"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Tragédia anunciada

Coronéis locais, forças estaduais e Exército se uniram para combater as “cidades santas”, territórios autônomos criados por caboclos.
     Cerca de 200 seguidores do monge e curandeiro José Maria estão reunidos em Irani. Todos eles homens simples, sertanejos, refugiaram-se ali na esperança de evitar um confronto com as forças do governo. Mas é tarde demais: a essa altura, o simples agrupamento – em uma região de conflitos fronteiriços e de instabilidade social – já é considerado uma atitude hostil às autoridades. Em resposta à “ameaça”, o governo resolve atacar: uma força de 58 soldados do Regimento de Segurança do Paraná entra em combate com os sertanejos. Morrem 21 pessoas, entre elas os chefes dos grupos em confronto – o coronel João Gualberto Gomes de Sá e o monge José Maria.
     Conhecido como Batalha do Irani, o enfrentamento daquela madrugada de 22 de outubro de 1912 é considerado o início da Guerra do Contestado, uma longa e sangrenta disputa entre os seguidores do monge e as forças policiais e militares. O estopim da batalha inaugural foi alimentado por um intrincado acirramento de ânimos na região. Havia muita coisa em jogo. Os estados de Santa Catarina e Paraná travavam uma disputa territorial. Crescia no campo a concentração de gente pobre e sem lar, inclusive posseiros e colonos expulsos de suas casas para a construção de uma estrada de ferro. A crise alimentava a forte religiosidade popular, criando comunidades autônomas, cuja mera existência desafiava o coronelismo vigente. Depois de Irani, todas essas tensões se converteram em guerra aberta.
     A luta se estendeu até janeiro de 1916, em dezenas de batalhas numa área de 20.000 quilômetros quadrados, causando a morte de mais de 10.000 pessoas – vitimadas não só pelos combates, mas por epidemias e pela fome provocada no cerco final às “cidades santas” ou “redutos”, como foram chamados os povoados rebeldes.
     O grupo de José Maria chegou ao Irani (então município de Palmas, no Paraná) vindo de Taquaruçu (município de Curitibanos, em Santa Catarina), de onde tinha sido expulso a mando do prefeito local, o coronel Albuquerque, homem conhecido por sua arrogância e autoritarismo. Em setembro de 1912, ele solicitou à capital o envio de forças policiais, afirmando que havia em suas terras uma concentração de “fanáticos” e “monarquistas”. Na verdade, os sertanejos que ali chegavam vinham em busca de cura e atendimento por parte do monge, em ajuntamento que cresceu a partir da tradicional festa de Bom Jesus, em agosto daquele ano. O local tornou-se um polo de atração para uma grande população de caboclos, sitiantes independentes e ervateiros expulsos de suas terras pela construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande.
     Diante da ameaça do coronel Albuquerque, o monge José Maria dispersou seus seguidores, dirigindo-se ao Irani com um grupo reduzido. Ao fazê-lo, porém, enredou-se em outra disputa renhida: o conflito sobre a divisa entre os dois estados. As autoridades paranaenses interpretaram a migração como uma “invasão catarinense” no território contestado (daí o nome da guerra).
     Os episódios de perseguição policial contra o monge José Maria foram motivados pelo temor da concentração de gente pobre do campo. As autoridades locais e estaduais, em sua maioria grandes fazendeiros e oficiais da Guarda Nacional, sentiam que tinham como missão subjugar os sertanejos que não se submetiam mais aos seus respectivos coronéis. Formavam-se grupos autônomos, com fortes vínculos religiosos, nos quais expectativas místicas mesclavam-se à crítica social. Originalmente, essas comunidades não eram hostis nem militarizadas, mas seu anseio por independência despertou a ira dos governantes, da imprensa e dos fazendeiros. A linguagem cabocla passou a ser desqualificada pelas autoridades como “puro fanatismo”.
     Boa parte da crise social na região do Contestado tem relação com a construção da Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande. Oferecida em concessão pelo governo federal, a empreitada foi assumida pelo magnata norte-americano Percival Farqhar (1864-1953), o mesmo que construiu a ferrovia Madeira-Mamoré em Rondônia e detentor de diversas outras concessões em serviços públicos de transportes, iluminação e mineração. Para realizar a obra na divisa entre Santa Catarina e Paraná, recebeu o direito de explorar até 15 quilômetros de terras devolutas ao lado de cada margem da ferrovia. Estas terras públicas, nos vales dos rios Peixe, Iguaçu e Negro, eram habitadas havia décadas por comunidades de posseiros e sitiantes independentes, que viviam de uma agricultura de subsistência e da coleta da erva-mate, mas que não possuíam títulos de propriedade. Farqhar organizou uma empresa subsidiária da ferrovia, a Brazil Lumber and Colonization Company, com o objetivo de explorar as madeiras e depois vender os terrenos para imigrantes europeus. Uma das primeiras medidas da Lumber foi organizar um Regimento de Segurança com mais de 300 homens para expulsar os posseiros das terras recebidas do governo.
     Depois de morto no Irani, José Maria foi santificado pelos sertanejos. No final de 1913, uma menina de 11 anos, Teodora, passou a relatar sonhos com José Maria: o monge ordenava que todos voltassem a se reunir em Taquaruçu. O chamado da pequena “virgem” atraiu para o povoado vários grupos de descontentes, que desta vez sabiam estar desafiando as autoridades locais e estaduais. Além do grupo inicial de seguidores do monge José Maria, dirigiram-se a Taquaruçu opositores políticos dos coronéis que governavam em Lages, Curitibanos, Campos Novos e Canoinhas. Também se agregaram a este polo antigos “maragatos” (federalistas), descontentes com o domínio dos “pica-paus” (republicanos) – grupos que se confrontavam no Rio Grande desde os tempos da Revolução Federalista de 1893 – e identificados com a tradição de “São” João Maria.
     Esse segundo povoado de Taquaruçu se formou como uma “cidade santa”. O avô de Teodora, o velho líder Eusébio Ferreira dos Santos, chamava a localidade de “Nova Jerusalém”, onde todos viveriam em irmandade, num regime de justiça e bem-estar. Foram estabelecidas normas de convívio e de subsistência baseadas em laços de solidariedade. Os sertanejos declamavam os versos de José Maria: “Quem tem, mói; quem não tem, também mói; e no fim todos ficam iguais!”. Moer era a forma de pilar o milho ou a mandioca, isto é, os que tinham algum recurso e os que nada tinham viveriam como iguais. Todos deviam trabalhar pela sobrevivência e em defesa da comunidade.
     A invenção cabocla da “Cidade Santa” dava um novo sentido ao que eles chamavam de “Monarquia”. Não era um regime saudosista de restauração dos Bragança, mas uma “Lei do Céu”, um regime político sem rei que abria o caminho para a afirmação de diferentes chefias sertanejas. Negava a República vigente, dominada pelos coronéis e por grandes proprietários.
     Os sertanejos identificados com as “cidades santas” adotaram um corte de cabelo rente e usavam chapéus com fitas brancas na aba. Autodenominaram-se “pelados”, e chamavam de “peludos” seus inimigos do governo, da estrada de ferro e ligados aos coronéis. Ao longo do ano de 1914, com a intensificação dos ataques das tropas do Exército e das polícias de Santa Catarina e Paraná, as “cidades santas” multiplicam-se por quase todo o planalto serrano de Santa Catarina – em Caraguatá, Bom Sossego, Caçador Grande, Campina dos Buenos, Santa Maria, Pedra Branca e São Pedro. Eram povoados que normalmente tinham uma praça central quadrada, em frente à igreja, onde aconteciam as “formas”, como eram chamadas as reuniões gerais dos membros da irmandade cabocla. Na experiência da construção das cidades santas, os sertanejos criaram outras instituições, como o grupo dos “Pares de França” ou “Pares de São Sebastião” – combatentes de elite, selecionados entre os homens hábeis no facão e conhecedores da “Santa Religião”, como chamavam os seus princípios ligados ao catolicismo rústico e à tradição de João Maria.
     Ao longo do conflito, modificaram-se os perfis e as características das lideranças caboclas. As virgens e os “meninos-deuses”, que tinham muito poder nos redutos iniciais de Taquaruçu e Caraguatá, foram perdendo importância política para as “lideranças de briga”, como eram chamados peões, posseiros e tropeiros, como Chiquinho Alonso, Vanuto Baiano e Adeodato, comandantes que se legitimavam pela capacidade militar de dar combate aos “peludos”.
     O conflito se agravou com a chegada da expedição chefiada pelo general Setembrino de Carvalho (1861-1947). Sete mil soldados do Exército atuaram no cerco e no combate aos redutos. Entre março e abril de 1915, após longa batalha, veio abaixo Santa Maria, a maior das cidades santas, com mais de 20.000 habitantes. Depois Setembrino recolheu o grosso de suas tropas, e os redutos remanescentes de Pedra Branca e São Pedro foram destruídos por poucas unidades militares e grande número de “vaqueanos civis” (os capangas dos coronéis), até a rendição dos últimos sertanejos, em janeiro de 1916. Esta fase final do conflito, conhecida como “açougue”, foi pontuada por uma série de massacres e degolas de combatentes já rendidos.
     À custa da concessão de terras públicas e da expulsão de caboclos pobres, estava garantido o caminho não apenas para a estrada de ferro, mas para o branqueamento definitivo da população do planalto. Nas décadas seguintes, o incentivo à ocupação das terras por imigrantes europeus consolidou o processo.  Algumas concentrações de caboclos, em torno de monges, foram fortemente reprimidas por forças policiais, até sedimentar na região o silêncio sobre a guerra. Ainda hoje, os descendentes dos sertanejos que lutaram no Contestado vivem em situação precária, espremidos em pequenos lotes ou na periferia das grandes metrópoles.

