“E agora que vocês viram no que a coisa deu, jamais esqueçam como foi que tudo começou” (Bertolt Brecht)

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sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Uma bomba na consciência da nação

Ocorrido no governo Figueiredo, em 1981, e até hoje impune, o atentado do Riocentro foi um dos episódios mais conturbados, contraditórios e vergonhosos da história militar do país.

Maria Celina D'Araujo

               O atentado do Riocentro, ocorrido em 30 de abril de 1981, tornou-se a mais conhecida ação terrorista da direita armada, durante a ditadura militar que vigorou no país de 1964 a 1985. Marcado do começo ao fim pela impunidade, o episódio encerrou o ciclo de atentados que inquietaram o Brasil, numa demonstração de força e falta de escrúpulos dos setores que se opunham à liberalização do regime militar e à desmontagem da rede autônoma de órgãos de repressão que se instalara dentro das Forças Armadas no início dos anos 70.

              Quando assumiu a Presidência da República, em 15 de março de 1974, o general Ernesto Geisel trouxe na sua agenda a determinação de iniciar um processo de transição democrática, que à época se chamou "abertura". Geisel sucedia ao general Emílio Garrastazu Médici, que governou o país no período mais duro de repressão à oposição, armada ou não. Foram os anos da "guerra suja", expressão que os militares cunharam para justificar os métodos violentos e arbitrários pelos quais combateram os ideais e as ações de brasileiros que discordavam do governo e que ousaram enfrentá-lo.

               Nas palavras do novo presidente, a abertura deveria ser "lenta, gradual e segura", ou seja, um processo de transição direcionada para a retomada da normalidade democrática sem que os militares perdessem o controle do ritmo e da direção da mudança. Iniciava-se assim uma transição pelo alto, isto é, controlada pela elite militar que não estava disposta a ser cobrada pelos "excessos" do passado. Haveria redemocratização, mas não haveria revanchismo. Os militares não iriam para os bancos dos réus, como aconteceu anos mais tarde na Argentina.

               Mesmo com esses cuidados para preservar a imagem da ditadura e ignorar seus crimes, setores das Forças Armadas mais identificados com o sistema repressivo não aceitaram a ideia de mudança. Começou então uma nova etapa do conflito dentro do próprio regime - opondo setores da chamada linha dura ao governo - e iniciava-se uma novidade da ditadura: o terrorismo de direita contra alvos indiscriminados. Atentados contra pessoas e instituições, bombas colocadas em bancas de jornais e outras ações do tipo eram levadas a cabo com o intuito de desestabilizar o governo, intimidar a oposição democrática e, não poucas vezes, atribuir esses crimes a militantes de esquerda.

               Para conter a falta de disciplina e a crise de autoridade dentro da instituição militar, Geisel demitiu, em dezembro de 1978, o seu ministro do Exército, general Silvio Frota, expoente da linha dura e anticomunista radical que acobertava, direta ou indiretamente, as iniciativas discricionárias da direita. Mas mesmo assim os atentados continuaram. O último deles foi o do Riocentro, que manchou de forma indelével a instituição militar. Até o presente, paira no ar a desconfortável certeza de que a justiça não foi feita em relação aos agentes militares que, agindo clandestinamente, colocaram em risco a vida de milhares de pessoas, jovens na maioria. A Justiça Militar, no voto de alguns ministros, optou pela impunidade.

               Quando do atentado, o Brasil era governado pelo general João Batista Figueiredo, que se propusera a dar continuidade ao projeto de abertura política. Vinte mil pessoas assistiam a um show de música popular no pavilhão de convenções conhecido como Riocentro, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Às 21h15, na área de estacionamento, uma bomba explodiu no interior de um automóvel marca Puma, marrom metálico, placa OT-0279. O carro era de propriedade do capitão Wilson Luís Chaves Machado, de 33 anos, especialista em informações, que ficou gravemente ferido. A seu lado morreu, instantaneamente, o sargento do Exército Guilherme Pereira do Rosário, de 35 anos, especialista em explosivos. Ambos pertenciam ao Destacamento de Operações de Informações (DOI), um dos braços do Centro de Operações para Defesa Interna (CODI) do I Exército. Todas as evidências mostravam que a explosão teria ocorrido no colo da vítima, no momento em que manuseava o artefato que deveria ser destinado a alvo previamente demarcado.

               Pouco depois, às 21h45, outra bomba, esta mais potente, explodiu em local próximo à casa de força do Riocentro, mas errou o alvo. O objetivo era cortar a luz e produzir o pânico coletivo em um ambiente fechado. A intensidade do som da música cantada na ocasião por Elba Ramalho impediu que a plateia ouvisse o barulho, e o show continuou. Lá fora, um cadáver, um ferido grave, militares à paisana deixando o local e uma série de histórias e versões mal contadas se iniciaram, dando forma a um dos episódios mais conturbados, contraditórios e vergonhosos da história militar do país.

               A primeira reação do Exército foi atribuir o atentado à esquerda. O sargento Rosário foi enterrado com honras militares, na presença das maiores autoridades do Exército no Rio de Janeiro. A versão oficial simplificava o ocorrido e queria fazer crer que aquele era mais um gesto truculento da esquerda armada. Mas, aos poucos, os fatos foram mudando de figura. Testemunhas apareceram, contradições despencaram, e a versão oficial caiu por terra. Um inquérito foi instaurado e fatos inconvenientes para as Forças Armadas começaram a vir à tona. Verificou-se, entre outras irregularidades, que várias pessoas, pertencentes ao quadro das Forças Armadas e da polícia, tinham sido deslocadas de suas funções de segurança, às vésperas do atentado, e substituídas por outras vinculadas diretamente ao sistema de repressão e ao Serviço Nacional de Informações (SNI).

