"Tudo que o homem não conhece não existe para ele. Por isso o mundo tem, para cada um, o tamanho que abrange o seu conhecimento." Carlos Bernardo González Pecotche

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Questão de fé

Ideais de liberdade religiosa e ensino laico puseram a Maçonaria em rota de colisão com a Igreja Católica, num conflito que, no Brasil, culminou com a prisão de bispos em 1874.
Eliane Lúcia Colussi
          A historiografia brasileira dedicou pouco espaço aos estudos sobre a Maçonaria. Em 1939, Gustavo Barroso (1888-1959) chamou a atenção sobre a importância da instituição maçônica na sua História secreta do Brasil. Um dos principais expoentes do pensamento conservador-católico, o autor afirmava que a história brasileira poderia ser explicada através da teoria do complô judaico-cabalístico-maçônico. A conspiração, que combinava elementos místicos e étnicos, agia subterraneamente e seria a responsável por muitos dos desfechos da política brasileira.
          Diversos mitos presentes até hoje na Maçonaria no Brasil tiveram sua origem nas teses de Barroso, entre os quais ela ser fonte de influência na política. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, a ordem fez pesada oposição ao absolutismo e à Igreja, congregando a elite econômica e intelectual ascendente. Essa postura gerou uma série de conflitos com o clero, que reagiu tentando restaurar e até mesmo endurecer um catolicismo autoritário, quase medieval.
          O crescente desprestígio do catolicismo no século XIX motivou a Igreja a adotar políticas que revigoraram o chamado ultramontanismo - movimento que pregava a retomada da autoridade papal "além das montanhas" que separavam a Itália do resto da Europa. O ultramontanismo foi uma reação a leis que, nos países católicos, subordinavam a Igreja à autoridade do Estado, como acontecia no Brasil. Do outro lado, o pensamento anticlerical reunia um amplo leque de pensadores, incluindo liberais, maçons, nacionalistas, positivistas, anarquistas e socialistas.
          O confronto entre clérigos e maçons recrudesceu quando repercutiram no Brasil os ventos da política de romanização católica. Implementada pelo Papa Pio IX (1848-1879), essa política pretendia, a partir da retomada de posicionamentos conservadores, do prosseguimento de uma política de centralização da Igreja em torno da figura do papa e da intransigência liberal, reverter o quadro negativo enfrentado pelo catolicismo em escala mundial.
          Um dos espaços importantes na disputa entre os posicionamentos clericais e anticlericais foi a política institucional. Os maçons transitavam com muita intimidade neste terreno. Muitos pertenciam ao Partido
Conservador e outros tantos, ao Partido Liberal. A Maçonaria não orientava seus integrantes a seguirem uma ou outra corrente política. A liberdade de expressão tanto religiosa como política, constituía-se em ponto fundamental a ser respeitado pelos maçons.
          Tal postura não significava, porém, que a Maçonaria evitasse exercer algum tipo de influência no cenário político. No período em que se radicalizou a luta entre a ordem e a Igreja Católica, houve diversas iniciativas que revelaram a necessidade de uma atuação mais intensa dos maçons na política. Tratava-se de defender a liberdade de imprensa e discutir temas que envolviam a relação de Igreja e Estado, como o ensino religioso na rede pública, subsídios para a vinda de padres estrangeiros para o Brasil e a destinação de recursos para a construção e reforma de igrejas.
          As irmandades religiosas foram outro espaço de disputas entre Maçonaria e Igreja Católica, especialmente a partir de 1872, quando aconteceu a chamada Questão Religiosa. Até então, era pública a presença de muitos integrantes do clero nas lojas maçônicas e de maçons nas irmandades religiosas - a maioria dos integrantes da Maçonaria no Brasil era formada por católicos. Apesar da aparente contradição, esse fato estava em sintonia com a situação mundial da ordem: a religião predominante num país tende a ser a mais comum dentro das lojas locais.
          A Igreja Católica no Brasil, porém, mobilizou-se contra essa situação e passou a contra-atacar, publicando bulas e cartas pastorais condenando a Maçonaria e as sociedades secretas. Os documentos de condenação previam várias penalidades aos anticlericais, incluindo a expulsão de padres maçons que não abjurassem a ordem e a suspensão dos trabalhos das irmandades e confrarias que estivessem sob suspeita de influência maçónica.
          No início da década de 1870 o pensamento ultramontano já dominava o clero brasileiro. Havia um conflito de consciência entre a lealdade às diretrizes da Santa Sé e às leis do Império. A Constituição de 1824 determinava que a publicação e aplicação no Brasil de decretos, bulas e cartas papais dependiam do beneplácito (consentimento) do imperador. Em 1872, os bispos de Olinda, d. Vital Maria Gonçalves de Oliveira, e de Belém, d. Antônio de Macedo Costa, resolveram cumprir as ordens de Roma. Desobedecendo ao beneplácito, suspenderam as irmandades religiosas que haviam se recusado a expulsar os maçons de seus quadros.
          Em muitas cidades do Brasil ocorreu uma verdadeira caça às bruxas no interior das irmandades. Houve até mesmo a interdição dos templos de irmandades que não quiseram excluir das suas fileiras os membros maçons. Em 16 de janeiro de 1873, d. Vital lançou o interdito, como penalidade pela desobediência de expulsar os maçons de seus quadros, à Irmandade do Santíssimo Sacramento. No Pará, d. Macedo Costa editou uma pastoral em 25 de março de 1873 proibindo a presença de maçons nas irmandades. Foram punidas as Irmandades da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos e da Ordem Terceira de São Francisco.
          As irmandades recorreram ao imperador que ordenou aos bispos que cancelassem a suspensão. Como eles se recusaram a obedecer, foram presos e condenados "no grau médio do Artigo 96 do Código Criminal que previa quatro anos de prisão com trabalhos". Anistiados em 1875, os prelados mantiveram suas decisões contra as irmandades, o que contribuiu para que as relações entre Igreja e Império ficassem cada vez mais estremecidas. Por trás da presença ou não de maçons nas irmandades religiosas grande tema da Questão Religiosa foi a subordinação da Igreja Católica ao Estado brasileiro.
          Além da liberdade política e religiosa, a educação popular foi sempre um tema muito caro à Maçonaria, com ideias comuns à dos liberais no século XIX. Eles acreditavam que a sociedade moderna, necessariamente laica e secular, originária da revolução intelectual dos finais do século XVIII, deveria assentar-se no conhecimento científico e racional, eliminando os vestígios medievais da influência católica.
          As divergências entre as duas instituições adquiriram contornos de uma disputa político-institucional na educação. A ideia que se tinha era a de que por meio da educação das crianças e dos jovens se construiria o "futuro". Mas qual seria esse futuro? Para a maçonaria, ele estava intimamente ligado ao racionalismo/cientificismo, a modernidade e ao progresso. Para tanto era fundamental retirar das escolas públicas a obrigatoriedade do ensino religioso. Uma das vitórias nessa luta foi um decreto de 1874, que dispensava das aulas de religião os alunos não católicos. O fim do ensino religioso obrigatório só viria com a Constituição republicana de 1891. A Igreja Católica lutou bravamente contra a adoção do sistema educacional laico no Brasil. Seu discurso alertava os católicos contra “o falso brilho das doutrinas da época".
          É possível compreender o complexo quadro político e cultural brasileiro do século XIX também a partir da luta dessas duas instituições. O campo das ideias e das disputas em torno delas foi muito mais amplo do que os posicionamentos anticlericais e clericais abordados aqui. Num quadro em que a vida social se desenvolvia em poucos espaços públicos, a Maçonaria tornou-se efetivamente um lugar onde ocorria a sociabilidade da maior parte da elite. A Igreja Católica precisou empenhar-se muito para recuperar os espaços perdidos ou, talvez, até então não consolidados.