Paulo Pinheiro Machado é professor da Universidade Federal de Santa Catarina e autor de Lideranças do Contestado: a formação e a atuação das chefias caboclas (Ed. Unicamp, 2004).

Saiba Mais - Bibliografia
MONTEIRO, Duglas Teixeira. Os Errantes do Novo Século: um estudo sobre o surto milenarista do Contestado. São Paulo: Duas Cidades, 1974.
VINHAS DE QUEIROZ, Maurício. Messianismo e conflito social: a Guerra Sertaneja do Contestado (1912-1916). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966.

Saiba Mais - Links

Saiba Mais - Documentários
O Contestado – Restos Mortais
Tema já tratado ficcionalmente pelo autor em “A Guerra dos Pelados” (1971), hoje um épico “clássico” sobre a questão fundiária no Brasil, “O Contestado – Restos Mortais” é o inédito resgate histórico e mítico (através do transe de 30 médiuns em cena), iconográfico (imagens e músicas de um século atrás) e oral (a fala forte de descendentes dos rebeldes e de especialistas), dessa autêntica guerra civil nos sertões do sul até hoje submersa em mistério.
O conflito envolveu milhares de posseiros, pequenos proprietários, comerciantes, autoridades municipais, índios, negros, imigrantes europeus e fanáticos religiosos. Foi repreendido pelo Exército e forças militares regionais associadas a “coronéis” e seus jagunços. O levante provocou a morte de mais de 20 mil pessoas, durou cerca de quatro anos e abrangeu um território do tamanho do estado de Alagoas. 
Direção: Sylvio Back
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 1h58minutos

Contestado: Uma Guerra Esquecida - Caminhos da Reportagem
Foram quatro anos de conflito, dez mil mortos, milhares de homens do Exército convocados. Os combates que se estenderam por uma região de mais de vinte mil quilômetros quadrados, no planalto serrano de Santa Catarina. A Guerra do Contestado – 1912 a 1916 – envolveu caboclos, pequenos fazendeiros, posseiros, interesses econômicos, disputas de poder e religiosidade. Hoje, a população local ainda enfrenta um dia-a-dia de pobreza, em um cenário que contrasta com uma das regiões mais prósperas do país.
A reportagem resgata essa história e investiga os motivos da guerra, a dimensão que teve e o porquê de ter ficado esquecida por tantas décadas.
Reportagem: Fernanda Balsalobre
Direção e Edição: Isabelle Gomes

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Heróis do Clima

A aventura e a ciência por trás das mudanças climáticas
     História em quadrinhos desenhada por Caco Galhardo conta como sabemos o que conhecemos sobre a alteração do clima no planeta. Com bom humor e simplicidade, retrata as descobertas e o envolvimento de cientistas e líderes mundiais nesta que é uma das mais importantes questões da atualidade.
     Bom humor e linguagem simples pautam a publicação, tornando-a indicada para leigos, iniciados, jovens e adultos. A história que começa ainda no século 19 e envolve décadas de pesquisas, expedições a áreas remotas, polêmicas – incluindo até ataque de hackers – e estudos sobre os impactos das mudanças climáticas, inclusive no Brasil. Mostra o empenho de pessoas determinadas em suas buscas por informações e em dar voz à urgência do tema.
Autor: Caco Galhardo
Roteiro: Alessandro Meiguins e Caco Galhardo
Coordenação: Matthew Shirts e Chiaki Karen Tada
Direção e ideia original: Caco de Paula
52 páginas
Editora: Planeta Sustentável
Editora Abril Ano de publicação: 2014

