"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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domingo, 20 de maio de 2018

Negros guerreiros

Para os estrangeiros, o Brasil tinha um exército de escravos, o que estava longe de representar a verdade.
Ricardo Salles
          Em carta confidencial ao ministro dos Negócios da Guerra, datada de 13 de dezembro de 1869, o marquês de Caxias, comandante-em-chefe das forças militares brasileiras no Paraguai, depois de louvar feitos de bravura praticados pela tropa brasileira e por seus oficiais, lamentava ter que relatar que assistira a "muitos atos vergonhosos e que altamente depõem contra nosso Exército". Em sua opinião estes fatos se deviam à introdução do elemento servil nas fileiras, com "seus maléficos resultados por meio dos exemplos imorais, e de todo contrários à disciplina e subordinação, dados constantemente por homens que não compreendem o que é pátria, sociedade e família, e que se consideram ainda escravos que apenas mudaram de senhor...". Caxias se referia aos libertos, isto é, escravos recém-libertados por seus senhores, no caso com a finalidade de servir no Exército em campanha no Paraguai.
          A participação de libertos na Guerra do Paraguai é um dos assuntos mais falados e mais deturpados de nossa história. Depois de um longo período em que foi simplesmente ignorada, a partir dos anos 70 do século XX, sua presença na guerra passou a ganhar grande destaque. Nesta época, consolidou-se uma imagem do exército imperial como composto majoritariamente por negros escravos, libertados para fazer a guerra de seus senhores. Estes, diante da convocação militar, teriam optado por enviar seus cativos para a guerra. Por um lado, o silêncio e mesmo acobertamento da participação de libertos na guerra realizados pela memória oficial, sobretudo militar, com seus heróis e monumentos grandiosos. Por outro, baseada em testemunhos preconceituosos e racistas de paraguaios, argentinos, europeus e mesmo de brasileiros, a crítica fácil e sensacionalista de uma versão alternativa que se contenta em ridicularizar a nossa história, sempre vista como farsa. Duas versões opostas, mas que conduzem a um mesmo resultado cruel: um povo sem história, ou com uma história envergonhada.
          Logo de início, um primeiro equívoco desta memória perversa a ser desfeito: como a grande maioria dos soldados brasileiros era composta por negros e mestiços, portanto eram todos escravos. Uma relação simplificada que esconde um enorme preconceito, ainda presente no senso comum e em inúmeros textos historiográficos, que equiparam negros a escravos. Em 1867, no auge da guerra e do recrutamento, os escravos eram 12,4% da população, enquanto que negros e mestiços livres representavam 52,5% deste total. Assim, não há por que assumir, como fizeram paraguaios, argentinos e testemunhas estrangeiras, que os soldados brasileiros, por serem em sua maioria negros, eram escravos. E os cativos libertados para compor as fileiras do Exército que tanto incomodavam Caxias? Não seriam uma comprovação da tese de que escravos libertos por seus senhores comporiam a maioria da tropa que fez a guerra?
          Um "Mapa dos libertos que têm assentado praça desde o começo da guerra", realizado em abril de 1868, que consta do Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra, pode lançar alguma luz sobre o assunto. Dos 70.943 indivíduos enviados para o Paraguai até aquela data, 3.897, ou 5,49% do total, eram libertos. O Relatório, entretanto, assumia que o mapa era incompleto por falta de dados de algumas províncias e que o número de libertos deveria ser maior. Entretanto, não há por que acreditar que este número tenha sido superior a 10% do contingente enviado ao Paraguai. Diferentes investigações sobre o assunto, examinando documentação de recrutamento em províncias que mais enviaram soldados para a guerra, como Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro, confirmam esta afirmação. Mais ainda, sabemos pelas atas de reuniões do Conselho de Estado, realizadas na virada dos anos de 1866 para 1867, que foi considerada e, em seguida, descartada a alternativa de se libertarem escravos em massa para atender às necessidades da guerra. Segundo a maioria dos conselheiros, a medida seria de difícil execução, muito onerosa aos cofres do Estado, já que os donos dos cativos teriam que ser indenizados, e poderia vir a colocar em perigo a ordem pública. Por tudo isso, o Conselho recomendou que a libertação de cativos para a guerra fosse realizada de forma controlada.
          E é exatamente neste ponto que o "Mapa" fornece elementos para se desfazer um segundo equívoco: o de que escravos foram libertados para substituir seus senhores nas fileiras. Os 3.897 libertos arrolados no "Mapa" estão divididos em cinco categorias: da Nação (267); da Casa imperial (67); dos Conventos (95); da Conta do governo (1.806); Gratuitos (753) e Substitutos (889). Escravos da Nação eram os africanos trazidos ilegalmente para o país depois da proibição do tráfico internacional de escravos em 1850 e apreendidos pelo governo, que os mantinha e a seus descendentes - sob sua custódia. Formalmente livres, na prática eram o que a própria designação deixava transparecer, escravos da Nação. Trabalhavam em obras públicas, eram alugados a particulares e, em 1867, prestaram seu último serviço à Nação, indo morrer e matar no Paraguai. Escravos dos conventos pertenciam a estas instituições, formalmente subordinados ao Estado imperial, e que libertaram seus cativos para a guerra. A categoria Conta do governo, com a maior parcela de libertos enviados para a guerra, representava os escravos libertados por seus donos mediante indenização, parte em dinheiro, parte em títulos públicos.
