"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Ajoelhou, tem que rezar

Nos séculos XVII e XVIII, muitos padres aproveitavam o momento da confissão para assediar sexualmente as mulheres.
     Não foi para fazer uma simples visita que Antonio Francisco de Barros procurou Manoel Martins de Carvalho, um representante da Inquisição portuguesa na Capitania de Goiás, em outubro de 1791. Mais do que isso, ele queria denunciar o padre José Correia de Queirós ao comissário do Santo Ofício por ter “solicitado” sua filha durante a desobriga da Quaresma – nesse período, isto é, nos quarenta dias entre a quarta-feira de Cinzas e o domingo de Páscoa, todos os católicos deviam cumprir a obrigação de se confessar. “Resistindo-lhe a penitente”, explicava Barros, “ele a quis violentar, com desordenado e furioso ímpeto de que resultou grande escândalo às pessoas que o presenciaram”. Os dois ficaram a sós num cômodo da casa de Antonio, e, ao ouvir os gritos de Maria Francisca, as pessoas a acudiram e encontraram o confessor “atracado na moça com tão cega fúria que lhe rasgou a saia”.
     Uma das formas de violência sexual às quais as mulheres estavam submetidas no Brasil colonial era a investida de padres, que aproveitavam o momento em que ouviam suas confissões para assediá-las, especialmente quando as penitentes revelavam os chamados “pecados da carne”. Como eram delitos cometidos somente por padres, essas práticas – denominadas solicitatio ad turpia ou, simplesmente, solicitação – nunca foram julgadas pela Justiça comum, e sim pela Justiça Eclesiástica, tendo passado, em 1599, ao foro inquisitorial.
     Por desqualificar um dos principais instrumentos da Reforma Católica, a confissão anual obrigatória, esse delito causava grande preocupação. O fato de os párocos se valerem de seu poder para saciar seus desejos lascivos comprometia o sucesso do movimento reformador inspirado pelo Concílio de Trento (1545-1563). Na primeira metade do século XVIII, os bispos brasileiros se empenharam em implantar a reforma intelectual e moral do clero, determinada pelo Concílio, que finalmente chegava às terras coloniais.
     Entre as medidas adotadas pelo episcopado para disciplinar o clero colonial estavam o controle sobre quem deveria ou não ser ordenado padre; a instituição de preleções para moralizar o clero (Conferências de Moral); o controle rigoroso sobre quem rezava missas e ouvia confissões; a criação de seminários; visitas às dioceses para identificar pecados de padres e de fiéis; e a perseguição aos solicitantes – cujo julgamento estava a cargo da Inquisição portuguesa, por meio do Tribunal de Lisboa. De acordo com a documentação inquisitorial guardada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, 503 mulheres denunciaram 425 padres por solicitação no Brasil, entre 1610 e 1810. Das 288 denúncias cujas datas foram determinadas, 216 (75%) ocorreram entre 1730 e 1760, período em que o episcopado realizou várias ações reformadoras. Em 228 delas, fica clara a intervenção de outros confessores, que perguntam às mulheres se houve assédio e as obrigam a denunciar os padres que cometeram o delito. Mas apenas 14 denúncias foram redigidas pelas solicitadas, pois, como a maioria das mulheres era analfabeta, muitos padres escreviam as denúncias para os Comissários do Santo Ofício.
     As penas estabelecidas para os padres, de acordo com o Regimento de 1640, eram a abjuração – o reconhecimento do erro –, a suspensão da ordenação por cerca de oito anos, o degredo para fora do bispado onde o delito fora praticado e um ou dois anos de prisão com obrigação de assistir a preleções e estudar a doutrina católica, além de jejuns e penitências.
     Pela quantidade de padres denunciados – que provavelmente não chegava nem perto do número dos que efetivamente cometeram o delito –, nota-se que a ameaça de punição não bastou para coibir a solicitação. Muitas vezes, as mulheres eram responsabilizadas pelo desvio de conduta dos párocos, transformados em vítimas da tentação feminina. Os solicitantes, para se defender, se valiam de representações da mulher derivadas de um modelo estabelecido pelo cristianismo: elas só podiam ser Marias ou Evas, santas ou pecadoras. Esse modelo, além de servir para classificar as mulheres, justificava as agressões àquelas que eram acusadas de falta de pudor, de virtude ou de modéstia, identificadas com Eva.
     No caso do padre José Correia de Queirós, um ano depois de ter sido acusado, ele escreveu uma carta ao mesmo Comissário que recebera a denúncia, dando a sua versão dos fatos. Ele contou que fora desobrigar na casa de Antônio Francisco de Barros – porque ele morava longe –, e que lá “se achava uma mulher casada a qual vivia com bastante lassidão nos costumes contra a castidade”. Assim, “pela fragilidade humana, e com alguma inadvertência”, cometeu a “ação desonesta” de tocar em suas “partes pudendas”. Ao cair em si, ele admitiu ter sofrido um “sumo pesar”, e só demorou a se confessar diante do Santo Ofício por viver em um lugar distante e se encontrar enfermo.
     O problema é que o modelo de comportamento feminino ideal, representado por Maria, era incompatível com a vida cotidiana daquelas que trabalhavam para sobreviver, sem a tutela masculina. Só poderia ser aplicado às mulheres abastadas, que viviam reclusas em suas propriedades e dependiam de seus pais ou maridos. Esse padrão de identidade feminina, vindo da Europa, tornou-se mais complexo na Colônia, pelo peso que a etnia adquiria numa sociedade em que havia a escravização de índios e africanos. Índias, negras e outras mulheres pobres eram alvos fáceis para as investidas dos solicitantes, embora as de melhor condição social não estivessem totalmente imunes.
     Outro exemplo aconteceu com a parda forra Ana Maria dos Serafins. O confessor não mediu palavras para tentar obter o que queria, mas ela repeliu as insinuações do padre Bento de Souza Alvares alegando que viera “lavar-se dos seus pecados dos quais se arrependia”. O vigário insistiu para que Ana Maria “deixasse o arrependimento para a hora da morte”, pois “tinha maiores culpas”, e “se animou a querer-lhe levantar a saia”, aproveitando o fato de a igreja estar vazia. Desvencilhando-se, a mulher fugiu para a rua. O padre a seguiu, tornou a pegá-la, e tentou levantar sua saia enquanto ambos desciam a ladeira do Convento de São Francisco do Rio de Janeiro, no qual ficava a Capela dos terceiros, onde Ana Maria fora se confessar.
     Os casos de abusos são incontáveis. Frei Euzébio Xavier de Gouveia chegou a dizer à escrava negra Joana que tanto fazia “casar donzela quanto já corrupta”, enquanto agarrava seus seios. Na Bahia, o padre Pedro da Silva costumava perguntar às penitentes se elas tinham “vaso grande ou pequeno”. Já idoso, ele foi descrito por uma das solicitadas como sendo cego e desdentado. Por não ter acesso fácil às mulheres, ele se saciava, perversamente, fazendo-lhes perguntas constrangedoras.
     Quando se apresentou ao comissário do Santo Ofício de Pernambuco, em 1760, para confessar o abuso de seis mulheres, o padre José Pereira Afonso se explicou dizendo que os confessores não solicitavam mulheres na confissão e só deviam “cuidar e fugir para elas os não perseguir e solicitar a eles”. O religioso ainda afirmou que as coisas não eram assim na Europa, “por viverem as mulheres com mais recato e não haver tanta solidão, nem escravos que no Brasil são a perdição das casas”.
     O capelão padre Bento Ferreira foi outro religioso que passou das medidas. Assim que ouviu a confissão de Thereza Antônia, preta forra, em 1740, na vila de São João Del Rey, em Minas Gerais, ele lhe disse, antes de absolvê-la, que “lhe queria dar um bocado”, ou seja, ter com ela atos desonestos, na linguagem das negras da Colônia, como explica o próprio documento. Thereza assentiu, e o padre lhe pediu que passasse a noite com ele. A escrava disse que não podia, “mas que tornaria em outra ocasião”. Padre Bento então se levantou, sem lhe dar a absolvição, e foi rezar a missa. Depois da cerimônia, deu o certificado de desobriga a todos os presentes, menos a Thereza, que chamou à sacristia, levando consigo o tinteiro. A mulher pensou que iria receber a certidão, da qual necessitava para provar que estava desobrigada, mas, em vez disso, o confessor a incitou à cópula carnal, praticada ali mesmo.
     A obrigatoriedade anual da confissão durante a Quaresma – determinada pelo IV Concílio de Latrão (1215) – permitia que o clero tivesse um controle constante sobre o comportamento de seu rebanho. Os fiéis também eram estimulados a se confessar pela necessidade de absolvição dos pecados para a salvação da alma. Ao profanar esse importante sacramento, a solicitação comprometia o sucesso do movimento reformador inspirado pelo Concílio de Trento. Era preciso, antes de tudo, fazer com que os padres do século XVIII abandonassem valores, hábitos e comportamentos que iam contra a moralização de costumes pregada até hoje pela Igreja, mas nem sempre praticada.

