"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

quinta-feira, 3 de março de 2016

Os EUA contra a esquerda: teoria conspiratória?
É tolo pensar que, por trás das crises vividas pelos governos sul-americanos, há apenas o dedo de Washington. Mas é ingênuo desconsiderá-lo, mostra a História.
     “A todo momento — escreveu em 1959 o jornalista Herbert Matthews — a questão se coloca: se não tivéssemos a América Latina do nosso lado, nossa situação seria dramática. Sem acesso aos produtos e ao mercado latino-americano, os EUA seria reduzidos ao status de potência de segunda classe”. (The New York Times, 26 de abril, 1959). Desta preocupação surge, no início do século XIX, a imagem da região como um “quintal”, que os EUA devem proteger — e submeter — custe o que custar.   O projeto, inicialmente, tem o verniz de uma preocupação solidária: em 1823, o presidente James Monroe condena o imperialismo europeu e proclama “a América para os americanos”. Porém, sua doutrina logo transforma-se num instrumento de dominação do Norte sobre o Sul do continente.
     Às vezes violento, às vezes discreto, o expansionismo dos EUA na América Latina molda de tal modo a história do continente que diversos intelectuais continuam a ver a mão invisível de Washington por trás de cada obstáculo que faz as forças progressistas da região tropeçarem. Quando procuram os responsáveis por seus problemas domésticos, alguns governos latino-americanos flertam às vezes com teorias conspiratórias. Porém, é preciso notar que o sentimento anti-yankee não caiu do céu no continente de José Marti (1): resulta de mais de 150 anos de ingerência real, de inúmeros golpes e complôs, manifestações de uma vontade de hegemonia que viveu diversas transformações históricas.
     Entre 1846 e 1848, o México viu metade de seu território ser anexado pelo seu vizinho ao norte. Entre 1898 e 1934, os militares norte-americanos interviram 26 vezes na América Central: derrubaram presidentes, instalando outros em seu lugar; foi a época do domínio sobre Cuba e Porto Rico (1898); e assumiram o controle do canal interoceânico da antiga província colombiana do Panamá (1903). Abre-se, então, uma fase de imperialismo militar, que seria sucedida pela “diplomacia do dólar” e a captura dos recursos naturais por empresas como a United Fruit Company, fundada em 1899.
     A caixa de ferramentas imperiais de Washington não parece necessariamente a um arsenal militar. Em 1924, Robert Lansing, secretário de Estado do presidente Woodrow Wilson observa: “Devemos abandonar a ideia de instalar um cidadão americano na presidência mexicana, ou seremos levados inevitavelmente a uma nova guerra. A solução requer mais tempo. Devemos abrir as portas de nossas Universidades aos jovens mexicanos ambiciosos e ensinar-lhes nosso modo de vida, nossos valores assim como o respeito a nossa ascendência política. (…) Em poucos anos, esses jovens ocuparão cargos importantes, começando com a presidência. Sem que os Estados Unidos tenham que gastar um único centavo ou disparar um único tiro. Assim, eles farão o que queremos e eles farão melhor e de modo mais entusiasmado do que faríamos nós mesmos”(2). As universidades abrem-se, sem que se abandonem as táticas militares. Em 1927, na Nicarágua, os marines criam a Guarda Nacional, à frente da qual instalam o futuro ditador Anastásio Somoza.
     Com a Guerra Fria, Washington desenvolveu uma nova doutrina chamada de “segurança nacional”. O choque causado pela Revolução Cubana (1959), a formação de guerrilhas marxistas – em El Salvador e Colômbia, em particular –, a disseminação da Teologia da Libertação, a tentativa de um “caminho chileno ao socialismo” (1970-1973) e a insurreição sandinista na Nicarágua (1979) incitaram as cruzadas anticomunistas dos EUA.
     Como revelam cruamente milhares de arquivos, hoje retirados de sigilo, a CIA, Agência Central de Inteligência – fundada em 1947 – e o Pentágono mostram-se dispostos a tudo: campanhas midiáticas de desestabilização, financiamento de opositores, estrangulamento econômico, infiltração de forças armadas e financiamento de grupos paramilitares contrarrevolucionários. Os EUA apoiaram ativamente os golpes de Estado que ensanguentaram a região (Guatemala em 1954, Brasil em 1964, Chile em 1973, Argentina em 1976 e outros) e as  tentativas de invasão militar (Cuba em 1961, e Republica Dominicana em 1965…).    Sozinho, Fidel Castro, teria sido alvo de 638 tentativas de assassinato entre 1959 e 2000. Veneno, armadilhas em charutos e aparelhos fotográficos: a imaginação dos serviços secretos parece não ter limites. Os EUA encarregaram-se também de treinar centenas de oficiais latino-americanos na Escola das Américas. Destacaram agentes e financiaram o material (rádios, manuais de interrogatório) para a Operação Condor. Lançada em 1975, ela foi uma autêntica transacional de ditaduras no Cone Sul, encarregada de caçar, torturar e executar opositores em todo o mundo (3).
     Nesta área, a ação do governo Richard Nixon (1969-1974) contra o presidente chileno Salvador Allende representa um caso exemplar. Antes mesmo do líder socialista assumir o cargo, em 3 de novembro de 1970, a CIA, a embaixada norte-americana e o Secretário de Estado Henry Kissinger organizaram uma vasta rede clandestina de operações para derrubar o governo. A partir de outubro, a CIA entra em contato com os militares golpistas, entre eles o general Roberto Viaux.  Paralelamente, medidas de boicote econômico internacional e sabotagem (como o financiamento da greve dos caminhoneiros em outubro de 1972) agravam a situação doméstica. Os dirigentes mais conservadores da democracia-cristã e da direita chilena beneficiam-se de um generoso apoio, assim como a imprensa da oposição.  Segundo um relatório do Senado dos EUA “a CIA gastou 1,5 milhões de dólares para financiar El Mercurio, principal jornal do país e canal importante de propaganda contra Allende” (4). Agustin Ewards, seu proprietário desde então, está entre os ex-funcionários da CIA.
     Com o fim da guerras civis na América Central e os processos de redemocratização no Sul, os EUA mudam sua melodia. Na década de 1990, a promoção do “Consenso de Washington” (5) e o surgimento de governos neoliberais na região permitiram-lhes firmar sua hegemonia através da defesa do mercado. Em 1994, o presidente Bill Clinton propôs a criação de uma zona de “livre comercio” das Américas (ALCA). “Nosso objetivo é garantir às empresas dos EUA o controle do território que vai do polo norte à Antártida” (6), declarou alguns anos mais tarde o secretário de Estado Colin Powell. Mas Washington não contava com a rejeição popular de suas pautas políticas, nem com a ascensão dos governos progressistas na região. Em 2005, o projeto da ALCA é rejeitado. A integração dos países da região intensifica-se para desconforto dos EUA, mantidos de fora. Criam-se a União das Nações Sul-Americanas (Unasul) em 2008 e a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac) em 2010.
     Barack Obama não rompeu com alguns fundamentos. Os memorandos da “estratégia de segurança nacional”, escritos em 2010 e em 2015, sublinharam que a América Latina continua sendo uma prioridade para os EUA, em particular em termos de fornecimento de energia – daí a obsessão de Washington com a Venezuela – e o controle militar do continente. Após 2008, foram inauguradas novas bases militares (sob direção do Comando Sul do Exército dos EUA) e sistemas de vigilância eletrônica, graças a aliança inabalável com a Colômbia. Especialistas do Pentágono ainda enxergam a região segundo os preceitos estabelecidos por Nicholas Spykman em 1942 (7): de um lado, uma zona de influência direta integrando o México, o Caribe e a América Central; de outro, os grandes Estados da América do Sul (em especial o Brasil, o Chile e a Argentina), cuja união é preciso impedir.
     Para isso, o estímulo a acordos de livre comércio é considerado, em última análise, mais eficaz do que as formas diretas de intervenção (ler “Miragens do livre-comércio”). A recente reaproximação entre Washington e Havana, que visa romper o crescente isolamento dos Estados Unidos na região abrindo ao mesmo tempo um novo mercado, também insere-se nesta perspectiva. Diante de uma América multipolar, cada vez mais voltada à Ásia e agitada por muitos movimentos sociais de resistência, os EUA escondem-se por trás da diplomacia.
     Assim, a luta contra os governos latino-americanos considerados populistas repousa, principalmente, no poder de influência: o soft power da opinião através dos meios de comunicação privados e o desenvolvimento de certas ONGs e fundações que recebem milhões de dólares para “sustentar a democracia” inspirando-se no modelo das “Revoluções Coloridas” que aconteceram no leste europeu. No último 12 de março, Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, denunciou o papel de Miriam Kornblith, diretor da América Latina na National Endowment for Democracy (NED), no financiamento da oposição, sindicatos e associações anti-chavistas.
     Bravatas bolivarianas? A conferir. Em 31 de maro de 1997, o New York Times informou que a NED foi criada para pensar uma “maneira de realizar publicamente o que a CIA tinha realizado em sigilo durante décadas”. Os documentos revelados pelo Wikileaks mostram que os EUA financiaram a oposição venezuelana desde a chegada de Hugo Chavez ao poder em 1998 (8). Em 2013, o presidente equatoriano Rafael Correa congelou, por sua vez, toda as atividades de cooperação com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), enquanto seu homólogo boliviano, Evo Morales, expulsou esta organização “independente”, considerando que ela “conspirava” contra si.
     O Departamento de Estado não abandou seus velhos hábitos, como evidencia notoriamente o golpe de estado contra Chavez em abril de 2002. Em Honduras em 2009 e no Paraguai em 2012, os “golpes institucionais” favoreceram as oligarquias locais alinhadas com Washington (9). A estratégia consiste em destituir os dirigentes democraticamente eleitos, mas considerados muito insubordinados, com apoio de parte dos parlamentos nacionais. Conspiração ou arte de manejar a correlação de forças? A diferença pode ser tênue…

