“E agora que vocês viram no que a coisa deu, jamais esqueçam como foi que tudo começou” (Bertolt Brecht)

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O pecado original da República

Como a exclusão do povo marcou a vida política do país do início do período republicano até os dias de hoje
JOSÉ MURILO DE CARVALHO
               Ano de 1889: centenário da Revolução Francesa. A corrente jacobina dos republicanos brasileiros julgava ser essa a ocasião ideal para a proclamação de nossa República, que deveria, segundo ela, ser feita revolucionariamente pelo povo lutando nas ruas e nas barricadas. O principal porta-voz dessa corrente, Silva Jardim, pregava abertamente o fuzilamento do conde d'Eu, o marido da princesa Isabel. Sendo o conde um nobre francês, seu eventual fuzilamento daria à revolução brasileira um sabor especial, pois lembraria a morte na guilhotina do rei Luís XVI.
               Um ponto central da propaganda republicana era a ideia de autogoverno, do povo governando a si mesmo, do país se autodirigindo, sem necessidade de uma família real de origem europeia e de um imperador hereditário. Das três correntes principais da propaganda, a jacobina era a que atribuía maior protagonismo ao povo.
               A corrente mais forte era a liberal-federalista, de derivação anglo-americana. O liberalismo vinha do lado anglo, da Inglaterra; o federalismo, do lado norte-americano. O liberalismo predominou no Manifesto Republicano de 1870, mais bem representado por Saldanha Marinho, e o federalismo, no projeto de constituição dos republicanos paulistas de 1873, cujo representante mais influente era Campos Sales. Por sua ascendência liberal, oriunda dos liberais do Império, ela admitia participação popular, embora sem lhe atribuir o primeiro plano, como faziam os jacobinos. Pelo lado federalista, no entanto, não havia muita simpatia pelo povo. Interessava-lhe, sobretudo, o autogoverno estadual a ser conquistado pelo federalismo.
               A terceira corrente era a positivista, também de filiação francesa, não da Revolução, mas do filósofo Augusto Comte. Os positivistas eram os únicos que não previam papel ativo para o povo na República. Os protagonistas do regime seriam, no campo espiritual, os próprios positivistas, no campo material, os empresários. Os positivistas não admitiam direitos, apenas deveres. O dever do povo, ou dos trabalhadores, era trabalhar, o dever dos empresários e o do Estado era cuidar do bem-estar do povo. 
               Prometida pelas duas principais correntes da propaganda, cabe perguntar como a democracia política, a incorporação do povo, foi posta em prática pelo novo regime. A primeira década republicana foi marcada pela presença de militares no governo, por agitações, revoltas, guerras civis. O povo fez sentir sua presença durante o governo do marechal Floriano Peixoto, apoiado pelos jacobinos. A participação jacobina atingiu o ponto máximo na tentativa de assassinato do presidente Prudente de Morais, em 1897. A partir do próximo presidente, Campos Sales, a corrente liberal-federalista, sob a hegemonia de São Paulo, passou a predominar, cada vez mais federalista, cada vez menos liberal.
               Até 1930, pode-se dividir o povo da República em três partes. Imaginemos um grande círculo que representa o total da população do país; as fatias dividem essa população de acordo com sua participação política. Assim, a fatia grande representa o povo excluído formalmente da participação via direito do voto. Já a fatia menor representa o povo político, isto é a parcela da população que tinha o direito de voto de acordo com a Constituição de 1891; essa pequena fatia contém uma subdivisão que representa o povo eleitoral, isto é, aquela parcela da população que realmente votava.
               De acordo com os dados do censo de 1920, teremos uma população total, representada pelo círculo maior, de 30,6 milhões. Este é o povo do censo que, pelo menos em tese, possuía direitos civis. Mas quantos desses cidadãos civis eram também cidadãos políticos, quantos pertenciam ao corpo político da nação? Para calcular esse número, temos primeiro que deduzir do total os analfabetos, proibidos por lei de votar. O analfabetismo, na época, atingia 75,5% da população. Feito o cálculo, restam 7,5 milhões. Depois, é preciso descontar as mulheres. Embora a lei não lhes negasse explicitamente o direito do voto, pela tradição não votavam. Ficamos com 4,5 milhões. Os estrangeiros também não tinham o direito do voto. Nosso número cai para 3,9 milhões. Finalmente, os homens menores de 21 anos também não votavam. Ficamos reduzidos a míseros 2,4 milhões de brasileiros legalmente autorizados a participar do sistema político por meio do voto. Ficam fora do sistema, excluídos, 28,2 milhões, 92% da população.
               Se eram poucos os que podiam votar, menos ainda eram os que de fato votavam. Nas eleições presidenciais de 1910, uma das poucas em que houve competição, disputando Rui Barbosa contra o marechal Hermes da Fonseca, a abstenção foi de 40%. Os votantes representaram apenas 2,7% da população. No Rio de Janeiro, capital da República, onde 20% da população estava apta a votar, compareceu às urnas menos de 1%. Votar na capital era até mesmo perigoso devido à ação dos capangas a serviço dos candidatos. Quem tinha juízo ficava em casa. Como disse Lima Barreto de sua República dos Bruzundangas: "[Os políticos] tinham conseguido quase totalmente eliminar do aparelho eleitoral este elemento perturbador - o voto". A eliminação do voto completava-se com a fraude. Ninguém podia ter certeza de que seu voto seria contado a favor do candidato certo.
               Significa isso que o povo da Primeira República não passava da carneirada dos currais eleitorais e da massa apática dos excluídos? Seguramente que não. Por fora do sistema legal de representação, havia ação política, muitas vezes violenta. Entre os poucos que votavam, os que escolhiam não votar e os muitos que não podiam votar, havia o que chamo de povo da rua, isto é, a parcela da população que agia politicamente, mas à margem do sistema político, e às vezes contra ele. É difícil calcular o tamanho desse povo. Podemos apenas surpreendê-lo em suas manifestações. E podemos também dizer que ele existia tanto nas cidades como no campo.
