“E agora que vocês viram no que a coisa deu, jamais esqueçam como foi que tudo começou” (Bertolt Brecht)

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ficando para titia

Hoje sinal de independência feminina, a solteirice foi opção de vida condenada e estereotipada durante séculos.

     Quem de nós, acima dos 20 anos, não teve ou tem na família uma recatada “tia velha”? Não é difícil identificá-las. Zelosas da educação dos sobrinhos, vigilantes da moral da família, são filhas, mas não esposas. Irmãs ou tias, mas raramente mães. Chegam aos 35 anos sem se casarem, seja por falta de pretendentes, por pressão familiar ou por escolha deliberada. No imaginário coletivo, diz-se que “ficaram para titia”. E atribuem-se a elas as piores características: megeras, amargas, invejosas, inúteis, frustradas.
     Esses estereótipos envolvendo a “solteirona” vêm de longe. A palavra spinster (“solteirona”) dá uma pista sobre a principal causa da desvalorização das mulheres solteiras na Inglaterra do século XVIII. O termo foi usado pela primeira vez em 1719, na edição inaugural de um jornal chamado exatamente The Spinster. Sob o pseudônimo de Rachel Woolpack, uma articulista afirma que, em sua origem, a palavra não era depreciativa. Referia-se “à louvável ‘atividade das mulheres obreiras’” e significava, literalmente, “fiandeira”, como sugere Ian Watt em seu livro A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding.
     Mas àquela altura, com o desenvolvimento da manufatura têxtil, as solteiras inglesas viam diminuídas a sua importância nas atividades caseiras de fiar e tecer. Enquanto as casadas iam viver à custa do marido, as solteironas se viram “inúteis dependentes de alguém” ou obrigadas a trabalhar fora por baixos salários. Viria daí o sentido pejorativo que ganharam as spinsters.
     A literatura oferecia fartas caricaturas de solteironas. “Considera-se agora a solteirona como uma maldição que nenhuma fúria poética consegue superar”, bombardeava o inglês Richard Allestree no livro The ladies’ calling (algo como “O chamado das mulheres”), de 1673. Em outras (terríveis) palavras, elas eram “a mais calamitosa criatura da natureza”.
     Na França, ganharam outro nome, também nada lisonjeiro: vieille fille (literalmente, “filha velha”). E apareciam já na literatura clássica do século XVII, em autores como Thomas Corneille, La Fontaine e Molière, embora de forma superficial e como personagens secundários.
     Com as transformações do século XIX, a “decadência” social das mulheres celibatárias torna-se irreversível. Os processos de urbanização e industrialização levaram as moças a entrar de forma mais efetiva no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, diminuía a influência da Igreja, e assim essas mulheres – que antes tinham como destino certo o convento – ficaram restritas ao ambiente doméstico, precisando contribuir para as finanças do lar. Restava às jovens burguesas dedicarem-se a atividades como governanta e professora, mais aceitáveis para a sua condição social. As mais pobres engajavam-se também nas atividades de vendedoras dos grandes magazines, funcionárias dos correios, enfermeiras ou empregadas domésticas.
     Como antes, a produção literária acompanhava e alimentava o folclore em torno das solteironas. A diferença é que, no século XIX, os autores se preocupavam em aplicar princípios psicológicos no estudo da sociedade, o que ampliou o número de personagens da vieille fille, diversificou e aprofundou seus tipos. Muitas delas eram heroínas, vítimas necessárias de uma “seleção natural” e das circunstâncias. Personagens mais complexas surgiram das penas de Balzac e do grande historiador francês Jules Michelet, por exemplo.
     Nada que as redimisse. Fatores como a migração masculina, as guerras e os altos custos do matrimônio faziam aumentar na Europa o número de moças que não conseguiam encontrar marido, principalmente as instruídas da classe média. Elas passaram a alimentar um verdadeiro exército de preceptoras e governantas. Muitas iam buscar trabalho em outros países, como Maria Frieda Kruger Mancini, professora alemã altamente instruída, com 25 anos de prática de ensino, que veio para o Brasil. Em 1905, ela anunciava no jornal O Jequitinhonha, de Diamantina (MG), a abertura de cursos de português, francês, inglês, alemão e italiano, além de lições de piano.
     No imaginário brasileiro, as mulheres solteiras já mereciam atenção desde os tempos da Colônia. Segundo o historiador Ronaldo Vainfas, as expressões mais usadas para nomeá-las eram “celibatárias” – “mulher que aspirava a casar-se ou que optara pela castidade sem ingressar em religião” – e “mulher solteira” – “mulher que nunca se casou”, “mulher que não tem marido”, “mulher pública”, quase sinônimo de meretriz, embora sem a conotação profissional.
     Mas a ideia de “solteirona” surgiria com maior força somente no final do século XIX, quando as brasileiras também passam a ocupar de forma mais efetiva o mundo do trabalho remunerado, espaço até então predominantemente masculino. Avançavam os setores de prestação de serviços, comércio e burocracia, abrindo possibilidades de emprego para secretárias, funcionárias públicas, enfermeiras, vendedoras, datilógrafas, farmacêuticas, assistentes sociais. A partir da década de 1920, a oportunidade de ingresso em cursos superiores oferece para as mulheres as carreiras de médica, advogada, engenheira, promotora e professora.
     Motivo de orgulho feminino? Naquela época, não. Como ocorreu na Europa, o estereótipo da solteirona infeliz e frustrada começou a se expandir. Afinal, marido e filhos eram elementos obrigatórios para o ideal de realização da mulher. Um ideal não só culturalmente recomendado, mas também garantido por lei. O primeiro Código Civil brasileiro, que entrou em vigor em 1917, definia o casamento como um contrato feito entre “indivíduos livres” e baseado em obrigações mútuas: o marido tinha por incumbência sustentar e proteger a esposa; esta, por sua vez, devia-lhe obediência. Desposada, a mulher se tornava juridicamente incapaz, e só poderia seguir uma carreira profissional com a autorização do marido.
     Havia quem julgasse o casamento e o trabalho feminino atividades incompatíveis. O estado de Santa Catarina chegou a criar uma lei determinando que toda professora que viesse a se casar perderia o emprego. E não foi uma iniciativa isolada. “Deve a professora casar e continuar no exercício do cargo? Acho que não. O magistério primário, quando bem compreendido na sua alta missão social e exercido com a convicção profissional de um sacerdócio, exige renúncias de quem o professa. Uma delas, a meu ver, é o matrimônio (...) – o casamento é um entrave ao desenvolvimento cabal das obrigações que o professorado exige da mulher”, defendia um artigo da revista Semana Ilustrada de 1928, a favor da adoção de uma lei semelhante em Belo Horizonte.