Franck Gaudichaud é Professor da Universidade de Grenoble-Alpes e vice-presidente da Associação America France-Latina (FAL).
(1) José Martí (1853-1895), fundados do Partido Revolucionário Cubano, é um dos heróis da independência da América Latina.
(2) Citado por James D. Cockcroft, Mexico’s Revolution. Then and Now, Monthly Review Press, New York, 2010.
(3) Cf. John Dinges, Les Années Condor. Comment Pinochet et ses alliés ont propagé le terrorisme sur trois continents, La Découverte, Paris, 2008.
(4) « Covert Action in Chile. 1963-1973 » (PDF), Relatório Church, Senado dos Estados Unidos, Washington, DC, 1975.
(5) Ler Moisés Naim, « Avatars du“consensus de Washington” », Le Monde diplomatique, mars 2000.
(6) « Les dessous de l’ALCA (Zona de livre-comercio Americano) »,Alternatives Sud, vol.10, no1, Centre tricontinental (Cetri), Louvain-la-Neuve (Belgique), 2003.
(7) Nicholas Spykman, America’s Strategy in World Politics : The United States and the Balance of Power, Harcourt, New York, 1942.
(8) Jake Johnston, « Whatthe Wikileaks cables say about Leopoldo López », Center for Economic and Policy Research, Washington, DC, 21 février 2014.
(9) Cf. Maurice Lemoine, Les Enfants cachés du général Pinochet,Don Quichotte, Paris, 2015

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quarta-feira, 2 de março de 2016