               Dentro da própria administração do centro de convenções várias medidas foram tomadas desmontando o sistema de segurança local. Esse desmonte foi premeditado com detalhes, como se veio a apurar mais tarde, e poderia ter ocasionado uma das maiores chacinas jamais ocorridas no país. Às 22h30, depois das duas explosões, a polícia chegou ao local e mais uma bomba foi encontrada no carro do capitão. Os primeiros resultados do inquérito apontaram para a responsabilidade criminal dos dois militares, mas o chefe desse primeiro inquérito foi destituído. Ganhava força a interpretação de que aquele havia sido um "acidente de trabalho". Ou seja, os militares estavam a serviço e, por problemas técnicos, não souberam operar os dispositivos. Por isso um deles acabou explodindo no colo do sargento.

               Outro coronel, Job Lorena Santana, foi nomeado para presidir o inquérito. Concluiu que os dois militares "foram vítimas de uma armadilha ardilosamente colocada, por terceiros, no carro do capitão", e atribuía a culpa a "grupos identificados como VPR, MR-8 e Comando Delta, sendo os dois primeiros radicais de esquerda e o último agrupando radicais de direita". Em julho, um promotor militar da 3ª Auditoria do Exército, no Rio de Janeiro, recomendou o arquivamento do inquérito, alegando "falta de indícios de autoria". O corregedor da Justiça Militar não concordou e interpôs representação ao Superior Tribunal Militar (STM), pedindo o desarquivamento. Em meio a toda essa briga jurídica, que ainda se estenderia por outras instâncias, o chefe do Gabinete Civil da Presidência da República, general Golbery do Couto e Silva, demitiu-se, deixando claro que discordava do rumo dado ao caso. Golbery pertencia ao grupo de militares que nessa ocasião defendiam, ainda que discretamente, uma punição exemplar para os criminosos.

               Um acompanhamento mais fino do processo mostra que a pressão pelo arquivamento veio mesmo do Exército, que se mostrou irredutível na sua posição de não punir membros da instituição. Os ministros militares das outras forças acabaram, na maioria, por motivos corporativos, atendendo ao pleito do Exército, mas com isso colocaram em risco a integridade de toda a corporação. Mesmo com esse custo, os militares brasileiros demonstravam uma unidade de posições que sempre lhes foi peculiar quando se trata de defender os interesses da corporação frente ao "público externo".

               Com o avanço da democracia no país cresceram as expectativas de que o caso fosse reaberto e apurado com rigor. A cada ano novas versões, novos fatos ou hipóteses apareceram. Em abril de 1991, dez anos após o ocorrido, o ex-presidente Figueiredo, que deixara o poder em 1985, afirmava, contradizendo-se, estar convencido de que o atentado fora obra dos militares apontados como vítimas. Em março de 1999, a Procuradoria Geral da República, acatando argumentos e estudos de várias organizações de defesa dos direitos humanos, aceitou encaminhar pedido de reabertura aos órgãos competentes. Em meados de 1999 iniciou-se um novo IPM, a sexta tentativa de reabrir o caso. Em maio de 2000, contudo, o STM decidiu novamente pelo arquivamento. Esta decisão significa que, do ponto de vista jurídico, o caso Riocentro está encerrado, não cabendo mais recurso.

               A decisão da Justiça, naquele momento, combinava com a posição do governo brasileiro, então chefiado por Fernando Henrique Cardoso e tendo José Gregori como secretário nacional de Direitos Humanos. Nas palavras deste último, era preferível evitar confrontos com as Forças Armadas ou, no jargão militar, "abrir feridas antigas". Temia-se que a punição de um militar, em decorrência de seu envolvimento político, gerasse reações cujas consequências ninguém podia prever. E o caso Riocentro continuou a ser um assunto tabu, assim como tantos outros que comprometeram o perfil das Forças Armadas durante a ditadura.

               Há certamente, em todo o episódio, uma supervalorização social e política das Forças Armadas como instituição que poderia ficar acima da lei e da crítica. Isto se explica pela longa preeminência dos militares na política brasileira e pelas prerrogativas que obtiveram ao longo de nossa história. Mas os tempos são outros, e embora parte da elite brasileira se recuse a mudar, a democracia e a justiça se impuseram como valores a serem preservados. Por isso mesmo, o Riocentro ocupa hoje o lugar que os militares pleitearam para ele: foi um acidente do passado, coisa da história, página virada. Numa versão mais objetiva, foi uma história de impunidade que desmoralizou as Forças Armadas frente à inteligência e aos meios de comunicação do país.

MARIA CELINA D'ARAUJO é doutora em Ciência Política, professora e pesquisadora na Universidade Federal Fluminense (UFF) e no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC/FGV).

 Fonte: Revista Nossa História – Ano 2 - nº 24 - outubro 2005

 Saiba Mais: Bibliografia

BIERRENBACH, Júlio de Sá. Riocentro: quais os responsáveis pela impunidade? Rio de Janeiro: Domínio Público, 19%.

DARAUJO, Maria Celina, com Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro. A volta aos quartéis: a memória militar sobre a abertura. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1995.

CRAEL, Dickson. Aventura, corrupção e terrorismo: a sombra da impunidade. Petrópolis: Vozes, 1986.

