo e racismo, com algum verniz de moralismo cristão, eis o que se pode extrair, em doses variadas, dessas conversas masculinas no primeiro século do Brasil. Mais do que isto, mistura forte de libidinagem com religião, mesmo entre homens que se vangloriavam de sua virilidade, useiros a dormir com as índias nas redes, nos matos, onde fosse.
     Religião e sexo andaram juntos, pois, durante mui­to tempo no Brasil Colonial. E não é só neste caso de fornicários que encontramos a prova disto. Os docu­mentos da Inquisição nos revelam inúmeras outras situações semelhantes, uma vez que o Santo Ofício esta­va mesmo empenhado em policiar os costumes da po­pulação colonial. Entre denúncias e confissões, há ca­sos interessantíssimos de mistura entre as coisas da fé e as pulsões do desejo. A começar pela sexualização das figuras divinas, isto é, do próprio Cristo e da Virgem Maria. Tais documentos nos contam estórias como a de certa mulher que, flagelada por um temporal na Bahia, gritou que "Deus mijava sobre ela e que a queria afogar", e outra, de língua espanhola, na mes­ma situação, bradou: "Bendito sea el carajo de mi senor Jesu Christo que agora mija sobre mi".     Acusadas de blasfêmia, ouviram do visitador que "Deus não mi­ja, que é coisa pertencente ao homem e não a Deus". O mais importante disso é menos a evidente blasfêmia, mas a sexualização do Cristo, a figura do Cristo fálico que povoava a imaginação dos homens e mulheres da­quele tempo. O mesmo vale para Maria, Nossa Senho­ra, cuja virgindade perpétua era matéria de discussão cotidiana. Maria fora sempre virgem - Virgo semper - antes, durante e depois do parto? Polemizava-se. Para uns, sempre virgem, para outros nem sempre, para al­guns jamais. Houve muitos que a chamaram diretamente de puta - usando mesmo este palavrão para dizê-lo. E um grande poeta daquele tempo, homem da­do a deboches, não hesitou, certa vez, em jurar "pelo pentelho da Virgem!" Blasfêmias dos colonos? Sem dúvida, mas também prova cabal de que o sagrado podia conviver com desejo e sexo.
     Os moradores do Brasil colonial sexualizavam o di­vino, portanto. Não é de admirar que divinizassem o sexo que faziam na prática. Uns punham o crucifixo de­baixo da cama, outros diziam as palavras da missa em pleno ato sexual. Aliás, era bem difundida a crença de que dizer as palavras da consagração da hóstia na boca de maridos, esposas ou amantes, de preferência duran­te a relação sexual, era coisa que dava excelentes resul­tados. Acreditava-se que tais palavras encantadas pren­diam o ser amado, ou amansavam maridos violentos, e talvez por isso as mulheres usassem muito este artifício nas suas lides conjugais.   Havia, porém, um detalhe pre­cioso: as palavras tinham que ser ditas em latim! Hoc est eram corpus meum, ou seja, Isto é o meu corpo. Era isto, portanto, o que se dizia nas noites e dias das "cidades e povoações do Brasil": nada menos que as palavras sa­gradas da eucaristia, entre sussurros e gemidos.
     A linguagem de sedução seguia, assim, a sina da religião, entre o Cristo fálico e a Virgem fêmea, ou por meio das sacralidades que temperavam os ardo­res sexuais. Embebida de religião, a linguagem do amor e da sedução era povoada por diversos santos, por Deus e, decerto, pelo Diabo, ou por vários deles, todos eventualmente irmanados para levar os enre­dos amorosos a bom termo.
     Um expediente corriqueiro estava no uso de certo amuleto amoroso, as chamadas cartas de tocar, magia ibérica que consistia em encostar na pessoa desejada um objeto gravado com seu nome e outras palavras próprias para seduzir. No Brasil usavam-se papéis, às vezes papeizinhos miúdos contidos em "bolsas de mandinga", para "fechar o corpo". Na visitação do Santo Ofício que mencionamos, várias bruxas, pois assim foram chamadas, viram-se acusadas de vender as tais "cartas" e divulgar outras magias eróticas. Uma dessas bruxas era conhecida pelo sugestivo no­me de "Maria Arde-lhe o Rabo". Outra, de nome Isabel, possuía alcunha menos sensual: a "Boca Torta". No século XVIII mineiro, uma certa Águeda Maria tinha um papel com algumas palavras e cru­zes, "carta" que servia para as mulheres tocarem em homens desejados sexualmente. No Recife, era um certo Antônio Barreto quem levava um papel com signo salmão e credo escrito às avessas, que servia para fechar o corpo e facilitar mulheres: "Qualquer mulher que tocasse a sujeitaria à sua vontade."
     Além das cartas de tocar, recorria-se, com idênticos propósitos, às orações amatórias, práticas muito comuns na colônia e universalmente conhecida. Segun­do a historiadora Laura de Mello e Souza, essas orações eram um ramo da magia ritual em que era irre­sistível o poder de determinadas palavras e, sobretudo, o nome de Deus, mas que não dispensava o conjuro dos demônios. Tudo com o fim, ao mesmo tempo, de conquistar, seduzir e apaixonar. Uma das bruxas baia­nas do século XVI mandava rezar junto ao amado: "João, eu te encanto e rencanto com o lenho da vera cruz, e com os anjos filósofos que são 36, e com o mouro encantador, que tu te não apartes de mim, e me digas quanto souberes e me dês quanto tiveres, e me ames mais que todas as mulheres." Não tão melo­diosa como esta era a oração que, no século XVII no Pará, fazia Maria Joana, cruzando os dedos: "Fulano, com dois te vejo, com cinco te mando, com dez te amarro, o sangue te bebo, o coração te parto. Fulano, juro-te por esta cruz de Deus que tu andarás atrás de mim assim como a alma anda atrás da luz, que tu pa­ra baixo vires, em casa estares, e vires por onde quer que estiveres, não poderás comer, nem beber, nem dormir, nem sossegar sem comigo vires estar e falar."
