"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O delírio de um Brasil nazista

Novo livro de embaixador revela plano de Hitler: dividir a América do Sul, com o apoio da Argentina, em quatro países-satélites do III Reich.
          Durante a Segunda Guerra, numa rua do Rio de Janeiro, um agente secreto inglês esbarrou num cidadão alemão, que teve morte instantânea. Dentro da sua pasta foi encontrado um mapa exibindo um novo desenho da América do Sul. Por ele, vários países desapareceriam, e o território da Argentina, a grande beneficiária da divisão, cresceria consideravelmente, avançando em direção à Amazônia.
          Como os Aliados ganharam a guerra, o delírio nazista de transformar a América do Sul em colônia do III Reich não foi em frente. Mas forneceu ao acadêmico e embaixador Sérgio Corrêa da Costa os elementos para um livro interessantíssimo: Crônica de uma guerra secreta, que está sendo lançado [...] pela Editora Record. Misturando espionagem política, mistério, aventuras e impressões pessoais, o autor faz revelações surpreendentes sobre uma aliança entre a Argentina, na época governada por Juan Domingo Perón, e a Alemanha nazista, com vistas ao domínio da América do Sul.
          Jovem diplomata servindo em Buenos Aires entre 1944 e 1946, Corrêa de Castro teve acesso, "muito antes de James Bond nos ter ensinado o caminho", aos "recintos mais vigiados" do Archivo General de la Nación e conseguiu fotografar documentos ultrassecretos, nas suas palavras "altamente comprometedores do governo argentino".
          De fato, algumas frases de Perón reunidas pelo autor soam hoje quase inacreditáveis. "Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso", escreveu o então coronel Perón no manifesto do Grupo de Oficiais Unidos (GOU), em 1943, poucas semanas antes de assumir o governo. E acrescentou: "A luta de Hitler, na paz e na guerra, nos servirá de guia". A rivalidade histórica da Argentina em relação ao Brasil ganhou força quando o nazismo ascendeu ao poder na Alemanha.
          A ideia de Hitler não era dominar nosso país militarmente, mas por uma eficiente estratégia de infiltração que incluía pesados investimentos em propaganda. Disse ele: "Não desembarcaremos tropas como Guilherme, o Conquistador, para dominar o Brasil pela força das armas. Nossas armas não são visíveis. Nossos 'conquistadores' [...] têm uma tarefa mais difícil que a dos originais, razão pela qual disporão de armas igualmente mais difíceis".
          A seguir, trechos do capítulo 11 de Crônica de uma guerra secreta, que no livro se intitula "O desmembramento do Brasil". Nossa História agradece ao autor e à Editora Record pela autorização para a publicação.

"Criaremos no Brasil uma nova Alemanha. Encontraremos lá tudo de que necessitamos."
Adolf Hitler, 1933