 Saiba Mais: Link

Ditadura Militar no Brasil

Especial: O Golpe de 1964 - Não à guerra civil 

Especial: O Golpe de 1964 - A salvação da pátria 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Operação Condor - O Voo Mais Longo da Repressão

Multinacional clandestina da perseguição política na década de 1970, para seus agentes não existiam fronteiras. Sua missão era caçar, prender e muitas vezes matar os inimigos dos governos militares da América do Sul, onde quer que estivessem.
Samantha Viz Quadrat
           Na noite de 13 de julho de 1976, 15 policiais comandados por um oficial uruguaio, o major José Nino Gavazzo, invadiram uma casa da Rua Juana Azurduy, no bairro de Belgrano, em Buenos Aires. Dentro, Sara Mendez e sua amiga Asilu se preparavam para dormir. Sara, de 32 anos, trazia nos braços seu filho, o bebe Simon, de apenas 20 dias. Foi levada com Asilu a um centro clandestino de tortura, onde lhe tomaram a criança. Ela só voltaria a ver Simon 25 anos depois.
          Esta e muitas outras histórias, igualmente dramáticas, fizeram a fama da chamada Operação Condor, nascida no Chile com o objetivo de varrer do Cone Sul tudo o que fosse considerado "subversivo" pelos militares então instalados no poder, pelo uso da força, em vários países do continente, inclusive o Brasil.
           O coronel chileno Manuel Contreras, chefe da DINA, a polícia política do governo de Augusto Pinochet, tomou a iniciativa de convidar os principais representantes do setor de informações dos países do Cone Sul para uma reunião secreta, realizada em Santiago do Chile, entre os dias 25 de novembro e 1º de dezembro de 1975. Foi o primeiro passo para a montagem do aparato repressivo.
          Os acordos firmados nesse primeiro encontro visavam basicamente ao funcionamento da operação, que aliás ainda não tinha nome. Foi batizada de "condor" por sugestão do representante uruguaio. Figura simbólica do brasão chileno, o condor é a maior ave de rapina da América do Sul, capaz de alcançar altas e longas distâncias. O nome foi bastante apropriado. O voo do condor, como queriam os que batizaram a nova estratégia, não ficou restrito aos territórios dos países membros da operação.
          Nesse primeiro momento o Brasil, então governado pelo general Ernesto Geisel, não enviou nenhum representante à reunião secreta. Aparentemente havia resistência do governo brasileiro a envolver-se na operação. Teria aceitado apenas participar do intercâmbio de informações. A participação brasileira, contudo, não foi tão restrita quanto se pensava.
          Um dos episódios de maior destaque, nesse período, ocorreu justamente em território brasileiro. Em novembro de 1978 executou-se a chamada Operação Sapato Velho - resultado de uma parceria entre o Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), de Porto Alegre, e oficiais do exército do Uruguai. O objetivo era o sequestro dos uruguaios Lilian Celiberti - junto com seus dois filhos menores, Camilo e Francesca - e Universindo Rodriguez Diaz. Presos no Brasil, Lilian e Universindo foram torturados e interrogados no DOPS de Porto Alegre. As crianças, entregues a uma avó. A salvação do casal se deve à imprensa brasileira, no caso representada pelos jornalistas Luís Cláudio Cunha e João Batista Scalco. Eles identificaram policiais envolvidos e denunciaram o sequestro.
          Entre as ações da Operação Condor fora da América do Sul figura o assassinato, num atentado a bomba ocorrido no dia 21 de setembro de 1976, de Orlando Letelier, ex-ministro de Salvador Allende e uma das principais lideranças de oposição à ditadura de Pinochet no exterior. O caso chama especialmente atenção por ter ocorrido na capital dos Estados Unidos, considerada um dos lugares mais seguros do mundo, ao mesmo tempo em que sugere a conivência de agentes norte-americanos.
          Os órgãos de inteligência norte-americanos tinham conhecimento de todas as violações ocorridas nos países do Cone Sul sob ditaduras. Além disso, os Estados Unidos despendiam vultosas verbas no treinamento de militares da América Latina, tanto no seu território como na Escola das Américas, situada no Panamá. Este centro de treinamento militar ficaria conhecido como "Escola dos Assassinos", por haver acolhido e formado inúmeros militares que mais tarde se envolveriam, nos respectivos países, em ações hediondas de violação de direitos humanos.
          O longo voo do condor alcançou também o Velho Mundo. Em 6 de outubro de 1975 Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Chile e alto dirigente do Partido Democrata Cristão, sofreu um atentado a bala na capital italiana. Esta e outras ações foram comandadas pelo norte-americano Michael Townley, um ex-informante da CIA que se tornou um seguidor fiel de Contreras, o chefe da DINA.
          A despeito de todas as vítimas que fez desde 1975 até o final das ditaduras nos anos 80, a Operação Condor acabou se tornando, paradoxalmente, passado o tempo das ditaduras sul-americanas, um dos principais trunfos na luta internacional contra a impunidade. Alguns países, como França e Itália, têm julgado os crimes cometidos contra seus cidadãos ou pessoas com dupla nacionalidade. Outros, como a Espanha, têm-se utilizado da lei que garante que os crimes contra a humanidade podem ser julgados em seus tribunais. E já que esses tribunais não reconhecem as leis de anistia decretadas nos países da América do Sul depois da chamada guerra suja, promovem-se hoje batalhas judiciais em vários países com o objetivo de prender e punir os culpados, por mais longe que estejam.
Samantha Viz Quadrat é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense e Coordenadora do Núcleo de Estudos Contemporâneos desta mesma Universidade.     