     As artes também contribuíram para a difusão da imagem da solteirona. Ao longo do século XX, diversos escritores se dedicaram a essa personagem. Marques Rebelo, em Oscarina (1931), criou Tia Almira, uma criatura rancorosa e desprezível. Ondina Ferreira deu vida à Tia Carlota e à Tia Zulmira, em Enganoso é o Coração (1959), e à casta e rígida Ágata em Chão de Espinho (1955). Em A Primeira Pedra (1953), Heloneida Studart criou Olímpia, uma quarentona que trabalhava no escritório de uma empresa americana. Jorge Amado também teve suas solteironas, como as Irmãs Reis de Gabriela, Cravo e Canela (1960), a Carmosina, simpática funcionária dos correios, e a beata Cinira, que tinha arrepios sempre que via um homem sem camisa, ambas de Tieta do Agreste (1977). Ainda mais populares foram as fofoqueiras irmãs Cajazeiras, criadas por Dias Gomes para a peça teatral “O Bem-Amado”, nos anos 1960, e depois difundidas por todo o país na novela de mesmo nome (1973).
     Mas antes que as solteironas se tornassem fenômeno televisivo, duas figuras bastante conhecidas, e de certa forma contraditórias, se destacaram na literatura brasileira: a bondosa Clotilde, criação de Maria José Dupré em Éramos Seis, e a independente professora Conceição, personagem de Rachel de Queiroz em O Quinze.
     Publicado originalmente em 1943, o romance da Sra. Dupré foi leitura obrigatória para toda uma geração. Dois anos depois já estava em sua quinta edição. Posteriormente, foi publicado na série “Vaga-lume”, destinada ao público juvenil, e transformado em novela televisiva, exibida pelo SBT na década de 1990. Narrada pela protagonista Lola, a história se passa em São Paulo entre os anos de 1914 e 1942. Clotilde, personagem secundária, é descrita como uma mulher religiosa, prendada, corajosa, cheia de iniciativas, mas que vive em função da mãe doente, das irmãs casadas e dos sobrinhos. A personagem é contraposta à irmã Lola, que tem “tudo”: casa própria, marido e quatro filhos. Clotilde não tem nada, mas não é uma “inútil dependente”. Ela sobrevive de seus próprios recursos como doceira. A personagem parece ter nascido para celibatária, pois não há no romance nada que justifique sua solteirice. Clotilde é a solteirona funcional da família brasileira, aquela que foi “reservada” para cuidar dos sobrinhos e dos pais idosos.
     Já Conceição não se enquadra no perfil da solteirona tradicional. Até porque era uma personagem de Rachel de Queiroz. Filha de uma família da aristocracia rural nordestina, a autora causava polêmica por suas posições políticas e por um feminismo avant la lettre. Lançou O Quinze aos 19 anos (1931), com enorme repercussão nacional. Em seus romances figuram as personagens femininas mais radicais da época, como a própria Conceição, que “dizia alegremente que nascera solteirona”. Como tantas mulheres daquele período, era uma professora que vivia na cidade, e embora pertencesse a uma família tradicional do sertão, sobrevivia com seus próprios recursos. Alegre, bonita, benevolente, inteligente e culta, interessava-se por assuntos como feminismo e socialismo. Pelas leituras que fazia, por sua formação escolar e profissional, pela “liberdade” e autonomia financeira de que desfrutava, Conceição era exigente na avaliação dos pretendentes a marido. “Nunca achei quem valesse a pena”, repetia sempre. O celibato foi sua escolha, como uma forma de assegurar a liberdade.
     Mulheres como a professora instruída e emancipada de Rachel de Queiroz, ao contrário da tia funcional Clotilde, eram vistas como um obstáculo ao sucesso e à plena vigência dos modelos desejados de mãe/esposa/dona-de-casa. As solteironas eram um elemento desestabilizador. Não só recusavam os papéis destinados a elas, mas transitavam livremente pelos espaços de trabalho, governando suas vidas e seus próprios bens. Por isso eram retratadas como indesejáveis: incapazes de se converter na “verdadeira mulher”, “ficaram para tia”, “torceram a natureza”, viraram “facão”. Era principalmente para estas que se dirigiam os discursos de médicos, literatos, advogados e religiosos, definindo a solteirona como ser desprezível, de quem se devia ter, no máximo, misericórdia.
      As pressões feministas a partir dos anos 1960 tornaram o casamento mais igualitário. Duas leis contribuíram bastante para isso: o Estatuto da Mulher Casada (1962) e a Lei do Divórcio (1977). A primeira aboliu da legislação o artigo que afirmava a incapacidade da esposa perante a Justiça, estabelecendo, entre outras coisas, o princípio do livre exercício de profissão. A segunda permitia o fim da sociedade conjugal. A Revolução Sexual, também nos anos 1960, criou condições para que as mulheres aos poucos se libertassem da rigidez de valores como a virgindade e a castidade. Por fim, a criação da pílula anticoncepcional possibilitou a prática sexual fora do casamento sem o risco de uma gravidez.
     Nestas condições, a imagem da solteirona começava finalmente a perder sua razão de ser. Ao contrário do que ocorreu com nossas mães e tias, o casamento e a maternidade estão deixando de ser o principal projeto de vida da mulher. Se antes o sinônimo de felicidade e de realização pessoal era encontrar um bom marido, ter uma casa confortável e filhos bonitos e educados, hoje grande parte das mulheres deseja e prioriza a formação escolar, a carreira profissional e a vivência de variadas experiências. Marido e filhos aparecem em segundo plano, e, em certos casos, há mesmo uma rejeição à vida conjugal. As estatísticas têm mostrado que, cada vez mais, as brasileiras se casam mais tarde e muitas sequer desejam ter filhos.
O próprio mercado já percebeu um bom filão nesta mudança de comportamento. Construtoras investem em prédios de apartamentos menores com serviços especializados. Supermercados apostam em porções e pratos individuais. Agências de turismo montam pacotes para viajantes solitários. Foi criado até o “Dia do Solteiro”, 15 de agosto. Em 2007, as propagandas, os jornais e cartões comemorativos anunciaram que a data seria dedicada a se “badalar” e celebrar a solteirice.
     A solteirona de hoje pode ser “bonitona e gostosona”, como diz a música de uma famosa dupla sertaneja, a moça independente das piadas, que se recusa a ter marido, a mulher livre que pode “ficar com quem quiser”, sem nenhum constrangimento. Ao contrário de outras épocas, muitas mulheres – como fez a precursora professora Conceição, de Raquel de Queiroz – assumem orgulhosamente a condição de solteironas. Com o tempo, a recatada “tia velha” será apenas uma foto desbotada na parede...