          O jornalista francês Pierre Dehillotte, antigo redator do Temps e do Journal des Débats, dedicou-se intensamente ao estudo da Gestapo, sua organização, estruturas de comando e, notadamente, as atividades dos agentes enviados ao exterior. Correspondente em Berlim e, a seguir, em Viena e Praga, entre 1932 e 1938, pôde acompanhar muito de perto a ascensão de Hitler e a montagem dos planos nazistas de domínio da Europa. Foi, portanto, testemunha ocular dos dramas que sacudiram, consecutivamente, a Alemanha democrática, a Áustria independente e a Tchecoslováquia livre. Suas antevisões e profecias foram argutas e precisas, evidência de acuidade do observador político.
          Ao analisar o expansionismo alemão, deu-se logo conta de que não se limitava ao continente europeu. Concentrou, por isso, sua alça de mira nas organizações do Partido Nazista no exterior (AO), sob o comando do Gauleiter Ernst Wilhelm Bohle, com sede em Munique, a Auslanddeutschesverein. Como jornalista francês, Dehillotte procurou pretextos para visitar a sede da organização. Observou que nas salas contíguas ao gabinete do Gauleiter trabalhavam equipes de estatísticos, sociólogos, etnógrafos, técnicos e especialistas do Lebensraum (espaço vital) empenhados em planos de organização e emprego das populações nas áreas que integrariam a futura Grande Alemanha.
          O coordenador dos serviços com quem se entreteve chamava-se Herr Kurtfalkenraum, cordial e atento, cabelos grisalhos e uniforme da Wilhelmstrasse. Não recorreu a subterfúgios ou escusas e discorreu, com naturalidade, sobre os trabalhos em curso. Àquela altura - alguns anos antes do início do conflito - parecia normal que o Terceiro Reich procurasse a melhor maneira de dotar o povo alemão do espaço vital de que necessitava. Segundo os slogans hitleristas, uma vez que a distribuição das terras havia sido feita ao azar das conquistas de ontem - portanto de maneira injusta e antieconômica -, o status quo não deixava margem a uma distribuição equitativa das matérias-primas. O continente sul-americano, sobretudo o Brasil, com seus 8 milhões de quilômetros quadrados quase desabitados e inexplorados, bastava para comprovar a validade do teorema nazista dos espaços vitais a conquistar e a redistribuir. "A América do Sul", afirmavam os apóstolos do Lebensraum de ultramar, "fornecerá a solução definitiva ao problema demográfico europeu." Logo que "esse continente de mestiços se tornar um protetorado alemão", expressão atribuída a Adolf Hitler, "a emigração europeia deverá ser intensificada por um organismo especial e se dirigirá de preferência aos países latino-americanos".
          "Aqueles fichários, dossiês e atlas", escreveu Dehillotte, "cogitavam nada menos que da reorganização e emprego das futuras populações conquistadas da Grande Alemanha Nacional-socialista. Nesta seção especial e discreta", concluiu com fino humor, "pacientes estatísticos cortavam e recortavam as peles dos ursos árticos e antárticos antes de tê-los matado."
          (...)
          Como acabamos de ver, é antigo o gosto alemão pela geografia política, posta a serviço de desígnios de expansão territorial. Muito antes da confecção do mapa nazista em que foi redesenhada a América do Sul, outros ensaios foram feitos, invariavelmente levados a sério.
          Começo esta evocação do caso brasileiro pelos estudos do pensador pangermânico, Otto Richard Tannenberg, considerado, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o mais autorizado porta-voz do esquema de hegemonia mundial. No seu GrossDeutschland, die Arbeit des 20. Jahrhunderts (A Grande Alemanha, obra do século XX), publicado em Leipzig, 1911, Tannenberg estabelece o princípio da repartição das Américas Central e do Sul entre as grandes potências imperialistas, reservando para a Alemanha a zona subtropical banhada pelo Atlântico.
          Por que tantos "estados" nas Américas Central e do Sul? Simplesmente - pontifica Tannenberg porque Espanha e Portugal "se mostraram incapazes de governar países no ultramar". Ora, continua, os habitantes nada conseguiram de bom, pois tampouco se encontram em condições de se governarem. Um déspota tenta suplantar o outro, o que explica as contínuas revoluções e sangrentas guerras em proveito de algum tiranete, ávido de glória e de riqueza, enquanto se mantém o povo oprimido e na ignorância. Em contraste com a América anglo-saxã, em que os indígenas desapareceram quase por completo, nos demais países são os brancos que se encontram em via de desaparição. No Paraguai e no Peru, exemplifica, constituem apenas 14% da população. No Equador, o percentual desce a 7%, na Colômbia a 6%. O restante da população "se compõe, aproximadamente e em igual proporção, de mestiços e gente de cor, índios ou negros".
          Contra esse pano de fundo, Tannenberg descreve os contornos da grande "Alemanha do Sul", a ser implantada no nosso subcontinente. De acordo com seu mapa, abrangeria todas as terras ao sul de uma linha que começa no litoral atlântico do Brasil, na altura do Rio de Janeiro, e termina no Pacífico, em Antofagasta, o grande porto chileno exportador de cobre e nitratos. País fabuloso, abrangeria o Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul ("onde reina a cultura alemã"), Paraguai, o terço meridional da Bolívia ("por integrar a bacia do rio da Prata"), o Uruguai e as ricas províncias do nordeste argentino:
          "A América meridional alemã nos proporcionará, na zona temperada, um espaço de colonização onde nossos emigrantes conservarão sua língua e autonomia. Exigiremos, porém, que o alemão seja ensinado nas escolas como segunda língua. O Sul do Brasil, o Paraguai e o Uruguai são países de cultura alemã. O alemão passará a ser a língua nacional."
          Seria este o "Primeiro Estado Alemão Americano Independente". Primeiro, porque concebido como pedra angular de um outro, especialíssimo - a "Alemanha Antártica", menina dos olhos de vários geopolíticos alemães.
          Tal como no texto de Tannenberg, o atlas Deutschland und die Welt (Alemanha e o mundo), concluído pouco antes do início da Segunda Guerra, indica também as fronteiras da Alemanha Sul-Americana, em que o Sul do Brasil volta a aparecer, nitidamente, como colônia alemã.
          Ao evocar essa e outras demonstrações do imperialismo germânico, um ilustre pensador político uruguaio, Hugo Fernandez Artucio, assinala que, a despeito das aparências fantasiosas, vinham sendo objeto de séria consideração havia um século, talvez mais. Cita o grande estadista e pensador argentino Domingo Faustino Sarmiento, que transcreveu, no El Nacional, comentário de La Revue Politique et Littéraire, de 13 de maio de 1882, a propósito de dois artigos na revista Deutsche Rundschau sobre as futuras colônias alemãs. O primeiro procura demonstrar a necessidade de a Alemanha dispor de suas próprias colônias para receber os emigrantes que levam trabalho e indústria a países estrangeiros. As províncias do Rio Grande do Sul e do Paraná seriam particularmente adequadas, já dispondo de importante componente germânico. Argentina, Uruguai e Paraguai são também citados como ideais para a colonização alemã.
          "Não será necessário o emprego da força, pois o governo alemão somente interviria para assegurar aos seus nacionais os direitos consagrados nos tratado. A tarefa será empreendida por uma empresa privada, de enorme capital, a qual espalhará suas raízes em toda a Alemanha. O espírito que inspira o empreendimento fará com que, após um certo tempo, os países colonizados se transformem - ipso facto - em colônias alemãs. Tal como disse Bismarck: 'O fato cria o direito'."
          (...)