          Libertar escravos fujões, insubmissos ou doentes (ainda que as autoridades militares devessem recusar recrutas sem boas condições físicas) para a guerra mediante indenização, mesmo que parcialmente em títulos públicos, poderia representar um bom negócio e angariar algum prestígio a seus donos por seu ato patriótico de contribuição ao esforço de guerra. Prestígio que também buscavam os senhores que ofereciam seus escravos como Voluntários da Pátria, sem requerer qualquer contrapartida financeira, como podemos observar na rubrica dos Gratuitos.
          É na categoria dos Substitutos, pouco menos de um quarto do total, que podemos encontrar os escravos libertados para fazerem a guerra de seus senhores. Esta rubrica continha claramente o caso dos indivíduos que, convocados para a guerra, enviaram um substituto em seu lugar, prática comum na época, no Brasil e em outros países. Não era raro pagar um indivíduo livre como substituto para o serviço militar, inclusive e talvez principalmente nos períodos de guerra. Na sociedade escravista brasileira, poderia ser mais barato comprar um escravo para este fim, ainda que os documentos também revelem o caso de substitutos pagos. É duvidoso, no entanto, que os que assim agiram fossem filhos de fazendeiros, como quer o senso comum, querendo escapar de suas obrigações militares. Famílias ricas dispunham de meios materiais e de prestígio social mais do que suficientes para evitar que seus filhos fossem à guerra como simples recrutas. O mais provável é que se tratasse de pessoas pobres e remediadas, muitas delas pequenos proprietários de escravos, que não tiveram outro recurso para evitar a ida aos campos de batalha.
          Finalmente, houve um número indeterminado de escravos fugidos que se engajaram como homens livres, buscando, assim, se assegurar de que não seriam reconduzidos ao cativeiro, já que, uma vez aceitos pelo Exército, o governo não permitia sua reescravização. Mesmo que tivesse que indenizar seus antigos senhores.
          A verdade é que o esforço de guerra foi imenso. Entre 150 e 200 mil homens foram mobilizados, um em cada vinte homens, se levarmos em conta somente aqueles em condições de alistamento, isto é, entre 15 e 39 anos de idade. Em relação à população cativa, um em cada grupo de cem escravos do país foi alistado, se estimarmos em 10% das tropas o número de libertos enviados para a guerra. As consequências sociais deste fato ainda não foram de todo analisadas pelos historiadores, principalmente quando consideramos que o recrutamento, além daqueles escravos que foram libertos especificamente para a guerra, incidiu fortemente sobre os habitantes mais pobres, em sua maior parte negros e mestiços, muitos dos quais também libertos, que mantinham relações sociais as mais diversas com a população cativa. A guerra equiparou todos - ex-escravos libertos, escravos fugitivos, substitutos pagos, recrutas do Exército e da Guarda Nacional, brancos, negros e mestiços pobres, jovens patriotas de classe média e de famílias abastadas - como Voluntários da Pátria.
          O Rio Grande do Sul foi a província que mais combatentes mandou para o Paraguai, 34 mil soldados, 17% de sua população masculina. Localizada em área fronteiriça, contava com uma estrutura militar, baseada na organização de corpos da Guarda Nacional, mais permanente. Por isso o número de Voluntários da Pátria foi relativamente pequeno, 3.200 soldados. A Bahia enviou pouco mais de 15 mil soldados, em torno de 2% de sua população masculina, um percentual semelhante à média nacional. Nove mil deles eram Voluntários da Pátria, majoritariamente negros e mestiços, sendo os libertos algo em torno de 10% do contingente mobilizado. A Corte, coração político e cultural do Império, enviou 11.461 soldados, ou 8% de sua população masculina. Destes, 2.482 eram libertos, 22% do total!
          Depois da guerra, a sociedade imperial escravista não seria mais a mesma. O governo tivera que contar pesadamente com o concurso de setores sociais antes excluídos da cidadania restrita: negros e mestiços livres e mesmo com uma parcela simbólica e socialmente significativa de escravos. Já então libertos e, mais importante e inusitado, cumprindo o primeiro dever cívico de cidadãos do Império: a defesa da pátria. A sociedade passara por uma experiência única de mobilização de recursos materiais, mas principalmente humanos e ideológicos que abalaria sua estrutura social hierarquizada e traria consequências diretas para a crise da escravidão e do Império, abrindo caminho para o movimento abolicionista que tomou conta dos corações e mentes de escravos, libertos e pessoas livres na década de 1880.
          É esta memória da guerra, que não deixou apenas vestígios estáticos nos nomes de logradouros públicos em nossas cidades, no bronze frio dos monumentos ou mesmo nas referências em obras de literatura e teatro, que é importante resgatar. Uma memória viva, sofrida e vivida, que se perpetuou em cantigas folclóricas, em ditos populares, como os recolhidos por Manoel Querino, ele mesmo um negro recrutado para a guerra e que, mais tarde, se tornou grande folclorista:
Sou soldado da Pátria aguerrida
muito embora nascido na paz
nasci livre, qual águia no ninho
ser escravo outra vez, não me apraz

