“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

domingo, 22 de janeiro de 2017

“Macumba” de branco

Proposta original da Umbanda era negar o passado negro do país e submeter as religiões vindas da África aos valores dominantes da cultura brasileira.
Artur Cesar Isaia
      Hoje em dia ninguém dissocia a Umbanda do seu passado africano, mas nos seus primórdios a ideia dos dirigentes umbandistas era construir uma religião "nacional", distante da cultura negra e o mais próxima possível aos valores da elite brasileira. A realização do Primeiro Congresso do Espiritismo de Umbanda, em 1941, no Rio de Janeiro, foi um momento marcante nesse processo. Não esqueçamos que se vivia então num Brasil ainda muito próximo do passado escravista, onde se cultivavam, de maneira explícita, os preconceitos de cor e o desprezo pelas tradições herdadas da África. Uma das teses aprovadas no congresso defendia a ideia, algo bizarra, de que a Umbanda tinha suas raízes na índia, de onde então teria sido levada para o continente africano. Percebemos aí claramente o esforço de aproximar a Umbanda a uma tradição cultural considerada "superior", no caso a hindu.
      As teses aprovadas no encontro tentavam, por outro lado, ligar a Umbanda ao Espiritismo, que Allan Kardec, na França, em meados do século XIX, tentara aproximar da ciência. A elite brasileira tendia a valorizar essa vertente livresca do Espiritismo. Alguns dos primeiros intelectuais da Umbanda preferiam apresentá-la como uma modalidade do Espiritismo, reinterpretado em solo brasileiro e acrescido de um ritual, inexistente na matriz francesa kardecista. Para eles, os rituais próprios da Umbanda deviam ser mantidos porque a tornavam mais próxima ao povo. Essa relação aparece claramente na literatura doutrinária umbandista que proliferou na primeira metade do século XX. Alguns livros desta fase chegam a cogitar que o próprio ritual tenderia a diminuir de importância na religião, ou mesmo desaparecer, na medida em que o povo brasileiro se tornasse mais "educado". Quando isso acontecesse, a população estaria menos presa a certas práticas, como o uso de velas, o culto a imagens e mais próxima da doutrina que os teóricos umbandistas divulgavam através dos seus livros.
      Na maioria das obras da época a Umbanda aparece articulada à vida urbana, prescindindo das práticas julgadas primitivas, típicas do Candomblé, como o sacrifício de animais, as reclusões, os toques de atabaques etc. Um periódico editado no Rio de Janeiro nos anos 50, O Jornal de Umbanda, chegou mesmo a publicar que o samba e o Carnaval eram indícios do mesmo "barbarismo" do Candomblé. Em contrapartida, os primeiros dirigentes da Umbanda fizeram questão de comprometer os adeptos da nova religião com uma imagem laboriosa, saudável. Preocupavam-se bastante com os horários das giras (sessões), que não deveriam conflitar com o período de descanso dos trabalhadores.
      Também havia um cuidado muito grande com a ingestão de bebidas alcoólicas durante os cultos. O marafo (aguardente) deveria ser usado com muita parcimônia. A preocupação com o alcoolismo corroborava a tendência de aproximar a nova religião do modo de vida dos cidadãos honestos, produtivos e respeitáveis. Uma das teses aprovadas no congresso de 1941 abordava o esforço dos umbandistas na erradicação do alcoolismo, considerado nocivo e ameaçador para a classe operária. De forma clara, a Umbanda procurou, no começo, distanciar-se das manifestações mediúnicas disseminadas nas camadas populares, como a Macumba. Muitos registros dessa época mostraram as atividades mediúnicas entre os pobres bastante ligadas ao modo de vida dos negros. Em inúmeros registros da época encontramos a expressão "baixo Espiritismo" denominando essas práticas, próprias de segmentos marginalizados. Estas deveriam ser disciplinadas, ritual e doutrinariamente, dentro da proposta de a Umbanda se afastar da negritude e da pobreza.
      Os primeiros dirigentes só admitiam o trabalho com espíritos (Caboclos, Pretos Velhos, Crianças etc), não tolerando a manifestação dos Orixás (as antigas divindades africanas). Esse trabalho "desafricanizante" contaria com o esforço das nascentes federações umbandistas. Como religião que se representava como nacional, assumindo o discurso do sincretismo, a Umbanda acentuava, em seu panteão de entidades, uma representação conciliadora do negro e do índio, totalmente dóceis aos valores dominantes na sociedade. O índio, para os umbandistas, era um ser valente, forte, protetor, numa relação estreita com certos personagens do romantismo brasileiro, como o índio Peri, de José de Alencar. No mundo do branco e do índio representado pela Umbanda, não parecia existir oposição. Primeiros habitantes da terra, tendo seu habitat invadido, suas populações dizimadas e sua cultura violentada, os índios, na versão umbandista, são entidades submissas ao mundo dos colonizadores. Os "caboclos", como são chamados os espíritos dos indígenas, estão sempre prontos a colocar sua força e discernimento a serviço dos que deles precisam, sem contestar a ordem vigente.
      Quanto ao negro, este aparece sempre como um sábio conselheiro. A sapiência do Preto Velho advém da idade avançada. Por se tratar de um ancião, não representava nenhum risco físico à sociedade: é um negro alquebrado pelos anos e muito familiar à "casa-grande", ao mundo dos brancos, com quase nenhum traço do seu passado africano. A oposição à ordem vai ser feita, na Umbanda, por outros integrantes do seu panteão: os Exus. Essas entidades eram, contudo, consideradas como carentes de "evolução", aquém, portanto, dos guias "luzeiros", como Caboclos e Pretos Velhos. Na ancestralidade africana, os Exus desempenhavam um papel importantíssimo, como mensageiros dos Orixás, estando ligados ao movimento, ao dinamismo da vida, à energia sexual. Nas antigas Macumbas e na própria Umbanda, os Exus passaram a ser representados com explícitas aproximações com o demónio cristão.
      Essas entidades, os Exus, eram consideradas ambíguas e perigosas. Ou a Umbanda não trabalhava com as mesmas ou o fazia apenas em ocasiões muito especiais, e assim mesmo cercando esses trabalhos de muita privacidade e mistério. Sendo, na sua ótica, entidades "primitivas", a Umbanda encarava os Exus numa perspectiva evolucionista e - para "evoluírem" - tinham de se regenerar pelo trabalho. Renato Ortiz faz menção ao chamado "Exu Batizado", ou seja, àquele que, aceitando finalmente a ética cristã, reinterpretada pelo Espiritismo, "evolui" e passa a frequentar os trabalhos de caridade, junto com Caboclos e Pretos Velhos. O "Exu Batizado", para Ortiz, representaria a submissão do transgressor às normas sociais dominantes.
      Existe uma narrativa mítica para o surgimento da Umbanda, divulgada apenas na segunda metade do século XX, de acordo com o antropólogo Emerson Giumbelli. Esta narrativa corrobora a determinação de afastar a nova religião do universo cultural africano. Segundo ela, a Umbanda teria surgido no início do século XX, mais precisamente no dia 15 de novembro de 1908, quando o espírito de um indígena - o Caboclo das Sete Encruzilhadas - "manifestou-se" num médium de cor branca, bem posto socialmente, morador do interior do Rio de Janeiro, transmitindo-lhe os fundamentos da nova religião. O médium se chamava Zélio Fernandino de Moraes, e é bastante sintomática a "coincidência" com a data da Proclamação da República. Em alguns livros doutrinários, a religião aparecia, junto com a Abolição e a República, como um marco na "evolução" do povo brasileiro. Este "mito de origem" da Umbanda aparece carregado da ética cristã, reinterpretada pelo Espiritismo francês do século XIX. Reafirma-se nele a doutrina espírita baseada nas leis do progresso contínuo dos espíritos, todas assentadas na ideia de reencarnação.
      Segundo a narrativa, o Caboclo das Sete Encruzilhadas trazia de encarnações passadas um conhecimento que extrapolava sua condição de indígena. Tinha ainda enorme erudição livresca, que punha a serviço da edificação da nova religião. Esse conhecimento vinha do fato de ter sido um padre católico em encarnações passadas: o jesuíta Gabriel de Malagrida, natural de Menaggio, norte do atual território italiano. Malagrida foi um missionário que atuou no norte e nordeste do Brasil no século XVIII, tendo sido condenado à morte em Portugal, em 1761, na época do governo do marquês de Pombal. Depreende-se, da narrativa, uma clara tentativa de compatibilizar a herança afro-ameríndia com uma cultura livresca que refletia os valores dominantes na sociedade da época. Sete Encruzilhadas não era, portanto, um indígena qualquer. Trazia em sua "estirpe espiritual" um passado totalmente familiar à civilização cristã ocidental.
      A Umbanda enfatizava uma relação estreita com o catolicismo, talvez como estratégia de aproximação aos valores familiares mais estimados pela sociedade brasileira. Isso aparece muito bem nas denominações dos centros ou "terreiros", que fazem menção aos nomes da Virgem Maria e dos santos, e nas imagens dos mesmos, sincretizadas com os Orixás. Só na segunda metade do século XX ocorreria o processo de "africanização" da Umbanda, onde os valores da negritude e a identidade negra passaram a conquistar mais espaço. A representação dos Orixás começa então a se aproximar da simbologia africana, tendo muitos centros abandonado, inclusive, a correspondência com os santos católicos. Por outro lado, a Umbanda desenvolveu, ao longo do tempo, uma notável capacidade de adaptação às transformações sociais e às diferenças regionais do Brasil, incluindo no seu panteão tipos como o malandro carioca e o boiadeiro nordestino. Dessa maneira a Umbanda mudou inteiramente de feição. Reinterpretando aqui a tradição africana, tornou-se sem dúvida mais capaz de celebrar a diversidade social e cultural brasileira.