*Cláudia de Jesus Maia é professora da Universidade Estadual de Montes Claros e autora da tese A invenção da solteirona: conjugalidade moderna e terror moral – Minas Gerais 1890-1948 (UNB, 2007).

Saiba Mais - Livros:
DAUPHIN, C. “Mulheres sós”. In: História das mulheres no Ocidente. O século XIX. Porto: Afrontamento; São Paulo: Ebradil, v.4, 1991.
FONSECA, C. “Solteironas de fino trato: reflexões em torno do (não) casamento entre pequeno-burguesas no início do século”. Revista Brasileira de História. São Paulo: v.9, n.18, 1989.
PERROT, M. “À margem: solteiros e solitários”. In: História da vida privada no Ocidente: o século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, v.4, 1991.
WATT, Ian. A ascensão do romance: estudos sobre Defoe, Richardson e Fielding. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

domingo, 13 de maio de 2012

Outros Maios

9 de maio de 1624. Holandeses atacam Salvador
     A frota holandesa comandada por Jacob Willekens não teve muita dificuldade para tomar a mais importante cidade portuguesa no Atlântico. O governador-geral do Brasil, Diogo de Mendonça Furtado, havia ordenado à população de Salvador que se preparasse para a invasão, mas seus comandados não lhe deram muito ouvido e logo grande parte dos habitantes da cidade se pôs em fuga. Os que lá ficaram não opuseram resistência aos invasores, que chegaram a se surpreender com tamanha facilidade. Mendonça Furtado foi preso sem dificuldades em seu palácio, e o comando da cidade foi assumido pelo holandês Hans van Dorth, que tratou logo de uma medida que julgava urgentíssima: mandou fortificar Salvador. Os invasores ficaram na cidade até o ano seguinte, quando a Espanha (que, na época, também regia Portugal) organizou uma expedição para retomar a mais rentável possessão portuguesa na América.

13 de maio de 1888. Sancionada a Lei Áurea
     Pode-se notar um movimento político favorável à Abolição no Brasil pelo menos a partir de meados do século XIX, quando se fez cumprir - mesmo que sob pressão estrangeira - uma lei que restringia o comércio de africanos (1850). Ao longo das décadas seguintes, novas leis foram aprovadas com o objetivo de dar fim gradual à escravidão, com destaque para a Lei do Ventre Livre(1871). Enquanto parte da elite política e intelectual clamava pelo fim daquele estatuto, a elite econômica exigia a sua manutenção, situação que se encaminhou para um impasse no final do século. Com a fundação dos clubes abolicionistas, o posicionamento da monarquia favorável à libertação e as fugas maciças de escravos na década de 1880, a elite política foi convencida da necessidade de pôr fim à escravidão, aprovando a lei de número 3.353, sancionada por d. Isabel (princesa imperial regente ativista da Abolição) no dia 13 de maio de 1888.

13 de maio de 1817. Casamento de ouro
     O Nordeste ainda pegava fogo alguns meses depois da eclosão da Revolução Pernambucana de 1817. Várias províncias do Norte davam sinais de simpatia à rebelião que pretendia a independência de parte do país. Foi nesse momento turbulento que D. João VI decidiu casar seu filho Pedro com uma prendada princesa austríaca, D. Maria Leopoldina, da casa de Habsburgo, em matrimônio firmado por contrato no dia 13 de maio de 1817.
     O dote pago pelo imperador Francisco I da Áustria ao rei português foi de 200.000 florins. Em contrapartida, D. João dava como garantia de pagamento todas as rendas do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves e da Casa Real de Bragança para a proteção financeira de D. Maria Leopoldina. O valor estava à altura da princesa, que, além de exímia pianista, era fluente em alemão, francês, inglês e italiano, tendo aprendido português por causa do matrimônio com D. Pedro.
Em meio a intensas revoltas no Brasil, interessava a um Portugal enfraquecido na Europa estabelecer relações com casas dinásticas poderosas. A casa de Habsburgo acabou sendo lembrada anos depois na bandeira do Império do Brasil: sua cor, o amarelo-ouro, apareceria no losango central da bandeira brasileira.

17 de maio de 1842. A revolta dos perdedores
     Pouco depois de D. Pedro II subir ao trono, em 1840, os liberais já não estavam nada satisfeitos. Afinal, eles se sentiram excluídos do poder: em pouco tempo viram os conservadores formarem um Gabinete Ministerial, além de reformarem o Código de Processo Criminal e derrubarem a Câmara controlada pelos liberais na chamada “eleições do cacete” – assim batizada pelo povo por causa do excesso de violência.
A tensão política só aumentou, a ponto de, no dia 17 de maio de 1842, os liberais paulistas proclamarem uma revolta na cidade de Sorocaba, em São Paulo. Seu objetivo não era derrubar o jovem imperador D. Pedro II, mas tirar o poder dos conservadores.
     Sem muito apoio, os revoltosos ficaram na defensiva por alguns meses, ocupando cidades do interior paulista, mineiro e fluminense, até sofrerem a derrota final na cidade de Santa Luzia, em Minas Gerais, pelas mãos do futuro duque de Caxias. Após a fracassada rebelião, o trono passaria a fazer um revezamento de poder na Assembleia Geral do Império, obtendo a estabilidade política do Segundo Reinado. Mas, pelo resto do período da monarquia, os conservadores chamariam os azarados liberais de “luzias”, que se tornou uma gíria para perdedores. 

26 de maio de 1834. D. Pedro recupera o trono português para sua filha.
     Após a morte do rei português d. João VI, em 1826, seu filho, d. Pedro I, abdicou o direito à coroa de Portugal em favor de sua filha, d. Maria. A pequena rainha, com apenas sete anos de idade, seria a responsável por guardar a Constituição do reino, no que seria auxiliada pelo regente, d. Miguel seu tio e noivo. Em 1828, ou seja, dois anos após assumir esta posição, d. Miguel de forte tendência absolutista (já havia se metido, com sua mãe, Carlota Joaquina, em conspirações anticonstitucionalistas), proclamou-se rei de Portugal e anulou a Constituição, desencadeando verdadeira guerra civil (as chamadas Guerras Liberais). D. Pedro I, que abdicou o trono brasileiro em 1831 em favor do seu filho, o futuro d. Pedro II, organizou uma força militar nos Açores e invadiu Portugal, conseguindo a vitória final sobre o usurpador três anos depois, o que lhe renderia o título de "O Libertador".