A face negra da Abolição

Quando a Lei Áurea foi assinada, 95% dos descendentes de africanos já eram livres, alguns faziam parte da elite intelectual e das lutas abolicionistas, e muitos fugiam, na maior ação de desobediência civil do país.
Hebe Maria Mattos
"Fui ver pretos na cidade / que quisessem se alugar./ Falei com esta humildade / - Negros, querem trabalhar? / Olharam-me de soslaio, / E um deles, feio, cambaio, / Respondeu-me arfando o peito: / - Negro, não há mais não./ Nós tudo hoje é cidadão. / O branco que vá pro eito."
(O Monitor Campista, 28/3/1888)
     Às vésperas da Abolição, versos como esses, publicados no município fluminense de Campos, em março de 1888, tornaram-se comuns nos jornais das cidades onde se concentravam os últimos escravos. Eles dão bem a medida do movimento de fugas em massa que antecedeu a Lei Áurea, assinada em 13 de maio. A poesia revela também que os cativos eram depreciativamente chamados de "negros", embora cerca de 95% dos descendentes de africanos do país já fossem livres. Era regra de etiqueta silenciar sobre a cor dessas pessoas quando em situação formal de igualdade. Esse racismo "à brasileira" tornou pouco nítido, para a posteridade, a importância da população afro-brasileira livre antes mesmo da Abolição, além de não realçar os esforços dos últimos cativos na conquista de sua liberdade. Na última década da escravidão, eles apelaram para fugas em massa por quase toda a Região Sudeste, no maior movimento de desobediência civil de nossa história.
     Desde a Independência, os ideais do liberalismo político, inscritos na Constituição de 1824, passaram a afirmar a igualdade de todos os cidadãos brasileiros perante a lei. Apesar disso, a escravidão já instituída foi mantida legalmente no país, em nome do direito de propriedade.
     Mas ao final do período colonial, pretos e pardos livres somavam praticamente 1/3 da população brasileira (complementada por 1/3 de escravos e 1/3 de brancos). E muitos eram até mesmo pequenos senhores de escravos - uma aspiração generalizada entre a população livre, no período, independentemente da cor. Por outro lado, enfrentavam pesadas restrições legais para o acesso a qualquer cargo público na sociedade colonial. Em função disso, apesar do amplo consenso em torno do "direito de propriedade" relativo aos escravos, foi exatamente a dimensão antirracista do liberalismo que mais mobilizou a participação popular nas lutas políticas da época da Independência, exigindo "igualdade entre todas as cores" pelas ruas do Rio de Janeiro, Recife ou Salvador.
    Os políticos e publicistas (escritor ou jornalista político) que veiculavam este antirracismo liberal, como o advogado Antonio Rebouças, reconheciam o direito de propriedade sobre os escravos, mas lutavam pelo predomínio do talento para o acesso a cargos públicos e pela extinção do tráfico negreiro. Contavam para isso com um aliado poderoso, a Inglaterra, que desde 1810 pressiona pela abolição do tráfico e depois condiciona o reconhecimento da Independência brasileira à repressão daquele "infame comércio". Além disso, defendiam políticas de incentivo à alforria através da autocompra, aliadas à garantia de plenos direitos de cidadania aos ex-escravos. No Brasil "não há mais que escravos ou cidadãos", publicavam alguns jornais liberais como O cabrito e O mulato ou O homem de cor.
     Toda uma geração intelectual de "homens de cor" formou-se a partir desse ideal. Alguns se destacaram nas guerras de independência, como Antonio Rebouças e seus irmãos. Outros obtiveram reconhecimento público na Corte, como o editor Francisco de Paula Brito e seu ex-tipógrafo, Machado de Assis. Ao buscarem a "igualdade entre todas as cores" num ambiente ainda escravista, esses descendentes de escravos metiam-se, entretanto, num beco sem saída, pois a linguagem racial permanecia, na prática, como elemento de desconfiança, hierarquia ou subordinação. Embora alguns intelectuais se afirmassem como "pardos" ou como "homens de cor" em seus jornais e discursos, levantes populares no Nordeste foram feitos sob a alegação de que o simples registro de categorias raciais para efeito de recenseamento poderia ser usado para escravizar a "gente de cor". O resultado desses embates, bem claro a partir de 1840, foi o silêncio sobre as cores da população livre nos documentos oficiais e nas relações sociais. Para os liberais radicais da geração da Independência, a cor não deveria importar, mas a dificuldade de se falar dela tornava evidente que a vitória permanecia limitada, já que não se conseguia dissociar "o homem de cor" da memória da escravidão de seus antepassados.
     Enquanto as lutas políticas da geração da Independência convergiam para resultados conservadores, crescia o número de escravos africanos. E quando a marinha inglesa passou, na década de 1840, a atacar os navios negreiros em águas territoriais brasileiras, o apoio ao tráfico clandestino assumiu então ares de "causa nacional". A estimativa é que um milhão de escravos entrou no Brasil durante os vinte anos de comércio já ilegal - depois da aprovação, em 1831, da primeira lei de extinção do tráfico. Os escravos africanos estavam, portanto, em todos os cantos da vida econômica e social, e representavam até 90% das populações das fazendas de café que se expandiam nas províncias do Vale do Paraíba (Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo). Paralelamente ao crescimento do acesso à alforria na segunda e terceira geração de escravizados - pagas, na maioria dos casos, pelos próprios escravos com pecúlios obtidos com a autorização do senhor -, o intenso tráfico clandestino de africanos nos anos 1830 e 1840 iria formar a base da última geração de cativos.
     As fazendas repletas de escravos, o endividamento de alguns fazendeiros com o comércio negreiro, o isolamento político brasileiro no panorama internacional, diante da pressão inglesa, e o temor gerado por repetidas rebeliões de escravos africanos na Bahia, como a famosa Revolta dos Malês, em 1835, tornaram iminente a decisão política de pôr um fim ao comércio ilegal de escravos, finalmente tomada em 1850. Contra o voto das províncias do Vale do Paraíba, onde se expandia a plantation cafeeira, principal produto de exportação, uma nova lei de extinção do tráfico foi aprovada, em quatro de setembro de 1850 (Lei Eusébio de Queirós). A prisão exemplar de alguns eminentes fazendeiros e a dura repressão aos capitães das embarcações convenceram a maioria dos grandes senhores que dessa vez era para valer.
     Essas restrições provocaram, nas décadas de 50 e 60 do século XIX, o aumento do preço dos escravos e uma concentração social da propriedade de cativos: os pequenos senhores vendiam para os grandes, as cidades para o campo, e o Nordeste para o Sudeste. Restaram poucos e ricos senhores concentrados nas áreas de exportação, especialmente no Sudeste. Os escravos nascidos no Brasil, comercializados nesse novo tráfico interno estabeleciam com rapidez alianças e reivindicações antes inacessíveis aos africanos. E quando permaneciam nas regiões em que haviam nascido, tendiam a ampliar a pressão pela alforria. As aspirações da última geração de cativos se fizeram assim presentes no dia-a-dia das cidades, das fazendas, e dos tribunais - com reclamações sobre o direito de pecúlio e ações jurídicas questionando as escravizações ilegais.
     Ao mesmo tempo, o fim da Guerra de Secessão nos Estados Unidos, em 1865, acentuava o isolamento brasileiro em termos internacionais. O impacto do recrutamento de libertos na Guerra do Paraguai (1864-1870) sobre uma opinião pública cada vez menos ligada aos interesses escravistas contribuiu para que o governo decidisse empreender reformas que acelerassem o fim da escravidão. Não foi pequena, porém, a batalha parlamentar da Lei do Ventre Livre, aprovada em 1871, que dava liberdade para as crianças nascidas de mãe escrava a partir daquela data, mas que previa indenização aos senhores pela criação delas até os oito anos. Essa indenização podia ser paga em serviços das próprias crianças, prestados até os 21 anos, ou em dinheiro, pelo Estado. Os últimos senhores perceberam então que não nasceriam mais escravos no Brasil.
     Com a aprovação da lei, as reivindicações dos cativos nascidos no Brasil passaram a estar, de certa forma, reguladas pelo Estado monárquico. Além da liberdade do ventre, a lei de 1871 reconhecia o direito do escravo ao pecúlio próprio e à compra de sua liberdade através de preço arbitrado pela justiça. E instituía também uma matrícula geral. Até então, nenhum documento legal atestava a condição livre ou cativa de uma pessoa. Ou seja, um cidadão "de cor" podia ser confundido com um escravo e sujeito a práticas ilegais de escravização. A matrícula seria ainda a base para as alforrias mediante indenização do Estado aos senhores, com recursos de um fundo de emancipação, também criado pela lei de 1871. Na prática, o fundo libertou poucos e a maioria dos senhores optou por usufruir os serviços das crianças nascidas juridicamente livres até os 21 anos, como a lei lhes permitia. Apesar disso, o impacto simbólico da liberdade do ventre foi tremendo, para senhores e escravos.
     A partir de 1879, o movimento abolicionista tomaria definitivo impulso nos centros urbanos e a agitação política dos clubes abolicionistas se articularia com o aumento das fugas. Como é bem visível no famoso quilombo do Jabaquara, em Santos, ou no quilombo do Leblon. Mais uma vez "homens de cor" (ver box) formaram a linha de frente da intelectualidade antiescravista, em seus mais variados matizes: do republicanismo de Luiz Gama ao monarquismo de André Rebouças, passando pela militância de jornalistas como José do Patrocínio, entre tantos outros.
     A legitimidade da propriedade escrava e o consequente direito de indenização dos senhores começaram a ser questionados na segunda metade da década de 1880. Em 1884, a primeira proposta de uma lei dos sexagenários não previa qualquer forma de indenização aos proprietários, pois se tratava de libertar os sobreviventes africanos trazidos ilegalmente ao país, entre 1831 e 1850, todos com a idade aumentada para não configurar a ilegalidade.
     Apesar disso, os senhores restantes ainda eram poderosos. A Lei dos Sexagenários, aprovada em 1885, previa indenização de cinco anos de trabalho para libertar escravos, com a idade de sessenta anos ou mais, importados ilegalmente entre 1830 e 1850. Também um duro regulamento de repressão ao movimento abolicionista foi aprovado. Não se concederia mais nada, era o recado.
     Mas os últimos senhores foram simplesmente atropelados pela fuga em massa de seus escravos. O quadro era de desordem generalizada. Por isso, apenas alguns representantes das províncias do Rio de Janeiro e de Minas Gerais votaram contra a Abolição, reivindicando indenização pela propriedade. A Lei Áurea foi aprovada sem indenização aos senhores e sem medidas de reparação aos ex-escravos.
     Festejada por milhares de pessoas, a Abolição foi um acontecimento ímpar. Pela primeira vez se reconheceu a igualdade civil de todos os brasileiros. Mesmo que não tenha significado sua imediata efetivação, marca a invenção de uma cidadania brasileira entendida em termos universais. Porém, até o surgimento dos movimentos negros do século XX, a hierarquização racial pouco se modificou. A discussão atual sobre políticas de reparação e a reivindicação de uma identidade negra recolocam na ordem do dia a memória da escravidão inscrita na pele de milhões de brasileiros

HEBE MARIA MATTOS é professora de História na Universidade Federal Fluminense e autora de Das cores do silêncio: significados da liberdade no Sudeste escravista. Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa. Rio de janeiro: Arquivo Nacional, 1995 e Nova Fronteira, 1998.

