“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Viagem à escravidão

Não eram gente, mas uma carga como qualquer outra. Num processo sobre o naufrágio de um navio negreiro, em 1851, na costa da Bahia, os próprios africanos contaram como era feito o transporte clandestino de escravos para o Brasil.
Ubiratan Castro de Araújo
     Meados do século XIX. O Brasil passa a colaborar com a Inglaterra na vi­gilância sobre a rota da escravidão no Atlântico. No auge da chamada crise do tráfico, o navio Relâmpago viaja. Ele acaba de embarcar na África sua carga viva, sob o olhar atento da Inglaterra, e vai desembarcá-la na Bahia sob o assédio de forças brasileiras. Um mês depois de partir de Lagos, o mau tempo faz o navio enca­lhar já próximo à praia na Bahia, facilitando o tra­balho das autoridades.
     Era o fim de uma viagem que percorreu toda a Costa d'África, recolhendo cerca de 500 passageiros, até chegar desastradamente a seu destino em 29 de outubro de 1851. Os dados aparecem no processo da auditoria da Marinha do Brasil, existente no Arquivo Público do Estado da Bahia, Seção Judiciária, registro 5-157-06, e foram aqui cruzados com informações do cônsul britânico em Lagos, na Nigéria, dos arquivos do Foreign Office, o ministério de relações exteriores da Inglaterra.
     Apesar da ação policial, o processo instaurado revelará uma mentalidade - e talvez uma atividade - ainda escravocrata das autoridades brasileiras: por que fazer constar como porto de origem "Luanda" e em "300" o número oficial de negros traficados, contra todas as evidências processuais, se não para beneficiar os grandes traficantes baianos e seus sócios e correspondentes da principal rota do tráfico para o Brasil, entre Lagos e a Bahia?
     Os personagens brancos do evento são bastante conhecidos. O capitão era o veterano pirata do trá­fico Benito Denizan, um espanhol vindo da Venezuela, o que explica o castelha­no de alguns nomes na relação de portos. O destinatário da carga era Higino Pires Gomes, um conhecido político liberal, lider militar da Sabinada, revolta baiana de 1837, e proprietário do Engenho Pontinha, habitual ponto de desembarque de navios negreiros na Bahia.
     Menos de um mês depois do de­sembarque, lá estão os negros, assus­tados e seminus, desfilando para as autoridades da Auditoria da Mari­nha: 300 passageiros compulsórios, segundo os autos do processo de apreensão do navio e do recurso interposto em de­fesa do traficante Higino Pires Gomes; 500, segun­do as informações do cônsul britânico em Lagos, em que se baseiam o pesquisador Pierre Verger e o pro­fessor David Eltis. E os negros vão passando no cor­tejo, um a um, alguns rebatizados com nomes bíbli­cos para submeter também suas almas: Sem, Adão, Noé, Abel e Eva, cinco dos seis únicos depoentes no processo do navio Relâmpago. Vamos ouvi-los.
      Ele tinha mais ou menos 18 anos. Havia alguns meses, saíra de seu país, Egba, na Costa d’África, pa­ra negociar no país de Jebu, quando foi sequestrado para Lagos. Desde então nunca mais perguntaram o seu nome. Passou mais de dois meses no reino de Onim, na região de Lagos, encarce­rado em uma grande cela comum, perto da praia, até que perdeu o sen­so de direção. Tonto, sem saber onde estava, foi jogado num porão de na­vio, no meio de uma multidão de es­tranhos. Ninguém perguntou o seu nome, nem ele o de ninguém. Igno­rava quem eram seus carcereiros. Sabia apenas que o capitão era um homem branco, corado, alto, magro, com barbas do tipo suíças.
     Depois de um mês dentro daque­le baú de madeira, sentiu o pavor da tempestade. O baú virava de um la­do para outro, às vezes parecia que ia mergulhar para o fundo das águas, às vezes empinava como se fosse voar. Um grande barulho. Os paus todos ran­giam. O bicho se debatia como uma fera amarrada, até encalhar próximo à praia. No meio da confu­são, nem sabe ao certo se alguém o soltou ou se ele mesmo conseguiu se desvencilhar das grilhetas.
     Quando subiu do porão para o con­vés, não viu o comandante e o resto da tripulação, que já estavam em ter­ra com alguns negros. Ele e muitos outros tinham ficado a bordo. Perce­beu que havia uma corda estendida entre o navio e a praia. Todos se pre­cipitaram. Alguns morreram afoga­dos, outros conseguiram chegar em terra e outros foram recolhidos pelos escaleres de um navio de guerra e transportados até a cidade.
     Ele não calcula quantos morre­ram no naufrágio porque não sentiu falta de ninguém, só lembra que o porão estava cheio de desconhecidos, cativos como ele. Do esca­ler para um navio, do navio para uma prisão, foi fi­nalmente levado ao tribunal dos chefes dos mari­nheiros que o haviam recolhido. Trouxeram uma mulher que falava algumas palavras de sua língua. Ele dizia que o navio viera de Lagos e as autorida­des repetiam um nome estranho, Luanda. Sem ra­zão aparente, Lagos, na Nigéria, era substituído por Luanda, em Angola. Ninguém quis saber o seu no­me. Passaram a chamá-lo de nº244 e de um estra­nho nome: Sem.