          Radicados no Brasil segundo planos traçados pelo governo alemão, os colonos encontraram um país em que o governo, se pouco ou quase nada fazia por eles, também não impunha restrições ao desenvolvimento de suas atividades. Portanto, um cenário ideal para os planos de subversão nazista. De modo geral, os colonos manifestavam discreto interesse pelo país, evitavam disputar cargos eletivos, procurando seguir com muito maior interesse o que se passava na mãe pátria. Casos como os de Lauro Muller e Adolfo Konder, governadores de Santa Catarina, eram relativamente raros. Lauro Muller, ministro das Relações Exteriores em 1913, renunciou ao cargo em protesto contra a decisão brasileira de romper com o Império Alemão, na Primeira Guerra Mundial.
          (...)
           A conjuntura brasileira em 1933-34 - primeiros anos do reinado de Hitler - oferecia um cenário particularmente favorável aos planos sinistros do nacional-socialismo. Os efeitos da depressão americana de 1929 ainda se faziam sentir. Nossas exportações continuavam em níveis baixíssimos, o governo Vargas ainda buscando se consolidar no poder, uma vez vencida a guerra civil paulista, porém sem lograr inverter a persistência de distúrbios aqui e acolá no imenso país. (...)
          Em São Paulo, os nazistas se deram conta de que se impunha cautela especial, por julgarem ser o estado mais "democrático" do país e representar a mais vigorosa oposição ao regime Vargas. O Partido Nacional-socialista, representado por K. von Spanus, era organizado em círculos, blocos e células. Chr. Wifler era o responsável pelos círculos, sendo os principais os do norte, leste, sul e oeste do estado, sob os codinomes "Sellge", "Syanpius", "Andriessen" e "Eisdendecker". As ordens do partido eram transmitidas exclusivamente por mensageiros e cada responsável usava um codinome e número de telefone também em código. Durante certo tempo, o partido chegou a manter colaboração estreita com a polícia estadual, o que não escapou ao atilado major Aurélio da Silva Py. Sua detida investigação da infiltração fascista no Sul do país revela que se alguém ousasse levantar a voz contra o Partido Nazista em reunião sindical, ou em qualquer outra, no estado de São Paulo, seria pouco depois detido pela polícia para averiguações. Líderes trabalhistas, estudantes e intelectuais de esquerda foram sequestrados, porém invariavelmente dados como "desaparecidos". O caso de maior repercussão foi o do assassinato de Tobias Warchawski, denunciado pela imprensa independente como mais um crime monstruoso de nazi-integralistas.
          Para a Alemanha, os imigrantes e seus descendentes - um milhão, ou quase, de pessoas de raça ariana - eram súditos do Reich, portanto com os mesmos direitos e obrigações dos que viviam na mãe pátria. Nessa dicotomia, obviamente, se encontrava a principal razão de choque com as leis brasileiras. Segundo o raciocínio alemão, Buenos Aires e Montevidéu, onde contavam com apoios amplos e seguros, somados a São Paulo, a Detroit sul-americana, ofereciam a possibilidade de transformar, a curto prazo, os respectivos parques industriais em potente indústria bélica. (...)
          Como já assinalei, um dos programas de Adolf Hitler era a incorporação pura e simples à Alemanha de todos os territórios onde houvesse minoria alemã. Em primeiro lugar, na Europa. Logo a seguir, na América do Sul, onde as atenções se concentraram na Argentina, no Brasil e no Chile, todos já com uma apreciável base étnica germânica. Dos três, a Argentina mereceu atenção prioritária. Além de ser o único país europeu na região, culturalmente superior aos demais, não tinha, por exemplo, o complicador do gigantismo brasileiro.
          O gigantismo, porém, poderia ser facilmente corrigido. Desde logo, os três estados do Sul, já devidamente germanizados, não tinham por que permanecer atrelados ao imenso complexo luso-afro-ameríndio. O Reich não abriria mão do milhão de Reichsãeutschen ou Volksdeutschen radicados no Brasil, todos sob proteção alemã. "Cada gota de sangue alemão precisa ser preservada", proclamava Ernst Wilhelm Bohle, Gauleiter da organização dos alemães no exterior. "Não pode haver pecado maior que o de renunciar voluntariamente ao sangue alemão!"
          Megalomania ou não, o fato é que as tensões teuto-brasileiras criadas pelo nosso programa de nacionalização das áreas de forte presença estrangeira deram lugar a reações extremas, inclusive à cogitação de - a curto prazo - separar do Brasil os estados sulinos. Em estranho relatório enviado a Berlim, o embaixador Karl Ritter estuda a posição geopolítica e estratégica desses estados, salientando a "inexistência de comunicações ferroviárias com o resto do país". Assim sendo, as autoridades centrais não teriam condições de restabelecer o controle sobre a região "em caso de ataque argentino (sic). Nesse caso", conclui, "somente os Estados Unidos poderiam opor-se a um ataque de Buenos Aires". Não se trata de invenção minha. O que acabo de assinalar se encontra, com todas as letras, em Documentos Diplomáticos da Alemanha, dossiê "Politische Abteilung", doe. N. Pol. IX, 341, de 3 de março de 1938.
          Nesse mesmo relatório, o embaixador Ritter comunica a existência de uma corrente no seio da colônia alemã, de que seria porta-voz um certo senhor Plugge, convencido de que a única possibilidade oferecida ao Reich de proteção ao elemento alemão consistia em separar a região do resto do país. Em outras palavras, os três estados do Sul se transformariam em colônia de Berlim, expressão literal usada. (...)
          Dizer que a Argentina poderia ter sido o trampolim para uma invasão do Sul do Brasil, com apoio alemão, e que o Rio Grande, Santa Catarina e Paraná, então isolados fisicamente do Brasil, viessem a constituir uma colônia alemã deve nos parecer hoje fantasia. Não, porém, se tivermos em mente que, em 1940-41, o Terceiro Reich era senhor absoluto da Europa, dispunha de bases na África, justo em frente do Brasil, frotas de submarinos, e contava com a cooperação das poderosas e bem-organizadas colônias alemãs na Argentina e no Sul do Brasil, já com seções do Partido Nazista em plena atividade.
          Não é segredo que gerações sucessivas de militares brasileiros estiveram persuadidas da inevitabilidade de uma guerra com a Argentina. Nossa região militar mais bem-equipada foi sempre a terceira, no Rio Grande do Sul, e o traçado de nossas estradas visou, por muito tempo, a não facilitar a penetração do inimigo.
          O fato de o Brasil ter mais do que o triplo da área e da população da Argentina constituiu, naturalmente, motivo de preocupação para gerações consecutivas de homens públicos, empenhados na reversão dessa cruel realidade.
          (...)
          Mesmo se Hitler perdesse - era o raciocínio -, os súditos do Eixo poderiam se deslocar com seus recursos financeiros e técnicos para a Argentina. Mas, se ganhasse, a Argentina seria a única nação americana com o direito de atravessar fronteiras e resolver definitivamente seus problemas geopolíticos, firmando-se no continente como a nação líder. Comentário de Mário Martins, o jornalista que renunciou à função burocrática no nosso escritório comercial em Buenos Aires para se concentrar na investigação do que estava realmente acontecendo à sua volta: "A Casa Rosada acompanhava a guerra na Europa como se fosse um espetáculo de bolsa de valores". A fórmula encontrada foi a cooperação subterrânea, via pseudoneutralidade que permitisse montar na América um trampolim contra as nações vizinhas, a começar pelo Brasil, que se preparava para lutar na Europa pela causa aliada, deixando as costas desguarnecidas e voltadas para as baionetas de Buenos Aires.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 1 nº 12 - Outubro 2004