Fonte: Revista Nossa História - Ano II nº 19 - Maio 2005

Saiba Mais – Bibliografia
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
CONRAD, Robert. Os últimos anos da escravatura no Brasil. 18S0-1888. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
MACHADO, Maria Helena. O plano e o pânico. Os movimentos sociais na década da Abolição. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ/EDUSP, 1994.  
SILVA, Eduardo. As camélias do Leblon e a abolição da escravatura: uma investigação de história cultural. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Revolução francesa e feminina

Mulheres lutaram ao lado dos homens pelos ideais revolucionários, enfrentando também o preconceito.
      “Não fiz a guerra como mulher, fiz a guerra como um bravo!”, declarou Marie-Henriette Xaintrailles em carta ao imperador Napoleão Bonaparte (1769-1821). Indignada por lhe recusarem pensão de ex-combatente do Exército “porque era mulher”, ela lembrou que, quando fez sete campanhas do Reno como ajudante de campo, o que importava era o cumprimento do dever, e não o sexo de quem o desempenhava.
     Madame Xaintrailles não foi um caso isolado. Em 1792, quando a França declarou guerra à Áustria, voluntárias se alistaram no Exército para lutar ao lado dos homens contra as forças da coalizão austro-prussiana que ameaçavam invadir o país. Muitas se apresentaram com identidades falsas e disfarçadas de homem. Além de conseguirem se alistar, protegiam-se do risco da violência sexual. Quem eram as mulheres-soldados e por que se engajaram no conflito armado? E quais foram os motivos de sua relativa aceitação por parte de líderes revolucionários e companheiros de armas?
     Não se conhece o número exato de mulheres-soldados durante o período revolucionário francês (1789-1799).  Há oitenta casos registrados nos arquivos parlamentares, militares e policiais, e informações biográficas esparsas sobre apenas quarenta e quatro. Entretanto, existem muitas referências em imagens e testemunhos da época. O deputado Grégoire (1750-1831) as elogiou oficialmente: “E vós, generosas cidadãs que participaram da sorte dos combates”. Essas constatações nos permitem supor que elas eram mais numerosas e bem integradas à vida militar do que pode parecer. Quase todas vinham de meios sociais modestos. Eram filhas de pequenos camponeses e artesãos, e tinham apelidos como Felicité Vai-de-bom-coração ou Maria Cabeça-de-pau. A maioria era muito jovem, como Ana Quatro-vinténs, que se alistou aos 13 anos, e aos 16 servia na artilharia montada.
     As irmãs Fernig, com 17 e 22 anos, foram exceções: eram nobres, e combateram vestidas de homem no Exército do general Dumouriez (1739-1823), na fronteira da atual Bélgica. Fora da batalha, passeavam com roupas de mulher e carabina ao ombro. Tornaram-se heroínas nacionais. Quando sua casa foi arrasada pelos “ferozes austríacos”, o governo da Convenção Nacional (1792-1795) propôs que a reconstrução ficasse por conta da República.
     Antes da Revolução, os oficiais da nobreza desprezavam os soldados. Já os líderes revolucionários valorizaram o serviço militar como a forma mais elevada de compromisso do cidadão com o Estado. O discurso da defesa dos homens livres contra os tiranos da Europa atraiu as cidadãs mais destemidas que aliavam o sentimento patriótico ao gosto pela aventura. Era também uma forma de integração oficiosa à cidadania. Reine Chapuy, de 17 anos, declarou que se alistara pelo desejo ardente de combater os tiranos e compartilhar da glória de fulminá-los. Outras foram à guerra para acompanhar os maridos, amantes e irmãos, e acabaram lutando ao lado deles, unindo o sacrifício pela pátria ao devotamento conjugal e familiar. Algumas haviam “nascido na caserna”, e a carreira militar era seu caminho natural. As circunstâncias da Revolução tiveram também um aspecto de liberação. Quando tudo estava em jogo, as mulheres puderam inventar novos papéis para si próprias.
     Há registros da boa acolhida das mulheres-soldados por parte dos companheiros de armas. O capitão Dubois e sua mulher combateram juntos no 7º Batalhão de Paris. Ao ser ferido, sua esposa foi designada vice-capitã pelos outros soldados. Aos 19 anos, Liberté Barreau serviu com o marido no Regimento dos Pirineus Ocidentais. Foi intrépida na batalha: perseguiu os inimigos até sua debandada, e depois voltou para transportar o marido ferido para o hospital militar com a ajuda dos companheiros. Liberté impressionou pela coragem e pela devoção ao esposo. Rose Bouillon não foi menos heroica: continuou lutando na batalha mesmo após a morte do marido. Depois pediu dispensa do Exército para cuidar dos filhos do mesmo modo como havia se dedicado ao marido e à pátria. A Convenção Nacional lhe concedeu uma pensão de 300 libras e mais 150 para cada um de seus filhos em agosto de 1793.
     Mas havia vozes discordantes: alguns cidadãos se queixavam abertamente das mulheres promovidas a oficial, alegando que os soldados tinham vergonha de receber suas ordens.  Diminuindo o mérito das combatentes, explicavam aquela coragem como exceção, atribuindo-a ao milagre da Liberdade.  Apesar de seus serviços, as soldadas foram incluídas em decreto governamental que dispensava e excluía do Exército todas as “mulheres inúteis” ao esforço de guerra, isto é, todas que não eram cantineiras nem lavadeiras. Lazare Carnot (1753-1823), membro da Convenção Nacional que organizou o recrutamento em massa de 1793, lamentava o flagelo que destruía os exércitos revolucionários: as mulheres que acompanhavam as tropas. Elas atrapalhavam a marcha dos batalhões, consumiam uma parte necessária dos alimentos, quebravam a disciplina e eram fonte da dissolução dos costumes de todos os militares.
     O decreto nunca foi cumprido: as esposas e companheiras dos soldados continuaram seguindo as tropas, e a maioria das combatentes permaneceu no Exército como se nada tivesse acontecido. O capitão da Sra. Fartier, canhoneira no 10º batalhão dos Federados Nacionais de Paris, autorizou-a por escrito a continuar servindo na companhia em junho de 1793, após a promulgação da lei.   Em 26 de fevereiro de 1794, Ana Quatro-vinténs foi aplaudida no Clube dos Jacobinos, que fizeram uma coleta em seu favor. O Conselho Militar não viu razões para excluir do Exército a cidadã Felicité Vai-de-bom-coração, devido ao seu comportamento irrepreensível. Houve mulheres-soldados até nas guerras napoleônicas (1799-1815).  Um exemplo desse período foi Madame Xaintrailles, que se tornou ajudante de campo do general Menou (1750-1810) com a recomendação do próprio Lazare Carnot em 1795, dois anos depois da lei de exclusão.
     O número expressivo de prêmios e aplausos às soldadas atesta a boa vontade dos chefes militares e até dos governantes em Paris. Mesmo levando-se em conta que elas transgrediam as normas de comportamento feminino, apropriando-se de atributos inerentemente masculinos como as armas e o serviço militar. As mulheres-soldados foram até certo ponto aceitas porque tinham moral elevada, dignidade e bons costumes; eram combatentes, e não libertinas. Embora a violência não seja normalmente associada à mulher, na guerra elas matavam “os escravos dos tiranos”, prestando um serviço à nação. Eram discretas, e muitas vezes seu sexo só era descoberto quando feridas na batalha. Essas qualidades eram importantes numa época em que o presidente do Comitê de Segurança Pública declarou que “sem moral não há República” (outubro de 1793).
     Muitas das guerreiras protagonizaram episódios de coragem incomum, como Marie-Angélique Duchemin-Brulon (1772-1859). Sargento do 42º regimento de Infantaria na Córsega, salvou o Forte Gesco sitiado pelos inimigos conseguindo um suprimento de pólvora no meio da noite, em maio de 1794.  Em agosto de 1851, aos 79 anos de idade, foi a primeira mulher a receber a Legião de Honra e a Medalha de Santa Helena do futuro Napoleão III. Chamam atenção as descrições sempre exaltadas dos feitos marciais das soldadas. A impressão é que elas foram mitificadas para figurar no panteão dos exemplos patrióticos de que a Revolução tanto precisava no dramático ano II – no calendário revolucionário, setembro de 1793 a setembro de 1794. Nesse  período marcado pela radicalização política do terror, a nação também enfrentava a guerra externa, guerra civil, inflação, penúria e revoltas urbanas.  O exemplo das guerreiras podia inspirar os cidadãos.
     De todo modo, as soldadas encarnavam as virtudes republicanas. Não era pouco. Por essa razão, Liberté Barreau e Rose Bouillon figuravam na Coletânea de Ações Heroicas e Cívicas dos Republicanos Franceses, publicada em 30 de dezembro de 1793. Enfrentando a morte, também deram a vida, dedicaram-se com amor aos maridos e filhos. Cuidaram de doentes e feridos com a doçura e o altruísmo associados à imagem feminina. Sacrificaram-se pela pátria sem esquecer as virtudes de seu sexo. Eis aí o grande mérito. Numa República marcada por apelos à moral, as mulheres-soldados contribuíram com um modelo de comportamento feminino positivo.

