"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

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segunda-feira, 16 de julho de 2018

O eunuco do Morro Redondo

Um drama real em Pernambuco no ano de 1936: a castração executada pelo cangaceiro Virgínio Fortunato, cunhado de Lampião.
Frederico Pernambucano de Mello
"Lampião, que exprime o cangaço, é um herói popular do Nordeste. Não creio que o povo o ame só porque ele é mau e bravo. O povo não ama à toa. O que ele faz corresponde a algum instinto do povo (...). As atrocidades dos cangaceiros não foram inventadas por eles, nem constituem monopólio deles. Eles aprenderam ali mesmo, e, em muitos casos, aprenderam à própria custa." Rubem Braga, O conde e o passarinho. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1935.
          O dia 19 de maio de 1936, uma terça-feira, poderia ter sido igual a todos os outros no povoado do Morro Redondo, distrito de Catimbau, do município do Buíque, Pernambuco, com a população - toda ela conhecida entre si, quando não aparentada ou unida pelo compadrio - entregue às tarefas cotidianas da vaqueirice e do trato do algodão e da mamona. Pelas duas horas da tarde, quase todos já tinham almoçado, o silêncio é quebrado desde longe por aboios e rinchos de jumento, num crescendo de tropel de cavalos em disparada. Todos atribuem a aproximação rápida a vaqueiros, com seus chapelões de couro, e se tranquilizam, ainda que curiosos por tanto barulho tão de repente.
          Logo os fatos iriam mostrar que estavam enganados, que não se tratava de vaqueiros farreando alegremente e que o lugarejo humilde, arredado do mundo e até mesmo das trilhas do cangaço, estava sendo ocupado por uma das frações mais brutais do bando de Lampião, comandada pelo cunhado do chefe, o não menos famoso cangaceiro Virgínio Fortunato, o Moderno. Com dez pessoas, oito homens e duas mulheres, todos a cavalo - o que denotava estarem seguros da ausência da polícia -, deslocavam-se divididos taticamente em três grupos separados entre si por cerca de quinhentos metros. No "coice", apenas o chefe Virgínio, em companhia das mulheres, inclusive a sua própria, a bela Durvalina Gomes, a Durvinha, a quem a cabroeira tratava por Maria Bonita para disseminar o pavor de que Lampião, em pessoa, estivesse por perto, e mais Rosalina, a Doninha, mulher do cabra Rio Branco. O cangaceiro Moreno, de coragem comprovada, lugar-tenente do chefe, fazia a "cabeceira" ou vanguarda com mais dois cabras. Todos tinham se juntado momentaneamente para a tropeada em direção ao Morro Redondo, cientes de que surpresa e pavor eliminam reações. Ali estavam, além de chefe e lugar-tenente, os cangaceiros Chumbinho, Jararaca, Ponto Fino, Serra de Fogo, Canário e Rio Branco. No mato, à espreita para possível ação de "retaguarda", o cabra Azulão.
          As missões de rapina, chamadas pelos cangaceiros de "volantes", para mexer com os policiais que denominavam assim as suas tropas móveis, não eram incursões aleatórias. Algum planejamento as antecedia, assuntando-se sobre a abertura dos caminhos, locais sujeitos a tocaia, presença de força policial próxima e, sobretudo, o levantamento dos ricos da terra. Não foi surpresa que entrassem na rua trazendo preso, montado em um cavalo, o capitalista do lugar, Firmino Cavalcanti, mais conhecido como Firmino de Salvador, dominado, com o irmão, o velho Epifânio, em seu sítio de nome Breu, um centro algo próspero de agricultura e de compra de couros e cereais. Muito ao estilo do bando de Lampião, vinham presos a resgate, cumprindo às famílias, além de levantar o dinheiro, arranjar um "positivo" de coragem que viajasse até encontrar o grupo e resgatar a vítima. Uma dificuldade, se considerarmos, além de tudo, que esse resgate não era menor do que a quarta parte do valor de um automóvel à época, podendo ir, em alguns casos, ao dobro de tal valor. O equivalente a dois carros pela vida de fazendeiro próspero foi moeda comum no sertão dos anos 20 e 30 do século passado. No tempo de Lampião.
          Os bandidos, ágeis, saltam dos cavalos e vão ganhando as casas a chicotear a todos pela frente, aqui e acolá brandindo o coice dos fuzis sobre os mais apavorados, lançando ameaças, nivelando a população pelas denominações comuns de "fi' da peste", "fi' d'ua égua", "cão", "amancebado", "descarado", ditas em altas vozes. O cangaceiro Serra de Fogo impressiona por gritar a cada instante: "Veja logo o dinheiro pr'eu não ser mais ruim do que já sou!" Outra marca negativa vem das mulheres cangaceiras, que não poupam os chicotes no rosto e no lombo dos mais próximos, numa ação de gênero de todo incomum nos sertões.
          O chefe Virgínio, faiscando de ouro sobre o traje colorido e imponente, se exalta por não encontrar em casa o filho do prisioneiro Firmino, a quem incumbiria, no plano traçado, ir ao Buíque levantar o dinheiro do resgate. O jovem Pedro de Albuquerque Cavalcanti se achava no mato, "dando campo", no traquejo do gado da família. No bando havia dez anos, desde que enviuvara de uma irmã de Lampião morta pela peste bubônica no Juazeiro do padre Cícero, Virgínio desce do burro e entra na casa de Pedrinho Salvador - como era conhecido - advertindo a mulher deste, dona Ester, com palavras graves. Botando os olhos muito vermelhos sobre ela, recomenda que Pedrinho "vá ver o dinheiro no Buíque assim que chegar". E se recosta numa mesa, servindo-se de cerveja quente, cara fechada, importante, consciente de seu poder absoluto. Chumbinho bota a cara bexigosa na janela, avisando o chefe de que as montarias estavam cansadas. Este, numa demonstração de que o absolutismo tinha limite, recomenda cuidado na devolução dos cavalos, "porque tem um que é do coronel Arcelino de Brito".
          Saindo à ruazinha de lama, Virgínio divisa entre os curiosos um rapaz alto, magro, 22 anos de idade, caboclo quase índio, a quem se dirige com energia: "Venha cá, cabra! Se correr, morre!" O jovem, que jamais vira um cangaceiro em sua frente, se aproxima sem receio, sendo-lhe indagado se era da terra, ao que responde afirmativamente. Segue-se nova pergunta: "Você sabe onde fica o Xilili? Quero que você me bote na estrada que vai pra lá. E vamos logo, cabra!" Para sua surpresa, o jovem - que sabia onde ficava o lugar levado pela ingenuidade põe-se na frente dos animais e responde que ignorava aquele rumo.
          O chefe cangaceiro se enfurece, risca o cavalo novo em que se montara e grita não entender como alguém dali não conheça o lugar procurado, próximo de onde se encontravam. Atordoado, o jovem mantém a negativa implausível. E o mundo lhe desaba sobre a cabeça, todo o seu futuro vindo a se definir nos poucos minutos que se seguem. É arrastado pelos cabras para trás de uma cerca, derrubado no chão a coice de fuzil e fica à espera do chefe, numa eternidade de segundos. Virgínio apeia calmamente, calça umas luvas amarelas e vai até às mulheres pedindo que procurassem uma sombra porque tinha que fazer "um serviço". Uma delas lhe atira no rosto sem nenhum respeito: "Que tanto 'serviço' é esse, rapaz! Chega de tanto 'serviço'!".