Lana Lage da Gama Lima é professora da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro e autora da tese “A confissão pelo avesso: o crime de solicitação no Brasil Colonial” (USP, 1990).

Saiba Mais - Bibliografia
GORENSTEIN, LINA e CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Ensaios sobre a Intolerância – Inquisição, marranismo e anti-semitismo. São Paulo: Editora Humanitas-FFLCH/USP, 2002.
VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos Pecados – Moral, Sexualidade e Inquisição no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1989.
SOUZA, Laura de Mello e. O Diabo e a Terra de Santa Cruz – Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil Colonial. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.

Saiba Mais - Link

Saiba Mais - Filme
Desmundo
Filme de época (por volta de 1570) e falado em português arcaico do século 16, é todo legendado no idioma moderno.
Baseado no livro da romancista Ana Miranda e dirigido pelo paulista Alain Fresnot, a narrativa traça um retrato do Brasil colonial visto sob o ponto de vista feminino: no caso, o de Oribela (Simone Spoladore).
Jovem portuguesa, Oribela veio para o Brasil junto com um grupo de órfãs trazidas para cá pelo projeto da monarquia lusitana de oferecer esposas brancas aos colonos, que há tempos se miscigenavam com as índias.
Na época, essa era uma situação completamente desfavorável às mulheres, mesmo às europeias. Afinal, naqueles dias elas valiam menos do que as mulas e tinham menos direito a exercer a própria vontade. Como gado, seus dentes e dotes físicos eram examinados e elas eram arrematadas como num leilão.
Muito devota, mas disposta a tentar algum tipo de escolha, Oribela rejeita com uma cusparada o primeiro e bruto pretendente (Cacá Rosset). Com Francisco (Osmar Prado), ela já é mais conivente, ainda mais que ele se comporta, em princípio, com mais civilidade.
Instalada na remota propriedade do marido com uma sogra estranha (Berta Zemel), uma cunhada deficiente e uma clara insinuação de incesto, Oribela tenta a fuga com a ajuda de um comerciante judeu, Ximeno (Caco Ciocler).
Direção: Alain Fresnot
Duração: 99 min
Ano: 2003
Áudio: Português + Legenda

