"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Além da Era Vargas - Ecos de Getúlio

Seis décadas após sua morte, as contradições do ditador e líder trabalhista continuam pautando a política nacional.
     Alguns indivíduos ultrapassam o limitado tempo das suas vidas e perpetuam-se como mitos, capazes de inspirar gerações futuras, transformar perspectivas sobre o passado e representar as questões de um povo, época ou país. Na trajetória brasileira, Getúlio Vargas é, talvez, a mais significativa expressão desse fenômeno. A frase “Saio da vida para entrar na História”, que encerra sua “carta-testamento”, funcionou como profecia autorrealizada: continuou ecoando por todos os lados e para muito além dos tempos de sua morte, quando os principais protagonistas da cena política ainda podiam ser divididos entre seguidores e adversários do varguismo.
     A longa ditadura militar iniciada em 1964 por um golpe contra seu principal herdeiro político, João Goulart, não foi capaz de apagar o legado do gaúcho de São Borja, que teve parte do seu espólio arduamente disputado após a redemocratização – a começar pela férrea disputa que travaram Leonel Brizola e Ivete Vargas, filha de Getúlio, para ficar com a sigla PTB, partido criado em 1945 sob direta ingerência do presidente.       As décadas se passam, e as marcas deixadas pelas ações e pelo personagem político de Vargas continuam evidentes. Críticas a seu legado permearam a formação dos dois principais partidos brasileiros contemporâneos, o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Fundado com a missão de renovar a esquerda nacional, o PT tinha na tradição trabalhista do varguismo um dos principais oponentes em seus primeiros anos. Lula, futuro presidente do Brasil e o mais destacado líder operário da época, por inúmeras vezes em discursos no fim dos anos 1970 desqualificou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) – talvez a maior realização varguista no campo dos direitos – tachando-a de “AI-5 dos trabalhadores”, em referência ao Ato Institucional mais repressivo do período da ditadura.
     Anos mais tarde, em 1995, no discurso que antecedeu sua posse, Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, elegeu o “Fim da Era Vargas” como maior objetivo do mandato. A afirmação do reformismo neoliberal, que marcou o governo do sociólogo paulista e alastrou-se por quase toda a América Latina, passava necessariamente pela desconstrução da obra varguista em terras brasileiras. E, uma vez no governo, o PT muda seu discurso. Se antes era crítico do trabalhismo e entusiasta de um “novo sindicalismo”, passou a reivindicar a herança varguista e a associar o PSDB aos críticos liberais de Getúlio (em seu tempo, concentrados na União Democrática Nacional, a UDN). 
     Grande parte dessa longevidade de Vargas no cenário político nacional se deve à ambiguidade de sua trajetória. No mesmo corpo, conviveram o presidente dos direitos trabalhistas e aquele que reprimiu duramente trabalhadores ao longo do Estado Novo. Revolucionário em 1930, ditador em 1937 e líder democrático de massas com plataforma de esquerda em 1950, o mesmo nome parece denominar muitos personagens, o que permite uma ampla variedade de apropriações. Não faz sentido falar em apenas uma linhagem varguista, mas sim em múltiplas tradições. 
     Podem existir afinidades entre linhagens diferentes como o trabalhismo e o autoritarismo, e elas próprias são diversas em seu interior. Essa demarcação de tradições também não se explica apenas por critérios cronológicos, como o de um varguismo antes e outro depois do Estado Novo – pois vertentes positivas como a dos direitos trabalhistas podem conviver em épocas de feições gerais terríveis. O próprio Vargas foi o ponto de encontro de antigas e arraigadas tradições políticas brasileiras, como o positivismo castilhista – linhagem organizada em torno de Júlio de Castilhos e seus seguidores, com forte presença no Rio de Grande do Sul – e o iberismo, que apostava no Estado como protagonista na organização da vida nacional, em razão da relativa desorganização da sociedade. 
     As recusas ou as adesões ao varguismo podem abrigar, portanto, distintas crenças e práticas políticas no largo e indeterminado terreno das definições pela negação. Simplesmente porque tudo vai depender do varguismo contra o qual se luta ou ao qual se adere. A recusa ao Vargas da CLT não implica a oposição ao ditador do Estado Novo. O elogio ao Vargas nacionalista não leva necessariamente à simpatia pelo ferrenho anticomunismo do ditador.
     O lugar de Vargas na política nacional sofre releituras e comparações periódicas, de acordo com o momento que o país atravessa. O Estado Novo (1937-1945), por exemplo, sempre perdurou como paradigma de regime autoritário e centralizador no Brasil, mas ao longo do tempo ganhou outros qualificativos. Logo após o golpe de 1964, Tancredo Neves chamou a ditadura recém-instaurada de “Estado Novo da UDN”, ironizando os liberais que criticaram o Vargas autoritário e acabaram apoiando outro golpe. Quando chega ao fim esse regime de exceção, Raymundo Faoro retorna à metáfora e acena para o possível surgimento de um “Estado Novo do PMDB”, numa crítica às escolhas do rebento do partido de oposição à ditadura, o MDB. E o termo continua válido nos anos 2000, utilizado por Luiz Werneck Vianna numa referência ao estatismo e à centralização do primeiro governo petista, que batiza de “Estado Novo do PT”.
     Em todas as suas variações, o trabalhismo compõe, ao lado do comunismo, uma das mais relevantes tradições da esquerda brasileira, com grande impacto no meio sindical e nas organizações estudantis. Sua origem é Getúlio Vargas, fundador de um dos mais relevantes partidos da história da esquerda nacional, o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) – e, no entanto, um aliado das oligarquias e também fundador do conservador PSD. Não é fácil entender como um ditador pode representar um símbolo da esquerda democrática no Brasil.
     A questão começa a se tornar mais clara quando se percebe que a ditadura militar, mais longevo regime autoritário brasileiro, foi motivada, dentre outros fatores, pelo combate ao trabalhismo. Não apenas o presidente derrubado, João Goulart, era o principal herdeiro político de Vargas, como um dos principais oponentes dos golpistas e maior inimigo do regime instalado, Leonel Brizola, também se vinculava às hostes trabalhistas. A oposição ao trabalhismo – que era apontado como ferramenta para manipular e agitar as incautas massas populares – foi, aliás, combustível não só do golpe de 1964, mas de outros movimentos golpistas do período, como os de 1954 e 1961.
     A UDN, maior partido de oposição a Vargas, teve participação relevante em todas essas sublevações ilícitas, seja pelo apoio quase unânime de seus membros (1954 e 1964) ou pelo protagonismo de alguns, caso de Carlos Lacerda (1961). Os liberais udenistas criavam um clima de constante instabilidade, questionando a legitimidade da democracia então vigente, pela relação entre o varguismo e as massas populares. A ideia de “udenismo” entrou para o vocabulário comum da política brasileira, ou ao menos o da esquerda, entendida como um modo de ação política pernicioso à democracia. Por esse raciocínio, se os opositores de Vargas eram identificados como inimigos do regime democrático, seria natural vincular sua figura a esses ideais. Ao atacar e derrubar o governo legitimamente eleito em 1950, os udenistas fortaleceram a face democrática do presidente e relegaram as arbitrariedades do ditador a uma memória distante.
     Vargas foi um dos primeiros a perceber como ator político fundamental um grupo social até então visto apenas como fonte de distúrbios para a ordem oligárquica que o antecedeu: as grandes massas urbanas. Se os direitos trabalhistas garantidos pela CLT decorrem também da luta dos trabalhadores, ele foi um dos pioneiros dentro da elite política da época a reconhecer a necessidade de instaurar esses novos marcos legais. Conduta, sem dúvida, transformadora. Mesmo seu maior adversário, Carlos Lacerda, reconheceu isso: “Foi mérito seu, indiscutível, o de haver compreendido o valor do homem sem importância (...). Enquanto muitos políticos continuavam a falar apenas para um grupo, ele e outros, depois de 1930, passaram a falar às grandes massas do povo”.
     A relação de Vargas com os militares também passa por inúmeras flutuações. Aliadas fundamentais para a construção e a manutenção do Estado Novo, as Forças Armadas foram responsáveis diretas por suas duas derrubadas, em 1945 e 1954. No entanto, a vertente nacionalista desse setor, liderada por nomes como Estillac Leal, antigo ministro da Guerra de Getúlio, tinha no mito de Vargas um dos seus principais bastiões. O varguismo dividiu o campo militar, justamente por um dos pontos de maior permanência em sua trajetória: o nacionalismo. Nacionalistas eram tanto o Estado Novo quanto o segundo governo Vargas. No nacionalismo convergiam o ditador e o presidente.
     Normalmente associado à expressão desenvolvimentismo – com o nacional-desenvolvimentismo elevado à grande vertente econômica da Era Vargas – o nacionalismo merece, porém, tratamento à parte. Enquanto o desenvolvimentismo era comungado por quase todos os grupos relevantes, não havia o mesmo consenso em torno do nacionalismo, que rachava opiniões e correntes. O varguismo passa a ser visto como sinônimo de desenvolvimento pela via nacional. Já seus adversários, udenistas ou não, são tachados de antinacionalistas.
     O discurso nacional é um dos principais motivos do esforço do PSDB para acabar com a “Era Vargas”, desde o Plano Real, implantado em 1994. Não fazia sentido, para o modelo econômico desenhado pelos economistas da PUC-Rio, ater-se a ideias vagas como o nacionalismo, se o mercado internacional era para eles mais eficiente em alocar capitais que favorecessem o desenvolvimento do país. Ressoavam também nessa escolha alguns argumentos da escola de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) das décadas de 1960 e 1970, da qual o próprio Fernando Henrique Cardoso foi um dos principais expoentes.
     Grandes opositores do nacionalismo de instituições, como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb), os acadêmicos da USP construíram uma dura crítica ao modelo político-social da República de 1946, com destaque para a relação entre Vargas e a classe trabalhadora. Surge daí a teoria do populismo, que retratava o cenário político da época a partir da cooptação das massas urbanas passivas pelos líderes carismáticos, marcada pelo protagonismo de Francisco Weffort, com contribuição relevante de Fernando Henrique. Se era crítico do modelo varguista na academia, viu-se na missão de destruí-lo quando assumiu a Presidência: a “Era Vargas” transformou-se em responsável pelo atraso que ainda marcava o país, vista através da ótica do populismo e da cooptação do proletariado.
     O nacionalismo é também elemento relevante para a aproximação entre os governos petistas e a tradição varguista. A oposição entre partido nacionalista e elites antipovo é uma das principais representações da disputa PT e PSDB pelos olhos petistas. O confronto reeditaria, assim, o embate entre PTB e UDN, roteiro no qual Lula e Dilma, amados pelo povo e atacados pela imprensa, desempenhariam o papel que na época coube a Vargas. Mas esse Vargas recuperado pelo PT é apenas o presidente eleito em 1950, ao qual se vinculam bons feitos da época do Estado Novo, como muitos dos direitos trabalhistas. Acabam esquecidos seus malfeitos do período autoritário. Nada mais natural, uma vez que a escolha sobre qual passado recuperar é inseparável do olhar do presente e da expectativa do futuro.    

