“E agora que vocês viram no que a coisa deu, jamais esqueçam como foi que tudo começou” (Bertolt Brecht)

domingo, 15 de julho de 2012

Crack: por uma política mais humana

Por Pedro Vicente Bittencourt
da
Democracia Viva
     Hoje em dia, quando se fala em drogas no Brasil, uma onomatopeia nos vem à cabeça: crack. Poderia ser crack!, com um ponto de exclamação. Tudo para dar o toque de urgência que acompanha qualquer discussão, pública ou não, sobre o tema. Pela frequência com que esse psicoativo aparece nas manchetes de jornais, matérias televisivas e debates acalorados entre membros do governo e profissionais de variadas formações, era de se esperar que o conhecimento sobre esse derivado da cocaína fosse mais difundido. Ledo engano: o desconhecimento é generalizado.
      Como surgiu o crack? De onde vem? Como funciona no organismo? Por que, de uma hora para outra, se alastrou com tanta velocidade pelo Brasil, inclusive em cidades do interior? E, a pergunta de um milhão de reais: como fazer para que a droga deixe de cobrar o alto preço em vidas, atualmente a sua marca trágica?
Se todas essas respostas estivessem dando sopa por aí, provavelmente sequer estaríamos falando do assunto. Já que aqui estamos, vamos ver até onde chegamos com essas perguntas. Afinal, o método socrático sempre trouxe bons resultados na produção de conhecimento.

Perguntas e respostas
     Uma das consequências não intencionais (embora óbvia) da guerra às drogas e, especificamente, da criminalização delas é que toda e qualquer atividade que as envolve ocorrerá ao resguardo dos olhares públicos. Ninguém vai arriscar pagar as duras penas que a lei impõe por “trazer consigo” essas substâncias. Assim, fica difícil conhecer a história das drogas ilegais, incluído aí o crack.
     É certo que ocorreram nos Estados Unidos os primeiros registros da nova droga. O nome crack é uma referência ao som das pedras estalando ao queimarem em cachimbos. Uma onomatopeia. O relato mais sensato e verossímil é que, durante os anos 1980, a política de interdição aos entorpecentes nos EUA teve como resultado o aumento do preço da cocaína nas ruas. Buscava-se, mediante a escassez da oferta, tornar o preço dos psicoativos ilícitos alto demais e, assim, diminuir seu consumo. Resultado: o sempre ágil mercado do ilícito teve de recorrer à criatividade para manter nas ruas um produto “bom” e barato. Com as tradicionais armas do capitalismo e do mercado, o crack se tornou um rotundo sucesso. Para desespero da sociedade.
     A cocaína chama-se, em termos técnicos, cloridrato de cocaína, um alcaloide, um sal, que requer para a sua produção uma variedade de outras substâncias químicas, algumas caras e raras, portanto relativamente fáceis de controlar, e outras tão simples e baratas quanto a gasolina, cal e solventes. Com esses produtos, extrai-se da inofensiva folha da coca o princípio ativo psicotrópico. O custo de tal produção é alto, não apenas pelo preço dos insumos necessários ao processamento, mas também porque muitos deles são inflamáveis, o que amiúde provoca acidentes e prejuízos. Em vez de seguir toda a cadeia de reações até chegar ao cloridrato de cocaína, porque não parar no meio do caminho, quando já houver uma boa concentração do principio ativo da droga?
     O crack é justamente o resultado dessa filosofia de mercado: um produto mais barato, que pode ser produzido em cozinhas domésticas, a partir da pasta base, que nada mais é do que o entorpecente ainda em estado bruto e mais propício para o transporte em grandes quantidades. Qual a diferença mais importante entre o crack e a cocaína? Em vez de ser aspirado, o crack é fumado. Isso causa uma diferença essencial na forma com que a droga age em nosso organismo.
     Aspirada, a cocaína percorre o nosso corpo de maneira difusa. Apenas parte da substância vai para o cérebro, onde começa a fazer efeito. Na prática, isso significa que o efeito da droga leva mais tempo para começar, demora mais para terminar e é mais ameno. Se a mesma dose do princípio ativo for consumida na forma de crack, o percurso no organismo será outro. Ao ser fumada, a droga entra pelo pulmão, um órgão muito vascularizado e com grande superfície de contato. De uma só vez, uma quantidade enorme entra na corrente sanguínea. Do pulmão, a substância será bombeada diretamente para o cérebro. O efeito começará mais rapidamente, durará menos tempo e será mais intenso. Por isso que acredita-se que o crack é tão viciante.
     Essas informações ajudam a compreender um pouco melhor o crack. Contudo, não é a existência em si da droga que causa danos, mas o seu uso. Mais especificamente, o seu uso e as suas consequências. A diferença não é trivial, porque define, em última instância, a forma de lidar com o problema.

Políticas para o crack
Desde 2010, o governo federal divisou dois projetos voltados para lidar com as drogas em geral e com o crack, em particular. Encomendou-se à Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, um mapeamento das “cenas de uso de crack”. Especificamente no município do Rio de Janeiro, o secretário de Assistência Social, depois de ocupar a Secretaria de Ordem Pública e lá desenvolver as operações Choque de Ordem, parece ter importado de uma pasta para a outra a mesma filosofia de ataque aos problemas.
     Eis que agora a população carioca convive com o novo termo “acolhimento compulsório”. Custa-nos compreendê-lo, pois nunca foi devidamente esclarecido. Note-se que o acolhimento compulsório refere-se apenas aos casos com menores de idade, pois, afirmam as autoridades, pode-se inferir que, já que esses meninos e meninas estão nas ruas fumando crack, a família não cuida deles. No caso de maiores de idade, é mais difícil restringir o direito constitucional de ir e vir de uma pessoa em pleno gozo dos seus direitos civis.
     No dia 11 de abril de 2012, o jornal O Globo publicou uma grande matéria sobre o crack. O jornal pediu à Secretaria Municipal de Assistência Social que fizesse um “mapeamento informal” do problema. A expressão incomoda. Informalmente, o jornal informa haver cerca de 3.000 usuários e usuárias circulando pelas chamadas “cracolândias”, dos quais 20% seriam menores de idade. A objetividade desses dados é altamente questionável, mas vamos lá.
     Segundo o jornal, seria o caso dizer que, no município do Rio de Janeiro, 20% das pessoas que usam crack poderiam ser incluídas na política de acolhimento compulsório. Uma vez “acolhidos”, os menores seriam encaminhados a abrigos e centros de tratamento. À primeira vista, pode parecer uma solução interessante, mas será mesmo assim? O objetivo da política é resolver o problema do uso abusivo de uma substância psicoativa, ou apenas retirar das ruas quem traz consigo chagas da miséria, das quais o consumo de crack é apenas mais uma?
     Se o objetivo for o primeiro, e esperemos que assim seja, parece boa ideia compreender as causas que levaram cidadãos e cidadãs brasileiros a dedicar parcela tão significativa de suas energias para alimentar a adição. Terá o consumo do crack competido com quais outras alternativas de engajamento social? Houve escolha possível entre esporte, cultura, educação, família acolhedora, de um lado, e o crack e o mercado ilícito, de outro?
     A rigor, faltam ainda estudos para poder ser taxativo ao responder as perguntas acima. Há, contudo, alguns indícios do que anda ocorrendo. Em dezembro de 2009, a Secretaria Municipal de Assistência Social inaugurou um programa piloto chamado Embaixada da Liberdade, em Manguinhos. Tratava-se de um espaço de acolhimento de jovens de até 17 anos e 11 meses, no qual, se ofereciam dormitórios, alimentação e atividades lúdicas e culturais, para atrair a população mais vulnerável ao crack. Em parceria com os serviços locais de saúde, acompanhava-se o tratamento dos usuários e o reingresso na escola ou no trabalho. A casa vivia cheia, beirando o limite de sua capacidade. Desde o final de 2010, a Embaixada não funciona mais.

