“E agora que vocês viram no que a coisa deu, jamais esqueçam como foi que tudo começou” (Bertolt Brecht)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Introdução a História/complemento

O tempo humano
     No início da história humana, homens e mulheres perceberam que algumas manifestações da natureza eram cíclicas, ou seja, havia acontecimentos que se repetiam com regularidade.
     Não se tratava de algo inútil. Saber com antecedência quando colher frutos e sementes, caçar ou cultivar a terra era vital para garantir a sobrevivência. Por isso, as primeiras comunidades humanas procuraram maneiras de medir a duração dos ciclos. A própria natureza fornecia sinais que marcavam os ciclos.
     Com base no nascer e no pôr do Sol, criou-se a ideia de dia. O ciclo completo de fases da Lua - que dura cerca de 29 dias - gerou o conceito de mês. As estações do ano e a posição de certas estrelas - que voltam ao mesmo ponto do céu a cada 12 meses aproximadamente – foram a base para o surgimento da ideia de ano.
     Com essas informações, os primeiros grupos humanos elaboraram calendários. Os calendários são uma espécie de tabela que permite registrar os ciclos passados e planejar o tempo futuro.

A medida do tempo
     Os povos da Antiguidade criaram calendários cuja base era a observação astronômica. A maior parte desses calendários seguia três referenciais: o movimento aparente do Sol, da Lua e das estrelas. Através do estudo do movimento desses corpos celestes, foram elaborados quatro tipos de calendários.
Calendário Solar - a base é o ano, o tempo que a Terra demora em dar uma volta em torno do Sol (medido em 365 dias e 1/4 de dia).
Calendário Lunar - a base é o mês lunar, a soma das quatro fases da Lua: nova, quarto crescente, cheia e quarto minguante, totalizando aproximadamente 29dias.
 Calendário Lunissolar - a base é o mês lunar, mas, para coincidir com o número de dias do ano solar, era acrescentado periodicamente mais um mês.
 Calendário Sideral - a base é o retorno periódico de uma estrela ou constelação a um local determinado do céu. Os sacerdotes egípcios passavam noites em claro para observar a primeira aparição da estrela Sírius ou Sótis, um pouco antes do nascer do Sol, a leste.

Cada povo com o seu calendário
     Cada sociedade humana criou uma forma própria de medir o tempo e fazer seu calendário, de acordo com suas necessidades. Observe a seguir alguns exemplos de calendários de sociedades antigas.

Egípcio - Os egípcios usavam um calendário solar de 365 dias. O primeiro dia do ano era determinado pela primeira aparição de Sótis, que coincidia com o início das cheias do rio Nilo, geralmente no nosso mês de junho. O ano era dividido em 3 estaçôes de 4 meses cada: estação da cheia do Nilo, estação do cultivo dos campos e estação da colheita.
 Chinês - O calendário tradicional chinês é lunissolar. Os anos comuns são lunares, com 12 meses de 29,5 dias. Como um ano de 352 dias cria problemas com as estações (começa a fazer frio nos meses de primavera ou calor nos meses de outono), os chineses acrescentavam um mês ou mais em alguns anos. Havia anos de até 385 dias.
 Maia - Os maias viviam na América Central, em regiões do atual México, Guatemala e Belize. Eles davam grande atenção à astronomia e possuíam um calendário solar de 365 dias e um calendário religioso de 260 dias.
 Romano antigo - Os romanos adotaram vários calendários ao longo da sua história. Originalmente eles seguiam um calendário lunar muito imperfeito, que ocasionava sérios problemas de defasagem em relação às estações do ano. Dessa época, o calendário herdou os nomes dos meses utilizados em quase todo o Ocidente.
Martius (março) - Era o primeiro mês do calendário tradicional romano. Trata-se de uma homenagem ao deus da guerra, Marte. Com o fim do inverno no hemisfério Norte, os exércitos em campanha reiniciavam os ataques em março.
Aprilis (abril), maius (maio) e junius (junho) - Possuem origem desconhecida. Segundo a tradição, esses nomes, assim como março, teriam sido dados pelo fundador de Roma, Rômulo.
Quintilis - Era o quinto mês do ano. No século I a.c., em homenagem a Júlio César, passou a ser chamado de Julius (julho).
Sextilis - Era o sexto mês do ano. Em homenagem a Otávio Augusto, no século I ganhou o nome de Augustus (agosto).
September, October, November, December - eram o sétimo, oitavo, nono e décimo mês no antigo calendário.
Januarius - homenagem ao deus Janus, deus do início e fim de todas as coisas.
Februarius - mês das Februas, homenagens aos mortos.

Os calendários atuais
     O antigo calendário romano seguia as fases da Lua. Como o ano lunar (cerca de 354 dias) é menor que o solar (365 dias e 6 horas, aproximadamente), em meados do século I a.c. o calendário de Roma estava 6 dias adiantado em relação às estações do ano. As estações frias e quentes não começavam nos dias e meses tradicionais. Consequentemente, o plantio e a colheita não coincidiam mais com as antigas datas .