Eliane Lúcia Colussi é professora de História na Universidade de Passo Fundo (RS) e autora de A maçonaria gaúcha no século XIX. 3ª ed. Passo Fundo: Ediupf, 2003.

Saiba Mais – Links

domingo, 2 de junho de 2019

Cabanada, o perigo vem das matas

Durante uma guerra que durou três anos, rebeldes "cabanos", lutando por terra e liberdade, aterrorizaram os senhores de engenho em Pernambuco e Alagoas.
Janaina Mello
          O fato de os rebeldes morarem em habi­tações rústicas e muito pobres deu no­me - Cabanada - ao movimento que convulsionou o sul de Pernambuco e o norte de Alagoas entre 1832 e 1835. O nome pegou rápido. Se no princípio os sublevados eram chama­dos de "facínoras" nas cartas trocadas por autorida­des militares, a partir de 1833 eles já são denomina­dos de "cabanos" - o que não deixa de ser um sinal de reconhecimento. Mas, afinal, quem eram os cabanos? Eram índios aldeados, brancos e mestiços lavradores, moradores nas periferias dos engenhos, além de ne­gros fugidos das plantações, organizados em mo­cambos. Eles entendiam de luta. Nos seus embates com as forças militares provinciais, usavam táticas de guerrilha, assimiladas pela população pobre - lições passadas de geração a geração - ainda nos tempos das invasões holandesas, no século XVII.
          Pelas formas tradicionais de combate era difícil capturá-los. Conheciam como ninguém a região. Os ataques de surpresa, seguidos de recuos rápidos pa­ra dentro das matas, com a utilização de "trilhas quase intransitáveis", deixavam os oponentes des­norteados e costumavam desmantelar a repressão governista. Na correspondência entre o presidente da província de Pernambuco, Manuel Zeferino dos Santos (14/11/1832 - 27/9/1833), e o ministro do Império Nicolau Pereira de Campos Vergueiro (13/9/1832 - 23/5/1833), constam, de fato, muitas queixas quanto aos insucessos da repressão aos ca­banos de Alagoas. Pernambuco, por seu turno, esta­ria arcando com o ônus do combate nas duas províncias sem possuir homens suficientes nas tropas de linha, já que as forças militares eram compostas por civis recrutados compulsoriamente. Estes deserta­vam do campo de batalha em grande quantidade, devido ao atraso no soldo e à preocupação com as privações por que passavam suas famílias por causa de sua ausência no trabalho agrícola.
          Havia na época muita exaltação nas cidades. Dis­putavam espaço na cena urbana os moderados (plan­tadores e comerciantes defensores do equilíbrio, do Estado forte e centralizado, sem incorporação de populares), os exaltados (proprietários rurais, militares, padres, funcionários públicos e médicos defensores da soberania popular, do federalismo, valorizando os pobres) e os restauradores (que pregavam a centraliza­ção absolutista, com a volta do tradicionalismo por­tuguês e a recondução de d. Pedro I ao trono). Mas, para os políticos da Corte, o campo é que era um es­paço instável e preocupante.
          Num relatório de 1841, quando aliás já tinha terminado a Cabanada, o ministro da Justiça Paulino José Soares de Souza, em nome do Partido Conservador, ainda alertava seus pa­res sobre como podiam ser perigosas as ideias "das gentes do interior" não submetidas às leis do governo. Outro político, Justiniano José da Rocha (1812-1862), em artigos publicados no jornal O Brasil, ao se referir aos pobres do país, ressaltava o "baixo ní­vel de civilização dessa gente", e mais a ausência de crença moral, de fé religiosa e de amor ao trabalho.
          A insurreição cabana, com sua diversidade étnica, estava associada a demandas sociais, tais como o direi­to à terra, à liberdade, à justiça e à prática religiosa al­mejadas por negros, indígenas e trabalhadores livres. Mas os cabanos não eram todos pobres. A primeira fa­se da revolta foi capitaneada por proprietários, entre eles Domingos Lourenço Torres Galindo e Manuel Afonso de Melo. Alguns haviam participado da sedi­ção militar de abril do mesmo ano, conhecida como Abrilada, defendendo a restauração de d. Pedro I, em oposição ao governo liberal moderado instalado nas províncias e na Corte. Mas, acostumados ao luxo e a privilégios, não estavam preparados para a vida nas matas. Enfrentando de inimigos armados a insetos, alimentando-se de frutos silvestres e larvas, tendo seu vestuário esgarçado por espinhos e galhos, foram facil­mente capturados ou mortos em combate. Outros, em desespero, se renderam às forças governistas.
          Índios e negros estavam mais habituados aos rigores da na­tureza. Em 1832, a população indígena ingressou na guerra cabana, atemori­zando os senhores de en­genho. Eram eles tapuias-kariris, originá­rios do Terço Paulista (planalto do Piratininga), cujos antepassados tinham sido trazidos para a região, no século XVII, por Domingos Jorge Velho. A partir de 1833, o conflito se intensificou com a presença de escravos fugidos dos engenhos de açú­car ou conduzidos à guerra pelos interesses po­líticos dos próprios senhores.
          Em 1834, os negros "papa-méis" (na fala regional, escravos fugitivos que se alimentavam de mel silvestre nas matas) já eram maioria entre os cabanos. As epidemias e a escassez de alimentos, resultante da destruição dos roçados de milho pelas tropas go­vernistas, reduziram o número de ín­dios e lavradores nas fileiras revolto­sas. No governo de Manuel de Carva­lho Pais de Andrade (17/1/1834 -11/4/1835), em Pernambuco, as pro­postas de anistia, com oferta de roupas, alimentos, re­médios, sementes e instrumentos para o cultivo da terra, também esvaziavam o movimento.
          Os negros estavam excluídos dessa negociação. A eles - que buscavam a liberdade - só restava retornar à escravidão depois da guerra, e por isso não se ren­deram. Em 1834, quando os combates arrefeceram com a deserção dos "livres", os negros fugidos man­tiveram a resistência nas matas. A "guarda negra" -como se refere aos seus homens Vicente Ferreira de Paula, líder dos cabanos a partir de 1832, em cartas publicadas no Diário da Administração Pública de Pernambuco - é objeto de grande preocupação para as autoridades provinciais.
          Ao atacar os engenhos para libertar escravos, os úl­timos cabanos interferiam na lógica da produção capitalista, desmoralizando a disciplina necessária ao domínio senhorial sobre terras e homens e a própria economia açucareira da região fronteiriça. Os negros papa-méis preferiam a morte em combate, preservando sua liberdade até o último instante. Constituíram, no Riacho da Mata, entre o sul de Pernambuco e o norte de Alagoas, um espaço para sobrevivência de sua economia de coleta, roçado e usos e costumes bem di­ferenciados do modo de vida do branco, como o des­pique (troca de mulheres) na reprodução do grupo (a criação de uma comunidade de filhos, onde a mulher casada se relaciona com outros homens. Viúvas parti­cipam, estabelecendo uma rede de ajuda mútua, cui­dados e trabalhos domésticos entre os envolvidos).
          A Cabanada adquiriu dimensão de gravidade na­cional justamente por tocar em pontos decisivos pa­ra a economia agroexportadora: a posse de terras por homens livres e a liberdade dos escravos.
          Se, no final, as lutas entre liberais, moderados e exaltados não trouxeram melhorias aos pobres do campo, a guerra cabana representou pelo menos uma interrupção do direito senhorial, em processo efetuado "de baixo para cima". Os saques e incêndios contra os engenhos significaram não apenas a sub­versão da ordem dominante, mas a apropriação, por inversão e destruição, do patrimônio senhorial.
          Por fim, vieram a pacificação intermediada pelo bispo de Olinda, d. João Marques Perdigão, a con­quista das matas pelas tropas governistas, as prisões, a repressão aos quilombos de Pernambuco e aos proprietários cúmplices dos cabanos. Os índios fo­ram reconduzidos aos aldeamentos. A abertura de estradas no interior reduziu o espaço de conflitos. Os remanescentes da revolta seriam utilizados em obras públicas ou recrutados à força para dar com­bate à Revolução Farroupilha, no sul do país. Só em 1850, 15 anos depois de terminado o conflito, o líder Vicente Ferreira de Paula foi aprisionado numa em­boscada. Mas a memória cabana permaneceria ain­da por muito tempo a assustar, como um fantasma, os grandes latifundiários da região.