Imbróglio
     Hoje, se observa na política da cidade do Rio de Janeiro com relação às drogas duas tendências. Em primeiro lugar, o impulso às já famosas UPPs. Em segundo lugar, as rondas da Secretaria Municipal de Assistência Social, que gerencia o tal acolhimento compulsório.
     Sobre o primeiro caso, pragmaticamente, nos resta pressionar o governo e torcer pelo melhor. Essa política não deve ser revertida. Ela traz valorização dos imóveis no entorno das UPPs, contribui para a imagem de um Rio de Janeiro calmo e pacífico, além de ter reduzido, de fato, os índices de criminalidade violenta nas comunidades pacificadas. Isso não quer dizer que a Polícia Militar do Rio esteja isenta de críticas ou que o governo do Estado não deva ser impelido a levar a cidadania plena às áreas antes dominadas pelas armas do tráfico e pelo tráfico de armas. Críticas à ausência das secretarias de Esporte e Lazer, de projetos de educação e capacitação profissional e de maior articulação com a sociedade civil são pertinentes e necessárias. Devemos consertar o que já foi feito. Trocar o pneu com o carro em movimento.
Já no que se refere à atenção ao crack e, mais especificamente, a quem o consome, é preciso, sim, questionar o que os governos federal, estaduais e as prefeituras estão pensando para a solução desse imbróglio. Talvez seja uma boa ideia buscar o que tem sido feito em outras cidades mundo afora. Se tivermos de passar por experiências mal-sucedidas, uma por uma, até encontrar aquela que satisfaça as demandas de uma sociedade democrática, alguém vai pagar um alto preço por isso. E não serão os políticos.

Outros países
     Portugal descriminalizou todas as drogas em 2001. Já há dados que corroboram a tese de que a mudança de foco para uma abordagem concentrada na saúde foi um sucesso estrondoso, desde a redução do consumo, inclusive entre jovens, até o desafogamento do Judiciário e do sistema carcerário. Experiências mais ousadas, como a implementação de salas de consumo seguro na Suíça e no Canadá, são exemplos promissores, embora não tenham, ainda, o escopo necessário para impactar as estatísticas dos seus países.
     Apesar desses exemplos, os indícios no Brasil não são encorajadores. Na esfera federal, a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) foi transferida do Gabinete de Segurança Institucional, comandado por militares, para o Ministério da Justiça. É um passo na direção certa, embora ainda não suficiente para quem compreende o tema como multidisciplinar, portanto, mais apropriado para as pastas de Saúde e Desenvolvimento Social.
     A demissão relâmpago de Pedro Abramovay, em janeiro de 2011, do governo federal, justamente quando ia liderar a Senad, depois de entrevista na qual sinalizou um caminho mais progressista para a política nacional de drogas, foi um gesto contraditório. Houve progresso, pero no mucho…

E as outras drogas?
     Por fim, uma última questão é importante para nos aproximarmos de um sistema que dê atenção aos usuários e usuárias de drogas de forma mais humana e eficaz. Será mesmo que o crack deve ser o foco dos esforços do governo, centro da política pública no trato com as drogas? Ou será ele apenas mais uma das substâncias sobre as quais se deve trabalhar? Segundo dados do Sistema Único de Saúde, o SUS, o álcool é a droga que mais danos causa a nossa saúde. Proibi-lo não faz sentido ou não teria resultado, mas por que não se concebe um plano nacional para a consciência sobre o álcool?
     Fazendo uma análise fria dos dados, a atenção quase exclusiva dedicada ao crack definitivamente não se justifica. O sistema de saúde precisa, sim, preparar-se melhor para acolher quem usa drogas. O problema não será resolvido por completo sem mudanças na legislação vigente e, principalmente, sem outro paradigma de políticas públicas para lidar com o problema. Esse deve ser o foco principal dos futuros debates.
Saiba Mais:
Documentário:
Quebrando O Tabu
Quebrando o Tabu tem como principal objetivo a abertura de um debate sério e bem informado sobre o complexo problema das drogas no Brasil e no mundo. O filme pretende aproximar diversos públicos, entre eles os jovens, os pais, os professores, os médicos e a sociedade como um todo, para que se inicie uma conversa franca que leve a diminuição do preconceito, ajude na prevenção ao uso de drogas e que dissemine informações com base científica sobre o tema. O âncora do filme é o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que aceita o convite do diretor Fernando Grostein Andrade para uma jornada em busca de experiências que tiveram êxitos em vários lugares do mundo, sempre em diálogo com jovens locais e profissionais que se dedicam a tratar a questão das drogas de forma mais humana e eficaz do que as propostas na “guerra às drogas”, declarada pelos EUA há 40 anos.
Mas os danos causados por elas nas pessoas e na sociedade só cresceram. Abusos, informações equivocadas, epidemias, violência e fortalecimento de redes criminosas são os resultados da guerra perdida numa escala global. Num mosaico costurado por Fernando Henrique Cardoso, "Quebrando o Tabu" escuta vozes das realidades mais diversas do mundo em busca de soluções, princípios e conclusões. Bill Clinton, Jimmy Carter e ex-chefes de Estado, como da Colômbia, do México e da Suíça, revelam porque mudaram de opinião sobre um assunto que precisa ser discutido e esclarecido. Do aprendizado de pessoas comuns, que tiveram suas vidas marcadas pela Guerra às Drogas, até experiências de Dráuzio Varella, Paulo Coelho e Gael Garcia Bernal, "Quebrando o Tabu" é um convite a discutir o problema com todas as famílias.
Direção: Fernando G. Andrade
Duração: 71 minutos
Ano: 2011
Áudio: Português
Tamanho: 389 MB