Jorge Chaloub é professor da Fundação Getúlio Vargas e autor da dissertação “Ruptura e Permanência: as tendências autoritárias do udenismo” (PUC-Rio, 2009).

Saiba mais - Bibliografia
D’ARAUJO, Maria Celina. O Segundo Governo Vargas. São Paulo: Ática, 1992.
NETO, Lira. Getúlio (1945-1954): Da volta pela consagração popular ao suicídio. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
GOMES, Ângela de Castro. A invenção do trabalhismo. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.
GUIMARÃES, Cesar. Vargas e Kubitschek: a longa distância entre a Petrobras e Brasília. In: CARVALHO, Maria Alice Rezende de (org). República do Catete. Rio de Janeiro: Editora Museu da República, 2002.

Saiba mais – Documentário
Era Vargas: 1930 - 1935
O período mais determinante da história brasileira no século XX é o assunto da coleção Era Vargas. Partindo da tomada do poder daquela que foi a personalidade brasileira mais marcante do século passado, o cineasta Eduardo Escorel aborda causas e consequências da transformação política que conduziu Getúlio Vargas à presidência, contextualizando os momentos marcantes do período, como o Tenentismo, a Revolta dos 18 do Forte, a chegada ao poder em 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932. Utilizando filmes inéditos e entrevistas atuais, a obra esclarece quais os fatores que facilitaram a ascensão de Vargas e como ele habilmente consolidou o seu poder, deixando um legado que definiu os rumos políticos e econômicos do Brasil pelas décadas seguintes. Era Vargas – De 30 a 35 é um documento definitivo para quem quer entender Brasil.
Para finalizar os documentários que vão de 1930 a 35, Escorel levou duas décadas. O diretor explica: “nesse tempo todo tudo muda, principalmente a concepção das coisas. E eu gosto de dizer que um trabalho como esse não é feito sozinho. Teve muita gente envolvida, muita pesquisa histórica. Ou seja, levamos 20 anos para contar cinco anos da história do Brasil”.