Fonte – Revista Nossa História - Ano I nº 2 - Dez. 2003

Saiba Mais – Bibliografia
GUENA, Márcia. Arquivo do horror. Documentos secretos da ditadura do Paraguai (1960-1980). São Paulo: Fundação Memorial da América Latina,1996.
MARIANO, Nilson. As garras do condor. Petrópolis: Vozes, 2003.
MIRANDA, Nilmário e TIBÚRCIO, Carlos. Dos filhos deste solo. São Paulo: Perseu Abramo/Boitempo, 1999.
SÁBATO, Ernesto (org). Nunca mais. Porto Alegre: L&PM, 1984.

Saiba Mais – Links

Documentário
Condor – O Filme
Condor foi o nome dado à sinistra conexão entre governos militares sul-americanos, com o apoio da CIA, que culminou com a morte de cerca de 30 mil pessoas nos anos 70. Outros 400 mil foram presos e 4 milhões exilados. Roberto Mader conta essa história através de depoimentos emocionantes e surpreendentes de generais e ativistas políticos, torturadores, vítimas e parentes dos desaparecidos. Condor foi filmado em quatro países e traz um material de arquivo, acompanhado de belas composições de Victor Biglione.

Direção: Roberto Mader
Ano: 2007
Áudio: Português
Duração: 110 minutos



terça-feira, 26 de março de 2013

Onde estão os filhos da ‘subversão’?