sábado, 18 de julho de 2015

Facebook

Ele vigia os seus passos, mexe com sua cabeça, transforma você em cobaia de experiências. Quando estamos nele, ficamos mais impulsivos, mais narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os sentimentos dos outros. E, de quebra, mais infelizes.
Super Interessante/Junho 2015
     O Facebook é, de longe, a maior rede da história da humanidade. Nunca existiu, antes, um lugar onde 1,4 bilhão de pessoas se reunissem - e 936 milhões entrassem todo santo dia (só no Brasil, 59 milhões). Metade de todas as pessoas com acesso à internet, no mundo, entra no Facebook pelo menos uma vez por mês. Ele tem mais adeptos do que a maior das religiões (a católica, com 1,2 bilhão de fiéis), e mais usuários do que a internet inteira tinha dez anos atrás. Em suma: é o meio de comunicação mais poderoso do nosso tempo, e tem mais alcance do que qualquer coisa que já tenha existido. A maior parte das pessoas o adora, não consegue conceber a vida sem ele. Também pudera: o Facebook é ótimo. Nos aproxima dos nossos amigos, ajuda a conhecer gente nova e acompanhar o que está acontecendo nos nossos grupos sociais. Mas essa história também tem um lado ruim. Novos estudos estão mostrando que o uso frequente do Facebook produz alterações físicas no cérebro. Quando estamos nele, ficamos mais impulsivos, mais narcisistas, mais desatentos e menos preocupados com os sentimentos dos outros. E, de quebra, mais infelizes.
     No ano passado, pesquisadores das universidades de Michigan e de Leuven (Bélgica) recrutaram 82 usuários do Facebook. Durante duas semanas, eles enviaram perguntas via SMS, cinco vezes por dia, para os voluntários. As perguntas eram "como você está se sentindo agora?", "como você avalia a sua vida?" e "quanto tempo você ficou no Facebook hoje?". O estudo mostrou uma relação direta: quanto mais tempo a pessoa passava na rede social, mais infeliz ficava. Os cientistas não sabem explicar o porquê, mas uma de suas hipóteses é a chamada inveja subliminar, que surge sem que a gente perceba conscientemente. Já deve ter acontecido com você. Sabe quando você está no trabalho, e dois ou três amigos postam fotos de viagem? Você tem a sensação de que todo mundo está de férias, ou que seus amigos viajam muito mais do que você. E fica se sentindo um fracassado. "Como as pessoas tendem a mostrar só as coisas boas no Facebook, achamos que aquilo reflete a totalidade da vida delas", diz o psiquiatra Daniel Spritzer, mestre pela UFRGS e coordenador do Grupo de Estudos sobre Adições Tecnológicas. "A pessoa não vê o quanto aquele amigo trabalhou para conseguir tirar as férias", diz Spritzer.
     E a vida em rede pode ter um efeito psicológico ainda mais assustador. Durante 30 anos, pesquisadores da Universidade de Michigan aplicaram testes de personalidade a 14 mil universitários. Cada voluntário tinha de dizer se concordava ou discordava de afirmações como: "eu tento entender como meus amigos se sentem" e "eu geralmente me preocupo com pessoas menos favorecidas do que eu". São perguntas criadas para medir o grau de empatia de uma pessoa - o quanto ela se importa com as outras. Em 2010, os cientistas publicaram os resultados. Os jovens da geração atual, que cresceram usando a internet, têm 40% menos empatia que os jovens de três décadas atrás. E essa tendência fica mais intensa a partir dos anos 2000, período que coincide com a ascensão das redes sociais. A explicação disso, segundo o estudo, é que na vida online fica fácil ignorar as pessoas quando não queremos ouvir seus problemas ou críticas - e, com o tempo, esse comportamento indiferente acaba sendo adotado também na vida offline.
     Num meio competitivo, onde precisamos mostrar como estamos felizes o tempo todo, há pouco incentivo para diminuir o ritmo e prestar atenção em alguém que precisa de ajuda. Há muito espaço, por outro lado, para o egocentrismo. Em 2012, um estudo da Universidade de Illinois com 292 voluntários concluiu que, quanto mais amigos no Facebook uma pessoa tem, e maior a frequência com que ela posta, mais narcisista tende a ser - e maior a chance de fazer comentários agressivos. Esse último resultado é bem surpreendente, porque é contraintuitivo. Ora, uma pessoa que tem muitos amigos supostamente os conquistou adotando comportamentos positivos, como modéstia e empatia. O estudo mostra que, no Facebook, tende a ser o contrário.
     Junte a indiferença com o narcisismo e a competição e você chegará ao terceiro elemento negativo das redes sociais: o ódio. Em tese, as redes sociais deveriam nos aproximar uns dos outros. Afinal, usamos nossos nomes reais, postamos fotos verdadeiras e sabemos se uma pessoa tem amigos em comum conosco. Como explicar, então, que pessoas que jamais brigariam na vida real - sobre futebol, sobre política, sobre qualquer assunto - fiquem se xingando no Face? E que isso seja tão comum?
     Não existe uma resposta direta. Mas existem algumas pistas muito boas. Em 2013, pesquisadores da Universidade Benihang, na China, analisaram 70 milhões de posts do Weibo, rede social chinesa que mistura características do Twitter e do Facebook. Usando um software que lia palavras-chave, eles classificaram cada post como alegre, triste ou irritado - e viram como ele se propagava pela rede. As mensagens irritadas eram as que se espalhavam mais rápido, e chegavam mais longe: eram replicadas por pessoas a até três níveis de separação do autor (o amigo do amigo do amigo repetia o post).
     "Quando a pessoa está online, há uma desinibição. Ela fica mais solta", afirma o psicoterapeuta Cristiano Nabuco, do grupo de pesquisas em dependência tecnológica da USP. Isso acontece, segundo ele, por causa da distância física. Como não estão frente a frente, as pessoas se sentem mais à vontade para trocar acusações e insultos. E no Facebook basta um clique para curtir ou replicar o que outra pessoa disse - inclusive insultos. "Isso potencializa a agressão, porque eu posso fazer uma ofensa e dez pessoas vão lá e me ajudam na ofensa, vira um grupo ofendendo uma pessoa", explica Ana Luiza Mano, do Núcleo de Pesquisa de Psicologia em Informática da PUC-SP.
     E isso pode ter consequências profundas. Segundo o Mapa da Violência 2014, um estudo elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, o número de suicídios entre adolescentes brasileiros cresceu 36,7% entre 2000 e 2012 (o dobro do aumento nas demais faixas etárias). O estudo não acusa as redes sociais. Mas o período em que os suicídios crescem coincide com a ascensão delas.
     Se você se sentir mal por causa do Facebook, basta se desconectar ou colocar o celular no bolso, certo? Não é tão fácil assim. Porque as redes sociais mexem com o núcleo accumbens, uma região que fica no meio do cérebro e regula o chamado "sistema de recompensa". Quando fazemos alguma coisa agradável - comemos algo gostoso e calórico ou fazemos sexo, por exemplo -, esse sistema libera dopamina, um neurotransmissor que nos dá prazer. É a forma de o cérebro nos dizer que aquilo (comer bem ou se reproduzir) é vital para nossa sobrevivência, e, por isso, devemos repetir sempre que possível. Trata-se de um mecanismo ancestral, que se desenvolveu muito antes da internet. Em 2013, um estudo da Universidade Livre de Berlim descobriu que ganhar likes no Face ativa esse mesmo sistema. Cada "curtida" que recebemos provoca uma liberação de dopamina, como as que temos ao comer e fazer sexo. "A sensibilidade do núcleo accumbens leva a mudanças de comportamento no mundo real", explica, no estudo, o neurocientista Dar Meshi. Por isso o Facebook é tão irresistível.
     Só que abusar dele é perigoso. Pode literalmente deformar o cérebro. Em 2012, um grupo de cientistas chineses analisou 17 adolescentes viciados em internet - que ficavam conectados pelo menos 5h30 por dia e tinham problemas na vida social por causa disso. As imagens dos exames revelaram anormalidades no córtex orbitofrontal, região que nos ajuda a controlar impulsos, e no corpo caloso, que conecta os dois hemisférios do cérebro. Segundo o estudo, os danos eram similares aos encontrados em viciados em álcool e cocaína.
     As redes sociais estão mexendo conosco. Inclusive de propósito - como quando o Facebook realizou uma experiência secreta e polêmica, em que as cobaias foram os próprios usuários.

