"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Maio de 68

A série "Maio de 68" da TV CULTURA aborda os movimentos sociais e estudantis que ocorreram em todo mundo no ano de 1968. No dia 03 de maio de 1968, data que estudantes franceses ocuparam a Sorbonne, universidade mais tradicional da França e que serviu como estopim para outras manifestações importantes em todo o país.
1. MAIO DE 68 | O INÍCIO DOS MOVIMENTOS UNIVERSITÁRIOS
Há 50 anos, os jovens universitários de Paris davam início ao movimento de 68, que provocou mudanças em várias partes do mundo. A TV Cultura dá início a uma série de reportagens sobre este fato histórico. Os repórteres Rodrigo Piscitelli, de São Paulo, e Carla Destro, de Paris, contam como tudo começou.

2. MAIO DE 68 | MOVIMENTOS EM PARIS E A DITADURA MILITAR NO BRASIL
Enquanto em Paris os jovens saiam às ruas para reivindicar liberdade sexual, no Brasil começava a fase mais sombria da ditadura.

3. MAIO DE 68 | A IMPRENSA BRASILEIRA
O que acontece hoje em dia é bem diferente de cinquenta anos atrás, quando as notícias eram transmitidas por telex. Acompanhe como a imprensa brasileira cobriu os acontecimentos importantes daquele ano na França e no Brasil.

4. MAIO DE 68 | MUDANÇAS COMPORTAMENTAIS E AVANÇOS DOS DIREITOS HUMANOS
O movimento de maio de 1968 em Paris ultrapassou os limites da França. Provocou mudanças de comportamento e avanços dos direitos humanos ao redor do mundo. Cinquenta anos depois, o que se consolidou e o que retrocedeu na sociedade?

5. MAIO DE 68 | COMO SÃO OS PROTESTOS NO MUNDO CADA VEZ MAIS DIGITALIZADO?
A revolta dos estudantes em Paris reverberou pelo mundo como estopim de uma revolução comportamental. Hoje, as redes sociais são o chamariz para que as pessoas ocupem as ruas.

Fonte: TV CULTURA

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O delírio de um Brasil nazista

Novo livro de embaixador revela plano de Hitler: dividir a América do Sul, com o apoio da Argentina, em quatro países-satélites do III Reich.
          Durante a Segunda Guerra, numa rua do Rio de Janeiro, um agente secreto inglês esbarrou num cidadão alemão, que teve morte instantânea. Dentro da sua pasta foi encontrado um mapa exibindo um novo desenho da América do Sul. Por ele, vários países desapareceriam, e o território da Argentina, a grande beneficiária da divisão, cresceria consideravelmente, avançando em direção à Amazônia.
          Como os Aliados ganharam a guerra, o delírio nazista de transformar a América do Sul em colônia do III Reich não foi em frente. Mas forneceu ao acadêmico e embaixador Sérgio Corrêa da Costa os elementos para um livro interessantíssimo: Crônica de uma guerra secreta, que está sendo lançado [...] pela Editora Record. Misturando espionagem política, mistério, aventuras e impressões pessoais, o autor faz revelações surpreendentes sobre uma aliança entre a Argentina, na época governada por Juan Domingo Perón, e a Alemanha nazista, com vistas ao domínio da América do Sul.
          Jovem diplomata servindo em Buenos Aires entre 1944 e 1946, Corrêa de Castro teve acesso, "muito antes de James Bond nos ter ensinado o caminho", aos "recintos mais vigiados" do Archivo General de la Nación e conseguiu fotografar documentos ultrassecretos, nas suas palavras "altamente comprometedores do governo argentino".
          De fato, algumas frases de Perón reunidas pelo autor soam hoje quase inacreditáveis. "Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso", escreveu o então coronel Perón no manifesto do Grupo de Oficiais Unidos (GOU), em 1943, poucas semanas antes de assumir o governo. E acrescentou: "A luta de Hitler, na paz e na guerra, nos servirá de guia". A rivalidade histórica da Argentina em relação ao Brasil ganhou força quando o nazismo ascendeu ao poder na Alemanha.
          A ideia de Hitler não era dominar nosso país militarmente, mas por uma eficiente estratégia de infiltração que incluía pesados investimentos em propaganda. Disse ele: "Não desembarcaremos tropas como Guilherme, o Conquistador, para dominar o Brasil pela força das armas. Nossas armas não são visíveis. Nossos 'conquistadores' [...] têm uma tarefa mais difícil que a dos originais, razão pela qual disporão de armas igualmente mais difíceis".
          A seguir, trechos do capítulo 11 de Crônica de uma guerra secreta, que no livro se intitula "O desmembramento do Brasil". Nossa História agradece ao autor e à Editora Record pela autorização para a publicação.

"Criaremos no Brasil uma nova Alemanha. Encontraremos lá tudo de que necessitamos."
Adolf Hitler, 1933