Ricardo Salles é professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio) e autor de Guerra do Paraguai. Memórias e imagens. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2003.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004
         
Saiba Mais – Bibliografia
IZECKSOHN, Vitor. O cerne da discórdia. A Guerra do Paraguai e o núcleo profissional do Exército. Rio de Janeiro: E-papers, 2002.
KRAAY, Hendnck. "Escravidão, cidadania e serviço militar na mobilização brasileira para a Guerra do Paraguai", in Estudos Afro-Asiáticos, n. 33, setembro de 1998.
SOUSA, Jorge Prata de. Escravidão ou morte. Os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Mauad/ADESA, 1996.

Saiba Mais – Links

sábado, 19 de maio de 2018

Tropas femininas em marcha

Presença extraoficial nos fortes e acampamentos militares, as mulheres brasileiras formavam um exército invisível que se tornou indispensável no desenrolar da Guerra do Paraguai.  
Maria Teresa Garritano Dourado
          A imagem tradicional que se tem de batalhas e acampamentos militares, repletos de soldados, armas, violência e morte, não inclui mulheres e crianças. No entanto, várias brasileiras, entre mães, esposas, prostitutas, comerciantes, prisioneiras e escravas, desempenharam papel ativo na guerra travada contra o Paraguai, entre 1864 e 1870. Atuando sobretudo na retaguarda, enfrentaram, junto com os homens, os horrores de um conflito bélico.
          Brasileiras de origem humilde, especialmente esposas ou aparentadas de soldados, muitas vezes optavam por acompanhar as tropas com os filhos a tiracolo, quando se viam desprotegidas e sem meios de sobrevivência. Como não havia abastecimento regular nos acampamentos, algumas delas, conhecidas como vivandeiras, se dedicavam à venda de artigos de primeira necessidade e, com frequência, à prostituição. Essas vivandeiras, e demais andarilhas que seguiam os batalhões, criavam modos de vida e sobrevivência na retaguarda, cuidando das crianças, da comida e das roupas. Assim como os homens, sofriam com a marcha extenuante, o sol, o frio, a fome e as doenças que assolavam os acampamentos desprovidos das mínimas condições de higiene.
          Em alguns casos, as mulheres nas tropas também pegavam em armas e socorriam feridos, fazendo curativos e conduzindo-os até os hospitais. Esse tipo de auxílio foi registrado pelo general brasileiro Dionísio Cerqueira em 1870, nas suas reminiscências da guerra: "Nas linhas de atiradores que combatiam encarniçadas, vi-as [mulheres] mais de uma vez aproximar-se dos feridos, rasgarem as saias em ataduras para lhes estancarem o sangue, montá-los na garupa dos seus cavalos e conduzi-los no meio das balas".
          Em A retirada da Laguna, narrativa romanceada sobre uma expedição brasileira na fronteira entre o Mato Grosso e o Paraguai, o autor, Alfredo Taunay, expôs as agruras vividas pelos segmentos femininos, discriminados e sem direito a remédios, cuidados ou abrigo em caso de doença. Nessa expedição, que não suportou nem dois meses de luta devido à falta de abastecimento e à virulência da cólera, coube às mulheres o papel de coadjuvantes anônimas, como se vê no seguinte trecho.
          "Eram setenta e uma mulheres, todas a pé, exceto duas, montadas em bestas; carregavam quase todas crianças de peito ou pouco mais velhas. Por heroína passava uma e todas a apontavam, quando um soldado paraguaio ao tentar lhe arrancar o filho, tomou de uma espada largada no chão, e num salto matara o assaltante." O autor encerra o relato dizendo que, embora essa mãe houvesse adquirido o status de heroína por sua bravura, seu nome não foi registrado em lugar algum.
          Ao longo de toda a guerra, pouquíssimas mulheres do povo obtiveram algum reconhecimento a ponto de sair do anonimato. Eram, quando muito, conhecidas apenas pelo primeiro nome ou apelido. Em Episódios militares, o general-de-brigada Joaquim Silvério de Azevedo Pimentel menciona duas mulheres que o impressionaram: a gaúcha Florisbela e a pernambucana Maria Francisca da Conceição, a Maria Curupaiti. Florisbela, sobre quem não se conhece o nome completo nem a família, envolvia-se em lutas e auxiliava nos hospitais, ao passo que Maria Curupaiti, a esposa de um cabo-de-esquadra, lutava ao lado dos homens sempre vestida de soldado.
          Outra mulher de origem humilde que obteve destaque foi a piauiense Jovita Alves Feitosa, a sargenta Jovita. Em resposta à campanha veiculada pela imprensa conclamando os jovens "a servir ao Brasil", apresentou-se incógnita ao Exército, aos 17 anos, vestida de homem e com os cabelos cortados. A história ganhou as páginas dos jornais e se tornou um dos mais conhecidos casos de alistamento de voluntários da pátria Taunay chegou a comentar o fato com misto de preconceito e ironia: "Chegaram os retratos do Viegas, o meu antigo inspetor, e da interessante Jovita que me pareceu muito engraçada nos seus trajes de primeira-sargenta". Não se conhece toda a trajetória de Jovita após o alistamento nem as circunstâncias de sua morte, em 1867. Segundo uma versão, ela teria se suicidado em 9 de outubro daquele ano, inconformada com o esquecimento a que foi relegada, apesar do recebimento de homenagens e presentes quando retornara dos combates. Outra versão conhecida é a de que teria embarcado para o Paraguai, no vapor Jaguaribe, e morrido na batalha de Acosta Nu.
          Histórias como a de Jovita são exceções. As raras mulheres lembradas pelos memorialistas com direito a nome e sobrenome eram casadas com homens pertencentes à elite imperial. Sobre elas predomina quase sempre o retrato da esposa corajosa, fiel e abnegada, como Ludovina Portocarrero, casada com o comandante do Forte de Coimbra, em Corumbá, às margens do rio Paraguai. Ludovina ganhou destaque por sua participação no grupo de resistência à invasão do forte por tropas paraguaias em 1864. Cerca de setenta mulheres, quase todas esposas de militares, fabricaram 3.500 balas de fuzil adaptando os cartuchos de menor calibre com pedaços de suas roupas. Segundo informações do major César Lucios Mattos Bessa, do 11º RC MEC de Ponta Porã, era possível naquela época fabricar cartuchos artesanalmente, utilizando pequenos pedaços de tecidos e pólvora.
          Dentre todas as mulheres registradas pela história na Guerra do Paraguai, porém, a mais conhecida é a enfermeira voluntária Ana Néri. Viúva de um homem de projeção na época, o capitão-de-fragata Isidoro Antônio Néri, Ana acompanhou e cuidou dos três filhos combatentes até o Paraguai. Na época em que residiu em Corrientes, Humaitá e Assunção, tratou de doentes e feridos em hospitais e amargou a perda de um filho e um sobrinho. Por sua atuação, ficou conhecida como a "mãe dos brasileiros" e recebeu uma coroa de ouro de um grupo de senhoras onde se lia "à heroína da caridade, as baianas agradecidas".   
          Infelizmente, sabe-se pouco sobre a presença feminina na Guerra do Paraguai devido à pequena quantidade de documentos disponíveis a respeito. A maioria dos relatos foi feita por homens que mal mencionam a participação de mulheres ou o fazem com ironia e preconceito. Historiadores são obrigados a rastrear e analisar trechos esparsos sobre o assunto deixados em cartas, memórias, reminiscências e diários escritos por combatentes, a fim de traçar um panorama real do que se passou.

MARIA TERESA GARRITANO DOURADO é mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e professora na Faculdade de Ciências Administrativas de Ponta Porã (FAP), Mato Grosso do Sul.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CERQUEIRA, Evangelista de Castro Dionísio. Reminiscências da Campanha do Paraguai, 1865-1870. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1929.
SOUZA, Luiz de Castro. A Mediana na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1971.
TAUNAY, Alfredo D'Escragnol!e. A retirada da Laguna. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997.
______. Cartas da Campanha de Matto Grosso: 1865 a 1866. Rio de Janeiro: Editora Biblioteca Militar, 1944.