          Sem se alterar, o chefe vai até onde estava o jovem, levanta-o pela abertura da camisa, encara-o, e sentencia com uma dureza de Velho Testamento: "Eu agora vou fazer um 'serviço' em você mode você não deixar descendença de famia em riba do chão. Desça as calças!" O rapaz cobre o rosto e cai, compreendendo finalmente no que se metera. Sai o grito: "Valha-me Nossa Senhora!" E a resposta incrível: "Ah, não tem o que fazer. É Nossa Senhora mesmo que está mandando". O punhal longo corre rápido pela virilha da vítima e estoura o cinturão com movimento de alavanca. Calças arriadas, Virgínio ordena: "Segure [os testículos] senão eu toro com tudo [com o pênis]". Embainha o punhal de quatro palmos e dois dedos - seria perdido horas depois e recolhido à delegacia do Buíque - e bate mão de uma "peixeira", faca ainda pouco conhecida no sertão à época. Um golpe só e o bandido tem nas mãos bolsa e testículos do jovem. Caminha, ainda lentamente, reingressa no arruado e chega à porta de dona Ester, com as mãos em concha ensanguentadas, e diz, educadamente: "Dona, eu tinha visto que a senhora tava com feijão no fogo. Quer os colhões de um porco?" E despeja tudo na panela de barro, sem esperar resposta. O feijão espuma. A mulher agradece. Virgínio sai e vai juntar-se aos companheiros. Risadagem. De cima do cavalo, dirige-se ao jovem caído, a perder muito sangue, e receita exatamente a assepsia eficaz da vaqueirice: "Bote sal, cinza e pimenta!".
          O lugar-tenente Moreno volta da rua, onde se detivera a ameaçar com o mesmo "serviço" ao também jovem Antônio Leite Cavalcanti, o Antônio Grosso, e ao prisioneiro Epifânio que, velho e desiludido do futuro, reage duramente ao bandido, caindo-lhe na admiração. Moreno grita na rua: "Oh, veio macho! Ninguém me toca mais num fio de cabelo dessa onça... Só assim eu vou sabendo que muié pariu home no Morro Redondo!".
          No dia 25 de maio, vindo de Rio Branco (atual Arcoverde) na segunda classe do trem da Great Western, o jovem Manuel Luís Bezerra, o "Mané Lulu", filho de Francelina e Luís Bezerra, naturais, como o filho, ali mesmo do Catimbau do Buíque, chegava ao Recife, ficando por um mês no Serviço de Pronto-Socorro, após o que voltaria a pé para a sua residência. O Morro Redondo ganhava uma espécie de eunuco.
          O leitor que toma partido gostará de saber que o chefe Virgínio não viverá muito tempo mais para debochar de sua vítima nas passagens pelo Morro Redondo, amiudadas a partir de então, indagando como ia o "protegido" de saúde e se voltara a namorar... Em outubro desse mesmo 1936, quando procurava os Cariris Velhos, na Paraíba, para se furtar à ação das forças policiais assanhadas pelo ataque de 28 de setembro à vila de Piranhas, no sertão alagoano do São Francisco, passa a ser seguido a distância, nem bem cruzara a divisa, pelo destacamento policial da vila de Inajá, Pernambuco, de apenas quatro soldados, sob o comando do cabo Pedro Alves, um perseguidor experiente de cangaceiros, com mortes nas costas. A aproximação se fazia difícil por conta do número elevado de bandidos: trinta homens e três mulheres, acoplados os bandos de Corisco, com ele mesmo à frente e sua mulher, Dadá, o de Virgínio, completo, mais os remanescentes do grupo de Gato, morto em Piranhas.
          O jogo de gato e rato às avessas - rato enorme, gato minúsculo - segue pelas areias do Moxotó por dois dias, até que num baixio próximo da sede da Fazenda Rejeitado, sul do município pernambucano de Alagoa de Baixo (hoje Sertânia), quando, a bem dizer, já avistavam a Paraíba, os bandidos levam uns poucos tiros, dados de longa distância. Uma longa distância que nunca fora problema para o fuzil Mauser, modelo 1908, regulamentar na volante pernambucana. Pedro Alves e o soldado Pompeu Aristides de Moura, um filho de cangaceiro da ribeira do Navio, tinham ficado sós no momento em que acertavam a tática de atirar "no cabra mais vistoso" e correr para a caatinga, livrando-se do retruque que sabiam violento e rápido. Estava ali a nata do cangaço. E é assim que Virgínio, alto, elegante, grisalho, com uma cartucheira de ombro faiscante de balas a lhe cingir o tórax em diagonal, encontra a morte com apenas um tiro que abre a face interna da coxa e expõe a veia femoral. Sentado ao pé de uma quixabeira, a se esvair em sangue, encontra tempo para se despedir de cada um dos companheiros. Os soldados mergulham na caatinga como veados, debaixo de um chuveiro de balas. Seriam premiados pela ousadia: cabo passando a sargento, e soldado, a cabo.
          No dia seguinte, outros soldados vão ao local para o levantamento do cadáver mal sepultado na pressa, arrancando os dentes de ouro do finado a coice de fuzil, à falta de qualquer outro despojo, tudo conduzido pelo bando na véspera. Um dos soldados, do destacamento do Buíque, conhecedor do episódio do Morro Redondo, corta uma orelha do morto famoso. Cunhado de Lampião. Com uns dias, cavando possível agrado, leva a peça salgada para Manuel Luís, que se recusa a ficar com esta, mas não a escutar toda a história da morte de seu algoz.
          Passados 51 anos da tragédia, Manuel Luís ainda se emociona. Segura no braço do entrevistador e diz baixinho: "Foi o dia mais feliz da minha vida!".
          Duas observações para finalizar. Interessa pouco enquadrar o cangaço como expressão de criminalidade, embora isto seja perfeitamente possível no plano jurídico. O caráter público, ostensivo e franco da ação do cangaceiro - a partir do próprio traje - nos remete para algo mais profundo, anterior à própria ideia de lei na colônia surgida em 1500. E ligado continuamente, ao longo de cinco séculos, ao que temos considerado o mito primordial brasileiro, expresso na frase dos primeiros reinóis que viram os habitantes do Brasil e que, submetidos à dupla dominação, a do papado romano e a da Coroa portuguesa, encantaram-se em relatar para a Europa terem encontrado homens iguais a si, mas superiores num ponto capital: "eles vivem sem lei nem rei e são felizes".
          E agora uma constatação. Também uma curiosidade. Todo o quadro de punições do cangaço não é senão a transposição para a subcultura cangaceira de procedimentos empregados pelo vaqueiro no dia a dia do trato com o gado. Assim, o "sinal", a individualizar por cortes nas orelhas o gado pequeno, a ovelha ou a cabra, a "miunça" do falar sertanejo. Ou o "ferro", a queimar o pelo do gado graúdo, deixando a marca indelével do dono. Ou, ainda, o "sangramento" do gado miúdo, pela introdução de instrumento perfurante. Ou, por fim, a "capação", aqui relatada, em tudo similar à que se faz com o bode, por exemplo. Quase dono do mundo, vivendo sem lei nem rei como seus ascendentes de cinco séculos, o cangaceiro confirmava com gestos a condição assumida de vaqueiro de gente, sobranceiro e, por vezes, desligado da categoria da morte, a se levar a sério o que cantava a gesta.