Saiba Mais – Links

 Saiba Mais – Documentário
Sem Palavras
Sem Palavras resgata as vivências dos descendentes de alemães sobre a perseguição ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial no Sul do Brasil, região colonizada por alemães no século 19. A Campanha de Nacionalização do presidente Getúlio Vargas e a entrada do Brasil na Guerra em 1942, contra os países do Eixo, aumentou a repressão aos estrangeiros e imigrantes daqueles países. O documentário mostra um dos lados da história, relatado por quem era criança e descendente de alemão nos anos 1940. A memória é subjetiva, porém verdadeira, mesmo quando parece distorcida dentro da história oficial, essa sim muito mais complexa.
 Direção: Kátia Klock
Ano: 2009
Áudio: Português
Duração: 52 minutos

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Era Vargas: 1930 - 1935

O período mais determinante da história brasileira no século XX é o assunto da coleção Era Vargas. Partindo da tomada do poder daquela que foi a personalidade brasileira mais marcante do século passado, o cineasta Eduardo Escorel aborda causas e consequências da transformação política que conduziu Getúlio Vargas à presidência, contextualizando os momentos marcantes do período, como o Tenentismo, a Revolta dos 18 do Forte, a chegada ao poder em 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932. Utilizando filmes inéditos e entrevistas atuais, a obra esclarece quais os fatores que facilitaram a ascensão de Vargas e como ele habilmente consolidou o seu poder, deixando um legado que definiu os rumos políticos e econômicos do Brasil pelas décadas seguintes. Era Vargas – De 30 a 35 é um documento definitivo para quem quer entender Brasil.
Para finalizar os documentários que vão de 1930 a 35, Escorel levou duas décadas. O diretor explica: “nesse tempo todo tudo muda, principalmente a concepção das coisas. E eu gosto de dizer que um trabalho como esse não é feito sozinho. Teve muita gente envolvida, muita pesquisa histórica. Ou seja, levamos 20 anos para contar cinco anos da história do Brasil”.

