“E agora que vocês viram no que a coisa deu, jamais esqueçam como foi que tudo começou” (Bertolt Brecht)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Encontro com Milton Santos/O Mundo Global visto do lado de cá

     Documentário feito a partir de uma entrevista com Milton Santos, um dos maiores pensadores mundiais, poucos meses antes de sua morte. Mostra os bastidores e consequências da Globalização no Brasil, na América Latina e no Mundo.
     Quando o mundo estava pautado pelo pensamento único da globalização o professor Milton Santos foi a voz discordante denunciando as perversidades do que chamou de globalitarismo, sistema econômico que provoca a concentração de riqueza entre os ricos e que distribui mais pobrezas para os desfavorecidos. O filme “Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá” apresenta a última entrevista do geógrafo Milton Santos, na qual ele traça um painel das desigualdades entre o norte rico e o mundo do sul saqueado, apresentando alternativas e um prognóstico otimista sobre o futuro da humanidade.
     Milton de Almeida Santos nasceu em Brotas de Macaúbas, no interior da Bahia, no dia três de maio de 1926, formou-se em Direito no ano de 1948, pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), e foi professor em Ilhéus e Salvador. Em 1958, voltou da Universidade de Estrasburgo, na França, com o doutorado em Geografia.
     Milton foi preso e exilado pelo Golpe de 64. Entre os anos de 1964 e 1977, lecionou na França, Estados Unidos, Canadá, Peru, Venezuela e Tanzânia. Foi o único brasileiro a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado o Nobel de Geografia. Escreveu mais de 40 livros, entre eles “Por Uma Outra Globalização” (2000) e “Território e Sociedade no Século XXI” (2001) que alertavam para os perigos causados pelo processo de globalização nos países em desenvolvimento.
     Milton Santos, geógrafo e livre pensador, dizia que a maior coragem, nos dias atuais, é pensar, coragem que sempre teve. O documentário de Silvio Tendler não é uma cinebiografia, nem pretende ser, mas atingiu o objetivo principal de seu personagem: fazer pensar.
     “Creio que as condições da história atual permitem ver que outra realidade é possível. Essa outra realidade é boa para a maior parte da sociedade. Nesse sentido, a gente é otimista. A gente é pessimista quanto ao que está aí. Mas é otimista quanto ao que pode chegar”.
Direção: Silvio Tendler
Duração: 89 minutos
Ano: 2006
Áudio: Português
Tamanho: 733 MB

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O legado dos EUA no Iraque, oito anos depois da invasão.