• A reforma de Júlio César
     Júlio César, quando se tornou governante de Roma, ordenou a elaboração de um novo calendário que fizesse os meses e estações voltar a coincidir.
     Com base no calendário solar egípcio, foi determinado que o ano em Roma passaria a ter 365 dias, divididos entre os 12 meses romanos. Alguns meses teriam 30 dias e outros 31. O início do ano já havia mudado de Martius (março) para januarius (janeiro).
     A cada ano, porém, ficavam faltando 6 horas para completar o ciclo solar. Isso resultava na defasagem de 1 dia a cada 4 anos, ou quase um mês (25 dias) por século.
     Para compensar essa defasagem, os astrõnomos determinaram que a cada 4 anos fosse acrescentado um dia ao mês de fevereiro. É o chamado ano bissexto.
     Esse calendário ficou conhecido como juliano. Depois ele foi usado pelos cristãos, que adotaram como marco inicial o Ano 1, a data presumida do nascimento de Cristo.
• O calendário gregoriano
     A reforma de Júlio César apresentava um problema. O ano de 365 dias e 6 horas era 11 minutos e 14 segundos maior que o ano solar. Em consequência, a cada 128 anos o calendário usado pelos cristãos se adiantava 1 dia inteiro.
     No século XVI, esse adiantamento já estava em 10 dias.
     Muitos astrônomos fizeram propostas de reforma do calendário. O problema era encontrar alguém que tivesse o poder necessário para impor a nova contagem de tempo ao Ocidente. Essa pessoa foi um papa, o chefe da cristandade ocidental: GregórioXIII.
     Por decreto do papa, o ano de 1582 perdeu 10 dias. A quinta-feira de 4 de outubro de 1582 foi seguida da sexta-feira de 15 de outubro. Estava resolvida a defasagem herdada do passado.
     Para evitar que se ganhasse mais 1 dia a cada 128 anos, resolveu-se eliminar alguns anos bissextos.
     Assim, só seriam bissextos os anos centenários que fossem divisíveis por 400. Na regra antiga, todos os
anos divisíveis por 4 eram bissextos.
     Parece complicado, mas não é: o ano de 1600 foi bissexto (é divisível por 400), mas 1700, 1800 e 1900
não foram.
     O ano 2000 foi bissexto, mas 2100,2200 e 2300 não serão. O ano de 2400 será bissexto.
     Na prática, apenas 1 em cada 4 anos centenários será bissexto, eliminando 3 dias a cada 400 anos, exatamente a defasagem existente.
     O calendário gregoriano resolveu os problemas do calendário juliano e é adotado por muitas nações na
atualidade, inclusive pelo Brasil.
• Nem todos são gregorianos
     O calendário gregoriano não é o único utilizado no século XXI. Nem a contagem de tempo cristã é a única existente. Muitas sociedades seguem seus calendários tradicionais, por serem mais bem adaptados às suas necessidades e crenças.
     É o caso do calendário judaico, que é lunissolar, composto de 12 meses de 29 ou 30 dias. Para compensar a defasagem de 11 dias em relação ao ano solar, é acrescentado um novo mês de tempos em tempos.
     O marco inicial do calendário judaico é a criação do mundo. Segundo o livro sagrado dos judeus, a Torá, o ano 1 judaico corresponde ao ano de 3760 a.c. do calendário gregoriano.
     O calendário islâmico, usado pelos povos que adotam a religião muçulmana, é inteiramente lunar. O ano é composto de 354 dias. Portanto, seus dias e meses não se fixam às estações. As festas e feriados islâmicos movem-se lentamente por todas as estações do ano.
     Os muçulmanos consideram o ano 1 de seu calendário a Hégira, ou fuga de Maomé da cidade de Meca para Medina, que no calendário gregoriano ocorreu no ano de 622.

FONTE:
História, ensino médio organizadores Fausto Henrique Gomes Nogueira, Marcos Alexandre Capellari. - 1. ed. - São Paulo: Edições SM,2010. - (Coleção ser protagonista)
Conexões com a História / Alexandre Alves, Letícia Fagundes de Oliveira. - 1.ed. - São Paulo. Moderna, 2010.
História: das cavernas ao terceiro Milênio /Patrícia Ramos Braick. Myriam Becho Mata. 2. ed. - São Paulo: Moderna, 2010.

Narradores de Javé
Somente uma ameaça à própria existência pode mudar a rotina dos habitantes do pequeno vilarejo de Javé. É aí que eles se deparam com o anúncio de que a cidade pode desaparecer sob as águas de uma enorme usina hidrelétrica. Em resposta à notícia devastadora, a comunidade adota uma ousada estratégia: decide preparar um documento contando todos os grandes acontecimentos heroicos de sua história, para que Javé possa escapar da destruição. Como a maioria dos moradores são analfabetos, a primeira tarefa é encontrar alguém que possa escrever as histórias.
O mais esclarecido é o carteiro Antônio Biá, que apesar das desavenças com os moradores locais se torna o responsável por reunir as histórias sobre a origem de Javé.
Ao entrevistar vários dos moradores mais antigos, Antônio Biá percebeu que todos contavam a história "puxando a sardinha" para as suas respectivas famílias. E a graça reside no fato da memória oral privilegiar alguns detalhes que favorecem uns em detrimento de outros. Como diz o nosso Biá: "uma coisa é o fato acontecido, outra é o fato escrito". E o filósofo "javélico" está correto, nenhum historiador consegue ser 100% isento ao transpor fatos ocorridos para o papel.
Acaba sendo impossível escrever tantas discrepâncias históricas, e Antônio Biá sabe muito bem que nada impedirá o desaparecimento de Javé, pois trata-se do "progresso".
Direção: Eliane Caffé
Ano: 2003
Áudio: Português
Duração: 100 minutos
Tamanho: 600 MB

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Massacre em Unaí: oito anos de impunidade

Como foram mortos os fiscais que autuavam fazendeiros por manter trabalhadores escravizados? Por que a região tornou-se recordista em uso de agrotóxicos e incidência de câncer?
Por Gilvander Luiz Moreira*, Adital

Era dia 28 de janeiro de 2004, 8h20’ da manhã. Em uma emboscada, cinco jagunços dispararam rajadas de tiros em quatro fiscais da Delegacia Regional do Ministério do Trabalho, perto da Fazendo Bocaina, município de Unaí, Noroeste de Minas Gerais. Passaram-se 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 anos. Justiça? Cadê? Dia 28 de janeiro completou oito anos desse bárbaro massacre. Quatro indiciados como mandantes estão soltos. São: Antero Mânica (prefeito de Unaí, pelo PSDB), Norberto Mânica (“rei do feijão” (?)), Hugo Pimenta e José Alberto Costa, que contratou os executores. Estão presos quatro dos acusados: Francisco Pinheiro, Erinaldo de Vasconcelos Silva, Rogério Alan da Rocha Rios e William Gomes de Miranda. Humberto Ribeiro dos Santos, acusado de haver sido o encarregado de apagar as provas do crime, foi libertado.

Antes do tempo, na maior chacina contra agentes do Estado brasileiro, foram ceifadas as vidas de Erastótenes de Almeida Gonçalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva (Auditores Fiscais do Trabalho) e Ailton Pereira de Oliveira (motorista oficial). Por quê? Como servidores éticos, estavam cumprindo seu dever: fiscalizando fazendas no município de Unaí. Multaram vários fazendeiros. A família Mânica, por exemplo, foi multada em mais de 3 milhões de reais. Após uma infinidade de recursos, pagaram apenas 300 mil reais. As multas foram por terem encontrado trabalhadores em situações análogas a escravidão, sobrevivendo em condições precárias e se envenenando com a aplicação exagerada de agrotóxicos na monocultura do feijão. Por isso, os fiscais foram ameaçados de morte. O fiscal Nelson chegou a fazer um relatório alertando sobre as ameaças de morte que vinha sofrendo. E, tragicamente, não ficaram só nas ameaças, aconteceu um massacre.

