Na França, ganharam outro nome, também nada lisonjeiro: vieille fille (literalmente, “filha velha”). E apareciam já na literatura clássica do século XVII, em autores como Thomas Corneille, La Fontaine e Molière, embora de forma superficial e como personagens secundários.
"O QUE NÓS QUEREMOS DE FATO É QUE AS IDEIAS VOLTEM A SER PERIGOSAS" 1968, lido nos muros de Paris
“E agora que vocês viram no que a coisa deu, jamais esqueçam como foi que tudo começou” (Bertolt Brecht)
terça-feira, 15 de maio de 2012
Ficando para titia
Na França, ganharam outro nome, também nada lisonjeiro: vieille fille (literalmente, “filha velha”). E apareciam já na literatura clássica do século XVII, em autores como Thomas Corneille, La Fontaine e Molière, embora de forma superficial e como personagens secundários.
domingo, 13 de maio de 2012
Outros Maios
Matar e não comer
É possível perceber, desde a Antiguidade Clássica, uma reflexão de cunho moral sobre as implicações da distância. O filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a.C.), na sua obra Retórica, ao tratar do gênero retórico aplicado à prática jurídica, afirmou que o homem só é sensível à dor daquele que lhe é próximo. Segundo o historiador italiano Carlo Ginzburg, esta noção foi retomada por diferentes pensadores na Época Moderna, em especial durante o século XVIII, caso evidente na obra do filósofo iluminista Denis Diderot (1713-1784). O que faz uma pessoa respeitar a lei e não cometer um crime não é um constrangimento genuíno, mas o medo da condenação: “o remorso talvez nasça menos do horror de si do que do medo dos outros; menos da vergonha da ação do que da censura e do castigo que se seguiriam se ela fosse descoberta”, escreveu em 1773.
Este princípio geral poderia ser aplicado a todas as épocas: alguém, estando em Lisboa ou em Paris, ao saber que um terremoto matou milhares de pessoas na longínqua China, pode se lamentar por um tempo, refletir sobre a fragilidade e a transitoriedade da vida, talvez demonstrar até mesmo alguma compaixão genuína. Mas dificilmente perderá o apetite ou deixará de cumprir algum ritual cotidiano. A distância dos cadáveres não permite que o seu odor seja sentido.
A crueldade com os animais teria alguma relação com a noção de distância. Os animais selvagens, que não convivem com os homens, são fisicamente distantes e, por isso, estão fora da nossa redoma de compaixão. Ao longo dos séculos, mesmo não sendo mais necessário para fins de subsistência em muitos dos círculos “civilizados”, a caça permaneceu como diversão, como “prática esportiva”. A rainha Elizabeth I gostava de caçar cervos no século XVI. Quando já estava com idade avançada, atirava em animais presos em um cercado. Matar pelo simples prazer de poder matar.
Já os animais fisicamente próximos ao homem, ou seja, que compartilhavam um espaço geográfico semelhante – domesticados, portanto –, podiam ser maltratados pelo fato de que estavam situados em um lugar distante do homem no que diz respeito à ordem natural do mundo. Na Criação, de acordo com a tradição legada ao ocidente moderno pelo cristianismo, o homem ocupa um lugar proeminente em relação aos demais seres – inclusive à mulher. Deste modo, estando os homens distantes dos outros animais, as implicações morais do que consideramos crueldade são absolutamente efêmeras.
Ao longo do século XVIII, com o avanço do conhecimento do mundo por meio científico, o homem ocidental pareceu cada vez mais próximo dos demais seres da natureza. Paralelamente, a crueldade em relação aos animais passou a ser algo cada vez mais incômodo – a proximidade traz o constrangimento. Ainda em 1713, o poeta inglês Alexander Pope escrevia: “quanto mais inteiramente a criação inferior é submetida ao nosso poder, mais responsáveis nós devemos ser em relação ao seu mau uso”.
Os ingleses, assim como europeus de outros centros iluministas, passaram a ver com muita estranheza algumas práticas que permaneciam em regiões periféricas, como Portugal e Espanha. As touradas, os sangrentos festivais onde os animais são sistematicamente massacrados para delírio de uma multidão, eram vistos como resquício de práticas bárbaras – sobretudo em um momento no qual os seres vivos parecem estar muito próximos dentro da natureza.
