“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sábado, 1 de novembro de 2014

A voz que vem dos campos

Francisco Julião foi o mentor das Ligas Camponesas, que influenciaram o Movimento dos Sem-Terra.
     Advogado que adorava causas perdidas, Francisco Julião se engajou na luta dos camponeses como quem atende a um chamado do destino: por inteiro e sem a menor disposição para concessões. Filho de uma família católica de donos de engenho, Francisco Juliano (que ele mudaria para “Julião”) Arruda de Paula nasceu em 16 de fevereiro de 1915 no Engenho Boa Esperança, na cidade de Bom Jardim, Pernambuco. Elegeu-se deputado estadual em 1954, pelo PSB. Pouco depois, foi procurado por uma comissão de moradores do Engenho Galileia, no município de Vitória de Santo Antão, que haviam criado uma associação de camponeses, e por isso estavam ameaçados de despejo pelo proprietário. Entre os fundadores estava um antigo integrante do Partido Comunista Brasileiro, José dos Prazeres.
    Nos anos 1940, o PCB havia criado entidades rurais com o nome de “ligas”, extintas na mesma década sem nunca terem alcançado projeção. Os objetivos da organização surgida no Galileia, porém, eram pontuais e localizados, como a criação de uma cooperativa financeira para empréstimos e auxílio funerário. Julião recebeu a comissão e prometeu ajudar os camponeses. Foi o encontro da chispa com a palha seca, disse o escritor Antonio Callado (1917-1997) em uma série de reportagens publicadas no Correio da Manhã entre 10 e 13 de setembro de 1959.
     Julião providenciou a papelada para legalizar a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco (SAPPP), e no dia 1º de janeiro de 1955 visitou o engenho para sacramentar o ato. No mesmo ano, a SAPPP começou a ser chamada de “liga” por deputados estaduais conservadores e pela imprensa do Recife. Era uma tentativa de estabelecer uma ligação entre a nova associação e as antigas “ligas” do PCB. Mas Julião intuiu a força do nome e o adotou para o movimento.
     Ele escreveu seis livros, sendo dois de ficção: um de contos, Cachaça (1951), elogiado pelo sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), e um romance, Irmão Juazeiro (1961). Foi o único líder brasileiro que reivindicou para si a definição de “agitador”, como se vê no livro Cambão, que lançou no México em 1968: “Agitador, sim! Como é possível conceber a vida sem agitação? Porque o vento agita a planta, o pólen se une ao pólen de onde nasce o fruto e se abotoa a espiga que amadurece nas searas. Manda o médico que se agitem certos remédios no momento de tomá-los e o farmacêutico chega a escrever nas bulas este aviso: ‘Agite antes de usar’”. E arrematava: “O crime não está em agitar, mas em permanecer imóvel”.
     A agitação foi o meio que encontrou para dar visibilidade e capacidade de pressão aos camponeses. No início da década de 1960, dos vinte e dois estados existentes no Brasil, havia núcleos do movimento em treze. Um dos principais fatores para a expansão nacional das Ligas foi a facilidade com que podiam ser fundadas. Eram legalmente uma sociedade civil de direito privado; bastava reunir um grupo de camponeses, aprovar o estatuto, eleger a diretoria e registrar tudo no cartório da cidade. 
     A partir de 1961, as Ligas radicalizaram e adotaram o slogan “Reforma agrária na lei ou na marra”
. Estreitaram-se as ligações do movimento com Cuba. Julião visitou o país duas vezes. Tornou-se amigo de Fidel Castro e um aguerrido defensor do seu governo. Eleito deputado federal em 1962, teve o mandato cassado na primeira lista após o golpe civil-militar de 1964. Escreveu então um manifesto encaminhado ao escritor uruguaio Eduardo Galeano, que publicou o texto no semanário Marcha, em 24 de abril daquele ano. Julião convocava o povo a resistir ao golpe e defender a Constituição “de armas na mão”.
       Foi preso em 3 de junho de 1964, no interior de Goiás. Posto em liberdade em  27 de setembro do ano seguinte por força de um habeas corpus, seguiu para o exílio no México. Em um dia de 1976, um bolsista brasileiro que estudava lá o procurou. Fez duas perguntas-chave: o que dera certo e o que dera errado com as Ligas Camponesas? Julião se queixou da falta de formação de quadros, da infiltração de elementos de direita no movimento, e falou da necessidade de autonomia da organização em relação aos partidos. O estudante se chamava João Pedro Stédile. O Movimento dos Sem-Terra (MST) foi fundado oito anos depois daquele encontro, tendo o antigo bolsista como um dos seus principais líderes. “O MST se considera um descendente, um seguidor das Ligas Camponesas”, afirma Stédile hoje.
    No exílio, Julião vivia pobremente, dando palestras e escrevendo artigos. Em sua casa, na periferia de Cuernavaca, não havia luz elétrica; a iluminação era à base de velas e de lampião. Por lá passaram figuras como o então senador chileno Salvador Allende (1908-1973), que em 1965 pôs discretamente mil dólares no bolso de um paletó de Julião, pendurado numa cadeira, e o escritor colombiano Gabriel García Márquez, de quem o líder camponês era amigo. Os dois planejaram escrever em 1978 um livro sobre a Revolução Mexicana (1910-1920), que nunca se concretizou. 
     Quando retornou ao Brasil, em 1979, Julião se filiou ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), fundado por Leonel Brizola. Em 1986, na primeira eleição que disputou após a volta do exílio, candidatou-se a deputado federal por Pernambuco, mas tomou uma decisão que ninguém entendeu: apoiou o candidato a governador pelo Partido da Frente Liberal (PFL) – atual Democratas (DEM) –, o usineiro José Múcio Monteiro, hoje ministro do Tribunal de Contas da União. Mas o candidato pelo PMDB, Miguel Arraes (1916-2005), foi eleito. Divergências entre Brizola, ligado ao trabalhismo e ao getulismo, e Arraes, defensor de que a antiga oposição ao regime militar se unisse em uma Frente em vez de dividir-se em pequenos partidos, podem ter sido a razão da escolha de Julião. O fato é que ele teve uma votação irrisória – menos de quatro mil votos – e saiu de cena.
     Atuou discretamente no PDT e depois retornou ao México. Morava na periferia de uma pequena cidade, Tepoztlán, num apartamento alugado, construído sobre a laje de uma mercearia, quando sofreu um infarto no dia 10 de julho de 1999. Foi cremado e suas cinzas permanecem com a mulher com quem estava casado, a mexicana Marta Rosas Julião.
     Aos 84 anos, distante do seu povo, pobre e isolado numa cidadezinha mexicana, morria um agitador do Brasil.