               Nas cidades, sobretudo nas maiores, a tradição de protesto vinha de longe e manifestava-se o mais das vezes nos quebra-quebras. Ela se intensificou a partir da proclamação da República, atingindo o ponto máximo no protesto contra a vacinação obrigatória em 1904. A novidade republicana ficou por conta do movimento operário em fase de organização. Foram inúmeras as greves que atingiram a capital da República e São Paulo, além de outras capitais. Seu auge verificou-se durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a seguiram. Calculou-se que 236 greves foram feitas na capital e no estado de São Paulo entre 1917 e 1920, envolvendo cerca de 300 mil operários. Em torno de 100 mil operários participaram da greve geral de 1917 no Rio de Janeiro. Outra novidade republicana foi a participação política dos militares, jovens oficiais e praças. A mais conhecida e mais dramática dessas manifestações foi a revolta dos marinheiros contra o uso da chibata, em 1910, em que se destacou o marinheiro João Cândido.
          O efeito político das manifestações urbanas foi limitado porque elas se davam fora dos mecanismos formais de representação. O próprio movimento operário, na medida em que era orientado pelo anarcossindicalismo, sobretudo em São Paulo, fugia da participação eleitoral e nunca organizou um partido político duradouro até que fosse fundado o Partido Comunista, em 1922.
               No mundo rural, foi igualmente intensa a participação do povo. Aí também havia uma longa tradição que foi intensificada pelas mudanças políticas introduzidas pelo novo regime. As figuras centrais das agitações rurais eram beatos e cangaceiros. O mais dramático de todos esses movimentos, pelo número de mortos, foi sem dúvida o de Antônio Conselheiro nos sertões da Bahia. A seu modo, os beatos do Conselheiro agiram politicamente, ao recusar o pagamento de impostos, ao rejeitar mudanças nas relações entre Igreja e Estado. Lutando contra a "lei do cão" do novo regime, os rudes sertanejos humilharam o Exército, que contra eles lançou quatro expedições, e deram um exemplo único em nossa história de fidelidade incondicional às crenças adotadas.
               Movimento semelhante ao de Canudos foi o do Contestado, localizado em terras disputadas entre Paraná e Santa Catarina. O monge João Maria dera-lhe início ainda no Império. Proclamada a República, seu sucessor reagiu contra o que chamava de "lei da perversão", o equivalente da "lei do cão" do Conselheiro. A partir de 1911, outro sucessor de João Maria, José Maria, lançou um manifesto monarquista e nomeou imperador um fazendeiro analfabeto. Criou uma sociedade assemelhada ao comunismo primitivo, sem dinheiro e sem comércio. Canudos e Contestado foram combatidos e destruídos com violência pelo Exército, que não hesitou em usar canhões contra sertanejos pobremente armados.
               No Ceará, padre Cícero organizou uma comunidade sertaneja que, à época de sua morte, em 1934, contava 40 mil pessoas. Padre Cícero não contestava o sistema, como o Conselheiro e José Maria. A seu modo, agindo mais como coronel político, fundou uma república paternalista muito próxima da população. Manipulando valores tradicionais e colocando-os a serviço da modernidade, reduziu a distância entre o legal e o real, aproximou da população o poder. Alguns de seus seguidores, como os beatos José Lourenço, Severino e Senhorinho, fundaram comunidades radicais ao estilo do Contestado. Padre Cícero entendeu-se com os poderes da República e foi tolerado. Os três beatos foram massacrados juntamente com seus seguidores.
               Os cangaceiros, frutos do mesmo meio social que gerou os beatos, mantinham, como padre Cícero, contatos estreitos com os poderes da República. Mas fugiam ao controle dos coronéis e dos governos estaduais. Foram também combatidos sem trégua e destruídos. Beatos e cangaceiros representavam formas de organização e de reação construídas à margem do sistema político. Canudos, Contestado, e mesmo o Juazeiro do padre Cícero, eram modelos alternativos de república. Apesar de inviáveis por serem produtos do isolamento geográfico e da imensa distância cultural entre a população e o mundo oficial, essas repúblicas foram destruídas a ferro e fogo e só deixaram traços na memória popular. A exceção foi Canudos, que foi imortalizado por Euclides da Cunha, não por acaso um intelectual estranho no ninho das elites.
               O grosso do povo excluído era mantido sob controle pela própria organização social do mundo rural, baseada na grande propriedade. O povo eleitoral era enquadrado pelos mecanismos de cooptação e manipulação. O povo da rua era quase sempre tratado à bala, nas cidades ou no campo.
               Mas a República usou também métodos menos violentos para lidar com seus excluídos. Produziu missionários do progresso que se puseram a catequizar os cidadãos incultos e tratar os doentes. Foram missionários do progresso Pereira Passos, reformador do Rio de Janeiro, Osvaldo Cruz, saneador da cidade, Artur Neiva e Belisário Pena, saneadores dos sertões. O maior de todos eles, no entanto, foi o general Rondon, positivista ortodoxo, que dedicou boa parte da vida à proteção dos indígenas. Muito superiores pelos métodos aos que destruíam pela força os movimentos populares, esses missionários não estiveram imunes a uma visão tecnocrática e autoritária. O povo para eles era massa inerte e analfabeta a ser tratada, corrigida e civilizada. De certo modo, eram messias leigos, com a diferença de que não tinham o apoio popular dos messias do sertão.
               A Primeira República, em seus 41 anos de existência, não fez jus às promessas da propaganda de promover a ampliação da participação política, o autogoverno do povo. Não unificou os três povos, não os incorporou. Não transformou em cidadãos o jeca doente de Monteiro Lobato e dos higienistas, o áspero sertanejo de Euclides, os beatos de Canudos e do Contestado, o bandido social do cangaço, o anarquista do movimento operário.
               A ausência de povo, eis o pecado original da República. Esse pecado deixou marcas profundas na vida política do país. Quando, em meio à crise de nossos dias, assistimos ao aumento da descrença nos partidos, no Congresso, nos políticos, de que se trata se não da incapacidade que demonstra até hoje a República de produzir um governo representativo de seus cidadãos?