Direção: Eduardo Escorel
Ano: 1992
Áudio: Português
Duração: 196 minutos/Total
Parte 1 - 1930 - Tempo de Revolução / 48 minutos
Parte 2 - 1932 - A Guerra Civil / 48 minutos
Parte 3 - 1935 - O Assalto ao Poder / 98 minutos

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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Guerra e Paz

Programa Especial da RBS do Rio Grande do Sul sobre a Segunda Guerra Mundial: histórias de vida de quem esteve no front, de quem ficou, a expectativa de que o conflito se alastrasse para o resto do mundo, o medo e o drama de quem viveu esse período da História. No Rio Grande do Sul eram planejados abrigos antiaéreos, haviam ensaios de blackout e treinamento militar para caso o conflito se estendesse ao sul da América Latina.
Direção: Cláudia Dreyer
Ano: 2010
Áudio: Português
Duração: 70 minutos cada episódio
https://mega.co.nz/#!ORMgTKpD!m8MW-G7H3x1Bd4HzW9S9dtDW_JExSsCK0vBL5M4ANuMTamanho: 258 MB

  
Episódio 01 - O Falsário de Hitler A história do judeu Salomon “Sally” Smollanoff, artista plástico e falsificador, que foi preso num campo de concentração e obrigado a falsificar as matrizes de libra e dólar para que Hitler financiasse o seu projeto de dominação do mundo. Sally, depois de viver no Uruguai, terminou seus dias, anonimamente, na Avenida João Pessoa em Porto Alegre (RS). 
Episódio 02 – Ensaios de Guerra:  Enquanto a Europeu vivia os terrores da II Guerra Mundial, o Brasil enviava seus pracinhas para lutar ao lado das forças Aliadas e vivia um período de tensão. Como viveram 12 dos soldados que se preparam para defender as costas gaúchas dos ataques nazistas. Eles são os remanescentes de um grupo de 800 soldados que receberam treinamento em São José do Norte (RS). 
Episódio 03 – Aos Olhos de Santa Bárbara: Às nove horas da manhã de 22 de julho 1943, um estrondo marcou a história de uma cidade no alto da serra rio-grandense. Seis moças, entre 16 e 20 anos de idade, morriam vítimas de uma explosão na linha de montagem de bombas e granadas em uma tradicional indústria metalúrgica. O palco da II Guerra Mundial, a milhares de quilômetros de distância, do outro lado do mar, pairava sinistro no céu de Caxias do Sul. Naquele 22 de julho, os sinos de todas as torres da cidade tocavam tristemente. 
Episódio 04 – O Soldado Kleine:  Em 1935, Theodor foi para a Alemanha estudar. Lá conheceu Mari Agnes cuja família também tinha regressado para a Alemanha e se casaram. Em 1942, ele se naturalizou alemão e duas semanas depois o chamaram para o exército. Ele trabalhou numa instituição para a manutenção da cultura alemã no Exterior. Quando um chefe da SS encampou esta instituição Theodor foi obrigado a ir como “voluntário” para o front. O drama desse brasileiro obrigado a lutar nos exércitos alemães e a grande paixão de sua mulher tornam esse programa comovente.
Episódio 05 – Prisioneiros Durante a II Guerra cresceu a desconfiança, o medo e a perseguição para quem não falasse português. Italianos, alemães, japoneses, muitos imigrantes foram perseguidos, espancados e, segundo alguns historiadores e testemunhas, colocados em campos de concentração, aqui chamados de “campos de confinamento”. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Guerras Mundiais (The World Wars)

Minissérie em 6 episódios, que traz a história de uma geração de homens que lutaram como soldados nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, e que se tornaram líderes na Segunda Guerra Mundial. Adolf Hitler, Franklin Delano Roosevelt, Benito Mussolini, Winston Churchill, Charles de Gaulle, George Patton, fizeram parte das duas guerras sangrentas que abalaram a humanidade por 30 anos. Antes de serem os protagonistas da Segunda Guerra Mundial, eles foram soldados de infantaria durante a Primeira Guerra Mundial, a "guerra para acabar com todas as guerras”. Alguns se tornaram heróis; outros despontaram como vilões. Reconstituir as guerras mundiais dessa forma é contá-la através desses homens em uma abordagem única e inédita: a Primeira Guerra os mudou e na Segunda Guerra, eles mudaram o mundo.
Direção: John Ealer
Ano: 2014
Áudio: Português
Duração: 50 minutos
Tamanho:  400 MB (cada)
Qualidade: HDTV - 720p  


Episódio 1 e 2 : 
Uma bala assassina em Sarayevo desata um conflito global que rapidamente se transforma na guerra mais cruel que a humanidade já havia visto até então: a Primeira Guerra Mundial. Em meio ao caos, surge uma nova geração de soldados, que incluía um grupo de homens que, mais tarde, se tornariam os líderes mais conhecidos do século 20. Com a vitória dos países aliados, uma paz duradoura é negociada. Mas o tratado que assinam cria um monstro, deixando o Japão humilhado e enfurecido. Por outro lado, com a Alemanha mergulhada em uma vertiginosa crise econômica, Adolf Hitler e Benito Mussolini se aproveitam do momento em seu próprio benefício. A tão esperada paz é superficial e está longe de ser definitiva.