FONTE:
Revista Nossa História Ano 03 nº 31
http://www.revistadehistoria.com.br/

Matar e não comer

No domingo passado (06/05), um policial militar foi fotografado usando spray de pimenta contra uma cadela na Rocinha – Zona Sul do Rio de Janeiro. O PM justificou o ato dizendo que o animal estava a ponto de mordê-lo, mas a explicação não convenceu milhares de internautas que se mobilizaram em defesa da cachorrinha Pantera.  O fato abre portas para se discutir uma questão mais ampla, cujas raízes remontam ao início da sociedade ocidental: a violência contra os animais.

     Touradas, rinhas de galo e de cães, rodeios, pesca esportiva, farra do boi... Os animais, domésticos ou não, têm servido ao divertimento dos homens. A crueldade contra os demais seres do mundo natural, entretanto, não é um novidade no ocidente.
     Ao longo dos séculos, nossa postura em relação aos animais se transformou. Esta mudança revelou não apenas uma adequação a determinados padrões burgueses de comportamento, que em geral rejeitam a violência explícita ou muito próxima aos olhos, mas também um deslocamento do próprio homem na representação da natureza.
     É possível perceber, desde a Antiguidade Clássica, uma reflexão de cunho moral sobre as implicações da distância. O filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.), na sua obra Retórica, ao tratar do gênero retórico aplicado à prática jurídica, afirmou que o homem só é sensível à dor daquele que lhe é próximo. Segundo o historiador italiano Carlo Ginzburg, esta noção foi retomada por diferentes pensadores na Época Moderna, em especial durante o século XVIII, caso evidente na obra do filósofo iluminista Denis Diderot (1713-1784).  O que faz uma pessoa respeitar a lei e não cometer um crime não é um constrangimento genuíno, mas o medo da condenação: “o remorso talvez nasça menos do horror de si do que do medo dos outros; menos da vergonha da ação do que da censura e do castigo que se seguiriam se ela fosse descoberta”, escreveu em 1773.
     Este princípio geral poderia ser aplicado a todas as épocas: alguém, estando em Lisboa ou em Paris, ao saber que um terremoto matou milhares de pessoas na longínqua China, pode se lamentar por um tempo, refletir sobre a fragilidade e a transitoriedade da vida, talvez demonstrar até mesmo alguma compaixão genuína. Mas dificilmente perderá o apetite ou deixará de cumprir algum ritual cotidiano. A distância dos cadáveres não permite que o seu odor seja sentido.

Matar pelo prazer de matar

     A crueldade com os animais teria alguma relação com a noção de distância. Os animais selvagens, que não convivem com os homens, são fisicamente distantes e, por isso, estão fora da nossa redoma de compaixão. Ao longo dos séculos, mesmo não sendo mais necessário para fins de subsistência em muitos dos círculos “civilizados”, a caça permaneceu como diversão, como “prática esportiva”. A rainha Elizabeth I gostava de caçar cervos no século XVI. Quando já estava com idade avançada, atirava em animais presos em um cercado. Matar pelo simples prazer de poder matar.
     Já os animais fisicamente próximos ao homem, ou seja, que compartilhavam um espaço geográfico semelhante – domesticados, portanto –, podiam ser maltratados pelo fato de que estavam situados em um lugar distante do homem no que diz respeito à ordem natural do mundo. Na Criação, de acordo com a tradição legada ao ocidente moderno pelo cristianismo, o homem ocupa um lugar proeminente em relação aos demais seres – inclusive à mulher. Deste modo, estando os homens distantes dos outros animais, as implicações morais do que consideramos crueldade são absolutamente efêmeras.    

     Era muito comum, pelo menos até o século XVII, divertimentos envolvendo animais que, atualmente, podem fazer qualquer brutamontes corar. O açulamento de touros, ursos e outros animais na Inglaterra era uma prática corriqueira, um evento organizado por anfitriões educados ao receberem visitantes. Acorrentava-se a vítima e incitava-se cães contra ela, às vezes um a um, às vezes em conjunto. O animal, que rapidamente tinha o seu focinho, suas orelhas ou outras partes mais frágeis da sua anatomia dilaceradas, era maltratado durante horas, até o seu aniquilamento. Em algumas regiões, realizava-se uma corrida de touros. O animal, com as orelhas e a cauda arrancadas e o nariz fervendo de pimenta, era solto no meio da multidão, que tratava de piorar o seu sofrimento. Em algumas escolas, durante o carnaval, era prática comum apedrejar galos. A ave podia ser amarrada a um toco ou enterrada até o pescoço. A partir daí, as crianças a apedrejavam até a morte.
     Ao longo do século XVIII, com o avanço do conhecimento do mundo por meio científico, o homem ocidental pareceu cada vez mais próximo dos demais seres da natureza. Paralelamente, a crueldade em relação aos animais passou a ser algo cada vez mais incômodo – a proximidade traz o constrangimento. Ainda em 1713, o poeta inglês Alexander Pope escrevia: “quanto mais inteiramente a criação inferior é submetida ao nosso poder, mais responsáveis nós devemos ser em relação ao seu mau uso”.
     Os ingleses, assim como europeus de outros centros iluministas, passaram a ver com muita estranheza algumas práticas que permaneciam em regiões periféricas, como Portugal e Espanha. As touradas, os sangrentos festivais onde os animais são sistematicamente massacrados para delírio de uma multidão, eram vistos como resquício de práticas bárbaras – sobretudo em um momento no qual os seres vivos parecem estar muito próximos dentro da natureza.

Proteção legal

     A crueldade contra os animais passou a ser paulatinamente combatida no âmbito das legislações nacionais ao longo do século XIX. Simultaneamente, grupos de pessoas se dedicavam à proteção dos animais, formando associações ou produzindo textos que embasavam esta mudança de postura. Em 1838, o norte-americano William Hamilton Drummond publicava Os direitos dos animais, e a obrigação do homem em tratá-los com humanidade. Nesta obra, afirma que muitos homens verdadeiramente benevolentes daquele século não haviam se dado conta de que estas atitudes de condescendência deveriam ser estendidas aos outros animais. Segundo Drummond, “eles nunca foram levados a refletir sobre o fato de que muitos animais são delicadamente constituídos e sensíveis à dor como eles próprios – e que todos estes animais, assim como o homem, têm os seus direitos, aos quais é injusto e cruel violar ou infringir”.
     O século XX demonstrou repetidas vezes que o homem civilizado não está livre da crueldade. Duas guerras mundiais, o extermínio sistemático de minorias étnicas, conflitos fratricidas por motivos que variam de domínio territorial a divergências religiosas têm colocado em xeque a noção de que o homem ocupa um lugar especial no reino animal. Aliás, sua superioridade parece residir na capacidade potencial de eliminar este e outros reinos.
     Entretanto, algumas iniciativas ao longo do século passado dão prova de que o legado iluminista não se perdeu completamente. Somos, querendo ou não, herdeiros desta tradição que trata o homem como um ser natural, e por isso somos forçados a nos colocar lado a lado com os outros animais, sendo capazes, por isso, de perceber que sofrem, que podem sentir dor – ou seja, a distância foi reduzida.
     Muitas entidades da sociedade civil, como a Sociedade União InternacionalProtetora dos Animais (Suipa), fundada em 1943, ou a People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), organizada em 1980, trazem à tona cotidianamente a nossa relação de vizinhança com as outras espécies animais. E provam que, mesmo em tempos pouco delicados, a compaixão pelo próximo, bípede ou não, nos faz, de algum modo, humanos.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A memória afetiva da escravidão

Fotografias de Militão de Azevedo revelam a trajetória da relação ambígua entre as amas-de-leite e as crianças de seus senhores.