Janaina Mello é professora assistente de História do Brasil na Universidade Estadual de Alagoas (FUNESA/ESPI) e doutoranda em História Social na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 4 nº 37 - Nov. 2006

Saiba Mais: Link

sábado, 1 de junho de 2019

A guerra do vintém

Exploradas por militantes republicanos, manifestações contra taxa sobre transporte urbano tumultuam capital do Império e deixam mortos e feridos pelas ruas.
José Murilo de Carvalho
           No dia 28 de dezembro de 1879, a capital do Império viu algo inédito desde 1863, quando o Brasil rompeu relações com a Inglaterra por conta da Questão Christie: a multidão protestando na rua. A manifestação aconteceu no campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em frente ao palácio imperial. Cerca de cinco mil pessoas, lideradas por um militante republicano, o médico e jornalista Lopes Trovão, reuniram-se para entregar a d. Pedro II uma petição solicitando a revogação de uma taxa de 20 réis, um vintém, sobre o transporte urbano, ou seja, bondes puxados a burro. O vintém era moeda de cobre, a de menor valor da época. A polícia não permitiu que a multidão se aproximasse do palácio. Enquanto os manifestantes se retiravam, o imperador mandou dizer que receberia uma comissão para negociar.
          Mas Lopes Trovão e outros militantes republicanos, buscando tirar o máximo proveito político da ação da polícia, recusaram o encontro. Divulgaram um manifesto dirigido ao soberano, convocando-o a ir ao encontro do povo. A Gazeta da Noite de Lopes Trovão e panfletos distribuídos pela cidade passaram a pregar o boicote da taxa e a incitar a população a reagir com violência, arrancando os trilhos dos bondes. Outra manifestação foi convocada para o dia 1º de janeiro, data da entrada em vigor da taxa, agora no centro da cidade, no Largo do Paço, hoje Praça 15 de Novembro.
          Nesse dia, a taxa estava sendo paga até que, ao meio dia, a multidão se reuniu no local previsto. Percebendo talvez a enrascada em que se metera, Lopes Trovão não incitou a multidão à ação. A massa moveu-se, então, pelas ruas do centro aplaudindo as redações dos jornais de oposição e se dirigiu ao Largo de São Francisco, ponto final de várias linhas de bonde. Em frente ao prédio da Gazeta da Noite, o próprio Trovão fez um apelo aos manifestantes para que se dispersassem. Mas àquela altura ele já perdera o controle dos acontecimentos. A massa popular concentrou-se nos arredores da Rua Uruguaiana e do Largo de São Francisco. O delegado que comandava as tropas da polícia pediu reforços ao Exército, mas, antes que a ajuda chegasse, ordenou à polícia que dispersasse a multidão a cacetadas.
          A um grito de “Fora o vintém!”, os manifestantes começaram a espancar condutores, esfaquear mulas, virar bondes e arrancar trilhos ao longo da rua Uruguaiana. Dois pelotões do Exército ocuparam o Largo de S. Francisco, postando-se parte da tropa em frente à Escola Politécnica, atual prédio do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ. O povo, que só detestava a polícia, aplaudiu a tropa. Mas alguns mais exaltados passaram a arrancar paralelepípedos e atirá-los contra os soldados. Por infelicidade, um deles atingiu justo o comandante da tropa, tenente-coronel Antônio Enéias Gustavo Galvão, primo de Deodoro da Fonseca, militar que uma década depois se tornaria o primeiro presidente do Brasil. O oficial descontrolou-se e ordenou fogo contra a multidão.
          As estatísticas de mortos e feridos são imprecisas. Falou-se em 15 a 20 feridos e em três a dez mortos. Entre os últimos, estavam estrangeiros e o flautista Loló, condutor da Cia. de São Cristóvão, atingido por uma pedrada. A multidão dispersou-se e, salvo pequenos distúrbios nos três dias seguintes, estava findo o motim do vintém. A cobrança da taxa passou a ser quase aleatória. As próprias companhias de bondes pediam ao governo que a revogasse. Desmoralizado, o ministério caiu a 28 de março. O novo ministério revogou o desastrado tributo.
          A capital do Império estava acostumada a distúrbios de rua. Vivera em quase permanente agitação entre 1820 e 1840. Nessa última data, o povo exigiu na rua a maioridade do imperador. A partir daí, no entanto, refletindo a estabilização política do Segundo Reinado, reduzira-se muito a agitação. A tranquilidade das ruas só fora quebrada nos protestos contra Christie, quando a multidão, liderada por Teófilo Otoni, ameaçou comerciantes ingleses e aplaudiu a ação do imperador. O que a trouxe de volta em 1879?
          Em 1878, depois de 10 anos de domínio conservador, subira ao poder o gabinete liberal de Sinimbu, encarregado de fazer a reforma eleitoral. Dividido por conflitos internos, desagradou a gregos e troianos. Os republicanos estavam furiosos com Lafaiete Rodrigues Pereira, ministro da Justiça, que assinara o Manifesto Republicano de 1870, e agora se bandeava para o campo liberal. A principal fonte de insatisfação, no entanto, vinha da política fiscal do ministro da Fazenda, Afonso Celso de Assis Figueiredo, futuro visconde de Ouro Preto, que tinha fama de excelente administrador e financista. Para enfrentar as dificuldades financeiras geradas pelos enormes gastos com a grande seca de 1877 no norte do país, propôs ele no projeto de lei orçamentária de 1879, aprovado pela Câmara, vários aumentos de impostos antigos e a introdução de alguns novos. Atingiu o bolso de todos, proprietários de escravos, aspirantes a títulos nobiliárquicos, fumantes, amantes do vinho, comerciantes e simples cidadãos. As medidas mais irritantes foram o novo imposto sobre vencimentos dos funcionários públicos, o antepassado do imposto de renda, e a taxa de um vintém sobre o valor das passagens no transporte urbano.