Cobaias involuntárias
     Em junho de 2014, surgiu um artigo científico de arrepiar. Assinado por um cientista da Universidade de Cornell e por pesquisadores do Facebook, ele contava como o site manipulou a timeline de 689.003 pessoas, ao longo de uma semana, sem que elas soubessem. O objetivo era saber se, mexendo no conteúdo da timeline, o Facebook conseguiria alterar o humor dos usuários. A resposta foi sim. Quando o Facebook omitia posts alegres, as pessoas ficavam mais tristes - usavam mais palavras negativas em suas mensagens. E vice-versa. A conclusão do estudo é clara: "As mensagens online influenciam nossas emoções e comportamento". Assim que ele foi publicado, o Facebook recebeu uma saraivada de críticas. Algumas diziam que o estudo violou a ética científica (porque não se pode transformar alguém em cobaia sem o consentimento da pessoa), outras que a experiência foi simplesmente cruel. O Facebook alegou que, quando criaram seus perfis no site e aceitaram os 'Termos de Uso", as pessoas haviam automaticamente consentido em participar do estudo. Mas pediu desculpas pela experiência.
     O Facebook continua manipulando o que você vê na sua timeline. Isso é definido por um algoritmo que se chamava EdgeRank, foi criado pelo próprio Face e originalmente seguia três critérios: afinidade (o quanto você interage com o autor daquele post), engajamento (número de likes, comentários e compartilhamentos que o post teve) e tempo (notícia velha não tem vez). Hoje, o algoritmo é muito mais complexo - segundo o Facebook, calcula mais de 100 mil variáveis, ajustadas de acordo com cada usuário. A empresa não diz quais são, inclusive por um segredo comercial - do contrário, o algoritmo poderia ser copiado por outras redes sociais. Mas há quem diga que o sigilo também é uma maneira de adulterar o conteúdo distribuído aos usuários para lucrar em cima disso. "O Facebook está na fronteira do eticamente questionável. As vezes ele é ético, às vezes é antiético. Ele te dá benefícios, mas cobra por isso", diz Raquel Recuero, professora de comunicação da Universidade Católica de Pelotas e pesquisadora de redes sociais.
     É comum ver usuários do Facebook desconfiados com as políticas da empresa, ou temerosos de que ela tenha informações demais. Se você é um deles, há uma boa maneira de buscar respostas: solicitar o download de todas as informações que o Facebook coletou sobre você. Eu fiz isso, é fácil. Recebi um pacote de arquivos que totalizavam 28 megabytes. Todas as fotos e vídeos que eu publiquei na rede estavam lá. Todos os meus chats, todas as cutucadas que eu recebi (uma única, em 5 de setembro de 2014, de uma pessoa que eu não conheço - fiquei chateado), todos os eventos para os quais fui convidado, incluindo os que eu ignorei. Se eu tivesse um post privado (não publicado), estaria lá também. Posso ver todas as atividades do meu mural e até coisas que fiz em outros serviços. Posso ver as músicas que ouvi no Radio, em que dia, hora e ordem, pois minha conta nesse serviço de streaming está conectada ao Facebook.
     O prontuário tem muita coisa. Mas não tem uma coisa extremamente importante: a lista com os sites que eu visitei. Porque, sim, o Facebook sabe por onde eu andei na internet. Sabe quando você entra num site, qualquer um, e ele tem um botãozinho que permite dar like em alguma coisa? Esse botão é uma conveniência para você, e um mecanismo de monitoramento para o Facebook: quando você entra naquela página, ele fica sabendo (mesmo se você não apertar o botão de like). Esse sistema serve para que o Facebook mostre anúncios relacionados às coisas que você pensa em comprar. Se você entra numa loja virtual e procura uma geladeira, por exemplo, essa informação é passada para o Facebook – que passa a exibir anúncios de geladeiras. "O Facebook poderia tomar ações mais fortes para permitir que as pessoas tivessem mais privacidade. Mas isso vai contra o modelo de negócio dele", diz Recuero. O mecanismo está presente em grande parte da internet, inclusive em sites que nada têm a ver com comércio eletrônico, e permite que o Face grave os seus passos pela web, silenciosa e ininterruptamente. Ele não é o único: o Google também faz algo do tipo. Um monitoramento que parece saído do clássico 1984, o romance distópico de George Orwell.
     O sistema funciona graças aos cookies, pequenos arquivos de texto que são colocados no seu computador ou celular e o identificam enquanto você navega na internet. Na Europa, a lei determina que o usuário tenha de aprovar cada um dos cookies depositados no seu computador. Mas um relatório da Comissão de Privacidade da Bélgica, divulgado em março, concluiu que o Facebook está violando a lei, plantando cookies nos computadores das pessoas sem a permissão delas. Segundo o relatório, ele usa cookies para monitorar usuários que não estão logados na sua rede - e até gente que jamais teve uma conta de Facebook. A empresa negou a prática e disse que o relatório tem erros.
     O mergulho nos meus dados pessoais ficou entre o fascinante e o perturbador. O mais esquisito é que concordei em dar todo esse acesso ao Facebook. "Ao clicar em Abrir uma conta, você concorda com nossos Termos, incluindo nosso Uso de Cookies", diz o texto. Quase ninguém o lê: apenas 7% dos usuários, segundo uma pesquisa de 2011. No caso do Facebook, o documento oficial tem mais de 23 mil caracteres - mais do que esta reportagem -, e passa de 80 mil somando os subitens. Ou seja, é dificílimo de ler. Isso não é exclusividade do Facebook. Os contratos que você "assina" ao se inscrever nos serviços online sempre são longos e tortuosos. Talvez porque não existam para serem lidos - mas para que as empresas tenham poderes enormes sobre você. E porque, mesmo sabendo disso, e de tudo o que o Facebook faz, você dificilmente vai parar de usá-lo. Eu não vou.

A SUPER entrou em contato 11 vezes com o Facebook, entre os dias 16 e 30 de abril, solicitando que concedesse uma entrevista ou respondesse por escrito às questões discutidas nesta reportagem. A empresa preferiu não se manifestar.

Fonte: Super Interessante – Edição 348 - Junho 2015

Saiba Mais – Links

Saiba Mais – Vídeo
JC Debate sobre amor nas redes sociais | 14/07/2015
Não é coisa apenas de jovens e adolescentes; é cada vez mais comum o uso da internet por adultos que buscam relacionamentos pessoais e amorosos.

domingo, 28 de junho de 2015

E a selva venceu o capital

Fordlândia, a cidade da borracha inventada por um dos maiores empresários do mundo, fracassou na imensidão amazônica.
     Henry Ford tinha 40 anos quando, contando com 11 sócios e investimento inicial de US$ 28 mil, fundou a Ford Motor Company. O ano era 1903, e começava ali a trajetória de um dos empresários que ajudariam a elevar os Estados Unidos à posição de potência mundial. Seu nome ficou para sempre associado a uma revolução do capitalismo, mas o sucesso não o acompanhou quando tentou aventurar-se em uma audaciosa empreitada tropical. Na Amazônia, Henry Ford fracassou. 
     Uma das táticas bem-sucedidas do empresário consistia em tomar para si a produção dos insumos usados em suas fábricas, para depender o mínimo possível de fornecedores externos. Obter borracha natural era um problema: o monopólio dos britânicos sobre a oferta mundial do produto incomodava-o profundamente. Sob a influência de um de seus poucos amigos, Harvey Firestone (que se tornaria o líder dos pneus nos Estados Unidos por mais de oito décadas), Henry Ford passou a considerar ter a sua própria plantação de seringueiras. Mas onde plantar seringueiras? Que tal na região de onde as sementes das plantações britânicas no Sudeste asiático haviam sido furtadas? Foi assim que o homem mais rico do mundo decidiu possuir a maior plantação de seringueiras do mundo, na região do rio Tapajós, no Pará. 
     Os governos federal e estadual receberam com incontida satisfação a notícia dos investimentos, facilitando a instalação dos norte-americanos na Amazônia. A Companhia Ford Industrial do Brasil teve a sua escritura pública aprovada em 10 de outubro de 1927. Dois navios foram enviados para Santarém levando em seus porões tudo o que se imaginava necessário para a construção de uma cidade: tratores, geradores, enxadas, machados, britadeiras, equipamentos hospitalares, concreto, uma fábrica de gelo.  Curiosamente, não havia nenhum arquiteto, urbanista ou engenheiro sanitário na expedição inicial.
     Todo o planejamento foi feito pelos norte-americanos em Michigan, e o resultado foi uma sequência de erros. Os primeiros gestores sentiram na pele os efeitos de não terem estudado a realidade local: em um acampamento sem higiene, proliferavam as moscas nos refeitórios e os mosquitos nos dormitórios. O recrutamento de mão de obra era um entrave. Não havia na região homens em quantidade e com formação profissional suficiente para operar e realizar a manutenção de máquinas, como tratores, serras elétricas e caldeiras. Entre os contratados, o clima dócil logo evaporou. Diante da qualidade ruim da comida servida (diferente da que recebiam os norte-americanos) e do tratamento cada vez mais insultuoso (à base de gritos e humilhações), acendeu-se o estopim para a primeira revolta: os trabalhadores ameaçaram os norte-americanos com facões e machados. Não houve feridos, mas o trauma nunca seria superado pelos estrangeiros. Fez-se ali a primeira mudança no corpo diretivo da Companhia. Entre 1928 e 1930, viriam outras três.
     Não bastassem os problemas locais, houve os impactos da crise global de 1929. Nos Estados Unidos, a Ford Motor Company amargou uma queda de quase 50% na produção de automóveis. Mesmo diante dessa nova realidade, Henry Ford garantiu recursos para que o projeto seguisse adiante. Ao final de 1930 surgia Fordlândia, um projeto de plantação de seringueiras em uma pequena cidade de aparência norte-americana, com seus hidrantes vermelhos nas calçadas, em plena selva amazônica. Mas as riquezas imaginadas por Henry Ford estavam longe de se concretizar: as seringueiras não produziam borracha (inicialmente por serem jovens demais, depois, por conta de ataques de fungos e de insetos), os minérios e as pedras preciosas não foram encontrados, e a madeira, único produto rentável, era agora taxada pelo governo paraense.
     Tantas insatisfações se refletiram na relação dos patrões com os funcionários. Os estrangeiros achavam os brasileiros preguiçosos e passaram a chamá-los com apelidos relacionados à cor da pele e à baixa estatura – foi comum o uso do termo “demente”. Enquanto isso, o Departamento Sociológico tentava “civilizar” os trabalhadores, impondo-lhes restrições ao modo de vida. Visitavam as residências para verificar condições de higiene, preparação da comida, lavagem e secagem das roupas, se as vacinas estavam em dia. Chegavam a ponto de indagar sobre a vida sexual do casal. Outra questão que irritava os brasileiros era a obrigatoriedade de comer apenas comida genuinamente norte-americana. O peixe e a farinha não se encontravam disponíveis nos refeitórios, mas derivados de soja (leite, doces, margarinas) vindos dos Estados Unidos eram frequentes nos cardápios.
     Em dezembro de 1930 irrompeu a segunda revolta dos brasileiros. Os norte-americanos foram ameaçados por trabalhadores portando porretes, facões e machados. De novo, sem feridos. Mas nas instalações de Fordlândia a destruição foi enorme: tratores e caminhões jogados no rio Tapajós, vidros das instalações industriais quebrados, louças do refeitório pisoteadas. A Polícia Militar do Pará foi chamada para debelar a revolta, mas chegou três dias depois, com a situação já calma.
     O que fazer então? Insistir em Fordlândia ou abandoná-la? A decisão de Henry Ford foi pela reconstrução completa da cidade. Outro dirigente foi enviado de Michigan para a missão. Archibald Johnston fez um belo trabalho, instalando um hospital que se tornaria referência nacional, sistema de captação, filtragem e cloração da água, saneamento e iluminação da cidade, chegando à construção de um clube social com quadras de tênis e um campo de golfe com 18 buracos. O clube era exclusivo para os estrangeiros, mas várias atividades de lazer passaram a ser oferecidas aos brasileiros: bailes com músicas norte-americanas, cursos de jardinagem, filmes sobre a aerodinâmica dos novos modelos produzidos pela Ford Motor Company. Como bem observou um padre em visita a Fordlândia naquele período, os dirigentes não sabiam em qual país estavam.
     Em 1932, havia 4 mil hectares de seringueiras em Fordlândia quando o fungo Microcyclus ulei atacou e causou o chamado “mal das folhas”, destruindo praticamente toda a plantação. As folhas secaram e as árvores definharam. Ao final, percevejos e lagartas liquidaram o pouco que havia sobrado. Archibald Johnston solicitou a presença de um botânico – incrivelmente, o primeiro enviado pela Ford Motor Company desde o início da plantação das seringueiras! Era tarde demais para Fordlândia: a recomendação foi pelo abandono da plantação. O local seguiria apenas abrigando pesquisas com sementes e mudas. Uma nova cidade deveria ser construída e uma nova plantação de seringueiras iniciada. Henry Ford não desistiu: garantiu que recursos financeiros não faltariam.
     A nova plantação foi iniciada aproximadamente a 100 quilômetros descendo o rio Tapajós, onde hoje se localiza a cidade de Belterra. O golpe final veio em 1942, quando uma severa infestação reduziu os seringais à metade. O desânimo ficou patente nos norte-americanos. O país havia entrado na Segunda Guerra Mundial, Henry Ford estava cada vez mais senil e no ano seguinte faleceria seu único filho, Edsel Ford. Em 1945, quando Henry Ford II, filho de Edsel, assumiu o comando da Ford Motor Company, um de seus primeiros atos foi vender Fordlândia e Belterra. O governo brasileiro pagou US$ 250 mil pelas instalações que, segundo os norte-americanos, valiam trinta vezes mais.
     Hoje, Fordlândia é um distrito do município de Aveiro. Para chegar até lá, o viajante pode tomar um dos barcos que ligam diariamente Santarém, Aveiro e Itaituba. A viagem de barco-motor entre Santarém e Fordlândia leva cerca de 12 horas. Fora do período de chuvas, é possível hoje utilizar um carro 4x4 e, segundo locais, percorrer o trecho em até oito horas. Fordlândia conta com menos de mil habitantes e vive das pensões pagas pelos governos e das lembranças do passado. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ainda não conseguiu proteger as construções na região, quase todas em franca deterioração pelas chuvas e a umidade e sofrendo com furtos. Em 2012, desabou o antigo hospital construído pelos norte-americanos.
     Estima-se que a Ford Motor Company tenha investido, em valores atuais, cerca de US$ 1 bilhão em Fordlândia e Belterra. Como retorno, conseguiu produzir e enviar para os Estados Unidos menos de mil toneladas de borracha natural. Henry Ford recusou todos os convites posteriores de governantes e empresários brasileiros para que visitasse o Brasil – em particular, seus fracassados investimentos no Pará.