Rafaela de Andrade Deiab

               A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. “(...) Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que me amamentou; ela envolveu-me como uma carícia muda toda a minha infância (...).” A frase de Joaquim Nabuco (1850-1910) mostra como a escravidão deixou marcas profundas naqueles que cresceram durante o período em que ela era vigente no Brasil, cerca de três séculos (até 1888). Em sua autobiografia, Minha formação, Nabuco revela o quanto sua experiência infantil no engenho pernambucano de Massangana, convivendo com os escravos, foi determinante para seu futuro como defensor da causa abolicionista.

               No entanto, foram inúmeras as gerações que se formaram embaladas no colo das escravas domésticas, amas-de-leite, mães pretas. Essa relação social criada no cenário da escravidão imortalizou-se em inúmeros retratos por todo o Brasil. O fotógrafo Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) fez muitas dessas imagens em seu estúdio em São Paulo.  Ainda jovem, começou sua carreira de retratista como aprendiz no ateliê Carneiro & Gaspar, o qual veio a comprar em 1875, alterando-lhe o nome para Photographia Americana. Por esses dois ateliês passaram por volta de 12 mil pessoas, entre 1862 e 1885, cujos retratos ainda se preservam em seis álbuns, que funcionavam como catálogo dos negativos de Militão. Essa indústria de retratos, que se estabiliza no país na segunda metade do século XIX, trouxe certos padrões que se repetiam nas variadas fotografias, fosse em seus formatos (como no clássico carte de visite, com imagens colocadas em suporte rígido de cartão), nos paramentos (fundo, móveis, tapetes) e também nas posições dos clientes. No entanto, alguns desses esquemas que chegam junto com a técnica fotográfica, supostamente neutra, são relidos em diferentes contextos; e isso fica evidente nas imagens de amas com crianças.  

               A mãe segurando a criança junto ao rosto, apoiando-lhe a cabeça, ou mesmo as costas, com as mãos, era um padrão internacional da época para fotografias com bebês. Isso porque, em função da baixa sensibilidade do negativo, o tempo de exposição era muito longo (por volta de um minuto), sendo complicado manter as crianças imóveis. Aproximar as crianças junto ao rosto e segurá-las pelo dorso era a maneira de obter, portanto, uma postura estática. Mas esse modelo de pose, trazido da Europa juntamente com a fotografia e fotógrafos, foi absorvido segundo a cultura local, de modo que, em muitas imagens (como as apresentadas neste artigo), uma negra posa com a criança branca. Ou seja, em poses internacionalmente indicadas para unir nas fotos mães e filhos, na São Paulo de meados do século XIX, surgem mães pretas acompanhadas de filhos brancos, termos próprios de um contexto marcado pela escravidão doméstica, que promoveu múltiplas relações entre senhores e escravos.

               Nos retratos aqui reproduzidos, a ama e o bebê estão no centro e no mesmo plano: ambos eram o foco da imagem. A negra responsável pela amamentação e pelos cuidados com a criança era sua companhia natural nessas fotos de 1870 e 1876. Estando mais habituados com elas, diminuía-se o risco de que os bebês ficassem inquietos durante a feitura do retrato. Além disso, essas fotografias, provavelmente encomendadas por famílias senhoriais, propagandeavam seu status social apresentando sua escravaria em trajes finos da moda. Muitas vezes as negras apresentavam uma estética próxima à das senhoras brancas: cabelos repartidos, brincos, colares e vestido com colarinho alto em renda, o que pode ser observado na imagem de Militão.

             A proximidade entre a negra e a criança branca, ainda que justificada em parte pelas limitações da técnica fotográfica evidencia de modo explícito o vínculo afetivo selado entre essas figuras. Esse é o sentido ordinariamente dado a tais imagens: um registro dessa forte relação sentimental, cultivada por muito tempo desde a mais tenra infância pelo cuidado zeloso da escrava, que atende aos filhos de seu senhor como se fossem seus. E assim, ao tornar-se literalmente a “mãe de criação” dessas crianças, a ama era incorporada à família senhorial como uma escrava de outro quilate, sendo, muitas vezes, alforriada. Retratos do mesmo tipo dos apresentados aqui foram repetidamente, na historiografia brasileira, utilizados para qualificar uma escravidão brasileira mais “amena”, em que nem tudo era arbítrio e exploração, havendo um lugar genuíno para o estabelecimento de verdadeiros laços afetivos entre posições hierarquicamente tão distintas.

               Nos anúncios de compra e venda de escravos em jornais, a habilidade no trato com as crianças é elemento de destaque na propaganda das escravas, mostrando que esse cuidado extremado era esperado e desejado pelas famílias: “Mulatinha. Nesta tipografia se dirá quem vende uma mulatinha com sete para oito anos de idade, com princípios de costura e muito jeitosa para carregar crianças (Correio Paulistano, 22/02/1865)”; “Aluga-se uma crioula, sadia, muito própria para tratar de crianças, por ser muito carinhosa. Já sabe costurar, e engomar alguma cousa, sem vício nenhum (Correio Paulistano, 06/01/1865)”.

               Gilberto Freyre, em seu livro Casa-grande & senzala, deu muito destaque ao papel das amas-de-leite, mucamas, negras velhas ou, ainda, mães pretas produtoras de laços sentimentais com seus filhos brancos, e toda a família de seus senhores. Segundo o autor pernambucano, elas teriam sido, até mesmo, grandes contribuintes para a formação da cultura mestiça brasileira, uma vez que adocicavam ou amolengavam a cultura portuguesa, então transmitida por elas às crianças. Assim, as histórias lusitanas que contavam nos serões eram adaptadas, tinham seus personagens mudados, e os cenários passavam a conter uma cor local, tornando-se mais compreensivos para os infantes do que as distantes paisagens europeias. Além disso, elas ainda davam outro ritmo às mesmas canções de ninar da tradição portuguesa que embalaram gerações. Tinham cuidados com os pequenos que iam da higiene do corpo ao resguardo espiritual, por meio de simpatias, benzeduras e mezinhas; preparavam-lhes comidas especiais, os ensinavam a rezar, além de nutri-los com seu próprio leite.