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor de Guerreiros do sol violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004. O autor agradece à equipe do posto médico do Catimbau do Buíque, Pernambuco, o apoio que lhe permitiu, quando do levantamento dos fatos aqui narrados, fazer a constatação anatômica da lesão sofrida por Manuel Luís Bezerra.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião: o rei dos cangaceiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.
LIMA, Estácio de. O mundo estranho dos cangaceiros. Salvador: Itapoã, 1965.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife - Zurich: Stàhli Edition, 1993.


Saiba Mais – Filme
Baile Perfumado
Amigo íntimo do Padre Cícero, o mascate libanês Benjamin Abrahão decide filmar Lampião e todo seu bando, pois acredita que este filme o deixará muito rico. Após alguns contatos iniciais ele conversa diretamente com o famoso cangaceiro e expõe sua ideia, mas os sonhos do mascate são prejudicados pela ditadura do Estado Novo.
Direção: Lírio Ferreira, Paulo Caldas
Ano: 1996
Áudio: Português
Duração: 93 minutos





Saiba Mais – Link

sábado, 19 de maio de 2018

Tropas femininas em marcha

Presença extraoficial nos fortes e acampamentos militares, as mulheres brasileiras formavam um exército invisível que se tornou indispensável no desenrolar da Guerra do Paraguai.  
Maria Teresa Garritano Dourado
          A imagem tradicional que se tem de batalhas e acampamentos militares, repletos de soldados, armas, violência e morte, não inclui mulheres e crianças. No entanto, várias brasileiras, entre mães, esposas, prostitutas, comerciantes, prisioneiras e escravas, desempenharam papel ativo na guerra travada contra o Paraguai, entre 1864 e 1870. Atuando sobretudo na retaguarda, enfrentaram, junto com os homens, os horrores de um conflito bélico.
          Brasileiras de origem humilde, especialmente esposas ou aparentadas de soldados, muitas vezes optavam por acompanhar as tropas com os filhos a tiracolo, quando se viam desprotegidas e sem meios de sobrevivência. Como não havia abastecimento regular nos acampamentos, algumas delas, conhecidas como vivandeiras, se dedicavam à venda de artigos de primeira necessidade e, com frequência, à prostituição. Essas vivandeiras, e demais andarilhas que seguiam os batalhões, criavam modos de vida e sobrevivência na retaguarda, cuidando das crianças, da comida e das roupas. Assim como os homens, sofriam com a marcha extenuante, o sol, o frio, a fome e as doenças que assolavam os acampamentos desprovidos das mínimas condições de higiene.
          Em alguns casos, as mulheres nas tropas também pegavam em armas e socorriam feridos, fazendo curativos e conduzindo-os até os hospitais. Esse tipo de auxílio foi registrado pelo general brasileiro Dionísio Cerqueira em 1870, nas suas reminiscências da guerra: "Nas linhas de atiradores que combatiam encarniçadas, vi-as [mulheres] mais de uma vez aproximar-se dos feridos, rasgarem as saias em ataduras para lhes estancarem o sangue, montá-los na garupa dos seus cavalos e conduzi-los no meio das balas".
          Em A retirada da Laguna, narrativa romanceada sobre uma expedição brasileira na fronteira entre o Mato Grosso e o Paraguai, o autor, Alfredo Taunay, expôs as agruras vividas pelos segmentos femininos, discriminados e sem direito a remédios, cuidados ou abrigo em caso de doença. Nessa expedição, que não suportou nem dois meses de luta devido à falta de abastecimento e à virulência da cólera, coube às mulheres o papel de coadjuvantes anônimas, como se vê no seguinte trecho.
          "Eram setenta e uma mulheres, todas a pé, exceto duas, montadas em bestas; carregavam quase todas crianças de peito ou pouco mais velhas. Por heroína passava uma e todas a apontavam, quando um soldado paraguaio ao tentar lhe arrancar o filho, tomou de uma espada largada no chão, e num salto matara o assaltante." O autor encerra o relato dizendo que, embora essa mãe houvesse adquirido o status de heroína por sua bravura, seu nome não foi registrado em lugar algum.
          Ao longo de toda a guerra, pouquíssimas mulheres do povo obtiveram algum reconhecimento a ponto de sair do anonimato. Eram, quando muito, conhecidas apenas pelo primeiro nome ou apelido. Em Episódios militares, o general-de-brigada Joaquim Silvério de Azevedo Pimentel menciona duas mulheres que o impressionaram: a gaúcha Florisbela e a pernambucana Maria Francisca da Conceição, a Maria Curupaiti. Florisbela, sobre quem não se conhece o nome completo nem a família, envolvia-se em lutas e auxiliava nos hospitais, ao passo que Maria Curupaiti, a esposa de um cabo-de-esquadra, lutava ao lado dos homens sempre vestida de soldado.
          Outra mulher de origem humilde que obteve destaque foi a piauiense Jovita Alves Feitosa, a sargenta Jovita. Em resposta à campanha veiculada pela imprensa conclamando os jovens "a servir ao Brasil", apresentou-se incógnita ao Exército, aos 17 anos, vestida de homem e com os cabelos cortados. A história ganhou as páginas dos jornais e se tornou um dos mais conhecidos casos de alistamento de voluntários da pátria Taunay chegou a comentar o fato com misto de preconceito e ironia: "Chegaram os retratos do Viegas, o meu antigo inspetor, e da interessante Jovita que me pareceu muito engraçada nos seus trajes de primeira-sargenta". Não se conhece toda a trajetória de Jovita após o alistamento nem as circunstâncias de sua morte, em 1867. Segundo uma versão, ela teria se suicidado em 9 de outubro daquele ano, inconformada com o esquecimento a que foi relegada, apesar do recebimento de homenagens e presentes quando retornara dos combates. Outra versão conhecida é a de que teria embarcado para o Paraguai, no vapor Jaguaribe, e morrido na batalha de Acosta Nu.
          Histórias como a de Jovita são exceções. As raras mulheres lembradas pelos memorialistas com direito a nome e sobrenome eram casadas com homens pertencentes à elite imperial. Sobre elas predomina quase sempre o retrato da esposa corajosa, fiel e abnegada, como Ludovina Portocarrero, casada com o comandante do Forte de Coimbra, em Corumbá, às margens do rio Paraguai. Ludovina ganhou destaque por sua participação no grupo de resistência à invasão do forte por tropas paraguaias em 1864. Cerca de setenta mulheres, quase todas esposas de militares, fabricaram 3.500 balas de fuzil adaptando os cartuchos de menor calibre com pedaços de suas roupas. Segundo informações do major César Lucios Mattos Bessa, do 11º RC MEC de Ponta Porã, era possível naquela época fabricar cartuchos artesanalmente, utilizando pequenos pedaços de tecidos e pólvora.
          Dentre todas as mulheres registradas pela história na Guerra do Paraguai, porém, a mais conhecida é a enfermeira voluntária Ana Néri. Viúva de um homem de projeção na época, o capitão-de-fragata Isidoro Antônio Néri, Ana acompanhou e cuidou dos três filhos combatentes até o Paraguai. Na época em que residiu em Corrientes, Humaitá e Assunção, tratou de doentes e feridos em hospitais e amargou a perda de um filho e um sobrinho. Por sua atuação, ficou conhecida como a "mãe dos brasileiros" e recebeu uma coroa de ouro de um grupo de senhoras onde se lia "à heroína da caridade, as baianas agradecidas".   
          Infelizmente, sabe-se pouco sobre a presença feminina na Guerra do Paraguai devido à pequena quantidade de documentos disponíveis a respeito. A maioria dos relatos foi feita por homens que mal mencionam a participação de mulheres ou o fazem com ironia e preconceito. Historiadores são obrigados a rastrear e analisar trechos esparsos sobre o assunto deixados em cartas, memórias, reminiscências e diários escritos por combatentes, a fim de traçar um panorama real do que se passou.