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Rochas de livres prazeres

Ao registrarem práticas sexuais variadas em suas pinturas rupestres, nossos ancestrais demonstram que lidavam naturalmente com o corpo e os desejos.
     Mais de 1.300 sítios arqueológicos já foram encontrados no Parque Nacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, Piauí. Desses, 900 contêm cenas rupestres, com representações dos afazeres cotidianos dos grupos que ali viveram no mínimo há 12 mil anos atrás. Gravadas nas rochas, há cenas de caçadas, lutas sociais, rituais e relações humanas diversas. Inclusive as sexuais.
     Entre as representações rupestres aparecem figuras humanas exibindo-se individualmente, com destaque para seus falos. Os caçadores e coletores praticavam suas relações sexuais, parece-nos, de forma um tanto livre de certos padrões ditos morais, de acordo com as representações vistas nas cenas rupestres. As cenas mostram diversas posições de sexo, envolvendo duplas, trios ou grupos maiores numa mesma ação. Há também ocasiões mais “românticas”, como a representação de um beijo. Tais sentimentos e desejos não são privilégios exclusivos dos corpos e mentes de hoje. Nossos ancestrais também os vivenciaram, como sugerem os vestígios que deixaram.
     Infelizmente ainda existem manuais didáticos escolares que consideram a História do Brasil apenas a partir de 1500, com a chegada dos portugueses. Em alguns casos, para se remeter ao período anterior, fala-se de “pré-história brasileira”, numa abordagem claramente eurocêntrica, que dá pouco ou nenhum relevo à longa experiência dos povos presentes no continente. Os homens e as mulheres da suposta “pré-história” viveriam em cavernas, vestidos com peles de animais, em alguns casos cobrindo aquelas que consideramos suas “partes íntimas”. É como se estivessem fora da história, num período que seria o prelúdio do desenvolvimento humano, no qual não existiria nada a não ser uma luta instintiva pela sobrevivência.
     Estudos desenvolvidos por arqueólogos brasileiros como Niède Guidon subvertem a concepção de “pré-história”. Ao focalizar a presença humana no continente e trazer ao debate a produção material e cultural dos povos ancestrais – com base em análise de suas artes rupestres, cerâmicas, instrumentos musicais, ossadas e códigos de DNA, entre outros vestígios – eles apontam para a compreensão de outra História. Quem sabe a História Antiga do Brasil, ou a História Ancestral do Brasil.
     Há 200 mil anos, os nossos ancestrais tinham as mesmas condições físicas e mentais que compartilhamos hoje, e empregavam os meios à sua disposição para realizar diferentes ações sociais, culturais, políticas e interpessoais, assim como fazemos atualmente. Sua vida social era mais elaborada do que se imaginava. Demonstram grande desenvoltura para o lazer, o prazer e para práticas hoje consideradas saudáveis, como caminhar, dançar e brincar. 
     As muitas cenas com representações do sexo nas pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara revelam que a sexualidade não era algo reprimido ou escondido, pois todos os membros dos grupos de caçadores e coletores da época tinham acesso àquelas cenas, feitas por eles mesmos ou por seus ancestrais. É possível identificar representações dos órgãos genitais femininos (vulva) e masculinos (falos eretos). Quando há representações de mãos voltadas para trás, são sinalizações de cenas femininas ou com mulheres. 
     O sexo, para aqueles grupos, devia ser considerado uma prática natural e prazerosa. Dificilmente estava submetido a excessivas restrições ou tabus religiosos. O mesmo se observa entre outros grupos de caçadores e coletores, inclusive os atuais. A sexualidade é compreendida de modo diferente por essas sociedades. Pintores antigos, tanto brasileiros quanto africanos, mostravam as cópulas humanas em posições variadas e com certo realismo. Nas pinturas rupestres africanas, especialmente na região abaixo do deserto do Saara, há uma série de representações de homens mascarados com seus falos eretos prestes a penetrarem as mulheres já em posição ginecológica. 
     A sexualidade é uma temática bastante recorrente nas cenas de pinturas rupestres da Tradição Nordeste, uma das tradições estilísticas de pinturas da região piauiense não somente na Serra da Capivara, mas também em outros locais do país, como no interior da Bahia e no Rio Grande do Norte. Na região de sua abrangência, inclusive em São Raimundo Nonato, além das representações do sexo entre humanos, há cenas de sexo com animais, o que chamamos atualmente de “zoofilia”. Cenas que aparecem também nos vestígios de outros povos do mundo.
     É válido considerar que nas cenas de “excitação” coletiva os falos representavam “espadas”, ou seja, simbolizavam poderio e força. Já a cena do beijo sugere que a boca se desenvolveu como importante zona erótica ao longo de toda a vida humana. 
     Filósofos como Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau consideravam “selvagens” os homens das terras distantes da África, América e Ásia. Assim, segundo Hobbes, eles seriam incapazes de construir laços de amor, além de levarem uma vida sem ofício ou arte. Essa ideia se perpetuou através dos escritos de muitos ocidentais, mas já se comprovou que havia sim trabalho, amor e vida social entre esses grupos ancestrais, como evidenciam as pinturas e outros vestígios deixados pelos primeiros ocupantes das terras brasilis.
     Nas pinturas rupestres da Serra da Capivara há cenas de danças feitas com tamanha desenvoltura plástica que demonstram certa sensualidade. Algumas cenas de sexo grupal, com animais ou ainda, supostamente, com humanos “menores”, nos remetem a um período sem as restrições morais e éticas da tradição religiosa judaico-cristã. Um período em que os ritmos e as energias da vida humana se harmonizavam com os da natureza.

Michel Justamand é professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) de Benjamin Constant e autor de A mulher rupestre. Representações do feminino nas cenas rupestres de São Raimundo Nonato – PI (Alexa Cultural, 2014).

Saiba mais – Bibliografia
 GUIDON, Niède. “As ocupações pré-históricas do Brasil”. In: CUNHA, Manuela Carneiro da. História dos índios no Brasil. São Paulo: Cia das Letras, 1998.
MARTIN, Gabriela. “A tradição nordeste na arte rupestre do Brasil”. Revista Clio, nº 14. Série Arqueológica. Anais da X Reunião Científica da Sociedade de Arqueologia Brasileira. Recife: EDUFPE, 2000.
PESSIS, Anne-Marie. Imagens da Pré-História. Parque Nacional Serra da Capivara. São Raimundo Nonato: FUMDHAM, 2003.
PINKER, Steven. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana. Trad. Laura Teixeira Motta. São Paulo: Cia. das Letras, 2004

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Saiba mais – Filmes
A Guerra do Fogo
O filme retrata um período na pré-história e dois grupos de hominídeos. O primeiro, que quase não se diferencia dos macacos por não ter fala e se comunicar através de gestos e grunhidos, é pouco evoluído e acha que o fogo é algo sobrenatural por não dominarem ainda a técnica de produzi-lo; o outro grupo é mais evoluído e tem uma comunicação e hábitos mais complexos, como a habilidade de fazer o fogo. Esses dois grupos entram em contato quando o fogo da primeira tribo é apagado em uma guerra com uma tribo de hominídeos mais primitivos, que disputam a posse do fogo e do território. Noah, Gaw e Amoukar (membros do primeiro grupo) são destacados então para uma jornada para trazer uma nova chama acesa para a tribo. Nesse caminho deparam-se com um grupo de canibais, e resgatam de lá Ika, uma mulher pertencente ao grupo mais evoluído. Do contato com essa mulher, os três caçadores do fogo aprendem muitas coisas novas, já que ela domina um idioma muito mais elaborado que o deles, assim como domina também a técnica de produção do fogo. Levados por diversas circunstâncias a um encontro com a tribo de Ika, percebem que há uma maneira diferente de viver; observam as diferentes formas de linguagem, o sorriso, a construções de cabanas, pintura corporais, o uso de novas ferramentas, e, um modo diferente de reprodução.
Direção: Jean Jacques Annaud
Duração: 100 minutos
Ano: 1981
Áudio: Legendado