Episódio 3 e 4: 
A primeira guerra cessou, mas as tensões em todo o mundo continuam a borbulhar por baixo da superfície. Quase sem perceber, já tinham sido semeadas as sementes do próximo grande conflito mundial. Com a queda na bolsa dos Estados Unidos, surge uma grande depressão econômica. Franklin Roosevelt tenta consolidar o país, mas se prepara em silêncio. As diferenças políticas na Alemanha, Itália, União Soviética e Japão dão lugar a novos líderes que lutam por seus países. Adolf Hitler consolida seu partido nazista. Benito Mussolini unifica o povo italiano e fortalece o país. Joseph Stalin revoluciona a União Soviética e faz uma aliança com Hitler para ganhar mais poder. Hideki Tojo também une o Japão a Hitler contra os Aliados. Com esta aliança e o controle de boa parte da Europa, Tojo ordena o famoso ataque do Japão contra os Estados Unidos em Pearl Harbor, dando início à Segunda Guerra Mundial.

Episódio 5 e 6: 
Quando a guerra inevitavelmente estoura de novo, a nova geração de líderes mundiais entra em ação. Eles usam suas experiências passadas para lutar no novo conflito, enfrentando o maior desafio pelo qual a humanidade já passou. O ataque a Pearl Harbour obriga Franklin Roosevelt a declarar guerra ao Japão. Adolf Hitler e Benito Mussolini não perdem tempo e também declaram guerra aos Estados Unidos e, pela segunda vez em 30 anos, o mundo entra em guerra. As batalhas se generalizam e os Aliados atacam. Douglas MacArthur, George Patton e Winston Churchill, usam seus conhecimentos em estratégia de batalha adquiridos na Primeira Guerra e fecham o cerco por todos os lados. Com Hitler vencido, a vitória é declarada na Europa, mas o conflito continua no Pacífico; Hideki Tojo havia transformado o exército imperial japonês em uma potência. É então, que as bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre Hiroshima e Nagasaki levam a guerra a um final de grande impacto.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Em defesa da Palestina

“Quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos?”
O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe a quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças.
     Para justificar-se, o terrorismo de Estado fabrica terroristas: semeia ódio e colhe pretextos. Tudo indica que essa carnificina de Gaza, que segundo seus autores quer acabar com os terroristas, acabará por multiplicá-los.
     Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem permissão. Perderam sua pátria, suas terras, sua água, sua liberdade, tudo. Nem sequer têm direito a eleger seus governantes. Quando votam em quem não devem votar são castigados. Gaza está sendo castigada. Converteu-se em uma armadilha sem saída, desde que o Hamas ganhou limpamente as eleições em 2006. Algo parecido havia ocorrido em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador. Banhados em sangue, os salvadorenhos expiaram sua má conduta e, desde então, viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem.
     São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com desajeitada pontaria sobre as terras que foram palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito à existência de Israel, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está negando, há muitos anos, o direito à existência da Palestina.
     Já resta pouca Palestina. Passo a passo, Israel está apagando-a do mapa. Os colonos invadem, e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam a pilhagem, em legítima defesa.
Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma de suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços seguem. O apetite devorador se justifica pelos títulos de propriedade que a Bíblia outorgou, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu, e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.
     Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, que burla as leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.
     Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está executando a matança de Gaza? O governo espanhol não conseguiu bombardear impunemente o País Basco para acabar com o ETA, nem o governo britânico pode arrasar a Irlanda para liquidar o IRA. Por acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou essa luz verde provém da potência manda-chuva que tem em Israel o mais incondicional de seus vassalos?
     O exército israelense, o mais moderno e sofisticado do mundo, sabe quem mata. Não mata por engano. Mata por horror. As vítimas civis são chamadas de “danos colaterais”, segundo o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez “danos colaterais”, três são crianças. E somam aos milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está ensaiando com êxito nessa operação de limpeza étnica.
     E, como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Para cada cem palestinos mortos, um israelense. Gente perigosa, adverte outro bombardeio, a cargo dos meios massivos de manipulação, que nos convidam a crer que uma vida israelense vale tanto quanto cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.
     A chamada “comunidade internacional” existe? É algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? É algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos adotam quando fazem teatro?
     Diante da tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial se ilumina uma vez mais. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declamações altissonantes, as posturas ambíguas rendem tributo à sagrada impunidade.
     Diante da tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E, como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima, enquanto secretamente celebra essa jogada de mestre. Porque a caçada de judeus foi sempre um costume europeu, mas há meio século essa dívida histórica está sendo cobrada dos palestinas, que também são semitas e que nunca foram, nem são, antissemitas. Eles estão pagando, com sangue constante e sonoro, uma conta alheia.
Saiba Mais - Documentários:
A Palestina Ainda é a Questão
Documentário de John Pilger (Palestine Is Still The Issue) que retrata a vida de sofrimento e humilhação do povo palestino nos territórios ilegalmente ocupados pelas forças militares do estado sionista de Israel. Ao final, John Pilger repete as perguntas que o grande arcebispo antiapartheid Desmond Tutu havia feito pouco tempo antes: "Será que os judeus esqueceram em tão pouco tempo o sofrimento, a humilhação e as mortes que seus antepassados padeceram há apenas duas gerações?
Por que eles agora estão praticando contra o humilde povo palestino atrocidades semelhantes às sofridas por seus antepassados nas mãos dos nazistas?"
Direção: Tony Stark
Ano: 2003
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: 53minutos
Tamanho: 499 MB
Atirar num Elefante
Os ataques israelenses não poupam ninguém, crianças, mulheres, ambulâncias e tudo o que se mova pode ser alvo da covardia e brutalidade de um dos exércitos mais truculentos do mundo. O documentário To Shoot An Elephant (TSAE) narra a rotina na Faixa de Gaza a partir de 27 de dezembro de 2008, quando Israel começou a operação militar Chumbo Fundido em Gaza, onde passou 21 dias atirando e que causaram a morte de 1.412. Convertido em narração direta e privilegiada dos bombardeios, o filme, quer ser ferramenta para fazer frente à propaganda israelense e ao silêncio internacional.
Direção: Alberto Arce / Mohammad Rujailah
Ano: 2009
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: 113minutos
Tamanho: 837 MB