Filme:
Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream)
O filme gira em torno de quatro personagens e os vícios que as afastam de seus sonhos, fazendo com que vivam entre a esperança e o desespero. Uma visão frenética, perturbada e única sobre pessoas que vivem em desespero e ao mesmo tempo cheio de sonhos. Harry Goldfarb (Jared Leto) e Marion Silver (Jennifer Connelly) formam um casal apaixonado, que tem como sonho montar um pequeno negócio e viverem felizes para sempre. Porém, ambos são viciados em heroína, o que faz com que repetidamente Harry penhore a televisão de sua mãe (Ellen Burstyn), para conseguir dinheiro. Já Sara, mãe de Harry, viciada em assistir programas de TV. Até que um dia recebe um convite para participar do seu show favorito, o "Tappy Tibbons Show", que transmitido para todo o país. Para poder vestir seu vestido predileto, Sara começa a tomar pílulas de emagrecimento, receitadas por seu médico. Só que, aos poucos, Sara começa a tomar cada vez mais pílulas até se tornar uma viciada neste medicamento. Uma jornada profunda no mundo das drogas. Suas vidas logo se tornarão um inferno e seus destinos prometem não ser dos melhores.
Direção: Darren Aronofsky
Duração: 100 minutos
Ano: 2000
Áudio: Inglês/legendado
Tamanho: 400 MB
Scarface
Um criminoso cubano exilado (Al Pacino) vai para Miami e em pouco tempo está trabalhando para um chefão das drogas. Sua ascensão na quadrilha é meteórica, mas quando ele começa a sentir interesse na amante do chefe (Michelle Pfeiffer) este manda matá-lo. No entanto ele escapa do atentado, mata o mandante do crime, fica com a amante dele - mas simultaneamente sente desejos incestuosos por sua irmã (Mary Elizabeth Mastrantonio) - e assume o controle da quadrilha. Em pouco tempo ele ganha mais dinheiro do que jamais sonhou. No entanto ele está na mira dos agentes federais, que o pegam quando ele está "trocando" dinheiro. Mas seu problema pode ser resolvido se ele fizer um "serviço" em Nova York para um grande traficante e pessoas influentes, que podem manipular o poder para ajudá-lo. Porém, a missão toma um rumo inesperado quando, para concretizá-la, ele precisa matar crianças.
Direção: Brian de Palma
Duração: 168 minutos
Ano: 1983
Áudio: Português
Tamanho: 626 MB
O Informante
Baseada em fatos reais, que levaram a indústria do tabaco a pagar mais de US$ 246 trilhões em indenizações nos Estados Unidos, a história gira em torno de um cientista que, após sua demissão da empresa por se recusar a continuar compactuando com ela após a constatação, por meio de experimentação científica, de como o método de produção do cigarro perpetuava o vício da nicotina, passa a ser perseguido por seus antigos empregadores. Estes são receosos de que ele viesse a revelar o segredo para a população, o que abalaria significativamente os negócios.
Apoiados em um termo de confidencialidade assumido por Jeffrey Wigand (Russel Crowe), os advogados da empresa tentam pressionar o cientista por meio de ameaças de corte de benefícios prometidos na rescisão de contrato. Mesmo incomodado com a postura de desconfiança da empresa, o cientista se mostra totalmente decidido a manter o trato assumido, a despeito de seu senso de responsabilidade com a verdade, da consciência da injustiça que estava sofrendo e das dificuldades pelas quais atravessaria a partir daquele momento.
Mas o encontro do personagem com o produtor Lowell Bergman (Al Pacino) de um programa jornalístico "60 Minutos", da rede americana CBS, e a intensa pressão da empresa para que assine outros documentos que garantam o seu silêncio, levam o cientista a refletir sobre a sua responsabilidade com relação ao segredo que guardava. Mas também sobre todas as consequências que iriam recair sobre sua situação trabalhista, financeira e familiar caso quebrasse sua palavra.
Revelando os bastidores de grandes corporações e também de uma grande rede de TV, sua ética e corrupção, o filme de Michael Mann garante momentos de suspense e empolgação, além de ótimos diálogos entre Russel Crowe (o cientista), Al Pacino (o produtor) e Christopher Plummer (o repórter), acerca de ética, responsabilidade social e poder.
Direção: Michael Mann
Duração: 158 minutos
Ano: 1999
Áudio: Português
Tamanho: 508 MB

quarta-feira, 11 de julho de 2012

II Guerra Mundial (1939-1945)

Aprendendo com o inimigo
Lendas e mitos sobre a Força Expedicionária Brasileira ofuscaram a compreensão das dificuldades da campanha.

     O distintivo da Cobra Fumando costuma ser exibido com orgulho pelos veteranos da Força Expedicionária Brasileira. Nas fotografias feitas logo após a Segunda Guerra Mundial, os combatentes mostram uma postura altiva e marcial. Mas o aspecto bem-sucedido dos soldados brasileiros oculta uma série de imprevistos e improvisos que fizeram parte da trajetória da FEB na guerra.
     Antes de entrar em ação, a capacidade de combate foi duramente questionada. Até mesmo o general Mascarenhas de Moraes (1883-1968), comandante da FEB, reconheceu problemas de organização e treinamento do contingente. Mas o despreparo inicial foi compensado pelo bem executado processo de indução dos soldados ao Exército, sob uma liderança capaz.
     A instrução dos brasileiros foi realizada em várias etapas, desde a incorporação dos recrutas e voluntários no Brasil – quando recebiam treinamento nos quartéis do pré-guerra – até estágios emergenciais de treinamento na Itália, antes do batismo de fogo. No dia 8 de novembro de 1944, uma nota da Infantaria fornecia orientações para o treinamento dos pelotões de fuzileiros no ataque, juntamente com técnicas de lançamento de granadas de mão e esgrima com baionetas. Na véspera do engajamento no front, o comando da FEB se esforçava para incutir noções básicas de conduta em combate a fim de melhorar as condições de sua tropa. Mas esse esforço não foi suficiente: após os primeiros combates em Monte Castello, no final de 1944, o comando da divisão expedicionária emitiu uma nota de instrução, em 15 de janeiro de 1945, resignando-se e reconhecendo a urgência de métodos para renovar as habilidades táticas dos pelotões da Infantaria brasileira.
     Nos primeiros meses de 1945, a Infantaria Expedicionária passou a treinar táticas de infiltração, que foram empregadas no ataque final contra Monte Castello, realizado no dia 21 de fevereiro daquele ano. Um conhecido aforismo militar apregoa que o melhor instrutor é o próprio inimigo, e os brasileiros se beneficiaram tanto da instrução intensiva ministrada no front quanto da prática em combate.
     Mesmo com o treinamento preliminar e o aprendizado nas montanhas italianas, era imprescindível manter a prática de exercícios de campo meses depois da estreia em combate. No início de abril de 1945, os veteranos passaram a realizar programas semanais de educação física, aulas sobre patrulhas noturnas e sobre como proceder no caso de alguém cair prisioneiro. Os exercícios eram conduzidos em dois turnos, na vizinhança das trincheiras, permitindo que um se mantivesse nas posições enquanto o outro recebia a instrução. Isto era necessário para adequar a tropa à realidade dos combates.
     O sucesso da FEB, portanto, é explicado pelo profissionalismo militar. A rápida assimilação de conhecimentos e habilidades capacitou toda a tropa, que pôde planejar e executar as operações – inclusive o aparato tecnológico –, reagindo ao imprevisto causado pelo inimigo.
     Outro motivo da saída vitoriosa da FEB é a qualidade de seus soldados. Apesar de os instrutores americanos terem avaliado negativamente a preparação preliminar dos brasileiros, esses mesmos instrutores os consideraram inteligentes e motivados. Além de oficiais de carreira, a divisão brasileira contou com muitos tenentes de Infantaria provenientes dos Centros de Preparação dos Oficiais da Reserva (CPOR). Eles eram mais numerosos do que os oficiais da ativa em várias das unidades de Infantaria.
     Sargentos, cabos e soldados eram majoritariamente de origem urbana, alfabetizados, e apresentavam robustez e resistência física, a ponto de a FEB precisar confeccionar uniformes maiores que ao do fardamento normal do Exército. Do total de praças, 80,7% eram originários das regiões Sul e Sudeste do país. Os convocados oriundos do Nordeste, escolhidos por suas ótimas condições de saúde e grau de instrução, eram, na maioria, estudantes que serviram como cabos e sargentos, incorporados para suprir a deficiência de graduados experientes. No total, cerca de 25.500 brasileiros compuseram a FEB.
      Apesar dessas constatações, as narrativas sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial permanecem imbuídas de uma variedade de anedotas e mitologias. O episódio foi responsável por suscitar crenças nas supostas qualidades de uma excepcionalidade brasileira pretensamente capaz de dominar as mais duras adversidades a partir de “saberes inerentes”.
     Estariam os brasileiros, portanto, dispensados de aprender de acordo com as regras dos gringos sem jogo de cintura, sendo capazes de vencer as durezas da guerra unicamente com as soluções de arremedo inventadas no calor do momento. Nada de manual de campanha e instrução convencional! Pelo menos é o que dizem várias das narrativas ufanistas. Uma das mais conhecidas se refere à artimanha brasileira para conter o problema do “pé de trincheira”, o congelamento dos pés: em vez de limpeza constante e troca das meias, os soldados da FEB teriam sido capazes de erradicar a moléstia inserindo palha nas galochas de inverno fornecidas pelo Exército americano. Entretanto, os próprios registros médicos da FEB revelam que a quantidade de pé de trincheira entre os brasileiros foi ligeiramente maior que a das demais divisões do Exército americano ao qual o contingente brasileiro foi incorporado. Ainda assim, a lenda sobre a palha ainda é repetidamente alardeada.
     Outra das anedotas mais reproduzidas diz respeito ao suposto “medo” que os combatentes alemães sentiam das armas brancas empregadas pelos brasileiros, embora fossem raríssimas as oportunidades de se aproximarem do inimigo durante o combate para que houvesse a chance de se utilizar a baioneta ou a faca de trincheira – havia outros recursos mais eficazes prontamente disponíveis, como os fuzis e as metralhadoras. Por exemplo, José de Oliveira Ramos, oficial médico da FEB, aponta que, dos 1.862 ferimentos que contabilizou entre brasileiros, apenas três foram causados em combate corpo a corpo.
     É certo que as narrativas dos correspondentes de guerra, que raramente tiveram a oportunidade de ir à linha de frente, contribuíram para a profusão de anedotas. O jornalista Joel Silveira escreveu sobre um sargento brasileiro que teria conseguido se livrar de um cerco dos alemães “de ‘lambedeira’ na mão e dando berros de insano”. Já o veterano Leonercio Soares, que realmente teve a chance de combater contra os alemães, tinha outro ponto de vista: “destros em esgrima a baioneta, não seria uma insignificante faca que os iria intimidar”.
     É natural que tenha surgido uma série de fábulas como essas. Toda unidade militar precisa reforçar seu moral para o combate e instigar o espírito de corpo, e as bravatas são uma parte importante neste processo. Mas é interessante perceber como as narrativas mais exacerbadas da FEB na Itália remetem a elementos da cultura nacional sem relação com a Segunda Guerra e se aproximam da celebração do “jeitinho” brasileiro de resolver problemas. A criatividade seria o recurso empregado para que pudessem ser superadas as dificuldades de origem. A bugiganga tecnológica americana inventada para os rigores do inverno teria sido superada pela gambiarra com palha. O combativo militar alemão teria sido vencido pela “malandragem” de carregar peixeiras.
     O ímpeto do avanço brasileiro sobre o vilarejo de Montese foi preocupante para os alemães, gerando a maior concentração de artilharia na jornada de combates do dia 14 de abril de 1945. As baixas neuropsiquiátricas da FEB foram semelhantes às das divisões americanas na Itália – cerca de 350 de um grupo de 15.000 homens em oito meses de combate – o que mostra que os soldados brasileiros estiveram tão expostos aos rigores do front quanto seus companheiros de armas das divisões americanas.
     A FEB concluiu a campanha como um importante elemento no avanço Aliado pelo norte da Itália. Nos combates que antecederam a rendição de Fornovo, quando 14.779 alemães e italianos se tornaram prisioneiros em dois campos instalados pelos brasileiros, a taxa de baixas fatais entre o inimigo foi cinco vezes maior do que as perdas do Brasil.
     Mas, mesmo com as recentes pesquisas feitas a partir da documentação de campanha – estudos de campo e narrativas e diários de combatentes –, a ideia do “jeitinho de fazer a guerra” continua em voga. Tanto o triunfalismo quanto o provincianismo dos combatentes brasileiros ainda contribuem para consolidar uma imagem pueril da experiência de guerra vivida pela FEB, ao darem a impressão de que o improviso bastou para derrotar um inimigo calejado e senhor do terreno.