Direção: Eduardo Escorel
Ano: 1992
Áudio: Português
Duração: 196 minutos/Total
Parte 1 - 1930 - Tempo de Revolução / 48 minutos
Parte 2 - 1932 - A Guerra Civil / 48 minutos
Parte 3 - 1935 - O Assalto ao Poder / 98 minutos

 Saiba Mais – Link

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Especial - Canudos - Órfãos do ódio

Arrancadas de suas famílias e exibidas como troféus de guerra, crianças sertanejas sobreviventes de Canudos foram vendidas e usadas como mão-de-obra doméstica.
     O cruel extermínio de prisioneiros, a epidemia de varíola que se alastrou pelo sertão, a fome e a sede dos sobreviventes não foram os únicos legados da Guerra de Canudos. O conflito ocorrido no interior baiano, entre novembro de 1896 e outubro de 1897, opôs os exércitos da República e a comunidade de sertanejos liderada por Antônio Conselheiro e deixou, como herança trágica, um grande contingente de crianças e adolescentes órfãos. 
     A Guerra de Canudos durou quase um ano e contou com a participação de cerca de dez mil soldados, vindos de dezessete estados brasileiros, que deram combate aos homens de Antônio Conselheiro em quatro expedições militares. O número estimado de vítimas é de vinte e cinco mil pessoas, entre elas mulheres e crianças. Quase todos os conselheiristas foram mortos depois de presos, boa parte na prática da “gravata vermelha”, como era conhecida a degola.
     A vitória dos militares só se deu ao cabo da quarta expedição: em 5 de outubro de 1897 terminou a resistência dos últimos sertanejos. Canudos ficou completamente destruída. Cinco mil e duzentas casas foram queimadas, enquanto a elite política, acadêmica e militar se congratulava pelo desaparecimento do arraial. O presidente da República, Prudente de Moraes, havia prometido que em Canudos não ficaria “pedra sobre pedra”. Acabada a guerra, era necessário, portanto, apagar os vestígios do que era visto pela ótica do poder como uma insurreição sertaneja. O fim deveria ser exemplar, para que outros movimentos que desafiassem a ordem republicana não se repetissem. Para as autoridades envolvidas era importante “que ali se plantasse a solidão e a morte”.
     Na ocasião da terceira expedição militar, que se configurou como um desastre e culminou com a morte do coronel Moreira César, centenas de soldados feridos e mutilados começaram a desembarcar na estação da Estrada de Ferro da Calçada, em Salvador. A cidade não contava, no entanto, com infraestrutura suficiente para atender aos combatentes. É nesse contexto que o corretor alemão Franz Wagner, radicado em Salvador, convocou a sociedade baiana para prestar auxílio aos soldados feridos no combate ainda em curso. Nascia, assim, o Comitê Patriótico da Bahia, que atuou no auxílio às vítimas da Guerra de Canudos entre 1897 e 1901.
     A mobilização pública empreendida pelo Comitê alcançou larga escala. A população local, instituições e o governo contribuíam com doações em dinheiro, organizavam festas, quermesses e recitais para arrecadar fundos, socorriam diretamente os feridos, amparavam viúvas e encaminhavam os filhos dos soldados para colégios e orfanatos. Pouco a pouco, o Comitê se transformaria também na principal instituição de amparo aos sertanejos, especialmente às crianças sobreviventes de Canudos. Essa mudança de propósitos foi resultado do contato que alguns membros da organização tiveram com a realidade da guerra. Em setembro de 1897, o jornalista Lélis Piedade, secretário do Comitê, viajara até o cenário do conflito a fim de instalar, no local, uma enfermaria que pudesse prestar os primeiros socorros aos feridos.  Na visita, deparou-se com a paisagem desolada do sertão: casas abandonadas e saqueadas. Conversou com militares, padres, sertanejos, jagunços conselheiristas feitos prisioneiros, mulheres e crianças.
E o Comitê diversificou sua linha de ação.
     Lélis não abandonou suas convicções republicanas. Continuou apoiando o exército e, no seu entendimento, Canudos não passava de uma reunião de fanáticos. A experiência, no entanto, fez com que passasse a ver com piedade as mulheres e crianças canudenses. Ficou chocado com a miséria, a fome, os feridos, os corpos que apodreciam pelas estradas com urubus à espreita, a epidemia de varíola que vitimava indiscriminadamente sertanejos e militares, a falta de água potável, as infestações de pulgas e as atrocidades que também foram cometidas pelas tropas federais. Lélis parece ter enxergado naquelas mulheres de Canudos e, sobretudo, nas crianças, algo mais do que bárbaros que deviam ser exterminados.
     O secretário do Comitê presenciou também a prática de venda de crianças sertanejas, efetivamente órfãs ou separadas de suas famílias. Segundo seu relato, uma mulher, meio ébria, trazendo duas crianças com sinais de violência, tentou vender-lhe um menino. A distância entre o litoral civilizado e os rudes homens sertanejos, registrada e imortalizada por Euclides da Cunha em Os Sertões, começava a não fazer sentido para os representantes do Comitê, que associavam o que viam “a uma nova escravidão que se vai estabelecendo com estas desgraçadas vítimas de Canudos.”
     Independentemente das críticas que recebeu, em função da sua mudança de postura em relação a Canudos e sua população, o Comitê organizou uma comissão para localizar e recolher os menores e as mulheres da região. O trabalho teve início com os oficiais do exército, aos quais o Comitê solicitou que devolvessem as crianças que se encontravam em seu poder para que pudessem ser encaminhadas aos orfanatos ou restituídas às suas famílias – já que várias delas haviam sido arrancadas brutalmente da companhia de suas mães, feitas prisioneiras. Outras foram dadas pelos soldados, no caminho, e muitas ficaram na companhia desses combatentes à guisa de “troféu de guerra”, ou para servirem, nas palavras de Lélis Piedade, como “uma lembrança viva de Canudos”.
     Membros da Comissão Especial, nomeada para recolher crianças sertanejas, narraram os encontros que tiveram com as prisioneiras de guerra. Mulheres desesperadas se ajoelhavam suplicando a devolução de seus filhos levados pelos soldados. Em alguns casos, o Comitê conseguiu que as crianças fossem devolvidas. Em muitos outros, elas já haviam sido repassadas. No entanto, diversas dessas crianças, apesar de localizadas, não foram devolvidas nem adotadas legalmente, pois já haviam sido convertidas em mão de obra para serviços domésticos. Outras foram simplesmente ocultadas ou enviadas para outros pontos do estado por seus patrões e donos, que tinham medo de perdê-las.
     São vários os relatos sobre pessoas que se recusaram a entregar as crianças que serviam como criadas. Cidadãos de boa situação financeira que receberam os menores das mãos de oficiais do exército negavam ao Comitê qualquer informação sobre eles, alegando que lhes foram entregues por um oficial para servir em suas casas. Além disso, não achavam justo que o Comitê protegesse filhos de jagunços.
     Frente a essas dificuldades, mesmo após um trabalho árduo de busca e negociação, o resultado do trabalho da Comissão contabilizou apenas 13 crianças – entre meninos e meninas devolvidas às suas mães ou pais –, outras 16 foram entregues a parentes e 22 deixadas com pessoas idôneas civis e militares, que se responsabilizaram por elas. Outras 50 foram levadas pelo próprio Comitê a Salvador e encaminhadas aos orfanatos e colégios. Para os integrantes da Comissão Especial, o balanço final alcançado, entretanto fora positivo.
     As crianças que o Comitê conseguiu encaminhar para orfanatos e colégios aprenderam na escola o valor do trabalho. A educação estava pautada pelo aprendizado de uma profissão, aliado à instrução básica, pois os meninos pobres deviam aprender um ofício, além das matérias convencionais. Havia nos internatos uma divisão entre alunos aprendizes internos e alunos externos. Para os primeiros, estava destinada a instrução de ênfase profissional, enquanto para os segundos a escola reservava apenas a educação letrada.  A posição social condicionava, desde a escola, o futuro e reproduzia, na prática escolar, as hierarquias da sociedade. Já as crianças que foram entregues aleatoriamente pelos soldados aprenderam o lugar que a sociedade lhes destinava nas casas de família, onde exerciam funções de empregados domésticos, na maioria das vezes sem remuneração alguma.
     A filantropia dos primeiros tempos republicanos pode ter representado para essas crianças, que viveram a violência da guerra no sertão, um outro tipo de violência. As crianças de Canudos deviam trabalhar e aprender a amar a República através de valores que lhes eram ensinados na escola ou incutidos pela vida cotidiana. Deviam, sobretudo, aprender a esquecer a “aldeia sagrada” de Canudos. Não havia lugar para a diferença no projeto da primeira República brasileira.
     Destituídas de suas famílias, de suas casas, retiradas do local onde nasceram, levadas para outras cidades, essas crianças foram privadas de seu próprio passado e, portanto, de suas identidades. A memória delas foi enquadrada, reconstituída segundo o que a memória oficial ditava sobre o que era preciso ser lembrado e o que deveria ser esquecido. A educação recebida ajudava a solidificar uma determinada interpretação da história – na perspectiva da época, o ensino deveria então civilizar aqueles que eram os filhos dos “rudes patrícios” que edificaram uma “Tróia de taipa”, na famosa expressão de Euclides da Cunha, e ousaram enfrentar os mandamentos de “ordem e progresso” inscritos na bandeira republicana.  Civilizar, ordenar, conhecer o seu lugar na tão propalada construção do progresso representava a negação da diferença. Não bastava acabar fisicamente com a “aldeia sagrada”. Era preciso também apagar Canudos dos corações e das mentes das crianças, numa lógica preventiva que parecia querer evitar a repetição e o ressentimento.
     No caso dos meninos de Canudos trazidos para Salvador, o projeto parece ter sido o de apagar qualquer vestígio de suas próprias memórias, da experiência vivida na aldeia do Conselheiro e, portanto, de suas identidades de origem. Esse jogo perverso de inversões tinha como objetivo civilizar os órfãos da guerra.  Civilizar essas crianças que escaparam da morte pela degola, destino de tantas outras, foi, assim, algo muito próximo de um assassinato simbólico. Bárbaros, como assinalou Lévi-Strauss em 1945, são aqueles que acreditam na barbárie.
Vanessa Sattamini Varão Monteiro é mestranda em História na PUC-Rio.