               Mas essa relação entre mãe preta e filho branco não se constituía apenas de modo idílico. Para ter condições de aleitar um filho branco, era necessário que a escrava tivesse engravidado recentemente, tendo, portanto, também um filho natural. Este último era, muitas vezes, preterido diante do filho branco, quando não vendido ou levado para doação nas rodas dos conventos. Além disso, as amas escravas eram obrigadas a amamentar por longos períodos, sendo levadas em ocasiões não raras a um profundo esgotamento físico. Esse mercado do dito “leite mercenário” também aparece nos anúncios dos jornais: “Escrava e filho. Quem quiser comprar uma mulata muito moça, sem vícios, sabendo cozinhar, lavar e engomar e estando com um filho de dois meses e abundante leite, nesta tipografia se dirá quem vende (Correio Paulistano, 05/02/1865)”; “Ama-de-leite. Precisa-se de uma que seja sadia: prefere-se cativa, sem filho (A Província de São Paulo, 14/09/1880)”.

               Esse segundo anúncio, além de revelar a cruel preferência por uma escrava recém-parida, com leite, mas sem filhos, indica ainda um contexto já um tanto modificado, em que há clara preferência por negras cativas. Ou seja: nesse momento há amas no mercado que não são mais escravas. Esses novos termos são sinais de grandes modificações de referências culturais já sentidas nos anos 1880, marcados pela progressiva derrocada do sistema escravista e início da imigração para o estado de São Paulo. A incorporação da mão de obra imigrante e branca trazia naquele momento transformações no mercado das amas, articuladas a alterações na incorporação de negros e escravos na sociedade como um todo.

               Novamente, os anúncios de jornais apresentam sintomas desse processo: “Ama-de-leite. Precisa-se de uma que seja sadia, preferindo-se a cor branca (A Província de São Paulo, 11/01/1883)”; “Ama. Precisa-se de uma preferindo estrangeira (A Província de São Paulo, 03/03/1883)”. A predileção por brancas e estrangeiras sinaliza uma mudança na compreensão sobre o aleitamento infantil. Antes, temia-se o enfraquecimento da mãe e a deterioração de sua saúde pela amamentação, daí recorrer-se às amas escravas. Mas, na década de 1880, um novo discurso médico sobre o tema se torna aceite: o leite materno passa a ser entendido como veículo transmissor das qualidades naturais da mãe para o filho, de modo que as características naturais das mães ou amas brancas e estrangeiras eram preferíveis àquelas das amas negras. Esse é também o momento de voga das teorias higienistas e racistas que, supostamente científicas, subsidiavam o estabelecimento de uma diferença natural – e fictícia – entre brancos e negros. O momento era de muitas indefinições sociais advindas do desarranjo do sistema escravista e da maciça imigração no país.

               Com a modernização acelerada e com a disseminação dessas teorias, a escravidão começa a ser malvista no Brasil, e o elemento negro torna-se sinal daquele passado retrógrado que não convém ser mais mostrado nos retratos com os bebês. Dessa maneira, as amas negras passam a existir nas fotografias como rastros: uma mão, um punho, até serem completamente banidas das imagens. Os avanços da técnica fotográfica ajudam essa eliminação, ao possibilitar um tempo de exposição consideravelmente menor para a tomada do retrato, o que permitia às crianças serem fotografadas sozinhas.

               Nesse sentido, a série de fotografias de Militão de Azevedo deixa evidente o movimento de representação da escravidão: inicialmente (de 1860 até cerca de 1870), valorizadas e naturalizadas pela sociedade, as negras eram expostas junto aos bebês de seu senhor, representando até mesmo, pela sofisticação de sua aparência, o status da casa da qual era propriedade. Já no fim do período escravista, passa a não ser mais de “bom-tom”, tampouco adequado, associar os filhos da elite branca a negras escravas. Isso porque, nesse momento, a escravidão passa a ser sinônimo de uma instituição retrógrada que não se encaixa nas novas ambições de um Brasil civilizado, moderno e branco.

               Essa série de retratos das amas expressa, dessa maneira, uma bela metáfora do que fora a escravidão no Brasil: a princípio mostrada com orgulho, de rosto inteiro, depois escondida, em segundo plano, desfocada e retocada, até ser completamente retirada do quadro nacional. No entanto, mesmo encoberta, ela persistia nos hábitos consolidados durante três séculos. Hábitos esses cultivados pela experiência da relação íntima entre amas e crianças, que transmitiu uma memória de histórias, músicas, receitas e cuidados com o corpo e o espírito que reverberam até os dias de hoje.

               É muito ambígua, portanto, essa relação social entre mãe preta e filho branco, expressa no laço afetivo entre pessoas pertencentes a diferentes status e hierarquias. Essas barreiras sociais foram, no entanto, transpostas no cotidiano do espaço privado do lar quando a negra e escrava passa a ter poder sobre o filho branco de seu senhor e, até mesmo, autoridade dentro da casa senhorial. A tensão se revela também na assimilação da escrava na família, nesse parentesco afetivo, mas sempre qualificado como uma incorporação de segunda ordem. Tal experiência contraditória com as amas, que escasseou no tempo, foi, talvez, uma das únicas a permitir um verdadeiro reconhecimento do “outro” escravo, um “outro” negro.

Rafaela de Andrade Deiab é mestranda do programa de pós-graduação em antropologia social da universidade de São Paulo (USP)

Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional – Ano 1- Edição nº 4 - outubro 2005

 Saiba mais - Bibliografia

FREYRE, Gilberto. Casagrande & senzala. São Paulo: Global Editora, 2003.

ALENCASTRO, Luiz Felipe de (org.) História da vida privada no brasil. Vol. 2. São Paulo: Companhia das Letras, 1998,

GRANGEIRO, Cândido Rodrigues. As artes de um negócio: a febre photographica em São Paulo 1862-1886. Campinas: Editora Mercado de Letras, 1997.