Artur Cesar Isaia é doutor em História Social pela USP, professor de História da Universidade Federal de Santa Catarina e organizador da obra Orixás e Espíritos: o debate interdisciplinar na pesquisa contemporânea (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, 2006).

Fonte – Revista Nossa História - Ano III nº 36 - Outubro 2006

Saiba Mais – Bibliografia
BASTIDE, Roger. As religiões africanas no Brasil. São Paulo: Pioneira EDUSP, 1971.
GIUMBELLI, Emerson. "Zélio de Moraes e as origens da Umbanda no Rio de Janeiro". In: SILVA, Vagner (org). Caminhos da Alma. São Paulo: Summus, 2002.
ORTIZ, Renato. A morte branca do feiticeiro negro. Umbanda: Integração de uma religião numa sociedade de classes. Petrópolis: Vozes, 1978.
PRANDI, Reginaldo. Segredos guardados. Orixás na alma brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

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Saiba Mais – Documentário
Episódio 02 - Bezerra de Menezes
“O médico dos pobres”, assim era conhecido o Doutor Bezerra de Menezes. Saiu de sua cidade, no interior do Ceará, e veio para o Rio de Janeiro estudar medicina, sua grande paixão. O que o diferenciava dos outros médicos? Uma enorme compaixão e espírito de caridade. Fez carreira na política e, ao ser apresentado ao espiritismo, assumiu publicamente a sua posição, causando muita polêmica.

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