O roubo de bebês durante os governos autoritários é um drama para famílias espanholas e argentinas até hoje.
     Aos 13 anos, Antônio Barroso enfrenta a crueldade dos colegas de escola que lhe revelam – e insistem – que ele não é filho biológico de seus pais, mas adotado. Confuso, interpela a mãe, que nega tudo. Não conformado, aos 18 anos, solicita cópia de sua certidão de nascimento, onde confirma ser filho biológico de seus pais. Ainda assim, pergunta ao funcionário que o atende se é possível que ele de fato não seja filho de seus pais, apesar de constar como tal no documento oficial. O funcionário o tranquiliza, diz que essas dúvidas são tolices de criança. Antônio esquece o assunto.
     Vinte anos depois, toca o telefone, ele atende e é um amigo de infância, cujos pais eram amigos dos seus: “Antônio, estou aqui no hospital com meu pai, que está muito doente e está para morrer e acaba de confessar que nos compraram em Saragoça, de um padre e uma freira”.
     Antônio Barroso é espanhol, sequestrado ao nascer e vendido para um casal no ano de 1969. Seu depoimento ilustra o drama de centenas de crianças que, logo após nascerem, foram tomadas de seus pais biológicos para serem vendidas ou doadas a outras famílias. Esta prática criminosa de roubo de bebês foi muito utilizada pelas ditaduras de dois países, ainda que em momentos distintos: na Espanha de Francisco Franco (1939-1975) e na Argentina durante a última ditadura civil-militar (1976-1983). Ambos os governos foram marcados por profundo sentimento anticomunista, reforçado por estreitas ligações com a Igreja Católica e civis alinhados aos ideais militares.
     Os pais que tiveram seus filhos tomados eram considerados subversivos por seus governos. A declaração do antigo chefe de Polícia da Província de Buenos Aires, Ramón Camps dada a um jornal espanhol em 1984, expressa o argumento utilizado pelos sequestradores, que consideravam estas crianças "sementes do mal", futuros opositores à ordem imposta: “Pessoalmente, eu não eliminei nenhuma criança. O que eu fiz foi dar algumas a organizações benéficas para que encontrassem novos pais. Os subversivos educam seus filhos na subversão. Por isso, deveriam ser impedidos”.  
     Muito recentemente foi descoberto que durante o governo de Francisco Franco na Espanha se praticava o roubo de bebês de mães rojas, denominação dada às militantes comunistas. Suas crianças eram vendidas a outras famílias sem filhos. Atualmente estima-se que cerca de 200.000 crianças passaram pelo processo de adoção ilegal na Espanha, numa trama que envolveu enfermeiras, médicos e, sobretudo, membros da Igreja Católica, como freiras e padres. Estes últimos eram responsáveis por comunicar aos pais que seus filhos recém-nascidos haviam falecido e tiveram que ser enterrados às pressas. Para dar mais veracidade à narrativa, em certos casos, uma mesma fotografia de um bebê morto era mostrada a várias famílias, em um mesmo hospital.
     Caso exemplar é o de María Gómez Valbuena, hoje com 87 anos. De acordo com relatos, ela era conhecida como “a freira que dava crianças”. Não raras vezes, Valbuena, mesmo após a adoção, ainda mantinha contato com a criança, fazendo, inclusive, acompanhamento do rendimento escolar. Por anos, ela trabalhou como assistente social em uma clínica, Santa Cristina, em Madri, de onde, não por coincidência, saíram outras inúmeras denúncias de roubo de bebês.
     O drama dos bebês sequestrados veio à tona com mais força a partir da iniciativa de Antônio Barroso que, em 2010, criou a Associação Nacional de Afetados por Adoções Irregulares (Anadir), entidade registrada no Ministério do Interior do governo espanhol. Barroso ainda não encontrou sua verdadeira mãe. Ele continua sua busca, com a ciência da mãe adotiva. Crê que seus pais adotivos foram enganados pelo médico, pois compraram uma criança que não sabiam que havia sido roubada: “O médico disse que eu era filho de um analfabeto com uma prostituta ou que os meus pais haviam morrido”.  Até o momento, há 450 casos documentados por esta Associação, que busca a reparação da verdade, da dignidade e da Justiça para as pessoas que foram ilegalmente adotadas e também para seus familiares. São feitas as devidas investigações para a identificação e localização destas pessoas. A Anadir busca divulgar seus trabalhos para sensibilizar a sociedade civil e, assim, obter mais apoio. A entidade também presta auxílio jurídico e psicológico às vítimas e conta com doações para subsidiar custos dos processos dos afetados.
     A expectativa é de que em 2013, o governo crie um censo para traçar o perfil dos atingidos por esta prática. Um cruzamento de dados de pais, filhos e irmãos será necessário para promover os encontros.     
     No caso da Argentina, de acordo com os organismos de direitos humanos daquele país, as Forças Armadas sumiram com 30.000 pessoas durante a mais recente ditadura civil-militar no país (1976-1983). A estratégia repressiva dos militares girava em torno do sequestro seguido de desaparecimento. Para tanto, planejaram um circuito repressivo clandestino, cujo núcleo central se apoiava principalmente nos centros de detenção, no interior de dependências militares ou policiais, onde os sequestrados eram torturados, assassinados ou desaparecidos. O desaparecimento permitia a negação do crime cometido, pois eliminava a sua principal prova material: o corpo da vítima.
     Dentre as vítimas dos sequestros, estavam as crianças. Algumas delas foram sequestradas em procedimentos realizados contra seus pais e, posteriormente, podiam ou não ser devolvidas aos seus familiares. Outras nasceram em cativeiro, pois suas mães foram sequestradas grávidas. Em alguns centros de detenção, como a Escuela de Mecánica de la Armada (Esma) e o Campo de Maio, funcionaram maternidades clandestinas para essas mulheres, nas quais os nascimentos ocorriam sob fortes maus tratos. No circuito de adoção ilegal e clandestino, participaram funcionários de cartórios e hospitais, como médicos obstetras, que facilitaram a falsificação de documentos para registro e os dados que dificultassem a identificar os bebês.
     Após o sequestro e desaparecimento de seus filhos, algumas mulheres passaram a circular por delegacias, tribunais e igrejas, em busca de informações sobre os paradeiros deles, e descobrindo assim que seus dramas familiares não eram casos isolados. Paralelamente, circulavam testemunhos de sobreviventes dos centros clandestinos de detenção da ditadura de que as mulheres grávidas eram mantidas vivas até darem a luz, quando eram então separadas dos seus bebês. Posteriormente, descobriu-se que esses bebês tinham suas identidades trocadas e eram apropriados por militares ou por pessoas ligadas à repressão e ao regime. As mães de desaparecidos confirmaram assim que eram avós e que deveriam lutar pela aparição com vida de seus filhos e pela recuperação de seus netos. Nasceu então, em 1977, a Associação Civil Avós da Praça de Maio (Asociación Civil Abuelas de Plaza de Mayo).
     As avós criaram estratégias que lhes permitiam averiguar o paradeiro dos bebês apropriados e a posterior recuperação de suas identidades. Os avanços da ciência e da técnica possibilitaram a produção de provas genéticas a partir do sangue de parentes de segundo e terceiro grau, já que os pais biológicos em sua maioria encontravam-se desaparecidos. Com a redemocratização, em 1983, as iniciativas dirigiram-se para a formação de um Banco Nacional de Dados Genéticos, no qual familiares de bebês sequestrados ou nascidos em cativeiro pudessem depositar material genético para futuras averiguações. Até outubro de 2012, foram encontrados 107 netos, que tiveram sua identidade legal recuperada. No entanto, este é um número baixo, levando em consideração que foram cerca de 500 sequestrados.
     Quando em 1997 completaram-se 20 anos do surgimento da Associação, as avós mudaram seus métodos de busca ao constatar que seus netos já haviam crescido, abrindo-se a possibilidade de contar com a ajuda deles para recuperarem suas identidades. Produziram então campanhas de difusão dirigidas a esses jovens: “Se você nasceu entre 1975 e 1980 e tem dúvidas sobre a sua identidade, contate as Avós”. Há na Argentina um claro apoio e admiração social que se torna mais visível quando elas vêm a público anunciar a restituição da identidade de um menor sequestrado ou nascido em cativeiro. 
     Em 30 de dezembro de 1996, as Avós da Praça de Maio realizaram uma denúncia à justiça argentina iniciando a causa judicial pelo plano sistemático do roubo de bebês que, em 5 de julho de 2012, resultou na condenação de um grupo envolvido no desaparecimento e nas adoções ilegais dos recém-nascidos, incluindo militares e médicos.
     A recuperação ou restituição da identidade dos bebês apropriados é uma intervenção legal, carregada de tensões e dilemas éticos e morais. A partir dela, três temas entram em debate: a justiça, por se tratarem de crimes de sequestro e de ocultamento de identidade cometidos por civis e militares; a verdade, reivindicada pelos familiares de desaparecidos; e a memória de jovens adultos, que, a partir de então, precisam conciliar-se com dois passados: uma história familiar inventada e uma história familiar que lhe foi negada. Justiça, verdade e memória afirmam-se, assim, como imperativos para sociedades reelaborarem seus passados ditatoriais, e para que os indivíduos reparem os efeitos destes sobre suas biografias.

