"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O eunuco do Morro Redondo

Um drama real em Pernambuco no ano de 1936: a castração executada pelo cangaceiro Virgínio Fortunato, cunhado de Lampião.
Frederico Pernambucano de Mello
"Lampião, que exprime o cangaço, é um herói popular do Nordeste. Não creio que o povo o ame só porque ele é mau e bravo. O povo não ama à toa. O que ele faz corresponde a algum instinto do povo (...). As atrocidades dos cangaceiros não foram inventadas por eles, nem constituem monopólio deles. Eles aprenderam ali mesmo, e, em muitos casos, aprenderam à própria custa." Rubem Braga, O conde e o passarinho. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1935.
          O dia 19 de maio de 1936, uma terça-feira, poderia ter sido igual a todos os outros no povoado do Morro Redondo, distrito de Catimbau, do município do Buíque, Pernambuco, com a população - toda ela conhecida entre si, quando não aparentada ou unida pelo compadrio - entregue às tarefas cotidianas da vaqueirice e do trato do algodão e da mamona. Pelas duas horas da tarde, quase todos já tinham almoçado, o silêncio é quebrado desde longe por aboios e rinchos de jumento, num crescendo de tropel de cavalos em disparada. Todos atribuem a aproximação rápida a vaqueiros, com seus chapelões de couro, e se tranquilizam, ainda que curiosos por tanto barulho tão de repente.
          Logo os fatos iriam mostrar que estavam enganados, que não se tratava de vaqueiros farreando alegremente e que o lugarejo humilde, arredado do mundo e até mesmo das trilhas do cangaço, estava sendo ocupado por uma das frações mais brutais do bando de Lampião, comandada pelo cunhado do chefe, o não menos famoso cangaceiro Virgínio Fortunato, o Moderno. Com dez pessoas, oito homens e duas mulheres, todos a cavalo - o que denotava estarem seguros da ausência da polícia -, deslocavam-se divididos taticamente em três grupos separados entre si por cerca de quinhentos metros. No "coice", apenas o chefe Virgínio, em companhia das mulheres, inclusive a sua própria, a bela Durvalina Gomes, a Durvinha, a quem a cabroeira tratava por Maria Bonita para disseminar o pavor de que Lampião, em pessoa, estivesse por perto, e mais Rosalina, a Doninha, mulher do cabra Rio Branco. O cangaceiro Moreno, de coragem comprovada, lugar-tenente do chefe, fazia a "cabeceira" ou vanguarda com mais dois cabras. Todos tinham se juntado momentaneamente para a tropeada em direção ao Morro Redondo, cientes de que surpresa e pavor eliminam reações. Ali estavam, além de chefe e lugar-tenente, os cangaceiros Chumbinho, Jararaca, Ponto Fino, Serra de Fogo, Canário e Rio Branco. No mato, à espreita para possível ação de "retaguarda", o cabra Azulão.
          As missões de rapina, chamadas pelos cangaceiros de "volantes", para mexer com os policiais que denominavam assim as suas tropas móveis, não eram incursões aleatórias. Algum planejamento as antecedia, assuntando-se sobre a abertura dos caminhos, locais sujeitos a tocaia, presença de força policial próxima e, sobretudo, o levantamento dos ricos da terra. Não foi surpresa que entrassem na rua trazendo preso, montado em um cavalo, o capitalista do lugar, Firmino Cavalcanti, mais conhecido como Firmino de Salvador, dominado, com o irmão, o velho Epifânio, em seu sítio de nome Breu, um centro algo próspero de agricultura e de compra de couros e cereais. Muito ao estilo do bando de Lampião, vinham presos a resgate, cumprindo às famílias, além de levantar o dinheiro, arranjar um "positivo" de coragem que viajasse até encontrar o grupo e resgatar a vítima. Uma dificuldade, se considerarmos, além de tudo, que esse resgate não era menor do que a quarta parte do valor de um automóvel à época, podendo ir, em alguns casos, ao dobro de tal valor. O equivalente a dois carros pela vida de fazendeiro próspero foi moeda comum no sertão dos anos 20 e 30 do século passado. No tempo de Lampião.
          Os bandidos, ágeis, saltam dos cavalos e vão ganhando as casas a chicotear a todos pela frente, aqui e acolá brandindo o coice dos fuzis sobre os mais apavorados, lançando ameaças, nivelando a população pelas denominações comuns de "fi' da peste", "fi' d'ua égua", "cão", "amancebado", "descarado", ditas em altas vozes. O cangaceiro Serra de Fogo impressiona por gritar a cada instante: "Veja logo o dinheiro pr'eu não ser mais ruim do que já sou!" Outra marca negativa vem das mulheres cangaceiras, que não poupam os chicotes no rosto e no lombo dos mais próximos, numa ação de gênero de todo incomum nos sertões.
          O chefe Virgínio, faiscando de ouro sobre o traje colorido e imponente, se exalta por não encontrar em casa o filho do prisioneiro Firmino, a quem incumbiria, no plano traçado, ir ao Buíque levantar o dinheiro do resgate. O jovem Pedro de Albuquerque Cavalcanti se achava no mato, "dando campo", no traquejo do gado da família. No bando havia dez anos, desde que enviuvara de uma irmã de Lampião morta pela peste bubônica no Juazeiro do padre Cícero, Virgínio desce do burro e entra na casa de Pedrinho Salvador - como era conhecido - advertindo a mulher deste, dona Ester, com palavras graves. Botando os olhos muito vermelhos sobre ela, recomenda que Pedrinho "vá ver o dinheiro no Buíque assim que chegar". E se recosta numa mesa, servindo-se de cerveja quente, cara fechada, importante, consciente de seu poder absoluto. Chumbinho bota a cara bexigosa na janela, avisando o chefe de que as montarias estavam cansadas. Este, numa demonstração de que o absolutismo tinha limite, recomenda cuidado na devolução dos cavalos, "porque tem um que é do coronel Arcelino de Brito".
          Saindo à ruazinha de lama, Virgínio divisa entre os curiosos um rapaz alto, magro, 22 anos de idade, caboclo quase índio, a quem se dirige com energia: "Venha cá, cabra! Se correr, morre!" O jovem, que jamais vira um cangaceiro em sua frente, se aproxima sem receio, sendo-lhe indagado se era da terra, ao que responde afirmativamente. Segue-se nova pergunta: "Você sabe onde fica o Xilili? Quero que você me bote na estrada que vai pra lá. E vamos logo, cabra!" Para sua surpresa, o jovem - que sabia onde ficava o lugar levado pela ingenuidade põe-se na frente dos animais e responde que ignorava aquele rumo.
          O chefe cangaceiro se enfurece, risca o cavalo novo em que se montara e grita não entender como alguém dali não conheça o lugar procurado, próximo de onde se encontravam. Atordoado, o jovem mantém a negativa implausível. E o mundo lhe desaba sobre a cabeça, todo o seu futuro vindo a se definir nos poucos minutos que se seguem. É arrastado pelos cabras para trás de uma cerca, derrubado no chão a coice de fuzil e fica à espera do chefe, numa eternidade de segundos. Virgínio apeia calmamente, calça umas luvas amarelas e vai até às mulheres pedindo que procurassem uma sombra porque tinha que fazer "um serviço". Uma delas lhe atira no rosto sem nenhum respeito: "Que tanto 'serviço' é esse, rapaz! Chega de tanto 'serviço'!".