     Não sabia que terra era essa, não sabia que cidade era essa, não sabia que pelas leis brasileiras era um ho­mem livre. Mas ainda assim, Sem era um homem sem liberdade.
     A outro deram o nome de Adão. Ele era o 242, "cinco pés e nove po­legadas de altura, cara redonda, olhos e orelhas pequenas, nariz re­gular, boca grande, corpo magro, pescoço comprido, de vinte e oito anos, pouco mais ou menos, pés re­gulares, dentes limados e princípio de barba". Em outro registro, atri-buíram-lhe 22 anos e o descreveram de cor fula, de nação Nagô, com o rosto riscado. Seu depoimento sobre o naufrágio é bastante sucinto. Disse que quando o navio encalhou, o capitão e a tripulação saíram do navio com alguns moleques e negrinhas e pretos, ignorando ele se em canoa ou a nado, por­que continuou no porão do navio com muitos ou­tros, de onde saíram e atiraram-se no mar, sendo alguns tomados pelos escaleres em que vinham marinheiros do navio de guerra.
     Este também sobreviveu ao naufrágio. Deram-lhe o nome de Noé. Descreveram-no como um homem de "cinco pés e sete polegadas de altura, cara comprida, orelhas pequenas, olhos grandes e salien­tes, nariz regular, boca pequena, lábios grossos, cor­po delgado, vinte e três anos de idade pouco mais ou menos, pés compridos, dentuço". Em África, era guerreiro. Para todos os efeitos, era natural de Luanda, e estando em guerra com gente de Ebó, foi aprisionado e embarcado. Sobre o naufrágio, disse que o capitão e a tripulação serviram-se de algumas canoas para desembarcar apenas os moleques e as negras a bordo, obrigando os demais a lançarem-se no mar. Os que não sabiam nadar, ou não podiam vencer a distância, morreram afogados.
     Ainda para representar a família bíblica original, a outro deram o nome de Abel. Era um rapaz de vinte anos, "cinco pés e seis e meia polegadas de al­tura, cara oval, olhos e orelhas pequenas, nariz e boca regulares, corpo grosso porém magro, pés pe­quenos". Diz ele ser natural de Ouri, onde em pe­queno foi vendido para Jebu, constando ter sido le­vado para Luanda - provavelmente, Lagos -, onde ficou por três dias. Foi salvo do mesmo naufrágio por quatro pretos remadores e alguns tripulantes brancos de um saveiro ou baleeira, que retornou lotado para terra.
     Este era um haussá, "com cinco pés e nove pole­gadas de altura, cara oval, com sinais de haussá (três pequenos riscos de cada lado da face), orelhas pe­quenas, olhos e nariz regulares, lábios grossos, de vinte e um anos de idade um pouco mais ou menos, semblante alegre, corpo regular, pés grandes". Ele contou que foi para o convés da embarcação depois do encalhe. Não viu nem o capitão nem a tripula­ção, mas reparou que muitos dos pretos ainda a bordo mergulhavam até uma corda que estava lan­çada do navio para a terra. Ele seguiu o exemplo dos outros. Chegando à praia, foi conduzido com mui­tos pretos pelo mato, escoltados por diversos pretos armados e um moço branco. Após quase três dias de marcha, foram apreendidos pelas forças do gover­no, depois de alguma resistência da qual resultou um ferido entre os traficantes.
     O corpo das mulheres nagôs é descrito no pro­cesso com a maior atenção: entre sete e 11 anos es­tão as meninas; entre 12 e 17, as mocinhas já mens­truadas; a partir de 18, as mulheres adultas, tudo para assinalar sua idade reprodutiva, a saúde e a es­tética. Em 1851, quando a repressão nos dois lados do Atlântico chegava a um ponto máximo, percebe-se na composição do contingente transportado um cuidado com a reprodução futura da escravi­dão no Brasil: um número expressivo de mulheres, em sua maioria adolescentes. Essa preocupação aparece no relato dos africanos interrogados. Todos afirmam que o comandante e a tripulação trataram de salvar nos escaleres as mulheres, os moleques e os molecões, ou seja, as crianças e adolescentes, deixando morrer os mais velhos.
     Ela era uma menina de 16 anos. Nasceu em Efon, de onde foi roubada e vendida em Lagos. Depois de mais de um ano, embarcou para a Província da Bahia. Assim que o navio encalhou, chegou ao convés e viu que os homens da tripulação embarcaram os moleques e as meninas em uma canoa, vinda da terra, tripulada por quatro remeiros brancos. Por ordem dos marinheiros, ela se segurou em uma cor­da, por onde chegou até a praia com seus compa­nheiros. Foi conduzida por oito pretos armados. Foi tudo o que disse porque só isso lhe perguntaram. Do seu nome ninguém quis saber. Olharam atenta­mente para ela e fizeram a seguinte descrição: "de cinco pés de altura, cara redonda, olhos grandes, nariz chato, beiços revirados, principalmente o de baixo, pés pequenos, 16 anos", uma menina assustada. Puseram-lhe o número 341 e chamaram-na de Eva. Porquê, ela não sabe.