          O jornalista francês Pierre Dehillotte, antigo redator do Temps e do Journal des Débats, dedicou-se intensamente ao estudo da Gestapo, sua organização, estruturas de comando e, notadamente, as atividades dos agentes enviados ao exterior. Correspondente em Berlim e, a seguir, em Viena e Praga, entre 1932 e 1938, pôde acompanhar muito de perto a ascensão de Hitler e a montagem dos planos nazistas de domínio da Europa. Foi, portanto, testemunha ocular dos dramas que sacudiram, consecutivamente, a Alemanha democrática, a Áustria independente e a Tchecoslováquia livre. Suas antevisões e profecias foram argutas e precisas, evidência de acuidade do observador político.
          Ao analisar o expansionismo alemão, deu-se logo conta de que não se limitava ao continente europeu. Concentrou, por isso, sua alça de mira nas organizações do Partido Nazista no exterior (AO), sob o comando do Gauleiter Ernst Wilhelm Bohle, com sede em Munique, a Auslanddeutschesverein. Como jornalista francês, Dehillotte procurou pretextos para visitar a sede da organização. Observou que nas salas contíguas ao gabinete do Gauleiter trabalhavam equipes de estatísticos, sociólogos, etnógrafos, técnicos e especialistas do Lebensraum (espaço vital) empenhados em planos de organização e emprego das populações nas áreas que integrariam a futura Grande Alemanha.
          O coordenador dos serviços com quem se entreteve chamava-se Herr Kurtfalkenraum, cordial e atento, cabelos grisalhos e uniforme da Wilhelmstrasse. Não recorreu a subterfúgios ou escusas e discorreu, com naturalidade, sobre os trabalhos em curso. Àquela altura - alguns anos antes do início do conflito - parecia normal que o Terceiro Reich procurasse a melhor maneira de dotar o povo alemão do espaço vital de que necessitava. Segundo os slogans hitleristas, uma vez que a distribuição das terras havia sido feita ao azar das conquistas de ontem - portanto de maneira injusta e antieconômica -, o status quo não deixava margem a uma distribuição equitativa das matérias-primas. O continente sul-americano, sobretudo o Brasil, com seus 8 milhões de quilômetros quadrados quase desabitados e inexplorados, bastava para comprovar a validade do teorema nazista dos espaços vitais a conquistar e a redistribuir. "A América do Sul", afirmavam os apóstolos do Lebensraum de ultramar, "fornecerá a solução definitiva ao problema demográfico europeu." Logo que "esse continente de mestiços se tornar um protetorado alemão", expressão atribuída a Adolf Hitler, "a emigração europeia deverá ser intensificada por um organismo especial e se dirigirá de preferência aos países latino-americanos".
          "Aqueles fichários, dossiês e atlas", escreveu Dehillotte, "cogitavam nada menos que da reorganização e emprego das futuras populações conquistadas da Grande Alemanha Nacional-socialista. Nesta seção especial e discreta", concluiu com fino humor, "pacientes estatísticos cortavam e recortavam as peles dos ursos árticos e antárticos antes de tê-los matado."
          (...)
          Como acabamos de ver, é antigo o gosto alemão pela geografia política, posta a serviço de desígnios de expansão territorial. Muito antes da confecção do mapa nazista em que foi redesenhada a América do Sul, outros ensaios foram feitos, invariavelmente levados a sério.
          Começo esta evocação do caso brasileiro pelos estudos do pensador pangermânico, Otto Richard Tannenberg, considerado, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o mais autorizado porta-voz do esquema de hegemonia mundial. No seu GrossDeutschland, die Arbeit des 20. Jahrhunderts (A Grande Alemanha, obra do século XX), publicado em Leipzig, 1911, Tannenberg estabelece o princípio da repartição das Américas Central e do Sul entre as grandes potências imperialistas, reservando para a Alemanha a zona subtropical banhada pelo Atlântico.
          Por que tantos "estados" nas Américas Central e do Sul? Simplesmente - pontifica Tannenberg porque Espanha e Portugal "se mostraram incapazes de governar países no ultramar". Ora, continua, os habitantes nada conseguiram de bom, pois tampouco se encontram em condições de se governarem. Um déspota tenta suplantar o outro, o que explica as contínuas revoluções e sangrentas guerras em proveito de algum tiranete, ávido de glória e de riqueza, enquanto se mantém o povo oprimido e na ignorância. Em contraste com a América anglo-saxã, em que os indígenas desapareceram quase por completo, nos demais países são os brancos que se encontram em via de desaparição. No Paraguai e no Peru, exemplifica, constituem apenas 14% da população. No Equador, o percentual desce a 7%, na Colômbia a 6%. O restante da população "se compõe, aproximadamente e em igual proporção, de mestiços e gente de cor, índios ou negros".
          Contra esse pano de fundo, Tannenberg descreve os contornos da grande "Alemanha do Sul", a ser implantada no nosso subcontinente. De acordo com seu mapa, abrangeria todas as terras ao sul de uma linha que começa no litoral atlântico do Brasil, na altura do Rio de Janeiro, e termina no Pacífico, em Antofagasta, o grande porto chileno exportador de cobre e nitratos. País fabuloso, abrangeria o Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul ("onde reina a cultura alemã"), Paraguai, o terço meridional da Bolívia ("por integrar a bacia do rio da Prata"), o Uruguai e as ricas províncias do nordeste argentino:
          "A América meridional alemã nos proporcionará, na zona temperada, um espaço de colonização onde nossos emigrantes conservarão sua língua e autonomia. Exigiremos, porém, que o alemão seja ensinado nas escolas como segunda língua. O Sul do Brasil, o Paraguai e o Uruguai são países de cultura alemã. O alemão passará a ser a língua nacional."
          Seria este o "Primeiro Estado Alemão Americano Independente". Primeiro, porque concebido como pedra angular de um outro, especialíssimo - a "Alemanha Antártica", menina dos olhos de vários geopolíticos alemães.
          Tal como no texto de Tannenberg, o atlas Deutschland und die Welt (Alemanha e o mundo), concluído pouco antes do início da Segunda Guerra, indica também as fronteiras da Alemanha Sul-Americana, em que o Sul do Brasil volta a aparecer, nitidamente, como colônia alemã.
          Ao evocar essa e outras demonstrações do imperialismo germânico, um ilustre pensador político uruguaio, Hugo Fernandez Artucio, assinala que, a despeito das aparências fantasiosas, vinham sendo objeto de séria consideração havia um século, talvez mais. Cita o grande estadista e pensador argentino Domingo Faustino Sarmiento, que transcreveu, no El Nacional, comentário de La Revue Politique et Littéraire, de 13 de maio de 1882, a propósito de dois artigos na revista Deutsche Rundschau sobre as futuras colônias alemãs. O primeiro procura demonstrar a necessidade de a Alemanha dispor de suas próprias colônias para receber os emigrantes que levam trabalho e indústria a países estrangeiros. As províncias do Rio Grande do Sul e do Paraná seriam particularmente adequadas, já dispondo de importante componente germânico. Argentina, Uruguai e Paraguai são também citados como ideais para a colonização alemã.
          "Não será necessário o emprego da força, pois o governo alemão somente interviria para assegurar aos seus nacionais os direitos consagrados nos tratado. A tarefa será empreendida por uma empresa privada, de enorme capital, a qual espalhará suas raízes em toda a Alemanha. O espírito que inspira o empreendimento fará com que, após um certo tempo, os países colonizados se transformem - ipso facto - em colônias alemãs. Tal como disse Bismarck: 'O fato cria o direito'."
          (...)
          Radicados no Brasil segundo planos traçados pelo governo alemão, os colonos encontraram um país em que o governo, se pouco ou quase nada fazia por eles, também não impunha restrições ao desenvolvimento de suas atividades. Portanto, um cenário ideal para os planos de subversão nazista. De modo geral, os colonos manifestavam discreto interesse pelo país, evitavam disputar cargos eletivos, procurando seguir com muito maior interesse o que se passava na mãe pátria. Casos como os de Lauro Muller e Adolfo Konder, governadores de Santa Catarina, eram relativamente raros. Lauro Muller, ministro das Relações Exteriores em 1913, renunciou ao cargo em protesto contra a decisão brasileira de romper com o Império Alemão, na Primeira Guerra Mundial.
          (...)
           A conjuntura brasileira em 1933-34 - primeiros anos do reinado de Hitler - oferecia um cenário particularmente favorável aos planos sinistros do nacional-socialismo. Os efeitos da depressão americana de 1929 ainda se faziam sentir. Nossas exportações continuavam em níveis baixíssimos, o governo Vargas ainda buscando se consolidar no poder, uma vez vencida a guerra civil paulista, porém sem lograr inverter a persistência de distúrbios aqui e acolá no imenso país. (...)
          Em São Paulo, os nazistas se deram conta de que se impunha cautela especial, por julgarem ser o estado mais "democrático" do país e representar a mais vigorosa oposição ao regime Vargas. O Partido Nacional-socialista, representado por K. von Spanus, era organizado em círculos, blocos e células. Chr. Wifler era o responsável pelos círculos, sendo os principais os do norte, leste, sul e oeste do estado, sob os codinomes "Sellge", "Syanpius", "Andriessen" e "Eisdendecker". As ordens do partido eram transmitidas exclusivamente por mensageiros e cada responsável usava um codinome e número de telefone também em código. Durante certo tempo, o partido chegou a manter colaboração estreita com a polícia estadual, o que não escapou ao atilado major Aurélio da Silva Py. Sua detida investigação da infiltração fascista no Sul do país revela que se alguém ousasse levantar a voz contra o Partido Nazista em reunião sindical, ou em qualquer outra, no estado de São Paulo, seria pouco depois detido pela polícia para averiguações. Líderes trabalhistas, estudantes e intelectuais de esquerda foram sequestrados, porém invariavelmente dados como "desaparecidos". O caso de maior repercussão foi o do assassinato de Tobias Warchawski, denunciado pela imprensa independente como mais um crime monstruoso de nazi-integralistas.
          Para a Alemanha, os imigrantes e seus descendentes - um milhão, ou quase, de pessoas de raça ariana - eram súditos do Reich, portanto com os mesmos direitos e obrigações dos que viviam na mãe pátria. Nessa dicotomia, obviamente, se encontrava a principal razão de choque com as leis brasileiras. Segundo o raciocínio alemão, Buenos Aires e Montevidéu, onde contavam com apoios amplos e seguros, somados a São Paulo, a Detroit sul-americana, ofereciam a possibilidade de transformar, a curto prazo, os respectivos parques industriais em potente indústria bélica. (...)
          Como já assinalei, um dos programas de Adolf Hitler era a incorporação pura e simples à Alemanha de todos os territórios onde houvesse minoria alemã. Em primeiro lugar, na Europa. Logo a seguir, na América do Sul, onde as atenções se concentraram na Argentina, no Brasil e no Chile, todos já com uma apreciável base étnica germânica. Dos três, a Argentina mereceu atenção prioritária. Além de ser o único país europeu na região, culturalmente superior aos demais, não tinha, por exemplo, o complicador do gigantismo brasileiro.
          O gigantismo, porém, poderia ser facilmente corrigido. Desde logo, os três estados do Sul, já devidamente germanizados, não tinham por que permanecer atrelados ao imenso complexo luso-afro-ameríndio. O Reich não abriria mão do milhão de Reichsãeutschen ou Volksdeutschen radicados no Brasil, todos sob proteção alemã. "Cada gota de sangue alemão precisa ser preservada", proclamava Ernst Wilhelm Bohle, Gauleiter da organização dos alemães no exterior. "Não pode haver pecado maior que o de renunciar voluntariamente ao sangue alemão!"
          Megalomania ou não, o fato é que as tensões teuto-brasileiras criadas pelo nosso programa de nacionalização das áreas de forte presença estrangeira deram lugar a reações extremas, inclusive à cogitação de - a curto prazo - separar do Brasil os estados sulinos. Em estranho relatório enviado a Berlim, o embaixador Karl Ritter estuda a posição geopolítica e estratégica desses estados, salientando a "inexistência de comunicações ferroviárias com o resto do país". Assim sendo, as autoridades centrais não teriam condições de restabelecer o controle sobre a região "em caso de ataque argentino (sic). Nesse caso", conclui, "somente os Estados Unidos poderiam opor-se a um ataque de Buenos Aires". Não se trata de invenção minha. O que acabo de assinalar se encontra, com todas as letras, em Documentos Diplomáticos da Alemanha, dossiê "Politische Abteilung", doe. N. Pol. IX, 341, de 3 de março de 1938.
          Nesse mesmo relatório, o embaixador Ritter comunica a existência de uma corrente no seio da colônia alemã, de que seria porta-voz um certo senhor Plugge, convencido de que a única possibilidade oferecida ao Reich de proteção ao elemento alemão consistia em separar a região do resto do país. Em outras palavras, os três estados do Sul se transformariam em colônia de Berlim, expressão literal usada. (...)
          Dizer que a Argentina poderia ter sido o trampolim para uma invasão do Sul do Brasil, com apoio alemão, e que o Rio Grande, Santa Catarina e Paraná, então isolados fisicamente do Brasil, viessem a constituir uma colônia alemã deve nos parecer hoje fantasia. Não, porém, se tivermos em mente que, em 1940-41, o Terceiro Reich era senhor absoluto da Europa, dispunha de bases na África, justo em frente do Brasil, frotas de submarinos, e contava com a cooperação das poderosas e bem-organizadas colônias alemãs na Argentina e no Sul do Brasil, já com seções do Partido Nazista em plena atividade.
          Não é segredo que gerações sucessivas de militares brasileiros estiveram persuadidas da inevitabilidade de uma guerra com a Argentina. Nossa região militar mais bem-equipada foi sempre a terceira, no Rio Grande do Sul, e o traçado de nossas estradas visou, por muito tempo, a não facilitar a penetração do inimigo.
          O fato de o Brasil ter mais do que o triplo da área e da população da Argentina constituiu, naturalmente, motivo de preocupação para gerações consecutivas de homens públicos, empenhados na reversão dessa cruel realidade.
          (...)
          Mesmo se Hitler perdesse - era o raciocínio -, os súditos do Eixo poderiam se deslocar com seus recursos financeiros e técnicos para a Argentina. Mas, se ganhasse, a Argentina seria a única nação americana com o direito de atravessar fronteiras e resolver definitivamente seus problemas geopolíticos, firmando-se no continente como a nação líder. Comentário de Mário Martins, o jornalista que renunciou à função burocrática no nosso escritório comercial em Buenos Aires para se concentrar na investigação do que estava realmente acontecendo à sua volta: "A Casa Rosada acompanhava a guerra na Europa como se fosse um espetáculo de bolsa de valores". A fórmula encontrada foi a cooperação subterrânea, via pseudoneutralidade que permitisse montar na América um trampolim contra as nações vizinhas, a começar pelo Brasil, que se preparava para lutar na Europa pela causa aliada, deixando as costas desguarnecidas e voltadas para as baionetas de Buenos Aires.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 1 nº 12 - Outubro 2004