JOSE MURILO DE CARVALHO E PROFESSOR TITULAR DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO E AUTOR DE OS BESTIALIZADOS (COMPANHIA DAS LETRAS, 1987) E A CIDADANIA NO BRASIL: O LONGO CAMINHO (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2001).

Fonte: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL - ano 01 - nº 05 – agosto 2005

Saiba Mais: Bibliografia
LESSA, Renato. A invenção republicana. Campos Sales, as bases e a decadência da Primeira República brasileira. São Paulo: Vértice: Rio de Janeiro: íuperj, 1988,
SILVA, Eduardo. As queixas do povo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988

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Outros textos do autor

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Sem raízes e sem medo

Arrancados de suas famílias e levados para outras regiões do Brasil, os escravos resistiram e, por meio de fugas maciças e insubordinação, criaram um ambiente favorável à Abolição.
Richard Graham
               Quem aboliu a escravidão? Não foi a princesa Isabel, que apenas sancionou a lei aprovada pelo Congresso. Mas por que o Congresso aprovou tal lei? Porque, por mais estranho que possa parecer, os próprios donos de escravos assim o reivindicaram quando se sentiram esmagados pela resistência dos cativos nas províncias de São Paulo e do Rio de Janeiro. Em 1887 e primórdios de 1888, uma fuga maciça de escravos tomou as autoridades de surpresa, pois foram incapazes de conter o grande fluxo de fugitivos. Inicialmente, os escravos fugiam às escondidas, mas logo começaram a fazê-lo às claras e chegaram algumas vezes a enfrentar as autoridades com armas de fogo. E até a incendiar canaviais nas redondezas de Campos dos Goytacazes (RJ). Quando o exército foi chamado para ajudar a manter a ordem, seus líderes com desprezo declararam que não desejavam se encarregar "da captura de pobres negros que fogem da escravidão".
               Diante de um fato consumado, o Congresso, precipitado, votou a lei que aboliu a escravidão em maio de 1888. Como explicou um deputado, esta lei "era ato que as circunstâncias impunham, ditado ao governo pelos... próprios lavradores, que não podendo conter a indisciplina nas fazendas nem os escravos que se insubordinavam, iam adiante da propaganda [abolicionista], concedendo ampla e plena liberdade aos seus escravos". O barão de Cotegipe, a favor da escravidão, exclamou indignado: "Para que uma Lei da Abolição? De fato está feita - e revolucionariamente".
               Apesar do enorme número de escravos que viviam na Bahia e em Pernambuco, lá não ocorreu uma fuga em massa. Este contraste indica uma importante diferença na natureza da população escrava: boa parte dos cativos que vivia no Sul tinha sido trazida do Nordeste após 1850 e especialmente na década de 1870. O alto nível de resistência desses cativos arrancados de suas famílias enfraqueceu a autoridade dos proprietários e encorajou os escravos a procurar sua própria liberdade através de uma ação direta.
               O tráfico de escravos entre as províncias é um tema crucial se quisermos entender o processo que levou à Abolição. Nas décadas de 1850 e 1860, depois do término do tráfico com a África, o número de cativos que vieram do Nordeste para as plantações do Sul atingiu 5 a 6 mil por ano. Este número dobrou na década seguinte, quando os preços do algodão e do açúcar caíram precipitadamente e o do café disparou. O historiador Robert Slenes (em Brasil: história econômica e demográfica, organizado por Iraci del Nero da Costa, 1986) concluiu que quase 200 mil cativos foram transferidos de uma província para outra de 1850 em diante.
               Sabemos que na Bahia a maior parte dos escravos assim exportados não pertencia a senhores de engenho mas a pequenos lavradores de cana, plantadores de mandioca e habitantes da cidade de Salvador. Ao final da década de 1870, uma terrível seca assolou o interior de algumas províncias do Nordeste. O resultado foi tanto uma invasão de migrantes livres na zona costeira, onde poderiam ser empregados pelos produtores de açúcar a baixo custo, quanto uma venda generalizada de escravos oriundos das regiões da seca. A província do Ceará, devastada pela estiagem, enviou milhares em direção ao Sul.
               No final, até mesmo os agricultores do Sudeste ficaram preocupados com o fluxo de escravos para suas províncias. Em 1880, São Paulo aprovou uma lei impondo uma pesada taxa em sua importação, mais do que dobrando o preço de um escravo. Embora necessitassem de trabalhadores numa economia em expansão, o medo de uma rebelião levou-os, em efeito, a suspender a importação de mais cativos. Influentes fazendeiros de Campinas diretamente pressionaram a favor desta medida. As províncias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro logo fizeram o mesmo. Mas já era tarde, como os proprietários de escravos logo iriam descobrir.
               As experiências dos cativos envolvidos no tráfico interno nunca foram boas. Muitos caminharam longas distâncias até os portos do Nordeste para serem embarcados para o Sul. Depois, marchavam do Rio de Janeiro ou de Santos para as fazendas de café. Eles eram muito maltratados pelos negociantes que os recebiam. A historiadora Sandra Lauderdale Graham (em Proteção e obediência, 1992) relata que um oficial do governo criticou o maior traficante do Rio por amontoá-los num espaço pequeno, de tal forma que muitos acabavam doentes. E comentou que, embora esta empresa não fosse tão dura como outras, ainda "deixava muito a desejar". Outro traficante afirmou que os escravos que importara do Nordeste "eram vestidos, alimentados, alojados e tratados do melhor modo possível" - ainda que dos 38 que recebera de uma remessa da província do Ceará, em 1879, 22 morressem enquanto estavam sob seus cuidados. A venda quase sempre caracterizava um momento de separação violenta e grande dor. Como um progressista colocou, em 1877: "o que se fazia com os índios, faz-se hoje com os escravos, assim desumana e barbaramente arrancados ao lugar do seu nascimento, de suas afeições, e às famílias". Um caso extremo é relatado pela historiadora Hebe Mattos: A escrava Justina, além de cuidar de seus três filhos, também cuidava dos filhos de uma outra mulher que tinha sido vendida. Quando percebeu que poderia ter o mesmo destino, afogou seus filhos e tentou o suicídio (em Das cores do silêncio, 1995). O significado do tráfico interno para os 200 mil ou mais escravos que foram arrancados do ambiente familiar, transportados para longe e coagidos por senhores ou capatazes estranhos a realizar novas tarefas não pode ser totalmente conhecido através das fontes disponíveis; mas devemos tentar.