MARIA TERESA GARRITANO DOURADO é mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e professora na Faculdade de Ciências Administrativas de Ponta Porã (FAP), Mato Grosso do Sul.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CERQUEIRA, Evangelista de Castro Dionísio. Reminiscências da Campanha do Paraguai, 1865-1870. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1929.
SOUZA, Luiz de Castro. A Mediana na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1971.
TAUNAY, Alfredo D'Escragnol!e. A retirada da Laguna. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997.
______. Cartas da Campanha de Matto Grosso: 1865 a 1866. Rio de Janeiro: Editora Biblioteca Militar, 1944.

Saiba Mais – Links

terça-feira, 10 de abril de 2018

Moça independente

Insubordinada desde nova, Maria Quitéria se vestiu com o uniforme do cunhado para lutar pela independência na Bahia.
Ronaldo Pelli
     “Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem a inteligência clara e a percepção aguda. Penso que, se a educassem, viria a ser uma personalidade notável. Nada se nota de masculino nos seus modos, antes os possuía gentis e amáveis. (...) Nada notei de peculiar no seu procedimento à mesa, (...) e que fume um cigarro após cada refeição. No mais, muito moderada”. Assim a escritora inglesa Maria Graham, tutora das filhas de D. Pedro I, descreveu uma das maiores heroínas do Brasil. Uma mulher que já foi chamada várias vezes de Joana D’Arc brasileira. Uma guerreira que lutou pela independência e se transformou em nome de ruas no Brasil inteiro: Maria Quitéria.
     A declaração da Maria inglesa sobre a sua xará, nascida em 27 de julho de 1792 em um sítio em Cachoeira, na Bahia, aconteceu já depois de a Maria baiana ficar famosa. Filha de Quitéria Maria de Jesus e Gonçalo Alves de Almeida, a menina ficou órfã de mãe aos 9 anos. O pai se casou mais duas vezes, e a segunda madrasta deixava claro que não gostava do jeito “independente” da menina. Era bonita, sabia montar, caçar, manejar armas de fogo e, petulância, dançava lundus com os escravos. Não podia.
     Essa semente de liberdade brotou em setembro de 1822. No dia 6, um mensageiro do Conselho Interino do Governo da Província foi à fazenda de Gonçalo para pedir voluntários da causa da independência. O pai de Maria Quitéria lamentou não ter filhos homens na idade de lutar, mas Maria Quitéria se ofereceu. O pai a censurou: as mulheres são feitas para fiar, tecer, bordar. Não Maria Quitéria.
     Fugiu de casa, pegou a farda do cunhado e se apresentou como soldado Medeiros no Regimento de Artilharia. Semanas depois, foi descoberta, porque o pai a estava procurando. Transferida, então, para o outro batalhão, seu uniforme agora era personalizado: tinha um saiote.                                   
     Já em fevereiro de 1823, mostrou bravura. No confronto em Itapuã, invadiu a trincheira inimiga e fez vários prisioneiros. Em abril, na barra do Paraguaçu, avançou mar adentro junto com outras mulheres, com a água na altura dos seios, e impediu o desembarque de uma tropa portuguesa. Em 2 de julho, o Exército Libertador entrou em Salvador, aclamado. Houve homenagens aos comandantes e a Maria Quitéria de Jesus.
     Por conta de sua atuação, foi recebida pelo imperador Pedro I – quando se encontrou com Maria Graham – ganhando a insígnia imperial da Ordem do Cruzeiro. Até morrer, em 1853, pobre e quase cega, recebeu um soldo de alferes. Além das homenagens, Pedro I ainda tentou ajudá-la nos assuntos domésticos. Enviou uma carta ao seu pai, Gonçalo de Almeida, pedindo que ele a perdoasse. Não é fácil, mesmo, ter uma filha guerreira em casa.

Saiba Mais – Bibliografia
SCHUMAHER, Schuma & BRAZIL, Érico Vital (orgs.). Dicionário Mulheres do Brasil – de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.
SOUZA, Bernardino José de. Heroínas baianas. Lisboa: Paralelo Editora, 1972.
VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

Saiba Mais – Documentário
Maria Quitéria
Na luta pela Consolidação da Independência na Bahia, uma surpresa: o soldado Medeiros, bravo e audaz, era na verdade Maria Quitéria de Jesus. Pelo exemplo de altivez e independência, tornou-se símbolo do movimento de emancipação feminina.
Nasceu em Feira de Santana (BA), no ano de 1792, e morreu em 21 de agosto de 1853.