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 Saiba Mais – Documentário
Sem Palavras
Sem Palavras resgata as vivências dos descendentes de alemães sobre a perseguição ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial no Sul do Brasil, região colonizada por alemães no século 19. A Campanha de Nacionalização do presidente Getúlio Vargas e a entrada do Brasil na Guerra em 1942, contra os países do Eixo, aumentou a repressão aos estrangeiros e imigrantes daqueles países. O documentário mostra um dos lados da história, relatado por quem era criança e descendente de alemão nos anos 1940. A memória é subjetiva, porém verdadeira, mesmo quando parece distorcida dentro da história oficial, essa sim muito mais complexa.
 Direção: Kátia Klock
Ano: 2009
Áudio: Português
Duração: 52 minutos

sábado, 18 de agosto de 2018

O Brasil do outro lado do espelho

Como Portugal recebeu a notícia da Independência do Brasil? Na primeira metade do século XIX, a reação de deputados e intelectuais portugueses projeta a crise de identidade após a separação oficial.
Fernanda Paula Sousa Maia
      “Amputado da sua continuação além-atlântico (que outra coisa não era então o Brasil)". Na ressaca da Independência do Brasil, era assim, mutilado, que Portugal se percebia, na análise perspicaz do ensaísta lusitano Eduardo Lourenço. Para os liberais portugueses de 1800, na qualidade de intelectuais e de políticos, o desafio era justamente explicar essa perda, além de tentar resolver a insegurança sentida por um país que apenas encontrava justificativa, como nação, nos seus prolongamentos ultramarinos. E não estavam em questão apenas as consequências econômicas da separação, mas a superação da crise de identidade nacional que a Independência gerou em Portugal.
      Para lançar um pouco de luz sobre as relações Portugal-Brasil nesse período, vale a pena enfocar o papel exercido pelos deputados eleitos de Portugal, entre 1826 e 1852: até que ponto a atuação parlamentar esteve na origem do pensamento político e do discurso oficial sobre o Brasil? Embora se encontrassem num momento de definição do seu papel na vida política nacional - com o fim do regime absolutista em Portugal -, pouco a pouco os deputados foram aprendendo a intervir em assuntos até então reservados aos governos e aos chefes supremos do Estado. Ao mesmo tempo, partilhavam suas ideias com uma opinião pública urbana cada vez mais consciente e que seguia atentamente, pelos jornais e nas galerias da Assembleia, os longos debates parlamentares. Conscientes dessa vigilância, e pressionados pelos interesses políticos e econômicos que representavam, os parlamentares acabariam por produzir um discurso compatível com o que podia ser politicamente dito.
      Foi assim que desfilaram na Câmara Legislativa os principais temas sobre as relações Portugal-Brasil, permitindo estabelecer algumas constantes. Como: por exemplo, aspectos políticos e diplomáticos resultantes da aplicação do Tratado de 1825 (ver box), as relações econômicas entre os dois países, e a emigração para o Brasil.
      Considerado em Portugal um "mau tratado", a sua aplicação, no entanto, motivou grande parte dos debates na Assembleia Legislativa portuguesa. E uma das questões mais delicadas viria a ser a aplicação do artigo 9º do tratado, que estabelecia o pagamento, pelo Brasil, de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas, para compensar as perdas sofridas por Portugal com a separação. O anúncio do pagamento dessa quantia em um ano, após a ratificação do tratado, fazia prever uma rápida conclusão da pendência.
      O relacionamento comercial entre os dois países também provocou uma participação mais ativa na Assembleia, apesar de os deputados ainda não estarem preparados para ver o Brasil como um parceiro comercial igual a qualquer outro. Como advertiu, logo em 1827, o deputado liberal Mouzinho da Silveira, ao chamar a atenção para as consequências negativas de "chamar nosso ao Brasil e não saímos disto; olha-se para ele como os filhos que, tendo um espelho na mão, espreitam se ainda têm vivo o pai, que expirou". Os políticos continuavam a acreditar que "por mais que se diga, ainda por muito tempo os portugueses cuidarão que têm no Brasil uma segunda pátria".
      Não espanta, por isso, a persistência da Assembleia Legislativa portuguesa, durante quase toda a primeira metade do século XIX, na conclusão do tratado, desejo "muito geral, e parece quase nacional". Essa seria a visão predominante entre os parlamentares, que em várias ocasiões insistiram na necessidade de retomar a ligação comercial com o Brasil nos termos de um benefício que consideravam essencial, a que julgavam ter direito, e que se recusavam a dispensar. Sustentados nos laços familiares e históricos seculares, os deputados pretenderam desenvolver uma argumentação de cunho sentimental que não era mais viável no ambiente pós-Independência. Como os parlamentares Mouzinho da Silveira, Almeida Garrett ou José Estêvão tentaram realçar sem sucesso. Contra todas as evidências, a maioria optou pela cômoda visão de um inevitável entendimento com o Brasil, recorrendo às relações paternais: o Brasil seria o filho pródigo que apenas aguardava o melhor momento para regressar à casa paterna.
      Para reduzir a carga dramática que a perda da colônia tinha provocado, muitos deputados insistiam em ver o Brasil ligado a Portugal através de um acordo comercial baseado em cláusula de favores especiais. Na Câmara dos Deputados, intervenções frequentes sublinhavam a urgência de um tratado com o Brasil como uma das poucas saídas para a persistente crise econômica. Daí a forma cautelosa com que as questões comerciais foram debatidas pela Assembleia, preocupada em não suscitar quaisquer dúvidas que pudessem entravar o entendimento futuro entre os dois países. Por isso, a rejeição do parlamento brasileiro ao Tratado de Comércio de 1836 representou um verdadeiro golpe para Portugal, o que ajuda a entender o pesado e significativo silêncio que sobre ele desceu. Bem revelador, aliás, do atordoamento geral de uma Assembleia em estado de choque.
      O elevado número de emigrantes portugueses com destino ao Brasil também atraiu a atenção dos parlamentares, obrigados então a discutir a migração (ver box) a partir de um enquadramento diferente: o Brasil não mais como uma colônia portuguesa, mas um território estrangeiro. Testemunhas de um fenômeno novo, foi com alguma dificuldade que os deputados perceberam essa forma de mobilidade geográfica com raízes históricas, sobretudo no norte de Portugal.
      Mas o processo de assimilação da Independência estava em curso e só restava aos deputados desenvolver um discurso que concedesse uma nova razão de ser a Portugal. É nesse ambiente que o deputado, liberal e conhecido escritor de Viagens na minha terra, entre muitas obras, João Batista de Almeida Garrett (1799-1854) se destaca, ajudando a veicular a imagem segundo a qual "podemos tirar mais vantagens do comércio com uma nação irmã, mas independente, do que nunca tínhamos tirado de uma colônia sujeita". Assim se entende a razão por que Garrett, na memorável sessão de 31 de março de 1837, tenha enfatizado que "Portugal não existe independente senão pelo mar. (...) Segurem-nos o mar, e basta o patriotismo, e brio português, para nos conservar independentes em terra." As novas propostas liberais emprestariam um sentido diferente à separação do Brasil, retirando toda a dimensão de angústia a que estava associada dentro dos quadros mercantilistas.
      Ao mostrar o mar, Garrett fornecia aos deputados outros fatores de orgulho: os restantes territórios imperiais portugueses e o desenvolvimento da marinha mercante como as derradeiras alternativas à perda do Brasil. Aos poucos, procurava-se restaurar a dignidade nacional, que o futuro iria se encarregar de colocar, predominantemente, na dimensão mítica de um passado glorioso que ainda hoje sobrevive.

Fernanda Paula Sousa Maia é professora de História na Universidade Portucalense, do Porto, em Portugal, e autora da tese O discurso parlamentar português e as relações Portugal-Brasil: a Câmara dos Deputados (1826-1852), publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 2002.

Fonte - Revista Nossa História - Ano I nº 7 - Maio 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CERVO, Amado Luiz. O Parlamento brasileiro e as relações exteriores (1826-1889). Brasília: Editora UnB, 1981.
KEITH, Henri H. "The symbiosis of love and hate in luso-brasilian relations, 1822-1922." In: Studia. Lisboa, n. 43-44 (jan.-dez.), 1980.
LOURENÇO, Eduardo. "Crise de identidade ou ressaca imperial?" In: Prelo. Lisboa, n. 1 (out.-dez.), 1983.