Saiba Mais – Filmes
Guerra de Canudos
Em 1893, Antônio Conselheiro (José Wilker) e seus seguidores começam a tornar um simples movimento em algo grande demais para a República, que acabara de ser proclamada e decidira por enviar vários destacamentos militares para destruí-los. Os seguidores de Antônio Conselheiro apenas defendiam seus lares, mas a nova ordem não podia aceitar que humildes moradores do sertão da Bahia desafiassem a República. Assim, em 1897, esforços são reunidos para destruir os sertanejos. Estes fatos são vistos pela ótica de uma família com opiniões conflitantes sobre Conselheiro.
Direção: Sérgio Rezende
Ano: 1997
Áudio: Português
Duração: 165 minutos


Deus e o Diabo na Terra do Sol
No sertão nordestino, o vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) mata seu patrão e foge com sua mulher, Rosa (Yoná Magalhães). Os dois tornam-se seguidores do líder messiânico "Santo" Sebastião (Lidio Silva), até que o jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle), a mando dos coronéis e da Igreja, mata o velho beato e seus fiéis. Manuel e Rosa sobrevivem e encontram o cangaceiro Corisco, vivido por Othon Bastos, que converte Manuel ao cangaço, rebatizando-o como "Satanás". Corisco é caçado e morto por Antônio das Mortes. Quando Glauber Rocha filmou: Deus e o Diabo na Terra do Sol, em 1964, tinha apenas 23 anos. Como laboratório para o filme, Glauber percorreu todo o sertão nordestino em busca de personagens e ideias, convivendo com a dura realidade da seca e da fome. O filme é considerado, por muitos críticos e teóricos, um divisor de águas na carreira do cineasta, além de representar um marco na história do cinema nacional. O filme consagrou internacionalmente o estilo revolucionário e inconfundível do diretor cinemanovista (movimento cinematográfico brasileiro da década de 60), precursor do estilo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, além de influenciar muitos cineastas latino-americanos.
Direção: Glauber Rocha 
Ano: 1964
Áudio: Português
Duração: 119 minutos

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domingo, 4 de setembro de 2016