               Considere esses dois casos narrados pelo historiador Sidney Chalhoub. Um escravo, o jovem "pardo escuro" Bráulio, deixou Salvador no começo da década de 1870. Sua mãe e irmão foram mandados para o Rio Grande do Sul, mas Bráulio acabou numa fazenda de café em Valença (RJ). Sua teimosia levou seu senhor a colocá-lo à venda uma vez mais. Finalmente ele fugiu para o Rio, onde se passou por homem livre até ser preso pela polícia. Depois de retornar a seu proprietário, Bráulio enterrou uma ferramenta no peito do homem, admitindo que pretendia matá-lo porque ele era extremamente violento e já tinha assassinado dois escravos desobedientes. Bráulio disse que preferia a pena de morte a continuar sujeito a esse homem. Com isso, desafiou não só seu senhor como a própria escravidão.
               Emergia como um tema comum o desejo de voltar para o Norte. Aos 27 anos, Serafim, nascido de um casal africano em Alagoas, partiu para o Sul em 1878. No Rio, se mostrou desordeiro e insistia em ser mandado de volta. Em vez disso, foi comprado por Domingos Pedro Robert para trabalhar nos cafezais de Minas. Logo Serafim fugiu de volta para o Rio de Janeiro, caminhando à noite, sendo alimentado pelos escravos de outras fazendas. Quando capturado, declarou prontamente que era escravo de Robert. Mas o fazendeiro preferiu abandoná-lo tornando-o livre - do que gastar dinheiro para leva-lo de volta, o que julgou exceder o valor do escravo. Quantos outros senhores perceberam a futilidade de seus esforços para manter a autoridade?
               O controle de escravos foi sempre consequência de uma complexa negociação, embora tácita e continuamente em jogo. Mas aqueles que foram vendidos para o Sul sabiam que quaisquer promessas implícitas feitas por seus antigos donos eram uma mera cesta de mentiras. Os proprietários, feitores e capatazes precisavam conhecer seus escravos, e estes necessitavam conhecer e até confiar naqueles que lhes davam ordens. Com o tráfico interno, isto não correspondia mais à verdade.
               Jovens, na sua maioria homens, arrancados de seu lugar de origem, privados das influências moderadoras exercidas por parentes, os transportados provavelmente estavam cheios de raiva, prontos a explodir. Homens sozinhos sempre têm menos a perder do que os que têm esposas e filhos. Os escravos recém-chegados eram mais rebeldes do que os outros, sendo uma fonte de "desordem e perturbação", como bem colocou o abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910). Os senhores que compraram tais escravos sentiam a intranquilidade entre eles. Historiadores como Warren Dean, Célia Maria Marinho de Azevedo e Lana Lage da Gama Lima demonstraram como os contemporâneos perceberam esse fato. Em 1878, um deputado paulista protestava que esses escravos trouxeram "com eles vício, imoralidade, insubordinação... Aqueles fazendeiros que compram escravos de fora” abrigavam "assassinos... em suas casas". Em 1881, o presidente da província do Rio de Janeiro referiu-se aos cativos trazidos para sua província "a cujas fazendas não trazem a resignação e contentamento de sua sorte, que são essenciais à boa ordem delas". Ele esperava que a restrição do tráfico ajudasse a manter "a ordem e tranquilidade dos estabelecimentos rurais".
               Um estudo comparado de fazendas vizinhas próximas a Campinas revela uma maior intranquilidade naquelas em que havia escravos oriundos do tráfico interno do que naquelas com um grupo já estabelecido. Os últimos anos da escravidão testemunharam um grande número de assassinatos de senhores e feitores nas regiões do café. Como consequência, os proprietários de escravos se tornaram cada vez mais temerosos.
               A antiga ordem estava desmoronando. Quanto mais a propriedade escrava ia se concentrando cada vez mais num número menor de mãos e em áreas rurais mais do que nos centros urbanos, o escravismo contava com menos defensores entusiastas. Muitos moradores no Rio de Janeiro e em São Paulo olhavam com imparcialidade a fuga em massa de escravos.
               As contínuas investidas dos escravos, em grande e pequena escala, derrubaram o sistema. É verdade que não temos sólida evidência de que aqueles que participaram das fugas em massa de 1887-1888 foram necessariamente os envolvidos no tráfico interno. Mas o maior campo de ação foi a província de São Paulo, exatamente a província que tinha importado o maior número de cativos de outras regiões. O município açucareiro de Campos, onde os escravos incendiaram os canaviais, foi a única área não-cafeeira da província do Rio de Janeiro que experimentou um aumento no número de escravos entre 1873 e 1882.
               Viessem da cidade, das roças ou da pequena plantação, fossem transferidos de longe ou de perto, as terríveis condições da escravidão se tornaram cada vez mais visíveis, tanto para o escravo como para o livre. O deslocamento provocado pelo tráfico interno submeteu o sistema escravocrata a uma perigosa reviravolta.