Saiba Mais – Links

terça-feira, 10 de abril de 2018

Moça independente

Insubordinada desde nova, Maria Quitéria se vestiu com o uniforme do cunhado para lutar pela independência na Bahia.
Ronaldo Pelli
     “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem a inteligência clara e a percepção aguda. Penso que, se a educassem, viria a ser uma personalidade notável. Nada se nota de masculino nos seus modos, antes os possuía gentis e amáveis. (...) Nada notei de peculiar no seu procedimento à mesa, (...) e que fume um cigarro após cada refeição. No mais, muito moderada”. Assim a escritora inglesa Maria Graham, tutora das filhas de D. Pedro I, descreveu uma das maiores heroínas do Brasil. Uma mulher que já foi chamada várias vezes de Joana D’Arc brasileira. Uma guerreira que lutou pela independência e se transformou em nome de ruas no Brasil inteiro: Maria Quitéria.
     A declaração da Maria inglesa sobre a sua xará, nascida em 27 de julho de 1792 em um sítio em Cachoeira, na Bahia, aconteceu já depois de a Maria baiana ficar famosa. Filha de Quitéria Maria de Jesus e Gonçalo Alves de Almeida, a menina ficou órfã de mãe aos 9 anos. O pai se casou mais duas vezes, e a segunda madrasta deixava claro que não gostava do jeito “independente” da menina. Era bonita, sabia montar, caçar, manejar armas de fogo e, petulância, dançava lundus com os escravos. Não podia.
     Essa semente de liberdade brotou em setembro de 1822. No dia 6, um mensageiro do Conselho Interino do Governo da Província foi à fazenda de Gonçalo para pedir voluntários da causa da independência. O pai de Maria Quitéria lamentou não ter filhos homens na idade de lutar, mas Maria Quitéria se ofereceu. O pai a censurou: as mulheres são feitas para fiar, tecer, bordar. Não Maria Quitéria.
     Fugiu de casa, pegou a farda do cunhado e se apresentou como soldado Medeiros no Regimento de Artilharia. Semanas depois, foi descoberta, porque o pai a estava procurando. Transferida, então, para o outro batalhão, seu uniforme agora era personalizado: tinha um saiote.                                   
     Já em fevereiro de 1823, mostrou bravura. No confronto em Itapuã, invadiu a trincheira inimiga e fez vários prisioneiros. Em abril, na barra do Paraguaçu, avançou mar adentro junto com outras mulheres, com a água na altura dos seios, e impediu o desembarque de uma tropa portuguesa. Em 2 de julho, o Exército Libertador entrou em Salvador, aclamado. Houve homenagens aos comandantes e a Maria Quitéria de Jesus.
     Por conta de sua atuação, foi recebida pelo imperador Pedro I – quando se encontrou com Maria Graham – ganhando a insígnia imperial da Ordem do Cruzeiro. Até morrer, em 1853, pobre e quase cega, recebeu um soldo de alferes. Além das homenagens, Pedro I ainda tentou ajudá-la nos assuntos domésticos. Enviou uma carta ao seu pai, Gonçalo de Almeida, pedindo que ele a perdoasse. Não é fácil, mesmo, ter uma filha guerreira em casa.

Saiba Mais – Bibliografia
SCHUMAHER, Schuma & BRAZIL, Érico Vital (orgs.). Dicionário Mulheres do Brasil – de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.
SOUZA, Bernardino José de. Heroínas baianas. Lisboa: Paralelo Editora, 1972.
VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

Saiba Mais – Documentário
Maria Quitéria
Na luta pela Consolidação da Independência na Bahia, uma surpresa: o soldado Medeiros, bravo e audaz, era na verdade Maria Quitéria de Jesus. Pelo exemplo de altivez e independência, tornou-se símbolo do movimento de emancipação feminina.
Nasceu em Feira de Santana (BA), no ano de 1792, e morreu em 21 de agosto de 1853.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Uma rainha para a República