Especial - Canudos - A mídia em campanha

Na defesa de interesses políticos e disseminando preconceitos, imprensa ajudou a construir o massacre anunciado em Canudos.
     “Há bons seis meses que por todo o centro desta e da Província da Bahia, chegado, (diz elle,) do Ceará, infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antonio dos Mares: o que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por S. Antonio dos Mares”. Publicada em novembro de 1874 em O Rabudo, um pequeno semanal editado em Estância, no Sergipe, esta foi, ao que se sabe, a primeira menção da imprensa brasileira a Antônio Conselheiro. Nos 23 anos seguintes, o personagem se tornaria a peça principal do grande acontecimento “Canudos”, que foi também um evento midiático nacional.
      “Opinião pública” era algo muito limitado nos primeiros anos republicanos. Cerca de 85% da população eram de analfabetos e a mídia se restringia basicamente a veículos impressos (as rádios viriam a transmitir com regularidade no país apenas a partir de 1922). Isso significa que os iletrados, os escravos e boa parte da população rural ficavam à margem das notícias da imprensa, embora também incluídos na discussão pública através da cultura oral.
     Para o pequeno grupo de indivíduos letrados existia uma grande variedade de jornais e revistas, de diferentes orientações ideológicas. Desde 1894 nos jornais baianos, e de forma rapidamente crescente nos jornais da capital nacional e de São Paulo, Canudos e Conselheiro não apenas provocaram notícias nas páginas principais como viraram título de colunas e motivo para versos de carnaval, sátiras e anúncios comerciais – como o desta loja de calçados de Salvador, já em 1897: “Por pessoas, recentemente chegadas de Canudos, ouvimos o seguinte: Que no último ataque, um grupo de valentes soldados, depois de ter esgotado a munição, lembrou-se de correr a pontapés os conselheiristas, confiados na resistência do calçado que foi comprado na popular casa O Monumento. Que feliz ideia!”.
     Num tempo em que fotografias impressas em jornais eram raridade, o retrato desenhado do Conselheiro tinha valor de mercado – a figura de barba longa, túnica, sandálias e bengala era reconhecível mesmo sem o nome ao lado. Era já um signo, no sentido expresso por um oficial do Exército, em 1896: “Antonio Maciel, Antonio Conselheiro e Bom Jesus são três nomes distintos, mas, que um só deles basta para exprimir e concretizar o inimigo do regime atual, o pregador contra os princípios sacrossantos da lei, do trabalho e da moralidade”.
     Mais do que uma “revolta” contra a República, Canudos foi um acontecimento útil para dois diferentes conflitos de poder nos tumultuados primeiros anos do regime. Com sua enorme capacidade de atração popular, o tamanho do seu mercado e seu potencial bélico, o arraial do Conselheiro desequilibrou os poderes políticos na Bahia, há tempos tensionados pela disputa entre o governador Luís Vianna e o dono das terras daquela região, José Gonçalves, aliado ao Barão de Geremoabo. Enquanto isso, na capital nacional, Canudos virava fator decisivo para outra competição acirrada: a luta entre os oligárquico-liberais, representando a elite cafeeira paulista, e os “jacobinos”, influenciados pelo pensamento desenvolvimentista-ditadorial de forte base militar. Vencer essa guerra era uma questão de sobrevivência política para o governo do paulistano Prudente de Morais. Era por isso, e não por constituir uma ameaça real à República, que o arraial tinha de ser completamente aniquilado. 
     A função “crítica” da imprensa se esgotava na defesa de posições partidárias dos proprietários, e não em prol da defesa de princípios constitucionais ou democráticos. Em Salvador, com uma população total de 200 mil habitantes (a grande maioria não alfabetizada), circulavam cinco grandes jornais. O Diário da Bahia e o Estado da Bahia eram gonçalvistas, enquanto o Correio de Notícias, o Jornal de Notícias e (com restrições) o Diário de Notícias apoiavam o governador Vianna. Depois que os seguidores do Conselheiro derrotaram as primeiras duas expedições de policiais e soldados contra eles, os jornais da oposição se engajaram numa produção de medo. Intensificaram a estratégia de criminalização aplicada desde 1893, ano da fundação do arraial, desencadeando uma verdadeira campanha, com a publicação de documentos – na sua grande maioria falsos – para “comprovar” repetidos ataques de canudenses a fazendas da região. Levantavam a suspeita de que o governador fazia de Conselheiro um aliado, usando-o para desestabilizar a região controlada por seus adversários. 
     A partir de março de 1897, no entanto, os dois campos políticos baianos viram-se encurralados juntos por um forte discurso vindo dos jornais do Rio e de São Paulo. As notícias da derrota da terceira expedição e da morte de seu líder, o famoso “herói” coronel Moreira César, causaram pânico nas capitais. No sul, os jornais reforçaram o discurso da conspiração monarquista, já introduzido pela imprensa jacobina. Agora se via toda a Bahia caracterizada como reduto monarquista – afinal, naquele estado não houvera um movimento republicano antes de 1889 e os políticos do Império transformaram-se em republicanos pelas circunstâncias nacionais. Mas a verdade é que o movimento monarquista dos anos 1890 era insignificante fora do Rio e de São Paulo. A acusação de “monarquismo” era parte do discurso dos bacharéis liberais e dos jovens oficiais “jacobinos”, que visavam instalar uma ditadura modernizadora e positivista no Brasil. 
     O Nordeste, região de primazia econômica do primeiro ciclo colonial, e Salvador, capital da Colônia, estavam em decadência econômica e política. E os discursos midiáticos sobre a guerra de Canudos reforçaram a imagem da Bahia e do “Norte” (o termo Nordeste ainda se usava pouco) enquanto espaços de coronelismo e violência bárbara (dos “jagunços”), incapazes de se modernizarem: “Só se fala em Canudos hoje em dia,/ De norte a sul, pelo país inteiro.../ E o glorioso nome da Bahia/ Amarrado ao de Antonio Conselheiro!”, rimava o Jornal de Notícias.
     Os lugares do evento midiático “Canudos” foram as capitais no litoral, mas a principal novidade da cobertura da imprensa nacional estava no sertão. Inaugurava-se a figura do correspondente de guerra, escrevendo reportagens “ao vivo” – que levavam de 10 a 30 dias para serem publicadas, após passarem pela censura militar rigorosa, ser transportadas a pé ou por jegue até Monte Santo e então transmitidas por telégrafo a Salvador (ou de trem, pela estação ferroviária de Queimadas), de onde enfim seguiam para o sul. Na época, ainda desconhecido do público fora do seu estado natal, o engenheiro Euclides da Cunha se tornaria o mais famoso desses correspondentes de guerra.
     Quando Euclides chega a Canudos, o discurso midiático, construído de forma intensiva, diária, ao longo de um ano, já havia produzido seu efeito final, e mortal: o governo do presidente Prudente de Morais decidira destruir Canudos a todo custo. Morreram milhares de famílias sertanejas, numa das maiores chacinas da história brasileira. Mas os relatos de Euclides e de seus colegas ao menos contribuíram para uma mudança na percepção dos canudenses pela opinião pública. Enquanto durante a guerra foram considerados “inimigos da nação”, depois de mortos foram simbolicamente reincluídos. Os inimigos se tornam irmãos e são considerados vítimas por muitos.
     Já não foi a imprensa a protagonista desta mudança de perspectiva. O debate se transferiu para tratados científicos, como o de Nina Rodrigues em 1897, panfletos políticos, uma série de crônicas publicadas em livro por oficiais e civis participantes da guerra e livros romanceados, como Os Jagunços, de Afonso Arinos, e O Rei dos Jagunços, de Manuel Benicio, correspondente do diário carioca Jornal de Commercio. Os Sertões, de Euclides, foi publicado cinco anos depois do fecho da guerra. 
     Assim como Canudos propicia debates até hoje, continua atual a discussão em torno do papel da mídia no Brasil enquanto formadora de opiniões sobre como a “nação” deve tratar os que se encontram nas suas periferias social, econômica e cultural. 

Dawid Danilo Bartelt é doutor em História pela Universidade Livre de Berlim, diretor do escritório Brasil da Fundação Heinrich Böll e autor de Sertão, República e Nação (EdUSP, 2009).