     Passaram-se oito anos e os Estados Unidos fecharam a porta do Iraque deixando um desastre atrás dela. Durante o conflito, morreram mais de 100 mil civis, 4.800 soldados da coalizão perderam a vida (4.500 dos EUA), junto com 20 mil soldados iraquianos. Para os iraquianos, o legado da invasão é morte, dezena de milhares de mutilados, insegurança, desemprego, falta de água potável e eletricidade. A democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o curso das coisas.
Eduardo Febbro
     Passaram-se oito anos. Como pedras impiedosas que semearam a morte. Como aquelas horrendas imagens que surgiam à beira das estradas no caminho em direção a Bagdá. Fumaça, destruição, cadáveres e silêncio. Parece ontem. O cruzamento de estradas assinalava duas direções: Basra ou Bagdá. Através da estrada até Bagdá, as sucessivas batalhas da ofensiva emergiam como cogumelos despedaçados: ônibus bombardeados, veículos calcinados, tanques arrebentados e crateras imensas cavadas pelos mísseis. Os tanques iraquianos dispostos em fila à beira da estrada pareciam latas de sardinha queimadas. Frente a eles, os tanques Abrams norte-americanos tinham o aspecto de mastodontes invencíveis. “Quando começamos a avançar por esse trajeto, os soldados iraquianos saíam dos tanques para nos pedir água e comida”, contava com lástima um oficial norte-americano.
     Os primeiros grandes subúrbios de casas baixas pareciam emergir de um pesadelo. As casas e as lojas tinham virado trincheiras e havia centenas de pessoas caminhando pelas ruas, levando colchões, cadeiras, roupas, televisões, máquinas de lavar roupa, velhas máquinas de costura. Bagdá, ao longe, estava envolta em uma espessa nuvem de fumaça escura. Os poços e as trincheiras de petróleo seguiam ardendo. Saddam Hussein havia mandado incendiá-los para impedir que os satélites norte-americanos obtivessem imagens precisas do estado de Bagdá. Depois, a cidade aparecia finalmente. Ferida e assustada.
     Em cima do capô de um automóvel que havia avançado sobre a calçada, um livro de capa azul exibia suas páginas milagrosamente intactas. Dentro do veículo, o corpo de um homem com o corpo tombado para a frente tinha a cabeça partida e parte do cérebro esparramado em cima do porta-luvas. Ninguém prestava atenção. A cem metros do automóvel, um grupo de homens tentava, em vão, derrubar uma imensa estátua de Saddam Hussein erguida no centro de uma rótula. Do outro lado, três mortos jaziam à margem da rua. Um grupo de cachorros sarnentos disputava a propriedade do corpo de um dos mortos: um menino de seis anos estava ali também, sem um sapato e sem a metade do rosto.
     Saddam Hussein havia desaparecido. O exército ocupante se instalava em tendas nos territórios de sua nova conquista, ocupava os palácios de quem tinha sido seu aliado, se apoderava das ruas da cidade transformada e restaurada pelo ditador com a ajuda dos arquitetos enviados pelo Ocidente nos anos em que Saddam era um sócio confiável e ninguém se importava que ele afogasse seu povo em uma lagoa de sangue. O choque de civilizações acabava de se plasmar em sua versão mais violenta: a de um país milenar e reprimido, a de uma potência ocidental que havia enviado do céu uma chuva de democracia comprimida em cachos de bombas.
     Há lugares cujo nome e os símbolos que evoca sobrevivem aos estragos do tempo e das guerras. Bagdá tinha esse dom. Horrível e mágica. Histórica e contemporânea. Ameaçadora e hospitaleira. As Mil e uma Noites, uma grande livro onde, a cada virada de página, havia muitos mortos. O soldado Higins tinha visto inúmeras fotos de Bagdá antes da invasão, mas nunca havia imaginado a cidade real que encontrou quando sua unidade entrou na capital depois do que qualificava como “um combate épico” contra um inimigo “inferior, mas disposto a tudo”. Higins dizia que, até sua chegada a Bagdá, não havia conhecido a morte e tampouco imaginado como seria. Agora já tinha se acostumado ela, mas o primeiro morto seguia fazendo companhia a ele em sua memória. “A primeira vez que matei um homem foi à noite. Fiquei com uma sensação estranha, irreal. Não posso esquecer.
     Minha unidade encontrava-se na periferia de Bagdá. Fazíamos parte de uma patrulha avançada que estava por penetrar na capital desde o sul. Tínhamos recebido a ordem de consolidar a zona e seguir adiante. Seguimos as instruções e no início da madrugada começaram a nos atacar. Choviam tiros de metralhadoras e bazucas. Como não se via nada usamos os fuzis com visão noturna. O primeiro homem que apareceu na mira avançava por uma rua lateral, ocultando-se entre as portas. Era um alvo fácil. Deixei que avançasse. Apontei e disparei. Ele cai no chão e voltou a se levantar, cambaleante. Disparei mais duas vezes. Não posso dizer que nesse momento senti que o tinha matado. Com as miras de visão noturna tudo é visto de um modo distinto, como se fosse um jogo informático. A realidade é mais lenta e as coisas têm a forma de silhueta”.
     “Sei que está por aí, Saddam é eterno. Um império não pode com ele. Saddam vive até no silêncio”, dizia o empregado de um hotel que havia desaparecido em um incêndio. A única coisa que estava ali, pulsando no meio da fumaça, era o futuro. O futuro já estava escrito nas múltiplas sequências da queda de Bagdá na indolência e ignorância dos ocupantes. Essa ignorância brutal era a matéria prima da ação de Paul Bremer, o ineficiente e teimoso responsável pela CPA, a Autoridade Provisória da Coalizão encarregada de administrar o Iraque com estatuto de autoridade governamental.
     A guerra começou em 19 de março de 2003. Cerca de três semanas mais tarde, Bagdá caiu nas mãos da coalizão. No dia 1° de maio de 2003, o presidente George W. Bush deu por encerrada essa fase com a expressão triunfalista “missão cumprida”. No dia 6 de maio, Bush nomeou Paul Bremer. O “vice-rei” Bremer chegou a Bagdá e abriu a caixa de Pandora com um projeto político, econômico e administrativo delirante: converter o Iraque em uma representação dos Estados Unidos no Oriente Médio : liberal, democrática, permissiva, um centro de negócios ao melhor estilo dos falcões da Casa Branca.
     Ele não tinha a menor ideia do chão em que estava pisando. Sua primeira decisão consistiu em decretar a “desbaasificação” da sociedade iraquiana. Bremer pretendia sanear o sistema político com uma ordem inaplicável: fazer desaparecer o partido Baas e seus representantes em uma sociedade onde, para conseguir trabalho ou ser membro da administração pública, era obrigatório aderir ao Baas. Paul Bremer decretou a demissão de milhares de empregados e executivos da administração pública, dos organismos encarregados do petróleo, dos bancos, das universidades. Onze dias depois de ter assumido suas funções, Bremer assinou outro decreto enlouquecido: dissolveu o exército, a aviação, a marinha, o Ministério da Defesa, os serviços de inteligência. Seu frenesi ignorante chegou ao ponto de, em um país que saía de um prolongado embargo internacional, que estava em guerra, onde os hospitais estavam destruídos e faltava até algodão, lançar uma campanha contra o tabagismo e elaborar um projeto para distribuir rações alimentares com cartões de crédito.
     Passaram-se oito anos e os Estados Unidos fecharam a porta do Iraque deixando um desastre atrás dela. Durante o conflito, morreram mais de 100 mil civis, 4.800 soldados da coalizão perderam a vida (4.500 dos EUA), junto com 20 mil soldados iraquianos. “Depois de todo o sangue derramado, o objetivo de que o Iraque governe a si mesmo e seja capaz de garantir a segurança se cumpriu”, disse o secretário de Defesa estadunidense, Leon Panetta. O legado da invasão é outro: morte, dezenas de milhares de mutilados, insegurança, desemprego, falta de água potável e eletricidade. A democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o curso das coisas. A queda do déspota permitiu que os xiitas, majoritários no país e reprimidos até a barbárie por Saddam Hussein, tomassem as rédeas do poder sem que isso implicasse unidade ou estabilidade. O Iraque segue sendo um país em carne viva onde as feridas da ocupação não se fecharam.
     Passaram-se oito anos e o espelho de ontem está intacto, a voz de Fatima ainda ressoa naquela cidade em chamas. As lágrimas brotavam de seus olhos e, ainda assim, era capaz de sorrir e chorar ao mesmo tempo. Um sorriso de anjo, de criança, o sorriso da desnudez de um despossuído. Fatima observava os militares norte-americanos com um incessante sinal de pergunta. Eles a tomavam por louca. Quando passava diante dos soldados, a mulher os saudava e perguntava: “por quê?” Às vezes, davam-lhe comida, água e um pouco de dinheiro. Fátima aceitava, mais para se aproximar daqueles que tinham destroçado sua realidade do que por fome.
     Ninguém entendia sua pergunta. Por trás de seu sorriso tenro e luminoso, a tristeza marcava seus traços. Fátima estava vencida. Enquanto contemplava as ruínas do que uma vez foi sua casa, a mulher voltava a perguntar “por quê?”. Quando falava, uma careta infantil e piedosa se desenhava como um relâmpago.
     Fátima tinha perdido tudo. Dias após dia, com um empenho obstinado, a mulher escavava os escombros do edifício familiar destruído por uma bomba, buscando os restos de seus pertences passados. Seu filho menor a acompanhava sempre. Ia de um lado a outro de Bagdá apegado a ela como um animal indefeso. Fátima revolvia as entranhas de pedras destroçadas e retirava uma frigideira, um retrato intacto, um cachecol, um par de sapatos, alguma cadeira desconjuntada pela explosão, pedaços de recordações e bens devastados. O living, a sala de estar, a cozinha, o quarto, os espaços de sua intimidade estavam soterrados por toneladas de pedra e poeira.
     Fátima mostrava o que havia sobrado de sua casa : um monte de ferro e cimento sobre o qual se superpunha seu eterno sorriso. Ela também tinha no olhar essa marca feita de solidão, de luz, de incompreensão, de pura intempérie: a marca da injustiça. A mulher dizia que, talvez, o futuro de seu filho não seria parecido com o seu, que talvez ele conheceria a liberdade, um trabalho decente e a democracia. Fátima se projetava no filho que restou porque seu presente era um lugar inabitável. Era escombros e a gaveta de uma cômoda miraculosamente intacta de onde tirava, assombrada e agradecida, duas fotos de seu marido e de sua filha morta, esmagada com seu pai nas ruínas, um par de meias e uma caixa de costura.