RICHARD GRAHAM é professor emérito da Universidade do Texas em Austin (EUA) e autor de Clientelismo e política no Brasil do século XIX. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1997.

Fonte: Revista Nossa História – Ano 2 - nº 24 - outubro 2005

Saiba Mais: Bibliografia
AZEVEDO, Célia Maria Marinho de. Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites - século XIX. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
CHALHOUB, Sidney. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na corte. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
DEAN, Warren. Rio Claro: A Brazilian Plantation System, 1820-1920. Stanford, CA: Stanford University
Press, 1976.
LIMA, Lana Lage da Gama. Rebeldia negra e abolição. Rio de Janeiro: Achiamé, 1981.

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terça-feira, 21 de julho de 2020

O canto das escravas

Melodias negras entoadas nas ruas e nos lares atravessaram séculos e influenciaram a linguagem, a cultura e o comportamento dos brasileiros
SÉRGIO BITTENCOURT-SAMPAIO
               Durante mais de três séculos, o Brasil foi embalado por vozes negras e femininas. Pelas ruas das cidades, melodias eram entoadas não apenas nas festas oficiais dos negros e nos informais batuques, mas também acompanhando atividades diárias como as das vendedeiras, lavadeiras nas bordas dos riachos, aguadeiras que buscavam água nas fontes e nos chafarizes. No interior dos lares, as escravas faziam dormir seus próprios filhos, e também os filhos brancos das famílias abastadas. Aquele simples cantar despreocupado, de uma classe desprestigiada, considerada inculta e apta apenas para trabalho, teria consequências profundas na linguagem, na cultura e nas relações sociais brasileiras.
               As vendedeiras sempre chamavam a atenção dos estrangeiros. O militar alemão Carl Schlichthorst, que esteve no Brasil entre 1824 e 1826, certa vez encontrou uma “negrinha mimosa” na praia de Copacabana. Em plena juventude, ela tocava marimba enquanto vendia suas guloseimas. Schlichthorst comprou um pedaço de doce e pediu à moça que dançasse. Ela atendeu ao pedido, e cantou: “Na Terra não existe Céu/ Mas se nas areias piso/ Desta praia carioca/ Penso estar no Paraíso!/ Na Terra não existe Céu/ Mas se numa loja piso/ E compro metros de fita/ Penso estar no Paraíso!”. Os versos traduziam a agrura da escravidão e o explícito desejo de se evadir da lida diária, mesmo por um instante e em troca de um pequeno agrado.
               Anos mais tarde, o príncipe austríaco Maximiliano de Habsburgo encontrou na Bahia vendedeiras com vozes de contralto tão graves que poderiam ser confundidas com vozes masculinas. Ao vender seus doces, alfinetes, refrescos, frutas e outras mercadorias, elas utilizavam um canto arrastado, com as últimas sílabas prolongadas nas vogais abertas: “Geleia! É de araçááá!”, “Sorvete é de maracujááá!”, conforme este exemplo registrado bem mais tarde pelo sociólogo Gilberto Freyre.
               Na década de 1820, quando visitou um engenho situado na Mata da Paciência, no Rio de Janeiro, a viajante inglesa Maria Graham presenciou escravas servindo cana aos visitantes entre melodias africanas e hinos à Virgem Maria. Na Fazenda da Cachoeirinha, em Minas Gerais (1822), o naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire se deparou com um comportamento curioso: ao serem colocadas pela senhora em um ambiente fechado, escravas que costumavam cantar por todo o dia passaram a relatar suas aventuras amorosas umas às outras, lançando acusações mútuas. Mas logo retomavam suas canções preferidas.
               Nas folias carnavalescas – ou melhor, no tempo do entrudo – os pregões tinham um quê de malícia, deixando a ideia incompleta, cabendo a quem ouvia dar a forma final: “Quem entruda seu amô/ É sinal de intimidade/ Iaiá, entrude a ioiô/ Para lhe ter amizade/ É de iaiá, é de ioiô/ Quem qué entrudá seu amô”. Podemos nos perguntar se a entonação das palavras dependia da linha melódica ou se a música é que derivava da inflexão das sílabas prolongadas.
               Escravas com bons dotes vocais eram alugadas para apresentações nos salões aristocráticos. A oportunidade lhes permitia demonstrar o dom para a música em ambientes aos quais normalmente não tinham acesso. Apesar do talento, seus nomes não eram divulgados (quem se importaria de dar atenção ao nome de uma cativa?) e as quantias que deveriam receber pela apresentação ficavam por conta de seus proprietários.
               Atendiam também a solicitações dos ofícios religiosos. No século XVIII, na fazenda dos padres mercedários no Pará, algumas negras emocionavam os ouvintes ao cantar “Bendito Sejais, Te Deum”. No Rio de Janeiro, a Família Real portuguesa encontrou na Igreja de Santo Inácio de Loiola, em Santa Cruz, três escravas que se destacavam pela beleza com que interpretavam as canções.
               A melancolia musical se mostrava durante os cortejos fúnebres das negras. Ao contrário dos enterros de homens, o corpo era seguido por mulheres que soltavam a voz em lamentos que remetiam à escravidão. A presença masculina se limitava a dois carregadores e um mestre de cerimônias.
      A maneira de falar ou de se expressar através da música servia até para identificar negras fugitivas. O jornalista e escritor pernambucano Mario Sette transcreveu o anúncio do desaparecimento de uma cativa chamada Joana. Segundo ele, a procurada apresentava “fala mansa e descansada”. O periódico cearense O Comercial noticiou a fuga de Margarida, escrava com idade entre 25 e 28 anos que se destacava por desempenhar múltiplas funções. Tinha desenvoltura com foice, machado, enxada e era sapateira. De acordo com o jornal, era também “cantadeira de samba”, o que revela sua habilidade com a música – na época, somente as mais especializadas eram chamadas de cantadeiras. Samba tinha uma conotação diferente da atual: significava batuque, típico dos cativos.
                Por outro lado, o hábito de cantar durante o trabalho diário era utilizado para conter possíveis insurreições dos cativos. O memorialista Pedro Nava (1903-1984) lembra que sua avó controlava as tarefas confiadas às antigas escravas por meio das músicas que elas entoavam: atenta às inflexões das vozes, que traduziam o clima emocional das cativas a suas intenções, a senhora impedia “conjuração de preto” e seguia o andamento do serviço. Entre as melodias estava uma modinha muito conhecida na época, “O Gondoleiro do Amor”, com versos de Castro Alves (1847-1871), que diz: “Teus olhos são negros, negros, / Como as noites sem luar... / São ardentes, são profundos, / Como o negrume do mar...”.
               O cantarolar negro também transbordou para a literatura brasileira. No século XIX, a voz lamentosa de uma cativa motivou um poema do diplomata fluminense Luís Guimarães Júnior: “Nhãnhã”. O narrador conversava com a sinhá no interior da casa-grande quando ouviu uma escrava cantando em meio a gemidos. Ao indagar de quem se tratava, a senhora respondeu: “Ora! uma escrava!”. E nada mais: a conversa despreocupada prosseguiu comentando valsas, outras danças dos salões imperiais e a chegada de uma importante cantora lírica italiana. Enquanto isso, do lado de fora, a escrava expirou no silêncio da noite.
               Nos séculos passados, as mulheres da elite não costumavam amamentar seus filhos. Daí a necessidade de se buscarem amas de leite. Havia a crença de que o leite das negras era mais nutritivo que o das brancas. Nas grandes cidades, não faltavam anúncios nos jornais oferecendo cativas com abundante leite a preços elevados. As amas de leite mantinham uma proximidade especial com as crianças, que nenhuma outra condição igualava no cativeiro. Às vezes, amamentavam ao mesmo tempo os próprios filhos, criando uma condição conhecida como irmão de leite. Quando não se tratava de uma escrava alugada somente para este fim, mas própria da casa, os vínculos afetivos com os filhos da sinhá podiam se prolongar ao longo da vida. Ali, próximas dos filhos das famílias abastadas, elas acalentavam as crianças com melodias e histórias fantásticas. Os cantos amolengados e repetidos, acompanhados do tão apreciado cafuné, proporcionavam prazer, indolência e relaxamento. Aquela “fala cantada” continha uma mistura de termos portugueses, africanos e corruptelas.
               A música se alternava com histórias típicas do nosso folclore, como relatou em suas memórias Francisco de Paula Ferreira de Rezende, ministro do Supremo Tribunal Federal no início da República. Ele conviveu com a escrava Ana Margarida, que sempre que podia cantava e, se não podia, conversava ou contava casos de saci, lobisomem, mula sem cabeça e uma lenda sobre a origem dos negros.
               O idioma foi se tornando mais flexível, com sons suavizados, palavras novas, corruptelas e inflexões desconhecidas no português europeu. Enquanto os senhores e as sinhás sequer percebiam o que estava acontecendo, suas crianças participavam de uma mistura cultural que se tornaria indispensável para a estruturação do nacionalismo nas artes e na literatura brasileira.

SÉRGIO BITTENCOURT-SAMPAIO É MEMBRO DA ACADEMIA NACIONAL DE MÚSICA E AUTOR DE MÚSICA EM QUESTÃO (MAUAD, 2014).