A sagração de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil em 1931, foi o ponto alto de uma história que se inicia no século XVIII e envolve mistério, fé e política.
Juliana Beatriz Almeida de Souza
          Habitações de pau a pique erguidas ao redor da capela de Santo Antônio, no pequeno outeiro à margem direita do rio Paraíba, deram início, em meados do século XVII, à vila de Guaratinguetá. Passagem obrigatória em direção às Minas Gerais e ao rio das Velhas, para os que vinham de São Paulo ou Rio de Janeiro, o povoado se desenvolveu com suas roças de mantimentos e colônias de pesca que garantiam a subsistência dos habitantes e das tropas que por ali passavam.
          Os moradores eram gente nascida e criada em extrema pobreza: rudes padrões de habitação, alimentação e vestuário. Não era diferente para João Alves, Domingos Garcia e Felipe Pedroso, três pescadores da vila. Num dia de outubro de 1717, época ruim para a pesca, saíram, como sempre, para trabalhar. Ficaram horas nas suas canoas, sem resultado. Mas tinham de insistir. O governador recém nomeado da capitania de São Paulo e Minas do Ouro, Pedro de Almeida Portugal, futuro conde de Assumar, passaria por ali, para assumir seu cargo em Vila Rica, e era preciso recebê-lo bem. Os membros ilustres do lugar pretendiam fazer um banquete em sua homenagem, com fartura de pescado. E, no entanto, os peixes não apareciam.
          João Alves lançou novamente a rede e, dessa vez, sentiu um peso na malha. Quando a puxou, percebeu no fundo um pequeno objeto de cor escura que identificou como a imagem de Nossa Senhora, sem a cabeça. O pescador atirou de novo a rede. Veio, então, a cabeça da Virgem. Eles a guardaram e voltaram a pescar. Daí em diante, o sucesso foi tal que os três, com os barcos abarrotados de peixe, decidiram voltar para casa, com medo de naufragarem.
          Unindo a cabeça ao tronco da imagem com "cera da terra", Felipe Pedroso conservou-a em casa. Após a sua morte, o filho, Atanásio Pedroso, construiu um altar e um oratório para a imagem que ganhou manto e coroa artesanais. A devoção foi crescendo e o culto à Virgem surgida nas águas do Paraíba acabou oficializado pela Igreja, em 1743. Já na segunda metade do século XVIII, capelas e oratórios dedicados a Nossa Senhora da Conceição Aparecida foram construídos em outros lugares, nos quais a fama da Senhora foi levada pelos tropeiros, sertanistas e mineradores, desde Sorocaba até Campos de Curitiba, Laguna e Viamão, na direção sul; e a Cuiabá e a Goiás. A Virgem seguia o caminho do ouro. O título "Aparecida" deve ter surgido nesses primeiros tempos de devoção, denotando as circunstâncias do encontro dessa imagem de Nossa Senhora da Conceição: aparecida das águas. No século XIX, o culto continuou se expandindo e a capela recebia visitas ilustres: em 8 de dezembro de 1868, na festa da Imaculada Conceição, a princesa Isabel e o conde d'Eu foram à capela e consta que, na ocasião, doaram à imagem uma coroa de ouro.
          No início da República, o culto à Virgem passou a ser promovido de forma especial pela Igreja católica. Esta, compreensivelmente, recebeu a nova ordem política com desconfiança. Com o advento da República, o Estado se separou da Igreja, extinguindo-se o Padroado - conjunto de direitos, privilégios e deveres concedidos pelo papado à Coroa portuguesa -, que a Constituição de 1824 ratificara e a de 1891 suprimira. Era hora, enfim, de a Igreja brasileira redefinir o seu lugar na sociedade. O final do século XIX e o início do XX significaram, para ela, um momento de desenvolvimento institucional, com o fortalecimento de suas estruturas internas, criação de novas dioceses, aumento do controle episcopal sobre o clero e crescimento das ordens religiosas, com a chegada de um novo fluxo de sacerdotes estrangeiros. Mas, parece ter sido a busca por símbolos que representassem a recém-inaugurada República o mote do projeto de fazer da Virgem de Aparecida um símbolo católico genuinamente brasileiro. Essa escolha ligava-se à tradição devocional mariana, ou seja, ao culto à Virgem Maria, presente desde os tempos coloniais, apresentando ainda a vantagem de a imagem ser de cor escura, o que sugeria, também, um possível canal de inclusão dos negros entre a crescente legião de devotos.
          Em novembro de 1903, seguindo uma decisão dos bispos da província meridional do Brasil, d. Joaquim Arcoverde, arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, solicitou à Santa Sé, sendo atendido, licença para coroar solenemente a imagem, escolhendo 8 de setembro, dia da Natividade de Nossa Senhora, para os festejos. Foi a primeira vez, no Brasil, que se organizou uma cerimônia desse tipo. Os bispos buscavam, com a solenidade, renovar o culto a Maria e oficializar o gesto que a devoção popular já havia consagrado, de enfeitar com manto e coroa o objeto da sua devoção. Além dessa intenção, havia o desejo de mostrar ao governo republicano a força da fé católica. Em lugar da figura do rei paternal, a Igreja oferecia a figura maternal de uma rainha, com poderes especiais para ouvir as demandas de seu povo e, se justas, atendê-las. Nossa Senhora Aparecida podia se transformar, também, no símbolo feminino que o novo regime tanto procurava.
          Foi no final dos anos 1920 que o projeto de tornar a Virgem de Aparecida símbolo nacional se configurou plenamente. Em setembro de 1929, o episcopado brasileiro reunido em Aparecida, no Congresso Mariano, comemorava o jubileu de prata da coroação da imagem. Ao final do Congresso, o então arcebispo do Rio de Janeiro, d. Sebastião Leme, liderou um movimento para pedir ao papa que a Virgem fosse reconhecida como "rainha e padroeira do Brasil". Em 16 de julho de 1930, Pio XI assinou o decreto atendendo à solicitação. O pontífice acreditava estar colaborando assim para o aumento da devoção mariana, em especial sob a invocação da Imaculada Conceição. Acontecimento assim, de tamanha relevância, deveria ter comemoração à altura. A festa também precisava de cenário especial, representativo de toda a nação. O ano era 1931. O lugar escolhido, a cidade do Rio de Janeiro, então capital federal.
          Ato de fé e patriotismo, a cerimônia atingiu seus objetivos máximos. A nação republicana ganhava a proteção da Virgem negra de Aparecida, cuja mensagem de harmonia social vinha contribuir para a consolidação das bases políticas no Brasil dos anos 30. Nessa época, a Igreja católica no Brasil buscava a consolidação interna e a reafirmação de seu poder e de sua imagem perante a sociedade. Ao mesmo tempo, o governo de Getúlio Vargas procurava instaurar uma nova ordem política e social movida pela valorização do trabalho e baseada na conservação da família tradicional. A religião se apresentava, então, como um dos elos capazes de unir a todos, sem distinções.
          O período pode ser percebido, portanto, como o da reaproximação mais efetiva entre o Estado e a Igreja após a Proclamação da República. A 12 de outubro de 1931, também no Rio de Janeiro, foi inaugurado o Cristo Redentor, no alto do Corcovado. Novamente se combinaram os ingredientes que fizeram o sucesso da procissão em homenagem à Virgem, cinco meses antes: uma semana de preparação dedicada ao Cristo, ato público com concentração popular e presença de bispos e autoridades públicas de todo o país, entre elas Getúlio Vargas. A ocasião foi igualmente bem aproveitada por d. Sebastião Leme, que entregou ao presidente um documento com reivindicações católicas para uma futura Constituição. O ensino religioso nas escolas públicas e corporações militares se destacava entre as questões para as quais pedia atenção.
          Assim, a Igreja defendeu o respeito às instituições públicas, postura que agradava ao governo, reivindicando, entretanto, uma legislação de acordo com a doutrina católica. Percebia, na verdade, a proximidade de uma renovação política no Brasil na qual deveria influir, e a união dos bispos em torno do culto à Virgem de Aparecida representou um passo importante nesse sentido. Numa época em que a ideia comunista fermentava no mundo, a Igreja temia pelo seu futuro no país, mas a fé popular contribuiu para assegurá-lo. Devoção religiosa e projeto político se combinaram, portanto, na escolha de Nossa Senhora Aparecida para Padroeira do Brasil.

JULIANA BEATRIZ ALMEIDA DE SOUZA é professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro e autora de "Mãe negra de um povo mestiço: devoção a Nossa Senhora Aparecida e identidade nacional". In: Estudos Afro-Asiáticos. Rio de Janeiro, n. 29, p. 85-102, 1996.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 1 nº 12 - Outubro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
BEOZZO, J. O. "A Igreja entre a Revolução de 30, o Estado Novo e a Redemocratização". In: FAUSTO, Bóris (org.). História Geral da Civilização Brasileira. Tomo III, v. 4. São Paulo: Difel, 1984.
BRUSTOLONI, Júlio, pe. A Senhora da Conceição Aparecida: história da imagem, da capela, das romarias. 6a ed. Aparecida: Editora do Santuário, 1986.
CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
FERNANDES, Rubem César. Romarias da Paixão. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.
PAULA, David Ferreira. "O exercício político da fé: igreja e poder nos anos 30 e 40". In: Pós-História, v. 1, p. 71-77. Assis, 1993.