Ocupação 101: voz da maioria silenciosa
Um documentário instigante e poderoso na raiz atual e histórica do conflito israelense-palestino. Ao contrário de qualquer outro filme já produzido sobre o conflito - "Ocupação 101” apresenta uma análise abrangente dos fatos e verdades escondidas em torno da polêmica interminável e dissipa muitos de seus antigos mitos e equívocos.
O filme também detalha a vida sob o governo militar israelense, o papel dos Estados Unidos no conflito e os principais obstáculos que se interpõem no caminho de uma paz duradoura e viável. As raízes do conflito são explicadas através de experiências de primeira mão sobre-o-terreno dos principais estudiosos do Oriente Médio, ativistas pela paz, jornalistas, líderes religiosos e trabalhadores humanitários cujas vozes foram demasiadas vezes reprimidas em jornais americanos.
O filme cobre uma ampla gama de tópicos - que incluem - a primeira onda de imigração de judeus da Europa na década de 1880, as tensões de 1920, a guerra de 1948, a guerra de 1967, a primeira Intifada de 1987, o Processo de Paz de Oslo, a expansão do assentamento, o papel do Governo dos Estados Unidos, a segunda Intifada de 2000, a barreira de separação e a retirada de Israel de Gaza, bem como depoimentos dilaceradores de corações de muitas vítimas desta tragédia.
Direção: Abdallah Omeish / Sufyan Omeish
Ano: 2007
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: 88 minutos
Tamanho: 803 MB
Palestina, História de uma Terra (1880-1991)
Diariamente no noticiário internacional, o conflito entre israelenses e palestinos parece uma história antiga. Porém, poucas pessoas sabem como essa guerra começou. Com imagens marcantes e históricas, o documentário (Palestine, histoire d'une terre) é uma oportunidade de conhecer o início dos desentendimentos entre os dois povos; a criação do Estado de Israel e a luta pela criação de um Estado palestino, desde o fim do domínio do Império Otomano até as negociações mais recentes entre árabes e israelenses.
Documentário organizado a partir de imagens de arquivos históricos raros divididos em dois períodos. A primeira parte, de 1880 a 1950, mostra a convivência harmônica no final do século XIX entre muçulmanos, judeus e cristãos na Palestina até a fuga em massa de trabalhadores árabes em Israel; jurisdição militar, toques de recolher, censura e leis de circulação. A segunda parte, que compreende o período entre 1950 a 1991, fala sobre as tropas Israelenses massacrando e expulsando os povos árabes de suas casas e cidades apropriando-se de todos seus territórios até os Acordos de Paz.
Diretora: Simone Bitton
Ano: 1997
Áudio: Português
Duração: 117 minutos

sábado, 18 de agosto de 2012

Nos tempos de Mussolini

A Itália durante a visita de Hitler, em 1938, é pano de fundo para dois filmes de Ettore Scola que retratam, de diferentes maneiras, a perseguição e a resistência na península durante o período fascista.
     Primeiros dias de maio de 1938. Adolf Hitler percorre varias cidades italianas, numa visita oficial que visa estreitar ainda mais os laços que unem seu governo com o da península, liderado por Mussolini. O acordo de amizade, assinado dois anos antes entre os dois paises, e que foi recebendo logo em seguida pelo próprio  Duce italiano o nome de Eixo, enaltecera os elementos que já aproximavam os dois regimes desde a tomada do poder de Hitler na Alemanha: progressiva eliminação de qualquer oposição e instauração de um regime político com partido único, autoridade concentrada nas mãos do líder (embora exercitada em meio a contínuos compromissos com vários centros de poder), supressão de uma atividade legislativa autônoma e ênfase no executivo, organização da propaganda e controle absoluto dos meios de comunicação. Os fascismos no poder se aliam e erguem uma muralha diante do mundo liberal e democrático.
     Mussolini, no governo na Itália desde 1922, reduzira progressivamente os espaços de liberdade política, sindical, de expressão. Hitler, guia do Estado alemão desde 1933, reerguera militarmente o país, conduzindo-o num processo de expansão territorial sem fim: em março de 1938 a Áustria é anexada (Anschluss) ao Reich, Viena independente não existe mais. Fascistas e nazistas estão apoiando há tempo o golpe das tropas nacionalistas na Espanha republicana. Antes do fim do ano, as armas alemãs, ameaçando a integridade da Tchecoslováquia, tornarão necessária uma conferência entre os lideres das quatro potências (Inglaterra, França, Alemanha e Itália) em Munique para evitar um conflito europeu. Mas o ano de 1939 mostrará que a guerra europeia e mundial de possibilidade remota virou trágica realidade. 