Quem matou e quem mandou matar? Em um arrojado processo de investigação das Polícias Federal e Civil, um grande elenco de provas robustas consta do processo, tais como: a) confissão dos jagunços que estão presos; b) pagamento de 45 mil reais em depósito bancário; c) automóvel da mulher de Antero Mânica usado pelos jagunços; d) nomes e identidades dos jagunços no livro do hotel, em Unaí, onde estavam hospedados os fiscais, comprovando que lá dormiram também os jagunços; e) depoimento do Ailton, motorista dos fiscais, que, após recobrar a consciência, após o massacre ainda encontrou forças para dirigir a camionete até a estrada asfaltada, mas morreu sendo levado para socorro em Brasília; f) uma série de telefonemas entre os jagunços e mandantes, antes e depois da chacina; g) um automóvel encontrado jogado dentro do Lago Paranoá, em Brasília; h) relógio do Erastótenes encontrado dentro de uma fossa, na cidade de Formosa, GO, conforme confissão dos assassinos; etc.

Os fiscais estavam ali para defender os direitos de trabalhadores do campo explorados por grandes grupos empresariais e submetidos a condições indignas de trabalho. São mártires da ganância dos poderosos e da luta contra o trabalho escravo. Dia 28 de janeiro se tornou Dia de combate ao trabalho escravo.

No 3º aniversário do massacre, em 2007, no local onde o sangue dos fiscais foi derramado, Dom Tomás Balduíno, ex-presidente e atual Conselheiro da Comissão Pastoral da Terra, denunciava: “Este covarde massacre dos 4 fiscais não pode ficar impune. Cadê a justiça? Massacre como este não é exceção. Tem sido a regra. Cinco jagunços estão presos e quatro supostos mandantes continuam soltos. O inquérito já foi feito. Há 9 indiciados. A impunidade nestes casos alimenta a espiral de violência. Exigimos o julgamento já, sem mais demora. Chega de enrolação! Que se julgue e puna não apenas os jagunços, mas também os mandantes. Os fiscais foram vítimas da luta contra o trabalho escravo. A Comissão Pastoral da Terra diz que há mais de 25 mil pessoas ainda submetidas a situação análoga à escravidão no Brasil. Os fiscais foram vítimas do agronegócio, das monoculturas da soja, do feijão, da cana-de-açúcar, do eucalipto. Exigimos justiça já, em nome do Deus da vida.”

Marinês, viúva do fiscal Erastótenes, com a voz embargada, em meio a lágrimas, clama por justiça: “Ao saber que meu amado marido Erastótenes tinha sido assassinado junto com João Batista, Nelson e Ailton, uma espada de dor transpassou meu coração e continua transpassando, porque a justiça ainda não foi feita. A dor e a angústia continuam muito grande diante da impunidade. Pelo amor de Deus, julguem logo os assassinos, jagunços e mandantes. Os fiscais foram assassinados durante seu trabalho, por trabalharem bem, por serem honestos, por não se corromperem e por cumprirem o seu dever. Exigimos justiça! Que mais este massacre não fique na impunidade.”

No final de 2011 o julgamento foi desmembrado. Dizem que primeiro serão julgados os jagunços e depois – não se sabe quando – os indiciados como mandantes. Separar os jagunços dos mandantes pode ser uma manobra que dificultará mais ainda a condenação dos mandantes.

Enquanto reina a injustiça, a impunidade, o município de Unaí se transformou em campeão na produção de feijão, no uso de agrotóxico e no número de pessoas com câncer. Relatório do deputado Padre João (PT) demonstra que o número de pessoas com câncer, em Unaí, é cinco vezes maior do que a média mundial. A cada ano, 1260 pessoas contraem câncer na cidade. Aliás, um hospital do câncer já está sendo construído no município, pois ficará menos oneroso do que levar toda semana vários ônibus lotados de pessoas para se tratarem de câncer no estado de São Paulo. As águas e a alimentação estão contaminadas pelo uso indiscriminado de agrotóxico. A fama que espalhou pela região é que o feijão de Unaí está envenenado, pois do plantio até a colheita aplicam até 15 vezes fungicida, inseticida e herbicida, muitos desses venenos já são proibidos na Europa e EUA. Confiram o Filme-documentário “O veneno está na mesa”, de Sílvio Tendler.

A impunidade alimenta também o agravamento do trabalho escravo no país. No final de setembro de 2010, uma operação coordenada pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Minas Gerais (SRTE/MG) libertou 131 pessoas escravizadas em lavouras de feijão na Fazenda São Miguel e na Fazenda Gado Bravo, localizadas respectivamente em Unaí (MG) e Buriti (MG). Nenhum dos libertados tinha a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) assinada. A jornada da capina e colheita do feijão começava as 4h30 e se estendia até às 14h30, sem que fosse respeitado o intervalo para repouso e alimentação. Segundo depoimentos, a labuta se estendia aos domingos, em descumprimento ao descanso semanal. O pagamento feito pelo “gato”, que subtraía boa parte dos recursos que vinha dos proprietários, era por produção, sem qualquer recibo. Havia um sistema de endividamento dos empregados por meio de uma cantina em que alimentos, produtos de higiene e outros gêneros eram “vendidos” a preços mais altos que os praticados pelo mercado. O transporte de trabalhadores era completamente irregular e o manuseio de agrotóxicos (armazenamento, sinalização e estrutura exigidas), inadequado. A lista suja de trabalho escravo em 2011 se tornou a maior da história: 294 fazendeiros utilizaram-se deste sistema. Em 2011, houve um aumento de 23% nos casos de trabalho escravo no campo, aponta CPT. Foram 3.882 casos identificados, mas regatados somente 2.271 trabalhadores escravizados.(…)

Um grito por justiça está ecoando há 8 anos: O povo de Minas, do Brasil e do Mundo exige o julgamento já dos assassinos dos fiscais. Exigimos justiça! Que os jagunços e mandantes sejam julgados e condenados.
Belo Horizonte, 20 de janeiro de 2012.

Frei Gilvander Moreira; mestre em Exegese Bíblica; professor no Instituto Santo Tomás de Aquino – ISTA/BH e no Seminário da Arquidiocese de Mariana, MG; assessor da CPT, CEBI, SAB e Via Campesina gilvander@igrejadocarmo.com.br

Assista, nos cinco links, abaixo, reportagem complementar, em vídeo, feita por Gilvander Moreira.
1) Entrevista com Helba, viúva de Nelson, um dos quatro fiscais matados em Unaí em 28/01/2004 – 07/01/2012. http://www.youtube.com/watch?v=FEDXGHepSFo
2) Oito anos do massacre de 4 fiscais do MTE, em Unaí – Entrevista com Calazans – 1a parte – 12/01/2012. 
http://www.youtube.com/watch?v=wTbKFTEQM_o
3) Entrevista com Carlos Calazans sobre o Massacre de 4 fiscais do MTE, em Unaí – 2aparte – 12/01/2012. 
http://www.youtube.com/watch?v=lNxSXMJ5xrM
4) Feijão de Unaí está envenenado? – Fala de Edivânia, de Escola Municipal de Arinos – 10/01/2012. 
http://www.youtube.com/watch?v=uOrtJVd-A0Q
5) Agrotóxicos – perigo – Testemunho de Washington Fernandes Moreira – de Arinos, MG – 10/01/2012. 
http://www.youtube.com/watch?v=YFT0l27n6X4

O VENENO ESTÁ NA MESA
Filme de um dos maiores documentaristas do Brasil, Silvio Tendler, mostra o cenário assustador que se encontra o país em relação ao uso indiscriminado de agrotóxicos. O documentário mostra o perigo a que a população está exposta por conta do emprego de agrotóxicos na agricultura, e como este modelo beneficia as grandes transnacionais do veneno em detrimento da saúde da população. A população engole os produtos envenenados e as empresas ficam com os lucros.