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domingo, 14 de janeiro de 2018

Sob o manto de Isabel

Republicanos como Rui Barbosa e até mesmo monarquistas destronados não conseguiam compreender o sentimento de devoção dos ex-escravos pela princesa que assinou a Lei Áurea.
Robert Daibert Junior
          No dia 13 de maio de 1891, na cidade de Mar de Espanha, em Minas Gerais, um grupo de ex-escravos foi preso por autoridades republicanas. Motivo: comemoravam o terceiro aniversário da Abolição. Eles ostentavam a bandeira do Império, ameaçavam queimar a da República, e davam vivas à monarquia e à princesa Isabel. Este episódio serve para mostrar a dificuldade do novo regime em apagar da memória coletiva a popularidade da monarquia e, em especial, da princesa Isabel. Curiosamente, celebrações como essa foram muito comuns e se multiplicaram por todo o país desde a assinatura da Lei Áurea, em 1888. Foi assim que a princesa se consagrou, no imaginário popular, como a "Redentora". Mas o que teria tornado possível esse tipo de "canonização"? Por que os ex-escravos - muitos dos quais lutaram bravamente pelo fim do escravismo - dobravam seus joelhos, respeitosamente, diante da princesa branca? Teria sido esta uma prova de "alienação", como se diria hoje? Como eles interpretavam a atitude de Isabel?
          Entre negros africanos e seus descendentes, a figura da princesa se revestiu, por décadas, de um significado muitas vezes incompreendido até mesmo pelos monarquistas destronados. Meses antes da queda do Império, o republicano Rui Barbosa comentava indignado o fenômeno. Inconformado com as manifestações de gratidão que os negros devotavam à princesa Isabel, ele só encontrava uma explicação para o fato: eles não sabiam como desfrutar da liberdade alcançada. Encarava essa devoção como mau uso da condição adquirida. Via essas atitudes e comemorações como expressões de servilismo e subserviência. Nas palavras do jurista e político, publicadas no Diário de Notícias, de 19 de março de 1889, "ao manipanso [ídolo africano] grotesco das senzalas, próprio para a gente da África, sucedia o feiticismo da ídola tria áulica, digna de uma nação de libertos inconscientes". De acordo com a apreciação de Rui, os negros estariam dando continuidade ao costume de adorar ídolos. Considerava-os inconscientes devido a sua herança e costumes selvagens. Se por um lado estava certo em considerar a atitude dos negros uma continuidade, por outro não se dava conta de que, ao comemorarem a Abolição saudando e enaltecendo a princesa, estavam expressando sua concepção de realeza tal como a entendiam na África. Não se tratava de uma má assimilação da ideia de liberdade, mas de uma maneira diversa de compreender e comemorar essa conquista. Invertendo-se o olhar, a inconsciência não vinha dos negros, mas do próprio Rui, que não conhecia nem compreendia os meandros da cultura africana.
          A realeza fazia parte da organização social de muitos povos africanos. Era assim que concebiam sua organização. Tal fato pode ser constatado na organização dos quilombos no Brasil. Quando fugiam, os escravos se organizavam em comunidades sob o governo de um rei e de uma rainha. Além da figura do rei-guerreiro, também era comum a presença do rei-sacerdote e divino, responsável por presidir as colheitas e mediar a relação da comunidade com os espíritos ancestrais.
          Assim como os portugueses, os africanos, em sua terra natal, tinham o costume de assistir a cortejos reais, o que facilitou a reconstrução e adaptação de tais práticas em solo americano. Ao chegarem no Brasil, não abandonavam completamente suas raízes. Mais ainda, passavam a prestar obediência aos reis e príncipes portugueses e, após a Independência, ao imperador do Brasil. A primeira vista, este fato poderia servir de argumento para aqueles que viam nos negros a incapacidade de tomar consciência de sua posição de dominados. Festejar tais aclamações significaria uma espécie de alienação quanto à exploração que lhes era imposta pelo domínio português. Mas a conclusão não é tão simples assim. A formação dos estados monárquicos no continente africano era muitas vezes fruto de uma conquista que permitia a um grupo forte (do ponto de vista do armamento militar) sobrepor-se a um povo militarmente mais fraco, que passava a ser explorado. Para muitos povos, a guerra era o principal modo de produção das organizações políticas. Não havia como sobreviver de outro modo. As comunidades se enfrentavam em guerras e os perdedores se transformavam em súditos de seus dominadores. Por meio da cerimônia da coroação, o rei, visto como conquistador e usurpador, passava a monarca, de natureza sacerdotal ou mesmo divina. Aquele que trouxe a morte, por meio da guerra, tornava-se portador da vida.
          O mesmo ocorria com os africanos e seus descendentes no Brasil. Era familiar, aos seus olhos, participar da cerimônia e das festas de coroação de um novo rei. Não se consideravam vencidos. Impondo significados distintos, participavam dos festejos cívicos e das cerimônias promovidas pela monarquia. Nas cerimônias de coroação, nas festas cívicas e nos cortejos imperiais, o imperador era festejado com batuques e congadas. Ao participarem de tais eventos davam prosseguimento, atualizavam e ao mesmo tempo revestiam suas concepções culturais de novos significados.
          Segundo o historiador Robert Slenes, a maioria dos escravos importados para o Sudeste brasileiro, do final do XVIII até 1850, veio das sociedades falantes das línguas banto situadas na África Central, especialmente Angola e Congo-Norte. Seus valores estariam associados ao conceito de ventura-desventura, ou seja, "a ideia de que o universo é caracterizado em seu estado normal pela harmonia, o bem-estar e a saúde, e que o desequilíbrio, o infortúnio e a doença são causados pela ação malévola de espíritos ou pessoas, frequentemente através da feitiçaria". Considerando-se este preceito banto, podemos acrescentar que nas coroações simbólicas dos reis e rainhas realizadas pelos negros em suas festas religiosas no século XIX estava em jogo um importante processo de construção da nacionalidade brasileira nos moldes africanos.
          Nessas festas, a conversão de todos ao cristianismo era encabeçada por uma liderança africana. Curiosamente os negros eram vencedores porque contavam com a proteção de Nossa Senhora do Rosário, uma santa branca, que em determinadas ocasiões era pintada de preto pelos escravos. Brancos e negros eram assim integrados no ritual religioso. Nos sonhos e expectativas dos cativos, criava-se a possibilidade de construção de uma grande família, em que os conflitos e diferenças eram neutralizados e os estrangeirismos incorporados.