A crueldade contra os animais passou a ser paulatinamente combatida no âmbito das legislações nacionais ao longo do século XIX. Simultaneamente, grupos de pessoas se dedicavam à proteção dos animais, formando associações ou produzindo textos que embasavam esta mudança de postura. Em 1838, o norte-americano William Hamilton Drummond publicava Os direitos dos animais, e a obrigação do homem em tratá-los com humanidade. Nesta obra, afirma que muitos homens verdadeiramente benevolentes daquele século não haviam se dado conta de que estas atitudes de condescendência deveriam ser estendidas aos outros animais. Segundo Drummond, “eles nunca foram levados a refletir sobre o fato de que muitos animais são delicadamente constituídos e sensíveis à dor como eles próprios – e que todos estes animais, assim como o homem, têm os seus direitos, aos quais é injusto e cruel violar ou infringir”.
O século XX demonstrou repetidas vezes que o homem civilizado não está livre da crueldade. Duas guerras mundiais, o extermínio sistemático de minorias étnicas, conflitos fratricidas por motivos que variam de domínio territorial a divergências religiosas têm colocado em xeque a noção de que o homem ocupa um lugar especial no reino animal. Aliás, sua superioridade parece residir na capacidade potencial de eliminar este e outros reinos.
Entretanto, algumas iniciativas ao longo do século passado dão prova de que o legado iluminista não se perdeu completamente. Somos, querendo ou não, herdeiros desta tradição que trata o homem como um ser natural, e por isso somos forçados a nos colocar lado a lado com os outros animais, sendo capazes, por isso, de perceber que sofrem, que podem sentir dor – ou seja, a distância foi reduzida.
Muitas entidades da sociedade civil, como a Sociedade União InternacionalProtetora dos Animais (Suipa), fundada em 1943, ou a People for the Ethical Treatment of Animals (Peta), organizada em 1980, trazem à tona cotidianamente a nossa relação de vizinhança com as outras espécies animais. E provam que, mesmo em tempos pouco delicados, a compaixão pelo próximo, bípede ou não, nos faz, de algum modo, humanos.
quinta-feira, 10 de maio de 2012
A memória afetiva da escravidão
Fotografias de Militão de Azevedo revelam a trajetória da relação ambígua entre as amas-de-leite e as crianças de seus senhores.
Rafaela de Andrade Deiab
No entanto, foram inúmeras as gerações que
se formaram embaladas no colo das escravas domésticas, amas-de-leite, mães
pretas. Essa relação social criada no cenário da escravidão imortalizou-se em
inúmeros retratos por todo o Brasil. O fotógrafo Militão Augusto de Azevedo
(1837-1905) fez muitas dessas imagens em seu estúdio em São Paulo. Ainda jovem, começou sua carreira de retratista
como aprendiz no ateliê Carneiro & Gaspar, o qual veio a comprar em
1875, alterando-lhe o nome para Photographia Americana. Por esses dois
ateliês passaram por volta de 12 mil pessoas, entre 1862 e 1885, cujos retratos
ainda se preservam em seis álbuns, que funcionavam como catálogo dos negativos
de Militão. Essa indústria de retratos, que se estabiliza no país na segunda
metade do século XIX, trouxe certos padrões que se repetiam nas variadas
fotografias, fosse em seus formatos (como no clássico carte de visite, com
imagens colocadas em suporte rígido de cartão), nos paramentos (fundo, móveis,
tapetes) e também nas posições dos clientes. No entanto, alguns desses esquemas
que chegam junto com a técnica fotográfica, supostamente neutra, são relidos em
diferentes contextos; e isso fica evidente nas imagens de amas com
crianças.