domingo, 21 de janeiro de 2018

Os mistérios da Rosa

Escrava e ex-prostituta, a africana Rosa Maria Egipcíaca se tornou a mais venerada santa negra do Brasil colônia.
Luiz Mott
          Não há na história da escravidão no Brasil uma africana cuja biografia seja tão fantástica e tão documentada como a de Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz. Até hoje se conserva no Rio de Janeiro uma capela maravilhosa no Convento de Santo Antônio, no Largo da Carioca, cujo modelo e construção tiveram inspiração numa visão celestial dessa africana ainda pouquíssimo conhecida em nosso país. Muito mais que a lendária escrava Anastácia, Rosa Egipcíaca foi a mais famosa e venerada santa negra da diáspora africana no Novo Mundo.
          Rosa era uma negrinha nascida na Costa de Mina, de nação Courana, que desembarcou de um navio negreiro no Rio de Janeiro em 1725: tinha seis anos de idade. Foi comprada por um tal senhor José de Sousa Azevedo, que a mandou batizar na Igreja da Candelária, templo onde grande parte dos africanos eram batizados e que na época não passava de uma pequenina igreja, sede da Freguesia da Várzea, humílima em comparação à grandiosidade do templo neoclássico que hoje conhecemos.
          Dizem os manuscritos de seu processo conservado no Arquivo da Torre do Tombo, em Portugal - que, ao atingir catorze anos, o senhor de Rosa, "após desonestá-la e tratar torpemente com ela", a vendeu para as Minas Gerais. A adolescente mina teve o mesmo triste destino de tantas escravas da cor de ébano, presas fáceis da volúpia dos machos de todas as cores numa sociedade que acreditava não haver pecado abaixo do equador.
          Na capitania das Minas, Rosa foi comprada pela mãe de um de nossos mais destacados literatos do período colonial, frei José de Santa Rita Durão, autor do poema "O caramuru", indo morar na freguesia do Inficcionado, a duas léguas de Mariana. Como tantas escravas de norte a sul da Colônia, a negra courana vai viver de vender seu corpo e favores sexuais aos homens mineiros, que com ouro em pó compravam mercadorias e prazer das disputadas mulheres que percorriam as faisqueiras, pequenas áreas de mineração abertas a todos que buscavam enriquecer por si próprios. Era a única escrava negra num plantel de 77 escravos machos! Segundo mais tarde confessou perante o comissário do Santo Ofício do Rio de Janeiro, passou 15 anos "a se desonestar vivendo como meretriz".
          Ao completar trinta anos é atacada de estranha enfermidade, logo diagnosticada como uma espécie de "encosto": ficava com o rosto inchado, sentia fortes dores no estômago, caindo ao chão desacordada. Rosa decide então mudar de vida: por volta de 1748, vende seus poucos bens - joias e roupas amealhados com a venda de seu corpo - e distribui tudo o que consegue aos pobres. Adota vida beata, frequentando os ofícios divinos e liturgias, que, abundantes, eram celebrados nas barrocas igrejas mineiras, muitas delas acabadas de construir nessa mesma década. Foi numa dessas andanças que encontrou na Capela de São Bento, no mesmo arraial do Inficcionado em Mariana, o padre Francisco Gonçalves Lopes, que realizava espantosos exorcismos em alguns possuídos. Esse sacerdote português era então vigário da freguesia de São Caetano, no mesmo distrito, e tão eficaz e useiro era em tirar o demônio do corpo de brancos e pretos que tinha por apelido "Xota-Diabos".
          Impressionada com a cerimônia do exorcismo, Rosa revelou que ela própria também estava possuída por sete demônios: segundo ela, era como se um caldeirão de água quente estivesse sendo despejado sobre seu corpo, o que a fez cair desacordada ao chão, partindo a cabeça na pedra debaixo do altar de são Benedito. Um segundo exorcismo realizado nessa mesma freguesia confirma ao sacerdote que de fato a escrava do casal Durão era uma possessa especial, pois, quando vexada, fazia sermões edificantes, sempre com a preocupação de que todos mantivessem perfeita compostura nos templos, retirando à força para a rua a quantos conversassem ou desrespeitassem o Santíssimo Sacramento. Quando possuída por Satanás, falava grosso, caía desacordada e dizia ter visões celestiais. Por diversas vezes afirmou ter visto Nossa Senhora da Conceição, ouvido diversos coros de anjos que lhe ensinaram algumas orações, e até recebido a revelação de uma fonte de água milagrosa ao pé de uma montanha, onde devia ser construída uma igreja em honra de Senhora Santana. O culto da mãe de Maria substitui, no imaginário místico de Rosa, a perda e o desconhecimento dos próprios ancestrais, culto muito forte na maior parte das culturas da Costa da África.
          A fama de visionária de Rosa espalha-se por Mariana, Ouro Preto, São João del Rei, sempre acompanhada do padre Xota-Diabos e de seus exorcismos. Nesta última cidade, na Igreja do Pilar, certa feita Rosa courana interrompe a pregação de um missionário capuchinho italiano, gritando que ela era o próprio Satanás ali presente: é presa e enviada para a sede do bispado, em Mariana, sendo flagelada no pelourinho com tal rigor que por pouco não morreu, ficando, contudo, para o resto da vida com o lado direito do corpo semiparalisado. Recuperada da tortura, procura o recém empossado bispo da diocese, dom frei Manoel da Cruz, que encarrega uma junta de teólogos de investigar se Rosa era mesmo possuída ou embusteira. Após uma série de provas - inclusive testando a resistência da pobre vexada à chama de uma vela, que por cinco minutos a suportou debaixo da língua! -, concluem os teólogos que era tudo fingimento, passando então o povo a zombar de Rosa, chamando-a de feiticeira.
          Para evitar novos problemas, Rosa foge para o Rio de Janeiro, sempre auxiliada e protegida pelo seu inseparável padre Xota-Diabos, agora seu proprietário legal, o qual nessa época passava dos cinquenta anos - corria a fama de que eram amantes. Chegam então à heroica e leal cidade do Rio de Janeiro em abril de 1751. Depois de Salvador, a capital da Colônia, o Rio de Janeiro era nossa segunda cidade em importância demográfica e econômica, e com vivíssimo décor religioso: 23 igrejas distribuídas em quatro paróquias: São José, Catedral (São Sebastião no morro do Castelo), Santa Rita e Candelária; setenta oratórios, 26 confrarias, 380 frades, mais de uma centena de padres seculares.
          Rosa instala-se, inicialmente, numa casa em frente à Igreja de Santa Rita, tendo sua primeira visão na Igreja de Nossa Senhora da Lapa - "caindo no chão sem sentidos e como morta" -, quando lhe apareceu o Menino Jesus vestido de azul-celeste, com uma tiara pontifícia na cabeça. Por sugestão de uma das muitas beatas que frequentavam assiduamente os templos cariocas, Rosa revela sua vida atribulada e dons espirituais ao provincial dos franciscanos, frei Agostinho de São José, que passa a ser seu diretor espiritual. Foi esse mesmo frade quem edificou o segundo andar do Convento de Santo Antônio, ainda hoje dominando do alto do morro o Largo da Carioca. A vida mística de Rosa impressiona vivamente os franciscanos, que a veem cumprir todos os exercícios pios muito em voga nos séculos passados: jejuns prolongados, uso de silício (instrumento para autoflagelação), comunhão frequente. Dão à preta Rosa o maravilhoso título de "a Flor do Rio de Janeiro".
          Nessa época, convém esclarecer, malgrado a discriminação legal e institucional contra a raça negra, sujeita à escravidão e aos mais cruéis tormentos, procurava a Igreja Católica oferecer modelos de santidade para este enorme contingente demográfico representado pelos africanos e afrodescendentes que pululavam por toda a América portuguesa. É nesses meados do século XVIII que o papado estimula, por todas as partes do mundo escravista, o culto a são Benedito, santo Elesbão, santa Ifigênia, santo Antônio de Noto (ou Catigeró), todos negros como Rosa, todos exemplos de humildade, resignação e santidade. A beata Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz, portanto, ex-prostituta como sua patrona santa Maria Egipcíaca (natural do Egito, que teve vida escandalosa da adolescência aos 29 anos, quando se converteu, isolando-se na Palestina, onde viveu sob duras penitências por 47 anos), vinha a calhar nessa renovação pastoral da Igreja e poderia ser - certamente assim o desejavam os franciscanos - uma futura santa. Tão logo chega ao Rio, Nossa Senhora obriga a negra courana, através de uma visão celestial, a aprender a ler e escrever, tarefa que cumprirá razoavelmente, sendo até agora a primeira africana de que se tem notícia em nossa história a ter aprendido os segredos do abecedário. Também por inspiração sobrenatural, Rosa Egipcíaca decide fundar um recolhimento para "mulheres do mundo" que pretendiam, como ela, trocar o amor dos homens pelo do Divino esposo.