          Sem se alterar, o chefe vai até onde estava o jovem, levanta-o pela abertura da camisa, encara-o, e sentencia com uma dureza de Velho Testamento: "Eu agora vou fazer um 'serviço' em você mode você não deixar descendença de famia em riba do chão. Desça as calças!" O rapaz cobre o rosto e cai, compreendendo finalmente no que se metera. Sai o grito: "Valha-me Nossa Senhora!" E a resposta incrível: "Ah, não tem o que fazer. É Nossa Senhora mesmo que está mandando". O punhal longo corre rápido pela virilha da vítima e estoura o cinturão com movimento de alavanca. Calças arriadas, Virgínio ordena: "Segure [os testículos] senão eu toro com tudo [com o pênis]". Embainha o punhal de quatro palmos e dois dedos - seria perdido horas depois e recolhido à delegacia do Buíque - e bate mão de uma "peixeira", faca ainda pouco conhecida no sertão à época. Um golpe só e o bandido tem nas mãos bolsa e testículos do jovem. Caminha, ainda lentamente, reingressa no arruado e chega à porta de dona Ester, com as mãos em concha ensanguentadas, e diz, educadamente: "Dona, eu tinha visto que a senhora tava com feijão no fogo. Quer os colhões de um porco?" E despeja tudo na panela de barro, sem esperar resposta. O feijão espuma. A mulher agradece. Virgínio sai e vai juntar-se aos companheiros. Risadagem. De cima do cavalo, dirige-se ao jovem caído, a perder muito sangue, e receita exatamente a assepsia eficaz da vaqueirice: "Bote sal, cinza e pimenta!".
          O lugar-tenente Moreno volta da rua, onde se detivera a ameaçar com o mesmo "serviço" ao também jovem Antônio Leite Cavalcanti, o Antônio Grosso, e ao prisioneiro Epifânio que, velho e desiludido do futuro, reage duramente ao bandido, caindo-lhe na admiração. Moreno grita na rua: "Oh, veio macho! Ninguém me toca mais num fio de cabelo dessa onça... Só assim eu vou sabendo que muié pariu home no Morro Redondo!".
          No dia 25 de maio, vindo de Rio Branco (atual Arcoverde) na segunda classe do trem da Great Western, o jovem Manuel Luís Bezerra, o "Mané Lulu", filho de Francelina e Luís Bezerra, naturais, como o filho, ali mesmo do Catimbau do Buíque, chegava ao Recife, ficando por um mês no Serviço de Pronto-Socorro, após o que voltaria a pé para a sua residência. O Morro Redondo ganhava uma espécie de eunuco.
          O leitor que toma partido gostará de saber que o chefe Virgínio não viverá muito tempo mais para debochar de sua vítima nas passagens pelo Morro Redondo, amiudadas a partir de então, indagando como ia o "protegido" de saúde e se voltara a namorar... Em outubro desse mesmo 1936, quando procurava os Cariris Velhos, na Paraíba, para se furtar à ação das forças policiais assanhadas pelo ataque de 28 de setembro à vila de Piranhas, no sertão alagoano do São Francisco, passa a ser seguido a distância, nem bem cruzara a divisa, pelo destacamento policial da vila de Inajá, Pernambuco, de apenas quatro soldados, sob o comando do cabo Pedro Alves, um perseguidor experiente de cangaceiros, com mortes nas costas. A aproximação se fazia difícil por conta do número elevado de bandidos: trinta homens e três mulheres, acoplados os bandos de Corisco, com ele mesmo à frente e sua mulher, Dadá, o de Virgínio, completo, mais os remanescentes do grupo de Gato, morto em Piranhas.
          O jogo de gato e rato às avessas - rato enorme, gato minúsculo - segue pelas areias do Moxotó por dois dias, até que num baixio próximo da sede da Fazenda Rejeitado, sul do município pernambucano de Alagoa de Baixo (hoje Sertânia), quando, a bem dizer, já avistavam a Paraíba, os bandidos levam uns poucos tiros, dados de longa distância. Uma longa distância que nunca fora problema para o fuzil Mauser, modelo 1908, regulamentar na volante pernambucana. Pedro Alves e o soldado Pompeu Aristides de Moura, um filho de cangaceiro da ribeira do Navio, tinham ficado sós no momento em que acertavam a tática de atirar "no cabra mais vistoso" e correr para a caatinga, livrando-se do retruque que sabiam violento e rápido. Estava ali a nata do cangaço. E é assim que Virgínio, alto, elegante, grisalho, com uma cartucheira de ombro faiscante de balas a lhe cingir o tórax em diagonal, encontra a morte com apenas um tiro que abre a face interna da coxa e expõe a veia femoral. Sentado ao pé de uma quixabeira, a se esvair em sangue, encontra tempo para se despedir de cada um dos companheiros. Os soldados mergulham na caatinga como veados, debaixo de um chuveiro de balas. Seriam premiados pela ousadia: cabo passando a sargento, e soldado, a cabo.
          No dia seguinte, outros soldados vão ao local para o levantamento do cadáver mal sepultado na pressa, arrancando os dentes de ouro do finado a coice de fuzil, à falta de qualquer outro despojo, tudo conduzido pelo bando na véspera. Um dos soldados, do destacamento do Buíque, conhecedor do episódio do Morro Redondo, corta uma orelha do morto famoso. Cunhado de Lampião. Com uns dias, cavando possível agrado, leva a peça salgada para Manuel Luís, que se recusa a ficar com esta, mas não a escutar toda a história da morte de seu algoz.
          Passados 51 anos da tragédia, Manuel Luís ainda se emociona. Segura no braço do entrevistador e diz baixinho: "Foi o dia mais feliz da minha vida!".
          Duas observações para finalizar. Interessa pouco enquadrar o cangaço como expressão de criminalidade, embora isto seja perfeitamente possível no plano jurídico. O caráter público, ostensivo e franco da ação do cangaceiro - a partir do próprio traje - nos remete para algo mais profundo, anterior à própria ideia de lei na colônia surgida em 1500. E ligado continuamente, ao longo de cinco séculos, ao que temos considerado o mito primordial brasileiro, expresso na frase dos primeiros reinóis que viram os habitantes do Brasil e que, submetidos à dupla dominação, a do papado romano e a da Coroa portuguesa, encantaram-se em relatar para a Europa terem encontrado homens iguais a si, mas superiores num ponto capital: "eles vivem sem lei nem rei e são felizes".
          E agora uma constatação. Também uma curiosidade. Todo o quadro de punições do cangaço não é senão a transposição para a subcultura cangaceira de procedimentos empregados pelo vaqueiro no dia a dia do trato com o gado. Assim, o "sinal", a individualizar por cortes nas orelhas o gado pequeno, a ovelha ou a cabra, a "miunça" do falar sertanejo. Ou o "ferro", a queimar o pelo do gado graúdo, deixando a marca indelével do dono. Ou, ainda, o "sangramento" do gado miúdo, pela introdução de instrumento perfurante. Ou, por fim, a "capação", aqui relatada, em tudo similar à que se faz com o bode, por exemplo. Quase dono do mundo, vivendo sem lei nem rei como seus ascendentes de cinco séculos, o cangaceiro confirmava com gestos a condição assumida de vaqueiro de gente, sobranceiro e, por vezes, desligado da categoria da morte, a se levar a sério o que cantava a gesta.