Tania Machado Morin é autora da dissertação “Práticas e Representações das Mulheres na Revolução Francesa – 1789-1795” (USP, 2009).

Saiba Mais - Bibliografia
MARAND-FOUQUET, Catherine. A mulher no tempo da revolução.  Lisboa: Inquérito 1993.
BERTAUD, Jean-Paul, «  Les femmes et les armées » IN La vie quotidienne des soldats de la Révolution, Paris Hachette, 1985.
GODINEAU, Dominique, Citoyennes Tricoteuses – Les femmes du peuple à Paris pendant la Révolution Française, Paris, Editions Alinea, Perrin, 2004.

Saiba Mais - Internet
MARTIN, J.C., « Travestissements, impostures et la communauté historienne.  A propos des femmes soldats de la révolution et de l’Empire », Politix 2006/2, no. 74, p. 31-48.
www.cairn.info/article.php?ID

Saiba Mais – Link

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Todos contra o Paraguai

A guerra mais sangrenta da América do Sul teve um roteiro digno de uma odisseia. Resultado: dezenas de milhares de vítimas.
     Tudo começou no Uruguai, com uma rebelião dos colorados (liberais) em abril de 1863, encabeçada pelo general Venâncio Flores, pela derrubada do governo dos blancos (conservadores) eleito em 1860. O conflito desencadeou a sequência dos acontecimentos que levaram à Guerra do Paraguai.
     A Argentina e o Brasil apoiaram a rebelião colorada – era a primeira vez que os dois países estavam do mesmo lado num conflito uruguaio. O presidente argentino, Bartolomeu Mitre, um liberal eleito em outubro de 1862, tomou essa posição porque os colorados tinham lhe dado apoio na guerra civil de seu país em 1861 e porque os blancos constituíam um foco possível de oposição federalista residual nas províncias litorâneas à república argentina, recém-unificada. Para o Império do Brasil, a questão principal era proteger os interesses dos brasileiros que viviam e tinham propriedades no Uruguai, ameaçados pela rigidez das autoridades daquele Estado sobre o comércio da fronteira e as taxas aduaneiras. Foi nesse contexto que o governo blanco se voltou para o Paraguai como único aliado possível.
     Mas o Paraguai temia e desconfiava de seus vizinhos muito maiores, muito mais povoados e potencialmente predatórios: as Províncias Unidas do Rio da Prata e o Brasil. Ambos tinham relutado em aceitar a independência paraguaia e demoraram a reconhecê-la: o Brasil em 1844, as Províncias Unidas em 1852. Ambos tinham reivindicações territoriais contra o Paraguai: o Brasil, no extremo nordeste do país, na divisa com Mato Grosso, região valiosa pela erva-mate nativa; a Argentina, no leste do Rio Paraná (Missiones), mas também a oeste do Rio Paraguai (o Chaco). E havia ainda atritos com ambos quanto à livre navegação no sistema fluvial Paraguai-Paraná.
     O presidente do Paraguai, Francisco Solano López, a quem o governo uruguaio procurara para obter apoio em julho de 1863, tinha chegado ao poder em outubro de 1862, após a morte de seu pai, o ditador Carlos Antonio, que governara o país desde 1844. De início, ele hesitou em fazer uma aliança formal com os blancos, seus aliados naturais, contra os colorados no Uruguai, agora que estes tinham o apoio do Brasil e da Argentina. Mas, no segundo semestre de 1863, Solano López viu a oportunidade de mostrar sua presença na região e de desempenhar um papel compatível com o novo poder econômico e militar do Paraguai. No começo de 1864, ele começou a mobilização para uma possível guerra.
     Quando o Brasil lançou um ultimato ao governo uruguaio em agosto do mesmo ano, ameaçando retaliar os supostos abusos sofridos por súditos brasileiros, Solano López reagiu com um ultimato alertando o Brasil contra a intervenção militar. Ignorando o alerta, soldados brasileiros invadiram o Uruguai em 16 de outubro. Em 12 de novembro, após a captura de um vapor mercante brasileiro que saía de Asunción para Corumbá, levando o presidente de Mato Grosso a bordo, o Brasil rompeu relações diplomáticas com o Paraguai. Em 13 de dezembro, Solano López tomou a grave decisão de declarar guerra ao Brasil e invadiu Mato Grosso. Quando a Argentina negou autorização ao Exército paraguaio para atravessar Missiones – território disputado e quase despovoado – a fim de invadir o Rio Grande do Sul, Solano López também declarou-lhe guerra, em 18 de março de 1865, e no mês seguinte invadiu a província argentina de Corrientes.
     A decisão de Solano López de declarar guerra primeiro ao Brasil e depois à Argentina, e de invadir os dois territórios, mostrou-se um grave erro de cálculo, que traria consequências trágicas para o povo do Paraguai. O mínimo que se pode dizer é que Solano López fez uma tremenda aposta – e perdeu. Ele superestimou o poderio econômico e militar do Paraguai. Subestimou o poderio militar potencial, se não efetivo, do Brasil, e sua disposição de lutar. E errou ao pensar que a Argentina ficaria neutra numa guerra entre o Paraguai e o Brasil em disputa pelo Uruguai.
     A imprudência de Solano López resultou exatamente naquilo que mais ameaçava a segurança e até a existência do Paraguai: a união de seus dois vizinhos poderosos – na verdade, como Flores finalmente conseguira tomar o poder em Montevidéu em fevereiro de 1865, a união de seus três vizinhos – numa aliança em guerra contra ele. O Brasil e a Argentina não tinham qualquer atrito com o Paraguai que pudesse justificar uma guerra. Nenhum dos dois queria nem planejava uma guerra contra o Paraguai. Não havia pressão nem apoio público à guerra; de fato, a guerra geralmente era impopular nos dois países. Ao mesmo tempo, porém, não fizeram nenhum grande esforço para evitá-la. A necessidade de se defenderem contra a agressão paraguaia, por mais justificada ou provocada que fosse, oferecia ao Brasil e à Argentina a oportunidade não só de acertarem suas diferenças com o Paraguai no que se referia ao território e à navegação fluvial, como também de punir e enfraquecer, talvez destruir, uma incipiente potência possivelmente expansionista e problemática na região.
     Os objetivos originais da guerra, tal como foram expostos no Tratado da Tríplice Aliança assinado pelo Brasil, pela Argentina e pelo Uruguai em 1o de maio de 1865, eram: a derrubada da ditadura de Solano López; livre navegação dos rios Paraguai e Paraná; anexação do território reivindicado pelo Brasil no nordeste do Paraguai e pela Argentina no leste e no oeste do Paraguai — esta última cláusula se manteve secreta até ser revelada pela Inglaterra em 1866. Com o desenrolar do conflito, tornou-se, em particular para o Brasil, uma guerra pela civilização e pela democracia contra a barbárie e a tirania: isso apesar do estranho fato de que o Brasil, após a libertação dos escravos nos Estados Unidos durante a Guerra Civil, agora era o único Estado independente de todas as Américas com a economia e a sociedade em bases escravistas, além de ser a única monarquia remanescente.
     A Guerra do Paraguai não era inevitável. E nem era necessária. Mas só poderia ter sido evitada se o Brasil tivesse se mostrado menos categórico na defesa dos interesses de seus súditos no Uruguai, principalmente, se não tivesse feito uma intervenção militar em favor deles, se a Argentina tivesse se mantido neutra no conflito subsequente entre o Paraguai e o Brasil, e, sobretudo, se o Paraguai tivesse se conduzido com mais prudência, reconhecendo as realidades políticas da região e tentando defender seus interesses por meio da diplomacia, e não pelas armas. A guerra, que se estendeu por mais de cinco anos, foi a mais sangrenta da história da América Latina, e, na verdade, afora a Guerra da Crimeia (1854-1856), foi a mais sangrenta de todo o mundo entre o fim das Guerras Napoleônicas, em 1815, e a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914. Custou de 150.000 a 200.000 vidas (na maioria, paraguaios e brasileiros), no campo de batalha e por privações e doenças decorrentes da guerra.