E, além da população, que consome os alimentos oriundos da produção agrícola, trabalhadores que manipulam os venenos também estão à mercê da contaminação e prejuízos com a saúde.

Você sabia que o Brasil é o país que mais pulveriza agrotóxicos nos alimentos? Que é o recordista em consumo desses químicos?
Que um brasileiro consome em média 5,2 litros de agrotóxicos anuais?
Que os agrotóxicos provocam uma série de problemas de saúde, desde lapso de memória em crianças até má formação dos fetos?
Que apesar do Governo tentar proibir uso de muitos químicos, a justiça concede liminares a favor das grandes corporações químicas?
Que para conseguir crédito junto aos bancos o pequeno trabalhador é obrigado a usar transgênicos e pesticidas? Que as doenças provocadas por esses químicos nos trabalhadores do campo consomem 1,8% do PIB em tratamentos médicos?
Direção: Silvio Tendler
Duração: 50 Min.
Ano: 2011
Áudio: Português

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

A Privataria Tucana

O jornalismo não morreu
'Privataria Tucana' prova que a reportagem de investigação está viva e José Serra, aparentemente, morto.
Celso de Castro Barbosa

     Engana-se quem imagina morta a reportagem de investigação no Brasil. Embora os jornalões, revistas semanais e emissoras de TV emitam precários sinais vitais do gênero, ele está vivíssimo, como prova A Privataria Tucana, livro do premiado repórter Amaury Ribeiro Jr.
     Lançado em dezembro e recebido pela grande imprensa com estridente silêncio, seguido de críticas que tentaram desqualificar a reportagem e o autor, o sucesso do livro, já na terceira edição e no topo das listas dos mais vendidos, não se deve a suposto sentimento antitucano.  Até porque os fatos objetivos relatados não poupam o PT. Não há santos na Privataria.
     Com base em documentos oficiais, da CPI do Banestado e outros que o autor conseguiu em cartórios, Amaury torna pública a relação de dirigentes do PSDB e a abertura de contas no exterior de empresas de fachada, responsáveis pelo retorno ao Brasil do dinheiro sujo da corrupção. Dinheiro que voltou, naturalmente, limpo.
     Muita gente deve explicações à Justiça que, nesse episódio como em outros envolvendo expressivos representantes da elite brasileira, move-se a passos de tartaruga. Ou simplesmente não se move. Pelo cargo que ocupou na época das tenebrosas transações, as privatizações da era FHC, José Serra, então ministro do Planejamento e depois duas vezes candidato à presidência, prefeito e governador de São Paulo, é quem tem a imagem mais chamuscada, para não dizer estorricada, ao fim da Privataria Tucana.
     De origem humilde, o tucano paulista exibe patrimônio incompatível com os rendimentos de um político. Tudo em nome de sua filha, Verônica, que ao lado de Ricardo Sérgio, tesoureiro das campanhas de Serra e Fernando Henrique, emergem como principais parceiros do ex-governador no propinoduto que marcou a venda das empresas de telecomunicação.
     Além de jogar uma pá de cal na aura de honestidade de certos tucanos, o livro de Amaury tem ainda o mérito de questionar, involuntariamente, a atuação da grande imprensa no país. Agindo como partido único, onde só é permitida uma única opinião, jornais, revistas e mídia eletrônica defenderam, com unhas e dentes, a privatização. O principal argumento era a vantagem que traria aos consumidores: eficiência e tarifas baixas por causa da concorrência. Passados mais de dez anos, o Brasil cobra tarifas de telefone das mais altas do planeta e as concessionárias são campeãs de reclamação nos Procons.
     Não bastasse, ao ignorar o lançamento do livro, a imprensa hegemônica mostra sua face semelhante à dos piratas: um olho tapado, que nada vê, e outro atento à movimentação dos adversários.

FONTE: http://www.revistadehistoria.com.br/
Titulo: A Privataria Tucana
Editora: Geração
Lançamento: 2011
Páginas: 344
Formato: PDF
Tamanho: 21 MB

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

#StopSOPA: hipóteses sobre a luta pela internet livre


Protestos virtuais desta semana têm muito em comum com “indignados” ou “Occupy”. Por que alcançaram uma vitória parcial tão rápida?

Na noite de quarta-feira (18/1), quando alguns dos sites de maior audiência no planeta ainda exibiam os símbolos da campanha contra as leis de censura em debate nos EUA, surgiram os primeiros sinais claros de vitória. Diversos parlamentares, de ambos os partidos, que apoiavam os projetos denominados SOPA [1] (na Câmara de Representantes) e PIPA [2] (no Senado), anunciaram (no Twitter ou Facebook...) que estavam revendo suas posições. No Senado, a mudança de clima teve sabor de um gol nos últimos suspiros do segundo tempo. Há poucas semanas, o Comitê Judiciário (semelhante à Comissão de Constituição e Justiça no Brasil), havia aprovado a PIPA – por unanimidade e sem nenhuma controvérsia. A votação final começaria na semana que vem. Está suspensa. Mesmo os principais defensores do projeto agora se dizem favoráveis a “decidir sem pressa”.

Não foi, evidentemente, um resultado definitivo. Há mais de uma década, a internet está na mira de grandes corporações que não aceitam o compartilhamento livre de bens culturais – porque ganham dinheiro vendendo o que poderia ser de todos. Mesmo a SOPA e a PIPA não morreram: estão “esperando nas sombras”, como alerta a Wikipedia, em nota 1 divulgada quinta-feira para celebrar e agradecer a mobilização dos internautas contra as leis.

Um sinal de que a disputa será longa e bruta deu-se já na quinta-feira. Uma mega-operação conjunta do Departamento de Justiça dos EUA e do FBI 
fechou 2, sob acusação de pirataria, o site MegaUpload 3. Era um espaço muito popular para troca de conteúdo digital entre internautas (72ª maior audiência da internet, segundo o comparador Alexa 4). Seu bloqueio deu-se com base em legislação já existente. Teve dimensão internacional: quatro pessoas estão presas na Nova Zelândia, por “crimes” (operar os servidores do site) que podem resultar em 55 anos de prisão. Foi consequência de uma ação movida contra o Megaload pelos cartéis da indústria cultural; Tiveram seu prêmio de consolação... [3].