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor de Guerreiros do sol violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004. O autor agradece à equipe do posto médico do Catimbau do Buíque, Pernambuco, o apoio que lhe permitiu, quando do levantamento dos fatos aqui narrados, fazer a constatação anatômica da lesão sofrida por Manuel Luís Bezerra.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião: o rei dos cangaceiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.
LIMA, Estácio de. O mundo estranho dos cangaceiros. Salvador: Itapoã, 1965.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife - Zurich: Stàhli Edition, 1993.


Saiba Mais – Filme
Baile Perfumado
Amigo íntimo do Padre Cícero, o mascate libanês Benjamin Abrahão decide filmar Lampião e todo seu bando, pois acredita que este filme o deixará muito rico. Após alguns contatos iniciais ele conversa diretamente com o famoso cangaceiro e expõe sua ideia, mas os sonhos do mascate são prejudicados pela ditadura do Estado Novo.
Direção: Lírio Ferreira, Paulo Caldas
Ano: 1996
Áudio: Português
Duração: 93 minutos





Saiba Mais – Link

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Abaixo a vacina!

Há exatamente um século, o carioca liderava a maior revolta urbana a que o Rio de Janeiro já assistiu, dizendo "Não!" à obrigatoriedade da vacina contra a varíola e à invasão de seus lares imposta pelo governo.
José Murilo de Carvalho
          Com 800 mil habitantes, o Rio de Janeiro de 1904 era uma cidade perigosa. Espreitando a vida dos cariocas estava todo tipo de doenças bem como autoridades capazes de promover, sem qualquer cerimônia, uma invasão de privacidade. Tuberculose, febre amarela, peste bubônica, varíola, malária, tifo, cólera e outras enfermidades contagiosas vitimavam a população e assustavam os estrangeiros. A capital da jovem República era uma vergonha para a nação. Desmentindo o apelido de "Soneca", o presidente Rodrigues Alves decidiu agir rápido. Iria acabar com esse vexame e ao mesmo tempo embelezar a cidade nos seus quatro anos de governo (1902-1906). Para essa dupla tarefa, convocou, respectivamente, o sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) e o engenheiro Pereira Passos (1836-1913).
          Com suas políticas de saneamento, Oswaldo Cruz mexeu com a vida de todo mundo, sobretudo dos pobres. Em junho de 1904, o governo propôs uma lei que tornou obrigatória a vacinação, motivando petições contrárias assinadas por cerca de 15 mil pessoas. A lei foi aprovada em 31 de outubro; no dia 9 de novembro, Oswaldo Cruz propôs uma drástica regulamentação, exigindo comprovantes de vacinação para matrículas em escolas, empregos, viagens, hospedagens e casamento. Estava até previsto o pagamento de multas para quem resistisse. A proposta vazou para a imprensa e, indignado, o povo do Rio disse não, na maior revolta urbana já vista na capital. O motim começou no Largo de São Francisco, em torno da estátua de José Bonifácio. Estudantes protestavam contra a vacina, quando um delegado de polícia prendeu um deles, levando-o para a Praça Tiradentes, onde ficava a Secretaria de Justiça. Houve confrontos entre os manifestantes e a cavalaria. Foi então que se ouviram os primeiros gritos de "Morra a polícia!", "Abaixo a vacina!". Isso, já no dia 10, uma quinta-feira, quando a regulamentação de Oswaldo Cruz sequer havia sido aprovada. No dia 11, repetiram-se os protestos. No dia 12, segundo o Correio da Manhã, 4 mil pessoas, "de todas as classes sociais", concentraram-se no Centro das Classes Operárias, na Rua do Espírito Santo - atual Rua Pedro I -, próximo à Praça Tiradentes, para fundar uma Liga Contra a Vacina Obrigatória. Depois, a multidão seguiu rumo ao Palácio do Catete, já fortemente guardado, trocando tiros com a polícia no caminho. O Exército entrou em prontidão.
          No dia 13, um domingo, a revolta se generalizou. A Praça Tiradentes virou campo de batalha. Partindo de lá, a luta se estendeu por toda a região entre o Largo de São Francisco e a Praça da República. Ouviam-se descargas de revólver e carabina, bondes começaram a ser queimados, barricadas foram erguidas na Avenida Passos. Na Rua de São Jorge, as prostitutas aderiram à luta. A população assaltou delegacias, quartéis, casas de armas. A essa altura, o conflito atingia a região portuária da Saúde e da Gamboa, seguindo para Laranjeiras e Botafogo, hoje Zona Sul do Rio, e também para a Tijuca, Rio Comprido e Engenho Novo, na Zona Norte. Na Rua Larga de São Joaquim, atual Avenida Marechal Floriano, as colunas dos lampiões de gás foram quebradas e enormes chamas lambiam os ares.
          Ao amanhecer, a paisagem era de devastação, e foi assim descrita pelo Jornal do Commercio, na edição do dia 15: "(...) paralelepípedos revolvidos, que serviam de projéteis para essas depredações, coalhavam a via pública; em todos os pontos destroços de bondes quebrados e incendiados, portas arrancadas, colchões, latas, montes de pedras, mostravam os vestígios das barricadas feitas pela multidão agitada". A revolta se concentrara em dois redutos, o do distrito do Sacramento, entre o Largo de São Francisco e a Praça da República, e o da Saúde, na zona portuária localizada entre a Praça da Harmonia e o Morro da Gamboa. Nos dois pontos, a luta continuou durante todo o dia 14, havendo incidentes até na longínqua Copacabana.