Saiba mais – Bibliografia
GALVÃO, Walnice Nogueira. No Calor da Hora. A Guerra de Canudos nos Jornais, 4ª expedição. 3. ed. São Paulo: Ática, 1994.
LEVINE, Robert. O Sertão Prometido. O Massacre de Canudos. São Paulo: Edusp, 1995.
LIMA, Nísia Trindade. Um Sertão Chamado Brasil. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 2013.

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Especial – Canudos - Viver e morrer em Belo Monte

O arraial de Conselheiro tinha hierarquias e personagens estratégicos para a rotina e para a guerra
     Ao fim de uma série de protestos contra os novos impostos republicanos, enfrentando a polícia baiana em vários lugarejos, Antonio Conselheiro e seus prosélitos instalam-se em Canudos em 1893. A peregrinação de duas décadas chega ao fim. Eles vão entrincheirar-se e fortificar-se no fundo do sertão, no alto das serranias, como se tivesse soado um toque de recolher. 
      As terras em que ficava Canudos não eram desertas e ali já existia um povoado assim chamado, à margem do Vaza-Barris, um rio intermitente. Os conselheiristas se estabeleceram e sobreviveram de uma parca agricultura de subsistência, plantando mandioca para o preparo de farinha e cana-de-açúcar para a fabricação de rapadura, criando cabras. Assim se fundou o Belo Monte, nome bíblico dado à cidadela que ergueram como baluarte contra a República instaurada em 1889, sobrepondo-se à Canudos preexistente. 
     Em pouco tempo abriu-se uma rua principal na praça das igrejas, que ficou conhecida como a rua das Casas Vermelhas, destacando-se do conjunto devido à cor das telhas. As duas igrejas defrontavam-se de dois lados da praça. A primeira era a de Santo Antônio ou Igreja Velha, consagrada em 1893 com festas e foguetório. A segunda, a do Bom Jesus ou Igreja Nova, de maiores proporções, não chegaria a ser terminada. A capelinha do povoado anterior passou a ser chamada de Santuário, preservando o altar e abrigando imagens de santos. Num quartinho anexo morava Conselheiro, e ali seria sepultado.
     Esse era o centro ao redor do qual, gradativamente, se ergueria a aglomeração de casebres. A construção em taipa ou pau a pique – barro reforçado com galhos – tornava a cidadela indistinguível, na mesma monotonia parda da caatinga. O conjunto, sem um mínimo de cuidados de urbanização – como arruamento, calçadas, esquinas e muito menos saneamento ou água encanada – viria a formar “um labirinto inextricável”, nas palavras de Euclides da Cunha. 
     Na vida cotidiana do arraial predominava a religião. Como de hábito no sertão e em geral no interior do país, era uma religião festiva, em contraste com a austeridade preconizada pelo líder, que não tolerava luxos ou abusos de conduta. Os habitantes organizavam suas vidas em torno de dois ofícios religiosos diários, à madrugada e à noitinha, e periodicamente assistiam aos conselhos do Peregrino, com data previamente marcada, para os quais vinha gente até de longe. Canudos tornou-se um centro de romaria, atraindo crentes para pedir audiência ao Conselheiro e fazer doações.
     À medida que a guerra se avizinha, começa a acorrer gente de todos os quadrantes da região. Multiplicam-se as cartas dos canudenses chamando parentes e amigos para virem em seu socorro. Muita gente pelo sertão abandona seus pagos para acudir Canudos, carregando família e agregados.
     Nem todos eram miseráveis no séquito: gente de posses havia se livrado de tudo para acompanhar o Peregrino. Embora não fosse uma comunidade exatamente igualitária – havendo distinção visível entre mais ricos e mais pobres, dada pela aparência das casas – preservavam-se ali traços de igualdade. O mais marcante era a inexistência de propriedade privada da terra. Quem chegasse podia erguer sua choça sem pagar nada a ninguém. Alimentos, roupas e dinheiro, recebidos em donativo pelo Conselheiro, eram repassados aos desafortunados. 
     Para que a comunidade fosse funcional, alguma estrutura era necessária. Seu Estado-Maior, por assim dizer, era a Guarda Católica. Constituída por 12 apóstolos, sobrepunha-se a tudo o mais porque formava o quadro de imediato apoio a Conselheiro. Os guardas andavam uniformizados, armados e municiados, e recebiam soldo. Revezavam-se como sentinelas defronte ao Santuário, onde ele residia. Em seguida vinha a Companhia do Bom Jesus ou Santa Companhia, bem mais numerosa, contando de 1.000 a 1.200 cabeças.  Um grupo de beatas chefiadas por uma mordoma (Benta ou Tia Benta) cuidava da administração da residência e do bem-estar do Conselheiro. Ele quase não comia. Apenas o suficiente para manter-se vivo, mas observando total abstinência.
     O arraial contava com uma professora, de modo a não descurar da educação das crianças. O próprio Conselheiro frequentara escola, sabendo ler, escrever e até rudimentos de latim. Um secretário, Leão Ramos, atendia ao líder como escriba. Havia um curandeiro, Manuel Quadrado, perito em remédios silvestres e em simpatias. E José Félix, o Taramela, servia de criado e homem de confiança, como chaveiro e guarda das igrejas. Tornou-se renomado por sua fantasia sem peias, que o levava a inventar casos mirabolantes sobre a subida aos céus de tantos canudenses mortos, que afirmava ter presenciado. 
     Como a rotina incluía a guerra, destacou-se um “chefe militar”: João Abade, encarregado supremo das operações bélicas e da Guarda Católica, chamado de Chefe do Povo e Comandante da Rua. Paralelamente, havia um “chefe civil”, Antônio Vilanova, abastado comerciante responsável pela boa ordem da comunidade. 
     Houve combatentes ilustres. Como o pernambucano Pajeú, salteador negro, famoso por sua imaginação tática ao elaborar ardis guerrilheiros. Pedrão, negro imponente e hercúleo, originário dali mesmo, da Várzea da Ema, era integrante da Guarda Católica e um dos 12 apóstolos.  O historiador José Calasans ainda o conheceu, nos anos 50, e com ele teve muitas conversas, que granjearam sua admiração. Inválido das pernas, observou certa vez: “Faz pena um homem como eu morrer sentado”. Antônio Beatinho ficou conhecido porque negociou a rendição de 300 pessoas, entre mulheres, crianças, feridos e velhos, nos últimos dias dos combates. É do resultado dessa negociação a mais famosa foto da guerra, mostrando a multidão andrajosa, doente e esquelética. Tanta abnegação foi recompensada pela degola.
     Joaquim Macambira, que já residia em Canudos antes da chegada dos conselheiristas, possuía uma fazenda nas cercanias e era dono de loja. Seu filho e xará, com um punhado de valentes e as bênçãos do pai, tentou tomar a braços o canhão alcunhado de Matadeira, pertencente ao exército, tombando morto ali mesmo. É um dos episódios mais referidos da campanha, tendo despertado a admiração geral.
     Também deixou lembranças o sineiro Timotinho, que desafiava o exército insistindo em tocar o sino da Igreja Velha todas as tardes, quando a fuzilaria das tropas inimigas se concentrava nele. Um dia, dois tiros de canhão acertaram a torre, que desmoronou, jogando o sino à distância e aniquilando o heroico sineiro.
     Dentre os muitos artesãos que labutaram na arquitetura sacra do Conselheiro – que durante as duas décadas de peregrinação capitaneou a construção ou o reparo de igrejas, cemitérios, calçadas e açudes por toda aquela região – o nome mais importante que a história reteve é o de Manuel Faustino, mestre de obras e entalhador que presidiu aos trabalhos da Igreja Nova. Antônio Fogueteiro, como a alcunha indica, fabricava fogos, a que o povo do sertão em geral, e o de Canudos em particular, era muito afeiçoado. 
     Os dois irmãos Ciriaco, os combatentes negros Manuel e José, só se tornaram conhecidos décadas após o fim da guerra. Servindo de guia em Canudos ao historiador José Calasans (1915-2001), tornaram-se fonte de preciosas informações.
     Na utopia que criaram, Antônio Conselheiro substituiu o fazendeiro, o padre e o delegado de polícia, reunindo em sua pessoa o poder das três autoridades que mandavam no sertão. Por trás de sua figura estava o esforço admirável que uma população carente de tudo desenvolveu para se organizar, resistindo à opressão e à exploração, além de inventar formas alternativas de vida em comum.
     Com a guerra, o dia a dia do arraial foi totalmente degradado. Belo Monte, cujos habitantes passavam a vida em oração e penitência para “salvar a alma”, conforme diziam, foi transformado em antevisão do Inferno. Em vez do Paraíso a que todos aspiravam, com as promessas das bem-aventuranças da pregação cristã, aguardava-os o ferro e o fogo dos canhões, o incêndio do casario e a degola indiscriminada.  