Pelo menos dois grandes motivos convidam a examinar em profundidade a grande jornada de quarta-feira e seu resultado. Há muito em jogo: SOPA e PIPA poderão desencadear, se aprovadas, uma onda de proibições e limites capaz de desfigurar o que o sociólogo Manuel Castells  5 como a “cultura de liberdade” na internet.

Além disso, há laços muito fortes entre a resistência às duas leis e as causas que sensibilizam osindignados, os participantes do Occupy, os manifestantes da Praça Tahrir ou os que resistem à militarização da Luz, em São Paulo.

> Em todos estes casos, quem luta são multidões (principalmente jovens) e não uma classe ou grupo social específico. Prevalece a autonomia: as campanhas são organizadas diretamente pelos envolvidos, sem que seja necessária a intermediação de grupos políticos ligados às dinâmicas da representação.

> Deseja-se impedir que o poder econômico capture o comum: riquezas (às vezes imateriais), direitos e bens como a internet livre, os serviços públicos, a possibilidade de encontrar uma ocupação ou almejar uma aposentadoria dignas. Mesmo na Tunísia e Egito, onde a luta assumiu forte conteúdo anti-ditatorial, ela foi deflagrada pelo desemprego e alta do preço dos alimentos, após medidas de “ajuste fiscal”.

> Denuncia-se o 
declínio da democracia 6 (ou, no mundo árabe, sua ausência 7). Enfrentam-se decisões que atingem gravemente a sociedade, mas são tomadas sem nenhuma consulta a ela, de forma opaca, por “exigência” 8 da oligarquia financeira.

> Propõem-se, ainda de forma embrionária e tateante, novas formas de organizar a vida social. Os laboratórios podem ser as praças (onde se reorganizam os serviços de alimentação, autoeducação, saúde, limpeza e segurança) ou a internet, grande praça global. Os valores que orientam esta busca têm forte caráter pós-capitalista: compartilhamento, cooperação, solidariedade, desierarquização, democracia direta, busca de consensos. Não se trata de disputar o comando das sociedades industriais, como fazia o socialismo dos séculos passados; mas de realizar a transição para sociedades articuladas segundo outras lógicas. Não são projetos oníricos, mas concretos e às vezes pragmáticos. A multidão  organiza a internet, em grande medida, segundo princípios de compartilhamento. Ao criar “serviços públicos alternativos” nas praças ocupadas do Egito, Espanha, Grécia ou Israel, os jovens sinalizavam que querem construir o novo agora, com suas mãos.

Em meio a tantas semelhanças, o protesto virtual desta semana distingue-se de todos os demais em algo essencial. Ele foi capaz de alcançar uma vitória. Concreta e muito relevante – ainda que parcial e provisória. Estudar as razões desta diferença, buscar o que separa uma mobilização bem-sucedida de outras que ainda amadurecem, é um exercício necessário e sedutor. Desde já, vale adiantar quatro hipóteses, complementares entre si.

A primeira, e mais óbvia, diz respeito às pretensões absurdas da SOPA/PIPA, em suas versões iniciais. Entre muitos outros pontos, as leis incluem uma forma de controle da internet (bloqueio ou desvio de DNS) idêntica à praticada na China, Irã ou Síria. Ferem o direito internacional: são extraterritoriais – ou seja, atingem cidadãos e empresas não submetidos às leis norte-americanas.

Estabelecem penas inteiramente desproporcionais, como prisão para os “culpados” de troca de arquivos. Permitem que os cartéis da indústria cultural façam justiça com as próprias mãos (dispensa-se ordem judicial para medidas como tirar um site do ar). Quem tramou semelhantes bizarrices confiou cedo demais no esvaziamento completo da democracia tradicional.
Mas as demais hipóteses são as mais fascinantes, porque dizem respeito ao debate sobre estratégias, necessário também nos movimentos que reivindicam autonomia. Tudo indica que o #StopSOPA alcançou sua vitória parcial porque: a) definiu muito claramente um foco, um objetivo concreto a ser alcançado. Foi além das fórmulas ambiciosas, porém genéricas demais, e, portanto inócuas, do tipo no nos representanb) apoiou-se no tecido pós-capitalista da internet – muito mais desenvolvido que nas demais relações sociais. A rede está povoada por iniciativas contra hegemônicas de enorme alcance. A Wikipedia 9 e o Wordpress 10, por exemplo, servem centenas de milhões de pessoas todos os dias e articulam comunidades de milhões; c) explorou contradições no campo do capital. Nos protestos de quarta-feira, chamou enorme atenção a adesão do Google, cuja página de entrada exibiu uma tarja negra sobre seu próprio logotipo e a mensagem: “Diga ao Congresso: por favor, não censure a Web” – que remetia a um excelente texto (in) formativo. Que Parlamento ousará adotar uma posição antipopular tendo um adversário como estes?

Como se armou este conjunto de condições muito particulares? Será possível construir, em lutas futuras, cenários igualmente favoráveis? É o que tentaremos examinar, em textos futuros desta série.

[1] Stop Online Piracy Act 11, ou Lei contra a Pirataria Online 12.
[2] Protect Intellectual Property Act 13, ou Lei para a Proteção de Propriedade Intelectual 14.
[3] Como a ação contra o Megaload foi movida pelos cartéis da indústria cultural, o coletivo
Anonymous 15 lançou, em 20/1, uma onda de ataques que derrubou, por algumas horas, os sites do cartel fonográfico (a RIAA), da Universal Music e do próprio Departamento de Justiça.


domingo, 22 de janeiro de 2012

Salve a Internet - a pressão está funcionando!



Hoje pode ser o dia em que salvamos a Internet livre.
O Congresso dos EUA estava prestes a aprovar leis que permitiriam que seus funcionários censurassem o acesso a qualquer site em todo o mundo. Mas depois que entregamos nossa petição com 1.250.000 assinaturas para a Casa Branca, que saiu contra os projetos, e com a pressão da opinião pública em alta, até mesmo alguns apoiadores dessas leis estão mudando de lado. Nesse momento, o protesto de apagão liderado pela Wikipédia trouxe a campanha para o centro das atenções das notícias.
Estamos virando o jogo. Mas as forças da censura estão tentando ressuscitar os projetos de lei agora. Vamos enterrá-los para sempre. Clique agora para assinar esta petição de emergência para salvar a Internet e se você já tiver assinado, navegue até o final da página para contatar políticos e empresas que apoiam a censura e falem para eles desistirem dessa legislação. Em seguida, envie para todos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A cracolândia que você não vê