          No Sacramento, combatia-se na rua a revólver e a porrete, enquanto dos sobrados os moradores jogavam latas, garrafas, pedaços de madeira e o que mais estivesse à mão. Na Saúde, os revoltosos assumiram o controle da delegacia de polícia e, segundo cálculos do Jornal do Commercio, duas mil pessoas construíram barricadas na Praça da Harmonia e ao longo da rua de mesmo nome. O clima era de tensão. O governo dividiu, então, o controle da cidade entre polícia, Exército e Marinha. As autoridades estavam tão inseguras que convocaram tropas do Exército de Niterói, Lorena (São Paulo) e São João dei Rei (Minas Gerais).
          Na esteira da rebelião popular contra a invasão de privacidade e a obrigatoriedade da vacina, surgiram outras reivindicações, de grupos sociais distintos. Declarações do presidente do Centro das Classes Operárias e líder da revolta, Vicente de Souza, atestam isso. Ele dizia que o levante contra a vacinação fora uma reação popular, que elementos belicosos da "classe temerosa" souberam aproveitar.
          Na Escola Preparatória e de Tática do Realengo, comandada pelo general Hermes da Fonseca, futuro presidente da República, houve uma tentativa de levante. Um dos revoltosos entrou na Escola gritando: "Prende o general! Mata o general!" O golpe falhou, mas o clima de sublevação se instalou na Escola Militar da Praia Vermelha. Cerca de trezentos cadetes, sob o comando do general Silvestre Travassos, se puseram em marcha para o Palácio do Catete. Eram 10 horas da noite e Botafogo estava às escuras, porque os lampiões tinham sido destruídos. O governo fortificou o palácio e mandou tropa para enfrentar os cadetes. Os dois grupos se enfrentaram na Rua da Passagem e trocaram tiros no escuro. O general Travassos caiu ferido. Sem saber o que acontecia do outro lado, as duas tropas debandaram. Ao Catete chegou, de início, a notícia de que os soldados do governo tinham fugido. Houve pânico e sugeriu-se a Rodrigues Alves que se refugiasse num navio de guerra para de lá organizar a resistência. O presidente recusou o conselho e logo veio o alívio com a informação da debandada também dos cadetes.
          No lugar da festa cívica, o dia 15, aniversário da República, foi de revolta popular. No alto do Morro da Mortona, na Saúde, foi hasteada uma bandeira vermelha. Um novo foco de rebelião surgiu no Jardim Botânico, onde seiscentos operários das fábricas de tecido Corcovado e Carioca, e da fábrica de meias São Carlos, atacaram a delegacia de polícia. Chegaram nesse dia as tropas de Minas e de São Paulo; no dia seguinte, o presidente Rodrigues Alves decretou estado de sítio. O reduto rebelde erguido em barricadas na Saúde era o que mais preocupava as autoridades. No final da Rua da Harmonia ergueu-se a principal delas.
          Um repórter do Jornal do Commercio assim descreveu a situação no local: "aquela multidão sinistra, de homens descalços, em mangas de camisa, de armas ao ombro uns, de garruchas e navalha à mostra outros". No comando dos rebeldes estavam os valentões Manduca Pivete e Prata Preta, o terror da polícia. Ao ser preso, Prata Preta matou um soldado do Exército e feriu dois policiais. Estava armado com dois revólveres, uma faca e uma navalha. O reduto da Harmonia foi atacado por terra e mar, desmobilizando os revoltosos, que não deram combate e simplesmente desapareceram. Ou, pelo menos, tentaram.
          Assim que os manifestantes se dispersaram, a polícia iniciou a varredura das áreas atingidas pela revolta, prendendo quem lhe parecesse suspeito. A caçada se prolongou pelos dias seguintes. Seu ato final foi uma batida no Morro da Favela, no dia 23. O nome fora dado por soldados retornados da Guerra de Canudos e depois acabou se generalizando, sendo atribuído a todas as comunidades pobres dos morros do Rio. Os moradores do Morro da Favela haviam fugido. Mas a essa altura já havia na Ilha das Cobras mais de setecentos presos, chegando a 945 no final das operações de busca dos supostos culpados. Nas ruas, o saldo de vítimas era desolador: trinta mortos, 110 feridos e 461 deportados para o Acre sem qualquer processo.
          A classificação dos revoltosos variava. Para a oposição, cuja principal voz era o Correio da Manhã, o povo - estudantes, operários, comerciantes e militares - é que tinha se rebelado. Para os jornais que apoiavam o presidente, como O Paiz, para o chefe de polícia, Cardoso de Castro, e para o governo, a revolta tinha sido obra de desordeiros, arruaceiros, desocupados. Castro se referiu ao "rebotalho", às "fezes sociais". A elite intelectual concordava. O poeta Olavo Bilac atribuía os acontecimentos à "matula desenfreada", à "turba-multa irresponsável de analfabetos".
          Na raiz dos distúrbios estava um problema sanitário sério. Oswaldo Cruz escolheu três doenças como foco de sua empreitada: a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Combater o mosquito transmissor da febre era fundamental para conter o avanço da doença. Brigadas de mata-mosquitos saíam pela cidade invadindo residências, cortiços, casas de cômodos. Limpavam, desinfetavam, exigiam reformas e interditavam esses ambientes, removendo os doentes de seus lares. Só no segundo semestre de 1904, foram 110 mil visitas. Quanto à peste bubônica, o controle da epidemia exigia o extermínio dos ratos e das pulgas. O governo, acreditando poder assim tornar mais eficaz o trabalho, decidiu comprar ratos. Não demorou para que o carioca começasse a criá-los para faturar uns trocados. Um ou outro chegou mesmo a importar o roedor de Niterói para vendê-lo no Rio. No Carnaval de 1904, a população cantava a própria desgraça. Caiu na folia dançando a polca - ritmo originário da antiga Tchecoslováquia - "Rato-rato", da dupla Casemiro Rocha e Claudino Costa (Clique e ouça).