Antonio Marcos Duarte Jr. é professor do Ibmec/RJ e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Saiba Mais - Bibliografia
CRULS, Gastão. “Impressões de uma Visita à Companhia Ford Industrial do Brasil”. Revista Brasileira de Geografia, nº 1, p. 3-22, 1939.
GALEY, John. “Industrialist in the Wilderness: Henry Ford's Amazon Venture”. Journal of Interamerican Studies and World Affairs, nº 21 (2), p. 261-289, 1979.
RUSSELL, Joseph A. “Fordlândia and Belterra: Rubber Plantations on the Tapajós River”. Economic Geography, nº 18 (2), p. 125-145, 1942.
WEINSTEIN, Barbara. The Amazon Rubber Boom – 1850-1920. Redwood City, California: Stanford University Press, 1983.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Prisão não tem idade

Lançado em DVD, longa-metragem premiado expõe situação dos menores infratores
      “Em nenhuma hipótese será aplicada a internação, havendo outra medida adequada”. O parágrafo 2º do artigo 122 do Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8095/90) não costuma constar nos discursos da onda crescente a favor da redução da maioridade penal para 16 anos. Nem poderia: a legislação que garante direitos a crianças e adolescentes é constantemente vilipendiada no país, e só mesmo ignorando-a é possível enxergar no aumento da violência a saída para a violência.
      Essa discussão serve de pano de fundo no primeiro longa-metragem da cineasta Caru Alves de Souza, De menor (2013), recém-lançado em DVD. A inspiração para o roteiro foi a experiência de Michaela Alves de Souza, ex-defensora pública e prima de Caru. “À época em que ela atuou no Fórum de Santos (SP), conversamos muito sobre os casos em que trabalhava”, explica a diretora. O roteiro completou-se com base em cinco anos de pesquisa, resultando em uma história verossímil: apesar dos esforços da defensora, todos os adolescentes infratores apresentados pelo drama acabam internados na Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (CASA) do Estado de São Paulo. Na vida real, a internação também é a opção mais utilizada pelo Poder Judiciário, ao contrário do que estabelece o ECA. O longa foi eleito Melhor Filme de Ficção no Festival do Rio de 2013 (prêmio dividido com O lobo atrás da porta, de Fernando Coimbra).
     Embora não tenha nascido com esse propósito, o filme enquadra-se na acalorada discussão atual sobre reduzir ou não a maioridade penal no Brasil. A diretora se posiciona contra a proposta de redução. 
     Os dados sobre a internação de menores no Brasil são insuficientes e desconexos. Um dos levantamentos mais recentes disponíveis, realizado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, teve que se basear em alguns dados de 2007. E aponta que, dos 21.265.930 de brasileiros entre 12 e 21 anos (11,14% da população), 0,51% cometeram alguma infração. Seria um dado positivo – relativamente, são poucos os jovens para com os quais o Estado deveria se preocupar – não fosse a quantidade deles que cumprem medidas de restrição e privação da liberdade: 66,59% dos adolescentes e jovens apreendidos são encaminhados à internação, medida que deveria ser exceção, e não regra.
     De socioeducativas as internações não têm nada. “As unidades do Rio de Janeiro e do resto do país mais se assemelham à prisão do que propriamente a um sistema socioeducativo. Em termos estruturais são superlotadas e sem recursos”, diagnostica Maíra Fernandes, que conhece bem os dois lados da moeda: é presidente do Conselho Penitenciário do Rio de Janeiro e ativista contra a redução da maioridade penal. Ela aponta a falência do modelo prisional adulto e garante: “Colocar um jovem ali, com um período inteiro de formação pela frente, só irá torná-lo pior”. Em De menor, o destino do protagonista não é diferente do que vive a maioria dos meninos e das meninas apreendidos no Brasil.