Cesar Campiani Maximiano é autor de Barbudos, Sujos e Fatigados. São Paulo: Grua Livros, 2010.
Saiba Mais - Bibliografia
FERRAZ, F.C. Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
MASCARENHAS DE MORAES, J.B. A FEB pelo seu Comandante. Rio de Janeiro: Bibliex, 2003.   
MAXIMIANO,C.C.; Bonalume Neto, R. Brazilian Expeditionary Force in WWII. Londres: Osprey Publishing, 2011.
OLIVEIRA, D. Os Soldados Alemães de Vargas. Curitiba: Juruá, 2008.

Apocalipse - Redescobrindo A Segunda Guerra Mundial
A série narra a história da Segunda Guerra Mundial utilizando imagens feitas por cinegrafistas amadores; cenas ultrassecretas, mas já liberadas; e jornais cinematográficos que não foram exibidos naquela época.
As imagens redescobertas foram colorizadas para dar aos telespectadores a sensação de como foi vivenciar a guerra. A força da série consiste na tentativa de contar a história da Segunda Guerra Mundial de uma maneira nova, utilizando imagens singulares de uma forma que o público nunca viu antes. A série relata esse conflito terrível por meio do trágico destino de quem foi à guerra (soldados), de quem sofreu suas consequências (civis) e de quem a comandou (chefes militares e políticos). A guerra matou 50 milhões de homens e mulheres no mundo todo – e foi a primeira da história com tantas vítimas civis quanto baixas militares.