          Exatamente um século depois da Revolta da Vacina, quais conclusões podem ser tiradas daqueles dias turbulentos de novembro de 1904? Uma coisa é certa: houve várias revoltas dentro da revolta. Uma delas foi, sem dúvida, a dos militares. Outra, a dos operários do Centro das Classes Operárias e das fábricas do Jardim Botânico. E ainda uma terceira, a do "povão" do Sacramento e da Saúde, reunindo capoeiras, prostitutas da Rua de São Jorge, portuários e gente com passagens pelas delegacias de polícia.
          A mobilização começou no Centro das Classes Operárias, dirigido pelo socialista Vicente de Souza hoje, nome de uma rua em Botafogo. Há informação sobre a ocupação de 10.199 dos 14.812 signatários das petições contra a vacinação obrigatória. Verifica-se que 78 eram militares; os outros, isto é, quase a totalidade, eram operários. A análise dos documentos e jornais de época revela a presença desproporcional desse grupo entre as vítimas. Do total de feridos, ele representa 71%. E do total de mortos, 86%. Esses números ganham proporções ainda mais relevantes se levarmos em conta que os operários representavam apenas 20% da população carioca. É por isso que, para entender os motivos da Revolta da Vacina de 1904, temos de voltar os olhos para os trabalhadores.
          Naquele momento, outros grupos se aproveitaram da revolta dos pobres. Os militares e políticos da oposição queriam derrubar o governo, queriam acabar com o que chamavam de república prostituída dos fazendeiros e restaurar a pureza que viam em Floriano Peixoto e Benjamin Constant. Para o "povão" do Sacramento e da Saúde, talvez a intervenção sanitária de Oswaldo Cruz não fosse exatamente o principal motivo das manifestações. É possível que tenha aproveitado a revolta para bater em seu tradicional inimigo, a polícia. Mas, e os operários e os que poderíamos chamar de pobres honestos, por que se rebelaram?
          Não foi por motivos econômicos. Tinham passado os anos duros do governo de Campos Sales (1898-1902) e a economia voltara a crescer e gerar empregos. Teria sido por causa dos deslocamentos de pessoas causados pelas obras na cidade? Não parece. Quase não se fez referência à reforma nos discursos, nos jornais operários, nas manifestações de rua. Os executores dessa mudança radical, Pereira Passos e Paulo de Frontin, escaparam da ira popular. Mais ainda, os dois principais redutos da revolta, Sacramento e Saúde, foram pouco afetados pelas obras. Tampouco cresceu sua população em virtude da expulsão dos moradores das centenas de casas derrubadas para a construção da Avenida Central, hoje Rio Branco, e da Avenida Passos.
          Resta indagar se os motivos da revolta foram, no final das contas, as campanhas de combate às epidemias e a vacinação obrigatória. Todas as evidências indicam que sim. Para mencionar uma só, Oswaldo Cruz foi massacrado, acusado - pela sociedade de alto a baixo - de despótico e arbitrário, quando não de irresponsável. Políticos, Rui Barbosa entre eles, qualificavam as medidas adotadas de violação dos direitos civis e da Constituição.
          Para entender por que a intervenção sanitária revoltou a todos, é preciso ter em mente os valores e os costumes do início do século XX. O líder dos operários, o socialista Vicente de Souza, argumentava que era uma ofensa à honra do chefe de família ter seu lar, em sua ausência, invadido por um desconhecido. E, muito pior, saber que diante dele sua mulher e filhas seriam obrigadas a desvendar seus corpos. Em que consistiria tal desvendamento?
          A vacinação era feita no braço, nos postos médicos ou em casa, com o auxílio de uma lanceta, instrumento cirúrgico de dois gumes. O deputado oposicionista Barbosa Lima admitiu a possibilidade de aplicação na coxa. Nos comícios, oradores inflamados deslocaram o local para as virilhas. O escritor José Vieira nos conta, no romance O bota-abaixo, que, no Largo de São Francisco, eles radicalizaram, dizendo que "cafajestes de esmeralda" (referiam-se à pedra que representava a profissão de médico) invadiriam os lares para "inocular o veneno sacrílego nas nádegas das esposas e das filhas". O impacto de tais argumentos foi devastador. A vacinação e a revacinação se reduziram de 23 mil em julho para pouco mais de mil em outubro. Na Saúde, só 14 pessoas se vacinaram em outubro e apenas 18 tomaram uma segunda dose.
          A Revolta da Vacina se distinguiu de protestos anteriores por sua amplitude e intensidade. O que lhe deu esta característica foi a força da justificação moral. Houve um trágico desencontro de boas intenções, as de Oswaldo Cruz e as da população. Mas em nenhum momento podemos acusar o povo de falta de clareza sobre o que acontecia à sua volta. Embora não se interessasse por política, embora não votasse, ele tinha noção clara dos limites da ação do Estado. Seu lar e sua honra não eram negociáveis. A revolta deixou entre os participantes um forte sentimento de autoestima, indispensável para formar um cidadão. Um repórter de A Tribuna ouviu de um negro acapoeirado frases que atestam esse sentimento. Chamando sintomaticamente o jornalista de cidadão, o negro afirmou que a sublevação se fizera para "não andarem dizendo que o povo é carneiro". O importante - acrescentou - era "mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo".