domingo, 3 de julho de 2016

O ladrão de sementes

Um aventureiro ajudou a transformar a economia global, passando o monopólio mundial da borracha para as mãos da Inglaterra.
     Na história da geopolítica internacional, costumam figurar apenas os nomes dos grandes governantes e diplomatas. Henry Wickham não foi um deles. Ainda assim, esse personagem ajudou a transformar a produção mundial da borracha, influenciando as relações internacionais e a hegemonia econômica do século XX.
     Ao trocar um pneu de carro ou vestir uma capa de chuva, estamos lidando com alguns dos mais de 50 mil derivados da borracha, matéria-prima absolutamente indispensável na cadeia produtiva de quase todos os setores econômicos. Para atingir esse sucesso, iniciado na esteira da revolução industrial, a borracha trilhou percursos tortuosos. Há pouco mais de cem anos, o monopólio da produção concentrava-se na Amazônia, região responsável por fornecer quase 100% da demanda global na época – principalmente para os países industrializados que, por sua vez, buscavam uma maneira de neutralizar esse domínio.
     Foram cinco décadas de hegemonia amazônica antes daquele empreendimento borracheiro desmoronar, superado pela crescente produção no Sudeste asiático. Na ordem do dia, então, passaram a ser debatidas questões sobre a soberania nacional, em particular a proteção do patrimônio biológico, e uma reavaliação do modelo de desenvolvimento praticado pelo Brasil, que ao longo da história sempre se valera do extrativismo e da exportação de produtos naturais – café, minérios, açúcar, borracha. 
     Wickham teve papel ativo nessa história. Ele foi responsável pelo contrabando de 70 mil sementes de seringueiras, parte das quais seriam plantadas com êxito no Jardim Botânico Real de Londres (Kew Gardens) e depois transferidas, em mudas, para as colônias britânicas no Sudeste asiático.
     Henry Alexander Wickham nasceu em 1846, ao norte de Londres. Aos 20 anos, viajou para a Nicarágua à procura de plumas para fornecer à chapelaria de sua mãe. Foi a primeira viagem de muitas que faria à América Latina, anotando em um diário suas impressões sobre a região. Nesse diário, ele já levantava a possibilidade de um empreendimento borracheiro. O império britânico estava em expansão: o reinado da rainha Vitória (1837-1901) estabeleceu uma política de crescimento econômico, colonização e aumento da presença militar em seus domínios além-mar. Esse cenário representava, para Wickham e outros cidadãos ingleses, uma crescente chance de almejar fama e fortuna em empreendimentos e descobertas, com ou sem o aval do governo britânico. 
     A borracha era necessária à revolução industrial, que estava a todo vapor na Inglaterra. O então diretor de Kew Gardens, Joseph Hooker, tomou conhecimento do diário do jovem Henry. Em Rough Notes, Wickham já discursava sobre os limites e as possibilidades de produzir borracha em massa. Hooker ofereceu a ele 10 libras para cada mil sementes de seringueira coletadas. Mesmo sem garantia ou remuneração adiantada, Wickham se animou com a proposta e convocou esposa, mãe, irmã e irmão para se engajarem em um empreendimento nas cercanias de Santarém, Pará, onde estabelecera um sítio. Para alguns de sua família o destino não foi feliz: sua mãe, sua irmã e a sogra do irmão faleceram, provavelmente por doenças tropicais, sucumbindo ao clima amazônico.
     As perdas familiares não afastaram Wickham de seu projeto. Em troca de migalhas, indígenas e caboclos o ajudaram a coletar, próximo ao rio Tapajós, as almejadas sementes. Elas eram acondicionadas em uma embalagem especial e sigilosa – para não estragarem durante a longa viagem marítima e para não serem detectadas pelas autoridades brasileiras. O governo havia estabelecido fiscalizações alfandegárias salpicadas pela Amazônia. Wickham escapou de uma inspeção mais rigorosa graças ao então cônsul inglês na região, que conseguiu liberar o barco Amazonas, da linha Liverpool-Manaus. Para a sorte de Wickham, a embarcação sofrera uma desventura ao ter sua carga original roubada, dando assim espaço para o envio das sementes à Inglaterra.
     No final do século XIX, a Amazônia mal sabia que a festa da borracha estava chegando ao fim. Manaus usufruía de uma vida de dar inveja até aos europeus que gozavam seu período Belle Époque. A opulência de Manaus ostentava o Teatro Amazonas, calçadas alinhadas, parques chiques, bonde elétrico e outros apetrechos semelhantes aos das cidades europeias. Os barões da borracha tinham vida tão luxuosa que mandavam suas roupas para a Europa a fim de serem lavadas.
     Graças as 70 mil sementes traficadas por Wickham, as colônias britânicas da Ásia em pouco tempo teriam suas plantações. E em 1919 seriam responsáveis por 95% da demanda global de borracha. A Amazônia não teve fôlego para enfrentar a competição. Seu esquema de extração e comercialização da borracha – à base de patrões, regatões, isto é, comerciantes da Amazônia que praticavam preços abusivos, e trabalho semiescravo – explorava e endividava os seringueiros, responsáveis pela extração desse recurso natural. Os preços inflacionados inviabilizavam o modelo extrativista diante do capitalismo mais eficiente do império britânico.
     Embora também se valessem da exploração de mão de obra barata imposta aos súditos colonizados, os ingleses se diferenciavam dos brasileiros pela rapidez e expansão do processo produtivo. Afinal, eram os líderes da revolução industrial. Seus métodos alcançavam grande produtividade e, por consequência, preços baixos. Em seu habitat natural, a seringueira tem uma ocorrência de aproximadamente um espécime por hectare (o tamanho de um campo de futebol). Na Ásia, foi cultivada em fileiras, concentrada em plantações. Os seringais britânicos vingaram, produzindo látex em abundância. 
     Embora não fosse bem sucedido na maioria de seus negócios, Wickham não desanimou e viu na borracha uma oportunidade rara de enriquecer. Diante do sucesso da empreitada britânica na Ásia, reivindicou seus merecidos louros. Não teve a pompa que esperava. O reconhecimento tardou quase quatro décadas, mas veio em vida: em 1920, foi condecorado “Sir” pelo Rei George V. Nada muito além disso. Segundo algumas fontes, ele recebeu uma mísera pensão e alguns brindes. Sua esposa, Violet, que ficara ao seu lado por muito tempo, abandonou-o. Os botânicos profissionais de Kew Gardens o consideravam um amador aventureiro e desprezaram seus esforços.
     Após a Amazônia, seu espírito desnorteado e aventureiro levou-o para a Nova Guiné e a Austrália, onde sofreu outro fracasso. Nunca chegou a se estabelecer economicamente em definitivo. Morreu em 1928, talvez sem se dar conta de que integrara, de fato, uma enorme lista de “peões” sem muita expressão nos investimentos britânicos além-mar. Foi mais um personagem secundário de um longo processo de troca e roubo de espécies biológicas para fins lucrativos, que remonta à era colonial e existe ainda hoje. Para o historiador norte-americano Alfred Cosby, trata-se de imperialismo ecológico, que atualmente assume a forma de produtos farmacêuticos, grande parte deles derivados de plantas. A mesma Amazônia que revelou ao mundo os potenciais da borracha abriga em sua rica biodiversidade outras incontáveis (e desconhecidas) matérias-primas, que podem interessar a diversas indústrias. Continuam em voga questões de soberania nacional e, mais recentemente, alguns grupos indígenas vêm alcançando o reconhecimento de seu direito ao uso do patrimônio natural que manejam há milênios. O império da vez são as megacorporações internacionais.
     Vilão, cavaleiro em missão nobre a serviço da coroa britânica, oportunista? Seja como for, Wickham foi peça-chave de um processo histórico que se enquadra na espoliação colonial e na globalização. Suas ações, ainda hoje, renderiam grande polêmica.