          O novo imposto e a taxa atingiram diretamente duas categorias, os funcionários públicos e os usuários de bondes. Em 1870, a capital tinha 192 mil habitantes na área urbana, dos quais 11 mil funcionários públicos, entre civis, militares e eclesiásticos, já que naquela época o catolicismo era a religião oficial do Estado. Havia quatro grandes companhias de ferro-carris urbanos, ou de bondes, como ficaram conhecidos: a Botanical Garden Co., que cobria a zona sul, saindo da rua Gonçalves Dias, a Cia. de São Cristóvão, concentrada na zona norte, com ponto final no Largo de São Francisco,  a Ferro-carril de Vila Isabel, que partia da Praça Tiradentes, e a Cia. de Carris Urbanos, que atendia ao centro, incluindo a zona portuária.
          O bonde era um transporte de massa. Cada carro, puxado por animais sobre trilhos, transportava 30 passageiros. Só as três primeiras companhias acima listadas transportaram em 1879 mais de 20 milhões de passageiros. É óbvio que a taxa do vintém jogava muita gente contra o governo, sobretudo contra o Afonso Vintém, como ficou conhecido o ministro da Fazenda. Para atingi-los, foram atacadas no dia primeiro as companhias de bondes, com exceção da Botanical Garden, de propriedade norte-americana, que se prontificou a pagar ela mesma a taxa.  
          Desse clima de insatisfação, tiraram vantagem os agitadores republicanos. Ao que parece, na demonstração de São Cristóvão estavam presentes, sobretudo, pessoas de melhor situação social, certamente muitos funcionários públicos. Na do dia 1º, teria entrado em ação a massa dos usuários mais pobres, acrescida da tropa barra-pesada do centro e da zona portuária. Não por acaso, os líderes do movimento perderam o controle da multidão nesse dia. 
          Embora legal, a taxa do vintém era profundamente impolítica, como se dizia na época. O ministro fora alertado para as possíveis reações. Mas Afonso Celso era tão competente quanto teimoso. Pagou por isso alto preço em 1880, como pagaria em 1889, por ocasião da proclamação da República. A reação da polícia foi infeliz em 28 de dezembro, ao não negociar a audiência com o imperador, e imprudente em 1º de janeiro. A do Exército, simplesmente desastrada.
          Os acontecimentos chocaram o Imperador. Em cartas à condessa de Barral e ao conde de Gobineau, afirmou que em 40 anos de reinado nunca tinha sido usada a força contra o povo da capital do Império. Não lhe escapou mesmo a conotação republicana dos incitadores do motim. Afirmou à condessa que seria mais feliz como presidente de uma república.
          Mas a revolta não foi republicana, afirmaram seus próprios líderes. Muitos interesses feridos nela se fundiram, de grandes e de políticos, de gente miúda e de simples cidadãos. Uma grande explosão social, detonada por um pobre vintém.

José Murilo de Carvalho é professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro da Academia Brasileira de Letras, do IHGB e da Academia Brasileira de Ciências e autor de D. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Cia. das Letras, 2007.

Outros textos do autor

Saiba Mais – Links

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Maio de 68

A série "Maio de 68" da TV CULTURA aborda os movimentos sociais e estudantis que ocorreram em todo mundo no ano de 1968. No dia 03 de maio de 1968, data que estudantes franceses ocuparam a Sorbonne, universidade mais tradicional da França e que serviu como estopim para outras manifestações importantes em todo o país.
1. MAIO DE 68 | O INÍCIO DOS MOVIMENTOS UNIVERSITÁRIOS
Há 50 anos, os jovens universitários de Paris davam início ao movimento de 68, que provocou mudanças em várias partes do mundo. A TV Cultura dá início a uma série de reportagens sobre este fato histórico. Os repórteres Rodrigo Piscitelli, de São Paulo, e Carla Destro, de Paris, contam como tudo começou.

2. MAIO DE 68 | MOVIMENTOS EM PARIS E A DITADURA MILITAR NO BRASIL
Enquanto em Paris os jovens saiam às ruas para reivindicar liberdade sexual, no Brasil começava a fase mais sombria da ditadura.

3. MAIO DE 68 | A IMPRENSA BRASILEIRA
O que acontece hoje em dia é bem diferente de cinquenta anos atrás, quando as notícias eram transmitidas por telex. Acompanhe como a imprensa brasileira cobriu os acontecimentos importantes daquele ano na França e no Brasil.

4. MAIO DE 68 | MUDANÇAS COMPORTAMENTAIS E AVANÇOS DOS DIREITOS HUMANOS
O movimento de maio de 1968 em Paris ultrapassou os limites da França. Provocou mudanças de comportamento e avanços dos direitos humanos ao redor do mundo. Cinquenta anos depois, o que se consolidou e o que retrocedeu na sociedade?