Direção: Daniel Costelle e Isabelle Clarke
Ano: 2009
Áudio: Português
Duração: 47 min./cada episódio
Episódio I -A Agressão Nazista
Após tomar o poder e estabelecer o regime nazista na Alemanha, Hitler volta seus olhos para a Europa. Inesperadamente, o "Fuhrer" forma uma aliança com Stalin antes de invadir a Polônia. A França e a Grã-Bretanha não têm outra escolha e declaram guerra contra a Alemanha, o que não impede os alemães e soviéticos de calmamente dilacerar a Polônia.
Começa a perseguição aos judeus e ciganos. Mais ao Ocidente, a "guerra falsa" começa - um período de espera, incerteza e também de esperança. Lembrando o sofrimento pelo qual passaram durante a Primeira Guerra Mundial, os franceses ainda esperam evitar a guerra.
Episódio II- A Guerra Relâmpago
Em 10 de maio de 1940, tem início a "Blitzkrieg" (guerra-relâmpago). O exército alemão movimenta-se rapidamente pela Bélgica, Holanda e França. Após alguns ataques violentos, as tropas britânicas entram em pânico e o exército francês é derrotado. Aos civis cabe fugir, criando um verdadeiro êxodo.
A França fica sem forças diante do poderoso inimigo e seu povo tem de escolher entre colaborar com Petain ou resistir de acordo com o ideal de Churchill. Apesar dos fortes bombardeios em cidades britânicas, Hitler finalmente percebe que não pode dominar o Reino Unido e então resolve se voltar contra a União Soviética, sua "aliada".
Episódio III- Pesadelo Alemão
Paris é ocupada, bem como a maioria das capitais europeias. A exceção é Londres, que resiste aos submarinos e bombardeios alemães. Churchill se recusa a ceder. Muito preocupado com o rearmamento americano, Hitler resolve atacar a União Soviética para completar seu domínio na Europa antes que os Estados Unidos possam intervir no continente europeu. Trata-se de um novo jogo para ele. Porém, empolgado com suas vitórias, o "Fuhrer" é convencido que pode conquistar a Rússia de Stalin em três meses.
Passando pelos países bálticos e pela Ucrânia, onde os alemães inicialmente são recebidos como libertadores, a "Wehrmacht" (Forças Armadas alemãs) executa uma verdadeira guerra de extermínio contra os judeus-bolchevistas. Inesperadamente, e com a ajuda do mau tempo, os soviéticos se defendem heroicamente.
É o começo de um longo pesadelo para os soldados alemães. A "Wehrmacht", que chegou perto de Moscou, fica paralisada, tal com na África, onde o general Rommel, que tinha ído ajudar os italianos, é seriamente desafiado pelos aliados. Com o ataque surpresa dos japoneses em Pearl Harbor, a guerra se torna mundial.
Episódio IV- Momentos Decisivos
Após o ataque surpresa em Pearl Harbor, Roosevelt declara guerra contra o Japão. A guerra se torna mundial. Apesar de sua brava resistência, as forças aliadas não são capazes de diminuir o avanço tempestuoso do Exército japonês no sudeste da Ásia. Até mesmo a Índia e a Austrália correm perigo.
A derrota japonesa em Midway, seguida pelo desembarque americano em Guadalcanal, são os primeiros sinais de esperança, mas também o começo de longas e sangrentas batalhas no "inferno verde" da floresta. Enquanto isso, a resistência começa a se organizar na Europa e no norte da África.
Seus ataques aumentam e os bombardeiros britânicos começam a espalhar o terror pela Alemanha. Ainda assim, nada parece ser capaz de deter as tropas de Hitler. Rommel está na fronteira do Egito e a suástica voa sobre a cidade de Stalingrado. A "Solução Final" leva ao extermínio dos judeus.
Episódio V -O Dia D
The Great Landings (1944) O Dia D na Normandia e em Saipan, no Pacífico, praticamente no mesmo dia.
Episódio VI -O Apocalipse
1944: os aliados desembarcam na Itália, mas seu avanço é detido pela Wehrmacht (Forças Armadas alemãs), protegida atrás da "Gustav Line" (Monte Cassino). Na Normandia e em Siapan, no Pacífico, os aliados organizam simultaneamente o maior desembarque da história.
Nesta dura batalha entre os aliados e as forças do Eixo, civis dos dois lados do planeta pagam o maior preço. Em 20 de julho, Hitler milagrosamente escapa de um atentado. A repressão é cruel e a SS assume o total controle da Alemanha. Em Ardennes, o último contra-ataque iniciado por Hitler para repelir os aliados falha, em partes graças ao comportamento heroico dos soldados.
No leste, o Exército Vermelho continua avançando e chega em Berlim. Nada mais pode salvar a Alemanha, nem mesmo suas armas secretas, o V1 e V2. Hitler comete suicídio. No Pacífico, os kamikazes atacam a frota americana e o Exército japonês, fanático como nunca, luta até o seu último homem.
Para acabar definitivamente com o Império do Sol Nascente, mas evitar um desembarque no Japão, que seria incrivelmente sangrento, os americanos lançam a bomba atômica. É o apocalipse.

Rompendo o Silêncio (Broken Silence)
Série de cinco documentários de média-metragem sobre o Holocausto, dirigidos por cinco grandes cineastas: Luis Puenzo, Pavel Chukhraj, János Szász, Vojtech Jasny e Andrzej Wajda. Produzidos por Steven Spielberg e baseados em documentos pertencentes à instituição "Survivors of the Shoah Visual History Foundation", também de Spielberg, "Rompendo o Silêncio" é um emocionante painel que retrata os horrores do Holocausto na Segunda Grande Guerra, sob o ponto de vista de quem o vivenciou de perto... e sobreviveu para alertar o mundo. Cada filme traz impressionantes imagens dos arquivos da época (algumas raras, em cores), que nos levam a reavaliar os valores de toda uma civilização. Um autêntico documento histórico.
Ano: 2002
Áudio: legendado
Duração: 55 min./cada documentário
 I-"Olhos do Holocausto"
O diretor húngaro János Szász (Woyzeck) enfatiza, em Olhos do Holocausto, a experiência do horror a partir da leitura de verbetes de uma enciclopédia, destacando palavras como "antissemitismo", "deportação" e "crematório", sempre enfatizando a experiência de sobreviventes que eram crianças à época. Esta obra de valor insuspeito é imprescindível para qualquer espectador que queira entender melhor a história recente.
II-"Alguns que Viveram"
O diretor argentino Luis Puenzo (A História Oficial) realizou Alguns que Viveram, que mostra como a Argentina, sob o governo simpatizante de Juan Perón, abriu suas portas para criminosos de guerra, deixando claro que "o Holocausto pode acontecer de novo em qualquer lugar", como reafirma o historiador Haim Avni, que assessorou Puenzo.
III-"Crianças do Abismo"
O russo Pavel Chukhraj (O Ladrão), em Crianças do Abismo, sentiu-se pleno ao relatar o drama de crianças e adolescentes que presenciaram a morte de seus pais e foram obrigados a sobreviver sozinhos. Os sobreviventes do Holocausto, detalham suas experiências de resistência, traição, resgate e o desejo de vingança.
IV-"Eu Me Lembro"
Já o polonês e veterano Andrzej Wajda (As 200 Crianças do Dr. Korczak), com Eu me Lembro, registra, em preto-e-branco e sem narração, o depoimento contundente de quatro sobreviventes que foram ajudados ou traídos por seus vizinhos poloneses. Destaque para as imagens do papa João Paulo 2° diante do Muro das Lamentações, em Jerusalém.
V-"Inferno na Terra"
O tcheco Vojtech Jasny escolheu Inferno na Terra como título de seu segmento, "um filme de horror", pois aquele "foi um período em que os demônios da mente humana escureceram o mundo"; Jasny dirigiu esta impressionante visão sobre Theresienstadt, o gueto "modelo", montado pelos nazistas para enganar o mundo sobre as condições de tratamento dos judeus. Depois que seu pai foi morto no campo de Auschwitz, trabalhou como espião para os aliados.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Desgaste, desencanto e suicídios no exército dos EUA.

Um soldado a cada dia acaba com a própria vida. Suicídios já são duas vezes maiores que mortes em combate. Angústia, convocações sucessivas e dificuldades econômicas parecem ser as causas.
     Nos primeiros 155 dias do ano, foram reportados 154 suicídios de soldados americanos na ativa, o que quer dizer que, em média, entre Janeiro e Junho de 2012 o Exército norte-americano perdeu uma pessoa por dia.
     No mesmo período, o número de soldados que morreram no Afeganistão foi inferior: menos 50%, de acordo com o Pentágono; 139, segundo o site: icasualties.org/, que reúne a contabilidade das mortes em combate.
     Os dados do Pentágono apontam uma alta extraordinária da taxa de suicídio de tropas, que se encontra agora num nível histórico – face aos valores do período homólogo de 2011, a taxa de suicídio disparou 18%, e 25% quando comparada com 2010. Nunca, na última década em que os Estados Unidos estiveram envolvidos em duas guerras (no Iraque e Afeganistão), o ritmo de suicídios entre militares foi tão elevado.
    O Departamento de Defesa manifestou extrema preocupação com a tendência de subida do número de suicídios, que se tem verificado desde 2006, até atingir um pico em 2009 e novamente agora. Antes de ter sido feita a contagem do primeiro semestre do ano, o próprio secretário da Defesa, Leon Panetta, tinha alertado as chefias para a questão, escrevendo numa nota interna que “o suicídio de militares é um dos problemas mais complexos e urgentes” a necessitar de atenção e soluções.