          Financiada por polpuda doação de um sacerdote de Minas Gerais, seu devoto e admirador das virtudes da ex-escrava, contando com o beneplácito do bispo do Rio de Janeiro, d. Antônio do Desterro, em 1754 é lançada a primeira pedra do Recolhimento de Nossa Senhora do Parto, aproveitando a existência de pequena capela localizada no centro histórico desta cidade, onde hoje se situa a rua da Assembleia. Construído, o recolhimento chegou a abrigar uma vintena de moças-donzelas e ex-mulheres da vida, sendo metade delas negras e mulatas. Madre Rosa - como então era chamada por dezenas de seus devotos - sofistica suas visões, passando a escrevê-las ou ditando para que suas escribas anotassem tudo o que via e ouvia, seja revelado pelos santos, por Maria Santíssima ou pela própria boca do Onipotente.
          Sempre aplaudida e venerada pelo padre Francisco Gonçalves Lopes, pelo seu frade confessor e por um capuchinho italiano, a negra courana escreve mais de 250 folhas do livro Sagrada teologia do amor de Deus luz brilhante das almas peregrinas, e diz que o Menino Jesus vinha todo dia mamar em seu peito e, agradecido, penteava sua carapinha; que Nosso Senhor trocara seu coração com o dela, e que no seu peito trazia Jesus Sacramentado; que morrera e tinha ressuscitado; que Nossa Senhora era Mãe de Misericórdia e que ela, Rosa, recebera de Deus o título e encargo de Mãe de Justiça, dependendo de seu arbítrio o futuro de todas as almas, se iam para o céu ou para o inferno; que ela própria era a esposa da Santíssima Trindade, a nova Redentora do mundo. A ex-escrava, agora madre do Recolhimento do Parto, foi a principal vidente e divulgadora em terras brasileiras do culto aos Sagrados Corações, originado na França no século XVII e oficializado para toda a cristandade pelo papa Clemente XIII em 1765, incluindo não apenas a devoção oficial a Jesus e Maria, mas a toda a família do Nazareno, a saber, os corações de são José, são Joaquim e Santana. Foi graças às visões de Rosa, e para representá-las visualmente, que os franciscanos construíram no Convento de Santo Antônio a maravilhosa Capela dos Sagrados Corações, até hoje perfeitamente conservada e aberta à visitação pública, muito embora omitindo-se os créditos à sua verdadeira inspiradora: santa Rosa Maria Egipcíaca da Vera Cruz!
          Em seu recolhimento, além do culto idolátrico à sua pessoa, algumas liturgias igualmente pecavam pela oposição aos dogmas da Igreja, notando-se elementos de forte inspiração africana. Não esquecer que mais da metade das recolhidas entre as quais as principais assessoras de Rosa eram afrodescendentes. Além do hábito de pitar cachimbo, a negra courana comandava certas cerimônias em que é nítido o sincretismo afrocatólico, incluindo danças e transe.
          A fantasiosa megalomania religiosa de madre Rosa tinha no padre Xota-Diabos seu promotor, o qual mandara pintar um quadro sobre cobre, em que a "Flor do Rio de Janeiro" posava com todos os símbolos da santidade, trazendo na mão direita uma pena, símbolo de sua erudição teológica, posto que o padre Xota-Diabos, agora capelão do recolhimento, proclamara mais de uma vez que "Rosa deixava santa Teresa d’Ávila a léguas de distância" e que aquela santa, primeira mulher a ser declarada Doutora da Igreja, não passava de uma "menina de recados" da mestra africana. Muitos fiéis frequentavam o Recolhimento do Parto, alguns para ouvir os conselhos da madre superiora, outros para buscar suas relíquias, notadamente uma espécie de biscoito feito com a saliva de Rosa, amassada com farinha, que era guardada para esse fim, e a que seus devotos reputavam o poder de curar todas as enfermidades. Profetizando que o Rio de Janeiro ia ser inundado e destruído do mesmo modo como acontecera no ano anterior (1755) com o terrível terremoto de Lisboa, madre Rosa convence uma dezena de famílias a refugiar-se no recolhimento, garantindo que seriam os únicos sobreviventes do dilúvio e que essa nova Arca de Noé iria cruzar o oceano para encontrar-se com o rei d. Sebastião - desaparecido havia dois séculos nas areias do Marrocos, o qual tinha escolhido a negra Rosa para sua esposa. E que desse matrimônio e de seu ventre nasceriam o novo Redentor da humanidade. Rosa foi, dentre todos os sebastianistas, a que mais ousou em suas profecias!
          Não foram tanto os vaticínios não cumpridos nem seus êxtases e revelações de características epileptoides a causa da derrota de madre Egipcíaca: seu erro foi indispor-se com o clero carioca, por ter ralhado com alguns sacerdotes que davam mau exemplo conversando na igreja durante as cerimônias sacras. Acabou sendo denunciada ao bispo, sobretudo após ter retirado à força, da Igreja de Santo Antônio, uma senhora da sociedade que se comportava com menos compostura. Mandada prender no cárcere eclesiástico do Rio, dezenas de testemunhas passam a denunciar as excentricidades dessa preta beata: aí então se revelam todos os seus desatinos religiosos, como dizer-se mãe de Deus, redentora do universo, superior a santa Teresa, objeto de verdadeira e herética idolatria em seu recolhimento, além de capitanear rituais sincréticos igualmente suspeitos.
          Após quase um ano presa no cárcere eclesiástico do Rio de Janeiro, Rosa e o padre Xota-Diabos são enviados para Lisboa, sendo ouvidos pelo Santo Ofício, em 1763. O sacerdote em poucas sessões do inquérito declara ter sido enganado pela falsidade da negra, alegando ser pouco letrado em teologia e ter-se fiado na boa opinião que o provincial dos franciscanos dela fazia. Pede perdão por sua boa-fé e excessiva credulidade: tem como pena o degredo de cinco anos para o extremo sul de Portugal, no Algarve, além de perder o direito de confessar e exorcizar. Rosa, por seu turno, dá um heroico espetáculo de autenticidade, insistindo em muitas sessões que nunca mentiu, nem inventou coisa alguma: confirma que todas as suas visões, revelações e êxtases foram verdadeiros. Em 4 de junho de 1765 se dá a última sessão de perguntas à vidente afro-brasileira: nesse dia ela narra uma de suas visões. Que estando para comungar ouviu uma voz sobrenatural que lhe dizia: "Tu serás a abelha-mestra recolhida no cortiço do amor. Fabricareis o doce favo de mel para pores na mesa dos celestiais banqueteados, para o sustento e alimento dos seus amigos convidados".
        A partir daí, inexplicavelmente, se interrompe o processo de Rosa Egipcíaca, fato dos mais raros quando se trata de processos de feiticeiras, sodomitas, bígamos, falsas santas e blasfemos. Os inquisidores sempre eram muito minuciosos em anotar o desfecho do julgamento. Comparando suas culpas com a de outras beatas e embusteiras processadas pelo Santo Ofício da Inquisição, é possível avaliar que Rosa deveria ser condenada à pena dos açoites e degredada por cinco anos para o Algarve, aliás, como foi o caso de outra afrobrasileira, a angolana Luzia Pinta, esta sim verdadeira "mãe-de-santo" de um calundu, muito mais ligada às raízes africanas do que madre Rosa.
          Através da vida dessa ex-escrava africana, alguns aspectos cruciais da sociedade colonial brasileira merecem maior reflexão, além de uma revisão historiográfica. Por exemplo, o fato de que, num contexto em que negro equivalia a escravidão e indignidade, e africanos eram desprezados como raça inferior, bruta, "sangue impuro", não deixa de ser notável a veneração e verdadeira idolatria de inúmeros brancos - incluindo ex-senhores e membros do clero - a uma negra africana, ex-prostituta. A inteligência, determinação e esperteza dessa negra courana fazem-na merecedora, muito mais do que a escrava Anastácia, de ostentar o título de santa e Flor do Rio de Janeiro!