Charge
Maringoni
"Quem se aproxima tem uma surpresa. A mão áspera é quente, os olhos ainda lacrimejam, há pulsação e sorrisos sinceros”.
Talita Ribeiro, do Coletivo Cracolândia

     Todo paulistano médio conhece a região da Luz/José Paulino/Santa Ifigênia como sendo boa para compras, de eletrônicos ou roupas. Todo paulistano culturalmente ativo sabe que ali há o Museu da Língua Portuguesa, a Pinacoteca e a Sala São Paulo. Todo e qualquer paulistano não ousaria pisar lá (literalmente, a pé) depois das 22h. Porque à noite, o comércio e a cultura são outros. E quem circula pela área não é considerado cidadão da metrópole mais rica do país.
     Quem ocupa as esquinas, quadras e avenidas, se mistura com o lixo e divide espaço com os ratos, que cruzam as ruas a procura de comida. À noite não há quem desvie dos moribundos ou crianças alucinadas. E, vez em quando, se tem a impressão que não há uma alma viva sequer, mesmo que oitenta usuários de crack estejam ocupando uma mesma sarjeta. Até quem tenta se inserir nesse meio — por política, trabalho ou missão — dificilmente consegue penetrar nessa outra realidade, onde o olhar não para, nem brilha, mas ainda busca, desesperadamente, por 8 segundos.
     “De 5 a 8 segundos é o tempo que dura o ‘barato’ do crack. Nesse curto espaço de tempo, dizem, a sensação é equivalente a 8 orgasmos”, conta um dos missionários do Cena, que conversa com os dependentes durante a noite, para convidá-los a conhecer o projeto e, quem sabe, embarcar numa outra viagem — a de reabilitação. Ele circula normalmente entre a aglomeração de usuários.
     Diferente do que os telejornais ensinam a cracolândia não é um lugar sem leis. Religiosos são respeitados e, muitas vezes, ignorados pela massa. Quando a polícia derrapa com as viaturas nas ruas e saca seus (desnecessários) sprays de gás de pimenta, todos vão para outra esquina. Quando um segurança de uma loja qualquer manda eles saírem, o mesmo acontece. Não há sexo e violência explícita na rua. Não o tempo todo. Não o suficiente para concorrer com qualquer balada de classe média alta em uma sexta à noite. Os usuários vez em quando discutem entre si, mas os gritos são, em sua maioria, parte da negociação de droga.
     “Quem dá dois por uma pedra? Quem tem uma nota de cinco? E um cachimbo novo?” Com frases desse tipo a “bolsa do crack” funciona a noite inteira, com usuários pra lá e pra cá comprando e vendendo tudo o que podem, de cigarros a 25 centavos até salsichas vencidas achadas no lixo. Nesse mercado quase todos são compradores em potencial, menos os que chegam em bicicletas, trazendo mais pedras em sacolas plásticas, para fazer girar a roda da dependência. Quem não está negociando, só pode estar consumindo, procurando restos na calçada ou tentando tirá-los do cachimbo. Nesse ciclo nada que não tenha ligação com o crack importa. Ninguém liga para os carrões que cruzam a região noite adentro para comprar a droga. E não é raro ver pessoas bem vestidas e com tênis da moda fumando ao lado de moradores de rua. Não existe mais rico ou mais pobre quando se está rente ao chão.
     Nesse contexto, crianças de dez anos agem como se tivessem o dobro. São chamadas de “dimenor”, mas só isso as diferencia dos demais. Com uma casca dura de sujeira preta ou incrivelmente limpas, elas sabem o próprio nome, há quanto tempo estão nessa vida, onde doem as feridas e, principalmente, que precisam de uma pedrinha. Os traços infantis quase se perdem em meio a tanta opressão, mas quando pedem ajuda para conseguir a próxima brisa, são como tantas outras crianças pedindo um doce. E são frágeis, muito mais frágeis do que aparentam quando as olhamos de canto de olho, andando a passos rápidos. Mas essa não é uma característica só delas.
     Os usuários de crack vistos de perto e em seu habitat, em nada lembram os retratados em telejornais. No lugar do medo e do ódio, despertam uma tristeza imensa, acompanhada por um sentimento de impotência. Nada que não seja a pedra parece tocá-los — inclua aí a sua presença. Mas quem, mesmo assim, tenta se aproximar tem uma surpresa. A mão áspera é quente, os olhos ainda lacrimejam, a voz embarga ao contar sobre o passado, ainda há pulsação e sorrisos sinceros. Apesar de toda a ânsia pela droga, há outros tipos de carências não supridas, tão importantes quanto. E para tratá-las é preciso bem mais que 8 segundos. Mas isso o paulistano ainda não sabe.

(Mais informações sobre o Coletivo Cracolândia e o contexto em que surge em nosso blog)

SAIBA MAIS:
DOCUMENTÁRIO
Quebrando O Tabu

Quebrando o Tabu tem como principal objetivo a abertura de um debate sério e bem informado sobre o complexo problema das drogas no Brasil e no mundo. O filme pretende aproximar diversos públicos, entre eles os jovens, os pais, os professores, os médicos e a sociedade como um todo, para que se inicie uma conversa franca que leve a diminuição do preconceito, ajude na prevenção ao uso de drogas e que dissemine informações com base científica sobre o tema. O âncora do filme é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que aceita o convite do diretor Fernando Grostein Andrade para uma jornada em busca de experiências que tiveram êxitos em vários lugares do mundo, sempre em diálogo com jovens locais e profissionais que se dedicam a tratar a questão das drogas de forma mais humana e eficaz do que as propostas na “guerra às drogas”, declarada pelos EUA há 40 anos.
Os danos causados, pela “guerra às drogas”, nas pessoas e na sociedade só cresceram. Abusos, informações equivocadas, epidemias, violência e fortalecimento de redes criminosas são os resultados da guerra perdida numa escala global. Num mosaico costurado por Fernando Henrique Cardoso, "Quebrando o Tabu" escuta vozes das realidades mais diversas do mundo em busca de soluções, princípios e conclusões. Bill Clinton, Jimmy Carter e ex-chefes de Estado, como da Colômbia, do México e da Suíça, revelam porque mudaram de opinião sobre um assunto que precisa ser discutido e esclarecido. Do aprendizado de pessoas comuns, que tiveram suas vidas marcadas pela Guerra às Drogas, até experiências de Dráuzio Varella, Paulo Coelho e Gael Garcia Bernal, "Quebrando o Tabu" é um convite a discutir o problema com todas as famílias.
Direção: Fernando G. Andrade
Duração: 71 minutos
Ano: 2011
Áudio: Português
Tamanho: 736 MB