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH-USP e autora de O império do Belo Monte. Vida e Morte de Canudos. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001.

Saiba Mais - Bibliografia 
ARAS, José. Sangue de irmãos. Cordel. Feira de Santana, BA: EMAGRAE, 2009. 
BOMBINHO, Manuel Pedro das Dores. Canudos, história em versos – Relato inédito de testemunha ocular. Org. de Marco Antônio Villa. São Carlos: EdUFSCar, 2002.
CALASANS, José. Cartografia de Canudos. Coleção Memória da Bahia. Salvador, BA: EGBA, 1997.
VILLA, Marco Antonio (Org.) Canudos, história em versos de Manuel Pedro das Dores Bombinho. (Hedra/Edufscar/Imprensa Oficial, 2002).

Saiba Mais - Música
CD Canudos (Gereba)
CD Matuto do Cocorobó (Bião de Canudos)
CDs Toques de Canudos e Do Belo Monte ao Cocorobó (Banda de Pífanos de Bendegó)

Saiba Mais – Link

Saiba Mais - Filme
Paixão e Guerra no Sertão de Canudos
No documentário de Antônio Olavo, Paixão e Guerra no Sertão de Canudos, faz um resgate da história de Canudos, principalmente, com depoimentos de parentes de Antônio Conselheiro e de filhos dos combatentes, além dos relatos de pesquisadores (José Calazans, Manoel Neto, Sérgio Guerra e Edmundo Muniz) introduzindo várias interpretações sobre os acontecimentos históricos, que são associados a um conjunto de canções e cenários que ilustram a narração do filme, na voz de José Wilker.
Direção: Antonio Olavo
Ano: 1993
Áudio: Português
Duração: 78 minutos