(Eduardo Febbro - Correspondente da Carta Maior em Paris - Tradução: Katarina Peixoto)
SAIBA MAIS:
DOCUMENTÁRIOS
Sem Fim à Vista
     Como não é difícil encontrar pessoas desfavoráveis a Guerra do Iraque, que fizeram inúmeros documentários contra a batalha, o americano Charles Fergunson decidiu fazer um filme contando o lado daqueles que apoiaram a decisão de Bush desde o começo, analisando o que aconteceu para que a disputa ficasse Sem Fim à Vista. O cineasta tenta entender em que pontos o governo americano errou para que a guerra se tornasse a segunda mais cara da história, perdendo apenas para a Segunda Guerra Mundial.
     Fergunson fala com soldados que combateram no Iraque, com membros do governo Bush e analistas, todos eles pessoas que aceitaram voluntariamente participar daquele momento histórico com a certeza de que a invasão seria a melhor coisa a se fazer. Cada um conta o que viu e o que sentiu no decorrer dos anos, apontando os inúmeros erros cometidos principalmente por Donald Rumsfeld e Paul Bremer, além de outros membros do governo, para que a situação acabasse saindo do controle.
     O diretor analisa cronologicamente a guerra até 2007, quando ela já havia custado quase US$ 2 trilhões, além de um grande número de vidas, entre americanos e iraquianos, com destaque para o brasileiro Sérgio Vieira de Melo, que representava uma esperança de solucionar o problema. Mesmo ainda acreditando que a guerra deveria ter acontecido, os entrevistados contam o que sabem para que o espectador entenda o ódio que os iraquianos sentem pelos americanos e perceba que é difícil achar uma solução para o problema.
     Descontente com o governo de George W. Bush, o milionário Charles Fergunson decidiu bancar de seu próprio bolso um documentário que explicasse a Guerra do Iraque de uma forma que nenhum outro tinha feito. Desta forma ele decidiu procurar não aqueles que sempre se mostraram desfavoráveis, mas aqueles que apoiaram e ainda apóiam a medida. O filme, primeiro de Fergunson, foi um dos indicados ao prêmio de melhor documentário do Oscar 2008.
Direção: Charles Fergunson
Duração: 102 minutos
Ano: 2007
Áudio: Inglês - Legendado

 Guerra Feita Fácil – Como presidentes e peritos nos enrolam para a morte
     Narrado por Sean Penn, o filme mostra como a imprensa americana e os Governos estadunidense praticaram a mentira, e, as mensagens belicistas para justificar uma guerra após a outra durante os últimos 50 anos.
     Distorções nos noticiários, mensagens pró-guerra levaram os EUA a ser o país com mais poder bélico sozinho que todas as outras noções juntas, consolidando seu status de Império. Imagens reveladoras que mostram a maneira sórdida que vários presidentes enganaram seu povo através da mídia corporativa.
Direção: Loretta Alper & Jeremy Earp
Duração: 73 min.
Ano: 2007
Áudio: Inglês/Legendado


 FILMES
Zona Verde
     O filme é inspirado no livro de não ficção “A vida imperial na cidade Esmeralda”, do repórter Rajiv Chandrasekaran, que é um relato sobre os indicados para administrar o Iraque, pelo governo Bush, após a invasão. Matt Damon se inspirou em um oficial do exército americano, Richard Gonzalez, que chefiou uma equipe encarregada de procurar armas de destruição em massa (ADM) durante a invasão.
     Durante a ocupação liderada pelos EUA em Bagdá, em 2003, o primeiro subtenente Roy Miller (Damon) e sua equipe foram enviados para encontrar armas de destruição em massa, que acredita-se estarem armazenadas no deserto iraquiano.  Mas, indo de um lugar cheio de armadilhas e trincheiras a outro, os homens que buscam agentes químicos mortais esbarram em uma farsa que subverte o propósito da missão. Agora Miller precisa vasculhar os serviços secreto e de inteligência escondidos em terra estrangeira para encontrar respostas que ora acabarão com um regime nocivo ora propagarão uma guerra em uma região instável. Nesse momento delicado e nesse lugar inflamável, ele descobre que a arma mais ilusória de todas é a verdade.
Direção: Paul Greengrass
Duração: 105 min.
Ano: 2010
Áudio: Português

Jogo de Poder
     O filme foca em duas histórias (Baseado nas memórias de Valerie Plame). Uma é o casamento entre Joe Wilson (Sean Penn) e Valerie Plame (Naomi Watts). Ele é um ex-embaixador do governo. Ela é uma agente secreta trabalhando para a CIA. Wilson escreve um relatório para a agência (onde ela trabalha), onde atesta ser impossível Niger ter importado urânio para o Iraque para poderem construir uma bomba nuclear. Mas como o governo fazia questão da invasão, seu relatório foi forjado para parecer que ele falou o contrário e a invasão aconteceu. Para expor a fraude, Wilson escreve um artigo para o jornal, New York Times, dizendo que o relatório apresentado é uma mentira. Em contrapartida, o governo vaza a informação que sua esposa é uma agente. O que transforma a vida dos dois em um inferno.
     A outra história é sobre os bastidores do que aconteceu para que chegassem a decisão de invadir o Iraque. Não apenas por causa do relatório de Wilson, mas também por causa de vários outros fatos apresentado, fica claro que a CIA sabia que o Iraque não tinha armas de destruição em massa. Além disso, a Casa Branca também sabia e tudo foi ignorado para justificar a invasão.
     O que mais impressiona é a coragem com que o filme foi feito. Não há nomes fictícios. Plame, Wilson e vários outros agentes aparecem descritos com seus nomes reais. Nenhum deles deve ter ficado particularmente feliz de ser retratado como um falso ou mesmo traidor, mas está tudo lá. Inclusive há uma cena em que o próprio Cheney (vice-presidente de George W. Bush) aparece pedindo para falsificar documentos.
Direção: Doug Liman
Duração: 107 min.
Ano: 2010
Áudio: Português