5. MAIO DE 68 | COMO SÃO OS PROTESTOS NO MUNDO CADA VEZ MAIS DIGITALIZADO?
A revolta dos estudantes em Paris reverberou pelo mundo como estopim de uma revolução comportamental. Hoje, as redes sociais são o chamariz para que as pessoas ocupem as ruas.

Fonte: TV CULTURA

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O delírio de um Brasil nazista

Novo livro de embaixador revela plano de Hitler: dividir a América do Sul, com o apoio da Argentina, em quatro países-satélites do III Reich.
          Durante a Segunda Guerra, numa rua do Rio de Janeiro, um agente secreto inglês esbarrou num cidadão alemão, que teve morte instantânea. Dentro da sua pasta foi encontrado um mapa exibindo um novo desenho da América do Sul. Por ele, vários países desapareceriam, e o território da Argentina, a grande beneficiária da divisão, cresceria consideravelmente, avançando em direção à Amazônia.
          Como os Aliados ganharam a guerra, o delírio nazista de transformar a América do Sul em colônia do III Reich não foi em frente. Mas forneceu ao acadêmico e embaixador Sérgio Corrêa da Costa os elementos para um livro interessantíssimo: Crônica de uma guerra secreta, que está sendo lançado [...] pela Editora Record. Misturando espionagem política, mistério, aventuras e impressões pessoais, o autor faz revelações surpreendentes sobre uma aliança entre a Argentina, na época governada por Juan Domingo Perón, e a Alemanha nazista, com vistas ao domínio da América do Sul.
          Jovem diplomata servindo em Buenos Aires entre 1944 e 1946, Corrêa de Castro teve acesso, "muito antes de James Bond nos ter ensinado o caminho", aos "recintos mais vigiados" do Archivo General de la Nación e conseguiu fotografar documentos ultrassecretos, nas suas palavras "altamente comprometedores do governo argentino".
          De fato, algumas frases de Perón reunidas pelo autor soam hoje quase inacreditáveis. "Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso", escreveu o então coronel Perón no manifesto do Grupo de Oficiais Unidos (GOU), em 1943, poucas semanas antes de assumir o governo. E acrescentou: "A luta de Hitler, na paz e na guerra, nos servirá de guia". A rivalidade histórica da Argentina em relação ao Brasil ganhou força quando o nazismo ascendeu ao poder na Alemanha.
          A ideia de Hitler não era dominar nosso país militarmente, mas por uma eficiente estratégia de infiltração que incluía pesados investimentos em propaganda. Disse ele: "Não desembarcaremos tropas como Guilherme, o Conquistador, para dominar o Brasil pela força das armas. Nossas armas não são visíveis. Nossos 'conquistadores' [...] têm uma tarefa mais difícil que a dos originais, razão pela qual disporão de armas igualmente mais difíceis".
          A seguir, trechos do capítulo 11 de Crônica de uma guerra secreta, que no livro se intitula "O desmembramento do Brasil". Nossa História agradece ao autor e à Editora Record pela autorização para a publicação.

"Criaremos no Brasil uma nova Alemanha. Encontraremos lá tudo de que necessitamos."
Adolf Hitler, 1933