Isabel Cristina Leite é tutora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro e autora da dissertação Comandos de Libertação Nacional: Oposição armada à ditadura em Minas Gerais (1967-1969)(UFMG, 2009).  
Marcos Oliveira Amorim Tolentino é autor da dissertação O 16 de setembro sob a ótica da DIPBA- Dirección de Inteligencia de la Policía de la Provincia de Buenos Aires (1990-1996) (Unicamp, 2012).

Saiba mais - Bibliografia
BAUER, Caroline Silveira. Brasil e Argentina: ditaduras, desaparecimentos e políticas de memória. Porto Alegre: Medianiz, 2012.
TORRES, Enrique Vila. Mientras duró su ausencia. Madrid: Temas de Hoy, 2012.

Saiba mais - Internet
Associação Civil Avós da Praça de Maio
Associação Nacional de Afetados por Adoções Irregulares

Saiba mais – Filmes/Guerra Civil Espanhola

A Mulher do Anarquista (La Mujer del Anarquista)
Mais de um milhão de pessoas perderam a vida na Guerra Civil Espanhola, dois milhões tornaram-se prisioneiros e meio milhão foram expulsas da Espanha. Durante esses angustiantes anos entre o golpismo de Franco e o fim da 2ª Guerra, passa-se a história de uma jovem e seu eterno amor. O advogado Justo Calderón, brilhante republicano, luta contra Franco tanto nas trincheiras quanto no rádio como a “Voz da Revolução”. Sua elegante e jovem esposa Manuela é mimada, apolítica, mas uma amorosa mãe para a filha Paloma, e muito apaixonada por seu marido. A jovem família sofre os horrores da Guerra Civil, toda a dor da traição, o confinamento, a tortura e as angústias da separação. Quando as tropas de Franco vencem, Manuela perde contato com Justo. Sozinha, sem dinheiro, ela e Paloma lutam para sobreviver. Mas Manuela não perde as esperanças de reencontrar Justo um dia. Na sua incansável busca pelo marido, ela vê uma foto num artigo de uma revista sobre prisioneiros num antigo campo de concentração e se convence que é ali que Justo está. Agora, sua busca tem uma nova.
Direção: Marie Noelle, Peter Sehr
http://ul.to/zhzvdp9eAno: 2009 
Áudio: Espanhol/Legendado
Duração: 118 minutos 

Libertárias (Libertarias)
Em 18 de julho de 1936 o exército espanhol se rebela contra o Governo da República. Seis mulheres de origens e classes sociais diferentes se organizam em um grupo de anarquistas para lutar, de igual para igual com os homens, contra as tropas nacionais. Uma freira que descobre a solidariedade fora da fé, prostitutas, operárias, etc., unidas para defender seus ideais políticos e, ao mesmo tempo, fazer entender a seus companheiros as mudanças ideológicas e sociais pelas quais elas também almejam conquistar.
Direção: Vicente Aranda
Ano: 1996
http://ul.to/wa9psj04Áudio: Espanhol/Legendado
Duração: 121 minutos



Terra e Liberdade (Land and Freedom)
A crise desencadeada pela Primeira Guerra Mundial, aprofundada pela quebra da economia mundial após 1929, afetou praticamente todo o mundo, gerando grande desemprego e pobreza. Na Europa essa situação foi responsável pela "polarização ideológica", ou seja, pelo desenvolvimento das forças populares de esquerda e, ao mesmo tempo, das forças reacionárias fascistas. Na Espanha, essa situação foi responsável pela Guerra Civil, de 1936 a 39, quando um golpe militar, apoiado pelas forças de direita, provocou a divisão do país. O golpe, pretendia eliminar o regime republicano, instituído em 1931, responsável por uma série de reformas que desagradaram os setores mais conservadores do país, uma vez que os interesses de latifundiários e da Igreja Católica foram duramente atingidos. O conflito teve de um lado os republicanos apoiados pelos grupos de esquerda (comunistas e anarquistas) enquanto do outro lado encontravam-se os grupos fascistas e os setores mais conservadores da cidade. Enquanto a Alemanha e Itália ajudaram diretamente os fascistas espanhóis, Inglaterra e França adotaram uma política de neutralidade. A principal ajuda material foi dada pela União Soviética, que enviou armas e assessores, no entanto, o grande destaque do lado republicano, foi a das "Brigadas Internacionais", grupos de voluntários de vários países, que foram combater na Espanha. No inicio de 1937, as Brigadas tiveram papel importante na vitória sobre tropas italianas.
Direção: Ken Loach
http://ul.to/vaahcvsh
Ano: 1995
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: 109 minutos 

Saiba mais – Filmes/Ditadura Argentina

A História Oficial (La Historia Oficial) 1985
Na Buenos Aires dos anos 80, Alicia e seu marido Roberto vivem tranquilamente com Gaby, sua filha adotiva. Porém, após o reencontro com uma velha amiga recém-chegada do exílio, Alicia começa a tomar conhecimento da cruel realidade do regime militar argentino, passando a questionar todas as suas certezas e o que considerava como verdade. Uma realidade para a qual Alicia não estava preparada, mas que agora terá de enfrentar com todas as suas consequências.
Este filme marca a tomada coletiva de consciência dos horrores praticados na "guerra suja" pelo regime militar argentino. Alicia (Norma Aleandro) sempre teve curiosidade sobre a identidade dos pais verdadeiros de sua filha adotiva - até que se dá conta de que os pais da menina poderiam ser alguns dos "desaparecidos" da ditadura. Foi um dos mais premiados filmes argentinos.
Em 1986, recebeu o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e também foi indicado para o Oscar de Melhor Roteiro Original. No ano anterior, Norma Aleandro foi premiada como Melhor Atriz no Festival de Cannes.
Direção: Luis Puenzo
http://ul.to/ie2x6v7n
Ano: 1985
Áudio: Espanhol/Legendado
Duração: 110 minutos