Saiba Mais – Links

segunda-feira, 16 de julho de 2018

O eunuco do Morro Redondo

Um drama real em Pernambuco no ano de 1936: a castração executada pelo cangaceiro Virgínio Fortunato, cunhado de Lampião.
Frederico Pernambucano de Mello
"Lampião, que exprime o cangaço, é um herói popular do Nordeste. Não creio que o povo o ame só porque ele é mau e bravo. O povo não ama à toa. O que ele faz corresponde a algum instinto do povo (...). As atrocidades dos cangaceiros não foram inventadas por eles, nem constituem monopólio deles. Eles aprenderam ali mesmo, e, em muitos casos, aprenderam à própria custa." Rubem Braga, O conde e o passarinho. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1935.
          O dia 19 de maio de 1936, uma terça-feira, poderia ter sido igual a todos os outros no povoado do Morro Redondo, distrito de Catimbau, do município do Buíque, Pernambuco, com a população - toda ela conhecida entre si, quando não aparentada ou unida pelo compadrio - entregue às tarefas cotidianas da vaqueirice e do trato do algodão e da mamona. Pelas duas horas da tarde, quase todos já tinham almoçado, o silêncio é quebrado desde longe por aboios e rinchos de jumento, num crescendo de tropel de cavalos em disparada. Todos atribuem a aproximação rápida a vaqueiros, com seus chapelões de couro, e se tranquilizam, ainda que curiosos por tanto barulho tão de repente.
          Logo os fatos iriam mostrar que estavam enganados, que não se tratava de vaqueiros farreando alegremente e que o lugarejo humilde, arredado do mundo e até mesmo das trilhas do cangaço, estava sendo ocupado por uma das frações mais brutais do bando de Lampião, comandada pelo cunhado do chefe, o não menos famoso cangaceiro Virgínio Fortunato, o Moderno. Com dez pessoas, oito homens e duas mulheres, todos a cavalo - o que denotava estarem seguros da ausência da polícia -, deslocavam-se divididos taticamente em três grupos separados entre si por cerca de quinhentos metros. No "coice", apenas o chefe Virgínio, em companhia das mulheres, inclusive a sua própria, a bela Durvalina Gomes, a Durvinha, a quem a cabroeira tratava por Maria Bonita para disseminar o pavor de que Lampião, em pessoa, estivesse por perto, e mais Rosalina, a Doninha, mulher do cabra Rio Branco. O cangaceiro Moreno, de coragem comprovada, lugar-tenente do chefe, fazia a "cabeceira" ou vanguarda com mais dois cabras. Todos tinham se juntado momentaneamente para a tropeada em direção ao Morro Redondo, cientes de que surpresa e pavor eliminam reações. Ali estavam, além de chefe e lugar-tenente, os cangaceiros Chumbinho, Jararaca, Ponto Fino, Serra de Fogo, Canário e Rio Branco. No mato, à espreita para possível ação de "retaguarda", o cabra Azulão.
          As missões de rapina, chamadas pelos cangaceiros de "volantes", para mexer com os policiais que denominavam assim as suas tropas móveis, não eram incursões aleatórias. Algum planejamento as antecedia, assuntando-se sobre a abertura dos caminhos, locais sujeitos a tocaia, presença de força policial próxima e, sobretudo, o levantamento dos ricos da terra. Não foi surpresa que entrassem na rua trazendo preso, montado em um cavalo, o capitalista do lugar, Firmino Cavalcanti, mais conhecido como Firmino de Salvador, dominado, com o irmão, o velho Epifânio, em seu sítio de nome Breu, um centro algo próspero de agricultura e de compra de couros e cereais. Muito ao estilo do bando de Lampião, vinham presos a resgate, cumprindo às famílias, além de levantar o dinheiro, arranjar um "positivo" de coragem que viajasse até encontrar o grupo e resgatar a vítima. Uma dificuldade, se considerarmos, além de tudo, que esse resgate não era menor do que a quarta parte do valor de um automóvel à época, podendo ir, em alguns casos, ao dobro de tal valor. O equivalente a dois carros pela vida de fazendeiro próspero foi moeda comum no sertão dos anos 20 e 30 do século passado. No tempo de Lampião.
          Os bandidos, ágeis, saltam dos cavalos e vão ganhando as casas a chicotear a todos pela frente, aqui e acolá brandindo o coice dos fuzis sobre os mais apavorados, lançando ameaças, nivelando a população pelas denominações comuns de "fi' da peste", "fi' d'ua égua", "cão", "amancebado", "descarado", ditas em altas vozes. O cangaceiro Serra de Fogo impressiona por gritar a cada instante: "Veja logo o dinheiro pr'eu não ser mais ruim do que já sou!" Outra marca negativa vem das mulheres cangaceiras, que não poupam os chicotes no rosto e no lombo dos mais próximos, numa ação de gênero de todo incomum nos sertões.
          O chefe Virgínio, faiscando de ouro sobre o traje colorido e imponente, se exalta por não encontrar em casa o filho do prisioneiro Firmino, a quem incumbiria, no plano traçado, ir ao Buíque levantar o dinheiro do resgate. O jovem Pedro de Albuquerque Cavalcanti se achava no mato, "dando campo", no traquejo do gado da família. No bando havia dez anos, desde que enviuvara de uma irmã de Lampião morta pela peste bubônica no Juazeiro do padre Cícero, Virgínio desce do burro e entra na casa de Pedrinho Salvador - como era conhecido - advertindo a mulher deste, dona Ester, com palavras graves. Botando os olhos muito vermelhos sobre ela, recomenda que Pedrinho "vá ver o dinheiro no Buíque assim que chegar". E se recosta numa mesa, servindo-se de cerveja quente, cara fechada, importante, consciente de seu poder absoluto. Chumbinho bota a cara bexigosa na janela, avisando o chefe de que as montarias estavam cansadas. Este, numa demonstração de que o absolutismo tinha limite, recomenda cuidado na devolução dos cavalos, "porque tem um que é do coronel Arcelino de Brito".
          Saindo à ruazinha de lama, Virgínio divisa entre os curiosos um rapaz alto, magro, 22 anos de idade, caboclo quase índio, a quem se dirige com energia: "Venha cá, cabra! Se correr, morre!" O jovem, que jamais vira um cangaceiro em sua frente, se aproxima sem receio, sendo-lhe indagado se era da terra, ao que responde afirmativamente. Segue-se nova pergunta: "Você sabe onde fica o Xilili? Quero que você me bote na estrada que vai pra lá. E vamos logo, cabra!" Para sua surpresa, o jovem - que sabia onde ficava o lugar levado pela ingenuidade põe-se na frente dos animais e responde que ignorava aquele rumo.
          O chefe cangaceiro se enfurece, risca o cavalo novo em que se montara e grita não entender como alguém dali não conheça o lugar procurado, próximo de onde se encontravam. Atordoado, o jovem mantém a negativa implausível. E o mundo lhe desaba sobre a cabeça, todo o seu futuro vindo a se definir nos poucos minutos que se seguem. É arrastado pelos cabras para trás de uma cerca, derrubado no chão a coice de fuzil e fica à espera do chefe, numa eternidade de segundos. Virgínio apeia calmamente, calça umas luvas amarelas e vai até às mulheres pedindo que procurassem uma sombra porque tinha que fazer "um serviço". Uma delas lhe atira no rosto sem nenhum respeito: "Que tanto 'serviço' é esse, rapaz! Chega de tanto 'serviço'!".
          Sem se alterar, o chefe vai até onde estava o jovem, levanta-o pela abertura da camisa, encara-o, e sentencia com uma dureza de Velho Testamento: "Eu agora vou fazer um 'serviço' em você mode você não deixar descendença de famia em riba do chão. Desça as calças!" O rapaz cobre o rosto e cai, compreendendo finalmente no que se metera. Sai o grito: "Valha-me Nossa Senhora!" E a resposta incrível: "Ah, não tem o que fazer. É Nossa Senhora mesmo que está mandando". O punhal longo corre rápido pela virilha da vítima e estoura o cinturão com movimento de alavanca. Calças arriadas, Virgínio ordena: "Segure [os testículos] senão eu toro com tudo [com o pênis]". Embainha o punhal de quatro palmos e dois dedos - seria perdido horas depois e recolhido à delegacia do Buíque - e bate mão de uma "peixeira", faca ainda pouco conhecida no sertão à época. Um golpe só e o bandido tem nas mãos bolsa e testículos do jovem. Caminha, ainda lentamente, reingressa no arruado e chega à porta de dona Ester, com as mãos em concha ensanguentadas, e diz, educadamente: "Dona, eu tinha visto que a senhora tava com feijão no fogo. Quer os colhões de um porco?" E despeja tudo na panela de barro, sem esperar resposta. O feijão espuma. A mulher agradece. Virgínio sai e vai juntar-se aos companheiros. Risadagem. De cima do cavalo, dirige-se ao jovem caído, a perder muito sangue, e receita exatamente a assepsia eficaz da vaqueirice: "Bote sal, cinza e pimenta!".
          O lugar-tenente Moreno volta da rua, onde se detivera a ameaçar com o mesmo "serviço" ao também jovem Antônio Leite Cavalcanti, o Antônio Grosso, e ao prisioneiro Epifânio que, velho e desiludido do futuro, reage duramente ao bandido, caindo-lhe na admiração. Moreno grita na rua: "Oh, veio macho! Ninguém me toca mais num fio de cabelo dessa onça... Só assim eu vou sabendo que muié pariu home no Morro Redondo!".
          No dia 25 de maio, vindo de Rio Branco (atual Arcoverde) na segunda classe do trem da Great Western, o jovem Manuel Luís Bezerra, o "Mané Lulu", filho de Francelina e Luís Bezerra, naturais, como o filho, ali mesmo do Catimbau do Buíque, chegava ao Recife, ficando por um mês no Serviço de Pronto-Socorro, após o que voltaria a pé para a sua residência. O Morro Redondo ganhava uma espécie de eunuco.
          O leitor que toma partido gostará de saber que o chefe Virgínio não viverá muito tempo mais para debochar de sua vítima nas passagens pelo Morro Redondo, amiudadas a partir de então, indagando como ia o "protegido" de saúde e se voltara a namorar... Em outubro desse mesmo 1936, quando procurava os Cariris Velhos, na Paraíba, para se furtar à ação das forças policiais assanhadas pelo ataque de 28 de setembro à vila de Piranhas, no sertão alagoano do São Francisco, passa a ser seguido a distância, nem bem cruzara a divisa, pelo destacamento policial da vila de Inajá, Pernambuco, de apenas quatro soldados, sob o comando do cabo Pedro Alves, um perseguidor experiente de cangaceiros, com mortes nas costas. A aproximação se fazia difícil por conta do número elevado de bandidos: trinta homens e três mulheres, acoplados os bandos de Corisco, com ele mesmo à frente e sua mulher, Dadá, o de Virgínio, completo, mais os remanescentes do grupo de Gato, morto em Piranhas.
          O jogo de gato e rato às avessas - rato enorme, gato minúsculo - segue pelas areias do Moxotó por dois dias, até que num baixio próximo da sede da Fazenda Rejeitado, sul do município pernambucano de Alagoa de Baixo (hoje Sertânia), quando, a bem dizer, já avistavam a Paraíba, os bandidos levam uns poucos tiros, dados de longa distância. Uma longa distância que nunca fora problema para o fuzil Mauser, modelo 1908, regulamentar na volante pernambucana. Pedro Alves e o soldado Pompeu Aristides de Moura, um filho de cangaceiro da ribeira do Navio, tinham ficado sós no momento em que acertavam a tática de atirar "no cabra mais vistoso" e correr para a caatinga, livrando-se do retruque que sabiam violento e rápido. Estava ali a nata do cangaço. E é assim que Virgínio, alto, elegante, grisalho, com uma cartucheira de ombro faiscante de balas a lhe cingir o tórax em diagonal, encontra a morte com apenas um tiro que abre a face interna da coxa e expõe a veia femoral. Sentado ao pé de uma quixabeira, a se esvair em sangue, encontra tempo para se despedir de cada um dos companheiros. Os soldados mergulham na caatinga como veados, debaixo de um chuveiro de balas. Seriam premiados pela ousadia: cabo passando a sargento, e soldado, a cabo.
          No dia seguinte, outros soldados vão ao local para o levantamento do cadáver mal sepultado na pressa, arrancando os dentes de ouro do finado a coice de fuzil, à falta de qualquer outro despojo, tudo conduzido pelo bando na véspera. Um dos soldados, do destacamento do Buíque, conhecedor do episódio do Morro Redondo, corta uma orelha do morto famoso. Cunhado de Lampião. Com uns dias, cavando possível agrado, leva a peça salgada para Manuel Luís, que se recusa a ficar com esta, mas não a escutar toda a história da morte de seu algoz.
          Passados 51 anos da tragédia, Manuel Luís ainda se emociona. Segura no braço do entrevistador e diz baixinho: "Foi o dia mais feliz da minha vida!".
          Duas observações para finalizar. Interessa pouco enquadrar o cangaço como expressão de criminalidade, embora isto seja perfeitamente possível no plano jurídico. O caráter público, ostensivo e franco da ação do cangaceiro - a partir do próprio traje - nos remete para algo mais profundo, anterior à própria ideia de lei na colônia surgida em 1500. E ligado continuamente, ao longo de cinco séculos, ao que temos considerado o mito primordial brasileiro, expresso na frase dos primeiros reinóis que viram os habitantes do Brasil e que, submetidos à dupla dominação, a do papado romano e a da Coroa portuguesa, encantaram-se em relatar para a Europa terem encontrado homens iguais a si, mas superiores num ponto capital: "eles vivem sem lei nem rei e são felizes".
          E agora uma constatação. Também uma curiosidade. Todo o quadro de punições do cangaço não é senão a transposição para a subcultura cangaceira de procedimentos empregados pelo vaqueiro no dia a dia do trato com o gado. Assim, o "sinal", a individualizar por cortes nas orelhas o gado pequeno, a ovelha ou a cabra, a "miunça" do falar sertanejo. Ou o "ferro", a queimar o pelo do gado graúdo, deixando a marca indelével do dono. Ou, ainda, o "sangramento" do gado miúdo, pela introdução de instrumento perfurante. Ou, por fim, a "capação", aqui relatada, em tudo similar à que se faz com o bode, por exemplo. Quase dono do mundo, vivendo sem lei nem rei como seus ascendentes de cinco séculos, o cangaceiro confirmava com gestos a condição assumida de vaqueiro de gente, sobranceiro e, por vezes, desligado da categoria da morte, a se levar a sério o que cantava a gesta.