          O jornalista francês Pierre Dehillotte, antigo redator do Temps e do Journal des Débats, dedicou-se intensamente ao estudo da Gestapo, sua organização, estruturas de comando e, notadamente, as atividades dos agentes enviados ao exterior. Correspondente em Berlim e, a seguir, em Viena e Praga, entre 1932 e 1938, pôde acompanhar muito de perto a ascensão de Hitler e a montagem dos planos nazistas de domínio da Europa. Foi, portanto, testemunha ocular dos dramas que sacudiram, consecutivamente, a Alemanha democrática, a Áustria independente e a Tchecoslováquia livre. Suas antevisões e profecias foram argutas e precisas, evidência de acuidade do observador político.
          Ao analisar o expansionismo alemão, deu-se logo conta de que não se limitava ao continente europeu. Concentrou, por isso, sua alça de mira nas organizações do Partido Nazista no exterior (AO), sob o comando do Gauleiter Ernst Wilhelm Bohle, com sede em Munique, a Auslanddeutschesverein. Como jornalista francês, Dehillotte procurou pretextos para visitar a sede da organização. Observou que nas salas contíguas ao gabinete do Gauleiter trabalhavam equipes de estatísticos, sociólogos, etnógrafos, técnicos e especialistas do Lebensraum (espaço vital) empenhados em planos de organização e emprego das populações nas áreas que integrariam a futura Grande Alemanha.
          O coordenador dos serviços com quem se entreteve chamava-se Herr Kurtfalkenraum, cordial e atento, cabelos grisalhos e uniforme da Wilhelmstrasse. Não recorreu a subterfúgios ou escusas e discorreu, com naturalidade, sobre os trabalhos em curso. Àquela altura - alguns anos antes do início do conflito - parecia normal que o Terceiro Reich procurasse a melhor maneira de dotar o povo alemão do espaço vital de que necessitava. Segundo os slogans hitleristas, uma vez que a distribuição das terras havia sido feita ao azar das conquistas de ontem - portanto de maneira injusta e antieconômica -, o status quo não deixava margem a uma distribuição equitativa das matérias-primas. O continente sul-americano, sobretudo o Brasil, com seus 8 milhões de quilômetros quadrados quase desabitados e inexplorados, bastava para comprovar a validade do teorema nazista dos espaços vitais a conquistar e a redistribuir. "A América do Sul", afirmavam os apóstolos do Lebensraum de ultramar, "fornecerá a solução definitiva ao problema demográfico europeu." Logo que "esse continente de mestiços se tornar um protetorado alemão", expressão atribuída a Adolf Hitler, "a emigração europeia deverá ser intensificada por um organismo especial e se dirigirá de preferência aos países latino-americanos".
          "Aqueles fichários, dossiês e atlas", escreveu Dehillotte, "cogitavam nada menos que da reorganização e emprego das futuras populações conquistadas da Grande Alemanha Nacional-socialista. Nesta seção especial e discreta", concluiu com fino humor, "pacientes estatísticos cortavam e recortavam as peles dos ursos árticos e antárticos antes de tê-los matado."
          (...)
          Como acabamos de ver, é antigo o gosto alemão pela geografia política, posta a serviço de desígnios de expansão territorial. Muito antes da confecção do mapa nazista em que foi redesenhada a América do Sul, outros ensaios foram feitos, invariavelmente levados a sério.
          Começo esta evocação do caso brasileiro pelos estudos do pensador pangermânico, Otto Richard Tannenberg, considerado, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, o mais autorizado porta-voz do esquema de hegemonia mundial. No seu GrossDeutschland, die Arbeit des 20. Jahrhunderts (A Grande Alemanha, obra do século XX), publicado em Leipzig, 1911, Tannenberg estabelece o princípio da repartição das Américas Central e do Sul entre as grandes potências imperialistas, reservando para a Alemanha a zona subtropical banhada pelo Atlântico.
          Por que tantos "estados" nas Américas Central e do Sul? Simplesmente - pontifica Tannenberg porque Espanha e Portugal "se mostraram incapazes de governar países no ultramar". Ora, continua, os habitantes nada conseguiram de bom, pois tampouco se encontram em condições de se governarem. Um déspota tenta suplantar o outro, o que explica as contínuas revoluções e sangrentas guerras em proveito de algum tiranete, ávido de glória e de riqueza, enquanto se mantém o povo oprimido e na ignorância. Em contraste com a América anglo-saxã, em que os indígenas desapareceram quase por completo, nos demais países são os brancos que se encontram em via de desaparição. No Paraguai e no Peru, exemplifica, constituem apenas 14% da população. No Equador, o percentual desce a 7%, na Colômbia a 6%. O restante da população "se compõe, aproximadamente e em igual proporção, de mestiços e gente de cor, índios ou negros".
          Contra esse pano de fundo, Tannenberg descreve os contornos da grande "Alemanha do Sul", a ser implantada no nosso subcontinente. De acordo com seu mapa, abrangeria todas as terras ao sul de uma linha que começa no litoral atlântico do Brasil, na altura do Rio de Janeiro, e termina no Pacífico, em Antofagasta, o grande porto chileno exportador de cobre e nitratos. País fabuloso, abrangeria o Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul ("onde reina a cultura alemã"), Paraguai, o terço meridional da Bolívia ("por integrar a bacia do rio da Prata"), o Uruguai e as ricas províncias do nordeste argentino:
          "A América meridional alemã nos proporcionará, na zona temperada, um espaço de colonização onde nossos emigrantes conservarão sua língua e autonomia. Exigiremos, porém, que o alemão seja ensinado nas escolas como segunda língua. O Sul do Brasil, o Paraguai e o Uruguai são países de cultura alemã. O alemão passará a ser a língua nacional."
          Seria este o "Primeiro Estado Alemão Americano Independente". Primeiro, porque concebido como pedra angular de um outro, especialíssimo - a "Alemanha Antártica", menina dos olhos de vários geopolíticos alemães.
          Tal como no texto de Tannenberg, o atlas Deutschland und die Welt (Alemanha e o mundo), concluído pouco antes do início da Segunda Guerra, indica também as fronteiras da Alemanha Sul-Americana, em que o Sul do Brasil volta a aparecer, nitidamente, como colônia alemã.
          Ao evocar essa e outras demonstrações do imperialismo germânico, um ilustre pensador político uruguaio, Hugo Fernandez Artucio, assinala que, a despeito das aparências fantasiosas, vinham sendo objeto de séria consideração havia um século, talvez mais. Cita o grande estadista e pensador argentino Domingo Faustino Sarmiento, que transcreveu, no El Nacional, comentário de La Revue Politique et Littéraire, de 13 de maio de 1882, a propósito de dois artigos na revista Deutsche Rundschau sobre as futuras colônias alemãs. O primeiro procura demonstrar a necessidade de a Alemanha dispor de suas próprias colônias para receber os emigrantes que levam trabalho e indústria a países estrangeiros. As províncias do Rio Grande do Sul e do Paraná seriam particularmente adequadas, já dispondo de importante componente germânico. Argentina, Uruguai e Paraguai são também citados como ideais para a colonização alemã.
          "Não será necessário o emprego da força, pois o governo alemão somente interviria para assegurar aos seus nacionais os direitos consagrados nos tratado. A tarefa será empreendida por uma empresa privada, de enorme capital, a qual espalhará suas raízes em toda a Alemanha. O espírito que inspira o empreendimento fará com que, após um certo tempo, os países colonizados se transformem - ipso facto - em colônias alemãs. Tal como disse Bismarck: 'O fato cria o direito'."
          (...)