     Eram inúmeras as rezas com fins eróticos que alu­diam às almas, ao leite da Virgem, às estrelas, a Cristo, aos santos, aos anjos e demônios. Mas como as orações nem sempre bastavam, as empreitadas eróticas vinham também acompanhadas do uso de poções, filtros amorosos, como se dizia, que misturavam um cristianismo popular com crenças pagãs, o que aqui se viu adensado pelos ingredientes culturais indígenas e africanos. Poções e filtros para "fazer querer bem", seduzir, reter a pessoa amada. E neles, diferentemente das cartas de tocar ou das orações amatórias, sobressaía o baixo corporal, as partes ge­nitais, o líquido seminal. Ao ensinar a uma de suas clientes um modo de viver bem com seu marido, uma das bruxas do século XVI man­dou que ela furtasse três avelãs, en­chesse os buracos abertos com pêlos de todo o corpo, unhas, raspaduras da sola dos pés, acrescentasse uma unha do dedo mínimo da própria bruxa e, feita a mistura, engolisse tudo. Ao "lançá-los por baixo" - imagine-se de que modo! - pusesse tudo no vinho do marido. No entender da bruxa, pa­ra as coisas correrem bem, bastava fa­zer isto. Outro artifício ensinado pela bruxa envolvia o sémen do homem amado. Ao terminar o ato sexual, a mulher devia retirar de sua própria vagina o sémen do homem e colocá-lo no copo de vinho do parceiro. A bruxa garantia: beber sémen "fazia querer grande bem, sendo do próprio a quem se quer".
     Uma característica importante deste autêntico mercado de linguagens eróticas, onde se trocavam ou vendiam saberes e magias sexuais, era a quase absoluta separação entre o mundo masculino e o femini­no. Nos documentos da Inquisição, em que são des­critas as circunstâncias de cada fato denunciado, vê-se bem que as mulheres protagonizavam o vaivém de poções, cartas de tocar, rezas sedutoras. Já nas con­versas desabridas sobre fornicações, quando surgia a polêmica se fornicar era ou não pecado mortal, só homens estavam presentes, tudo na base do "erotis­mo grosso" que Gilberto Freyre viu nos costumes masculinos portugueses. Não havia também a cum­plicidade ou solidariedade entre os envolvidos, pois as mulheres eram acusadas, por suas próprias clien­tes, de ensinar ou vender poções, enquanto os ho­mens eram acusados de celebrar seus feitos de macho pelos amigos de ontem, que com eles beberam vinho e contaram aventuras sexuais. A Inquisição vivia da desunião entre amigos, parentes, amantes.
     O certo, porém, é que o pecado no Brasil Colônia não corria livre como muitos pensaram. Os jesuítas estavam sempre a reprovar os excessos. Os inquisido­res a perseguir os mais afoitos. E todos, a bem dizer, viviam mais ou menos atormentados, temendo os castigos do céu e da terra. De mais a mais, era tudo muito exposto naquele tempo, pois os espaços das casas não eram claramente definidos e, quando o eram, nas casas-grandes, por exemplo, mal havia portas separando cômodos. De maneira que era frequente, mesmo entre casais unidos pelo matrimônio, que muitos vissem as relações sexuais de vizinhos, parentes ou moradores da casa.
     Um caso exemplar - conforme re­gistrou literalmente o escrivão no ma­nuscrito número 6.366 da Inquisição de Lisboa - foi o de certa moça cha­mada Maria Grega, mameluca casada com um alfaiate, na Bahia quinhentis­ta, que correu para acusar o marido ao inquisidor de que ele só a possuía pe­lo ânus, nunca pelo "vaso natural". Perguntada pelo inquisidor se alguém podia testemunhar sobre o caso, disse sem nenhuma cerimônia que a irmã dela sempre viu tudo, pois dormia numa rede ao la­do. . .Outro caso espantoso diz respeito a um certo Baltazar da Lomba, morador em Per­nambuco, homem já dos seus 60 anos, que gostava de dormir com índios. Numa dessas foi pego em flagrante por um ra­paz curioso que "por uma abertura da porta, pôs a orelha e aplicou o sentido", ouvindo Baltazar da Lomba e um índio ofega­rem na rede, acrescentando que um deles gritava "ui, ui, ui".
     Os lugares para fazer sexo no Brasil Colônia eram mesmo devassados. Não admira que o mato fosse lugar de certa privacidade ou que as pessoas mal ti­rassem as roupas quando mantinham relações sexuais. Os documentos da Inquisição - indiscretíssimos - tam­bém nos contam que o mais comum era os homens arriarem seus "cal­ções", como então se dizia, ou levantarem as "camisolas", as mulheres, suas saias, e pronto: cópula consumada. Nem as igrejas escapavam do sexo, como nos conta a histo­riadora Mary del Priore em delicioso texto intitulado "Deus dá licença ao Diabo". Nelas brotavam romances, em meio às missas, o padre entoando as palavras eucarísticas que muitas mulheres repetiriam depois na boca dos maridos. E nas igrejas, muitas vezes, se abrigavam os amantes. Não por acaso, um manual português de 1681, escri­to por d. Christóvam de Aguirre, continha as perguntas: "A cópula tida entre os casais na igreja tem especial malícia de sacrilégio? Ainda que se faça ocul­tamente?" Por aí se pode ter uma ideia de como a igreja poderia funcionar depois do culto.