Fonte: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL - ano 11 - nº 124 - junho 2016

Saiba Mais: Bibliografia
FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala. Rio de Janeiro: Ed. Record, 1989. 
LIMA, Ivana Stolze & CARMO, Laura do. História social da língua nacional. Rio de Janeiro: NAU Editora/ Faperj, 2014.
SCHLICHTHORST, Carl. O Rio de Janeiro como é (1824-1826). Uma vez e nunca mais. Brasília: Ed. Senado Federal, 2000.
XAVIER, Giovana; FARIAS, Juliana Barreto & GOMES, Flavio (orgs.). Mulheres negras no Brasil escravista e pós-emancipação. São Paulo: Ed. Selo Negro, 2012

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quarta-feira, 15 de julho de 2020

Ecos de Mussolini

Nos anos do fascismo, o Brasil se tornou destino de italianos em busca de segurança política e econômica
MARCELLO SCARRONE
              Eram trinta, quarenta, talvez um pouco mais. Vinham de diferentes procedências e tinham variadas orientações políticas. Dialogavam entre si. E, por vezes, tomavam caminhos sem relação com a militância. Esta era a realidade dos refugiados antifascistas italianos no Rio de Janeiro entre as duas guerras mundiais. Um grupo pequeno, sobretudo se comparado com os milhares de compatriotas que já viviam e trabalhavam na capital federal. Mas que buscou movimentar as fileiras da colônia e de setores da sociedade carioca, denunciando as violações e as ilegalidades cometidas no seu país de origem e alertando contra a ameaça que o fascismo podia representar para qualquer nação do mundo.  
               Após anos de violências e intimidações contra sedes de sindicatos, cooperativas e partidos de esquerda, o regime fascista de Benito Mussolini chega ao poder em 1922. Três anos depois, uma série de leis duríssimas retira de seus opositores toda liberdade de expressão, de imprensa e de associação. Aos dirigentes e militantes dos partidos antifascistas não restam mais que dois caminhos. O primeiro, abraçado sobretudo pelo recém-fundado Partido Comunista, será o de uma perigosa atividade clandestina, muitas vezes resultando em anos de prisão ou degredo. O segundo será a emigração. Esta foi a via adotada pela maioria dos líderes políticos e sindicais socialistas e anarquistas, mas também pelos liberais, republicanos e católicos, e por numerosos membros destas agremiações.
               O destino principal do exílio forçado era Paris, que se constituiu no centro do antifascismo italiano no exterior. Inglaterra, Suíça e as Américas também eram alternativas. No Brasil, particularmente São Paulo e Rio de Janeiro se apresentaram como destino de uma viagem em busca de refúgio e segurança econômica e política.
               O termo só se consagrou historicamente no pós-guerra, mas nada retira daquelas pessoas a condição de refugiados. Além de serem perseguidos por seus ideais políticos, foram forçados a sair de seu país por não encontrarem mais condições dignas de vida e trabalho. Os nomes de muitos deles povoavam os informes e os boletins da polícia política fascista. Rede de informantes e, sobretudo, a colaboração das autoridades diplomáticas italianas nas cidades brasileiras vigiavam suas atividades em terra paulistana ou carioca.
               Comerciantes, livreiros, garçons, mecânicos, jornalistas: cada um se reinventa no Brasil como pode. Ao mesmo tempo em que mantêm laços vivos com o centro do antifascismo em Paris, por meio de correspondência e pelos jornais recebidos, estreitam relações com os colegas de exílio em associações tradicionais da imigração italiana no Brasil (como as Sociedades de Beneficência) e outras criadas especialmente para eles – como a Liga para os Direitos do Homem, a Associação Antifascista e a União Democrática.
               Alguns refugiados tiveram atuação destacada. Um deles foi o advogado Libero Battistelli, que chegou ao Rio de Janeiro em 1927. Cruzara a fronteira de seu país após ter casa e escritório em Bolonha destruídos pela milícia do Duce Mussolini por defender numerosos antifascistas. Por aqui, além de liderar várias associações, tornou-se um precioso colaborador de La Difesa, semanário paulistano que funcionava como elo entre as várias vertentes antifascistas. De militância republicana, Battistelli dialogava com socialistas e anarquistas, com comunistas e liberais. No Rio, seu quarto era ponto de encontro e de decisão dos membros da colônia empenhados na propaganda e na ação política.
               Ao obter a naturalização brasileira, o advogado consegue maior liberdade de movimentos. Em 1930, faz uma breve viagem à Europa para arrecadar fundos em favor das organizações criadas no Rio e encontrar os expoentes da oposição exilados na capital francesa. De volta ao Brasil, continua a militância, agora como representante de uma organização antifascista recém-surgida na Itália, Giustizia e Libertá (Justiça e Liberdade). O regime de Mussolini parece cada vez mais inabalável, e só com a chegada de Hitler ao governo da Alemanha em 1933 o mundo começa a perceber a verdadeira periculosidade do fascismo. A guerra civil na Espanha desponta como uma oportunidade de traduzir em prática tantos apelos antifascistas. Em 1936, Battistelli resolve viajar para a França e depois se alista nas milícias antifranquistas na Espanha. No ano seguinte, em ataque em território aragonês, é atingido mortalmente pela artilharia inimiga.  
               Outro expoente daqueles anos foi o anarquista Nello Garavini, que aportou no Rio em 1926 em consequência da feroz perseguição das milícias fascistas na Itália contra muitos libertários. Após anos de trabalho como ascensorista e garçom no Hotel Glória e depois como vendedor de tintas, Garavini adquiriu em 1934 uma pequena livraria na Praça Tiradentes, que logo transformou também em editora. A recém-nascida “Minha Livraria” passou a ser frequentada por estudantes, intelectuais, artistas e um público interessado em conhecer o pensamento da esquerda. Não à toa: em pouco tempo o italiano começou a publicar o que chamava de “manuais de cultura social”, isto é, livros que apresentam os clássicos anarquistas e comunistas, de Malatesta a Bakunin, de Marx a Lenin.
               Pioneira na difusão do pensamento libertário no Brasil, a editora se abre aos poucos à publicação de outros autores. Até porque o estado de sítio introduzido por Vargas após o levante comunista de 1935 aumenta a vigilância policial sobre a livraria e seus volumes. No Brasil daqueles anos, não era confortável a situação dos refugiados italianos antifascistas: além da desconfiança de longa data das autoridades contra expoentes de movimentos e partidos de esquerda, o Estado Novo incrementa a repressão a comunistas e aliados, além de implementar uma legislação que busca disciplinar a presença dos estrangeiros no território nacional. Mais tarde, com a entrada do país na Segunda Guerra Mundial contra as forças do Eixo, o simples fato de ser italiano tornaria o indivíduo suspeito. Nesse período, muitos exilados do fascismo sofrem restrições, inquéritos policiais, prisões e expulsões. O próprio Garavini é obrigado em 1942 a encerrar a atividade editorial, silenciando seus ideais e projetos.
               Além dos exilados que escolheram o Brasil como refúgio em tempos de perseguição, vários membros da colônia italiana se empenharam no esforço de propaganda e luta contra o fascismo. Um deles, chegado ao Rio ainda em 1911, na esteira das tradicionais correntes migratórias, foi o genovês Giuseppe Scarrone. Mestre vidreiro, ele deixou a Itália aos 52 anos, após o enésimo boicote à sua atividade por parte das famílias locais que detinham o cartel da produção. A militância socialista explica seu ostracismo, e o caso demonstra como na figura do emigrante – e na do refugiado – as razões políticas ou religiosas misturam-se frequentemente com motivos econômicos.
               Na capital federal, Scarrone monta a Fábrica Nacional de Vidros no bairro de Vila Isabel, que chega a contar com 500 operários. Ali tenta implementar uma forma de cooperativa de divisão dos lucros com os trabalhadores e os clientes, à luz de seus ideais socialistas, numa experiência que dará certo durante alguns anos. Enquanto isso, produz dezenas de opúsculos, cartas abertas e livrinhos contra o fascismo. É ele mesmo quem escreve, manda imprimir em numerosos exemplares e os envia à Itália, para particulares e autoridades. A ousadia lhe rende, em 1926, uma condenação a dois anos e meio de prisão pela Justiça italiana. O empresário não mais poderá retornar à sua pátria.
               Em carta aos parentes, Emma, esposa de Garavini, resume os sentimentos dos antifascistas em terra brasileira. “Partimos há cinco anos, mas não esquecemos nem um momento do que vocês tiveram que sofrer, amordaçados, atordoados pelo hábito diário da obediência que não encontra consentimento na consciência... Sabemos de tudo, das violências, das bárbaras sentenças, do confinamento, tudo o que de mais feroz um governo pode usar para se sustentar”, escreve.  A vida refugiada, mesmo renovada, não comporta esquecimento.