Louis Carlos Forline é professor de antropologia da Universidade de Nevada e pesquisador visitante no Museu Paraense Emílio Goeldi.

Saiba Mais - Bibliografia
SANTOS, Roberto. História econômica da Amazônia (1800-1920). São Paulo: T. A. Queiroz, 1980.
WEINSTEIN, Bárbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência. São Paulo: Edusp, 1993.
BENTES, Rosineide. A apropriação ecológica de seringais na Amazônia e a advocacia das Rubber PlantationsRevista de História, 151 (2), p. 115-150, 2004.
LEONARDI, Victor. Os historiadores e os rios: natureza e ruína na Amazônia brasileira. Brasília: Paralelo 15, Editora Universidade de Brasília, 1999.

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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Era Vargas: 1930 - 1935

O período mais determinante da história brasileira no século XX é o assunto da coleção Era Vargas. Partindo da tomada do poder daquela que foi a personalidade brasileira mais marcante do século passado, o cineasta Eduardo Escorel aborda causas e consequências da transformação política que conduziu Getúlio Vargas à presidência, contextualizando os momentos marcantes do período, como o Tenentismo, a Revolta dos 18 do Forte, a chegada ao poder em 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932. Utilizando filmes inéditos e entrevistas atuais, a obra esclarece quais os fatores que facilitaram a ascensão de Vargas e como ele habilmente consolidou o seu poder, deixando um legado que definiu os rumos políticos e econômicos do Brasil pelas décadas seguintes. Era Vargas – De 30 a 35 é um documento definitivo para quem quer entender Brasil.
Para finalizar os documentários que vão de 1930 a 35, Escorel levou duas décadas. O diretor explica: “nesse tempo todo tudo muda, principalmente a concepção das coisas. E eu gosto de dizer que um trabalho como esse não é feito sozinho. Teve muita gente envolvida, muita pesquisa histórica. Ou seja, levamos 20 anos para contar cinco anos da história do Brasil”.

Direção: Eduardo Escorel
Ano: 1992
Áudio: Português
Duração: 196 minutos/Total
Parte 1 - 1930 - Tempo de Revolução / 48 minutos
Parte 2 - 1932 - A Guerra Civil / 48 minutos
Parte 3 - 1935 - O Assalto ao Poder / 98 minutos

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

Que importância tem a participação política?

Essa pergunta é o tema do poema de Bertolt Brecht (1898-1956), poeta e dramaturgo alemão e do cartaz de uma campanha desenvolvida pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pela ética na política.
O analfabeto político
O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala,
nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
o preço do feijão, do peixe, da farinha,
do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político
é tão burro que se orgulha
e estufa o peito dizendo
que odeia a política.
Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
nasce a prostituta, o menor abandonado,
o assaltante,
e o pior de todos os bandidos,
que é o político vigarista,
pilantra, corrupto e lacaio
                                                                                       das empresas nacionais e multinacionais.
                        BRECHT, Bertolt. Disponível em: <www.votoetico.org. br/colaboracoesl.htm>.          

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Intérpretes do Brasil

Intérpretes do Brasil, de Isa Grinspum Ferraz, uma série de quinze entrevistas com grandes intelectuais brasileiros sobre a cultura, a religião e os diferentes grupos sociais de nosso país. Dos mesmos criadores do premiado "O Povo Brasileiro".

Direção: Isa Grinspum Ferraz
Ano: 2001, 2002
Áudio: Português
Duração: +- 19 minutos (cada episódio)




Disco I

- Notas sobre o Brasil, por Darcy Ribeiro
- Saberes, Manuela Carneiro da Cunha
- Pé na Estrada, por Paulo Vanzolini
- Portugal-Brasil, por Judith Cortesão
- O Sonho Português, por Roberto Pinho
- Vontade de Beleza, por Washington Novaes
- Mistura e Invenção, Hermano Vianna

Disco II

- Os Vários Brasis, por Aziz Ab’Saber
- Os Caipiras, por Antonio Candido
- Viva o Sertão, por Antonio Risério
- Leituras do Cotidiano, por Roberto Da Matta
- O Candomblé do Brasil, por Mãe Stella
- Presença Africana, por Carlos Serrano
- Mar de Escravos, por Luiz Felipe de Alencastro
- Negro de Corpo e Alma, por Emanoel Araújo

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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Histórias da História de São Paulo

Histórias da História de São Paulo
Com Marco Antonio Villa
(Bacharel e Licenciado em História, Mestre em Sociologia e Doutor em História) 
Realização - Univesp TV
Direção: Ricardo Dias
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: +- 28 minutos

1º Episódio - Terra desolada (final do séc. XV e início do séc. XVI)
No primeiro episódio, o século 16. Os primeiros momentos daquela que hoje é a maior cidade do país, mas que por décadas foi apenas a vila mais distante do litoral paulista, numa época em que o Brasil ainda era apenas a América Portuguesa.

2º Episódio - Descoberta do ouro (última década do séc. XVII)
Procurado desde a chegada dos portugueses, o ouro é finalmente descoberto em grande escala, na última década do século XVII, por paulistas que se aventuravam atrás do metal precioso em Minas Gerais.

3º Episódio - O quadrilátero do açúcar (província de São Paulo - século XVIII)
A cana ajuda a expandir o território paulista, promove o estabelecimento de cidades no interior, faz fortunas e traz mudanças significativas na região, como a substituição dos escravos índios por negros

4º Episódio - A independência e São Paulo (província de São Paulo - primeira metade do século XIX)
A chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, no século 19, trouxe mudanças para a então pobre e decadente São Paulo, que ganha importância política e econômica e tem papel decisivo no processo que leva à independência do Brasil.

5º Episódio - Novas ideias (cidade de São Paulo - século XIX)
A cidade de São Paulo que até os anos vinte do século 19 tinha sua população longe do núcleo urbano e mal falava o português , se transforma com a criação da Academia de Direito , atual Faculdade de Direito da USP . No Largo São Francisco nasce uma geração de escritores . Nascem também novas idéias que levarão a importantes transformações políticas no país , como o abolicionismo.

6º Episódio - O café no Vale do Paraíba (início do século XIX)
No sexto programa, o professor Marco Antônio Villa fala da importância do café para o Brasil do século XIX.
O café que vem do Caribe. A chegada a São Paulo pelas grande fazendas do Vale do Paraíba, passando pela exploração da mão de obra escrava e a abertura dos portos, até a transformação do Brasil no maior produtor do mundo.