          Os conflitos entre os diferentes grupos eram resolvidos simbolicamente. Os negros, nas congadas, expressavam a expectativa de uma liberdade futura, quando sua felicidade seria restabelecida. Esta deveria ser alcançada após a resolução do conflito e coroada com a bênção de uma santa protetora, que, identificando-se com os anseios dos negros, promoveria a paz entre os grupos rivais. O caminho era a incorporação de novos valores aos já existentes. Ao final da guerra, os povos perdedores e vencedores, bem como seus referenciais culturais, seriam incorporados sob o manto do governante vencedor. Este, a partir de sua coroação, perderia o caráter usurpador para se transformar num promotor da justiça coletiva. Identificando-se com o povo reunido, reinaria de modo a ordenar e administrar as diferenças.
          "Vencidos" na África, os negros eram escravizados e trazidos para o Brasil. Tornavam-se súditos de um novo rei, com quem deviam se identificar e prestar obediência. Aqui chegando, no entanto, eram submetidos a novos "governos". Dentro das fazendas, permaneciam sob o comando dos feitores e senhores de escravos que lhes presenteavam com um cotidiano recheado de violência e exploração. Sentiam na pele os sofrimentos decorrentes de seu infortúnio e desventura. Muitos reis, rainhas e príncipes africanos eram escravizados e vendidos, juntamente com seus súditos, como escravos comuns. Mas, como diz o ditado popular, "quem já foi rei nunca perde a majestade". Em solo brasileiro, os negros continuavam a prestar obediência a seus soberanos antigos, estivessem eles presentes fisicamente ou não. Ao mesmo tempo, d. Pedro II era visto como um benfeitor. Perdoava condenados à morte e, em suas viagens pelas províncias do Império, sempre alforriava escravos como demonstração de suas intenções abolicionistas.
          Em sua guerra cotidiana contra a escravidão, os escravos viam nos senhores os inimigos de uma luta que se travava diariamente no convívio com seus opressores. Sua aproximação com o imperador, no entanto, dava-se somente em ocasiões especiais, geralmente festivas. Eram momentos em que podiam vivenciar seus sonhos de modo simbólico. Certamente as concepções africanas favoreceram não só a legitimidade do regime monárquico entre os negros, como também possibilitaram a neutralização de conflitos maiores. Em suas revoltas, os negros expressavam o descontentamento contra seus senhores, feitores ou policiais que os perseguiam. Mas não chegavam a pensar em derrubar a monarquia, embora esse temor estivesse presente no horizonte das elites imperiais.
          Em uma entrevista coletada por Gilberto Freyre, dona Maria Vicentina de Azevedo Pereira de Queirós, de origem aristocrática, nascida em São Paulo, no ano de 1868, relata: "Foi com grande alegria que recebi a notícia da Abolição e, em São Paulo, onde residia, assisti às grandes festas que fizeram na data de 13 de maio. Armaram grandes coretos nas ruas principais e ao som de bandas de música os escravos dançavam e cantavam, dando vivas e mais vivas à princesa Isabel, a 'Redentora'." Ao dançarem, os negros festejavam a concretização do sonho de liberdade que simbolicamente haviam vivenciado durante as festas no tempo do cativeiro. O que antes só era representado por meio de dramatizações, agora se tornara realidade. Nas festas em comemoração da Abolição, demonstravam grande satisfação, pois imaginavam estar retomando, e não apenas simbolicamente, a harmonia e o equilíbrio natural, que lhes havia sido retirado. No canto dos negros, este aspecto fica evidente. Com grande alegria entoavam: "Eu pisei na pedra, pedra balanceou/ Mundo tava torto, rainha endireitou." O estado de pureza, harmonia e bem-estar original estavam comprometidos. Seu "mundo estava torto". Acreditavam que a recriação deste estado de pureza por meio de rituais e festas, onde a figura do rei estava sempre presente, possibilitava agora o alcance de suas metas. Assim, a rainha teria corrigido a instabilidade e o desequilíbrio de seu mundo. A ação da regente se confunde com uma atitude divina. Como uma santa abençoa seu povo, livrando-o do estado de miséria. Na formação da imagem de Isabel são associados aspectos da religiosidade e da cultura africanas com a concepção cristã de salvação. A ideia de ruptura entre dois tempos - a escravatura e a abolição - tinha assim a intenção de apagar a lembrança de um passado marcado pela violência e pela exploração de brancos.
          A Abolição foi carregada de um sentido especial para os negros, na medida em que possibilitou uma melhor expressão de seus valores culturais. Ao mesmo tempo, abriu as portas para o estreitamento dos laços de solidariedade entre eles. Por meio da exaltação da figura de Isabel, canalizavam-se lealdades distintas em torno de uma mãe protetora. Assim como Nossa Senhora do Rosário, Isabel se identificava como a responsável pela vitória dos negros e pela incorporação dos demais grupos. Sob seu manto, brancos, negros e índios eram acobertados. A construção da nação se completava neste grande momento de patriotismo.
          O modo pelo qual os negros vivenciaram a Abolição e interpretaram a ação da princesa favoreceu a construção de uma imagem monarquista do fim do cativeiro. Valendo-se dos referenciais transplantados da África para o Brasil, a ideia da abolição como redenção dos negros ganhou grande visibilidade. Na luta entre "reinos" e domínios sua liberdade foi conquistada pelas mãos de uma princesa. Ao final da luta, Isabel foi coroada rainha e a paz se estabeleceu entre os grupos. No entanto, a princesa não chegou efetivamente a reinar. Em outra "guerra", foi destronada por seus inimigos republicanos e exilada para um país distante. Experiência nada desconhecida pelos seus súditos. Ao perder o trono, completava a obra da redenção: sacrificava-se pelos seus, como Cristo no Calvário. Nas quadrinhas cantadas por crianças brasileiras era comum se ouvir os seguintes versos: "Princesa dona Isabel/ Mamãe disse que a Senhora/ Perdeu seu trono na terra,/ Mas tem um mais lindo agora./ No céu está esse trono/ Que agora a senhora tem/ Que além de ser mais bonito/ Ninguém lho tira, ninguém."
          A princesa não foi esquecida nem abandonada. Mesmo não tendo chegado ao trono, foi coroada nas inúmeras festas que até hoje comemoram o fim da escravidão. As congadas ainda são realizadas em muitos cantos do Brasil e nelas os reinos prosseguem se enfrentando. Suas apresentações se dão nas festas de Nossa Senhora do Rosário, de São Benedito ou no dia 13 de maio, que também se tornou data importante no calendário do candomblé e da umbanda.