     Sexo na igreja é algo que nos leva de volta aos pa­dres e de como religião e desejo se mesclavam no cotidiano do Brasil antigo. Muitos padres, por sinal, eram useiros em flertar com mulheres casadas ou solteiras, fazendo-o, inclusive, no próprio ato da confissão. Aproveitavam o fato de a confissão ser se­creta e, portanto, um dos raros espaços de privacida­de naquele tempo, e seduziam as moças. A Inquisi­ção, sempre ela, não dormiu no ponto, especialmen­te porque, neste caso, não se tratava apenas de incon­tinência clerical, mas do uso libidinoso de um sacramento. Por isto eram os tais padres chamados de so­licitantes ad turpia, isto é, solicitavam penitentes com propósitos torpes. O Santo Ofício prendeu e proces­sou vários deles, produzindo com isso documentos formidáveis sobre como os homens seduziam as mu­lheres em tempos idos. Era comum esses padres falarem mal dos maridos, prometendo às mulheres vida melhor, ofertando presentes, ou recitando poeminhas. Um deles mandou à penitente, doublé de mu­lher desejada, uma florzinha entredentes, fazendo-a passar pelas grades do confessionário. Mas esses pa­dres solicitantes pareciam usar de códigos diferentes, conforme a posição social das mulheres que deseja­vam seduzir. Se fossem brancas, cortejavam, diziam versos, ofereciam mimos. Se negras, iam logo pondo as mãos nos peitos, ou por baixo das saias, usando de linguagem chulíssima. Pelo visto, não só de religião o sexo estava embebido naquele tempo, mas também da lógica da escravidão. Seduzir brancas era coisa que merecia poemas e flores. Seduzir negras, cativas ou forras, dispensava tais delicadezas: os padres iam logo apalpando seios, apertando coxas ou mesmo to­cando nas ditas "partes vergonhosas" por meio de palavreado lascivo.
     De um modo ou de outro, é claro que os padres usavam do poder que o cargo lhes conferia para assediar moças incautas. Era o caso, por exemplo, de um certo frei Luís de Nazaré, carmelita da Bahia que viveu no século XVIII. Dizia ter poderes de exorcista, no que muitos acreditavam, e "curava" mulheres doentes através de cópulas, ou por vezes espalhando sémen no corpo das moças, dizendo, com a Bíblia na mão, que aquilo era remédio bom e vinha de Deus. Ao se defender do processo que depois lhe moveu a Inquisição, frei Luís não hesitou em dizer que fazia aquilo não por ser herege, mas porque tinha desejos irrefreáveis e as mulheres do Brasil "eram rudes e simples". "Facilmente se enganavam", disse o frei, "com qualquer cousa que lhes dizem...."
     As sexualidades brasílicas de outrora nem eram tão livres, nem estavam isentas de preconceitos, constrangimentos de todo tipo e, sobretudo, de reli­gião, que irrigava a sociedade inteira. Muita coisa nos soaria estranha, nos dias de hoje, como casais se amando vestidos ou dizendo as palavras sagradas em pleno gozo. Alguns costumes de outrora parecem até bizarros, como um tal "namoro do bufarinheiro", descrito por Júlio Dantas, muito comum em Portu­gal na primeira metade do século XVIII: homens a distribuir piscadelas d'olhos e a fazer gestos sutis com as mãos ou boca para as mulheres que se posta­vam à janela, suspirantes, em dias de procissão reli­giosa, como se fossem eles bufarinheiros a vender suas bugigangas. Ou um tal "namoro do escarrinho", costume luso-brasileiro dos séculos XVII e XVIII, em que o "enamorado" punha-se embaixo da janela da pretendida sem dizer nada, limitando-se a fungar, como se estivesse resfriado, ou mesmo tossir, assoar o nariz e escarrar no chão, à vista da moça.
     Costumes estranhos, alguns. Outros nem tanto, em especial os que envolviam constrangimento, preconceito, assédio. Os documentos da Inquisição es­tão cheios deles. O Brasil era mesmo terra de pecados, mas nem de longe de liberdade sexual. Liberda­de nunca houve por ali - ou por aqui - e entre os ca­sais unidos pelo santo matrimônio poucas vezes se encontra o amor que o século XIX celebraria na literatura romântica. Amor e sexo juntos era coisa rara na Colônia, ao menos nos documentos daquele tem­po, mais empenhados em flagrar delitos do que sen­timentos amorosos. Salvam-se alguns poemas líricos, aqui e ali, como os dos árcades mineiros, no século XVIII, por vezes muito amorosos, mas pouco eróti­cos. Eróticos e amorosos ao mesmo tempo só os poe­mas satíricos - pouquíssimos - como os do célebre Gregório de Matos Guerra, que viveu na Bahia, sécu­lo XVII, de que vale citar uns versos:

"O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
união de barrigas,
um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um rebuliço de ancas,
quem diz outra coisa é besta"

     Não por acaso, celebrando o amor deste modo, entre pernas, veias e ancas, Gregório de Matos seria afamado ou infamado na Bahia como o "Boca do Inferno". Mas o poema tem lá seu valor. Informa, no mínimo, que alguns podiam ficar totalmente nus no encontro dos corpos, entre gemidos e palavras encantadas, o que não era pouca coisa naquele tempo. A bem da verdade, de "boca do inferno", ao menos neste poema, nosso Gregório não tinha nada. Estava mesmo é com o coração na boca.

Ronaldo Vainfas é professor titular de História Moderna da Universidade Federal Fluminense e autor de Trópico dos pecados: moral, sexualidade e Inquisição no Brasil Colonial, 2a ed. Rio de janeiro: Nova Fronteira, 1997.

Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 01 – Novembro 2003

Saiba Mais - Links

Saiba Mais – Filmes
Desmundo
Filme de época (por volta de 1570) e falado em português arcaico do século 16, é todo legendado no idioma moderno.
Baseado no livro da romancista Ana Miranda e dirigido pelo paulista Alain Fresnot, a narrativa traça um retrato do Brasil colonial visto sob o ponto de vista feminino: no caso, o de Oribela (Simone Spoladore).