LUIZ MOTT é professor titular da Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutor em antropologia, comendador da ordem do rio branco e autor de Rosa Egipcíaca: uma santa africana no Brasil (BERTRAND-BRASIL, 1993).
         
Fonte – Revista de História da Biblioteca Nacional - Ano 1 nº 3 - Setembro 2005

Saiba Mais – Bibliografia
EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1932.
SANTANA, frei José Pereira. Os dois atlantes da Etiópia: santo Elesbão, Imperador 47° de Abissínia, e santo Efigênia, princesa da Núbia, advogada dos incêndios dos edifícios. Ambos carmelitas. Lisboa: Oficina Antonio Pedrozo Galram, 1735.

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terça-feira, 13 de dezembro de 2016

+Brasileiros – Série Completa

Composta de 26 episódios com duração de 26 minutos cada, a série apresenta de maneira leve e informativa a vida e a obra de importantes personalidades brasileiras.
Através de imagens do biografado, bem como de depoimentos de historiadores e familiares, a série oferece a oportunidade de conhecer um pouco mais da vida pessoal e pública desses personagens que marcaram a história do país.

Direção: Thadeu Vivas / Marco Chagas
Ano: 2014
Áudio: Português
Duração: 26 min. cada episódio
Primeira Temporada

Ep. 01 - Getúlio Vargas
Getúlio Vargas é um importante personagem histórico brasileiro. Chegou ao poder com a “Revolução de 30”, que depôs o último paulista a ser eleito presidente através do voto. Vamos conhecer o homem que foi presidente pelo período mais longo da história do país. Como passou de centralizador e autoritário a realizador de importantes reformas trabalhistas.

Episódio 02 - Dom Pedro I
Dom Pedro I, apesar do sangue português, com certeza possuía alma brasileira. Talvez tenha sido o primeiro herói nacional e com certeza o primeiro após a Declaração da independência. Por este ato foi eternizado na memória do povo e sua célebre frase Independência ou Morte!”, até hoje ecoa pelo Brasil.

Episódio 03 - Machado de Assis
Machado de Assis foi e é o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Filho de um pintor de paredes e criado no morro do Livramento. Não teve educação escolar e ainda assim conseguiu chegar ao panteão dos escritores. Não frequentou grandes colégios muito menos uma universidade e se tornou jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo.

Episódio 04 - Oswaldo Cruz
Oswaldo Cruz foi tão importante para política de saúde pública brasileira, que até hoje suas ações estão em vigor no país. Doutor em medicina, com passagem pelo prestigioso Instituto Pasteur, foi quem iniciou a luta pela erradicação da peste Bubônica, da febre amarela e da Varíola, no Brasil. Implementou a vacina obrigatória e por este motivo enfrentou a Revolta da Vacina.

Episódio 05 - Rui Barbosa
Rui Barbosa pode ser considerado a prova viva de que uma boa educação e o gosto pelas palavras podem mudar um país. Dotado de grande poder na arte da oratória, Rui Barbosa, lutou pela abolição da escravidão, pela justiça e por direitos eleitorais para todos os brasileiros.

Episódio 06 - Marechal Deodoro da Fonseca
Em 1891 Marechal Deodoro da Fonseca foi eleito o primeiro presidente do Brasil. Esse momento marcou a história nacional pois o país deixava de ser uma Monarquia e passava a ser uma República. Conhecido por ter recebido a maior patente já concedida a um militar brasileiro, “Generalíssimo de Terra e Mar”, Marechal Deodoro da Fonseca marcou o início do período conhecido como Primeira República.

Episódio 07 - Santos Dumont
O pai da aviação brasileira, Santos Dumont, teve sua vida marcada pela vontade de voar. Inventor e aviador, Ele entrou para história mundial da aviação em 1906, com o 14 BIS. Sua vida confunde-se com a realização do sonho de voar do homem. Jamais pensou que o avião pudesse ser utilizado em guerras. Até sua morte expressou seu desejo de ver o avião como ferramenta de união dos povos.

Episódio 08 - José de Anchieta
Com a missão de catequizar os índios, que habitavam a recém descoberta colônia de Portugal, o Padre José de Anchieta chegou ao Brasil em 1553. Repleto de natureza e índios, que nada sabiam sobre a cultura e a religião Europeia, Anchieta fez deste povo o berço desta nação que se tornou o nosso querido Brasil.

Episódio 09 - José do Patrocínio
Nesse programa vamos conhecer a trajetória de José do Patrocínio, filho de um padre e de uma escrava, que travou uma verdadeira batalha pela abolição da escravatura no Brasil. Influenciado pela realidade do país, em 1853, onde mal tratos e castigos aos escravos eram parte da rotina, ele se torna o “Tigre da Abolição” e o primeiro jornalista militante do Brasil.