Exército combate estigma
    “Há que continuar a trabalhar para eliminar o estigma de quem sofre de stress pós-traumático ou outros problemas mentais para que esses indivíduos procurem ajuda especializada”, dizia o documento, citado pela Associated Press.
     Panetta escreveu ainda que os comandantes têm uma responsabilidade adicional e “não podem tolerar qualquer ação que leve ao desprezo, humilhação ou isolamento de qualquer indivíduo, principalmente daqueles que necessitem de tratamento”.
     Num esforço para gerir os problemas individuais e sociais provocados pelo esforço de guerra da última década — além do aumento dos suicídios, verifica-se também uma subida nos casos de toxicodependência, de violência sexual e doméstica e de outros crimes praticados por soldados —, o exército norte-americano lançou programas de saúde mental, de prevenção do abuso de álcool e drogas, assim como de aconselhamento jurídico e financeiro para os soldados e as suas famílias.
      Como comentava o diretor-executivo da associação de Soldados Veteranos da América e do Afeganistão, Paul Rieckhoff, o número de suicídios entre militares na ativa é apenas “a ponta visível do icebergue” — um inquérito conduzido junto dos 160 mil membros da sua organização revelava que 37% tinha conhecimento pessoal de alguém que tinha posto fim à própria vida.
     As causas para o problema estão identificadas: os estudos realizados pelo Pentágono com o seu pessoal demonstram que os anos de convocações sucessivas para o teatro de guerra elevam a probabilidade de os soldados desenvolverem um quadro de stress pós-traumático. Especialistas dizem que a situação económica dos Estados Unidos também pode estar contribuindo para o aumento da angústia e desespero das tropas americanas e respectivas famílias.

Saiba Mais: Documentários
11 de Setembro (11’9″01 – September 11)
Após os acontecimentos de 11 de setembro de 2001, o produtor artístico Alain Brigand pediu a 11 diretores que contribuíssem cada um com um curta-metragem para uma coletânea que seria exibida internacionalmente. Inspirados naquele dia, todos os realizadores tiveram liberdade artística para refletir sobre o atentado, obedecendo à duração de 11 minutos, 9 segundos e 1 frame - ou 11'09''01.
Onze curta-metragens abordando diversos aspectos dos ataques terroristas aos Estados Unidos, ocorridos em 11 de setembro de 2001. Danis Tanovic e Ken Loach relacionam a data do atentado a outros acontecimentos. Tanovic lembra-se do dia 11 de julho de 1995, quando ocorreu o massacre em Srebrnica e Loach rememora que Salvador Allende foi deposto do governo chileno em 11 de setembro de 1973. Idrissa Ouedraogo realizou uma comédia reflexiva sobre Burkina Faso. Samira Makhmalbaf mostra uma professora que tenta explicar o ataque a um grupo de crianças. Sean Penn evoca a vida de uma viúva que morava à sombra das duas torres desabadas. Claude Lelouch descreve as reações de vários surdos ao evento ou que testemunharam o evento. Shonei Imamura recorre às memórias japonesas da Segunda Guerra Mundial e Mira Nair mostra os problemas das minorias étnicas. Amos Gitai dá a sua interpretação sobre o papel da mídia em uma informação de significado internacional. Alejandro González Iñárritu apresenta 11 minutos de preces na escuridão, enquanto Youssef Chahine reflete a perspectiva do Oriente Médio.
 Direção: Youssef Chahine, Amos Gitai, Alejandro González Iñárritu, Shohei Imamura, Claude Lelouch, Ken Loach, Samira Makhmalbaf, Mira Nair, Idrissa Ouedraogo, Sean Penn, Danis Tanovic
Ano 2002
Áudio: espanhol, inglês, francês, árabe, hebraico, persa/Legendado
Duração:128 minutos

Razões Para A Guerra (Why We Fight)
Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Sundance Film Festival de 2005, Razões Para a Guerra proporciona uma visão reveladora sobre como a América tem se preparado para a batalha e o que os obriga tão frequentemente a travar guerras ao redor do mundo.
Produzido em meio à segunda guerra do Iraque, o documentário é uma agressiva análise das forças que alimentam a máquina militar norte-americana por mais de meio século e suas consequências globais.
O filme começa com o discurso de despedida do presidente Dwight D. Eisenhower em 1961, no qual ele alertou os norte-americanos quanto ao crescimento do poder do "complexo industrial militar."
Expandindo a partir da advertência de Eisenhower, Jarecki conta ainda com entrevistas de soldados norte-americanos, oficiais do governo, informantes militares, empregados da área de Defesa, congressistas, acadêmicos, iraquianos e muitos outros que fornecem análises pessoais, políticas e econômicas sobre os últimos 50 anos da expansão militar dos Estados Unidos, guerras e intervenções.
O que surge é um retrato esclarecedor e arrepiante de como os interesses políticos, corporativos e militares se tornaram progressivamente ligados através do negócio que é uma guerra.
Se nós queremos defender e promulgar a paz, precisamos conhecer as razões para a guerra! “Por que nós lutamos?”. “Lutamos pela liberdade”. Essa resposta faz parte de uma cultura que tentou justificar a guerra pelos melhores motivos. A boa propaganda é muito eficiente em montar mentalidades...!
Direção: Eugene Jarecki
Ano: 2005
Áudio: Inglês/legendado
Duração: 99 minutos

Táxi Para A Escuridão (Taxi to the Dark Side)
Um taxista afegão, preso por líderes militares locais, morre 4 dias depois na Base Aérea de Bagram, por consequência das torturas sofridas. Meses de investigação levam uma jornalista do New York Times até a vila remota da vítima. Lá, encontra o atestado de óbito em inglês, entregue pelo Exército Americano para a família da vítima, que só fala Pashtu. Causa oficial da morte: homicídio. Documentos oficiais revelam como o exército norte-americano e o FBI gastaram meses de pesquisas, aperfeiçoando seus métodos para “dobrar” os prisioneiros.
Na base de Guantánamo, em Cuba, a CIA e o exército desenvolveram e criaram métodos de tortura e testaram nos detentos. Os presos ali, sem direito a habeas-corpus e sem saber o motivo pelo qual haviam sido presos, tiveram corpos e mentes moídos com a anuência do alto escalão do governo. Um dos detentos, sob tortura, disse que Saddam Hussein havia treinado a Al-Qaeda no uso de armas químicas. O documentário revela que uma pessoa torturada diz o que o torturado deseja ouvir. E tudo o que os EUA queriam era um motivo para invadir o Iraque. Com ou sem provas.
Direção: Alex Gibney
Ano: 2007
Áudio: Inglês/legendado
Duração: 106 minutos