MARCELLO SCARRONE É PESQUISADOR DA REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL E AUTOR DA TESE “NELLO, LIBERO E GIUSEPPE: DO RIO CONTRA MUSSOLINI. PERCURSOS POLÍTICOS DO ANTIFASCISMO ITALIANO NA CAPITAL FEDERAL (1922-1945)”, (UFRJ, 2013).

Fonte: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL - ano 11 - nº 124 - junho 2016

Saiba Mais – bibliografia
BERTONHA, João Fábio. “Sob a sombra de Mussolini. Os italianos de São Paulo e a luta contra o fascismo, 1919-1945”. São Paulo: Fapesp/ Annablume, 1999.
DROZ, Jacques. “Histoire de l’antifascisme en Europe (1923-1939)”. Paris: La Découverte, 2001.
TRENTO Angelo. “Do outro lado do Atlântico. Um século de imigração italiana no Brasil”. São Paulo: Istituto Italiano di Cultura/ Nobel, 1989.


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sexta-feira, 3 de julho de 2020

De olhos bem fechados

Durante a Segunda Guerra, governo brasileiro não se sensibilizou com o drama dos refugiados do nazismo
FÁBIO KOIFMAN
               Disseminado pela mídia, o drama dos refugiados na Europa comove o mundo. As tentativas desesperadas de fuga e a busca por abrigo em outros países geram relatos e imagens aterradores. Tamanha quantidade de gente forçada a abandonar seu lar por conta de conflitos e perseguições político-religiosas motiva comparações com o período da Segunda Guerra Mundial. Naqueles tempos o mundo fechava as portas aos refugiados, e a falta de solidariedade de então não ajudou a impedir um número assombroso de mortes. Em fins da década de 1930, países de todo o mundo adotavam políticas de restrição à imigração, o que acabaria contribuindo, por omissão e indiretamente, para o Holocausto perpetrado pelos nazistas: cerca de 6 milhões de judeus se tornaram vítimas da política de extermínio de Adolf Hitler. Inicialmente seu objetivo era “livrar a Europa” da presença judaica, ou seja, expulsar todos os judeus do continente. A opção pela execução sistemática veio em meados de 1941, e a chamada “Solução Final” – aniquilação total dos judeus nos territórios ocupados pelo Estado alemão – somente em janeiro de 1942, depois que os nazistas tiveram a certeza de que nenhuma nação receberia aqueles que desejavam expulsar.
               Entre os países com fronteiras fechadas aos judeus estava o Brasil. Se atualmente recebemos refugiados sem nos pautarmos por critérios raciais, no tempo da Segunda Guerra a política imigratória era seletiva e restritiva. A imigração era depositária das esperanças de parte das elites em “melhorar a composição étnica da população”.
               Excetuando as chamadas nações indígenas e seus descendentes, os demais habitantes do Brasil têm ancestrais de fora do continente – sejam eles africanos que vieram na condição de escravos ou europeus exploradores e imigrantes. Ao longo de alguns séculos, os africanos e seus descendentes se tornaram a maior parte da população. Mesmo antes do fim da escravidão, no século XIX, o contingente de negros no país preocupava as elites dirigentes, que se consideravam brancas e culturalmente ligadas às nações europeias. O incentivo à vinda de imigrantes europeus nas últimas décadas daquele século tinha como propósitos substituir a mão de obra escrava e contribuir para o projeto de “branqueamento” da população.
               Tal política teve continuidade no início da República. O novo século trouxe a paulatina absorção de um discurso de aparência científica para justificar projetos de evidente concepção racista. Boa parte dos intelectuais atribuía o atraso do país à “má formação étnica” dos brasileiros. Com o passar das décadas, acreditaram que o imigrante branco se assimilaria aos habitantes não brancos e que essa miscigenação tornaria a população mais clara e, portanto, mais próxima das nações desenvolvidas.
               Mesmo com diferentes pontos de vista, os defensores das teses de branqueamento identificaram-se com o eugenismo, que por aqui ganhou conotação e propostas específicas. Em 1929, o movimento eugenista brasileiro definiu a imigração como boa solução para a “melhoria da composição étnica do povo” e, graças ao seu lobby junto aos constituintes de 1934, conseguiu fazer implantar na Constituição um regime de cotas – cujo principal alvo de restrições eram os imigrantes japoneses. Ao longo do primeiro governo de Getulio Vargas (1930-1945), outros projetos dessa natureza foram colocados em prática. Em discurso de 1932, o presidente mostrou- se favorável ao “aperfeiçoamento eugênico da raça” para “apressar o progresso do país”. Seu governo seguiria essas premissas, acabando por afetar o destino dos refugiados judeus.
               Com a ascensão do nazismo em 1933, a política imigratória passava cada vez mais a ocupar a cúpula do Estado. E entre as justificativas para transformar os judeus em imigrantes indesejáveis estava a “infusibilidade” dessas pessoas: eles seriam inassimiláveis, por não contribuírem para o branqueamento da nação.
               Como os judeus viviam em diferentes países da Europa e o sistema de cotas estabelecido em 1934 não especificava a origem étnica dos indivíduos, alguns meses antes da instauração da ditadura do Estado Novo, em 1937, o governo brasileiro produziu a primeira das Circulares Secretas destinadas a orientar a restrição da emissão de vistos para estrangeiros de origem judaica. Até 1945, outras circulares e decretos foram publicados com o fim específico de impedir que estrangeiros considerados indesejáveis fossem recebidos na condição de imigrantes.