Um Dia Muito Especial
     Mas voltamos a Roma, Itália, 6 de maio de 1938. Enquanto multidões em festa acolhem o Führer em sua visita à cidade, há quem não participe diretamente do evento histórico. No seu belíssimo “Um dia muito especial”, de 1977, o diretor italiano Ettore Scola conta a história de duas pessoas, Antonietta e Gabriele, que se encontram casualmente naquele mesmo dia, numa Roma quase deserta, estabelecendo entre eles uma relação de simpatia e amizade. Ela, casada com um funcionário do Estado fascista e mãe de seis filhos, dona de casa frustrada e triste; ele, locutor radiofônico que acaba de ser despedido de seu trabalho. O filme nos apresenta o encontro entre duas solidões, a da mulher que vive pelo marido e pelos filhos, numa existência sem amor e sem esperança, e a do homem, que chega a confessar sua homossexualidade, motivo pelo qual perdeu seu emprego (a discriminação do militante político de esquerda, do cigano, do africano das colônias italianas e do homossexual marca a política fascista antes até da perseguição aos judeus).
     No longa, somos apresentados ainda a duas modalidades distintas de se posicionar diante da ditadura, ambas presentes no cenário histórico da Itália de então: a aceitação, em parte convencida, em parte resignada, da situação, sem muita capacidade de crítica e refém do fascínio carismático de Mussolini (Antonietta), e a oposição ao regime de certo mundo intelectual, que tenta manifestar sua insatisfação, mas não encontra formas adequadas e eficazes, e acaba sucumbindo (Gabriele). 
     O trabalho de interpretação dos atores, Sophia Loren e Marcello Mastroianni, dois astros do cinema italiano e mundial aqui em dois papeis diferentes de seus habituais registros, e a direção primorosa de Scola (que realiza no inicio do filme um magistral plano-sequencia que nos introduz na vida de Antonietta e em sua residência) tornam a película um dos pontos altos da carreira do cineasta. O diálogo constante entre as pequenas histórias dos dois protagonistas e a história pública, ‘oficial’, que se desenrola nas ruas da cidade, registrada pela voz onipresente dos aparelhos de radio que acompanham a visita de Hitler, é o verdadeiro trunfo do filme.  Aquele que na história foi ‘um dia muito especial’, por contribuir para cimentar uma relação (Hitler-Mussolini) que levará o mundo à catástrofe da guerra, se confirma tal também para aquele homem e aquela mulher: pela amizade que realiza entre os dois, pela tomada de consciência que desperta, pelas transformações que opera em suas existências. 
         
Concorrência Desleal
          Vinte e quatro anos e dezenas de filmes depois (entre os quais não se pode esquecer “Casanova e a revolução”, ainda com Mastroianni, em 1982) Scola volta àquele ano de 1938 e àquelas temáticas com seu delicioso “Concorrência desleal” (2001). De novo Roma, de novo 1938, então, mas agora o cenário não é um apartamento, e sim uma rua, onde, lado a lado, dois comerciantes trabalham no mesmo ramo de negócios: Umberto é um alfaiate que produz trajes sob medida, Leone é dono de uma loja de roupas prontas. Entre as respectivas famílias há laços de amizades, mas é concorrência aberta entre os dois. Concorrência ‘desleal’, segundo Umberto, pois seu rival se aproveita de suas ideias comerciais para aumentar suas próprias vendas, inclusive usando de preços mais baixos. Um detalhe importante: Leone e sua família são judeus, condição que, como para a maioria dos italianos de origem judia da época, não lhe impede uma pacifica convivência com o resto da população da rua.
     Mas estamos em 1938: Mussolini está cada vez mais ligando sua política à de Hitler (aqui também há a referência à passagem do líder nazista pela cidade, no mês de maio) e a partir de setembro varias medidas legislativas atingem os judeus, desde a proibição de frequentar escolas publicas, até o impedimento de casar com arianos. Leone e a família são atingidos, em suas vidas e negócios. Agora a ‘deslealdade’ passa para o plano humano, existencial: por que uma identidade, uma diversidade pode se tornar fonte de perseguição? Desleal é o regime que seleciona e separa, desleal é o italiano que aponta o dedo, delata e se aproveita. Scola retoma aqui o tema da discriminação do diverso que já abordou no filme de 1977.
     Ótimos interpretes, Sergio Castellitto e Diego Abbatantuono nos papeis principais, com Gérard Depardieu como o professor antifascista irmão de Umberto, e a habitual direção de Scola, capaz de alternar os timbres  da emoção e do sorriso com os do drama, levam o longa rumo ao seu epílogo: como no de 1977, o final não é dos mais felizes, mas mostra que há lições que vêm para ficar.

Um Dia Muito Especial

Direção: Ettore Scola
Ano: 1977
Áudio: Italiano/legendado
Duração: 103 minutos








Concorrência Desleal 

Direção: Ettore Scola
Ano: 2001
Áudio: Italiano/legendado
Duração: 106 minutos