Direção: Caru Alves de Souza
Ano: 2012
Áudio: Português
Duração: 1h 30m


Saiba Mais - Filme
Nas quebradas da maior metrópole do Brasil, entre tiros, perrengues, amor e ódio, histórias de jovens se misturam e colidem em busca de sonhos e escolhas. Inspirado em histórias reais, o longa-metragem “Na Quebrada” revela a luta e as escolhas de jovens que cresceram entre armas, crimes e muitas dificuldades: Zeca sobreviveu a uma chacina. Gerson nunca viu seu pai fora das grades. Mônica é diferente de todos da família. Junior é fascinado por consertos de televisões. Joana sonha com a mãe que nunca conheceu. Esses jovens descobrem o cinema como um caminho para desafiar seus destinos.
Direção: Fernando Grostein Andrade
Ano: 2014
Áudio: Português
Duração: 94 minutos


sábado, 6 de junho de 2015

A resistência do escravismo

Por três séculos, o Brasil conheceu uma única forma de mão de obra: negros africanos escravizados. 
     O termo abolicionismo, no Brasil, é usado principalmente para indicar a luta contra a escravidão ocorrida na década de 1880, que teve como resultado a abolição da escravatura por meio da Lei Áurea em 1888. E antes de 1880, não houve luta contra a escravidão?
      Houve, é claro. Desde o século XVI, índios e negros escravizados lutaram por sua liberdade. É importante lembrar, que era uma luta contra a escravização a que eles haviam sido submetidos e não contra a escravidão como instituição. No mundo luso-brasileiro, os primeiros — e poucos - questionamentos à escravidão só apareceram na segunda metade do século XVIII.
     Chegamos então ao século XIX, que tem enorme importância para a história do escravismo no Brasil. Do início do século até a Lei Áurea, aconteceu de tudo com nosso sistema escravista. A população escrava aumentou continuamente até 1850, depois diminuiu continuamente até 1888. Em 1831, uma lei proibiu o tráfico negreiro; este, no entanto, prosseguiu como se a lei não existisse. Em 1845, com o Bill Aberdeen, a marinha inglesa passou a dar combate sem trégua aos navios negreiros; como resultado, o tráfico duplicou. Em 1848, os traficantes desembarcaram aqui 60 mil africanos escravizados, número recorde em toda a nossa História; quatro anos depois, o tráfico estava morto e enterrado!
     Que confusão! Cada hora a coisa anda para um lado diferente...! Mas você ainda não viu nada. Na década de 1820, várias pessoas importantes - inclusive José Bonifácio, o principal líder do movimento de Independência - se manifestaram publicamente contra a escravidão; nas três décadas seguintes, não se falou mais no assunto. Em 1871, para surpresa de muita gente, o governo apresentou o projeto da Lei do Ventre Livre. Surpresa ainda maior: apesar da resistência dos escravocratas, a Câmara de Deputados e o Senado, então controlados pelo Partido Conservador - que defendia a escravidão -, aprovaram o projeto. A maioria dos parlamentares das províncias do Norte e do Nordeste, que muita gente considerava "atrasadas", votou a favor do projeto; os representantes das três províncias mais ricas e tidas como "modernas", Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, votaram contra.
     Dez anos mais tarde, quando a campanha abolicionista já avançava a mil por hora, os abolicionistas consideravam a Lei do Ventre Livre ultrapassada e exigiam a abolição imediata, enquanto os escravocratas passavam a defender a Lei do Ventre Livre (justamente porque ela não determinava a abolição imediata).    
     Todos esses desencontros e idas e vindas deixam claro duas coisas. Primeira: o processo que levou ao término da escravidão não foi uma política planejada e depois cuidadosamente executada para acabar com a escravidão de forma gradual. Segunda: o sistema escravista brasileiro era muito mais complexo do que parecia à primeira vista.
     Essa complexidade foi em grande parte responsável pela "confusão" e pelas idas e vindas que acabamos de ver, na medida em que ela - a complexidade - ocasionava dois efeitos opostos. Por um lado, dava à escravidão flexibilidade e, aos escravos, espaço de negociação inexistentes nas demais sociedades escravistas da América. Por outro lado, isso contribuía para a manutenção do sistema escravista, pois flexibilidade e negociação facilitam a adaptação a novas situações econômicas e políticas e reduzem o risco de revoltas em grande escala.
     Vamos examinar dois exemplos práticos dessa situação, dentro do período que nos interessa: o século XIX.
     No Brasil, ser senhor de escravos não era privilégio de grandes fazendeiros. A escravidão era disseminada; por toda a sociedade. Era comum famílias pobres e mesmo libertos (ex-escravos) possuírem cativos. De modo geral, esses senhores de baixa renda possuíam poucos escravos - muitas vezes, apenas um ou dois - que executavam biscates e pequenos serviços, entregando a seus senhores parte do que ganhavam. Por um lado, isso dava a esses escravos maior liberdade de locomoção e até a possibilidade de juntar algum dinheiro. Por outro lado, dificultava o combate à escravidão, já que ela interessava não apenas à elite, mas a todas as classes de homens livres.
     Outro exemplo: no parágrafo anterior, nos referimos aos libertos. E como um escravo obtinha a liberdade sem ser através da fuga? Por meio da alforria, que podia ser concedida pelo senhor ou comprada pelo escravo. A alforria flexibilizava o sistema escravista, pois dava ao escravo a possibilidade legal de passar a ser livre. Ao mesmo tempo, reforçava o sistema, pois dava ao senhor mais um instrumento de controle sobre os cativos: a possibilidade de conceder ou não a alforria.
     Essas características deram à escravidão brasileira grande capacidade de resistir a pressões e de se adaptar a novas situações políticas e socioeconômicas. A resistência e a adaptação é que explicam todo aquele "vai e vem" que descrevemos no início deste texto. Diante de uma pressão, o sistema escravista respondia com uma mudança; a mudança provocava uma nova pressão, respondida com outra mudança e assim sucessivamente.
     A resistência, comandada principalmente pelas elites das províncias cafeeiras - Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais - funcionou satisfatoriamente até o início da década de 1870, quando então começou a se enfraquecer, devido a fatores tanto de ordem externa como interna.
     O isolamento internacional da escravidão após a derrota dos sulistas na guerra civil norte-americana era agravado pela posição da opinião pública dos principais países europeus, que consideravam a escravatura como algo indigno de povos civilizados. Para a elite brasileira, que tentava parecer o mais europeizada possível, isso criava uma situação extremamente constrangedora. Ficava cada vez mais difícil justificar a existência da escravidão.
     No Brasil, o tráfico interno de escravos não conseguia mais atender à crescente necessidade de mão de obra das regiões cafeeiras. Além disso, a transferência do Nordeste para o Sudeste de cerca de 400 mil escravos, arrancados de suas comunidades e famílias, provocou um considerável aumento da resistência dos cativos, com revoltas, fugas em massa e formação de quilombos.
     O aumento do preço dos escravos fez com que eles se concentrassem nas grandes fazendas, levando ao progressivo desaparecimento dos pequenos proprietários de escravos, o que contribuiu para a crescente deslegitimação da posse de escravos.
     Todos esses fatores esgotaram a capacidade do sistema escravista de responder às pressões que sofria. O maior sintoma desse esgotamento foi o extraordinário fortalecimento da campanha abolicionista na década de 1880, que levou à extinção da escravatura em 1888.

Fonte: Sistemas de Ensino Abril Educação/Coleção Alfa 5 : História do Brasil - Setor 1601 \ pág. 194 e 195
Saiba Mais – Links

Assista à reportagem: “Ecos da Escravidão”, que traça o longo e difícil caminho do cativeiro à abolição, a luta pela liberdade, as formas de alforria, os principais abolicionistas. Ainda analisa a polêmica: é possível ou não reparar os males deixados à população negra por anos e anos de trabalho escravo?
Os repórteres Carlos Molinari e Débora Brito foram aos principais polos de trabalho escravo no Brasil (Vale do Paraíba, Bahia, Pernambuco, Minas Gerais).

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Fibra de gaúcho, tchê!