7º Episódio - O café no Oeste Paulista (século XIX)
No sétimo programa da série, Marco Antônio Villa fala do impacto da produção do café para São Paulo do século XIX.
As cidades que nascem com a produção cafeeira; a transformação econômica; o impacto político e sua influência na proclamação da república; o desenvolvimento e expansão ferroviária, que promovem a circulação de ideias e fomenta a cultura.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Adeus, Europa

Fugindo da invasão napoleônica e tentando manter unido seu império, a Corte portuguesa escapou para o Novo Mundo, passando a ser vista como exótica pelas outras coroas.
Pacrick Wilcken
     Em novembro de 1807, Lisboa foi palco de um dos mais notáveis episódios das Guerras Napoleónicas. Enquanto a força invasora francesa rompia a fronteira entre Portugal e Espanha, nas docas da cidade imperava o caos. Multidões em pânico abriam caminho entre enormes engradados de carga, barris de água potável, mobiliário, embrulhos com documentos e pilhas de livros que começavam a se acumular no ancoradouro. Sob uma chuva torrencial, oficiais da Corte lutavam para supervisionar o embarque de passageiros e carga na frota portuguesa.
     Espremido no comboio estava um microcosmo da elite portuguesa - da realeza a cortesãos e advogados - junto com suas famílias e exércitos de servos e secretários. O príncipe regente d. João (17671826), a rainha louca Maria I (1734-1816) e os herdeiros masculinos, d. Pedro, de nove anos, e d. Miguel, de cinco, embarcaram na capitânia Príncipe Real, uma sala do trono flutuante contendo toda a linha sucessória da Casa de Bragança. A nave Alfonso de Albuquerque levava a princesa regente Carlota Joaquina (1775-1830) e quatro de suas seis filhas, uma das quais cruzaria o Atlântico nos braços de uma ama-de-leite. Segundo algumas estimativas, cerca de 10 mil pessoas se espalharam por mais de trinta navios, incluindo a escolta de quatro embarcações militares inglesas, preparando-se para a jornada de 7,2 mil quilómetros até o Rio de Janeiro.
     Uma rápida olhada na carga que a frota levava é o bastante para concluir que o Brasil não era visto como um mero refúgio temporário. O plano de transferir a Corte para o Brasil fora, de fato, discutido em diversas ocasiões desde o século XVII, como forma de resguardar o império diante de uma agressão europeia. Não era possível prever os desdobramentos das guerras na Europa, mas os portugueses se preparavam para qualquer eventualidade. Os documentos a bordo surpreendiam pela quantidade e pela abrangência. Havia manuscritos, mapas, e um registro detalhado da correspondência oficial entre cortes europeias; obras de arte, equipamento de gráficas, parafernália religiosa e o tesouro real, contendo a metade de todo o dinheiro que circulava em Portugal na época.
    A frota portuguesa finalmente zarpou na manhã de 27 de novembro. No dia seguinte, tropas francesas entraram na cidade, tomando o controle da capital. Antes de partir, d. João, que governava em nome da mãe enlouquecida, nomeou um conselho de governadores para receber os franceses em sua ausência, dizendo que voltaria tão logo a situação política permitisse.
     Mas passaram-se 13 anos antes que os migrantes portugueses pisassem novamente sua terra natal. Nesse período, as regras do colonialismo foram viradas de cabeça para baixo. De uma hora para outra, antigas rotas marítimas foram invertidas, com decretos cruzando o Atlântico em direção à Europa, e provisões, funcionários e tropas viajando para o Novo Mundo a fim de abastecer a Corte. Lisboa, a venerável metrópole, fora transformada em posto avançado de sua antiga colônia; a nova sede da Corte, o Rio de Janeiro, assumiu o papel de capital imperial. Lá os cortesãos encontraram as contradições que marcam todos os impérios, concentradas num único local: de um lado havia as belezas naturais do Rio; do outro, nas palavras do marquês do Lavradio, vice-rei do Brasil (17691779), "o espetáculo mais horrendo que o olho humano pode testemunhar", a imagem de escravos africanos sendo descarregados de navios e vendidos na cidade.
     Durante uma breve escala em Salvador (de 22 de janeiro a 26 de fevereiro de 1808), d. João eliminou o mais oneroso fardo colonial do Brasil, abrindo os portos para embarcações de nações amigas. A ação era inevitável, devido à paralisia que atingira o comércio com Portugal desde a ocupação francesa, e estava estipulada num acordo secreto firmado em outubro com a Inglaterra. Após a frota aportar no Rio, em 7 de março de 1808, cortesãos abrigaram os abundantes documentos trazidos na viagem, enquanto era montada uma nova estrutura governamental. Em poucos meses, d. João criou diversas instituições: Tribunal Superior, Tribunal de Apelações, Conselho Militar, Alfândega, Comissão de Comércio, Indústria e Navegação, a maior parte réplica de instituições portuguesas com um "do Brasil" agregado ao nome. Em setembro de 1808, a recém-criada Imprensa Régia lançava o órgão oficial Gazeta do Rio de Janeiro, uma cópia da Gazeta de Lisboa.
    A criação de jardins botânicos foi incentivada pela inauguração por d. João do Horto Real numa área rural aos pés do Corcovado. Na época, jardins botânicos eram símbolos de modernidade - laboratórios verdes para aclimatação e pesquisa de cultivos comerciais. Durante a permanência da família real, chá, noz-moscada, abacate, cravo, canela e espécies de cana foram cultivados no Rio e enviados a plantações para testes em todo o Brasil.
     O trabalho de construção levou mais tempo, numa cidade cuja população, estimada em 70 mil habitantes, saltou de um dia para o outro e mais do que dobrou ao longo da permanência da Corte. Arquitetos transformavam as estruturas existentes em residências reais - a antiga mansão de um fazendeiro em São Cristóvão se tornou a favorita de d. João. A rede de palácios de que a família real dispunha em Portugal foi recriada de forma mais modesta nos Trópicos. A Corte deu prioridade a instituições privilegiadas no início do século XIX, incluindo a instalação da Biblioteca Real, trazida de Lisboa, a construção de um teatro para óperas, de um campo de caça e até de uma praça de touros. O que era uma provinciana cidade colonial foi avivada pela invasão de artistas, músicos, cientistas, diplomatas e comerciantes que afluíram à cidade tão logo terminaram as Guerras Napoleônicas. Foi como uma Renascença para o Rio de Janeiro, ainda que sob o controle de uma Corte conservadora e provinciana.
     Em estudos recentes, d. João foi resgatado da caricatura de um glutão cabeça-dura, devorador de frangos - uma difamação que data da propaganda antimonárquica do século XIX. A história o colocou numa situação delicada, mas o príncipe soube negociar com as complexidades de seu tempo, enquanto seus semelhantes em toda a Europa eram destronados e humilhados por Napoleão. Ele era, entretanto, um conservador nato, um homem à antiga, de gostos simples. Amava música eclesiástica, banquetes, cerimônias religiosas e tinha afeição particular pelo ritual do "beija-mão" (cerimônia na qual os súditos beijam a mão do soberano). Mas ao menos parte da caricatura é real. Descrições de época indicam que ele era impressionável, um indeciso crônico que evitava até o fim tomar decisões difíceis.