Visões (Imagining Argentina)
Em plena ditadura militar na Argentina na década de 70, Carlos Rueda (Antonio Banderas) é um diretor de teatro infantil que tenta levar uma vida tranquila com sua família. Porém sua vida muda radicalmente quando sua esposa, Cecilia (Emma Thompson), que é jornalista, escreve uma matéria sobre o desaparecimento de crianças. Após a publicação da matéria, a própria Cecilia some. É quando Carlos, que parte em seu encalço, descobre que possui um dom para encontrar pessoas desaparecidas, decidindo usá-lo para encontrar sua esposa e também para ajudar outras pessoas que estão em situação semelhante a dele.
Direção: Christopher Hampton
http://ul.to/akrbfj3eAno: 2003
Áudio: Inglês/Espanhol/Legendado
Duração: 107 minutos


O Dia Em Que Eu Não Nasci (2010) (The Day I Was Not Born)
Maria Falkenmayer (Jessica Schwarz) é uma jovem mulher de 30 anos, que vive com o pai, Anton (Michael Gwisdek, de Adeus, Lênin!) na Alemanha. Ela faz uma viagem à América do Sul. Esperando no saguão do aeroporto de Buenos Aires por sua conexão para Santiago do Chile, Maria ouve uma canção de ninar. Para seu espanto, ela, que não fala uma palavra de espanhol, começa a cantarolá-la. Sabe a melodia e a letra, ainda que não entenda o significado das palavras. Desconcertada, não consegue conter o choro. Emocionada ela telefona para o pai, na Alemanha, e fala sobre sua experiência e surpreendentemente ele aparece no seu hotel dois dias depois. Ele revela que ela passou os três primeiros anos da sua vida em Buenos Aires durante a ditadura militar. E os pais que ela sempre pensou serem os seus, na verdade a adotaram. Ela começa a procurar pelos seus pais verdadeiros.
Vencedor do Prêmio da Crítica e do Público no Festival de Montreal e considerado o melhor filme no Festival de Zurich, O Dia em que Eu Não Nasci traz a história de uma mulher em busca de seu verdadeiro passado.
Direção: Florian Micoud Cossen
http://ul.to/aj4yxbds
Ano: 2010
Áudio: Alemão/Espanhol/Legendado
Duração: 95 minutos

Infância clandestina
Argentina, 1979. Da mesma forma que seu pai (César Troncoso), sua mãe (Natalia Oreiro) e seu querido tio Beto (Ernesto Alterio), Juan (Teo Gutiérrez Romero) leva uma vida clandestina. Fora do berço familiar ele é conhecido por um outro nome, Ernesto, e precisa manter as aparências pelo bem da família, que luta contra a ditadura militar que governa o país. Tudo corre bem, até ele se apaixonar por Maria, uma colega de escola. Sonhando com voos mais altos ao seu lado, ele passa por cima das rígidas regras familiares para poder ficar mais tempo com ela.
Direção: Benjamín Avila
http://ul.to/7ccriuu8 Ano: 2011
Áudio: Espanhol/Legendado
Duração: 112 minutos


Saiba mais – Documentários

Do Horror à Memória (2006)
Comentários dos produtores: A ditadura argentina causou a morte de 30 mil pessoas, uma das mais sangrentas da América Latina. A Escola da Marinha (ESMA), um dos principais centros de detenção clandestina do país daquele período, aprisionou, torturou e assassinou 5 mil pessoas. Não é pouco.
Por tudo isso, em 2004, o então presidente Nestor Kirchner, tomou uma das decisões mais simbólicas em relação a este assunto: transformar a ESMA em um museu para a memória. Pode parecer pequeno, mas a decisão trouxe, ainda mais forte, a lembrança na sociedade argentina de que aqueles prédios – em uma movimentada avenida de Buenos Aires - não são simples construções de jardim bem cuidado.
O ato respondeu a uma reivindicação de associações de direitos humanos, movimento com invejável influência na opinião pública hermana. Mesmo ainda não tendo saído do papel de fato, a instalação de um museu por lá agora é um caminho sem volta – é mesmo uma questão de tempo. E tão simbólica é a ESMA que, mesmo sem museu, serviu de palco para Cristina Kirchner reclamar, no último dia 25 de março, por velocidade da justiça no julgamento dos opressores da época – ato que se por um lado é espetáculo, por outro se faz também necessário.
Melhor Vídeo-Documentário acadêmico do Brasil pela 12ª Expocom (2005); Melhor documentário acadêmico da América do Sul pela Expocom – SUR (2006); Melhor Documentário pelo XIV Festival Cine Vídeo de Gramado (2006); Melhor Vídeo Eleito pelo Júri - XIV Festival Cine Vídeo de Gramado (2006); Selecionado para a Mostra Paulista do Audiovisual (2006).
Direção: Alexandre Xavier, Diogo Ruic, Laio Manzano e Marilia Chaves
http://www.youtube.com/watch?v=zRdEfadHng8Ano: 2006
Áudio: Espanhol/Legendado
Duração: 23 minutos

Condor
Condor foi o nome dado à sinistra "Operação Condor", conexão entre as ditaduras do cone sul nos anos 70 entre governos militares sul-americanos e com o apoio da CIA, que culminou com a morte de cerca de 30 mil pessoas nos anos 70. Outros 400 mil foram presos e 4 milhões exilados. Roberto Mader conta essa história através de depoimentos emocionantes e surpreendentes de generais e ativistas políticos, torturadores, vítimas e parentes dos desaparecidos. Condor foi filmado em quatro países e traz um material de arquivo, acompanhado de belas composições de Victor Biglione. Vencedor dos prêmios de Melhor Documentário no Festival do Rio e Prêmio Especial do Júri em Gramado em 2007.
http://www.youtube.com/watch?v=TNTc708xdPADireção: Roberto Mader
Ano: 2007
Áudio: Português
Duração: 110 minutos

domingo, 10 de março de 2013

Os fins justificam os meios?