A Caminho de Guantánamo (The Road to Guantánamo)
10 de setembro de 2001. A mãe de Asif Iqbal (Afran Usman), um jovem de 19 anos, retorna do Paquistão anunciando que encontrou uma noiva para ele. Nove dias depois Asif segue para o Paquistão, para encontrá-la e também conhecer a terra de seus pais. Asif convida Ruhel (Farhad Harun), Shafiq (Riz Ahmed) e Monir (Waqar Siddiqui), seus amigos, para acompanhá-lo. Em Karachi, após 2 dias de viagens turísticas, eles vão rezar em uma mesquita. Lá ouvem de um líder local que o Afeganistão precisa de voluntários, o que faz com que sigam para Kandahar. Porém a cidade logo é bombardeada pelos americanos, como represália pelos atentados terroristas de 11 de setembro. Eles tentam retornar ao Paquistão, mas Monir desaparece e os demais são capturados pelas forças aliadas. É o início de uma série de torturas que os amigos sofrem, já que ninguém acredita que são turistas europeus. Em janeiro de 2002 eles são enviados à prisão americana de Guantánamo, em Cuba, onde durante 2 anos e meio tentam convencer os guardas sobre suas verdadeiras identidades. Filme polêmico ganhou o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim de 2006.
Direção: Michael Winterbottom, Mat Whitecross
Ano: 2006
Áudio: Inglês/legendado
Duração: 91 minutos

Saiba Mais: Links
Passaram-se oito anos e os Estados Unidos fecharam a porta do Iraque deixando um desastre atrás dela. Durante o conflito, morreram mais de 100 mil civis, 4.800 soldados da coalizão perderam a vida (4.500 dos EUA), junto com 20 mil soldados iraquianos. Para os iraquianos, o legado da invasão é morte, dezena de milhares de mutilados, insegurança, desemprego, falta de água potável e eletricidade. A democracia exportada com bombas ultramodernas não mudou o curso das coisas.
Da Revolução Francesa, passando pelos carbonários, o século XX com as guerras, e o XXI, com Bin Laden: o terrorismo foi encarado de formas até antagônicas.
Em "Incêndios", um casal de gêmeos, após a morte da mãe, parte em busca de uma família desconhecida no Oriente Médio, descobre o passado da família e os horrores da guerra - revelados não por cenas violentas, mas por diálogos intensos.

Napoleão

A versão integral com áudio original em francês de Napoleão, a monumental minissérie europeia sobre o lendário Napoleão Bonaparte (1769 - 1821). Filmada em vários países, com mais de 20 mil figurantes, direção de arte e figurinos luxuosos, essa superprodução de 50 milhões de dólares tem um elenco estelar, incluindo Christian Clavíer, Isabella Rossellini, Gérard Depardieu e John Malkovich. Um grande espetáculo histórico.
Baseada na premiada biografia de Max Gallo, a série acompanha os principais momentos da vida de Napoleão: sua participação na Revolução Francesa, as batalhas de Austerlitz e Waterloo, a sua auto-coroação como imperador da França, o exílio na ilha de Santa Helena e sua vida amorosa, incluindo os casamentos com Joséphine e Marie Louise.

       Direção: Yves Simoneau
Ano: 2002
Áudio: Francês/legendado
Duração: 376 minutos 
Clique no nome do episódio para assistir on-line

1818, ilha de Santa Helena. Exilado no meio do Oceano Atlântico, Napoleão se recorda do tempo em que não passava de um general sem soldo: suas ambições, suas convicções republicanas, seu reencontro com Joséphine. Depois, os primeiros combates e as primeiras vitórias... Marchando em direção à glória com apenas 27 anos, Bonaparte sonha em transformar a França, tirando-a da anarquia.

Paris, 1800. Noite de Natal. Napoleão, primeiro-cônsul, escapa por pouco de um atentado. Aconselhado por seu ministro Talleyrand, ordena a prisão do duque de Enghien, primo do rei luís XVI e suposto chefe dos conspiradores. A execução de Enghien lhe assegura o apoio dos jacobinos que veem nele o único homem capaz de impedir a restauração da monarquia. Napoleão é coroado imperador dos franceses. As potências europeias não reconhecem o imperador e lhe declaram guerra.

O sangue derramado em Eylau seria suficiente para promover uma paz duradoura? Napoleão quer acreditar que, ao reencontrar o czar Alexandre, selará a amizade entre eles. Porém, a perenidade do Império parece tênue. Joséphine não consegue lhe dar um herdeiro. A guerra da Espanha, a traição do czar e as intrigas de pessoas próximas acabam por fragilizar Napoleão que, após uma nova campanha difícil, é forçado a sacrificar Joséphine em favor da França.

A neve surpreendeu o grande exército napoleônico na imensidão da planície russa. O desastre é tamanho que os inimigos da França exigem que o imperador renuncie a todas as suas conquistas. Napoleão tenta fazer valer o seu casamento com Marie Louise que o aproximou da Áustria em vão. E novamente eclode a guerra... Napoleão coloca todas as forças na batalha. Diante da iminente derrota, muitos de seus colaboradores o abandonam.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Vídeo aula: Professor Pasquale Explica

05 VOLUMES DISPONÍVEIS:
Pontuação - vírgula e outros sinais
Nome do Autor: Professor Pasquale
Aula: Vírgula, pra que te quero?
Bônus: 1-Observações gerais; 2-Pontuação e clareza; 3-Pontuação e expressividade; 4-Ponto e vírgula; 5-Outros sinais de pontuação; 6-Travessão.
Ano: 2009
Áudio: Português
https://mega.co.nz/#!6VE0mLSR!rkX0wRA_Ys2cTtzE7PsBHASOD7rZBjIBupD-4KqofyA Duração: 57 minutos
Tamanho: 96 MB 


Verbos 
Nome do Autor: Professor Pasquale
Aula: Modos Verbais.
Bônus: 1-Afinal, o que é o verbo?; 2-As formas nominais dos verbos;
3-Verbos regulares e irregulares; 4-Verbos defectivos; 5-Verbos que merecem atenção.
Ano: 2009
https://mega.co.nz/#!HBtTnZRa!VmGrZPNwMnlyW0ObJ8upB42kq6zPTatVNMpPPsQp-jIÁudio: Português
Duração: 84 minutos
Tamanho:135 MB

Análise sintática
Nome do Autor: Professor Pasquale
Aula: O Período Composto.
Bônus: 1-As classes de palavras e análise sintàtica; 2-Frases, período e oração; 3-Análise sintàtica do período simples; 4-O Sujeito;
5-Complementos verbais; 6-O agente da passiva; 7-Complemento nominal; 8-Os predicativos (do sujeito e do objeto); 9-Os adjuntos, o oposto e o vocativo.
Ano: 2009
https://mega.co.nz/#!KMVVwDAI!k_Uzze31jyXoPdT7DA0H214GF0VfANioRI441WIc6RIÁudio: Português
Duração: 84 minutos
Tamanho: 133 MB
A Crase
Nome do Autor: Professor Pasquale
Aula: 1ºEp. Que tal começar pelo significado da palavra crase?; 2ºEp. A crase e a regência; 3ºEp. Casos particulares de ocorrência da crase;
4ºEp. Casos especiais.
Bônus: 1-Casos que não ocorre crase; 2-Com acento ou sem acento: que significado você escolhe?; 3-Crase com pronomes demonstrativos;
4-Crase e clareza; 5-Uso facultativo da crase.
https://mega.co.nz/#!CQ02EYCQ!bokPOjfA_SAcaY4Ehhfr7Ep8fhPt0moQqbSN4RXV-UQAno: 2009
Áudio: Português
Tamanho: 141 MB
Redação
Nome do Autor: Professor Pasquale
Aula: O Sentido do Texto.
Bônus: 1-Considerações iniciais; 2-Tipos e Gêneros Textuais;
3-Considerações finais.
Ano: 2009
https://mega.co.nz/#!fZdhhBSA!E1xj2faLSwTk-_RpLTMWrZndZ1lm9kby4wmtkhZH_WEÁudio: Português
Duração: 52 minutos
Tamanho: 103 MB                                            