     Diante da enorme disparidade entre os dois lados, em termos de tamanho, riqueza e população, a Guerra do Paraguai deveria se afigurar desde o início uma luta desigual. Mas, militarmente, havia um maior equilíbrio. De fato, no início da guerra, e pelo menos durante o primeiro ano, o Paraguai provavelmente teve superioridade militar em termos numéricos. E provavelmente seu Exército era mais equipado e treinado do que os exércitos vizinhos. Além disso, como as forças paraguaias tinham sido expulsas do território argentino, a Argentina reduziu tanto sua contribuição para o esforço de guerra dos aliados que, no final da guerra, havia apenas cerca de 4.000 soldados argentinos em solo paraguaio. O Uruguai, por sua vez, teve presença apenas simbólica no teatro de operações durante todo o conflito. O Brasil, por outro lado, aumentou seu Exército regular – que tinha entre 17.000 e 20.000 – para 60.000 a 70.000 homens no primeiro ano das hostilidades, com recrutamento obrigatório, transferências da Guarda Nacional, alistamento de escravos de propriedade do Estado e alguns de propriedade particular (libertados em troca dos serviços na guerra) e a formação dos corpos de Voluntários da Pátria. Calcula-se que o Brasil mobilizou durante a guerra cerca de 140.000 homens. E, ao contrário do Paraguai, que dispunha apenas de seus próprios estaleiros e arsenais, o Brasil tinha acesso a armas, munições e navios de guerra, tanto fabricados e montados no país quanto comprados no exterior, principalmente na Europa, além de empréstimos obtidos na City de Londres para ajudar nesses pagamentos. Por fim, o Brasil tinha a Marinha mais forte e poderosa da região.
     A guerra pode ser dividida em três fases. A primeira começou com as ofensivas paraguaias a Mato Grosso em dezembro de 1864 e a Corrientes em abril de 1865. Em maio de 1865, o Exército paraguaio finalmente atravessou Misiones e invadiu o Rio Grande do Sul. De início a invasão teve sucesso, mas depois foi contida pelas forças aliadas. No dia 14 de setembro, o comandante paraguaio, coronel Estigarribia, se rendeu aos aliados em Uruguaiana. O Exército paraguaio então se retirou, atravessando o Rio Paraná, e se preparou para defender a fronteira sul do país. Enquanto isso, em 11 de junho, na Batalha do Riachuelo, no Rio Paraná, a única grande batalha naval da guerra, a Marinha brasileira tinha destruído a Marinha paraguaia e criado um bloqueio cerrado ao Paraguai, que se manteve até o fim da guerra.
     A segunda e principal fase do conflito começou quando os aliados finalmente invadiram o Paraguai, em abril de 1866, e instalaram seu quartel-general no Tuiuti, na confluência dos rios Paraná e Paraguai. Em 24 de maio, repeliram uma investida paraguaia e venceram a primeira grande batalha em terra. Mas os exércitos aliados demoraram mais de três meses até começarem a subir o Rio Paraguai. Em 12 de setembro, Solano López propôs concessões, inclusive territoriais, para terminar a guerra, desde que lhe fosse poupada a vida e o Paraguai não fosse totalmente desmembrado ou ocupado em caráter permanente, mas sua proposta foi rejeitada. Dez dias depois, em Curupaiti, ao sul de Humaitá, no Rio Paraguai, os aliados sofreram sua pior derrota. Não retomaram o avanço até julho de 1867, quando se iniciou uma movimentação para cercar a grande fortaleza fluvial de Humaitá, que bloqueou o acesso ao Rio Paraguai e à capital, Asunción. Mesmo assim, passou-se mais de um ano antes que os aliados ocupassem Humaitá (5 de agosto de 1868), e mais cinco meses para a  derrota decisiva e praticamente a destruição do Exército paraguaio na Batalha de Lomas Valentinas, em 27 de dezembro. As tropas aliadas (na maioria brasileiras), sob o comando do marechal Luís Alves de Lima e Silva, o marquês de Caxias, comandante-chefe brasileiro desde outubro de 1866 e comandante-chefe das forças aliadas desde janeiro de 1868, finalmente entraram em Asunción em 1o de janeiro de 1869 e terminaram a guerra. Pelo menos, assim pensavam os aliados.
     Mas houve uma terceira fase: Solano López formou um novo exército na Cordilheira a leste de Asunción e começou uma campanha de guerrilha. Foi derrotado e seus soldados massacrados na última grande batalha em Campo Grande ou Acosta Nu, no nordeste de Asunción, em agosto de 1869. Mesmo assim, López conseguiu escapar com vida. Com sua companheira irlandesa Eliza Alicia Lynch, ele foi perseguido no norte por tropas brasileiras por mais seis meses, até finalmente ser acuado e morto em Cerro Corá, no extremo nordeste do Paraguai, em 1o de março de 1870. Em 27 de julho, foi assinado um tratado de paz preliminar.
     Por que demorou tanto até os Aliados vencerem a guerra, apesar de sua esmagadora superioridade naval e, pelo menos depois de Tuiuti, também terrestre? Passaram-se quase quatro anos antes que os aliados chegassem à capital paraguaia. E mesmo então, a guerra se arrastou por mais de um ano. Uma explicação se encontra no lado dos aliados, ou melhor, no lado brasileiro, já que o Brasil ficou praticamente sozinho na guerra após o primeiro ano. Os governos brasileiros enfrentavam enormes problemas logísticos, primeiro para organizar, depois para transportar as tropas por milhares de quilômetros por via terrestre, marítima e fluvial, e, finalmente, para abastecê-las. E vencer as excelentes defesas terrestres e fluviais do Paraguai não foi tarefa fácil. Mas também é verdade que os comandantes brasileiros demonstraram um alto grau de incompetência estratégica e tática. Por outro lado, as tropas paraguaias e, na verdade, o próprio povo paraguaio, mantiveram-se leais a Solano López, combatendo com uma tenacidade extraordinária e, no final, quando estava em jogo a sobrevivência nacional, com grande heroísmo.
     Para o Paraguai, a guerra foi quase uma calamidade total. O país sobreviveu como Estado independente, mas sob a ocupação e tutela brasileira no período posterior ao fim da guerra. Somente em julho de 1876, finalmente se retiraram 2.000 soldados e seis navios de guerra brasileiros. A consequência extrema da completa derrota, que seria o desmembramento integral do país, foi evitada, mas o território paraguaio foi reduzido em 40%, e o que restou do Exército foi desarmado. Embora o número de baixas tenha sido muito exagerado – chegou-se a se falar em 50% da população do Paraguai antes do conflito –, e as estimativas recentes e mais modestas estejam na ordem de 15% a 20% da população, o que corresponde a cerca de 50.000 a 80.000 mortes no campo de batalha e por doenças (sarampo, varíola, febre amarela e cólera), os percentuais são enormes pelos critérios de qualquer guerra moderna. A economia do Paraguai ficou arruinada, a infraestrutura e a base manufatureira foram destruídas e o início de um desenvolvimento externo sofreu o retrocesso de uma geração. Por fim, os vencedores impuseram ao país uma indenização enorme, embora nunca tenham cobrado e depois tenham cancelado.
     A Argentina sofreu baixas estimadas – possivelmente com exagero – em 18.000 mortes em campo de batalha, mais 5.000 em distúrbios internos desencadeados pela guerra e 12.000 em epidemias de cólera. O território anexado ficou aquém de suas pretensões. De qualquer forma, eliminou-se da política da região platina a perspectiva de um Paraguai cada vez mais forte e potencialmente expansionista. E, num balanço geral, a guerra contribuiu positivamente para a consolidação nacional do país: Buenos Aires foi aceita como capital inconteste de uma república argentina unida, e a identidade nacional se fortaleceu consideravelmente.
     O Brasil, que depois do primeiro ano da guerra combateu praticamente sozinho, sofreu baixas de pelo menos 50.000 mortos em combate e muitos outros por doenças, embora num total inferior aos 100.000 às vezes citados. O custo financeiro da guerra sacrificou tremendamente as finanças públicas do país. E a guerra teve profundo impacto na sociedade e na vida política. A Guerra do Paraguai foi um divisor de águas na história do Império, ao mesmo tempo seu apogeu e o início de sua decadência.
     Mas o Brasil tinha alcançado todos os seus objetivos. Pelo tratado assinado com o Paraguai em janeiro de 1872, o país obteve todo o território reivindicado entre o Rio Apa e o Rio Branco. Assegurou-se a livre navegação dos rios Paraguai e Paraná, importante para Mato Grosso e o oeste paulista. E o próprio Paraguai, ainda mais que o Uruguai, agora estava sob seu firme controle e sua influência. Assim se consolidava, por ora, a indiscutível hegemonia do Império brasileiro na região.