Vandeck Santiago é jornalista e autor de “Francisco Julião – Vida, paixão e morte de um agitador” (Assembleia Legislativa de Pernambuco, 2001) e de “Francisco Julião, as Ligas e o golpe militar de 64” (Comunigraf, 2004).

Saiba Mais - Bibliografia
AZEVEDO, Fernando Antônio. As Ligas Camponesas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
AZEVEDO, Fernando Antônio. “Revisitando as Ligas Camponesas”, in O golpe de 1964 e o regime militar. São Carlos: EdUFSCar, 2006.
STÉDILE. João Pedro (org.). A questão agrária, v. 4. São Paulo: Expressão Popular, 2006.

Saiba Mais - Filmes
Cabra Marcado Para Morrer
No início da década de 60, João Pedro Teixeira, líder da liga camponesa de Sapé (Paraíba), é assassinado por ordem dos latifundiários do Nordeste. As filmagens de sua vida, interpretada pelos próprios camponeses, foram interrompidas pelo golpe militar de 31 de março de 1964. Dezessete anos depois, o diretor Eduardo Coutinho retoma o projeto e procura a viúva Elizabeth Teixeira e seus dez filhos, espalhados pela onda de repressão que seguiu ao episódio do assassinato. O tema principal do filme passa a ser a trajetória de cada um dos personagens que, por meio de lembranças e imagens do passado, evocam o drama de uma família de camponeses durante os longos anos do regime militar.
Direção: Eduardo Coutinho
Ano: 1984
Áudio: Português
Duração: 120 minutos

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