A mãe segurando a criança junto
ao rosto, apoiando-lhe a cabeça, ou mesmo as costas, com as mãos, era um padrão
internacional da época para fotografias com bebês. Isso porque, em função da
baixa sensibilidade do negativo, o tempo de exposição era muito longo (por
volta de um minuto), sendo complicado manter as crianças imóveis. Aproximar as
crianças junto ao rosto e segurá-las pelo dorso era a maneira de obter,
portanto, uma postura estática. Mas esse modelo de pose, trazido da Europa
juntamente com a fotografia e fotógrafos, foi absorvido segundo a cultura
local, de modo que, em muitas imagens (como as apresentadas neste artigo), uma
negra posa com a criança branca. Ou seja, em poses internacionalmente indicadas
para unir nas fotos mães e filhos, na São Paulo de meados do século XIX, surgem
mães pretas acompanhadas de filhos brancos, termos próprios de um contexto
marcado pela escravidão doméstica, que promoveu múltiplas relações entre
senhores e escravos.
Nos retratos aqui reproduzidos, a ama
e o bebê estão no centro e no mesmo plano: ambos eram o foco da imagem. A negra
responsável pela amamentação e pelos cuidados com a criança era sua companhia
natural nessas fotos de 1870 e 1876. Estando mais habituados com elas,
diminuía-se o risco de que os bebês ficassem inquietos durante a feitura do
retrato. Além disso, essas fotografias, provavelmente encomendadas por famílias
senhoriais, propagandeavam seu status social apresentando sua escravaria em
trajes finos da moda. Muitas vezes as negras apresentavam uma estética próxima
à das senhoras brancas: cabelos repartidos, brincos, colares e vestido com
colarinho alto em renda, o que pode ser observado na imagem de Militão.
Nos anúncios de compra e venda de
escravos em jornais, a habilidade no trato com as crianças é elemento de
destaque na propaganda das escravas, mostrando que esse cuidado extremado era
esperado e desejado pelas famílias: “Mulatinha. Nesta tipografia se dirá quem
vende uma mulatinha com sete para oito anos de idade, com princípios de costura
e muito jeitosa para carregar crianças (Correio Paulistano,
22/02/1865)”; “Aluga-se uma crioula, sadia, muito própria para tratar de
crianças, por ser muito carinhosa. Já sabe costurar, e engomar alguma cousa,
sem vício nenhum (Correio Paulistano, 06/01/1865)”.
Gilberto Freyre, em seu livro Casa-grande
& senzala, deu muito destaque ao papel das amas-de-leite, mucamas,
negras velhas ou, ainda, mães pretas produtoras de laços sentimentais com seus
filhos brancos, e toda a família de seus senhores. Segundo o autor
pernambucano, elas teriam sido, até mesmo, grandes contribuintes para a
formação da cultura mestiça brasileira, uma vez que adocicavam ou amolengavam a
cultura portuguesa, então transmitida por elas às crianças. Assim, as histórias
lusitanas que contavam nos serões eram adaptadas, tinham seus personagens
mudados, e os cenários passavam a conter uma cor local, tornando-se mais
compreensivos para os infantes do que as distantes paisagens europeias. Além
disso, elas ainda davam outro ritmo às mesmas canções de ninar da tradição
portuguesa que embalaram gerações. Tinham cuidados com os pequenos que iam da
higiene do corpo ao resguardo espiritual, por meio de simpatias, benzeduras e
mezinhas; preparavam-lhes comidas especiais, os ensinavam a rezar, além de
nutri-los com seu próprio leite.
Mas essa relação entre mãe preta e
filho branco não se constituía apenas de modo idílico. Para ter condições de
aleitar um filho branco, era necessário que a escrava tivesse engravidado
recentemente, tendo, portanto, também um filho natural. Este último era, muitas
vezes, preterido diante do filho branco, quando não vendido ou levado para
doação nas rodas dos conventos. Além disso, as amas escravas eram obrigadas a
amamentar por longos períodos, sendo levadas em ocasiões não raras a um
profundo esgotamento físico. Esse mercado do dito “leite mercenário” também
aparece nos anúncios dos jornais: “Escrava e filho. Quem quiser comprar uma
mulata muito moça, sem vícios, sabendo cozinhar, lavar e engomar e estando com
um filho de dois meses e abundante leite, nesta tipografia se dirá quem vende (Correio
Paulistano, 05/02/1865)”; “Ama-de-leite. Precisa-se de uma que seja sadia:
prefere-se cativa, sem filho (A Província de São Paulo, 14/09/1880)”.
