“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Aprofundamento: Cultura Anos 50 e 60

A Terceira República (1945-1964)
     Retomar o período da experiência liberal-democrática de 1945-64 é uma oportunidade de explorar o momento em que a sociedade brasileira viveu sua primeira experiência de eleitoralização da política. Ou seja, o período em que conheceu partidos políticos nacionais e de massa; em que experimentou eleições sistemáticas para o Executivo e o Legislativo (federal, estadual e municipal); enfim, em que realizou o que se chama "aprendizado da política" eleitoral, em novos e mais amplos marcos. (...)
     Durante essas duas décadas aconteceram quatro eleições presidenciais e seis para o Congresso, além de muitas eleições estaduais e municipais. Todas elas evidenciaram um bom grau de correção e competitividade, o que em grande parte se atribui à existência e ao funcionamento da Justiça Eleitoral, além do aperfeiçoamento da legislação eleitoral existente.
     Evidentemente e ainda mais uma vez, não se quer dizer com isso que inexistissem fraudes, violência, clientelismo etc. Porém, tais eventos não chegaram a alterar significativamente quaisquer resultados eleitorais, o que é compatível com dinâmicas políticas como a de eleições. Mas é claro que não se vivia um mar de rosas. O Código Eleitoral existente excluía os analfabetos e, desde 1947, alijou-se o Partido Comunista, que continuou existindo e tendo papel importante. De toda forma, no Brasil de 1946-64, estabeleceu-se um sistema multipartidário de âmbito nacional, atuando em condições de sufrágio universal e eleições competitivas, com efetiva alternância de poder.

GOMES, Angela de Castro. "Jango e a República de 1945-64: da República populista à Terceira República". In: SOIHET, Rachei (et. aI.) Mitos, projetos e práticas políticas. Memória e historiografia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009. p. 36 e 49.

A Batida da Bossa Nova
     Nos anos JK surgiu uma inovação: a Bossa Nova. Até então, a música brasileira era dominada pelo samba-canção e por boleros, cujas letras geralmente falavam de amarguras e tristezas. No início dos anos 1950, cantores influenciados pela música norte-americana atraíram a atenção da juventude de classe média do Rio de Janeiro. Espalhou-se um sentimento de que era preciso ser moderno e estar atualizado com as novidades do mundo.
     O movimento de renovação da música brasileira ocorreu em 1958, quando a cantora Elizeth Cardoso lançou um disco com a música "Chega de saudade", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. João Gilberto acompanhava tocando com uma batida de samba inovadora no violão, que foi chamada de Bossa Nova. No ano seguinte, João Gilberto lançou seu primeiro disco, a partir do qual a Bossa Nova caiu no gosto da classe média até se tornar mundialmente conhecida.
     A "batida da Bossa Nova" atraiu muitos jovens, que abandonaram o estudo do acordeão – um gosto da época - para aprender a tocar violão. Influenciados por estilos musicais norte-americanos adaptados ao ambiente cultural brasileiro, principalmente o jazz e suas variações, os jovens artistas recriaram a maneira de tocar, cantar e compor o samba. As letras não falavam de tragédias, mas ressaltavam temas como o amor, a natureza e a alegria. A parceria de Tom Jobim com Vinicius de Moraes produziu músicas cantadas até hoje, como a própria "Chega de saudade", "Se todos fossem iguais a você" e "Garota de Ipanema" - uma das canções mais reproduzidas no mundo. 

"Bossa nova é ser presidente
Desta terra descoberta por Cabral
Para tanto basta ser tão simplesmente
Simpático, risonho, original.

Depois desfrutar da maravilha
De ser o presidente do Brasil,
Voar da Velha-Cap pra Brasília,
Ver a Alvorada e voar de volta ao Rio.

Voar, voar, voar, voar,
Voar, voar pra bem distante, a
Té Versalhes onde duas mineirinhas valsinhas
Dançam como debutante, interessante!

Mandar parente a jato pro dentista,
Almoçar com tenista campeão,
Também poder ser um bom artista exclusivista
Tomando com Dilermando umas aulinhas de violão.

Isto é viver como se aprova,
É ser um presidente bossa nova.
Bossa nova, muito nova,
Nova mesmo, ultra nova!" 
Juca Chaves. Presidente bossa nova - 1956.

Cinema e o Estilo da Chanchada
     A Atlântida, empresa cinematográfica fundada em outubro de 1941, chegou a seu auge na década de 1950, tendo como principal gênero de filmes as chamadas chanchadas, produções de baixo custo e roteiro simples. Baseados nos filmes de Hollywood, os diretores utilizavam como recursos a paródia e a comédia, criando identificação do trabalhador de baixa renda com os personagens.
     O cinema nacional era uma forma de diversão que não exigia a leitura de legendas - era elevado o número de analfabetos na época. Os ingressos eram baratos. Assim, com público garantido e salas sempre cheias, o cinema tornou-se uma diversão de massa.
     Ainda nos anos 1950, a carioca Atlântida teve de concorrer com empresas paulistas, sobretudo a Vera Cruz, que tinha como proposta realizar filmes com sofisticação técnica e artística, no mesmo nível de Hollywood. Nas décadas de 1950 e 1960, o cinema nacional produziu cerca de 300 filmes. No entanto, sem condições de concorrer com a indústria cinematográfica norte-americana e com o início da difusão da televisão no Brasil, as principais empresas de cinema fecharam suas portas.