Jovem portuguesa, Oribela veio para o Brasil junto com um grupo de órfãs trazidas para cá pelo projeto da monarquia lusitana de oferecer esposas brancas aos colonos, que há tempos se miscigenavam com as índias.
Na época, essa era uma situação completamente desfavorável às mulheres, mesmo às europeias. Afinal, naqueles dias elas valiam menos do que as mulas e tinham menos direito a exercer a própria vontade. Como gado, seus dentes e dotes físicos eram examinados e elas eram arrematadas como num leilão.
Muito devota, mas disposta a tentar algum tipo de escolha, Oribela rejeita com uma cusparada o primeiro e bruto pretendente (Cacá Rosset). Com Francisco (Osmar Prado), ela já é mais conivente, ainda mais que ele se comporta, em princípio, com mais civilidade.
Instalada na remota propriedade do marido com uma sogra estranha (Berta Zemel), uma cunhada deficiente e uma clara insinuação de incesto, Oribela tenta a fuga com a ajuda de um comerciante judeu, Ximeno (Caco Ciocler).
Direção: Alain Fresnot
Duração: 99 min
Ano: 2003
Áudio: Português + Legenda

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Guerras Mundiais (The World Wars)

Minissérie em 6 episódios, que traz a história de uma geração de homens que lutaram como soldados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, e que se tornaram líderes na Segunda Guerra Mundial. Adolf Hitler, Franklin Delano Roosevelt, Benito Mussolini, Winston Churchill, Charles de Gaulle, George Patton, fizeram parte das duas guerras sangrentas que abalaram a humanidade por 30 anos. Antes de serem os protagonistas da Segunda Guerra Mundial, eles foram soldados de infantaria durante a Primeira Guerra Mundial, a "guerra para acabar com todas as guerras”. Alguns se tornaram heróis; outros despontaram como vilões. Reconstituir as guerras mundiais dessa forma é contá-la através desses homens em uma abordagem única e inédita: a Primeira Guerra os mudou e na Segunda Guerra, eles mudaram o mundo.
Direção: John Ealer
Ano: 2014
Áudio: Português
Duração: 50 minutos
Tamanho:  400 MB (cada)
Qualidade: HDTV - 720p  


Episódio 1 e 2 : 
Uma bala assassina em Sarayevo desata um conflito global que rapidamente se transforma na guerra mais cruel que a humanidade já havia visto até então: a Primeira Guerra Mundial. Em meio ao caos, surge uma nova geração de soldados, que incluía um grupo de homens que, mais tarde, se tornariam os líderes mais conhecidos do século 20. Com a vitória dos países aliados, uma paz duradoura é negociada. Mas o tratado que assinam cria um monstro, deixando o Japão humilhado e enfurecido. Por outro lado, com a Alemanha mergulhada em uma vertiginosa crise econômica, Adolf Hitler e Benito Mussolini se aproveitam do momento em seu próprio benefício. A tão esperada paz é superficial e está longe de ser definitiva.

Episódio 3 e 4: 
A primeira guerra cessou, mas as tensões em todo o mundo continuam a borbulhar por baixo da superfície. Quase sem perceber, já tinham sido semeadas as sementes do próximo grande conflito mundial. Com a queda na bolsa dos Estados Unidos, surge uma grande depressão econômica. Franklin Roosevelt tenta consolidar o país, mas se prepara em silêncio. As diferenças políticas na Alemanha, Itália, União Soviética e Japão dão lugar a novos líderes que lutam por seus países. Adolf Hitler consolida seu partido nazista. Benito Mussolini unifica o povo italiano e fortalece o país. Joseph Stalin revoluciona a União Soviética e faz uma aliança com Hitler para ganhar mais poder. Hideki Tojo também une o Japão a Hitler contra os Aliados. Com esta aliança e o controle de boa parte da Europa, Tojo ordena o famoso ataque do Japão contra os Estados Unidos em Pearl Harbor, dando início à Segunda Guerra Mundial.

Episódio 5 e 6: 
Quando a guerra inevitavelmente estoura de novo, a nova geração de líderes mundiais entra em ação. Eles usam suas experiências passadas para lutar no novo conflito, enfrentando o maior desafio pelo qual a humanidade já passou. O ataque a Pearl Harbour obriga Franklin Roosevelt a declarar guerra ao Japão. Adolf Hitler e Benito Mussolini não perdem tempo e também declaram guerra aos Estados Unidos e, pela segunda vez em 30 anos, o mundo entra em guerra. As batalhas se generalizam e os Aliados atacam. Douglas MacArthur, George Patton e Winston Churchill, usam seus conhecimentos em estratégia de batalha adquiridos na Primeira Guerra e fecham o cerco por todos os lados. Com Hitler vencido, a vitória é declarada na Europa, mas o conflito continua no Pacífico; Hideki Tojo havia transformado o exército imperial japonês em uma potência. É então, que as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki levam a guerra a um final de grande impacto.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Presidentes da 1ª República - Arthur Bernardes - Washington Luís

O homem forte do Catete
Governando em período de grande instabilidade política, Arthur Bernardes conduziu o país sob estado de sítio.
Fabiano Vilaça dos Santos
     Ele era "alto, esguio, de nariz aquilino, testa larga". Seus "olhos castanhos, pequenos e irrequie­tos lhe boiavam no rosto com­prido", segundo a descrição de um contemporâneo. Mineiro, percorreu firme e paciente o ca­minho para a Presidência da Re­pública. Mas chegou em mo­mento político extremamente agitado. Era a década de 1920, tempo do movimento tenentista, da Revolução Libertadora no Rio Grande do Sul (1923) e da Revolução Paulista de 1924. E de medidas drásticas. Não foi à toa que o país permaneceu em esta­do de sítio - suspensão de garan­tias constitucionais em nome da ordem pública - durante quase todo o mandato presidencial (1922-1926).