Democracia 'made in' Paraguai

Impeachment relâmpago do presidente Fernando Lugo tira o Paraguai do esquecimento internacional. A crise política é resultado de uma longa história de furos na democracia e de enriquecimento da elite às custas da população.
     Ele não é litorâneo, nem andino; e está acostumado ao ostracismo internacional desde os tempos da colonização, quando os esforços europeus se dirigiram aos metais preciosos, às produções agrícolas e às cidades de porto. Hoje, o Paraguai está no centro das discussões políticas latino-americanas. Não pelo sucesso, mas pela crise: o impeachment relâmpago do presidente Fernando Lugo, na última sexta-feira (22), e a ascensão ao poder do vice, Frederico Franco (que já foi presidente em outra ocasião), gerou muita desconfiança dos países membros do Mercosul, que o isolaram economicamente. O país agora está num cerco que remete àquele feito há mais de cem anos, na Guerra do Paraguai [veja o artigo de Leslie Bethel, Todos contra o Paraguai]. Para se entender a cena social, política e econômica de hoje, precisa-se voltar um pouco no tempo.
     A Guerra do Paraguai – ou contra o Paraguai – aconteceu na segunda metade do século XIX e constituiu-se na maior guerra da história da América do Sul, com violência e extensão assustadoras para os padrões da época. Após cinco anos de lutas o Paraguai passou à periferia da América a quem temos dedicado incansável esquecimento. Em 1894, por exemplo, Machado de Assis ironicamente perguntava em uma de suas crônicas: “A comissão uruguaia está trazendo medalhas comemorativas da campanha do Paraguai, não sendo propriamente antiga, fala de coisas velhas aos moços. Campanha do Paraguai! Mas então, houve alguma campanha do Paraguai? Onde fica o Paraguai?”. Com a economia devastada – sem recursos ou empréstimos para reequipamento – e com subnutrição e epidemias de todo tipo, o Paraguai tornara-se um país de sobreviventes, sobretudo indígenas, “bárbaros” confusos e dispersos em seu próprio território.  

O Paraguai de Stroessner
     As relações com o Brasil só tornariam ao centro das discussões no contexto dos esforços paraguaios de integração regional e mundial iniciados nos anos de 1960, que tiveram como marco a construção da hidrelétrica de Itaipu, no rio Paraná. À época, estava no poder o general Alfredo Stroessner, que governou durante 35 anos (1954 a 1989) após um golpe de Estado. Stroessner poderia muito bem ter seu governo comparado ao dos ditadores africanos que enriqueceram, assim como seus partidários, à custa do empobrecimento e sacrifício da maior parte da população. Ambicioso, o projeto de construção da usina hidrelétrica de Itaipu gerou algumas fortunas aos companheiros do general e
tornou mais dócil o até então imprevisível exército.
      Por outro lado, o Partido Colorado teve suas alas moderadas expulsas, enquanto a extrema direita avançava e tornava quase obrigatória a filiação de todos os servidores públicos. Assim, uma estranha democracia, bestializadora diriam alguns, deu a vitória ao general Stroessner nos oito pleitos eleitorais seguintes e distribuiu recursos, rendas fundiárias e energéticas às suas clientelas. Destaque-se ainda a fundação, em 1957, da cidade Puerto Presidente Stroessner, mais tarde denominada Cidade do Leste, na divisa com o Brasil e separada de Foz do Iguaçu pela ponte internacional chamada coerentemente de “Ponte da Amizade”. O livre comércio de produtos asiáticos converteu a região no paraíso da ilegalidade e do contrabando, fomentando uma imagem internacional do Paraguai ligada às mercadorias de baixa qualidade e preço, porém mais acessíveis aos desejosos da aparência inclusiva que a posse de certos artigos, especialmente eletrônicos, pode fornecer nos países hoje ditos em desenvolvimento.

O Paraguai hoje
     Desigualdade social e fundiária, baixo grau de acesso à educação e saúde de qualidade, altos índices de corrupção política e econômica, e mão de obra vendida a preço vil. Foi este quadro tão perverso quanto comum nos países latino americanos, que Fernando Lugo se comprometeu a romper durante a campanha presidencial de 2008. Bispo católico com algumas denúncias de paternidade no currículo e experiência política reduzida à militância junto aos movimentos sociais na diocese de San Pedro, uma das regiões mais pobres do país, Lugo tornou-se chefe do executivo paraguaio prometendo viabilizar reforma agrária "projetada e negociada com todos os atores envolvidos, sem processos traumáticos nem violentos".
     Caso estivesse vivo para contar essa história, Salvador Allende, presidente chileno morto em 1973, dentro do Palácio La Moneda, talvez lhe dissesse que vias pacíficas e constitucionais para transformações profundas e redistributivas não são tão simples. Dividido entre o controle dos grupos de camponeses que invadiam propriedades na região agrícola mais rica do Paraguai, na fronteira com Brasil e Argentina, e os fazendeiros e políticos de oposição que denunciavam a violência das tomadas de terra e emperravam qualquer medida parlamentar de reforma agrária, o presidente Lugo isolou-se politicamente e tornou-se alvo fácil de uma democracia made in Paraguai. Foi acusado e teve teoricamente 18 dias para se defender – o veredito saiu de uma decisão política e não popular. Mas, em dois dias, correram a abertura do processo, a acusação, defesa, julgamento e condenação.
     “Como sempre atuei no marco da lei, embora essa lei tenha sido torcida como um frágil ramo ao vento, me submeto à decisão do Congresso e estou disposto a responder sempre por meus atos como ex-mandatário nacional”. A declaração de Lugo ao deixar a presidência do Paraguai invoca a legalidade como estratégia de defesa e justificativa, recurso comum entre direitas e esquerdas latino-americanas. Em 1964, no Brasil, o presidente João Goulart e seu governo trabalhista foram golpeados por ação civil-militar que deu início a uma longa ditadura. Também estavam em pauta projetos de reforma agrária, redistribuição de renda e a salvaguarda da legalidade constitucional defendida como projeto e desprezada como processo.
     Talvez seja o momento de mudarmos o discurso e repensarmos uma das questões fundamentais do pensamento político moderno: a raiz e a fortaleza da democracia, a soberania popular. Ao bom investigador não faltam indícios das fragilidades jurídicas da sociedade e de sua ineficiência no exercício pleno da soberania popular. Sinais de que nos meandros das crises podemos encontrar o caminho para a modernização não mais das instituições, da técnica e dos procedimentos, mas do significado da política e do espírito democrático.

Filme:
 Guerra do Brasil – Toda verdade sobre a Guerra do Paraguai
Entre 1864 e 1870, a América do Sul foi palco do maior e mais sangrento conflito armado do século, conhecido como a Guerra do Paraguai ou, para os paraguaios, Guerra Grande. Ao misturar realidade e ficção, o filme debate este "ensaio" da I Guerra Mundial, que envolveu Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, vitimando em torno de um milhão de pessoas.
No longa, entrelaçam-se a história oficial, o imaginário popular e a crítica de militares, cronistas e historiadores, articulado a um complexo painel iconográfico e musical, e a um resgate visual do teatro de operações no Paraguai.
O filme foi contemplado com o Prêmio Especial do Júri, no III Rio-Cine Festival (1987); e Melhor Roteiro, no I Festival de Cinema de Natal (1987).
Direção: Sylvio Back
Ano: 1987
Áudio: Português
Duração: 80 minutos