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL E UM BOM ANO NOVO


Eu me despeço.
Volto à minha casa, em meus sonhos.
Volto à Patagônia, aonde o vento golpeia os estábulos e salpica de frescor o Oceano.
Sou nada mais que um poeta: amo a todos, ando errante pelo mundo que amo.
Em minha pátria, prendem-se mineiros e os soldados mandam mais que os juízes.
Entretanto, amo até mesmo as raízes de meu pequeno país frio.
Se tivesse que morrer mil vezes, ali quero morrer.
Se tivesse que nascer mil vezes, ali quero nascer.
Perto da araucária selvagem, do vendaval que vem do sul,
das campanas recém-compradas.
Que ninguém pense em mim.
Pensemos em toda a terra, golpeando com amor a mesa.
Não quero que volte o sangue...
a molhar o pão, os feijões, a música:
quero que venha comigo o mineiro,
a criança, o advogado, o marinheiro, o fabricante de bonecas.
Que entremos no cinema e bebamos o vinho mais tinto.
Eu não vim para resolver nada.
Vim aqui para cantar e quero que cantes comigo.

Pablo Neruda.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Espiritismo no Brasil

Rainer Sousa (Equipe Brasil Escola)

No século XIX, encontramos diferentes relatos sobre pessoas que, sem conter nenhum conhecimento médio específico, indicavam receitas médicas para pessoas adoentadas. Conhecidos como “médins receitistas” ou “médiuns curadores” esses indivíduos tinham uma função diferente dos conhecidos curandeiros. Declarando contar com o auxílio de poderosas entidades espirituais, desvencilhadas de outras religiões, essas pessoas alegavam a presença de espíritos que intervinham no mundo material.

     Tal manifestação religiosa tinha grande proximidade com a obra do francês Allan Kardec, que, em 1857, sistematizou o conhecimento da doutrina espírita em sua obra “O livro dos espíritos”. Em pouco tempo, já na década seguinte, os primeiros exemplares desta obra apareceram em solo brasileiro. Concomitantemente, os primeiros grupos espíritas brasileiros tomavam forma.
     Um dos primeiros e mais famosos entusiastas da nova prática religiosa foi Bezerra de Menezes, que ao converter-se à nova crença acreditava estar vivenciando o ápice da fé cristã. Essa figura histórica do espiritismo brasileiro abraçou a nova religião influenciada pela vivência com o médium João Gonçalves do Nascimento, que praticava curas na cidade do Rio de Janeiro.
     A grande aceitação da prática espírita se deve à sua capacidade de articular elementos cultos e populares, na qual uma pessoa de origem simples poderia incorporar figuras de prestígio. Muitos dos adeptos daquela época insistiam em assinalar como a nova religião andava em acordo com os princípios liberais e científicos em voga no período. Um exemplo claro dessa associação pode ser visto no fato de muitos republicanos e abolicionistas simpatizarem com o espiritismo.
     No entanto, a nova religião sofreu grande oposição em um contexto histórico no qual o catolicismo tinha grande presença. Nos códigos de lei da época e no receituário de alguns psiquiatras, o espiritismo era considerado uma manifestação de insanidade mental. A forte oposição sofrida foi combatida no momento em que, em 1884, foi criada a Federação Espírita Brasileira. O trabalho de reconhecimento feito pela FEB tratava de sistematizar as práticas e doutrinas arraigadas pela nova confissão religiosa.
     O crescimento da doutrina espírita no Brasil ganhou novo fôlego, principalmente com o surgimento de uma figura emblemática dessa religião: o médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier. Por meio de suas obras psicografadas, passou a popularizar ainda mais o espiritismo. Entre suas obras, podemos destacar “Brasil, Coração do Mundo Pátria do Evangelho”, em que ele narra a intervenção dos espíritos em diferentes acontecimentos da história nacional.
     Um desdobramento religioso do espiritismo é a umbanda, considerada uma crença de origem brasileira. Mesmo não tendo os mesmos referenciais e práticas do espiritismo kardecista, alguns documentos da Federação Espírita de Umbanda constam a citação de obras do líder francês. As diferenciações entre as duas crenças acabaram gerando um amplo debate no interior das entidades espíritas, que preferiam estabelecer claramente as singularidades da umbanda e do espiritismo.
     Ao longo do tempo, o espiritismo foi ganhando maior prestígio junto a diferentes classes e instituições. Em contrapartida, muitos dos cultos afro-brasileiros ainda sofreriam bastante com a desconfiança de órgãos de polícia. Um dos itens para explicar a maior aceitação do espiritismo se dá pela sua política assistencialista. A caridade, sendo ponto fundamental do espiritismo, acabou trazendo uma visão positiva sobre essa fé aproximada da razão.
     Nas últimas décadas, o papel do Brasil frente aos rumos tomados pela doutrina espírita foi notório. Uma das mais interessantes afirmações desse papel central pode ser visto no fato de que pessoas de outras denominações simpatizam com o espiritismo. Talvez com isso possamos compreender o porquê de o Brasil ter maior contingente de praticantes do espiritismo e de denominações apáticas a essa mesma crença.