     Arthur da Silva Bernardes nas­ceu em Viçosa, na Zona da Mata mineira, em 8 de agosto de 1875. Quarto dos oito filhos do portu­guês Antônio da Silva Bernardes, advogado provisionado (sem di­ploma), e de Maria Aniceta Pinto Bernardes, teve uma infância mo­desta. Em 1887, foi matriculado no tradicional Colégio Caraça, de onde saiu dois anos depois por falta de recursos. Com 14 anos, foi trabalhar na firma Pena & Graça, que negociava café e, mais tarde, na Casa Adriano Telles & Cia., co­mo guarda-livros (contador).
     Voltou a estudar no Externato do Ginásio Mineiro, em Ouro Preto, colaborando no jornal Aca­demia. Em 1896, matriculou-se como ouvinte na Faculdade Livre de Direito de Minas Gerais, fun­dada em 1892. No quarto ano do curso, Bernardes se transferiu pa­ra a Faculdade de Direito de São Paulo. Para se manter, trabalhou como revisor no jornal Correio Paulistano, estafeta (mensageiro a cavalo) dos Correios e professor de português e latim.
     Formado em 1900, voltou para Viçosa e abriu um escritório. Foi quando uma situação insólita se instalou em sua casa. Nessa épo­ca, seu pai já era promotor da co­marca e toda vez que Bernardes atuava como advogado de defesa os dois ficavam em lados opostos. Para acabar com o impasse, Antô­nio Bernardes se exonerou e pas­sou a trabalhar com o filho.
     Em 15 de julho de 1903, casou-se com Clélia Vaz de Melo, com quem teve oito filhos. O enlace foi a porta de entrada de Bernardes na política. Seu sogro, o senador Carlos Vaz de Melo (1842-1904), era homem influente em Viçosa. E, ao contrário do que se poderia pensar, logo após sua morte a car­reira do genro deu um salto. Eleito presidente da Câmara Municipal, em 1905, recusou o cargo prefe­rindo trabalhar como advogado, mas o assumiu no ano seguinte. Deputado estadual em 1907 e fe­deral em 1909, pelo Partido Republicano Mineiro (PRM), seu prestígio político se consolidou ao se aproximar das principais oligarquias do país que apoiavam a candidatura do marechal Hermes da Fonseca à Presidência.
     Depois de ocupar a Secretaria de Finanças de Minas e de exercer mais um mandato de deputado estadual, Arthur Bernardes deu um importante passo na carreira: chegou à presidência de seu esta­do (1918-1922). Em um banque­te, fez um discurso defendendo que "a nenhum estado deve ser lí­cito sonhar com a hegemonia po­lítica na Federação", e o café, "termômetro de nossa situação eco­nômica". Uma de suas principais realizações foi a criação, em 1922, da Escola Superior de Agricultura e Veterinária, embrião da Univer­sidade Federal de Viçosa. Nessa época, deu provas do forte nacio­nalismo que marcaria sua futura gestão no Catete, ao recusar um contrato com a empresa Itabira Iron para exportar ferro do vale do rio Doce.
     Os anos de 1921 e 1922 foram de acirrada disputa pela sucessão de Epitácio Pessoa (1919-1922). Inicialmente, o paraibano foi con­tra a ideia de Minas eleger mais um presidente, pois desejava que seu sucessor viesse de algum esta­do do Norte. Para obter o apoio desta região à candidatura de Arthur Bernardes, segundo a his­toriadora Cláudia Viscardi, as oli­garquias mineiras se comprome­teram com a continuidade das obras iniciadas pelo "Pitaço" e es­peraram o apoio dos gaúchos e do Rio de Janeiro. Mas a corrida pre­sidencial exigiria fôlego. Enquan­to Epitácio e os paulistas aderiram ao nome de Bernardes, Rio Gran­de do Sul, Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro apostaram em Nilo Peçanha, que encabeçou a chapa da "Reação Republicana". Para in­crementar a disputa, entrou em campo um terceiro concorrente: Hermes da Fonseca. Eleito presi­dente do Clube Militar, o mare­chal foi apontado como mentor de um estratagema para minar a indicação do mineiro: o episódio das "cartas falsas", publicadas no jornal Correio da Manhã - pró-Nilo -, em 1921.
     Uma das cinco missivas "assi­nadas" por Arthur Bernardes e enviada a Raul Soares (1877-1922), então presidente de Mi­nas, dizia: "estou informado do ridículo e acintoso banquete da­do pelo Hermes, esse sargentão sem compostura, aos seus apaniguados (...) Espero que use com toda energia, de acordo com as minhas últimas instruções, pois essa canalha precisa de uma re­primenda para entrar na discipli­na..." O objetivo das "cartas fal­sas" era indispor os militares com Bernardes. O clima entre a oficia­lidade, em plena agitação tenentista, favorecia o plano. Além dis­so, o próprio Hermes da Fonseca buscava apoio entre alguns setores da política mineira para sua candidatura, o que reforçou as suspeitas da autoria das cartas.
     A imprensa não perdeu a oportunidade de satirizar a dispu­ta presidencial. Os partidários de Nilo Peçanha pularam o Carna­val de 1922 cantarolando a marchinha "Ai, Seu Mé!", de Freire Júnior (1881-1956) e Luiz Nunes Sampaio (1886-1952), o Careca. A letra fazia referência a dois apelidos de Bernardes, "Seu Mé" e "Rolinha": Ai Seu Mé/ Lá no Palácio das Águias, olé!/ Não hás de por o pé.../ O Zé Povo quer a goiabada campista./ Rolinha desista/ Abaixa esta crista.../Embora se faça uma bernarda a cacete,/ Não vais ao Catete! Não vais ao Catete!