          Radicados no Brasil segundo planos traçados pelo governo alemão, os colonos encontraram um país em que o governo, se pouco ou quase nada fazia por eles, também não impunha restrições ao desenvolvimento de suas atividades. Portanto, um cenário ideal para os planos de subversão nazista. De modo geral, os colonos manifestavam discreto interesse pelo país, evitavam disputar cargos eletivos, procurando seguir com muito maior interesse o que se passava na mãe pátria. Casos como os de Lauro Muller e Adolfo Konder, governadores de Santa Catarina, eram relativamente raros. Lauro Muller, ministro das Relações Exteriores em 1913, renunciou ao cargo em protesto contra a decisão brasileira de romper com o Império Alemão, na Primeira Guerra Mundial.
          (...)
           A conjuntura brasileira em 1933-34 - primeiros anos do reinado de Hitler - oferecia um cenário particularmente favorável aos planos sinistros do nacional-socialismo. Os efeitos da depressão americana de 1929 ainda se faziam sentir. Nossas exportações continuavam em níveis baixíssimos, o governo Vargas ainda buscando se consolidar no poder, uma vez vencida a guerra civil paulista, porém sem lograr inverter a persistência de distúrbios aqui e acolá no imenso país. (...)
          Em São Paulo, os nazistas se deram conta de que se impunha cautela especial, por julgarem ser o estado mais "democrático" do país e representar a mais vigorosa oposição ao regime Vargas. O Partido Nacional-socialista, representado por K. von Spanus, era organizado em círculos, blocos e células. Chr. Wifler era o responsável pelos círculos, sendo os principais os do norte, leste, sul e oeste do estado, sob os codinomes "Sellge", "Syanpius", "Andriessen" e "Eisdendecker". As ordens do partido eram transmitidas exclusivamente por mensageiros e cada responsável usava um codinome e número de telefone também em código. Durante certo tempo, o partido chegou a manter colaboração estreita com a polícia estadual, o que não escapou ao atilado major Aurélio da Silva Py. Sua detida investigação da infiltração fascista no Sul do país revela que se alguém ousasse levantar a voz contra o Partido Nazista em reunião sindical, ou em qualquer outra, no estado de São Paulo, seria pouco depois detido pela polícia para averiguações. Líderes trabalhistas, estudantes e intelectuais de esquerda foram sequestrados, porém invariavelmente dados como "desaparecidos". O caso de maior repercussão foi o do assassinato de Tobias Warchawski, denunciado pela imprensa independente como mais um crime monstruoso de nazi-integralistas.
          Para a Alemanha, os imigrantes e seus descendentes - um milhão, ou quase, de pessoas de raça ariana - eram súditos do Reich, portanto com os mesmos direitos e obrigações dos que viviam na mãe pátria. Nessa dicotomia, obviamente, se encontrava a principal razão de choque com as leis brasileiras. Segundo o raciocínio alemão, Buenos Aires e Montevidéu, onde contavam com apoios amplos e seguros, somados a São Paulo, a Detroit sul-americana, ofereciam a possibilidade de transformar, a curto prazo, os respectivos parques industriais em potente indústria bélica. (...)
          Como já assinalei, um dos programas de Adolf Hitler era a incorporação pura e simples à Alemanha de todos os territórios onde houvesse minoria alemã. Em primeiro lugar, na Europa. Logo a seguir, na América do Sul, onde as atenções se concentraram na Argentina, no Brasil e no Chile, todos já com uma apreciável base étnica germânica. Dos três, a Argentina mereceu atenção prioritária. Além de ser o único país europeu na região, culturalmente superior aos demais, não tinha, por exemplo, o complicador do gigantismo brasileiro.
          O gigantismo, porém, poderia ser facilmente corrigido. Desde logo, os três estados do Sul, já devidamente germanizados, não tinham por que permanecer atrelados ao imenso complexo luso-afro-ameríndio. O Reich não abriria mão do milhão de Reichsãeutschen ou Volksdeutschen radicados no Brasil, todos sob proteção alemã. "Cada gota de sangue alemão precisa ser preservada", proclamava Ernst Wilhelm Bohle, Gauleiter da organização dos alemães no exterior. "Não pode haver pecado maior que o de renunciar voluntariamente ao sangue alemão!"
          Megalomania ou não, o fato é que as tensões teuto-brasileiras criadas pelo nosso programa de nacionalização das áreas de forte presença estrangeira deram lugar a reações extremas, inclusive à cogitação de - a curto prazo - separar do Brasil os estados sulinos. Em estranho relatório enviado a Berlim, o embaixador Karl Ritter estuda a posição geopolítica e estratégica desses estados, salientando a "inexistência de comunicações ferroviárias com o resto do país". Assim sendo, as autoridades centrais não teriam condições de restabelecer o controle sobre a região "em caso de ataque argentino (sic). Nesse caso", conclui, "somente os Estados Unidos poderiam opor-se a um ataque de Buenos Aires". Não se trata de invenção minha. O que acabo de assinalar se encontra, com todas as letras, em Documentos Diplomáticos da Alemanha, dossiê "Politische Abteilung", doe. N. Pol. IX, 341, de 3 de março de 1938.
          Nesse mesmo relatório, o embaixador Ritter comunica a existência de uma corrente no seio da colônia alemã, de que seria porta-voz um certo senhor Plugge, convencido de que a única possibilidade oferecida ao Reich de proteção ao elemento alemão consistia em separar a região do resto do país. Em outras palavras, os três estados do Sul se transformariam em colônia de Berlim, expressão literal usada. (...)
          Dizer que a Argentina poderia ter sido o trampolim para uma invasão do Sul do Brasil, com apoio alemão, e que o Rio Grande, Santa Catarina e Paraná, então isolados fisicamente do Brasil, viessem a constituir uma colônia alemã deve nos parecer hoje fantasia. Não, porém, se tivermos em mente que, em 1940-41, o Terceiro Reich era senhor absoluto da Europa, dispunha de bases na África, justo em frente do Brasil, frotas de submarinos, e contava com a cooperação das poderosas e bem-organizadas colônias alemãs na Argentina e no Sul do Brasil, já com seções do Partido Nazista em plena atividade.
          Não é segredo que gerações sucessivas de militares brasileiros estiveram persuadidas da inevitabilidade de uma guerra com a Argentina. Nossa região militar mais bem-equipada foi sempre a terceira, no Rio Grande do Sul, e o traçado de nossas estradas visou, por muito tempo, a não facilitar a penetração do inimigo.
          O fato de o Brasil ter mais do que o triplo da área e da população da Argentina constituiu, naturalmente, motivo de preocupação para gerações consecutivas de homens públicos, empenhados na reversão dessa cruel realidade.
          (...)
          Mesmo se Hitler perdesse - era o raciocínio -, os súditos do Eixo poderiam se deslocar com seus recursos financeiros e técnicos para a Argentina. Mas, se ganhasse, a Argentina seria a única nação americana com o direito de atravessar fronteiras e resolver definitivamente seus problemas geopolíticos, firmando-se no continente como a nação líder. Comentário de Mário Martins, o jornalista que renunciou à função burocrática no nosso escritório comercial em Buenos Aires para se concentrar na investigação do que estava realmente acontecendo à sua volta: "A Casa Rosada acompanhava a guerra na Europa como se fosse um espetáculo de bolsa de valores". A fórmula encontrada foi a cooperação subterrânea, via pseudoneutralidade que permitisse montar na América um trampolim contra as nações vizinhas, a começar pelo Brasil, que se preparava para lutar na Europa pela causa aliada, deixando as costas desguarnecidas e voltadas para as baionetas de Buenos Aires.