FREDERICO PERNAMBUCANO DE MELLO é pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco e autor de Guerreiros do sol violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa Editora, 2004. O autor agradece à equipe do posto médico do Catimbau do Buíque, Pernambuco, o apoio que lhe permitiu, quando do levantamento dos fatos aqui narrados, fazer a constatação anatômica da lesão sofrida por Manuel Luís Bezerra.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2  nº 13 - Novembro 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CHANDLER, Billy Jaynes. Lampião: o rei dos cangaceiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.
LIMA, Estácio de. O mundo estranho dos cangaceiros. Salvador: Itapoã, 1965.
MELLO, Frederico Pernambucano de. Quem foi Lampião. Recife - Zurich: Stàhli Edition, 1993.


Saiba Mais – Filme
Baile Perfumado
Amigo íntimo do Padre Cícero, o mascate libanês Benjamin Abrahão decide filmar Lampião e todo seu bando, pois acredita que este filme o deixará muito rico. Após alguns contatos iniciais ele conversa diretamente com o famoso cangaceiro e expõe sua ideia, mas os sonhos do mascate são prejudicados pela ditadura do Estado Novo.
Direção: Lírio Ferreira, Paulo Caldas
Ano: 1996
Áudio: Português
Duração: 93 minutos





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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Abaixo a vacina!