A Busca de Novos Caminhos
Cinema, Teatro, Literatura.
     Nos anos 1950 e 1960, a sociedade brasileira conheceu movimentos culturais inovadores. Durante os anos JK, o diretor Nelson Pereira dos Santos lançou o filme Rio 40 graus. A originalidade do filme foi a de mostrar a realidade urbana no Brasil, influenciando outros cineastas. As inovações também ocorreram no teatro. Em 1956, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, estreou uma peça marcada pelo experimentalismo. Com adaptação de Vinicius de Moraes, cenários de Oscar Niemeyer e atores negros, Orfeu da Conceição transportava o drama grego para as favelas cariocas.
     Em São Paulo, jovens atores que militavam no Partido Comunista estrearam em 1958 a peça Eles não usam black-tie, drama sobre conflitos em uma família operária de São Paulo no decorrer de uma greve. A partir daí, o grupo que trabalhava no Teatro de Arena encenou textos de autores nacionais, em um esforço para nacionalizar e popularizar o teatro no Brasil.
     Houve inovações ainda na literatura. Em 1956, Fernando Sabino publicou o livro O encontro marcado, que teve grande repercussão na época. No mesmo ano, João Guimarães Rosa tornou-se conhecido mundialmente com o livro Grande sertão: veredas, enquanto Jorge Amado, abandonando os rígidos padrões estéticos do PCB, inovou com Gabriela, cravo e canela. Muitos artistas participaram de um influente movimento chamado de concretismo.
     Durante o governo de Goulart, jovens ligados à UNE fundaram o Centro Popular de Cultura (CPC). Percorrendo o interior do Brasil, nas praças das pequenas cidades, em teatros improvisados e circos, os estudantes encenavam peças, cantavam suas músicas e liam seus poemas com o objetivo de levar ao povo o que eles chamavam de "arte revolucionária”.
     Um grupo de cineastas, ainda durante o governo JK, inovou o cinema nacional. Mas o movimento conhecido como Cinema Novo amadureceu durante o governo Jango. Três filmes marcantes foram produzidos entre 1963 e 1964: Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos; Os fuzis, de Ruy Guerra; e Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. O CPC da UNE patrocinou o filme Cinco vezes favela, revelando o talento dos diretores Carlos (Cacá) Diegues, Joaquim Pedro de Andrade e Leon Hirszman. Também patrocinado pelo CPC, Eduardo Coutinho começou as filmagens de Cabra Marcado Para Morrer, somente concluído anos depois. O CPC também lançou uma coleção de pequenos livretos intitulada Cadernos do povo brasileiro.
     Além disso, brasileiros também obtiveram projeção mundial em outras áreas nessa época. A tenista brasileira Maria Ester Bueno venceu importantes torneios em, Wimbledon e Roland Garros. Em 1961, o pugilista Éder Jofre ganhou título mundial dos pesos galo pela National Boxing Association. Em 1963, Ieda Maria Vargas foi eleita mulher mais bela do mundo no concurso de Miss Universo.

Nacional-Desenvolvimentismo
     Nacional-desenvolvimentismo é uma expressão que traduz um projeto para o país: o desenvolvimento nacional. Grupos políticos que governaram o Brasil após 1930 interpretaram que o atraso econômico brasileiro era resultado da sua condição de agroexportador de café e dependente dos grandes centros capitalistas. Assim, o desenvolvimento econômico não seria alcançado apenas pela atuação das leis de mercado regidas pelo liberalismo econômico.
     O projeto desenvolvimentista implicava na necessidade de o Estado atuar no planejamento econômico e no financiamento da produção; incentivar a industrialização por meio da substituição das importações; diversificar e modernizar a produção agrícola; reorientar a produção visando formar um mercado interno de consumidores.
     Fizeram parte desse processo: a legislação social dos anos 1930; a expansão do setor público, com uma série de ministérios, conselhos e autarquias; a fundação de empresas estatais, como a Companhia Siderúrgica Nacional, a Companhia Vale do Rio Doce e a Petrobras; a criação de bancos de investimentos, a exemplo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), Banco do Nordeste e Banco da Amazônia.
     O projeto nacional-desenvolvimentista não excluía o capital estrangeiro ou os setores vinculados à agricultura. A meta era alterar profundamente as estruturas econômicas e sociais da sociedade brasileira:
transformar a economia agrária em industrial; superar a dependência do mercado internacional, alcançando maior autonomia; reorientar o modelo econômico do Brasil, privilegiando o mercado interno e não somente as exportações. Por fim, o projeto de crescimento econômico visava distribuir melhor a riqueza gerada com a industrialização.

História: O mundo por um fio: do século XX ao XXI, vol. 3/Ronaldo Vainfas... (et al.). SP: Saraiva. 2010
Conexões com a história, vol.3/Alexandre Alves... (et al.) SP: Moderna 2010

Nenhum comentário:

Postar um comentário