SAIBA MAIS:
Allan Kardec: O Educador
Allan Kardec o Educador é um dos mais belos documentários sobre a vida e a obra de Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869), mais conhecido como Allan Kardec. Veja imagens filmadas nos locais onde ele se instruiu e viveu: Lyon, Yverdon e Paris. E acompanhe os caminhos trilhados por um dos filósofos mais importantes da humanidade, que se tornou o principal estudioso das mensagens dos espíritos, tendo realizado a Codificação do Espiritismo. O filme traz ainda uma elucidativa entrevista com Dora Incontri, pesquisadora e Doutora em Educação pela Universidade de São Paulo. 
Direção: Edson Audi
Ano: 2005
Duração: 59 min
Áudio: Português

O Filme Dos Espíritos
O filme conta a história de Bruno Alves, que, por volta dos 40 anos, perde a mulher e se vê completamente abalado. A perda do emprego se soma à sua profunda tristeza e o suicídio lhe parece à única saída. Nesse momento, ele entra em contato com o Livro dos Espíritos, obra basilar da doutrina espírita. A partir daí, o protagonista da história começa uma jornada em busca de sua felicidade a partir da compreensão dos mistérios da vida espiritual.
Direção: André Marouço / Michel Dubret
Ano: 2011
Duração: 101 min
Áudio: Português


Bezerra De Menezes: O Diário De Um Espírito 
O filme conta a história da vida de Bezerra de Menezes. Sua infância e adolescência foram vividas no Sertão. Aos dezoito anos, iniciou no Rio de Janeiro seus estudos de Medicina. Lá, elegeu-se vereador e deputado em várias legislaturas e defendeu as ideias abolicionistas. Mas, o que lhe trouxe o maior reconhecimento de seu povo foi o trabalho anônimo realizado em prol dos desfavorecidos. Por conta disso, ficou conhecido como o "Médico dos Pobres". Seja como político devotado às causas humanitárias ou como médico conhecido por jamais negar socorro a quem batesse à sua porta, Bezerra de Menezes tornou-se um exemplo de homem e escreveu uma história de vida marcada pelo amor e pela caridade.
Direção: Joe Pimentel e Glauber filho
Ano: 2008                 
Áudio: Português

Duração: 75 min         

Chico Xavier: O Filme
Uma adaptação para o cinema que descreve a trajetória do médium, que viveu 92 anos desta vida terrena desenvolvendo importante atividade mediúnica e filantrópica. Fechava os olhos e colocava no papel poemas, crônicas e mensagens. Seus mais de 400 livros psicografados consolaram os vivos, pregaram a paz e estimularam caridade. Para os admiradores mais fervorosos, foi um santo. Para os descrentes, no mínimo, um personagem intrigante.
Direção: Daniel filho
Ano: 2010
Duração: 125 min
Áudio: Português


 As Mães De Chico Xavier                                                                                                           
      
Ruth (Via Negromonte) tem um filho adolescente, que enfrenta problemas com drogas. Elisa (Vanessa Gerbelli) tenta compensar a ausência do marido dando atenção total ao filho, Theo (Gabriel Pontes). Lara (Tainá Muller) é uma professora, que enfrenta o dilema de uma gravidez indesejada. As figuras centrais do filme são as mulheres e as famíliasEstas três mulheres se encontram quando, cada um por um motivo particular, resolvem procurar a ajuda do médium Chico Xavier (Nelson Xavier).
Direção: Glauber Filho, Halder Gomes
Ano: 2011
Duração: 109 min
Áudio: Português

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Guarani, a língua proibida.

Castigos físicos nas escolas faziam parte da campanha de disseminação do idioma português no período colonial.
Elisa Frühalf Garcia