A ‘Hora mais escura’, de Kathryn Bigelow, causa estranheza ao adotar postura neutra diante de um tema tão controverso quanto a tortura de terroristas capturados pelos EUA.
     Apenas uma ida ao cinema não é o suficiente para digerir o novo filme da americana Kathryn Bigelow que – com duas estatuetas (melhor direção e filme) na gaveta, por The Hurt Locker (Guerra ao Terror), de 2008 – entrou na briga pelo Oscar de melhor filme no Academy Awards deste ano, tratando de uma temática bem parecida. Dois ingressos foram o necessário. E não aguentaria ver pela terceira vez. Isto porque A hora mais escura, com sua tentativa de ser documentalmente imparcial, é um espetáculo cinematográfico e gera desconforto do começo ao fim.
     “Baseado em relatos de eventos reais”, o filme narra uma caçada que durou dez longos anos – mas com aquela sensação de vinte, ou trinta, para aqueles envolvidos diretamente no caso, ou os emocionalmente abalados pela perda de ente queridos, ou apenas os fortemente ressentidos com aquele que deve ter sido o mais duro golpe contra o “americanismo”. Dez anos foi o tempo que o centro de operações da CIA levou para capturar e matar o inimigo número um dos Estados Unidos da América. Segundo a versão oficial, Osama Bin Laden, líder da Al-Qaeda, foi mandante do atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, que deixou cerca de 3 mil mortos e deflagrou a chamada “guerra ao terror”.
     A história, nós já conhecemos. Quem não se lembra do que estava fazendo (ou do que parou de fazer quase que instantaneamente) ao ouvir a notícia dos atentados na TV, em 2001? Ou das horas e horas esperando pelo pronunciamento do presidente Barack Obama, no dia da morte de Bin Laden, em 1º de maio de 2011? Isto, por si só, já justificaria o caráter documental do filme de Bigelow. Mas ela vai adiante e explora cada tracinho de informações (confidenciais ou não) – a CIA, de verdade, chegou a investigar os produtores do filme para saber de onde eles tiraram algumas delas – as quais teve acesso, na trama assinada por Mark Boal, que também levou um Oscar de melhor roteiro por Guerra ao Terror.  O roteiro começou a ser escrito antes da morte do líder terrorista e teve que ser modificado depois.
     O primeiro soco no estômago do filme vem de algo tão realista que é quase inacreditável. Uma tela preta se ergue frente ao telespectador, logo no início, e as vozes desesperadas das pessoas presas nos escombros das Torres Gêmeas naquele 11/9 ecoam. No cinema, as pessoas se remexem inquietas em suas poltronas tão paradoxalmente confortáveis. Estão incomodadas. Resguardadas as devidas proporções de pânico, é como se estivéssemos presos num horror sem fim, implorando inconscientemente para que tudo termine logo, para que as vozes cessem. Se esta era a intenção de Kathryn Bigelow, parabéns para ela.
     A partir daí, A hora mais escura dá início à obsessão que tomou conta dos Estados Unidos por todos esses anos, personificada pela protagonista Maya (Jessica Chastain), que foi inspirada em um punhado de agentes reais da CIA. Recrutada pelo serviço secreto antes mesmo de ingressar numa universidade, em 2001, Maya fez da caçada aos talibãs seu objetivo de vida, e de Osama seu pote de ouro no fim do arco íris. 
     A agente representa, portanto, a guerra declarada ao terrorismo. E descansa sobre ela a controvérsia perturbadora, e o viés ambíguo e perigoso, do filme: a tortura como um meio justificado pelo fim. Intercalando cenas fictícias – que, ainda assim, carregam sobre si o peso da legenda inicial do filme, de que ele é baseado em fatos reais – com imagens verídicas de interrogatórios promovidos durante a “caça às bruxas” de George W. Bush, Bigelow escancara a trilha que levou à captura de Bin Laden.
     Num dos momentos cruciais de Zero Dark Thirty – no jargão militar, esta expressão significa meia-noite e meia, horário em que começou a operação que culminou com a morte de OBL –, discursos de caráter mais “brando” proferidos por Barack Obama mostram a ruptura no regime político vigente.  Mas a mensagem é clara: o governo atual pode até ter cumprido missão de forma mais humana (e quanto a isso, há controvérsias), mas não se pode esquecer do que os levou até ali.
     Entre as críticas sofridas por Bigelow, uma das mais contundentes foi a de Slavoj Zizek, que a acusa de estar “aliada à normalização da tortura”, já que esta é representada, no filme, de forma neutra. De fato, o sentimento que fica é de constante desconforto e dúvida: “mas ela está defendendo ou criticando a prática?”. No fim das contas, a tentativa de ser imparcial incomoda.
A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty)
Direção: Kathryn Bigelow
Ano: 2012
Áudio: Inglês/Legendado
Duração: 157 minutos
Tamanho: 493 MB

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