Com suas glórias e torpezas, a Revolução Farroupilha, que combateu o Império e proclamou uma república nos pampas, foi fundamental para a construção histórica de uma identidade rio-grandense. Mas isso existe mesmo?
Sandra Jatahy Pesavento
      Bem antes do sucesso de A casa das sete mulheres, a colorida e bem cuidada série da Rede Globo, a Revolução Farroupilha já gozava de certa fama, associada a uma longa guerra contra o Império brasileiro, entre 1835 e 1845. Mais do que isso: a Revolução Farroupilha sempre foi o acontecimento pelo qual o Rio Grande do Sul deu entrada e se fazia presente nos manuais de nossos currículos escolares de História do Brasil, na literatura gauchesca, nos discursos políticos, nos tão difundidos Centros de Tradições Gaúchas.
     Fronteira viva com os domínios castelhanos, a então chamada província de São Pedro era uma região essencial para o acesso ao Prata, onde os portugueses tinham interesses e de onde operavam através do contrabando, a partir da Colônia do Sacramento, fundada em frente a Buenos Aires, em 1680. Nessa virada de século, portugueses e castelhanos disputavam ainda o gado abandonado pelos padres das missões jesuíticas, depois de expulsos pelos bandeirantes paulistas - o gado xucro ou chimarrão, rebanho selvagem caçado no pampa.
     É a origem dos rebanhos bovinos e das tropas de muares levadas pelos tropeiros para o abastecimento e o serviço da zona das Minas Gerais. Para assegurar sua estratégia, a Coroa passou a conceder poderes amplos aos senhores de terra e gado, estimulando o assentamento de grandes fazendas de criação, as estâncias, no decorrer do século XVIII. Chefes de bandos armados, tais estancieiros, com os seus homens, defendiam as terras no extremo sul, demarcando a fronteira.
     Com a Independência, ocorreu uma reversão da antiga autonomia. "O centro explorava o sul", denunciavam os rio-grandenses. O Rio Grande virara "colônia" da Corte, bradavam com indignação os senhores locais, apontando as inovações da política imperial que alteravam a situação do Rio Grande do Sul: a centralização político-administrativa; a discriminação das rendas provinciais remetidas à Corte; a taxação do charque gaúcho. Mas além do desprestígio político e econômico, que também recaía sobre outras províncias do Império, inseridas à mesma época no que se convencionou chamar de "rebeliões regenciais", havia a desvalorização militar da província.
     Os chefes locais, tantas vezes vitoriosos nas lutas contra os castelhanos, eram responsabilizados pela perda da Província Cisplatina, em 1828, anexada oito anos antes por d. João VI, e desde então o comando de tropas não lhes era mais confiado. A trama se arma, os senhores se rebelam e lutam lado a lado com seus homens, dando o tom de companheirismo e aspirações comuns, erguidas em plano mais alto, simbolicamente, do que as distinções da posse da terra e da hierarquia social.
     A deflagração de uma revolta armada contra o Império durante um decênio, a proclamação da República Rio-Grandense, a elaboração de uma constituição específica e a criação de símbolos característicos, como bandeira e hino, cuja letra aludia a uma "ímpia e injusta guerra", são ações - mais do que históricas - atemporais, eternas, imutáveis, porque integrantes de uma identidade regional altamente agregadora.
     Tais questões, entendidas na época pelos sulinos como de "descaso", "opressão" ou de "exploração" do "centro" sobre o Rio Grande, serão vistas mais tarde em seu aspecto afirmativo: a província, "ameaçada", se levantara por uma "causa justa" em face das "liberdades ameaçadas", e mostrara aos do "centro" a sua força. A realidade, transposta para a narrativa por força desse novo objeto de culto e de estudo, apresenta os ingredientes fundamentais para a construção de um mito das origens. Há um espaço definido: o pampa, a fronteira, os deslocamentos inerentes à guerra e à criação de gado; há um tempo idílico: a idade de ouro em que o voluntarismo não encontrava freios no poder central; e há também um sujeito, forjado por uma alta concepção de si próprio, segundo tais princípios de mobilidade e autonomia.
     As proezas dos rio-grandenses na Revolução Farroupilha percorreram o caminho da oralidade à escrita para delimitar, ao longo dos anos, um passado, uma memória, uma história. Com as transposições de uma "maneira de ser" - do acontecimento para a região, da região para os seus habitantes, ou do Rio Grande para os rio-grandenses, homogeneizando grupos sociais, raças e etnias -, todos passam a ser herdeiros das "gloriosas tradições de 35", integrados em uma representação do passado que se converte em patrimônio comum, dotado de forte coesão social e veiculado já na segunda metade do século XIX.
     Vários incidentes contribuíram para dar caráter de epopeia à Guerra dos Farrapos, cuja longa duração confirma por si só o valor militar dos revoltosos. Da conquista espetacular de Porto Alegre, capital da província, na arrancada farroupilha de 20 de setembro de 1835, até o estabelecimento de uma paz honrosa - a Paz de Ponche Verde, em 28 de fevereiro de 1845, entre o representante do Império, Caxias, e os chefes locais, atendidos em suas reivindicações -, houve uma sucessão de episódios romanescos e rocambolescos que fazem do acontecimento uma verdadeira saga, como a aventura militar e amorosa vivida por Giuseppe Garibaldi e a bela Anita.
     A fuga espetacular do líder farrapo Bento Gonçalves, a nado, da prisão do Forte do Mar, na Bahia, auxiliado pela maçonaria; a construção e o transporte por terra de navios, puxados por juntas de bois, campo afora, desde a foz do rio Capivari, na Lagoa dos Patos, até a costa da praia, em Tramandaí, para possibilitar aos farrapos a conquista de Laguna, em Santa Catarina; duelos de morte entre aliados farroupilhas, como o de Bento Gonçalves com Onofre Pires, são episódios contados e recontados de pais para filhos desde o final do conflito.
     Já nos primeiros anos de sua fundação, em 1868, a Sociedade Partenon Literário, de Porto Alegre, celebra a revolta farroupilha em prosa e verso, estetizando um passado ainda recente, de modo a torná-lo vivo na memória social. Nasciam as imagens do "monarca das coxilhas", do "centauro dos pampas", dos "indômitos guerreiros", da "vocação libertária", essenciais para que o Rio Grande recuperasse seu poder de barganha com o poder central. Diante de uma realidade nacional esvaziada de lutas, com o fim da Guerra do Paraguai, em 1870, recuperava-se pela memória a vocação, a identidade e a missão do Rio Grande do Sul, que sempre teve como moeda de troca, nos tradicionais ajustes com a Corte, o seu valor militar.
     Na década de transição para a República, a Revolução Farroupilha estava consolidada pela narrativa histórica como acontecimento-chave para a explicação da província. Liberais e conservadores, rivais na política do Império, já se proclamavam herdeiros da mesma identidade rio-grandense, quando uma nova geração, ardorosamente republicana, afronta as instituições monárquicas e arrebata o passado das mãos dos liberais, denominando-se os reais herdeiros do "decênio heroico", capazes de dar nexo entre duas repúblicas: a remota, de setembro de 1836, e a iminente, de novembro de 1889.
    Quando da eclosão da Revolução de 1930 contra o poder central da República Velha, o grito dos gaúchos - "Rio Grande! De pé, pelo Brasil! Não poderás falhar ao teu destino heroico!" - portava em si, de forma orgânica, ancestral e telúrica, um destino manifesto: o de lutar pelas boas causas, sempre alerta, tal como já fora o bravo "sentinela da fronteira". Nesse grito se insere a delicada questão de um equilíbrio instável, sempre presente no confronto do Rio Grande com o dito poder central: qual a relação que se estabelecera desde a Revolução Farroupilha entre o todo e a parte, a nação e a região?
     A resposta se dá na relação da história com o imaginário: mesmo se tendo rebelado contra o centro, mesmo tendo proclamado a república em um contexto monárquico, o Rio Grande optara por ficar do lado do Brasil. "Poderia" se aliar com as repúblicas do Prata, vizinhas, mas permanecera ao lado do Império. Logo, "ninguém tão brasileiro quanto o gaúcho", pois sua brasilidade foi escolha e não imposição.
     Paira, porém, uma advertência: uma guerra de dez anos se inscrevera na história da região e do país, a lembrar que, humilhado ou contrariado, o Rio Grande era capaz de ir às armas em defesa da liberdade. Equilíbrio instável, portanto: continuar a "ser gaúcho e brasileiro" dependia do respeito e reconhecimento, pelo "todo", dos valores e direitos da "parte", num ajuste de identidades permanente entre a região e a nação. Resta uma pergunta: se processos de formação de identidade se constroem por oposição a uma alteridade, os gaúchos são diferentes e específicos com relação a quê?
     Falamos dos castelhanos, no? Ora, os "outros", frente aos rio-grandenses, seriam talvez os "do outro lado da fronteira", tornados "gaúchos malos" pelos azares da guerra, mas parceiros nas lides da paz e no cotidiano de um modo de ser. De alguma forma, estes "outros" acabam sendo os "mesmos", a partilharem uma cultura fronteiriça, comungando valores e práticas de um passado mítico: bravura, honra, justiça. Ou em bom castelhano: sobranceria.
     São duas as tendências de interpretação que se discutem no âmbito do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, ao longo da primeira metade do século XX: a do historiador gaúcho Alfredo Varela (Revoluções cisplatinas, 1915 e Histórias da grande revolução, 1933), que integra a Revolução Farroupilha ao ciclo platino, acentuando o caráter separatista do movimento, e a do historiador gaúcho J. R Coelho de Souza (O sentido e o espírito da Revolução Farroupilha, 1944) que dá ênfase ao caráter federalista da revolta e, consequentemente, ao seu projeto de integração com o Brasil. Acabou vitoriosa a versão da "vocação brasileira" da Revolução Farroupilha, no momento em que, não por acaso, governava o Brasil o gaúcho Getúlio Vargas, no início dos anos 40...
    Na segunda metade do século XX, interpretações marxistas da história tentaram derrubar a mitificada versão da identidade sulina, mostrando que a Revolução abrigava, também, incidentes pouco gloriosos ou éticos, sobretudo no encaminhamento final da luta, nos acertos de paz com o Império. No combate de Porongos, por exemplo, quando se acerta quem deve morrer, para selar a paz diante de uma derrota dos farrapos, as vítimas escolhidas serão os lanceiros negros, escravos que lutavam do lado farroupilha em troca da liberdade. Da mesma forma, demonstrou-se que o gaúcho mítico nunca existiu historicamente e que a decantada democracia dos pampas era uma construção idealizada que respondia aos interesses de legitimação das oligarquias locais. Hábitos como tomar o chimarrão na mesma cuia, passando de mão em mão, nada tinham a ver com uma estrutura social bem hierarquizada e marcada pela extrema concentração da propriedade da terra. Heróis eram derrubados, Bento Gonçalves questionado nas suas ações.
     Os recentes estudos da história cultural apresentaram um novo enfoque de análise, retomando questões que estranhamente resistiam às violentas críticas do marxismo: as representações sociais, com a força simbólica das palavras e imagens, reinventam o mundo, dando a suas construções o efeito de real, o que explicaria o fato de, no Rio Grande, as pessoas teimarem em "querer acreditar" no mito do gaúcho e na lendária epopeia farroupilha. Ela retornou com força, como carro-chefe de uma identidade vitoriosa e largamente difundida pela mídia e pelos partidos políticos. Caberia até perguntar se algum dia esteve ausente da vida e das preocupações dos intelectuais, seja para criticá-la ou promovê-la.