     Até a década de 1750, falar português não era o suficiente para se comunicar no Brasil. Na Colônia, predominava ainda a chamada língua geral. Baseada originariamente no tupi, ela passou por modificações ao longo dos contatos entre os índios e os europeus, até tornar-se a linguagem característica da sociedade colonial. A língua geral era, portanto, falada não apenas pelos índios, mas também por amplas camadas da população. Em algumas regiões da Colônia, como em São Paulo e na Amazônia, ela era utilizada pela maioria dos habitantes, a ponto de exigir que as autoridades portuguesas enviadas a esses lugares se valessem de intérpretes para se comunicar.
     Por tudo isso, na segunda metade do século XVIII, a Coroa portuguesa criou uma série de leis para transformar os índios em súditos iguais aos demais colonos. Com as mudanças, pretendia-se eliminar as diferenças culturais características dos grupos indígenas, fazendo deles pessoas “civilizadas”. Essas leis, pensadas inicialmente para a Amazônia, foram sistematizadas em 1757 num texto chamado Diretório dos Índios, que acabou se estendendo, posteriormente, para o restante da Colônia. O principal mentor desta política foi Sebastião José de Carvalho e Melo, conhecido mais tarde como Marquês de Pombal.
     A Coroa pretendia impor o uso do idioma português entre as populações nativas da América porque Pombal entendia que as línguas indígenas reforçavam os costumes tribais, que ele pretendia extinguir. Na sua visão, o uso da língua portuguesa ajudaria a erradicar esses costumes, aumentando a sujeição das populações indígenas ao Rei e à Coroa portuguesa. Pombal entendia, com razão, que o idioma era uma importante arma para o controle político dos súditos.
     Para mudar esse cenário, o Diretório determinava a fundação de escolas para as crianças índias, nas quais, além de aprender o português, aprenderiam também os costumes ocidentais. Elas deveriam ser convertidas à fé católica, vestir-se de acordo com os brancos e aprender disciplina de trabalho. Desta forma, a Coroa – numa terra ainda com baixa densidade demográfica – aumentaria seu contingente de vassalos. Este aspecto era particularmente interessante nas fronteiras, pois serviriam como garantia da efetiva ocupação lusitana nos seus domínios e de possível bastião contra os ataques espanhóis. Assim, apesar de vigorarem para toda a Colônia, as medidas pombalinas foram empregadas com mais rigor nas duas principais fronteiras da América portuguesa: a Amazônia e o Rio Grande de São Pedro.
     No início da década de 1760, foi fundada uma aldeia indígena na região norte do Rio Grande, denominada Nossa Senhora dos Anjos, onde fica hoje a cidade de Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre. Esta aldeia foi povoada com índios guaranis, trazidos dos Sete Povos das Missões por Gomes Freire de Andrade, no final da década de 1750. Nessa época, Portugal e Espanha estavam tentando consolidar o Tratado de Madri, segundo o qual Portugal abriria mão definitivamente da Colônia de Sacramento em prol da Espanha, que entregaria os Sete Povos aos lusitanos. Os dois governos criaram uma comissão de demarcação para fiscalizar a execução do Tratado, que, por vários motivos, acabou sendo anulado. Gomes Freire, como chefe da comissão de demarcação portuguesa, ao se retirar da região das Missões trouxe em torno de 3.000 índios guaranis para o território do Rio Grande, com o propósito de transformá-los em súditos de Portugal.
      A Aldeia dos Anjos foi o principal estabelecimento indígena do Rio Grande no século XVIII. Lá foram aplicadas com maior empenho as determinações do Diretório em relação aos índios. Em meados da década de 1770, o governador José Marcelino de Figueiredo fundou na aldeia duas instituições de ensino para os índios: uma escola para os meninos e um recolhimento para as meninas, ambos em regime de internato. Um fato interessante – para entender como operavam essas duas instituições – é que o governador elaborou dois regimentos distintos, nos quais estipulava detalhadamente a rotina a ser seguida pelos alunos. Esses regulamentos nos permitem recuperar um pouco do cotidiano dos internos.
     O dia era estritamente regrado, tendo uma hora específica para cada atividade. Os alunos deveriam acordar pela manhã, fazer a higiene pessoal e almoçar. Após o almoço, permaneceriam das oito às onze na escola, onde aprenderiam a falar, ler e escrever em português, a rezar e argumentar. Jantariam ao meio-dia e teriam descanso até as duas horas, quando retornariam para a escola onde ficariam até as cinco. No verão, entrariam às três e sairiam às seis.
     Depois das aulas fariam suas orações, ceariam e deveriam se recolher. Nas semanas em que não houvesse feriado, teriam um dia de folga. Neste dia, poderiam receber a visita de seus parentes do meio-dia às duas. No dia de folga e nos feriados santos, o mestre poderia escolher entre os seus alunos alguns que considerasse mais aplicados, aos quais concederia licença para visitarem seus pais. Se um destes meninos cometesse algum tipo de desordem na Aldeia, o mestre deveria ser informado, para que suspendesse a concessão de licenças. Os sábados e os domingos eram destinados às atividades religiosas. A limpeza e organização do espaço da escola ficariam a cargo dos meninos, que, em sistema de rodízio, deveriam passar, cozinhar, varrer etc.
     Para eliminar a língua guarani da vida das crianças, elas eram proibidas de usá-la na escola. Estavam previstos um castigo físico para o menino que falasse guarani e o perdão para quem o delatasse. Aos domingos, quando os estudantes recebiam visitas dos parentes, só podiam falar com eles em português. Esta tarefa deve ter sido muito difícil, pois os índios mais velhos, acostumados a falar apenas o guarani, não compreendiam o português. Esta determinação, se cumprida à risca, praticamente impossibilitaria a comunicação entre alunos e parentes.
     Os meninos não permaneciam muito tempo na escola. Quando fossem considerados aptos nas matérias ministradas e soubessem a língua portuguesa, deveriam deixá-la para dar lugar a outros. Mas alguns meninos que se destacavam eram enviados ao Rio de Janeiro, para completar os estudos. Foi o próprio vice-rei, marquês do Lavradio, quem solicitou ao governador do Rio Grande que os enviasse para serem educados na Corte. Segundo Lavradio, ele tomaria conta pessoalmente dos índios quando chegassem ao Rio. Existem poucas informações sobre a trajetória desses estudantes, mas se sabe que alguns deles conseguiram completar sua formação, tendo chegado à ordenação como padres.
     O recolhimento das meninas era uma instituição de ensino característica da sociedade colonial. As internas ficavam reclusas e afastadas de todo o convívio com as pessoas do sexo oposto. Na opinião da maioria das autoridades portuguesas e dos colonos, as índias eram mulheres de segunda categoria, que não tinham o comportamento esperado das pessoas do sexo feminino. Ou seja, elas não eram recatadas, não tinham pudor em mostrar determinadas partes do corpo e não se conservavam virgens até o casamento, como deveriam proceder as mulheres consideradas honestas.
     O internato servia, então, para afastar as meninas do convívio com suas famílias, nas quais, na visão dos portugueses, aprendiam maus costumes. Era melhor mantê-las sob rígida vigilância da mestra do recolhimento. Ao contrário dos meninos, elas não recebiam licença para visitar parentes nos dias folga. As visitas eram recebidas no locutório, um compartimento separado por grades, onde as pessoas podem conversar, mas não têm contato físico direto. A entrada de homens no recolhimento era proibida, com exceção do pároco e dos cirurgiões e sangradores. Mas estes deveriam estar sempre acompanhados de várias meninas, evitando deixar alguma delas sozinha com uma pessoa do sexo oposto. Nem mesmo mulheres de fora podiam entrar no recolhimento, sendo permitido apenas o trânsito das duas criadas do internato.
     Para ingresso no recolhimento, a idade mínima era de 6 anos e a máxima de 12, sendo que o número de meninas não poderia ultrapassar 50. O dia era dedicado às orações, ao aprendizado e aos trabalhos domésticos. Ao nascer do sol deveriam levantar-se e fazer a higiene pessoal, seguindo depois para as orações. Após a reza, as meninas índias iriam para o trabalho, que poderia ser de costura ou de fiação e tecelagem. Então jantariam, teriam um tempo de repouso e retornariam ao trabalho. Logo em seguida viria a ceia, com novo turno de orações, após as quais deveriam recolher-se. Caberia à mestra do recolhimento zelar pelas roupas das índias, sempre feitas de algodão e em cores neutras. Dois eram os objetivos a serem alcançados com as meninas: que soubessem a língua portuguesa, não sendo permitido falar o guarani, e que aprendessem a se portar como mulheres “honestas”, sabendo comportar-se e fazer todos os serviços necessários ao bom funcionamento de uma casa.
     Diferentemente dos meninos, às meninas não se ensinava a ler, escrever e contar, atividades consideradas irrelevantes para aquelas que deveriam dedicar-se apenas ao trabalho doméstico. Enquanto estavam no recolhimento, podiam receber propostas de casamento, que eram enviadas ao governador. Ele analisava as qualidades do pretendente e, caso este lhe agradasse, autorizava as núpcias. Neste caso, o governador também pagava um dote para as índias, com dinheiro da Fazenda Real.
     Todos os relatos da época afirmam que uma das maiores dificuldades da escola e do recolhimento foi a substituição do guarani pelo português. É provável que esses relatos tenham feito generalizações muito amplas, pois é de se supor que alguns alunos devam ter aprendido o português, principalmente os que prosseguiram nos estudos. Mas este não parece ter sido o caso da maioria dos índios. Os governadores do Rio Grande se impressionavam com o fato de que, decorridos vários anos do estabelecimento dos índios na Aldeia e da fundação das escolas, estes ainda falassem apenas o guarani. Segundo os relatos, a maior parte dos índios nem mesmo conseguia se fazer entender nos confessionários, pois não havia padres na Aldeia que soubessem sua língua.