Há exatamente um século, o carioca liderava a maior revolta urbana a que o Rio de Janeiro já assistiu, dizendo "Não!" à obrigatoriedade da vacina contra a varíola e à invasão de seus lares imposta pelo governo.
José Murilo de Carvalho
          Com 800 mil habitantes, o Rio de Janeiro de 1904 era uma cidade perigosa. Espreitando a vida dos cariocas estava todo tipo de doenças bem como autoridades capazes de promover, sem qualquer cerimônia, uma invasão de privacidade. Tuberculose, febre amarela, peste bubônica, varíola, malária, tifo, cólera e outras enfermidades contagiosas vitimavam a população e assustavam os estrangeiros. A capital da jovem República era uma vergonha para a nação. Desmentindo o apelido de "Soneca", o presidente Rodrigues Alves decidiu agir rápido. Iria acabar com esse vexame e ao mesmo tempo embelezar a cidade nos seus quatro anos de governo (1902-1906). Para essa dupla tarefa, convocou, respectivamente, o sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) e o engenheiro Pereira Passos (1836-1913).
          Com suas políticas de saneamento, Oswaldo Cruz mexeu com a vida de todo mundo, sobretudo dos pobres. Em junho de 1904, o governo propôs uma lei que tornou obrigatória a vacinação, motivando petições contrárias assinadas por cerca de 15 mil pessoas. A lei foi aprovada em 31 de outubro; no dia 9 de novembro, Oswaldo Cruz propôs uma drástica regulamentação, exigindo comprovantes de vacinação para matrículas em escolas, empregos, viagens, hospedagens e casamento. Estava até previsto o pagamento de multas para quem resistisse. A proposta vazou para a imprensa e, indignado, o povo do Rio disse não, na maior revolta urbana já vista na capital. O motim começou no Largo de São Francisco, em torno da estátua de José Bonifácio. Estudantes protestavam contra a vacina, quando um delegado de polícia prendeu um deles, levando-o para a Praça Tiradentes, onde ficava a Secretaria de Justiça. Houve confrontos entre os manifestantes e a cavalaria. Foi então que se ouviram os primeiros gritos de "Morra a polícia!", "Abaixo a vacina!". Isso, já no dia 10, uma quinta-feira, quando a regulamentação de Oswaldo Cruz sequer havia sido aprovada. No dia 11, repetiram-se os protestos. No dia 12, segundo o Correio da Manhã, 4 mil pessoas, "de todas as classes sociais", concentraram-se no Centro das Classes Operárias, na Rua do Espírito Santo - atual Rua Pedro I -, próximo à Praça Tiradentes, para fundar uma Liga Contra a Vacina Obrigatória. Depois, a multidão seguiu rumo ao Palácio do Catete, já fortemente guardado, trocando tiros com a polícia no caminho. O Exército entrou em prontidão.
          No dia 13, um domingo, a revolta se generalizou. A Praça Tiradentes virou campo de batalha. Partindo de lá, a luta se estendeu por toda a região entre o Largo de São Francisco e a Praça da República. Ouviam-se descargas de revólver e carabina, bondes começaram a ser queimados, barricadas foram erguidas na Avenida Passos. Na Rua de São Jorge, as prostitutas aderiram à luta. A população assaltou delegacias, quartéis, casas de armas. A essa altura, o conflito atingia a região portuária da Saúde e da Gamboa, seguindo para Laranjeiras e Botafogo, hoje Zona Sul do Rio, e também para a Tijuca, Rio Comprido e Engenho Novo, na Zona Norte. Na Rua Larga de São Joaquim, atual Avenida Marechal Floriano, as colunas dos lampiões de gás foram quebradas e enormes chamas lambiam os ares.
          Ao amanhecer, a paisagem era de devastação, e foi assim descrita pelo Jornal do Commercio, na edição do dia 15: "(...) paralelepípedos revolvidos, que serviam de projéteis para essas depredações, coalhavam a via pública; em todos os pontos destroços de bondes quebrados e incendiados, portas arrancadas, colchões, latas, montes de pedras, mostravam os vestígios das barricadas feitas pela multidão agitada". A revolta se concentrara em dois redutos, o do distrito do Sacramento, entre o Largo de São Francisco e a Praça da República, e o da Saúde, na zona portuária localizada entre a Praça da Harmonia e o Morro da Gamboa. Nos dois pontos, a luta continuou durante todo o dia 14, havendo incidentes até na longínqua Copacabana.
          No Sacramento, combatia-se na rua a revólver e a porrete, enquanto dos sobrados os moradores jogavam latas, garrafas, pedaços de madeira e o que mais estivesse à mão. Na Saúde, os revoltosos assumiram o controle da delegacia de polícia e, segundo cálculos do Jornal do Commercio, duas mil pessoas construíram barricadas na Praça da Harmonia e ao longo da rua de mesmo nome. O clima era de tensão. O governo dividiu, então, o controle da cidade entre polícia, Exército e Marinha. As autoridades estavam tão inseguras que convocaram tropas do Exército de Niterói, Lorena (São Paulo) e São João dei Rei (Minas Gerais).
          Na esteira da rebelião popular contra a invasão de privacidade e a obrigatoriedade da vacina, surgiram outras reivindicações, de grupos sociais distintos. Declarações do presidente do Centro das Classes Operárias e líder da revolta, Vicente de Souza, atestam isso. Ele dizia que o levante contra a vacinação fora uma reação popular, que elementos belicosos da "classe temerosa" souberam aproveitar.
          Na Escola Preparatória e de Tática do Realengo, comandada pelo general Hermes da Fonseca, futuro presidente da República, houve uma tentativa de levante. Um dos revoltosos entrou na Escola gritando: "Prende o general! Mata o general!" O golpe falhou, mas o clima de sublevação se instalou na Escola Militar da Praia Vermelha. Cerca de trezentos cadetes, sob o comando do general Silvestre Travassos, se puseram em marcha para o Palácio do Catete. Eram 10 horas da noite e Botafogo estava às escuras, porque os lampiões tinham sido destruídos. O governo fortificou o palácio e mandou tropa para enfrentar os cadetes. Os dois grupos se enfrentaram na Rua da Passagem e trocaram tiros no escuro. O general Travassos caiu ferido. Sem saber o que acontecia do outro lado, as duas tropas debandaram. Ao Catete chegou, de início, a notícia de que os soldados do governo tinham fugido. Houve pânico e sugeriu-se a Rodrigues Alves que se refugiasse num navio de guerra para de lá organizar a resistência. O presidente recusou o conselho e logo veio o alívio com a informação da debandada também dos cadetes.
          No lugar da festa cívica, o dia 15, aniversário da República, foi de revolta popular. No alto do Morro da Mortona, na Saúde, foi hasteada uma bandeira vermelha. Um novo foco de rebelião surgiu no Jardim Botânico, onde seiscentos operários das fábricas de tecido Corcovado e Carioca, e da fábrica de meias São Carlos, atacaram a delegacia de polícia. Chegaram nesse dia as tropas de Minas e de São Paulo; no dia seguinte, o presidente Rodrigues Alves decretou estado de sítio. O reduto rebelde erguido em barricadas na Saúde era o que mais preocupava as autoridades. No final da Rua da Harmonia ergueu-se a principal delas.
          Um repórter do Jornal do Commercio assim descreveu a situação no local: "aquela multidão sinistra, de homens descalços, em mangas de camisa, de armas ao ombro uns, de garruchas e navalha à mostra outros". No comando dos rebeldes estavam os valentões Manduca Pivete e Prata Preta, o terror da polícia. Ao ser preso, Prata Preta matou um soldado do Exército e feriu dois policiais. Estava armado com dois revólveres, uma faca e uma navalha. O reduto da Harmonia foi atacado por terra e mar, desmobilizando os revoltosos, que não deram combate e simplesmente desapareceram. Ou, pelo menos, tentaram.