FILME
O Informante

Baseado em fatos reais, que levaram a indústria do tabaco a pagar mais de US$ 246 trilhões em indenizações nos Estados Unidos, a história gira em torno de um cientista que, após sua demissão da empresa por se recusar a continuar compactuando com ela após a constatação, por meio de experimentação científica, de como o método de produção do cigarro perpetuava o vício da nicotina, passa a ser perseguido por seus antigos empregadores. Estes são receosos de que ele viesse a revelar o segredo para a população, o que abalaria significativamente os negócios.
Apoiados em um termo de confidencialidade assumido por Jeffrey Wigand (Russel Crowe), os advogados da empresa tentam pressionar o cientista por meio de ameaças de corte de benefícios prometidos na rescisão de contrato. Mesmo incomodado com a postura de desconfiança da empresa, o cientista se mostra totalmente decidido a manter o trato assumido, a despeito de seu senso de responsabilidade com a verdade, da consciência da injustiça que estava sofrendo e das dificuldades pelas quais atravessaria a partir daquele momento.
Mas o encontro do personagem com o produtor Lowell Bergman (Al Pacino) de um programa jornalístico "60 Minutos", da rede americana CBS, e a intensa pressão da empresa para que assine outros documentos que garantam o seu silêncio, levam o cientista a refletir sobre a sua responsabilidade com relação ao segredo que guardava. Mas também sobre todas as consequências que iriam recair sobre sua situação trabalhista, financeira e familiar caso quebrasse sua palavra.
Revelando os bastidores de grandes corporações e também de uma grande rede de TV, sua ética e corrupção, o filme de Michael Mann garante momentos de suspense e empolgação, além de ótimos diálogos entre Russel Crowe (o cientista), Al Pacino (o produtor) e Christopher Plummer (o repórter), acerca de ética, responsabilidade social e poder.
Direção: Michael Mann
Duração: 158 minutos
Ano: 1999
Áudio: Português
Tamanho: 799 MB

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Seu e-mail e celular estão sendo vigiados?

Tadeu Breda (Outras Palavras. net)
Empresas alemãs, francesas, britânicas, russas e sul-africanas vendem tecnologia que permite grampear um país inteiro, hackear o seu computador ou controlar o seu celular – sem jamais terem que chegar perto de você.
Por Pratap Chatterjee, Publica
     A indústria de vigilância do século 21 é de alta tecnologia, sofisticada e terrivelmente persuasiva. É isso que revelam mais de 200 e-mails de mala direta e outros materiais de marketing publicados hoje pelo WikiLeaks e a Privacy International.
     O equipamento à venda se encaixa em quatro categorias: localização geográfica de telefones móveis e veículos; invasão de computadores e telefones para monitoramento de cada tecla apertada; captura e armazenamento do que é dito em toda uma rede de telecomunicações; e análise de quantidades vastas de dados para rastrear usuários individuais.
Eles podem saber onde você está
     Uma tecnologia popular de rastreamento em telefonia móvel é o receptor IMSI, que permite ao usuário interceptar telefones.
     Estes dispositivos são muito portáteis – podendo ser menores que a palma da mão – e podem ser camuflados como torres portáteis de celular. Eles emitem um sinal que pode infectar milhares de telefones móveis em uma área.
     O usuário do receptor IMSI pode então interceptar mensagens SMS, chamadas telefônicas e dados de celulares tais como o código de identidade do aparelho, o que permite por sua vez rastrear todos os movimentos do usuário em tempo real.
     Dentre as empresas que oferecem este equipamento estão a Ability de Israel,  Rohde & Schawarz da Alemanha e a Harris Corp dos Estados Unidos.
Não são só governos autoritários que espionam
     O FBI americano, que utiliza estes dispositivos para rastrear suspeitos, diz que isto pode ser feito sem mandado judicial. Muitas forças policiais por todo o mundo também compraram ou consideram a compra de receptores IMSI – como a polícia londrina.
     Outras empresas oferecem dispositivos de vigilância “passivos” – ou seja, que podem ser aplicados sem que o “alvo” perceba que está sendo espionado – que podem ser instalados em estações telefônicas. Também vendem equipamentos que podem sozinhos sugar todos os sinais de telefonia móvel de uma área sem ninguém saber.
Eles podem saber para onde você vai
     Há também equipamentos que podem ser colocados em veículos para rastrear o seu destino. Enquanto empresas de logística e transporte usam há muito tempo estes dispositivos para garantir a chegada das entregas a tempo, a empresa Cobham, de Dorset, no Reino Unido, vende o “Orion Guardian”. Trata-se de um dispositivo camuflado que pode ser secretamente posto no assoalho do carro.
     A Hidden Technology, outra empresa britânica, vende equipamentos similares. Por anos, houve um acordo de cavalheiros sobre como estas tecnologias seriam usadas. Os EUA e o Reino Unido sabem que chineses e russos estão usando receptores IMSI. “Mas nós também”, diz Chris Soghoian, pesquisador do Centro de Pesquisa Aplicada em Ciber segurança, em Washington. “Os governos acham que o benefício de poderem usar essas tecnologias é mais importante que o risco que elas significam para seus cidadãos”.
     “Mas hoje, qualquer um – seja um fanático ou uma empresa privada – pode aparecer em Londres e ouvir o que todos dizem”, observa Soghoian. “É hora de mudar para sistemas com segurança reforçada para manter todos seguros”.
Eles podem controlar seu telefone e computador
     Muitas companhias oferecem softwares “Troianos” e malware telefônicos que permitem controlar computadores ou telefones. O programa pode ser instalado a partir de um pen drive, ou enviado remotamente escondendo-se como anexo em e-mails ou atualizações de softwares. Uma vez instalado, a agência de espionagem pode acessar os arquivos, gravar tudo que é digitado e até ligar remotamente telefones, microfones e webcams para espionar um “alvo” em tempo real.
     A empresa Hacking Team da Itália, a Vupen Security da França, o Gamma Group do Reino Unido e a SS8 dos Estados Unidos oferecem tais produtos. Nas suas propagandas, eles dizem poder hackear IPhones, BlackBerrys, Skype e sistemas operacionais da Microsoft. A Hacking Team, provavelmente a mais conhecida destas empresas, anuncia que seu “Sistema de Controle Remoto” pode “monitorar cem mil alvos” ao mesmo tempo.
     Baseada na Califórnia, a SS8 alega que seu produto,  o Intellego, permite que forças de segurança “vejam o que eles vêem, em tempo real” incluindo “rascunhos de e-mails, arquivos anexados, figuras e vídeos”. Este tipo de tecnologia usa as vulnerabilidades do sistema.
     Enquanto as grandes fabricantes de software alegam consertar falhas assim que são descobertas, pelo menos uma empresa de vigilância – a francesa Vupen – diz ter uma divisão de pesquisadores especializados em “soluções ofensivas”. O trabalho deles é constantemente explorar novas falhas na segurança de softwares populares.
     Sistemas de invasão foram recentemente usados em países com governos repressores. Uma devassa feita em março por ativistas pró-democracia no quartel-general da inteligência do regime Hosni Mubarak no Egito revelou contratos para a compra de um programa chamado FinFisher, vendido pela empresa britânica Gamma Group e pela alemã Elaman.
     Uma propaganda em mala-direta da Elaman diz que governos podem usar seus produtos para “identificar a localização de um indivíduo, suas associações e membros de um grupo, por exemplo, de oponentes políticos”.
Eles podem grampear toda uma nação
     Além de programas de hacking para alvos individuais, algumas empresas oferecem a habilidade de monitorar e censurar os dados de um país inteiro, ou de redes de telecomunicações inteiras.
     A vigilância massiva funciona através da captura das informações e atividades de todas as pessoas em um certo meio, sejam suspeitas ou não. Apenas depois o conteúdo é depurado em busca de informações valiosas.
     Por exemplo, as empresas estadunidenses Blue Coat e Cisco System oferecem a empresas e governos a tecnologia para filtrar certos sites de internet. Isso potencialmente pode ser usado para outras razões além de comerciais, como repressão política e cultural.
     Essas mesmas tecnologias podem ser usadas para bloquear sites de redes sociais como o Facebook, serviços de multimídia como Flickr e YouTube e serviços de telefonia via internet como o Skype em países repressores como a China ou os Emirados Árabes.
    Um subproduto desta tecnologia é a “inspeção profunda de pacotes de dados” que permite escanear a web e o tráfego de e-mails e vasculhar grandes volumes de dados em busca de palavras-chave.
Empresas como a Ipoque, da Alemanha, e a Qosmos, da França, oferecem a habilidade de pesquisar dentro do tráfego de e-mails e bloquear usuários específicos. A Datakom, uma empresa alemã, vende um produto chamado Poseidon que oferece a capacidade de “procurar e reconstruir… dados da web, e-mail, mensagens instantâneas, etc.”. A empresa também alega que o Poseidon “coleta, grava e analisa chamadas” de conversas de Skype.
     A Datakom diz oferecer “monitoramento de um país inteiro”. Ela afirma em seus comunicados de marketing que vendeu dois “grandes sistemas de monitoramento de IPs” para compradores não revelados do Oriente Médio e norte da África.
     Já a sul-africana VASTech vende um produto chamado Zebra, que permite a governos comprimir e guardar bilhões de horas de chamadas telefônicas e petabytes (um bilhão de megabytes) de informações para análises futuras.
     Em agosto,  o Wall Street Journal revelou que alguns dos dispositivos da VASTech foram instalados nas linhas telefônicos internacionais da Líbia.
Eles podem guardar e analisar milhões de dados
     Depois da possibilidade de capturar vastas áreas de tráfego de internet e de localizar pessoas através de seus telefones, veio a necessidade de ferramentas sofisticada de análises para que as agências de inteligência, exércitos e polícia usem os dados em investigações criminais e até durante uma guerra.
     Por exemplo, a Speech Techonology Center, baseada na Rússia, diz ser capaz de vasculhar quantidades enormes de informação. A Phonexia, da República Tcheca, diz ter desenvolvido um programa similar de reconhecimento de voz com a ajuda do exército tcheco. Já a Loquendo, da Itália, usa um sistema de “assinaturas vocais”, identificando “alvos” através da identidade única de cada voz humana para saber quando eles estão ao telefone.