     Mas, apesar de toda a oposi­ção, a adesão de São Paulo garan­tiu a vitória do "Seu Mé" por 466.877 votos. Para vice, foi esco­lhido o maranhense Urbano San­tos (1859-1922), que morreu dois meses depois de eleito, sendo substituído, em novo pleito, pelo pernambucano Estácio de Albu­querque Coimbra (1872-1937). Bernardes tomou posse em esta­do de sítio devido ao Levante dos Dezoito do Forte, no final do governo de Epitácio, e percebeu que para conter as oposições e manter a or­dem teria que ser enérgico.  Seus métodos, considerados violentos e arbitrários pelos adversários, deram origem ao "bernardismo".  Exemplo disso foi o envio de políticos, líderes ope­rários, militares re­beldes e todos que conspiravam contra a ordem pública para a colónia agrícola de Clevelândia, criada em 1922 no Pará.
     Os momentos de turbulência não tardaram. Movimentos ex­plodiram pelo país expressando ora a cisão entre as oligarquias dos estados ora a per­da de apoio do governo federal. No primeiro caso está a disputa en­tre grupos políti­cos gaúchos - a Revolução Libertadora de 1923 -, em que o estancieiro Assis Brasil (1857-1938) se opôs ao governo estabelecido de Borges de Medeiros (1863-1961). O go­verno federal interveio e a con­tenda terminou em dezembro com a assinatura do Tratado de Pedras Altas.
     Quando os ânimos pareciam serenar, os paulistas deram voz à sua insatisfação. Presidente e cafeicultores - aliados na campanha - andavam às turras por causa dos rumos da política em relação ao café (o governo segurava as expor­tações para especular com o preço e deixava os pro­dutores sem capi­tal para reinvestir na lavoura). Por outro lado, a ma­nifestação do "ber­nardismo" fez com que militares de São Paulo articu­lassem um movi­mento armado que começou no dia 5 de julho de 1924. Sob o co­mando do general Isidoro Dias Lopes (1865-1949), a capital do estado foi tomada, le­vando o governo federal a decretar estado de sítio e ordenar o bom­bardeio, inclusive aéreo, da cidade. Os paulistas exigiam as reformas propostas pelo movimento tenentista: voto secreto, ampliação do ensino primário obrigatório e limitação do poder do Executivo, em clara oposição ao "bernardismo". O episódio de 1924 foi a cha­ve para outro importante movi­mento tenentista: a Coluna Pres­tes, que teve como principais líde­res Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e Miguel Costa (1885-1959). De 1925 a 1927, a Coluna - formada por militares rebeldes - percorreu o país em aberta oposi­ção ao governo.
     Se no plano interno a ordem foi garantida por meio de medi­das repressivas, a política externa de Arthur Bernardes não foi me­nos incisiva. Em 1926, após a bem-sucedida missão de Afrânio de Melo Franco (1870-1943) na V Conferência Pan-Americana, no Chile, quando foi discutido um programa de desarmamento dos países da América do Sul, o presi­dente encarregou o conterrâneo de chefiar a delegação brasileira na Liga das Nações, da qual o país se retirou por não concordar com a entrada da Alemanha.
     Ao deixar o Catete em 1926, sob protestos e acusações de au­toritarismo, "Rolinha" assumiria um lugar no Senado no ano se­guinte. Mas preferiu bater asas rumo à Europa para respirar ares menos carregados e só tomou posse em 1929. Na volta, encon­trou o país em ebulição. O des­contentamento político reinava e um clima de revolução pairava sobre o governo de Washington Luís (1926-1930). Setores da po­lítica mineira estavam dispostos a aderir ao movimento que vinha do Sul, comandado por Getúlio Vargas (1882-1954). Bernardes o apoiou acreditando que o líder gaúcho garantiria a ordem públi­ca e conduziria o país à legalida­de convocando uma constituinte logo após chegar ao poder.
     Suas expectativas foram frus­tradas, mas o ex-presidente conti­nuou defendendo a legalidade aliando-se às forças mineiras na Revolução de 1932. Por causa dis­so, tornou-se uma pedra no sapa­to do novo governo que tentou afastá-lo do cenário político nomeando-o para uma embaixada. A oferta foi recusada e Bernardes passou a sofrer perseguições e ameaças de devassa nas contas de sua gestão. Acabou forçado a par­tir para o exílio, em Lisboa. No momento do embarque, seus ini­migos políticos ainda atentaram contra sua vida, mas o tiro atin­giu, sem gravidade, Arthur Ber­nardes Filho. O episódio nunca foi devidamente esclarecido.
     O afastamento durou até a abertura dos trabalhos para a ela­boração da Carta de 1934, quan­do foi eleito deputado consti­tuinte. Com o golpe que inaugu­rou o Estado Novo, em 1937, foi cassado e ficou fora da vida pú­blica até o fim da ditadura de Vargas, em 1945. No ano seguin­te, elegeu-se deputado constituinte. Ainda foi suplente no Parlamento em 1950, e, quatro anos depois, deputado federal.
     Na manhã do dia 23 de março de 1955, uma quarta-feira, Arthur Bernardes sofreu um infarto. Ti­nha 79 anos e estava em pleno exer­cício do mandato de deputado. Faleceu pouco antes das 15 horas e foi enterrado no Rio de Janeiro com honras de chefe de Estado. Em sua conturbada passagem pe­la Presidência, desmentiu a profe­cia de Epitácio Pessoa (citada pela historiadora Isabel Lustosa) lan­çada em maio de 1922: "ele não aguentará 24 horas no Catete".
Fabiano Vilaça dos Santos é doutorando em História Social na USP e pesquisador em Nossa História.
Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 36 – Outubro 2006


O paulista de Macaé
Legítimo representante da oligarquia paulista, o fluminense Washington Luís enfrentou a Revolução de 1930 e criou o lema "Governar é abrir estradas"
Nívia Pombo
     Sexta-feira, 24 de outubro de 1930. Washington Luís vivia suas últi­mas horas como presidente da República. Pelos belos salões do Palácio Guanabara, caminhava impaciente de um lado para outro, retrucando aos poucos amigos que lhe restara: "Eu não renuncio!... Só aos pedaços sairei daqui!...". Convencido de que teria o mesmo apoio popular, quando de sua elei­ção em 1926, nem imaginava que, do lado de fora, uma multidão in­dócil dava vivas à "revolução", aguardando ordens para bombar­dear a sede do governo. Seu man­dato estava sendo prematuramen­te interrompido, assinalando o fim da era "café com leite".
     Washington Luís Pereira de Souza nasceu em Macaé, cidade do litoral norte do Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1869. São escassos os registros sobre sua in­fância. Primogênito dos quatro filhos do tenente-coronel Joa­quim Luís Pereira de Souza e de Florinda Ludgera de Sá Pinto Ma­galhães, pertencia a uma família de proprietários de engenhos de açúcar que gozava de grande prestígio político no Império.
     Prestígio que não impediu que a família passasse por dificuldades financeiras. Antes da abolição da escravidão em maio de 1888, seu pai libertou todos os seus escravos. Apesar de prometerem a permanência até o fim da colheita, os al­forriados abandonaram a proprie­dade, deixando a família em ruína. A esta altura "Chinton", como era chamado pelos familiares, já havia passado pelos colégios Pe­dro II e Augusto, no Rio de Janei­ro. Em 1889, ingressou na Facul­dade de Direito de São Paulo, mas se transferiu para a Faculdade de Direito de Recife, com o intuito de terminar o curso em três anos. A falta de recursos da família preo­cupava Washington e seus irmãos, como mostra a carta de seu irmão Lafaiete, de 8 de outubro de 1888: "Papai disse que o Chico não estu­da mais, nem este ano, nem outro, porque não há meios".
     "Chinton" não foi um estudan­te exemplar. Boêmio, preferia os passeios pela capital pernambuca­na a dedicar-se às leituras que o curso exigia. Era perito em jogar bilboquê, brincadeira que pertur­bava a concentração de Otávio Costa, seu colega de quarto. Às vés­peras das provas, decorava a matéria de madrugada e, assim, conseguia boas notas. Em outubro de 1891, voltou a São Paulo para prestar os exames finais, bacharelando-se no mesmo ano. Com a ajuda de familiares, foi nomeado promotor de Barra Mansa, no Rio de Janeiro, mas, insatisfeito com o salário, em 1893 se transferiu para Batatais, São Paulo, onde abriu um escritório de advocacia.
     Frequentava bailes carnavales­cos, teatro e tinha um gosto espe­cial por óperas, especialmente pelas composições do italiano Giuseppe Verdi (1813 -1901). Mas não só a música italiana acalenta­va o seu coração: desde jovem, mostrava fraqueza com as italia­nas. Segundo João Lima, autor de Como vivem os homens que gover­naram o Brasil, nos tempos de fa­culdade, "Chinton" teve "os senti­dos perturbados por uma atriz ita­liana, de nome Gisela, rapariga de rara sedução". Em maio de 1928, já no governo, um caso com uma marquesa italiana quase acabou em tragédia: após um jantar, a jo­vem, por ciúme, teria atirado em Washington, ferindo-o no ventre. A imprensa tentou abafar o caso, informando que o presidente ha­via sido internado às pressas para a retirada do apêndice. Mas os ru­mores aumentaram, quando, dias depois, a moça se suicidou.
     Fazia o tipo sportsman: partici­pava de ralis automobilísticos em Santos e no Vale do Paraíba e, em 1919, fez seu batismo aéreo, levan­tando voo num avião Sopwith, em Guarulhos. Nas horas de folga era historiador. Publi­cou dois estudos a partir de suas pes­quisas no Arquivo Público de São Paulo: Contribuições para a história da capitania de São Paulo. Gover­no Rodrigo César Meneses (1904) e Testamento de João Ramalho (1905). Jovem, já era tido como elegan­te e inteligente, só faltava mesmo o respeito no círculo político pau­lista. Isso ele conseguiu casando-­se, em 4 de março de 1900, com a filha dos barões de Piracicaba, So­fia Paes de Barros (1877-1934). A moça também apreciava música clássica e canto.  Tiveram quatro filhos: Florinda Maria (1901), Rafael Luís (1902), Caio Luís (1905) e Vítor Luís (1907).
     Membro do Partido Republi­cano Paulista, sua carreira políti­ca teve início em 1904, ao ser eleito deputado estadual. Dois anos depois, com a ajuda da so­gra, foi nomeado para a Secre­taria de Justiça com a missão de reformar as polícias civil e mili­tar. Entre outras medidas, estabe­leceu a obrigatoriedade do diploma de advogado para os delega­dos de polícia. Nesse período, ao colocar detentos para trabalhar na reconstrução da via São Paulo-Santos, cunhou o lema: "Governar é abrir estradas".
     Após deixar a Secretaria de Jus­tiça, em maio de 1912, foi eleito deputado estadual e, por dois man­datos consecutivos, prefeito de São Paulo. Em 1919, se candidatou ao governo do estado. Eleito, cum­priu as promessas de campanha: manteve a velha política de valori zação do café e construiu cerca de 1.326 quilómetros de estradas. Na área cultural, fundou o Museu Histórico Republicano de Itu (1923) e incentivou projetos histó­ricos sobre o passado paulista.
     Sua indicação para a Presidên­cia da República resultou, mais uma vez, de um consenso entre Minas Gerais e São Paulo. No en­tanto, desde a eleição de Epitácio Pessoa, em 1919, representantes de outros estados exigiam uma maior democratização do processo, queixando-se da alternância "café com leite" na Presidência. À revelia dessas discussões e sem concorren­tes, foi eleito com 688.528 votos. Ao tomar posse em 15 de novem­bro de 1926, foi recebido calorosa­mente por uma multidão no Rio de Janeiro. No mesmo dia, mon­tou o novo ministério, escolhendo nomes que não ameaçassem o po­der presidencial. Ironia do destino, entre os indicados figurava Getúlio Vargas para a pasta da Fazenda.