JOSÉ MURILO DE CARVALHO é professor titular de História do Brasil na Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e autor de Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.           

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2 -  nº 13 - Novembro 2004

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Sonhos Tropicais
          No início do século XX chegam ao Rio de Janeiro, no mesmo navio Esther, uma jovem polonesa com a promessa de se casar e iniciar uma nova vida, e Oswaldo Cruz, que retorna de Paris cheio de sonhos em transformar a saúde pública do país. Esther, uma jovem judia vinda da Polônia com a promessa de se casar, mas quando chega ao Rio de Janeiro é obrigada a trabalhar como prostituta em um bordel da Lapa. Esse tipo de situação era comum no inicio do século XX, pobres ou fugidas do antissemitismo acabavam se tornando prostitutas, ou por serem obrigadas ou por falta de opção, eram as chamadas “Polacas” ou “Escravas Brancas” - essa pratica só começa a decair após a década de 40. Já Oswaldo Cruz, foi nomeado chefe do departamento de Saúde Pública responsável por eliminar as várias doenças - peste bubônica, febre amarela e a varíola - que assolavam a população da cidade. Anos de insatisfação popular e forte oposição política explodem a "Revolta da Vacina".
Direção: André Sturm
Ano: 2002
Áudio: Português/Legendado

domingo, 20 de maio de 2018

Negros guerreiros

Para os estrangeiros, o Brasil tinha um exército de escravos, o que estava longe de representar a verdade.
Ricardo Salles
          Em carta confidencial ao ministro dos Negócios da Guerra, datada de 13 de dezembro de 1869, o marquês de Caxias, comandante-em-chefe das forças militares brasileiras no Paraguai, depois de louvar feitos de bravura praticados pela tropa brasileira e por seus oficiais, lamentava ter que relatar que assistira a "muitos atos vergonhosos e que altamente depõem contra nosso Exército". Em sua opinião estes fatos se deviam à introdução do elemento servil nas fileiras, com "seus maléficos resultados por meio dos exemplos imorais, e de todo contrários à disciplina e subordinação, dados constantemente por homens que não compreendem o que é pátria, sociedade e família, e que se consideram ainda escravos que apenas mudaram de senhor...". Caxias se referia aos libertos, isto é, escravos recém-libertados por seus senhores, no caso com a finalidade de servir no Exército em campanha no Paraguai.
          A participação de libertos na Guerra do Paraguai é um dos assuntos mais falados e mais deturpados de nossa história. Depois de um longo período em que foi simplesmente ignorada, a partir dos anos 70 do século XX, sua presença na guerra passou a ganhar grande destaque. Nesta época, consolidou-se uma imagem do exército imperial como composto majoritariamente por negros escravos, libertados para fazer a guerra de seus senhores. Estes, diante da convocação militar, teriam optado por enviar seus cativos para a guerra. Por um lado, o silêncio e mesmo acobertamento da participação de libertos na guerra realizados pela memória oficial, sobretudo militar, com seus heróis e monumentos grandiosos. Por outro, baseada em testemunhos preconceituosos e racistas de paraguaios, argentinos, europeus e mesmo de brasileiros, a crítica fácil e sensacionalista de uma versão alternativa que se contenta em ridicularizar a nossa história, sempre vista como farsa. Duas versões opostas, mas que conduzem a um mesmo resultado cruel: um povo sem história, ou com uma história envergonhada.
          Logo de início, um primeiro equívoco desta memória perversa a ser desfeito: como a grande maioria dos soldados brasileiros era composta por negros e mestiços, portanto eram todos escravos. Uma relação simplificada que esconde um enorme preconceito, ainda presente no senso comum e em inúmeros textos historiográficos, que equiparam negros a escravos. Em 1867, no auge da guerra e do recrutamento, os escravos eram 12,4% da população, enquanto que negros e mestiços livres representavam 52,5% deste total. Assim, não há por que assumir, como fizeram paraguaios, argentinos e testemunhas estrangeiras, que os soldados brasileiros, por serem em sua maioria negros, eram escravos. E os cativos libertados para compor as fileiras do Exército que tanto incomodavam Caxias? Não seriam uma comprovação da tese de que escravos libertos por seus senhores comporiam a maioria da tropa que fez a guerra?
          Um "Mapa dos libertos que têm assentado praça desde o começo da guerra", realizado em abril de 1868, que consta do Relatório da Repartição dos Negócios da Guerra, pode lançar alguma luz sobre o assunto. Dos 70.943 indivíduos enviados para o Paraguai até aquela data, 3.897, ou 5,49% do total, eram libertos. O Relatório, entretanto, assumia que o mapa era incompleto por falta de dados de algumas províncias e que o número de libertos deveria ser maior. Entretanto, não há por que acreditar que este número tenha sido superior a 10% do contingente enviado ao Paraguai. Diferentes investigações sobre o assunto, examinando documentação de recrutamento em províncias que mais enviaram soldados para a guerra, como Rio Grande do Sul, Bahia e Rio de Janeiro, confirmam esta afirmação. Mais ainda, sabemos pelas atas de reuniões do Conselho de Estado, realizadas na virada dos anos de 1866 para 1867, que foi considerada e, em seguida, descartada a alternativa de se libertarem escravos em massa para atender às necessidades da guerra. Segundo a maioria dos conselheiros, a medida seria de difícil execução, muito onerosa aos cofres do Estado, já que os donos dos cativos teriam que ser indenizados, e poderia vir a colocar em perigo a ordem pública. Por tudo isso, o Conselho recomendou que a libertação de cativos para a guerra fosse realizada de forma controlada.