     D. Carlota, por outro lado, permanece um personagem profundamente ambíguo. Ainda que não conteste a influência desestabilizadora que exercia sobre a Corte portuguesa, a historiografia recente reavalia o julgamento pelo qual ela passou nas mãos de gerações anteriores. A princesa viveu numa época e numa classe em que a mulher deveria gerar filhos, comparecer a cerimônias e recepcionar eventos sociais. As decisões cruciais da vida - como casamento e moradia - foram tomadas pelos outros, e ela era desencorajada a desempenhar algum papel efetivo na política. Desde o início, d. Carlota se rebelou contra essa situação. Tanto em Portugal quanto no Brasil, lutou para estabelecer uma base política, e, morando fora da Corte, em diversas villas no Rio e em Lisboa, tentou manter o controle de sua vida pessoal.
     Politicamente, a posição dela era inusitada. Com o aprisionamento de seu irmão, o rei Fernando VII (1784-1833), na França, tornou-se a herdeira presuntiva do trono espanhol, assim como a possível princesa regente da América espanhola. Ela perseguiu esses dois objetivos com afinco - em parte por conta de sua frustração com o papel que tinha no Rio, mas também na defesa do que considerava um patrimônio de sua família usurpado por Napoleão. Seu fracasso, sua amargura e a saúde frágil consolidaram a imagem da "bruxa de Córdoba", adulterina e conspiradora, que já começava a circular.
     Pelo menos no campo do anedotário, d. Carlota podia mostrar grande sensibilidade em relação aos outros, especialmente os mais vulneráveis. O arquivista Luiz Joaquim dos Santos Marrocos escreveu que ela forneceu roupas e cuidados médicos à esposa de um servo do palácio, abandonada pelo marido e deixada com a saúde debilitada numa casa pobre. Um viajante francês, Jacques Arago, contou que d. Carlota libertara uma jovem escrava espancada na rua por ter roubado um punhado de açúcar. Na verdade, as contradições permanecem, pois outras histórias - como a da princesa espancando impiedosamente o filho Miguel com as próprias sandálias ou chicoteando transeuntes que se inclinavam em respeito quando ela se aproximava - apontam uma mulher vingativa e violenta.
     A permanência da Corte no Rio foi uma das grandes anomalias da História colonial e conduziu o Brasil a sua singular transição para a Independência. Além de suas fronteiras, a América espanhola era um cenário de violência e de colônias devastadas pela guerra. O Brasil após se tornar Reino Unido com Portugal e Algarves, em dezembro de 1815, pôde seguir um caminho diferente, transformando-se em sócio majoritário numa união transatlântica. Em circunstâncias diferentes, a revolta antimonarquista de Pernambuco, em 1817, poderia ter florescido e saído do controle, como as sedições na América espanhola. Mas a presença da Corte no Rio de Janeiro manteve as diferentes províncias brasileiras unidas num momento crucial da evolução do país.
     Na esteira da supressão da revolta pernambucana, diversos eventos de grande importância simbólica aconteceram no Brasil, solidificando a posição da Corte nas Américas. Em 1817, aconteceu o casamento do príncipe herdeiro, d. Pedro (1798-1834) com uma princesa da casa de Habsburgo. Num movimento sem precedentes, a noiva, Maria Leopoldina Josefina Carolina (1797-1826), arquiduquesa da Áustria, de vinte anos, cruzou o Atlântico para a cerimónia. Em 1818, aconteceu no Brasil a aclamação de d. João, dois anos após a morte de sua mãe pela primeira vez um monarca Europeu era entronizado no Novo Mundo.
     Ainda assim, testemunhas-chave do período, como o arquivista Marrocos e a arquiduquesa Leopoldina, não se impressionavam tanto com o reino tropical. Para ela, acostumada à relativa sofisticação da Áustria, a Corte portuguesa era atrasada e provinciana. Ainda que Marrocos acabasse se adaptando à vida nos Trópicos, em seus primeiros anos aqui ficou horrorizado com o Rio de Janeiro e escandalizado com a decisão da Corte de permanecer na cidade mesmo depois de Portugal ter sido libertado (1814).
     Quanto mais a Corte permanecia no Brasil, menos sintonizada ficava com as demais monarquias europeias, terminando como uma versão fossilizada da realeza do início do século XIX. "À exceção da semi-asiática corte de Constantinopla, provavelmente não existe uma outra na Europa caracterizada por uma originalidade tão estranha quanto esta", escreveu o enviado alemão, o conde von Flemming. "Ainda que tenha se estabelecido na América apenas recentemente, deve ser considerada completamente estranha aos costumes europeus e inteiramente exótica."
     Havia estagnação também no campo político. Ao longo dos anos, d. João mexeu o mínimo possível em seu governo. Ele confiava quase que exclusivamente nos homens que o ajudaram nos anos difíceis que o levaram ao exílio, como Rodrigo de Souza Coutinho (1755-1812), ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, e Antônio de Araújo (1754-1817), ministro da Fazenda. "De fato é algo surpreendente", escreveu o cônsul-geral britânico Henry Chamberlain, em 1817, "que o governo tenha se mantido até hoje com dois ministros tão tíbios (João Paulo Bezerra de Seixas, também ministro da Fazenda, e Araújo)... cada setor da administração é descrito como em confusão quase insolúvel."
     Na retórica da época, d. João viajou para as Américas a fim de criar "uma nova Atenas, uma nova Lisboa, uma nova Jerusalém". Em última análise, entretanto, os extraordinários eventos de 1807 a 1821 aconteceram no cruzamento de três histórias imperiais: a expansão francesa na Europa, os desígnios britânicos para a América do Sul e a tentativa desesperada de Portugal de manter seu império. A transferência para o Brasil parecia uma solução engenhosa para essas três demandas antagônicas. Na prática, ao menos para os portugueses, foi tão-somente uma pausa numa época de acentuado declínio imperial.
     O Rio de Janeiro continuou a ser um mercado de escravos. Por trás da fachada metropolitana criada pela Corte, o tráfico ainda florescia. Talvez este seja o aspecto mais original da prolongada permanência da Corte portuguesa no Brasil. Nunca antes uma família real vivenciara o lado sombrio de seu império tão proximamente e por tanto tempo. Para os monarcas da época, as colônias eram reinos imaginários, envolvidos em mistério e exotismo. Para os moradores das colônias, com a exceção das elites, a realeza era uma fantasia de poder e ritual. Entre 1808 e 1821, esses dois mundos colidiram e, ao fazê-lo, mudaram o curso da história de Brasil e Portugal.