Leslie Bethell é professor emérito de História da América Latina na Universidade de Londres e editor da coleção Cambridge History of Latin America (12 volumes, Cambridge University Press, 1984-2008)  
[Artigo resumido e adaptado do capítulo “O Brasil no mundo” do livro A Construção Nacional 1830-89 (Objetiva, 2012)].

Jogo de interesses?
     Existe um mito de que o Brasil e a Argentina, na Guerra do Paraguai ou Guerra da Tríplice Aliança, foram instrumentos do capitalismo britânico, “Estados satélites”, “neocolônias”, instigados e manipulados por uma Grã-Bretanha “imperialista”, o “indispensável quarto Aliado”, para entrarem em guerra contra o Paraguai. Este seria um sólido mito nascido nos anos 1970 e 1980, nos textos de historiadores latino-americanos tanto da esquerda marxista quando da direita nacionalista. O alegado objetivo da Inglaterra era minar e destruir o modelo de desenvolvimento econômico conduzido pelo Estado, que representava uma ameaça ao avanço de seu modelo capitalista liberal na região. Mais especificamente, seu objetivo era abrir a única economia da América Latina que continuava fechada aos produtos manufaturados e aos capitais ingleses, e assegurar à Inglaterra novas fontes de matérias-primas, em especial o algodão, já que o abastecimento dos Estados Unidos tinha sido afetado pela guerra civil.
     Há pouca ou nenhuma prova concreta consistente que possa sustentar essa tese. O governo britânico não tinha praticamente nenhum interesse no Paraguai e nenhuma vontade de piorar as disputas existentes no Rio da Prata, e muito menos de promover a guerra, que iria apenas ameaçar vidas e propriedades inglesas e o comércio britânico. E, mesmo que quisesse, a Inglaterra não exercia o grau de controle sobre o Brasil ou sobre a Argentina que seria necessário para manobrá-los e levá-los à guerra contra o Paraguai. As autoridades britânicas, em sua maioria, estavam a favor dos aliados, mas a Inglaterra se manteve oficialmente neutra durante a guerra e utilizou de modo sistemático sua influência a favor da paz. É verdade que fabricantes britânicos vendiam armas e munições aos beligerantes – isto é, na prática, ao Brasil e à Argentina, visto que o Paraguai logo caiu sob bloqueio brasileiro. Mas eram negócios, oportunidades de os empresários na Inglaterra, na França e na Bélgica lucrarem com uma guerra. Também é verdade que o empréstimo de sete milhões de libras dos Rothschild ao governo brasileiro em setembro de 1865 foi utilizado para comprar navios de guerra, e neste sentido a Inglaterra deu uma contribuição importante para a vitória dos aliados sobre o Paraguai. Mas não houve qualquer outro empréstimo ao Brasil durante toda a guerra, e os empréstimos ingleses representaram apenas 15% do total de despesas do Brasil com a Guerra do Paraguai. A principal responsabilidade pela guerra coube ao Brasil, à Argentina, em menor grau ao Uruguai e, sobretudo – infelizmente –, ao próprio Paraguai.

Saiba Mais - Bibliografia
BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. Brasília: Editora UnB, 2008.
DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FERREIRA, Gabriela Nunes. O rio da Prata e a consolidação do Estado Imperial. São Paulo: Hucitec, 2006.