Episódio 10 - José de Alencar
Considerado o “Patriarca da literatura Brasileira”, José de Alencar formou-se em direito. Posteriormente tornou-se advogado, jornalista, político, orador, romancista e teatrólogo. Foi também o primeiro a propor o rompimento com a tradição portuguesa e a influência europeia. Buscava uma literatura verdadeiramente brasileira.

Episódio 11 - Joaquim Nabuco
O abolicionista Joaquim Nabuco, foi mais do que tudo, um pensador a sociedade brasileira. Além de exímio diplomata, com importante carreira internacional, foi também jornalista, orador, poeta e romancista. Escreveu importantes contribuições para literatura brasileira e inaugurou, junto com Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras.

Episódio 12 - Barão do Rio Branco
Barão do Rio Branco foi diplomata, advogado, geógrafo e historiador brasileiro. Foi Ministro das Relações Exteriores durante os mandatos dos presidentes Rodrigues Alves, Afonso Pena, Nilo Peçanha e Hermes da Fonseca. Foi promotor público em Nova Friburgo e deputado por Mato Grosso, ainda na época do Império. Foi Consul Geral do Brasil em Liverpool.

Episódio 13 - Dom Pedro II
Dom Pedro II foi o segundo e último monarca do Império do Brasil, tendo reinado o país durante um período de 58 anos. Nascido no Rio de Janeiro, foi o filho mais novo do Imperador Dom Pedro I do Brasil e da Imperatriz Dona Maria Leopoldina. A abrupta abdicação do pai e sua viagem para a Europa tornaram Pedro imperador com apenas cinco anos.


Segunda Temporada

Episódio 01 - Portinari
Desde cedo, Portinari apresentou seus dons para a pintura. Nascido em Brodowski, São Paulo, veio para o Rio de Janeiro estudar artes e logo se destacou, ganhando um prêmio dentro de sua escola, que lhe rendeu uma viagem a Europa. Através de sua pintura moderna, arrojada e única, apresentava a triste realidade e os problemas sociais do nosso país.

Episódio 02 - Bezerra de Menezes
“O médico dos pobres”, assim era conhecido o Doutor Bezerra de Menezes. Saiu de sua cidade, no interior do Ceará, e veio para o Rio de Janeiro estudar medicina, sua grande paixão. O que o diferenciava dos outros médicos? Uma enorme compaixão e espírito de caridade. Fez carreira na política e, ao ser apresentado ao espiritismo, assumiu publicamente a sua posição, causando muita polêmica.

Episódio 03 - Tiradentes
Tiradentes foi o mártir da Inconfidência Mineira, conflito ocorrido no século XVIII no estado de Minas Gerais. O + Brasileiros apresenta a sua história e a de seus companheiros; as causas que defendiam, a luta e as traições sofridas. Tiradentes era um homem simples, mas letrado. Envolveu-se no movimento pela independência de sua capitania e acabou assumindo sozinho a responsabilidade.

Episódio 04 - Luiz Carlos Prestes
Prestes foi um homem raro. Determinado, crente na justiça e em seus valores. Nunca desistiu, e dedicou sua vida a defender o que acreditava. Foi um dos líderes do movimento Tenentista e da Coluna Prestes, o que lhe rendeu o nobre apelido de “Cavaleiro da Esperança”. Quando conheceu o Marxismo, se encantou com a doutrina e, a partir daí, tornou-se comunista. Foi preso, torturado e exilado.

Episódio 05 - Princesa Isabel
Princesa Isabel poderia ter sido só mais uma princesa. Entretanto, um gesto nobre, que rendeu a perda da coroa de sua família, a diferenciou. No dia 13 de maio de 1888, ela assinou a Lei Áurea, e libertou todos os escravos do Brasil. Pouco tempo depois, o país virava república, e ela e sua família foram expulsas do Brasil. Uma mulher corajosa e nobre, em todos os sentidos, que mudou a história.

Episódio 06 - Chiquinha Gonzaga
Chiquinha Gonzaga definitivamente foi uma mulher à frente de seu tempo. Ela se separou de seu marido controlador, o que na época foi um escândalo enorme e resultou no afastamento de sua família, e foi viver de sua música. Pioneira no ramo, escandalizou a sociedade. Compôs inúmeras canções, conhecidas até hoje, foi maestrina, termo criado para ela, pois foi a primeira a assumir a posição.

Episódio 07 - Humberto Mauro
Humberto Mauro foi nosso primeiro grande cineasta, para muitos, é considerado como o Pai do Cinema Brasileiro. Através de seus filmes bucólicos, recheados com imagens rurais, trazia beleza e grandes cenas para a tela. Ele dominava a técnica, mas também contava com seu olhar único e sensível para dar personalidade e imortalizar suas histórias, dando origem a história do nosso cinema.

Episódio 08 - Betinho
Herbert José de Souza, mais conhecido como Betinho, foi uma das grandes personalidades que o nosso país já teve. Suas causas sociais e projetos beneficentes lhe renderam uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz. Um homem que enfrentou uma doença por toda a sua vida, e que por causa dela, tinha pressa de viver e ver suas ideias concretizadas.

Episódio 09 - Nise da Silveira
Nise da Silveira foi uma psiquiatra do início do século XX que revolucionou a maneira de cuidar de seus pacientes. A doutora Nise se recusava a tratar seus pacientes com eletrochoques e outros procedimentos que considerava agressivos e foi em busca de terapias ocupacionais, descobrindo na arte uma forma de acessar o inconsciente.

Episódio 10 - Rachel de Queiroz
Rachel de Queiroz foi uma das nossas maiores autoras. Ela foi a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras, se destacando ao escrever belissimamente as histórias do lugar onde nasceu: o nordeste brasileiro. Reconhecida internacionalmente pelo seu trabalho, essa nordestina, sempre humilde e simples, ajudou a trilhar os caminhos da literatura no país.

Episódio 11 - Zélia Gattai
O +Brasileiros traz até vocês a história de Zélia Gattai, a paulista mais baiana que o Brasil já conheceu. Ela começou a escrever tarde, mas nem por isso seu trabalho passou despercebido, muito pelo contrário, escreveu belíssimas obras que lhe renderam uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. O eterno amor de Jorge Amado encantou a ele e a todos nós com sua voz doce e sua maneira singular.

Episódio 12 - Aleijadinho
Mito ou verdade? Até hoje não se sabe se o mestre do barroco e do rococó, um homem desfigurado, mas que produzia obras lindas, existiu mesmo, ou é fruto de um conto mineiro. Nesse programa aprofundamos o tema, e tentamos descobrir as pistas para chegarmos até a verdadeira identidade do homem que adornou inúmeras igrejas e construiu verdadeiros templos, como a igreja de São Francisco de Assis.

Episódio 13 - Glauber Rocha
Glauber Rocha foi um dos integrantes mais importantes do Cinema Novo, movimento iniciado no começo dos anos 1960. Com o princípio de "uma câmera na mão e uma ideia na cabeça", deu uma identidade nova ao cinema brasileiro, criando clássicos consagrados, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, Terra em Transe e O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Um homem intenso e cheio de ideias.