Sandra Jatahy Pesavento é professora titular de história do Brasil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 2 - Dez. 2003

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terça-feira, 19 de maio de 2015

A invenção de Anastácia

Culto à escrava negra de olhos azuis, transformada em santa pelo povo, nasceu na década de 1970, no Rio de Janeiro.
Mônica Dias de Souza
    Não há quem não tenha ouvido falar na escrava Anastácia. Sua imagem, estampada em pequenos santinhos com orações no verso, pode ser encontrada nos lugares mais inusitados - até em balcão de lanchonete. A despeito da popularidade, sua origem se envolve em mistério. Quem seria afinal aquela escrava, que aparece na iconografia com parte do rosto velada por um instrumento de tortura? Se negra, por que é representada com os olhos azuis? Que poderes atribuem a ela? O culto a Anastácia envolve muitas perguntas e poucas respostas. Sua imagem mais conhecida é até de fácil identificação. Ela reproduz, na verdade, uma gravura retirada do livro Voyage autour du monde, de Etienne Arago, viajante francês que esteve no Brasil em 1808, integrando uma expedição científica, e registrou suas impressões em textos e desenhos. De um destes, saiu a escrava cultuada como santa em várias regiões do Brasil. Mas, fora essa constatação, nem o faro mais apurado pode conduzir a algum registro histórico sobre a vida de Anastácia. Dados de sua biografia não constam em registros oficiais, documentações paroquiais, autos punitivos, fichas de casa de detenção etc. Sua "certidão de nascimento" foi conferida pelo povo, como disseram o ministro da Cultura, Gilberto Gil, e o escritor Antônio Risério à revista Manchete, de 21 de maio de 1988.
     E, se foi o povo que a transformou numa entidade arquetípica, ao mesmo tempo divina e guerreira, temos obrigatoriamente de tentar ouvir aqueles que trouxeram Anastácia à luz. De prosa em prosa, chegamos à Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos e ao Museu do Negro, ambos localizados na Rua do Rosário, no centro do Rio de Janeiro. A igreja abriga uma instituição secular, a Irmandade do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos - congregação de leigos com um histórico que remonta ao século XVIII. Até hoje a instituição busca, com reuniões dominicais realizadas todo mês, manter seus compromissos originais, cultivando ideais étnicos e estimulando o sentimento de coletividade entre os negros. Para preservar sua memória, construíram um museu, na década de 1970, e foi neste ambiente, repleto de grossas correntes de ferro, fitinhas, santos, imagens de pretos velhos e até uma réplica da cripta da princesa Isabel e do conde d'Eu, que nasceu a escrava Anastácia.
     Numa exposição sobre os martírios infligidos aos escravos no Brasil antigo, realizada em 1971, o museu recebeu como doação, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), uma imagem em forma de pôster. Era a já citada reprodução de Etienne Arago. A imagem, que em si não revela sequer traços femininos, acabou virando a de uma mulher, que em pouco tempo recebeu nome e biografia. Dentro da irmandade, o responsável pelas primeiras versões sobre a vida de Anastácia foi Yolando Guerra. Através das instruções desta liderança, articulou-se uma identidade para a imagem de Arago. A crença tomou vulto e, no início dos anos 80, os frequentadores do museu já tinham de enfrentar longas filas para chegar até a gravura da santa. Fora dali, podiam encontrar a escrava nas tendas espíritas, convertida na Vovó Anastácia, que gosta de fumo de rolo e de rosas brancas.
     Como bom preceptor, Yolando Guerra atribuiu a Anastácia qualidades que certamente considerava necessárias a um grande vulto popular. Criou para ela uma genealogia africana: "princesa de um povo" (no caso o povo bantu) e filha de Oxum. Mas a devoção a Anastácia não se restringe aos bantu-descendentes, mas a brasileiros e brasileiras de outras etnias e religiões. No Rio de Janeiro, seu culto parece mais sistematizado, o que não impede a existência de devotos em Belém, São Paulo, Minas Gerais e na Bahia, local que abriga um grupo afro exclusivamente feminino, chamado Didá, que tem estampada em seu estandarte a imagem de Anastácia com os dizeres: "Lyá Anastácia. Didá, o poder da criação". Se ela não é reconhecida como santa pela Igreja Católica, o povo lhe delegou poderes de cura e lhe presta homenagens, especialmente no seu dia, 12 de maio. Nessas ocasiões, os devotos revelam no seu ar contrito a riqueza espiritual de uma sociedade como a nossa, capaz de fabricar a possibilidade de olharmos para nós mesmos e de pensarmos, através de Anastácia, no passado escravista e no presente preconceituoso simultaneamente.
Mônica Dias de Souza é mestre em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e autora de Santo de casa também faz milagres: a construção simbólica da escrava Anastácia. Rio de Janeiro: Pallas, 2005 (no prelo).
Fonte: Revista Nossa História - Ano II nº 19 - Maio de 2005