ROBERT DAIBERT JÚNIOR é mestre em História pela Unicamp e autor de Isabel, a "Redentora" dos Escravos: uma história da princesa entre olhares negros e brancos (1846-1988). Bauru, SP: EDUSCIFAPESP, 2004.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 1 nº 12 - Outubro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
FREYRE, Gilberto. Ordem e progresso. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1990.
SCHWARCZ, Lilia. As barbas do Imperador. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SLENES, Robert W. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava. Brasil, Sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
SOUZA, Marina de Mello. Reis negros no Brasil escravista: história da festa de coroação de Rei Congo. Belo Horizonte: Editora da UFMC, 2002.
STEIN, Stanley. Grandeza e decadência do café no Vale do Paraíba. São Paulo: Brasiliense, 1961.

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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Procurando negros e ouro


          A história dos quilombos e dos escravos que os habitaram é também uma empolgante narrativa de sonhos de liberdade. Durante os mais de trezentos anos de escravidão no Brasil funcionaram como "válvulas de escape" para as tensões e a violência do cotidiano das senzalas. Grave ameaça à estabilidade da classe senhorial - para quem os quilombos eram verdadeiras "assombrações”-, foram duramente reprimidos. Além dos capitães do mato, homens especializados na caça de negros fujões, periodicamente eram montadas expedições para a destruição de seus esconderijos. Uma destas partiu, em 1769, da fazenda do Capote (situada hoje no município de Lagoa Dourada, em Minas Gerais) rumo às regiões limítrofes das capitanias de Minas e Goiás. Por capricho do seu líder, o mestre-de-campo Inácio Correia Pamplona, tal expedição foi cuidadosamente relatada. Homem "obcecado em autopromoção”, como afirmou a historiadora Laura de Mello e Souza, Pamplona não só se preocupou com as andanças de sua tropa, como encomendou o desenho de seis plantas de quilombos, dentre as quais merece destaque a do quilombo de São Gonçalo.
          Ao que tudo indica, este se localizava nas proximidades do Triângulo Mineiro, na atual cidade de Araxá, num ponto estratégico entre as serras da região. O mapa apresentado em "fiel cópia", para mostrar como viviam os negros, ilustra um aspecto com um aos quilombos que se espalharam por todo o território colonial: uma eficiente organização interna. No desenho acima, pequenos números associados a uma legenda indicam seus pontos vitais como ferraria (I) ; buracos para fugas (II) ; horta (III) ; entrada com dois fogos [casas] (IV) ; trincheira (V) ; paredes de casa a casa (VI) ; casa de pilões (VII) ; saídas com estrepes [estacas] (VIII) ; matos (IX) ; e casa de tear (X). Logo que a tropa de Inácio Pamplona se deparou com o quilombo - dois meses após a partida da fazenda Capote -, um dos comandantes capturou um negro, pois os outros "calhambolas" - expressão usada para denominar escravos fugidos - escaparam para um novo esconderijo. Como era costume nestas empreitadas, foram confiscados alimentos, como farinha, e "vários trastes e panos de algodão", medida que coibia a reinstalação do abrigo. Os produtos feitos pelos negros serviam não só para o uso interno, mas também para as trocas clandestinas com as vilas e mercados próximos. Para o historiador Flávio Gomes, a sobrevivência dos quilombos se explica não pelo seu isolamento, mas pelo seu complexo envolvimento com a sociedade. O de São Gonçalo, por exemplo, ficava nas imediações da "picada de Goiás", caminho que ligava a capitania de Minas à de Goiás, e seus integrantes, segundo o estudioso José Martiniano da Silva, aterrorizavam as fazendas vizinhas, atacando chácaras e rebanhos.
            A quantidade de esconderijos de escravos era tamanha que, só em Minas Gerais, no século XVIII, o arqueólogo Carlos Magno Guimarães mapeou pelo menos 160 quilombos! Pode-se afirmar, então, que a procura do ouro e a caça aos escravos andavam de mão s dadas, como confirmam os versos toscos de um membro da expedição de Inácio Pamplona: "Tudo feito nesta maneira/ pólvora, chumbo e patrona,/ espingardas à bandoleira,/ entrando duas bandeiras/ Procurando negros e ouro/ Deus nos depare um tesouro". As autoridades locais, perturbadas com esta situação de descontrole da escravaria, conceberam punições bárbaras contra os fujões: cortar uma perna, o tendão-de-aquiles, impedindo-os de correr, ou um braço para aqueles que cometessem assassinato. A Coroa portuguesa, para tentar conter a cruel criatividade dos castigos, recomendava alternativas, como marcar com ferro em brasa a letra "F” sobre as costas ou cortar uma orelha, no caso de reincidência da fuga.
          Por estes motivos, homens de posses aceitavam a missão dispendiosa de financiar expedições de caça aos quilombolas. A do mestre-de-campo Inácio Pamplona era composta por 58 escravos armados com espingardas, facões e pólvora, músicos (nove escravos e um homem branco) que levavam violas, rabecas, trompas, flautas e tambores, 52 bestas de carga com comidas e bebidas, um cirurgião, sacerdotes e dois capitães. Além do de São Gonçalo, a comitiva passou pelos quilombos do Ambrósio, da Samambaia, do Rio da Perdição, dos Santos Fortes e o dos Braços da Perdição.
          Representações como a do quilombo de São Gonçalo são raríssimas e praticamente inéditas, por isto sua importância para a compreensão das formas de sobrevivência de milhares de negros foragidos, durante os séculos de escravidão no Brasil. O relato da expedição, Notícia diária e individual das marchas e acontecimentos mais condignos da jornada que fez o senhor Mestre de Campo Regente, e Guarda-mor Inácio Correia Pamplona..., se encontra na Divisão de Manuscritos da Biblioteca Nacional, e foi publicado, em 1988, no volume 108 dos Anais da Biblioteca Nacional. O leitor interessado pode consultar os Anais no site www.bn.br, clicando no link "Pesquisa no Acervo" e procurando em "Acervo Geral" a opção "Biblioteca Digital".

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

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