SAIBA MAIS:
1984 / A atualidade do “Grande Irmão” de George Orwell
Em um fictício ano de 1984, no qual o totalitarismo viria a dominar o Mundo inteiro. O Planeta é dividido em três grandes blocos, a Eurásia, a Lestásia e a Oceania, e cada um desses blocos tem basicamente a mesma doutrina ideológica. O Governo controla tudo e o povo vive em um constante estado de alienação, onde são manipulados a acreditar – e pior – a seguir voluntariamente os descabidos preceitos do Partido.
A supressão da liberdade é tão grande que existe a Polícia do Pensamento, a qual punia quem cometia “crimes-ideia” (ideologias diferentes da do Partido), além de filmagens que o Estado fazia das pessoas através de “tele telas” dentro de suas próprias casas. Se não bastasse, o Governo criava a Novilíngua, uma espécie de língua que mantinha apenas uma palavra para expressar um conceito e as outras eram excluídas, juntamente com aquelas que poderiam expressar uma ideia contrária à do sistema dominante. Com isso em um futuro próximo, quase ninguém disporia de recursos linguísticos para formular uma oposição à tal situação. Essa é uma visão pessimista que praticamente não possibilita esperanças.
O protagonista Winston Smith. Ele vive na Oceania, Londres e é funcionário do governo que trabalha para o Ministério da Verdade. Nesse “órgão” as informações antigas são refeitas para criarem uma constante noção de perfeição do Estado e do seu suposto chefe maior: o Big Brother (Grande irmão). Smith, intimamente, não concorda com as atrocidades que o Partido comete, e tenta timidamente se desvencilhar desse poder. Depois de viver um romance com Júlia, uma mulher que pensa como ele, Winston é preso e levado para a tortura (física e mental) na temida sala 101, onde a dor e o medo fazem qualquer homem negar seus ideais e aceitar coniventemente o Grande Irmão.
Direção: Michael Radford
Duração: 113 min.
Ano: 1984
Áudio: Inglês/Legendado
Controle Absoluto
Quando escreveu o romance “1984” e criou o personagem Grande Irmão (Big Brother), George Orwell nunca deve ter imaginado que esta realidade um dia poderia ser possível. Hoje em dia, a alta tecnologia permite o fácil monitoramento dos seres humanos. Por exemplo: vivemos em cidades monitoradas por câmeras de segurança; nossas conversas telefônicas podem ser rastreadas; nossos hábitos, gostos e perfis podem ser descobertos a partir da análise dos sites que visitamos na Internet. É nesta realidade que se passa a trama do filme “Controle Absoluto”, do diretor D.J. Caruso.
Jerry Shaw (Shia LaBeouf) e Rachel Holloman (Michelle Monaghan) são dois estranhos cujos caminhos se cruzam depois de um telefonema feito por uma mulher desconhecida. Ameaçando a vida deles e de suas famílias, a misteriosa voz os coloca em uma série de situações crescentemente perigosas usando a tecnologia do dia-a-dia para rastrear e controlar todos os seus movimentos. São marionetes do jogo de alguém que sabe tudo sobre eles e que arquiteta uma situação em que os dois são os alvos mais procurados pelas autoridades, pois estes suspeitam que o par seja membro de uma célula terrorista que conspira uma série de assassinatos políticos.
Direção: D.J. Caruso
Duração: 117 min.
Ano: 2008