Pacrick Wilcken é jornalista formado em Estudos Latino Americanos pelo Instituto para Estudos das Américas da Universidade de Londres, onde vive, e autor de Império à deriva: a Corte portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821. Rio de Janeiro: Objetiva, 2005.

Saiba Mais – Link

Saiba Mais - Filme 
Carlota Joaquina
O filme conta, satiricamente, parte da história da monarquia portuguesa, e a elevação do Brasil, de colônia do império ultramarino português, a reino unido com Portugal. Também faz referências a monarquia espanhola. A morte do rei de Portugal D. José I de Bragança, em 1777, e a declaração de insanidade da filha herdeira do precedente, a rainha D. Maria I, em 1792, levam seu filho, o então príncipe D. João de Bragança e sua esposa, a infanta espanhola Carlota Joaquina de Bourbon, ao trono real português. Em 1807, para escapar das tropas napoleônicas que invadiam Portugal, a corte portuguesa e o casal transferem-se às pressas para o Rio de Janeiro, onde a família real e grande parte da nobreza portuguesa vivem exiladas por 13 anos. Na colônia aumentam os desentendimentos entre Carlota Joaquina e D. João VI, que após a morte da mãe, D. Maria I, deixa de ser príncipe-regente e torna-se rei de Portugal e, posteriormente, rei do reino unido de Portugal, Brasil e Algarves
Direção: Carla Camurati
Ano: 1995
Áudio: Português
Duração: 100 minutos

Saiba Mais - Documentário
A Corte no Brasil

Reportagem: Sandra Moreyra e Mônica Sanches
Ano: 2009
Áudio: Português
Duração: +- 20 minutos (cada episódio)

1º episódio – A fuga dos Reis – O Tejo tema de tantos e poemas, ponto de partida das viagens que levaram aos grandes feitos e descobertas dos navegadores lusitanos, foi testemunha de um embarque inusitado 200 anos atrás.

2º episódio – Nobreza e política – No início do século XIX, a amizade entre Portugal e Inglaterra já tinha 500 anos. A mais duradoura aliança entre dois países. Parceiros no comércio navegavam juntos contra os piratas e os inimigos.

3º episódio – Um reino sem Rei  Um povo abandonado. Depois da partida da família real a dor tomou conta dos portugueses. Uma tristeza do fado, este sentimento de orfandade, faz parte da história de Portugal.

4º episódio – A travessia – Ha 2900 km do Brasil, uma ilha vulcânica se ergue no meio do Oceano Atlântico. Na Santa Helena, um Napoleão derrotado pelos ingleses, dita suas memórias a dois companheiros, Admite que a invasão da Península Ibérica foi um erro, reconhece que o príncipe D.João de Portugal, foi o único que conseguiu enganá-lo, quando embarcou para o Brasil.

5º episódio – Chegada à Bahia  A viagem da corte portuguesa, já durava quase dois meses desde a partida no porto de Lisboa em Novembro de 1807. Um típico por de sol em Salvador, fez o soldado de plantão no forte, no dia 21 de janeiro de 1808, levar um grande susto e correu para contar a novidade. Ao norte, quatro embarcações que parecia ser de guerra se aproximavam, a primeira no horizonte tinha a bandeira da Inglaterra. João de Saldanha da Gama, o conde da Pontem governador geral da Bahia recebeu a notícia e ficou em pânico. No diário que escreveu, ele relata o medo de uma invasão inglesa até o outro de que as outras naus eram portuguesas e uma trazia o pavilhão real.

6º episódio – O desembarque no Rio de Janeiro – O brique voador era a nau mais veloz da frota portuguesa. A tripulação do voador fora designada uma importante missão. Chegar ao Brasil o quanto antes. O voador partiu de Portugal na véspera do embarque da corte. No navio seguiam documentos, com algumas decisões do príncipe regente D. João, um comunicado que ia deixar o Rio de Janeiro em polvorosa.

7º episódio – A economia do tempo de D. João – O Brasil já era a economia do futuro em 1808. Um território imenso a ser explorado, o interior ainda desconhecido, um extenso litoral com portos apropriados para o comércio. Um mercado consumidor praticamente vigente. Ansioso para receber novidades estrangeiras. Muitas eram as possibilidades e infinitas as dificuldades para o governo de D. João.

8º episódio – A política no tempo de D. João – No tempo de D. João, governar Portugal era viver na defesa. Temer constantemente os vizinhos, maiores, mais fortes e poderosos. No Brasil o soberano destas vastas terras, descobriu que havia uma enorme diferença. Naquela época, tamanho era documento, a conquista de territórios, uma carta na manga, para negociar a qualquer momento em períodos de guerra ou quando chegasse a paz.

9º episódio – A corrupção – No Brasil colonial ostentar riqueza era proibido. Nas roupas, nada de tecidos nobres ou ricos bordados, nas casas muita simplicidade. Tudo isso mudou com a chegada da corte. O luxo nas festas, os gastos descontrolados, a troca de favores, a burocracia aliada a corrupção, tinham exemplos que vinham de cima, do trono e dos fidalgos que cercavam a monarquia aqui instalada.

10º episódio – Arte e ciência, o Reino do saber – Quando Napoleão perdeu a guerra, a família real portuguesa não voltou para a Europa. O Brasil naquela altura dos acontecimentos, tinha se tornado o melhor lugar para se chamar de lar, onde sede do Império Colonial Português. Faltava apenas arrumar a casa, enfeitar o Rio de Janeiro, dar uma sofisticação a este reino tropical, foi o que fez D. João.

11º episódio – Templo dos livros e da música – As catedrais e as bibliotecas são até hoje templos imponentes em Portugal. Em 1808, na nova corte do Rio de janeiro, D. João fez que são de cultivar as duas paixões da Família Bragança. Quando voltou para Lisboa, deixou os tesouros na Real Biblioteca no Rio de Janeiro. Enquanto viveu no Brasil contratou músicos, maestros e cantores trouxe atrações internacionais. Duzentos anos atrás, encontramos as raízes das nossas bibliotecas públicas e da música brasileira.

12º episódio – O retorno da corte – A família de D. João VI, viveu uma saga surpreendente até os momentos finais. O Rei não queria deixar o Rio de Janeiro, em Lisboa a rainha Carlota Joaquina e seu filho, príncipe Miguel, comandaram um governo de terror. Duas crianças, filhos de D. Pedro, receberam as coroas do Brasil e de Portugal. Duzentos anos depois com o fim da monarquia no Brasil, ficaram os herdeiros do trono que não existe mais.