          Assim que os manifestantes se dispersaram, a polícia iniciou a varredura das áreas atingidas pela revolta, prendendo quem lhe parecesse suspeito. A caçada se prolongou pelos dias seguintes. Seu ato final foi uma batida no Morro da Favela, no dia 23. O nome fora dado por soldados retornados da Guerra de Canudos e depois acabou se generalizando, sendo atribuído a todas as comunidades pobres dos morros do Rio. Os moradores do Morro da Favela haviam fugido. Mas a essa altura já havia na Ilha das Cobras mais de setecentos presos, chegando a 945 no final das operações de busca dos supostos culpados. Nas ruas, o saldo de vítimas era desolador: trinta mortos, 110 feridos e 461 deportados para o Acre sem qualquer processo.
          A classificação dos revoltosos variava. Para a oposição, cuja principal voz era o Correio da Manhã, o povo - estudantes, operários, comerciantes e militares - é que tinha se rebelado. Para os jornais que apoiavam o presidente, como O Paiz, para o chefe de polícia, Cardoso de Castro, e para o governo, a revolta tinha sido obra de desordeiros, arruaceiros, desocupados. Castro se referiu ao "rebotalho", às "fezes sociais". A elite intelectual concordava. O poeta Olavo Bilac atribuía os acontecimentos à "matula desenfreada", à "turba-multa irresponsável de analfabetos".
          Na raiz dos distúrbios estava um problema sanitário sério. Oswaldo Cruz escolheu três doenças como foco de sua empreitada: a febre amarela, a peste bubônica e a varíola. Combater o mosquito transmissor da febre era fundamental para conter o avanço da doença. Brigadas de mata-mosquitos saíam pela cidade invadindo residências, cortiços, casas de cômodos. Limpavam, desinfetavam, exigiam reformas e interditavam esses ambientes, removendo os doentes de seus lares. Só no segundo semestre de 1904, foram 110 mil visitas. Quanto à peste bubônica, o controle da epidemia exigia o extermínio dos ratos e das pulgas. O governo, acreditando poder assim tornar mais eficaz o trabalho, decidiu comprar ratos. Não demorou para que o carioca começasse a criá-los para faturar uns trocados. Um ou outro chegou mesmo a importar o roedor de Niterói para vendê-lo no Rio. No Carnaval de 1904, a população cantava a própria desgraça. Caiu na folia dançando a polca - ritmo originário da antiga Tchecoslováquia - "Rato-rato", da dupla Casemiro Rocha e Claudino Costa (Clique e ouça).
          Exatamente um século depois da Revolta da Vacina, quais conclusões podem ser tiradas daqueles dias turbulentos de novembro de 1904? Uma coisa é certa: houve várias revoltas dentro da revolta. Uma delas foi, sem dúvida, a dos militares. Outra, a dos operários do Centro das Classes Operárias e das fábricas do Jardim Botânico. E ainda uma terceira, a do "povão" do Sacramento e da Saúde, reunindo capoeiras, prostitutas da Rua de São Jorge, portuários e gente com passagens pelas delegacias de polícia.
          A mobilização começou no Centro das Classes Operárias, dirigido pelo socialista Vicente de Souza hoje, nome de uma rua em Botafogo. Há informação sobre a ocupação de 10.199 dos 14.812 signatários das petições contra a vacinação obrigatória. Verifica-se que 78 eram militares; os outros, isto é, quase a totalidade, eram operários. A análise dos documentos e jornais de época revela a presença desproporcional desse grupo entre as vítimas. Do total de feridos, ele representa 71%. E do total de mortos, 86%. Esses números ganham proporções ainda mais relevantes se levarmos em conta que os operários representavam apenas 20% da população carioca. É por isso que, para entender os motivos da Revolta da Vacina de 1904, temos de voltar os olhos para os trabalhadores.
          Naquele momento, outros grupos se aproveitaram da revolta dos pobres. Os militares e políticos da oposição queriam derrubar o governo, queriam acabar com o que chamavam de república prostituída dos fazendeiros e restaurar a pureza que viam em Floriano Peixoto e Benjamin Constant. Para o "povão" do Sacramento e da Saúde, talvez a intervenção sanitária de Oswaldo Cruz não fosse exatamente o principal motivo das manifestações. É possível que tenha aproveitado a revolta para bater em seu tradicional inimigo, a polícia. Mas, e os operários e os que poderíamos chamar de pobres honestos, por que se rebelaram?
          Não foi por motivos econômicos. Tinham passado os anos duros do governo de Campos Sales (1898-1902) e a economia voltara a crescer e gerar empregos. Teria sido por causa dos deslocamentos de pessoas causados pelas obras na cidade? Não parece. Quase não se fez referência à reforma nos discursos, nos jornais operários, nas manifestações de rua. Os executores dessa mudança radical, Pereira Passos e Paulo de Frontin, escaparam da ira popular. Mais ainda, os dois principais redutos da revolta, Sacramento e Saúde, foram pouco afetados pelas obras. Tampouco cresceu sua população em virtude da expulsão dos moradores das centenas de casas derrubadas para a construção da Avenida Central, hoje Rio Branco, e da Avenida Passos.
          Resta indagar se os motivos da revolta foram, no final das contas, as campanhas de combate às epidemias e a vacinação obrigatória. Todas as evidências indicam que sim. Para mencionar uma só, Oswaldo Cruz foi massacrado, acusado - pela sociedade de alto a baixo - de despótico e arbitrário, quando não de irresponsável. Políticos, Rui Barbosa entre eles, qualificavam as medidas adotadas de violação dos direitos civis e da Constituição.
          Para entender por que a intervenção sanitária revoltou a todos, é preciso ter em mente os valores e os costumes do início do século XX. O líder dos operários, o socialista Vicente de Souza, argumentava que era uma ofensa à honra do chefe de família ter seu lar, em sua ausência, invadido por um desconhecido. E, muito pior, saber que diante dele sua mulher e filhas seriam obrigadas a desvendar seus corpos. Em que consistiria tal desvendamento?
          A vacinação era feita no braço, nos postos médicos ou em casa, com o auxílio de uma lanceta, instrumento cirúrgico de dois gumes. O deputado oposicionista Barbosa Lima admitiu a possibilidade de aplicação na coxa. Nos comícios, oradores inflamados deslocaram o local para as virilhas. O escritor José Vieira nos conta, no romance O bota-abaixo, que, no Largo de São Francisco, eles radicalizaram, dizendo que "cafajestes de esmeralda" (referiam-se à pedra que representava a profissão de médico) invadiriam os lares para "inocular o veneno sacrílego nas nádegas das esposas e das filhas". O impacto de tais argumentos foi devastador. A vacinação e a revacinação se reduziram de 23 mil em julho para pouco mais de mil em outubro. Na Saúde, só 14 pessoas se vacinaram em outubro e apenas 18 tomaram uma segunda dose.
          A Revolta da Vacina se distinguiu de protestos anteriores por sua amplitude e intensidade. O que lhe deu esta característica foi a força da justificação moral. Houve um trágico desencontro de boas intenções, as de Oswaldo Cruz e as da população. Mas em nenhum momento podemos acusar o povo de falta de clareza sobre o que acontecia à sua volta. Embora não se interessasse por política, embora não votasse, ele tinha noção clara dos limites da ação do Estado. Seu lar e sua honra não eram negociáveis. A revolta deixou entre os participantes um forte sentimento de autoestima, indispensável para formar um cidadão. Um repórter de A Tribuna ouviu de um negro acapoeirado frases que atestam esse sentimento. Chamando sintomaticamente o jornalista de cidadão, o negro afirmou que a sublevação se fizera para "não andarem dizendo que o povo é carneiro". O importante - acrescentou - era "mostrar ao governo que ele não põe o pé no pescoço do povo".