Esse segundo anúncio, além de revelar
a cruel preferência por uma escrava recém-parida, com leite, mas sem filhos,
indica ainda um contexto já um tanto modificado, em que há clara preferência
por negras cativas. Ou seja: nesse momento há amas no mercado que não são mais
escravas. Esses novos termos são sinais de grandes modificações de referências
culturais já sentidas nos anos 1880, marcados pela progressiva derrocada do
sistema escravista e início da imigração para o estado de São Paulo. A
incorporação da mão de obra imigrante e branca trazia naquele momento
transformações no mercado das amas, articuladas a alterações na incorporação de
negros e escravos na sociedade como um todo.
Com a modernização acelerada e com a
disseminação dessas teorias, a escravidão começa a ser malvista no Brasil, e o
elemento negro torna-se sinal daquele passado retrógrado que não convém ser
mais mostrado nos retratos com os bebês. Dessa maneira, as amas negras passam a
existir nas fotografias como rastros: uma mão, um punho, até serem
completamente banidas das imagens. Os avanços da técnica fotográfica ajudam
essa eliminação, ao possibilitar um tempo de exposição consideravelmente menor
para a tomada do retrato, o que permitia às crianças serem fotografadas
sozinhas.
Nesse sentido, a série de fotografias
de Militão de Azevedo deixa evidente o movimento de representação da
escravidão: inicialmente (de 1860 até cerca de 1870), valorizadas e
naturalizadas pela sociedade, as negras eram expostas junto aos bebês de seu
senhor, representando até mesmo, pela sofisticação de sua aparência, o status
da casa da qual era propriedade. Já no fim do período escravista, passa a não
ser mais de “bom-tom”, tampouco adequado, associar os filhos da elite branca a
negras escravas. Isso porque, nesse momento, a escravidão passa a ser sinônimo
de uma instituição retrógrada que não se encaixa nas novas ambições de um
Brasil civilizado, moderno e branco.
Essa série de retratos das amas
expressa, dessa maneira, uma bela metáfora do que fora a escravidão no Brasil:
a princípio mostrada com orgulho, de rosto inteiro, depois escondida, em
segundo plano, desfocada e retocada, até ser completamente retirada do quadro
nacional. No entanto, mesmo encoberta, ela persistia nos hábitos consolidados
durante três séculos. Hábitos esses cultivados pela experiência da relação
íntima entre amas e crianças, que transmitiu uma memória de histórias, músicas,
receitas e cuidados com o corpo e o espírito que reverberam até os dias de
hoje.
É muito ambígua, portanto, essa
relação social entre mãe preta e filho branco, expressa no laço afetivo entre
pessoas pertencentes a diferentes status e hierarquias. Essas barreiras sociais
foram, no entanto, transpostas no cotidiano do espaço privado do lar quando a
negra e escrava passa a ter poder sobre o filho branco de seu senhor e, até
mesmo, autoridade dentro da casa senhorial. A tensão se revela também na
assimilação da escrava na família, nesse parentesco afetivo, mas sempre
qualificado como uma incorporação de segunda ordem. Tal experiência
contraditória com as amas, que escasseou no tempo, foi, talvez, uma das únicas
a permitir um verdadeiro reconhecimento do “outro” escravo, um “outro” negro.
Rafaela de Andrade Deiab é mestranda do programa de pós-graduação em antropologia social da universidade de São Paulo (USP)
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional – Ano 1- Edição nº 4 - outubro 2005
Saiba mais - Bibliografia
FREYRE, Gilberto.
Casagrande & senzala. São Paulo: Global Editora, 2003.
ALENCASTRO, Luiz
Felipe de (org.) História da vida privada no brasil. Vol. 2. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998,
GRANGEIRO,
Cândido Rodrigues. As artes de um negócio: a febre photographica em São
Paulo 1862-1886. Campinas: Editora Mercado de Letras, 1997.
Saiba Mais: Link
terça-feira, 8 de maio de 2012
Alma em chamas
“Incêndios” (Incendies)
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Nossa Sociedade do Espetáculo
Filme: A Sociedade do Espetáculo