 Saiba Mais: Link

Especial- Canudos - Órfãos do ódio

terça-feira, 8 de maio de 2012

Alma em chamas

Em "Incêndios", um casal de gêmeos, após a morte da mãe, parte em busca de uma família desconhecida no Oriente Médio, descobre o passado da família e os horrores da guerra - revelados não por cenas violentas, mas por diálogos intensos.
“Incêndios” (Incendies, 2010) é um filme cruel. Sobretudo, é uma película contra a guerra. Gosto desta definição, mas não pretendo limitar a sua beleza a uma simplória crítica contra a guerra. Até porque, não há nada simplório na película de Denis Villeneuve – pelo contrário. Tanto a complexidade quanto a brutalidade são suas características mais marcantes, que me permitiram sair do cinema sentindo na pele a expressão “soco no estômago”.
     Existe em “Incêndios” um intrincado jogo de identidades envolvendo embates religiosos entorpecidos pela política libanesa. Não somos poupados da crueldade da guerra, nem mesmo da ferocidade da religião que mata em nome de Deus ou de Alá. Os acontecimentos não são classificados, o que os torna, portanto, capazes de serem alocados em qualquer período das longas décadas de conflitos naquela região.
     O ponto de partida é o testamento de Narwal Marwan (Lubna Azabal), no qual seus filhos, os irmãos gêmeos Simon Marwan (Maxim Gaudette) e Jeanne Marwan (Mélissa Désormeaux-Poulin), se deparam com o inquietante desejo da mãe: “Enterrem-me sem caixão, nua e sem orações, com a face voltada para a terra. Nada de epitáfio para aqueles que não cumprem suas promessas”. Além do inusitado pedido, os jovens são surpreendidos com a notícia de que eles têm um irmão e um pai vivos e de que eles devem voltar ao Oriente Médio para encontra-los. A mãe deixa ainda uma carta aos entes desconhecidos, e pede que os filhos a entreguem em mãos.
     Diante da descoberta, os gêmeos enfrentam uma crise por perceberem que não conheciam a mulher que acabaram de enterrar – seus segredos, suas dores e suas amarguras passadas. Simon resiste à ideia de voltar à Palestina, enquanto Jeanne considera relevante descobrir o paradeiro da família e cumprir o último desejo de sua mãe. A menina decide, então, embarcar sozinha ao Oriente Médio, numa viagem cortada por múltiplos flashes, que conduzem o espectador a diversos períodos da História – ali, os fragmentos temporais são peças de um quebra-cabeça, montado ao longo da narrativa.

Viagem pelos horrores da guerra
Simon, por fim, se junta à odisseia e os dois, aos poucos, começam a descobrir quem de fato foi sua mãe: ao passo que as múltiplas identidades dela começam a vir à tona, os gêmeos se deparam com a fluidez de suas próprias personalidades. Enquanto compreendem os horrores da guerra pelos quais a mãe passou, entram em contato com um amor profundo e complexo que ela sempre nutriu por ambos. Sentimento que, por tantas vezes, ficou soterrado pelas dores de outrora e pelo comportamento inexplicável de uma mulher cuja vida eles só conheceram após sua morte.
     O horror vivido por Narwal, sua luta política e seus anos na prisão, é revertido depois num amor verdadeiro e profundo por seus filhos. O amor que a guiou, desde o momento do nascimento de ambos, só fica visível quando o passado é revelado. Porém, todos os acontecimentos pretéritos estão mesclados com o presente, sobretudo quando ficam diante de seu pai e de seu irmão. Nós descobrimos juntamente com Simon e Jeanne toda a dor de sua mãe, e também choramos com eles a cada pequena nova surpresa. O choro, todavia, não é copioso como em um melodrama; são lágrimas silenciosas, que seguem conosco para além das paredes do cinema.
     O filme termina nas telas e continua em nós. Os diálogos são fortes e eu diria que em alguns momentos, chegam a ser violentos. A beleza da obra está também na sábia escolha dos meios pelos quais a violência é mostrada: o longa fala da guerra sem apelar para cenas de violência excessiva ou explícita, enquanto o roteiro faz o trabalho de nos colocar em contato com a complexidade do ser humano, incluindo toda sua brutalidade inerente. Ao final, estamos nós mesmos diante de Narwal, cúmplices da dolorosa experiência que ecoa muito além do escuro do cinema.



“Incêndios” (Incendies)

Direção: Denis Villeneuve
Ano: 2010
Áudio: Francês/legendado
Duração: 130 minutos
Tamanho: 797 MB


  

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Nossa Sociedade do Espetáculo

Contra a visão de mundo liberal-burguesa, as ideias do francês Guy Debord podem facilitar o entendimento do mundo contemporâneo.