Fonte: Revista Nossa História - Ano 1 nº 12 - Outubro 2004

Saiba Mais – Links

 Saiba Mais – Documentário
Sem Palavras
Sem Palavras resgata as vivências dos descendentes de alemães sobre a perseguição ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial no Sul do Brasil, região colonizada por alemães no século 19. A Campanha de Nacionalização do presidente Getúlio Vargas e a entrada do Brasil na Guerra em 1942, contra os países do Eixo, aumentou a repressão aos estrangeiros e imigrantes daqueles países. O documentário mostra um dos lados da história, relatado por quem era criança e descendente de alemão nos anos 1940. A memória é subjetiva, porém verdadeira, mesmo quando parece distorcida dentro da história oficial, essa sim muito mais complexa.
 Direção: Kátia Klock
Ano: 2009
Áudio: Português
Duração: 52 minutos

sábado, 18 de agosto de 2018

O Brasil do outro lado do espelho

Como Portugal recebeu a notícia da Independência do Brasil? Na primeira metade do século XIX, a reação de deputados e intelectuais portugueses projeta a crise de identidade após a separação oficial.
Fernanda Paula Sousa Maia
      “Amputado da sua continuação além-atlântico (que outra coisa não era então o Brasil)". Na ressaca da Independência do Brasil, era assim, mutilado, que Portugal se percebia, na análise perspicaz do ensaísta lusitano Eduardo Lourenço. Para os liberais portugueses de 1800, na qualidade de intelectuais e de políticos, o desafio era justamente explicar essa perda, além de tentar resolver a insegurança sentida por um país que apenas encontrava justificativa, como nação, nos seus prolongamentos ultramarinos. E não estavam em questão apenas as consequências econômicas da separação, mas a superação da crise de identidade nacional que a Independência gerou em Portugal.
      Para lançar um pouco de luz sobre as relações Portugal-Brasil nesse período, vale a pena enfocar o papel exercido pelos deputados eleitos de Portugal, entre 1826 e 1852: até que ponto a atuação parlamentar esteve na origem do pensamento político e do discurso oficial sobre o Brasil? Embora se encontrassem num momento de definição do seu papel na vida política nacional - com o fim do regime absolutista em Portugal -, pouco a pouco os deputados foram aprendendo a intervir em assuntos até então reservados aos governos e aos chefes supremos do Estado. Ao mesmo tempo, partilhavam suas ideias com uma opinião pública urbana cada vez mais consciente e que seguia atentamente, pelos jornais e nas galerias da Assembleia, os longos debates parlamentares. Conscientes dessa vigilância, e pressionados pelos interesses políticos e econômicos que representavam, os parlamentares acabariam por produzir um discurso compatível com o que podia ser politicamente dito.
      Foi assim que desfilaram na Câmara Legislativa os principais temas sobre as relações Portugal-Brasil, permitindo estabelecer algumas constantes. Como: por exemplo, aspectos políticos e diplomáticos resultantes da aplicação do Tratado de 1825 (ver box), as relações econômicas entre os dois países, e a emigração para o Brasil.
      Considerado em Portugal um "mau tratado", a sua aplicação, no entanto, motivou grande parte dos debates na Assembleia Legislativa portuguesa. E uma das questões mais delicadas viria a ser a aplicação do artigo 9º do tratado, que estabelecia o pagamento, pelo Brasil, de uma indenização de dois milhões de libras esterlinas, para compensar as perdas sofridas por Portugal com a separação. O anúncio do pagamento dessa quantia em um ano, após a ratificação do tratado, fazia prever uma rápida conclusão da pendência.
      O relacionamento comercial entre os dois países também provocou uma participação mais ativa na Assembleia, apesar de os deputados ainda não estarem preparados para ver o Brasil como um parceiro comercial igual a qualquer outro. Como advertiu, logo em 1827, o deputado liberal Mouzinho da Silveira, ao chamar a atenção para as consequências negativas de "chamar nosso ao Brasil e não saímos disto; olha-se para ele como os filhos que, tendo um espelho na mão, espreitam se ainda têm vivo o pai, que expirou". Os políticos continuavam a acreditar que "por mais que se diga, ainda por muito tempo os portugueses cuidarão que têm no Brasil uma segunda pátria".
      Não espanta, por isso, a persistência da Assembleia Legislativa portuguesa, durante quase toda a primeira metade do século XIX, na conclusão do tratado, desejo "muito geral, e parece quase nacional". Essa seria a visão predominante entre os parlamentares, que em várias ocasiões insistiram na necessidade de retomar a ligação comercial com o Brasil nos termos de um benefício que consideravam essencial, a que julgavam ter direito, e que se recusavam a dispensar. Sustentados nos laços familiares e históricos seculares, os deputados pretenderam desenvolver uma argumentação de cunho sentimental que não era mais viável no ambiente pós-Independência. Como os parlamentares Mouzinho da Silveira, Almeida Garrett ou José Estêvão tentaram realçar sem sucesso. Contra todas as evidências, a maioria optou pela cômoda visão de um inevitável entendimento com o Brasil, recorrendo às relações paternais: o Brasil seria o filho pródigo que apenas aguardava o melhor momento para regressar à casa paterna.
      Para reduzir a carga dramática que a perda da colônia tinha provocado, muitos deputados insistiam em ver o Brasil ligado a Portugal através de um acordo comercial baseado em cláusula de favores especiais. Na Câmara dos Deputados, intervenções frequentes sublinhavam a urgência de um tratado com o Brasil como uma das poucas saídas para a persistente crise econômica. Daí a forma cautelosa com que as questões comerciais foram debatidas pela Assembleia, preocupada em não suscitar quaisquer dúvidas que pudessem entravar o entendimento futuro entre os dois países. Por isso, a rejeição do parlamento brasileiro ao Tratado de Comércio de 1836 representou um verdadeiro golpe para Portugal, o que ajuda a entender o pesado e significativo silêncio que sobre ele desceu. Bem revelador, aliás, do atordoamento geral de uma Assembleia em estado de choque.
      O elevado número de emigrantes portugueses com destino ao Brasil também atraiu a atenção dos parlamentares, obrigados então a discutir a migração (ver box) a partir de um enquadramento diferente: o Brasil não mais como uma colônia portuguesa, mas um território estrangeiro. Testemunhas de um fenômeno novo, foi com alguma dificuldade que os deputados perceberam essa forma de mobilidade geográfica com raízes históricas, sobretudo no norte de Portugal.
      Mas o processo de assimilação da Independência estava em curso e só restava aos deputados desenvolver um discurso que concedesse uma nova razão de ser a Portugal. É nesse ambiente que o deputado, liberal e conhecido escritor de Viagens na minha terra, entre muitas obras, João Batista de Almeida Garrett (1799-1854) se destaca, ajudando a veicular a imagem segundo a qual "podemos tirar mais vantagens do comércio com uma nação irmã, mas independente, do que nunca tínhamos tirado de uma colônia sujeita". Assim se entende a razão por que Garrett, na memorável sessão de 31 de março de 1837, tenha enfatizado que "Portugal não existe independente senão pelo mar. (...) Segurem-nos o mar, e basta o patriotismo, e brio português, para nos conservar independentes em terra." As novas propostas liberais emprestariam um sentido diferente à separação do Brasil, retirando toda a dimensão de angústia a que estava associada dentro dos quadros mercantilistas.
      Ao mostrar o mar, Garrett fornecia aos deputados outros fatores de orgulho: os restantes territórios imperiais portugueses e o desenvolvimento da marinha mercante como as derradeiras alternativas à perda do Brasil. Aos poucos, procurava-se restaurar a dignidade nacional, que o futuro iria se encarregar de colocar, predominantemente, na dimensão mítica de um passado glorioso que ainda hoje sobrevive.

Fernanda Paula Sousa Maia é professora de História na Universidade Portucalense, do Porto, em Portugal, e autora da tese O discurso parlamentar português e as relações Portugal-Brasil: a Câmara dos Deputados (1826-1852), publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 2002.

Fonte - Revista Nossa História - Ano I nº 7 - Maio 2004

Saiba Mais – Bibliografia
CERVO, Amado Luiz. O Parlamento brasileiro e as relações exteriores (1826-1889). Brasília: Editora UnB, 1981.
KEITH, Henri H. "The symbiosis of love and hate in luso-brasilian relations, 1822-1922." In: Studia. Lisboa, n. 43-44 (jan.-dez.), 1980.
LOURENÇO, Eduardo. "Crise de identidade ou ressaca imperial?" In: Prelo. Lisboa, n. 1 (out.-dez.), 1983.

Saiba Mais – Links