Saiba Mais - Link

Saiba Mais – Documentário
A última guerra do Prata - Versão original
O longa-metragem A última guerra do Prata traz um novo olhar sobre a polêmica Guerra do Paraguai, um trágico conflito em que morreram mais de 350 mil pessoas. A partir de visitas aos locais que sediaram campos de batalha, análises de historiadores e consultas a documentos e fotografias raras, o longa-metragem revela os interesses geopolíticos que conduziram ao conflito, o cotidiano de homens e mulheres que estiveram no teatro de guerra e ainda a influência que a Guerra do Paraguai teve na formação das nações que hoje integram o Mercosul.
Direção: Alan Arrais
Ano: 2014
Áudio: Português - Espanhol
Duração: 109 minutos
Produtora: TV Escola / Digitallcine

Guerra do Paraguai – 150 anos
Brasil, Argentina e Uruguai travaram uma guerra sem limites contra o Paraguai, também conhecida como Guerra da Tríplice Aliança ou Guerra Grande. Em cinco anos de combate, estima-se que 50 mil brasileiros perderam a vida, dos 139 mil que foram para a guerra. Já a população masculina do Paraguai foi praticamente dizimada.
O Caminhos da Reportagem conta como foi essa campanha, hoje lembrada em praças, ruas e monumentos pelos quais muita gente passa sem se dar conta. Estudiosos dos quatro países analisam a guerra e suas consequências, drásticas tanto para vencedores quanto para vencidos. A equipe visita o Forte de Coimbra, no Mato Grosso do Sul, tomado pelos paraguaios no início da Guerra.
No Paraguai, o programa percorre os locais onde ocorreram as principais batalhas, como Tuyuti e Humaitá. Mostra os navios que participaram da histórica batalha do Riachuelo, entra nas trincheiras abertas de Curupaiti e encontra um arqueólogo que coleciona objetos relacionados ao conflito.
Para os paraguaios, é impossível ignorar os vestígios desta grande guerra, tão esquecida para os brasileiros.
Reportagem: Carlos Molinari
Imagens: Gilvan Alves
Auxiliar técnico: Lion Artur
Apoio às imagens: Rogério Verçoza, Sigmar Gonçalves, Edivan Viana
Produção: Gilberto Costa
Edição de texto: Ana Maria Passos
Edição de imagem: Fábio Lima
Arte: Dinho Rodrigues

Saiba Mais – Biografia
Aos 15 anos, Joaquim Marques Lisboa embarcou como praticante de piloto em um navio de guerra, para seguir uma carreira de glórias militares. Conhecido como Almirante Tamandaré, entre seus feitos está a espetacular vitória brasileira na até então maior batalha naval das Américas, a de Riachuelo (1865), na Guerra do Paraguai.
Nasceu em Rio Grande (RS), no dia 3 de dezembro de 1807, e morreu no Rio de Janeiro (RJ), em 20 de março de 1897.
Maior chefe militar da História do Brasil, Luís Alves de Lima e Silva foi o único brasileiro a receber o título de duque. Conduziu as tropas da Tríplice Aliança à vitória na Guerra do Paraguai, mas ficou conhecido como o Pacificador, por sempre propor a paz antes do combate.
Nasceu em 25 agosto de 1803, na Vila de Porto da Estrela, Capitania do Rio de Janeiro, atual município de Duque de Caxias (RJ). Morreu em 7 de maio de 1880, em Valença (RJ).

domingo, 29 de novembro de 2015

1985 - 30 anos de democracia

Série de reportagens (Univesp TV) sobre o processo de redemocratização após 21 anos da ditadura militar iniciada com o golpe de 1964.
“1985 - 30 anos de democracia”, volta às vésperas da Nova República para analisar o atual e maior período democrático brasileiro. Com a ajuda dos pesquisadores Marcos Napolitano (História – USP), Brasílio Sallum e Cícero Araújo (Ciência Política – USP), a Univesp TV faz um apanhado histórico crítico desde o movimento das Diretas já (1984), a morte do presidente Tancredo Neves (1985), passando pelos cinco anos do governo José Sarney (1985-1990) e a elaboração da Constituição (1988).
 
Diretas já
Na primeira reportagem da série especial "1985 - 30 anos de democracia", os pesquisadores Brasílio Sallum Jr., Cícero Araújo e Marcos Napolitano, professores da Universidade de São Paulo, analisam o movimento que ficou conhecido como Diretas já. Em 1984, João Figueiredo, último general-presidente, abdicou de indicar o seu sucessor. O fortalecimento do PMDB, a mudança de posicionamento dos liberais e a pressão popular para escolher o presidente da República favoreceram a construção de uma aliança civil vitoriosa que elegeu Tancredo Neves no colégio eleitoral, dando fim a 21 anos de ditadura militar.

Governo Sarney - Parte 1
A segunda reportagem da série especial "1985 - 30 anos de democracia" trata do governo do presidente José Sarney (1985-1990). Após a morte de Tancredo Neves antes da posse, o vice assumiu a presidência da República com uma equipe que desconhecia. Enfrentou oposição política, uma grave crise econômica e convocou uma Assembleia Nacional Constituinte para redigir uma nova carta magna para o Brasil. Heterogênea e difícil, a gestão Sarney teve o mérito de assegurar a transição da ditadura militar para a democracia. Participam da reportagem os pesquisadores Brasílio Sallum Júnior e Cícero Araújo (Ciência Política - USP), o ex-deputado constituinte Nelson Jobim e os ex-ministros Luiz Carlos Bresser-Pereira e Ronaldo Costa Couto.

Governo Sarney - Parte 2
A terceira reportagem da série especial ‘1985 – 30 anos de democracia’ trata da etapa final do governo José Sarney (1985-1990). Para tentar deter uma inflação galopante, o presidente lançou o Plano Cruzado, elaborado pela equipe liderada pelo ministro João Sayad. No princípio um sucesso, o Cruzado naufragou depois de seis meses, com crise de abastecimento e a volta da inflação por meio de pagamento de ágio sobre os produtos. Mais dois ministros da Fazenda tentaram contornar a crise e sob a gestão do último, Mailson da Nóbrega, a moratória brasileira foi solucionada. Sarney assinou a nova Constituição e passou a faixa presidencial a Fernando Collor de Mello, primeiro presidente escolhido em eleições diretas. Participam da reportagem os pesquisadores Brasílio Sallum Júnior e Cícero Araújo (Ciência Política – USP), o ex-deputado constituinte Nelson Jobim e os ex-ministros Luiz Carlos Bresser-Pereira, João Sayad e Ronaldo Costa Couto.

A Constituinte - Parte 1
A quarta reportagem da série especial "1985 - 30 anos de democracia" trata da Assembleia Nacional Constituinte, que atuou entre 1987 e 1988 e definiu uma Constituição para o Brasil. Considerada cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães, a carta foi elaborada democraticamente com discussão e conflito. Nesta primeira parte, o início dos trabalhos constituintes e a definição do Regimento Interno. A participação dos partidos e o perfil dos parlamentares. Muitos deles se tornaram políticos de projeção nacional, como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.

A Constituinte – Parte 2
A quinta reportagem da série especial "1985 - 30 anos de democracia" trata da Assembleia Nacional Constituinte, que atuou entre 1987 e 1988 e definiu uma nova Constituição para o Brasil. Considerada cidadã pelo deputado Ulysses Guimarães, a carta foi elaborada democraticamente com discussão e conflito. Nesta segunda parte, a ação do grupo chamado Centrão para mudar o regimento interno e os trabalhos das comissões de sistematização e redação. A vitória dos governistas no sistema presidencialista de governo e nos cinco anos de mandato de Sarney. A cisão do PMDB e a criação do PSDB. A votação e as conquistas da Constituição, o documento que melhor representa a nossa democracia.