               Desde a eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, a Europa vinha enfrentando o aumento da pressão pelo recebimento de refugiados internos. Com o avanço dos exércitos alemães sobre o continente, as ameaças e as perseguições perpetradas pelo nazismo espalhavam-se velozmente, levando cada vez mais pessoas a buscar desesperadamente países que lhes pudessem conceder refúgio e asilo.
               No Brasil, mesmo com as restrições impostas pelo Estado Novo, o contingente de estrangeiros que conseguiam entrar no país (por vezes utilizando-se de vistos temporários) seguiu aumentando até os primeiros meses de 1941. Favorecia-lhes o fato de o governo manter a política imigratória de inspiração eugenista, afinal, novos imigrantes eram considerados necessários ao desenvolvimento do país. A seleção implicava aspectos subjetivos e pouco precisos, o que tornava complexa a tarefa dos cônsules. E havia exceções que permitiam conceder vistos mesmo para os estrangeiros considerados “infusíveis”. Imigrantes “capitalistas” – ou seja, indivíduos com condições de realizar transferência de capital elevado – eram bem vindos, assim como pessoas de comprovada formação acadêmico-científica, que poderiam contribuir para o desenvolvimento do país.
               Essas brechas, porém, geraram críticas de setores do governo e da imprensa ao Ministério das Relações Exteriores, apontado como incompetente na tarefa de restringir a entrada de imigrantes indesejáveis. Se já a partir de 1938 o Brasil dera início a uma política imigratória altamente restritiva e controladora, as fronteiras se fechariam ainda mais com um decreto de 1941, que tirou do Itamaraty e passou para o Ministério da Justiça a responsabilidade de emitir vistos temporários ou permanentes. A partir de então, a imensa maioria dos que tentavam obter um visto em qualquer representação consular brasileira recebia um não diretamente. Raríssimos foram os diplomatas que se sensibilizaram com o drama dos refugiados do nazismo e emitiram vistos a despeito da orientação do governo Vargas – caso do embaixador brasileiro na França, Luiz Martins de Souza Dantas. Aquele ano também foi especialmente significativo em relação ao número de estrangeiros impedidos de desembarcar nos portos brasileiros por serem judeus. Em um único caso, no mês de outubro, cerca de 100 passageiros foram impedidos de desembarcar. Vinham em dois navios, Cabo de Boa Esperança e Cabo de Hornos, e tiveram que rumar para Buenos Aires e outros portos ao sul. Impedidos também de desembarcar ali, iam ser devolvidos à Europa quando uma negociação internacional logrou obter autorização para desembarque temporário na da ilha caribenha de Curaçao.
               Parte dos historiadores afirma que a política imigratória adotada pelo Brasil antes e durante a Segunda Guerra estaria influenciada pelo ideário nazi-fascista. Se isto de fato ocorreu, a quebra das relações diplomáticas com o Eixo, em 1942, deveria ter produzido mudanças no controle de entrada de estrangeiros no país. As evidências, no entanto, indicam que isto não ocorreu. Ao mesmo tempo, com o início da “Solução Final” adotada por Hitler, diminuiu drasticamente o número de pessoas ainda em condições de solicitar asilo, pois a política nazista impedia que os grupos perseguidos saíssem da Europa.
               Novas levas de imigrantes voltaram a procurar o Brasil após o fim da guerra. Mesmo com o término da ditadura Vargas, a política imigratória continuava semelhante ao período do Estado Novo: interessada em imigrantes considerados de boa fusibilidade. Os judeus já não significavam um “problema”: com a derrota do nazismo, sair da Europa não era mais uma questão de sobrevivência física e, a partir de 1948, com a criação do Estado de Israel, ficou afastada qualquer possibilidade de pressão internacional para que o Brasil recebesse mais refugiados daquele grupo.
               Oitenta anos depois do contexto histórico que levou ao Holocausto, são muitas as diferenças do quadro atual. Ainda assim, a responsabilidade humana em evitar a ocorrência de novos genocídios nos chama a perceber continuidades: a persistência de preconceitos e intolerância contribui para que, ainda hoje, muitos países do mundo se neguem a ampliar sua política de recepção a refugiados.

FÁBIO KOIFMAN É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DO RIO DE JANEIRO E AUTOR DE QUIXOTE NAS TREVAS: O EMBAIXADOR SOUZA DANTAS E OS REFUGIADOS DO NAZISMO (RECORD, 2002) E IMIGRANTE IDEAL: O MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E A ENTRADA DE ESTRANGEIROS NO BRASIL (1941-1945), (CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, 2012).

Fonte: REVISTA DE HISTÓRIA DA BIBLIOTECA NACIONAL - ano 11 - nº 124 - junho 2016

Saiba Mais – bibliografia
BARROS, Orlando de. Preconceito e educação no Governo Vargas (1930-45). Capanema: Um episódio de intolerância no Colégio Pedro II. Rio de Janeiro: Cadernos avulsos da biblioteca do professor do Colégio Pedro II, 1987.
LESSER, Jeffrey H. O Brasil e a Questão Judaica: Imigração, diplomacia e preconceito. Rio de Janeiro: Imago, 1995.
MILGRAM, Avraham. Os Judeus do Vaticano. Rio de Janeiro: Imago, 1994.
SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.            

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