          E é exatamente neste ponto que o "Mapa" fornece elementos para se desfazer um segundo equívoco: o de que escravos foram libertados para substituir seus senhores nas fileiras. Os 3.897 libertos arrolados no "Mapa" estão divididos em cinco categorias: da Nação (267); da Casa imperial (67); dos Conventos (95); da Conta do governo (1.806); Gratuitos (753) e Substitutos (889). Escravos da Nação eram os africanos trazidos ilegalmente para o país depois da proibição do tráfico internacional de escravos em 1850 e apreendidos pelo governo, que os mantinha e a seus descendentes - sob sua custódia. Formalmente livres, na prática eram o que a própria designação deixava transparecer, escravos da Nação. Trabalhavam em obras públicas, eram alugados a particulares e, em 1867, prestaram seu último serviço à Nação, indo morrer e matar no Paraguai. Escravos dos conventos pertenciam a estas instituições, formalmente subordinados ao Estado imperial, e que libertaram seus cativos para a guerra. A categoria Conta do governo, com a maior parcela de libertos enviados para a guerra, representava os escravos libertados por seus donos mediante indenização, parte em dinheiro, parte em títulos públicos.
          Libertar escravos fujões, insubmissos ou doentes (ainda que as autoridades militares devessem recusar recrutas sem boas condições físicas) para a guerra mediante indenização, mesmo que parcialmente em títulos públicos, poderia representar um bom negócio e angariar algum prestígio a seus donos por seu ato patriótico de contribuição ao esforço de guerra. Prestígio que também buscavam os senhores que ofereciam seus escravos como Voluntários da Pátria, sem requerer qualquer contrapartida financeira, como podemos observar na rubrica dos Gratuitos.
          É na categoria dos Substitutos, pouco menos de um quarto do total, que podemos encontrar os escravos libertados para fazerem a guerra de seus senhores. Esta rubrica continha claramente o caso dos indivíduos que, convocados para a guerra, enviaram um substituto em seu lugar, prática comum na época, no Brasil e em outros países. Não era raro pagar um indivíduo livre como substituto para o serviço militar, inclusive e talvez principalmente nos períodos de guerra. Na sociedade escravista brasileira, poderia ser mais barato comprar um escravo para este fim, ainda que os documentos também revelem o caso de substitutos pagos. É duvidoso, no entanto, que os que assim agiram fossem filhos de fazendeiros, como quer o senso comum, querendo escapar de suas obrigações militares. Famílias ricas dispunham de meios materiais e de prestígio social mais do que suficientes para evitar que seus filhos fossem à guerra como simples recrutas. O mais provável é que se tratasse de pessoas pobres e remediadas, muitas delas pequenos proprietários de escravos, que não tiveram outro recurso para evitar a ida aos campos de batalha.
          Finalmente, houve um número indeterminado de escravos fugidos que se engajaram como homens livres, buscando, assim, se assegurar de que não seriam reconduzidos ao cativeiro, já que, uma vez aceitos pelo Exército, o governo não permitia sua reescravização. Mesmo que tivesse que indenizar seus antigos senhores.
          A verdade é que o esforço de guerra foi imenso. Entre 150 e 200 mil homens foram mobilizados, um em cada vinte homens, se levarmos em conta somente aqueles em condições de alistamento, isto é, entre 15 e 39 anos de idade. Em relação à população cativa, um em cada grupo de cem escravos do país foi alistado, se estimarmos em 10% das tropas o número de libertos enviados para a guerra. As consequências sociais deste fato ainda não foram de todo analisadas pelos historiadores, principalmente quando consideramos que o recrutamento, além daqueles escravos que foram libertos especificamente para a guerra, incidiu fortemente sobre os habitantes mais pobres, em sua maior parte negros e mestiços, muitos dos quais também libertos, que mantinham relações sociais as mais diversas com a população cativa. A guerra equiparou todos - ex-escravos libertos, escravos fugitivos, substitutos pagos, recrutas do Exército e da Guarda Nacional, brancos, negros e mestiços pobres, jovens patriotas de classe média e de famílias abastadas - como Voluntários da Pátria.
          O Rio Grande do Sul foi a província que mais combatentes mandou para o Paraguai, 34 mil soldados, 17% de sua população masculina. Localizada em área fronteiriça, contava com uma estrutura militar, baseada na organização de corpos da Guarda Nacional, mais permanente. Por isso o número de Voluntários da Pátria foi relativamente pequeno, 3.200 soldados. A Bahia enviou pouco mais de 15 mil soldados, em torno de 2% de sua população masculina, um percentual semelhante à média nacional. Nove mil deles eram Voluntários da Pátria, majoritariamente negros e mestiços, sendo os libertos algo em torno de 10% do contingente mobilizado. A Corte, coração político e cultural do Império, enviou 11.461 soldados, ou 8% de sua população masculina. Destes, 2.482 eram libertos, 22% do total!
          Depois da guerra, a sociedade imperial escravista não seria mais a mesma. O governo tivera que contar pesadamente com o concurso de setores sociais antes excluídos da cidadania restrita: negros e mestiços livres e mesmo com uma parcela simbólica e socialmente significativa de escravos. Já então libertos e, mais importante e inusitado, cumprindo o primeiro dever cívico de cidadãos do Império: a defesa da pátria. A sociedade passara por uma experiência única de mobilização de recursos materiais, mas principalmente humanos e ideológicos que abalaria sua estrutura social hierarquizada e traria consequências diretas para a crise da escravidão e do Império, abrindo caminho para o movimento abolicionista que tomou conta dos corações e mentes de escravos, libertos e pessoas livres na década de 1880.
          É esta memória da guerra, que não deixou apenas vestígios estáticos nos nomes de logradouros públicos em nossas cidades, no bronze frio dos monumentos ou mesmo nas referências em obras de literatura e teatro, que é importante resgatar. Uma memória viva, sofrida e vivida, que se perpetuou em cantigas folclóricas, em ditos populares, como os recolhidos por Manoel Querino, ele mesmo um negro recrutado para a guerra e que, mais tarde, se tornou grande folclorista:
Sou soldado da Pátria aguerrida
muito embora nascido na paz
nasci livre, qual águia no ninho
ser escravo outra vez, não me apraz