Debret - Paris 1927
Muito índios, no entanto, por meio da escola ou por outros meios, se integraram à sociedade colonial, falando o português, trabalhando no comércio e adquirindo hábitos tidos como civilizados. É o que se pode ver na pintura de Debret, que traz a imagem de uma índia guarani indo para a igreja. Ela está vestida da mesma forma que as senhoras brancas, leva o cabelo preso e está carregando dois crucifixos, um no pescoço e outro na mão.
Enquanto funcionaram, tanto a escola quanto o recolhimento foram alvo de críticas por parte dos colonos estabelecidos no Rio Grande, que não encontravam justificativas para educar os índios, já que eram vistos como pessoas de natureza inferior, sem capacidade de aprendizado. Os colonos consideravam um desperdício a manutenção das instituições de ensino e propunham a utilização dos índios em trabalhos de baixo valor social, como o corte de madeiras, a construção de estradas etc. A escola e o recolhimento da Aldeia eram os únicos estabelecimentos de ensino existentes no Rio Grande, o que deixava os colonos indignados. Para eles, o dinheiro deveria ser gasto com as crianças brancas, com as quais se obteria algum tipo de resultado proveitoso, e não com os índios, considerados inaptos ao trabalho intelectual.

     Também havia uma forte oposição ao pagamento dos dotes para o casamento das índias do recolhimento.    Devido a sua má fama, os colonos julgavam improvável que pessoas procedentes de famílias honestas se casassem com elas. Na opinião deles, mesmo que houvesse casamentos, o dinheiro empregado nos dotes seria inútil, pois as índias não saberiam manter uma família nos moldes ocidentais, nem criar os filhos dentro dos padrões “civilizados”. Sem dúvida, estes preconceitos dificultaram a realização dos casamentos, embora algumas internas tenham recebido propostas de matrimônio, constituindo famílias dentro das normas portuguesas.
     Tanto a escola quanto o recolhimento foram desativados em 1800, por falta de alunos. Os prédios onde funcionavam foram vendidos, e a iniciativa de se criar escolas para os índios foi abandonada. Sendo um dos únicos exemplos de instituições para a educação dos índios na América portuguesa da segunda metade do século XVIII, a escola da Aldeia dos Anjos oferece um bom exemplo para pensar a função da educação e a sua relação com as diferenças culturais. Apesar de alguns índios terem se beneficiado desta iniciativa, a escola não alcançou seus objetivos na dimensão esperada. O espaço formado para a educação não tinha lugar para as suas próprias manifestações culturais. Ensinava-se os elementos da cultura portuguesa para anular a experiência anterior dos alunos, desconsiderando toda a rica herança cultural de seus antepassados.

Elisa Frühalf Garcia é doutoranda em História Moderna na Universidade Federal Fluminense

Saiba mais - Filme
Desmundo mostra condição feminina no Brasil colonial
Filme de época (por volta de 1570) é falado em português arcaico do século 16, é todo legendado no idioma moderno.
Baseado no livro da romancista Ana Miranda e dirigido pelo paulista Alain Fresnot, a narrativa traça um retrato do Brasil colonial visto sob o ponto de vista feminino: no caso, o de Oribela (Simone Spoladore).
Jovem portuguesa, Oribela veio para o Brasil junto com um grupo de órfãs trazidas para cá pelo projeto da monarquia lusitana de oferecer esposas brancas aos colonos, que há tempos se miscigenavam com as índias.
Na época, essa era uma situação completamente desfavorável às mulheres, mesmo às europeias. Afinal, naqueles dias elas valiam menos do que as mulas e tinham menos direito a exercer a própria vontade. Como gado, seus dentes e dotes físicos eram examinados e elas eram arrematadas como num leilão.
Muito devota, mas disposta a tentar algum tipo de escolha, Oribela rejeita com uma cusparada o primeiro e bruto pretendente (Cacá Rosset). Com Francisco (Osmar Prado), ela já é mais conivente, ainda mais que ele se comporta, em princípio, com mais civilidade.
Instalada na remota propriedade do marido com uma sogra estranha (Berta Zemel), uma cunhada deficiente e uma clara insinuação de incesto, Oribela tenta a fuga com a ajuda de um comerciante judeu, Ximeno (Caco Ciocler).
O filme é um retrato vivo de como devem ter sido aqueles primeiros tempos da colônia e os choques entre suas diversas populações.
Direção: Alain Fresnot
Duração: 99 min
Ano: 2003
Áudio: Português+Legenda

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Filmes: Árabe/Oriente Médio/Islamismo

Ruins, Árabes Malvados: Como Hollywood Vilificou um Povo.
Documentário que expõe de maneira detalhada como o cinema de Hollywood, desde o início da sua história até os mais recentes blockbusters, mostrou os árabes de forma distorcida e preconceituosa. O filme tem como apresentador o aclamado autor do livro “Reel Bad Arabs”, Dr. Jack Shaheen, Professor da Universidade de Illinois e estudioso do assunto. O filme faz uma análise, baseado em uma longa lista de imagens de filmes, de como os árabes são apresentados como beduínos bandidos, mulheres submissas, homens violentos, sheiks sinistros ou idiotas perdulários, ou ainda como terroristas armados e prestes a explodir pessoas e lugares. Uma maneira brilhante de mostrar em uma narrativa bem construída, como as imagens contribuíram e contribuem para formar os estereótipos em torno dos árabes, suas origens e sua cultura. Para escrever o livro, o autor analisou mais de 900 filmes, o que possibilitou formar esta contra narrativa, reforçando a necessidade de mostrar a realidade e a riqueza da Cultura e da História Árabes. O filme foi exibido em diversos festivais nos EUA, Europa e Mundo Árabe e recebeu o apoio do Comite Anti-Discrimição dos Árabes.
Direção: Sut Jhally
http://www.youtube.com/watch?v=Im5qQ9s-ohAAno: 2001
Duração: 51 min
Áudio: Inglês/Legendado 

A caminho de Kandahar


Nafas (Niloufar Pazira) é uma jovem afegã que fugiu de seu país em meio à guerra civil dos Talibãs e hoje trabalha como jornalista no Canadá. Até que sua irmã mais nova, que ficou no Afeganistão, lhe envia uma carta avisando que irá se suicidar antes da chegada do próximo eclipse solar. Nafas resolve então retornar ao Afeganistão a fim de tentar salvar sua irmã.