sábado, 13 de agosto de 2016

Relatos de um desastre anunciado

Caderno escrito por Anna de Assis revela bastidores do casamento conturbado, mais de 100 anos após a morte de Euclides da Cunha.
     “Vim para matar ou morrer”, anunciou Euclides da Cunha à soleira da porta da residência de seu maior rival, Dilermando de Assis. A ameaça antecedeu o que os jornais cariocas chamaram de “A tragédia da Piedade”, um caloroso tiroteio no subúrbio do Rio de Janeiro que resultou na morte de um dos escritores mais aclamados do Brasil. Os acontecimentos da manhã do dia 15 de agosto de 1909 findaram um matrimônio conflituoso de quase 20 anos: Euclides abraçou a morte, em defesa da honra. No dia anterior, sua esposa, Anna Emília Ribeiro, a S’Anninha, se retirara para a casa de Dilermando com o filho bastardo nos braços, após uma briga em que pedira a separação. Anna foi condenada pela opinião pública como a adúltera que provocou a tragédia, e Dilermando, o campeão de tiro que assassinou o gênio destemperado. Mas um documento descoberto recentemente mostra outras dimensões destes heróis e vilões que foram personagens até de minissérie de TV. 
     “Não venho ofender nem acusar”, justificou-se S’Anninha na primeira página do pequeno caderno em que se propunha a narrar episódios da vida conjugal com o primeiro marido. Uma vida, segundo ela, marcada por infelicidade, desgosto e humilhação. “Venho cumprir com um sagrado dever e dar desencargo à minha consciência e tranquilidade a meu espírito, dizendo que de nós três: Euclides, Dilermando e eu, três criminosos, o mais responsável sou eu. Sim! E isso porque, abrindo as portas do lar a um desconhecido de meu marido, ausente, longe, perdido no extremo norte do Brasil, abria também as do crime, fechando-as sobre a primeira vítima enlaçada e escolhida pela fatalidade”. 
     Até a sua morte, em 1951, Anna não falou publicamente sobre o ocorrido. Segundo a família, ela costumava dizer que o silêncio era sua defesa. Não se calou para sempre: deixou um testemunho que ficou guardado por mais de 100 anos numa estante em Belo Horizonte. O manuscrito intitulado O Caso do homicídio de Euclides da Cunha por Dilermando de Assis – Exposição e narrativa dos fatos feitos escrito do próprio punho da mulher da vítima estava entre as coisas de Gregório Seabra Jr. (1874-1941). Assistente do advogado Evaristo de Moraes, que defendeu Dilermando nos dois julgamentos que o absolveram por legítima defesa, em 1911, pelo assassinato de Euclides da Cunha e, em 1916, pelo do filho, Quidinho. Em maio passado, o bisneto de Seabra Jr., Luiz Henrique Oliveira, encontrou o documento e decidiu devolvê-lo à família de S’Anninha.  “Era o desejo de meu bisavô e, depois, meu pai, mas naquela época não existia internet. Ninguém podia ler, era assunto confidencial”, conta. 
     Feita a vontade dos antepassados, hoje o caderno está nas mãos de Anna Sharp, neta de S’Anninha e Dilermando, que é escritora e assumiu um compromisso com a memória da avó. Assim que terminar o livro Vozes do passado, sobre a Tragédia da Piedade, pretende doar o manuscrito à Biblioteca Nacional.  Por ora, o material está fora do alcance de pesquisadores e jornalistas, com exceção de alguns trechos, aos quais a reportagem teve acesso.  
     Sharp diz que o testemunho de S’Annninha no “diário” confirma a história contada à sua mãe, Judith Ribeiro de Assis, por sua vez, autora de Anna de Assis: História de um trágico amor (1989). Para a neta, a avó foi uma mulher à frente de seu tempo, que não aceitava a submissão ao marido, que a maltratava. Amou demais e pagou por isso. A terapeuta imagina que o documento é “a entrevista que nunca deu, contando tudo em detalhes, desde a primeira noite com Euclides. As núpcias foram um estupro, ele rasgou todas as roupas dela, chamando-a de ‘vaca’. Ela conta essa brutalidade, o ódio que ele tinha das mulheres”.
     Euclides da Cunha é retratado como um homem que tinha acessos de raiva, antes mesmo de saber que era traído. Nesses momentos de cólera, o escritor xingava a esposa, cuspia-lhe na face e a ameaçava. Em uma página, ela narra que ele “insultava-me como um alucinado, rompendo nos maiores destemperos, tomando os meus vestidos e despedaçando-os todos nas maiores ameaças”. Segundo ela, o marido “queria impor-me o amor e pretendia-o por meio dos insultos e das brutalidades!”. Em uma passagem forte, S’Anninha acusa-o de tê-la forçado a beber seu escarro de sangue que fora depositado em um balde, após uma crise de tosse tuberculosa. “Dispus-me a suportar com paciência o meu triste fardo, tratando com a estima natural e derivada convivência diária. Detestava-o, no entanto, e o temia”, escreve.
     Não há registro da guerra entre quatro paredes sem ser pelos relatos de S’Anninha – incluindo o último depoimento à polícia. Mas o caso é que a moça não escondeu a traição durante três anos, tendo engravidado duas vezes do amante. Da primeira, nasceu Mauro, que teve uma morte misteriosa, por inanição, aos 7 dias de vida. S’Anninha acusa Euclides de tê-la proibido de amamentar o bebê. Da segunda, surgiu Luiz, registrado como da Cunha, mas que o escritor chamava raivosamente de “a espiga de milho num cafezal”, devido aos cachos loiros que a criança herdou do cadete. 
     Biógrafos do escritor chegaram a supor que S’Anninha se entregou aos desejos da carne devido à ausência prolongada do marido em casa. Em dezembro de 1904, poucos anos após ter sido correspondente do jornal O Estado de S. Paulo na Guerra de Canudos, Euclides, autor já conhecido por Os Sertões (1902), embarcou para uma expedição à Amazônia. Só regressaria ao Rio de Janeiro em 1906, encontrando Anna Emília grávida de três meses. A própria S’Anninha se acusa: “se errei, errava porque queria errar. Tinha liberdade de ideias, de sentimentos, de amar. Portanto, não digam que foi a liberdade derivada da ausência de Euclides a causa do meu passo. Não! Não, porque sempre a tive, mesmo com a sua presença que me não tolhia”. 
     O historiador Leopoldo Bernucci, professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade da Califórnia, pondera que o caderno precisa ser analisado por especialistas. E observa que “o sexo teve uma força decisiva no jeito como S’Anninha seguia com a vida”, já que ela não pensou nas consequências desta paixão para um homem público. Segundo Bernucci, que há 20 anos estuda a poesia de Euclides da Cunha, o escritor, ao contrário da mulher com quem se casou, era pouco ligado ao amor e menos ainda à figura feminina: perdeu a mãe aos 3 anos e foi criado por parentes, já que o pai viajava sempre a trabalho. Desde jovem, outros sentimentos lhe eram mais significativos, como honra, lealdade e honestidade. “A mulher, para ele, era uma parte do protocolo social. Acredito que não teve um pendor muito forte para a relação amorosa. Ele tinha suas perturbações mentais, era muito nervoso, explosivo.
Ficava evidente no meio social e as pessoas tentavam se manter afastadas”. Sua poesia, por exemplo, apesar de romântica, era política, tinha apreço pelos ideais da Revolução Francesa. Poucas foram as vezes em que se aventurou a escrever sobre amor e, segundo o professor, quando o fazia, era de forma superficial. Para ele, “Euclides foi vítima de seu tempo e de si mesmo”.
     Mary del Priore, autora de Matar para não morrer, indica que é preciso relativizar o relato autobiográfico, principalmente neste caso, em que S’Anninha teria escrito seu depoimento logo após a morte do marido, em um momento em que era condenada fortemente pela opinião pública. A historiadora comenta que “a questão da honra masculina e a virilidade eram coisas muito importes para o homem do fim do século XIX e início do XX. Homens preferiam morrer a ter a honra questionada”. 
     A defesa da honra matou quatro pessoas. O primeiro foi Euclides da Cunha, que num acesso de raiva partiu para Piedade com uma pistola emprestada nas mãos, alvejando não só Dilermando, mas o irmão Dinoráh, jogador de futebol do Botafogo, que cometeu suicídio por complicações posteriores. Logo depois, Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, para limpar o nome da família, atacou pelas costas Dilermando, então marido de Anna Emília. Teve o mesmo destino do pai. O quarto morto seria o próprio Dilermando, que faleceu de infarto em 1951. “Ele foi o mais prejudicado, pois foi condenado a carregar nas costas a pecha de causador de um desastre do qual foi vítima. Seu erro: tinha apenas 17 anos e apaixonou-se por uma mulher bem mais velha, que sabia o peso dos passos que deu para a desonra da família”, afirma Mary del Priore. 
     A tragédia começou no altar e culminou num desastre com muitas vítimas. Como o professor Bernucci lembrou, “aquele casamento foi uma combinação que não deu certo desde o começo”. Uniu sob o mesmo teto uma mulher que preferiu amar sem se ater às convenções sociais e um homem para quem uma ideia tradicional de família era mais importante do que a própria vida.

Saiba Mais – Bibliografia
ASSIS, Judith Ribeiro de. Anna de Assis: História de um trágico amor. Rio de Janeiro: Bestbolso, 2008. 
DEL PRIORE, Mary. Matar para não morrer. Rio de Janeiro: Editora Objetiva. 2009.
GALVÃO, Walnice Nogueira. Euclides da Cunha – Autos do processo sobre sua morte. São Paulo: Terceiro nome, 2009. 

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