JOSÉ MURILO DE CARVALHO é professor titular de História do Brasil na Universidade Federal do Rio de Janeiro, membro da Academia Brasileira de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e autor de Os bestializados. O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.           

Fonte: Revista Nossa História - Ano 2 -  nº 13 - Novembro 2004

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Sonhos Tropicais
          No início do século XX chegam ao Rio de Janeiro, no mesmo navio Esther, uma jovem polonesa com a promessa de se casar e iniciar uma nova vida, e Oswaldo Cruz, que retorna de Paris cheio de sonhos em transformar a saúde pública do país. Esther, uma jovem judia vinda da Polônia com a promessa de se casar, mas quando chega ao Rio de Janeiro é obrigada a trabalhar como prostituta em um bordel da Lapa. Esse tipo de situação era comum no inicio do século XX, pobres ou fugidas do antissemitismo acabavam se tornando prostitutas, ou por serem obrigadas ou por falta de opção, eram as chamadas “Polacas” ou “Escravas Brancas” - essa pratica só começa a decair após a década de 40. Já Oswaldo Cruz, foi nomeado chefe do departamento de Saúde Pública responsável por eliminar as várias doenças - peste bubônica, febre amarela e a varíola - que assolavam a população da cidade. Anos de insatisfação popular e forte oposição política explodem a "Revolta da Vacina".
Direção: André Sturm
Ano: 2002
Áudio: Português/Legendado