Ricardo Salles é professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Uni-Rio) e autor de Guerra do Paraguai. Memórias e imagens. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2003.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004
         
Saiba Mais – Bibliografia
IZECKSOHN, Vitor. O cerne da discórdia. A Guerra do Paraguai e o núcleo profissional do Exército. Rio de Janeiro: E-papers, 2002.
KRAAY, Hendnck. "Escravidão, cidadania e serviço militar na mobilização brasileira para a Guerra do Paraguai", in Estudos Afro-Asiáticos, n. 33, setembro de 1998.
SOUSA, Jorge Prata de. Escravidão ou morte. Os escravos brasileiros na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Mauad/ADESA, 1996.

Saiba Mais – Links

sábado, 19 de maio de 2018

Tropas femininas em marcha

Presença extraoficial nos fortes e acampamentos militares, as mulheres brasileiras formavam um exército invisível que se tornou indispensável no desenrolar da Guerra do Paraguai.  
Maria Teresa Garritano Dourado
          A imagem tradicional que se tem de batalhas e acampamentos militares, repletos de soldados, armas, violência e morte, não inclui mulheres e crianças. No entanto, várias brasileiras, entre mães, esposas, prostitutas, comerciantes, prisioneiras e escravas, desempenharam papel ativo na guerra travada contra o Paraguai, entre 1864 e 1870. Atuando sobretudo na retaguarda, enfrentaram, junto com os homens, os horrores de um conflito bélico.
          Brasileiras de origem humilde, especialmente esposas ou aparentadas de soldados, muitas vezes optavam por acompanhar as tropas com os filhos a tiracolo, quando se viam desprotegidas e sem meios de sobrevivência. Como não havia abastecimento regular nos acampamentos, algumas delas, conhecidas como vivandeiras, se dedicavam à venda de artigos de primeira necessidade e, com frequência, à prostituição. Essas vivandeiras, e demais andarilhas que seguiam os batalhões, criavam modos de vida e sobrevivência na retaguarda, cuidando das crianças, da comida e das roupas. Assim como os homens, sofriam com a marcha extenuante, o sol, o frio, a fome e as doenças que assolavam os acampamentos desprovidos das mínimas condições de higiene.
          Em alguns casos, as mulheres nas tropas também pegavam em armas e socorriam feridos, fazendo curativos e conduzindo-os até os hospitais. Esse tipo de auxílio foi registrado pelo general brasileiro Dionísio Cerqueira em 1870, nas suas reminiscências da guerra: "Nas linhas de atiradores que combatiam encarniçadas, vi-as [mulheres] mais de uma vez aproximar-se dos feridos, rasgarem as saias em ataduras para lhes estancarem o sangue, montá-los na garupa dos seus cavalos e conduzi-los no meio das balas".
          Em A retirada da Laguna, narrativa romanceada sobre uma expedição brasileira na fronteira entre o Mato Grosso e o Paraguai, o autor, Alfredo Taunay, expôs as agruras vividas pelos segmentos femininos, discriminados e sem direito a remédios, cuidados ou abrigo em caso de doença. Nessa expedição, que não suportou nem dois meses de luta devido à falta de abastecimento e à virulência da cólera, coube às mulheres o papel de coadjuvantes anônimas, como se vê no seguinte trecho.
          "Eram setenta e uma mulheres, todas a pé, exceto duas, montadas em bestas; carregavam quase todas crianças de peito ou pouco mais velhas. Por heroína passava uma e todas a apontavam, quando um soldado paraguaio ao tentar lhe arrancar o filho, tomou de uma espada largada no chão, e num salto matara o assaltante." O autor encerra o relato dizendo que, embora essa mãe houvesse adquirido o status de heroína por sua bravura, seu nome não foi registrado em lugar algum.
          Ao longo de toda a guerra, pouquíssimas mulheres do povo obtiveram algum reconhecimento a ponto de sair do anonimato. Eram, quando muito, conhecidas apenas pelo primeiro nome ou apelido. Em Episódios militares, o general-de-brigada Joaquim Silvério de Azevedo Pimentel menciona duas mulheres que o impressionaram: a gaúcha Florisbela e a pernambucana Maria Francisca da Conceição, a Maria Curupaiti. Florisbela, sobre quem não se conhece o nome completo nem a família, envolvia-se em lutas e auxiliava nos hospitais, ao passo que Maria Curupaiti, a esposa de um cabo-de-esquadra, lutava ao lado dos homens sempre vestida de soldado.
          Outra mulher de origem humilde que obteve destaque foi a piauiense Jovita Alves Feitosa, a sargenta Jovita. Em resposta à campanha veiculada pela imprensa conclamando os jovens "a servir ao Brasil", apresentou-se incógnita ao Exército, aos 17 anos, vestida de homem e com os cabelos cortados. A história ganhou as páginas dos jornais e se tornou um dos mais conhecidos casos de alistamento de voluntários da pátria Taunay chegou a comentar o fato com misto de preconceito e ironia: "Chegaram os retratos do Viegas, o meu antigo inspetor, e da interessante Jovita que me pareceu muito engraçada nos seus trajes de primeira-sargenta". Não se conhece toda a trajetória de Jovita após o alistamento nem as circunstâncias de sua morte, em 1867. Segundo uma versão, ela teria se suicidado em 9 de outubro daquele ano, inconformada com o esquecimento a que foi relegada, apesar do recebimento de homenagens e presentes quando retornara dos combates. Outra versão conhecida é a de que teria embarcado para o Paraguai, no vapor Jaguaribe, e morrido na batalha de Acosta Nu.
          Histórias como a de Jovita são exceções. As raras mulheres lembradas pelos memorialistas com direito a nome e sobrenome eram casadas com homens pertencentes à elite imperial. Sobre elas predomina quase sempre o retrato da esposa corajosa, fiel e abnegada, como Ludovina Portocarrero, casada com o comandante do Forte de Coimbra, em Corumbá, às margens do rio Paraguai. Ludovina ganhou destaque por sua participação no grupo de resistência à invasão do forte por tropas paraguaias em 1864. Cerca de setenta mulheres, quase todas esposas de militares, fabricaram 3.500 balas de fuzil adaptando os cartuchos de menor calibre com pedaços de suas roupas. Segundo informações do major César Lucios Mattos Bessa, do 11º RC MEC de Ponta Porã, era possível naquela época fabricar cartuchos artesanalmente, utilizando pequenos pedaços de tecidos e pólvora.
          Dentre todas as mulheres registradas pela história na Guerra do Paraguai, porém, a mais conhecida é a enfermeira voluntária Ana Néri. Viúva de um homem de projeção na época, o capitão-de-fragata Isidoro Antônio Néri, Ana acompanhou e cuidou dos três filhos combatentes até o Paraguai. Na época em que residiu em Corrientes, Humaitá e Assunção, tratou de doentes e feridos em hospitais e amargou a perda de um filho e um sobrinho. Por sua atuação, ficou conhecida como a "mãe dos brasileiros" e recebeu uma coroa de ouro de um grupo de senhoras onde se lia "à heroína da caridade, as baianas agradecidas".   
          Infelizmente, sabe-se pouco sobre a presença feminina na Guerra do Paraguai devido à pequena quantidade de documentos disponíveis a respeito. A maioria dos relatos foi feita por homens que mal mencionam a participação de mulheres ou o fazem com ironia e preconceito. Historiadores são obrigados a rastrear e analisar trechos esparsos sobre o assunto deixados em cartas, memórias, reminiscências e diários escritos por combatentes, a fim de traçar um panorama real do que se passou.

MARIA TERESA GARRITANO DOURADO é mestre em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e professora na Faculdade de Ciências Administrativas de Ponta Porã (FAP), Mato Grosso do Sul.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CERQUEIRA, Evangelista de Castro Dionísio. Reminiscências da Campanha do Paraguai, 1865-1870. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1929.
SOUZA, Luiz de Castro. A Mediana na Guerra do Paraguai. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1971.
TAUNAY, Alfredo D'Escragnol!e. A retirada da Laguna. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1997.
______. Cartas da Campanha de Matto Grosso: 1865 a 1866. Rio de Janeiro: Editora Biblioteca Militar, 1944.

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