     Uma das primeiras medidas do novo governo foi a aprovação da reforma monetária, proposta por Júlio Prestes de Albuquerque. A intenção era fixar a taxa de câmbio e proteger a indústria nacional. Previa-se até a implanta­ção de uma nova moeda, o cruzei­ro. Inicialmente, o governo de "Chinton" parecia ser um refrigé­rio para as almas brasileiras: as me­didas de exceção, implementadas por Arthur Bernardes, ao poucos eram suspensas. Libertou presos políticos, desativou presídios como o da Clevelândia, e, em janeiro de 1927, autorizou a legalização do Partido Comunista do Brasil (PCB).
     Mas a abertura tinha lá as suas limitações. Os pedidos de anistia, como aos envolvidos no movi­mento de 1922, no Forte Copaca­bana, foram negados. A polícia secreta acompanhava de perto a movimentação da Coluna Pres­tes, que neste momento se en­contrava exilada na Bolívia. Fo­cos de oposição foram silencia­dos com a "Lei Celerada", que res­tabeleceu a censura à imprensa e recolocou o PCB na ilegalidade. Em São Paulo, com o apoio dos tenentes, foi criado o Partido Democrático (PD), que defendia o voto secreto e a moralização do processo eleitoral.
     Instabilidade interna e externa. Em 1929, a crise econômica defla­grada com a quebra da Bolsa de Nova York provocou um forte abalo na economia brasilei­ra. Desesperados, os cafeicultores exigiram que o governo federal comprasse a produção excedente. Washington Luís negou, pois te­mia a desvalorização da moeda. Tudo que conseguiu foi angariar novos inimigos. Por intermédio do Instituto Paulista de Defesa do Café, os oligarcas ameaçaram: "O lema é a lavoura, hoje com o go­verno. Se não formos atendidos, amanhã será [...] a lavoura contra o governo". O crack da Bolsa im­pediu também a implementação do cruzeiro. A crise serviu de ins­piração para o compositor Eduardo, autor de "É sim sinhô": "Ele é paulista? É sim senhor. / Falsificado? É sim senhor. [...] / Ele é estradeiro? É sim senhor. [...] / Mas o cruzeiro? É sim se­nhor. / Ovo gorado? É sim senhor..."
     Por fim aconteceu uma crise política provocada pelas discor­dâncias na escolha do sucessor de Washington Luís. Contrariando os mineiros, que pretendiam in­dicar o vice-presidente Fernando de Mello Vianna, "Chinton" op­tou por apoiar o candidato pau­lista, Júlio Prestes de Albuquerque. Irritado, o presidente de Minas, Antônio Carlos Ribeiro, procurou alianças com Getúlio Vargas. Apesar dos apelos de Washington Luís para conven­cer os líderes gaúcho e mineiro a desistirem da empreitada, em se­tembro de 1929, a Aliança Liberal lançou a candidatura de Getúlio, tendo como vice o presidente da Paraíba, João Pessoa.
     Washington Luís jogou duro: ordenou a execução das dívidas de Minas e da Paraíba com o Banco do Brasil e impediu que os mineiros pedissem empréstimos no exterior. Foi acusado também de fomentar conflitos locais nos dois estados com o objetivo de enfraquecer os governos. O can­didato oficial acabou levando vantagem: Júlio Prestes recebeu 1.115.377 votos contra os 782.663 de Getúlio Vargas.
     Acusado pela oposição de fraudar as eleições, Washington Luís sofreria ainda outro golpe. No Uruguai, um desastre aéreo, em maio de 1929, revelou que dois brasileiros tinham ido à Ar­gentina pedir o apoio de Luiz Carlos Prestes para depor o presi­dente. Um deles, Antônio de Siqueira Campos, morreu no de­sastre. O clima de conspiração aumentou, quando João Pessoa, presidente da Paraíba e candida­to derrotado, foi assassinado em Recife, no dia 26 de julho. O epi­sódio fortaleceu a Aliança Liberal, que, além das denúncias de fraude eleitoral, passou a cul­par o presidente pelo crime.
     O país ficou em polvorosa. Forças militares se levantaram no Rio Grande do Sul, em Minas Gerais e na Paraíba. Na capital, o povo incendiou jornais favorá­veis ao governo. Tropas gaúchas lideradas por Vargas e pelo gene­ral Góes Monteiro marchavam para um confronto com os pau­listas. Em poucos dias foram derrubados os governos do Espírito Santo, Santa Catarina e Paraná. Nas regiões Norte e Nordeste, só escaparam o Pará e a Bahia. Infle­xível, Washington Luís não acre­ditava que Getúlio Vargas, seu amigo íntimo, o único que podia entrar fumando em seu gabinete, o estivesse traindo.
     Na manhã do dia 24 de outu­bro, uma esquadrilha sobrevoou a capital lançando panfletos infor­mando a queda do presidente. No final da tarde, após a visita do car­deal d. Sebastião Leme, ele aceitou se entregar como prisioneiro e não como renunciado. Conduzi­do ao Forte Copacabana, ficou preso até 21 de novembro, dia que embarcou com sua família rumo à Europa. O exílio durou até 1947, quando voltou ao Brasil. Fixou re­sidência em São Paulo, mas não se envolveu mais com a política, dedicando-se ao seu trabalho de his­toriador. Faleceu em 4 de agosto de 1957, vítima de complicações de uma gripe. Apesar do pedido de um funeral simples, sem hon­ras oficiais, uma multidão seguiu o cortejo com fortes demonstrações de carinho.
Nívia Pombo é mestre em História Social pela Universidade Federal Flumi­nense e pesquisadora de Nossa História.
Fonte: Revista Nossa História - Ano IV nº 37 – Novembro 2006