     A Sociedade do Espetáculo é um filme que não iremos encontrar facilmente nas locadoras. Para assistirmos a essa obra, ou a algumas das outras obras cinematográficas do pensador, poeta, cineasta e ativista político Guy Debord, teremos que nos valer da internet, ou mesmo de cópias feitas por integrantes da imensa legião de admiradores que ele tem em todo mundo. Além de seus filmes, também é difícil ter acesso a suas publicações. Só recentemente uma editora em Paris resolveu publicar suas obras completas, num volume de 2.000 páginas. Mas, por incrível que pareça, suas ideias e mesmo sua militância política encontram cada vez mais ressonância no mundo atual.
     Segundo o filosofo alemão Anselm Jappe, autor do livro Guy Debord, isto se dá devido ao fato de que sua obra como um todo é inaceitável para aqueles que dominam a mídia, e, quando são divulgadas, suas ideias são banalizadas. “Devemos lamentar essa desinformação?”, pergunta Jappe. “Quando li Marx pela primeira vez fiquei surpreendido por não ter ouvido falar dele nas escolas. Quando comecei a entender Marx, isso deixou de me surpreender.”
     No caso de Debord, o entendimento de sua teoria vai muito além da constatação de ser ele um expoente das vanguardas artísticas, como os integrantes do seu grupo, A Internacional Situacionista, que queria superar a própria arte através do detournement (desvio), ou mesmo da “teoria da deriva”, que se tornou famosa e, inclusive, foi aplicada nas escolas de urbanismo em todo o mundo. Detournement seria, então, um procedimento utilizado na maioria de suas obras, inclusive em A Sociedade do Espetáculo, que consistiria na utilização de imagens retiradas de filmes variados, documentários históricos, spots publicitários, que são compartilhados por textos lidos em off, dentro da concepção de que a arte tem um valor universal, não cabendo a privatização de seus elementos por direitos autorais.
     Seus filmes não eram comerciais, e tinham claramente um sentido político. Por isso, seu amigo Lebovici, que editou a maior parte de sua obra antes de ser assassinado misteriosamente, chegou, inclusive, a comprar um pequeno cinema no bairro parisiense do Quartier Latin, onde durante um tempo seriam exibidos somente filmes de Debord. Dentre muitas experiências, inclusive com a realização de filmes sem imagens, destaca-se o último de seus filmes: In girum imus nocte et consumimur igni (Movemo-nos na noite sem saída e somos devorados pelo fogo), polídromo latino que pode ser lido da mesma forma, da direita para a esquerda.
     Para compreendermos a teoria de Guy Debord precisamos saber, preliminarmente, o que é, de fato, aquilo que chamamos de Sociedade do Conhecimento, fruto da revolução tecnológica que tomou força a partir dos anos 50, e que, grosso modo, tem como principais características: I) a globalização das economias e dos costumes, moldando um mundo cada vez mais igual, onde é reproduzindo o modus viventis da matriz ideológica — a sociedade americana; II) rápidas mudanças tecnológicas, fazendo com que o tempo útil da mercadoria seja cada vez menor, acentuando nela o seu valor de troca; III) desmaterialização das mercadorias, onde o mercado dos intangíveis vai substituindo o dos tangíveis, fazendo com que a imagem do produto tome o lugar dele próprio, como objeto de consumo; e IV) customização dos produtos, onde o consumo é cada vez mais dirigido, criando-se tribos definidas para este fim, além, é claro, da estrema concorrência a nível global.
     Mas, o conceito de Sociedade do Conhecimento, por si só, não é suficiente para que possamos ter uma compreensão exata do mundo em que vivemos. Para isto teremos que utilizar outros conceitos, mais específicos e menos abrangentes.
     Ora, tornou-se um lugar comum dizer que uma teoria tem caráter científico quando ela é demonstrável e pode ser aplicada numa realidade universal. Num caso específico da filosofia, e da forma de se observar a sociedade capitalista contemporânea, parece-me que as ideias desenvolvidas por Debord em A Sociedade do Espetáculo — e que é relatada através do filme do mesmo nome — podem ser plenamente demonstráveis no mundo contemporâneo: ele nos diz que a mercadoria é o nexo que estrutura a sociedade contemporânea, o mundo do presente-vivido, e me parece que este é um conceito plenamente demonstrável, passível de levarmos em consideração.
     No espetáculo já não predominaria simplesmente a produção mercantil, mas a imagem. A separação, ou alienação do trabalho, consumada no âmbito da produção capitalista, retornaria como falsa unidade no plano da imagem. O espetáculo seria a autonomização das imagens, doravante contempladas passivamente por indivíduos que já não vivem em primeira pessoa. Por isso, o espetáculo não seria simplesmente um conjunto de imagens, um abuso do mundo visível, e sim um tipo particular de relação social entre pessoas mediada por imagens. Tratar-se-ia, evidentemente, das relações de produção capitalistas, radicadas na alienação do trabalho, isto é, na total indiferença da produção em relação à vontade e ás necessidades dos produtores. A contemplação passiva das imagens, que foram escolhidas por outros, substituiria o vivido e próprio poder de determinar o futuro do indivíduo. O espetáculo torna-se o capital concentrado a tal ponto que se transforma ele próprio em imagem.
     Debord se preocupava com a impossibilidade do homem moderno encontrar sua plena existência num mundo de ampla oferta de mercadorias. Em ultima instância, entendemos o pensamento de Marx como uma constatação e uma crítica da redução de toda a vida humana, no capitalismo, ao valor, isto é, à economia. Opondo-se a interpretação dos partidários de Marx, que na sua geração, que viam a questão da exploração econômica como o mal maior do capitalismo e, desta forma, propunham uma nova sociedade onde a economia existiria mas não seria usada para a exploração de uma classe sobre a outra. Debord, remetendo ao próprio Marx, discorda desse conceito e concebe a esfera econômica, como ela própria, oposta à totalidade da vida. E aí está sua originalidade.
     Recordemos duas consequências da critica do fetichismo que Debord soube aprender com grande antecedência. Nos diz Anselm Jappe: “Em primeiro lugar, a exploração econômica não é o único mal do capitalismo, dado este ser, necessariamente, a negação da própria vida em todas as suas manifestações concretas. Em segundo lugar, nenhuma das inúmeras variantes no interior da economia baseada na mercadoria pode realizar uma mudança decisiva. Por isso é que seria totalmente inútil esperar uma solução positiva do desenvolvimento da economia e da distribuição adequada dos seus benefícios. A alienação e a expropriação constituem o núcleo da economia mercantil que, além do mais, não poderia funcionar de modo diferente, e os progressos da ultima são, necessariamente, os progressos das duas primeiras. Isso constitui uma autêntica redescoberta., considerando que o “marxismo”, a par da ciência burguesa, não fazia “critica da economia política”, mas limitava-se a fazer economia política, levando em conta apenas os aspectos abstratos e quantitativos do trabalho, sem discernir ai a contradição com o seu lado concreto . Este marxismo já não via na subordinação da vida inteira às exigências da economia um dos efeitos mais desprezíveis do desenvolvimento capitalista, mas, pelo contrário, um dado ontológico cuja evidenciação até parecia um fato revolucionário.”
     A “imagem” e o espetáculo de que fala Debord devem ser entendidas como um desenvolvimento posterior da forma-mercadoria. Tem em comum a característica de reduzir a multiplicidade do real a uma única forma abstrata e igual. De fato, a imagem e o espetáculo ocupam em Debord o mesmo lugar que a mercadoria e seus respectivos derivados ocupam na teoria marxiana.
     Mas, é importante frisarmos aqui que esses caminhos já tinham sido trilhados por György Lukács, no seu polêmico livro História e Consciência de Classe, que, sem dúvidas, influenciou o pensamento de Debord, pois foi o primeiro dos estudiosos de Marx que retomou o conceito de fetichismo da mercadoria. Tal conceito que tinha aparecido em Marx na Crítica da Economia Política, foi relegado ao esquecimento pelos marxistas posteriores, tais como Engels Kautsky, Rosa de Luxemburgo e Lênin. E é esse conceito, a base do pensamento de Debord, quando elabora a teoria de A Sociedade do Espetáculo.
     Num momento em que vemos em todo o mundo uma repulsa de pessoas esclarecidas à “visão de mundo” da burguesia liberal, levar as ideias de Debord para a praça pública, através de seus filmes, é um importante instrumento didático para o entendimento das características do mundo contemporâneo, e pode ser uma estratégia para aqueles que querem enxergar uma civilização pós-capitalista, pois, como disse alguém: “Se queremos mudar o mundo, é necessário primeiro entendê-lo”.


Filme: A Sociedade do Espetáculo
Direção: Guy Debord
Ano: 1973
Áudio: Francês/legendado
Duração: 87 minutos
Tamanho:  MB