Direção: Mohsen Makhmalbaf
Ano: 2001
http://ul.to/zxbohthqDuração: 82 min 
Áudio: Persa/Legendado

  Osama
Num país que enviou seus homens para a guerra e que proíbe as mulheres de trabalhar, muitas famílias passam fome. Em pleno regime Talibã, no Afeganistão, a mãe oprimida pelo regime muda a aparência da sua filha, uma garota de doze anos. Ela passa a ser chamada de Osama, obrigada a cortar o cabelo e a vestir-se como se fosse um menino para ajudar a sua família, que é composta apenas por mulheres. Tudo corre bem até que Osama é recrutado pelo exército e inicia uma jornada assustadora pelas estradas do Taleban.
Seis meses depois da queda do regime Talibã o cineasta afegão Siddiq Barmak, que na altura se encontrava exilado no Paquistão, começou a desenvolver Osama. Rodado completamente na capital Cabul, Osama tem no seu elenco apenas atores amadores, recrutados em escolas, orfanatos, centros de crianças da rua e campos de refugiados. A única exceção foi a protagonista, Marina Golbahari, que foi encontrada pelo realizador enquanto andava pela rua. Inspirado numa história verídica, “Osama" é o primeiro filme inteiramente Afegão rodado desde a Ascenção e queda do regime Taliban.Mais um filme premiado em vários festivais, entre os quais três prémios em Cannes, e o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro.
Direção: Siddiq Barmak
http://ul.to/8spdqhkgDuração: 80 min.
Ano: 2003
Áudio: Dari/Pashtu/Inglês/Legendado

O Apedrejamento de Soraya M.
Abandonado em uma remota aldeia iraniana, um jornalista francês é abordado por Zahra, uma mulher que tem uma história horrível para narrar sobre sua sobrinha, Soraya, e as circunstâncias da sua morte sangrenta no dia anterior. Enquanto o jornalista liga o gravador, Zahra nos leva de volta ao começo da história que envolve o marido de Soraya, um falso mulá (líder da mesquita muçulmana), e uma cidade envolta em mentiras, repressão e pânico. As mulheres, despojadas de todos os direitos e sem recursos, nobremente confrontam os desejos devastadores dos homens corruptos, que usam e abusam da autoridade para condenar Soraya, uma esposa inocente mas inconveniente, a uma morte injusta e cruel. Um drama sobre o poder do crime, um mundo fora da lei e a falta de direitos humanos para as mulheres. A última esperança de alguma justiça está nas mãos do jornalista, que deve escapar com a história – e sua vida – para que o mundo tome conhecimento. Baseado no livro homônimo do autor franco-iraniano Freidoune Sahebjam.
Direção: Cyrus Nowrasteh
http://ul.to/vy409w7jDuração: 116 min.
Ano: 2008
Áudio: Inglês/Persa/Legendado

Lemon Tree (Limoeiro)
Salma (Hiam Abbass), uma viúva Palestina, vê sua plantação ser ameaçada quando seu novo vizinho, o Ministro de Defesa de Israel (Doron Tavory), se muda para a casa ao lado. A Força de Segurança Israelense logo declara que os limoeiros de Salma colocam em risco a segurança do ministro e por isso precisam ser derrubados. Salma leva o caso à Suprema Corte de Israel para tentar salvar a plantação.
São várias as questões tratadas por este belíssimo filme! As guerras étnicas, o conflito Israel X Palestina, a justiça praticada pelos mais fortes contra os mais fracos, os conflitos homem X mulher, o machismo, a situação da mulher árabe, a solidariedade humana entre mulheres, a solidão e "ninho vazio", e vai por aí, todas as questões tratadas com sensibilidade, profundo respeito pela condição humana e principalmente pela condição feminina.
Direção: Eran Riklis
http://ul.to/7pyjcbs9Ano: 2008
Duração: 106 min
Áudio: Árabe – Hebreu/Legendado

 Persépolis 
Persépolis é um filme francês de animação de 2007, baseado no romance gráfico autobiográfico homônimo de Marjane Satrapi. Sua trama começa pouco antes da Revolução Iraniana. O título é uma referência à cidade histórica de Persépolis.

Marjane é uma jovem iraniana de oito anos, que sonha em ser uma profetisa do futuro, para assim salvar o mundo. Querida pelos pais cultos e modernos e adorada pela avó, ela acompanha avidamente os acontecimentos que conduzem à queda do Xá e de seu regime brutal. A entrada da nova República Islâmica inaugura a era dos "Guardiões da Revolução", que controlam como as pessoas devem agir e se vestir. Marjane, que agora deve usar véu, deseja se transformar numa revolucionária. Mas, para tentar protegê-la, seus pais a enviam para a Áustria.
O filme estreou no Festival de Cannes de 2007, onde recebeu o prêmio do júri. Em seu discurso, Marjane disse que "apesar desse filme ser universal, eu gostaria de dedicar o prêmio a todos iranianos".
Persépolis foi escolhido pelo governo francês para representar o país na disputa ao Oscar de melhor filme estrangeiro e, apesar de não ter sido indicado na categoria, foi um dos três indicados ao prêmio de melhor filme de animação.
Direção: Marjane Satrapi e Vincent Paronnaud
http://ul.to/bvyhx1xpAno: 2007
Duração: 92 min
Áudio: Francês/Legendado