     Guilhermina era uma garota de sete anos, retinta, de altura regular; Cecília tinha nove anos, retinta, reforçada, com dois riscos no canto do olho esquerdo e três sinais abaixo dos olhos; Lúcia, com 11 anos, retin­ta, foi considerada feia, com três si­nais debaixo dos olhos de cada lado da face e o mesmo na testa. Entre as mocinhas, Inocência, 12 anos, era de cor bastante fula, com os seios apontando, tinha uma cicatriz bastante grossa e sa­liente tirando uma perpendicular entre as clavícu­las e o umbigo e duas outras também salientes, num meio-círculo a morrer nas virilhas. Suzana, 13 anos, era magra e espigada, com costas e braços ris­cados. Com 15, encontramos Inácia: retinta, olhos vivos e bonitas feições, com peitos pequenos, tendo o lado esquerdo do ventre e a mão direita borda­dos. E com 16 anos, Brasília era de cor fula, de es­tatura regular, tinha sinais azulados nos lados da face e seios caídos.
     No grupo de mulheres adultas, Emeria tinha 20 anos, de cor meio fula, bastante magra, com a testa e o rosto riscados, dentes limados, seios pequenos, dois riscos compridos do canto dos ombros ao um­bigo; Constança, 20 anos, era retinta, tinha o rosto lanhado de cada lado da face com três riscos e seu corpo era marcado por três cicatrizes em cada bra­ço, principiando no cotovelo, subindo pelas costas e descendo para o assento; Urânia, 24 anos, era al­ta, retinta, de seios caídos, com o rosto marcado por quatro lanhos horizontais e quatro transversais de cada lado.
     Dos 500 embarcados, não se sabe quantos morreram na viagem, no desembarque ou na fuga no meio do mato, durante a perseguição da polí­cia aos traficantes. Dos 300 da rela­ção oficial, há referências nos autos a três africanos dados como mortos nos hospitais da cidade e a um fugiti­vo da Santa Casa da Misericórdia, de nome Caio. Dos demais 296, seis fo­ram ouvidos e os outros apenas nu­merados e nomeados pelas autorida­des. Todos receberam nomes em por­tuguês que nada tinham a ver com suas vidas. Seus corpos foram descritos como peças de mercado. Os auditores da Marinha sequer per­guntaram os seus nomes originais, as nações a que pertenciam, os países, regiões e aldeias de procedên­cia. A todos eles se impôs um nome cristão, sem qualquer critério, retirado mecanicamente do alma­naque e do devocionário católico.
     O olhar dos auditores e escrivães não era apenas o de policiais técnicos preocupados com a identificação de indivíduos. Pelo cuidado em destacar os altos e os espigados, homens e mulheres mais cobiçados para as tarefas domésticas e de representa­ção, tais como os servidores de mesa e os carregadores de cadeirinha, percebe-se claramente o olho de toda uma sociedade escravista, buscando em cada corpo as referências de uso e de abuso para a exploração do trabalho, para a ostentação de riqueza e para a exploração sexual.
     Toda esta arqueologia corporal deve ser tratada e decodificada. No entanto, nosso primeiro im­pulso foi o da reportagem histórica, iconográfica e descritiva, movida pela curiosidade de imaginar qual teria sido a fisionomia, a face e todos os ou­tros elementos reveladores da diversidade indivi­dual dos nossos antepassados, no momento em que desembarcavam neste porto de escravidão. É preciso ver nossos tetravôs não apenas agrupados em denominações étnicas impostas pelo tráfico, mas como indivíduos, de corpo e alma.

Ubiratan Castro de Araújo é professor-adjunto do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia e presidente da Fundação Cultural Palmares/Ministério da Cultura.

Saiba Mais: Bibliografia
CONRAD, Robert. Tumbeiros: o tráfico escravista para o Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1985.
LOVEJOY, Paul E. A escravidão na África: uma história e suas transformações. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

Saiba Mais: Link

Saiba Mais: Filme
Amistad
     O filme, baseado em fatos verídicos, inicia com uma turbulenta jornada marítima numa embarcação que é identificada como "La Amistad". Trata-se de um navio negreiro que sofre um enorme revés ao ver os prisioneiros se rebelarem e trucidarem grande parte da tripulação. Desconhecendo os caminhos marítimos pelos quais conseguiriam voltar para casa, os líderes da rebelião mantêm dois prisioneiros que devem levá-los de volta a África. São traídos e aportam na América do Norte.
     Aprisionados são levados a julgamento. Os sobreviventes da tripulação pleiteiam a posse da "mercadoria" humanas transportadas no Amistad, são contestados pela rainha da Espanha, que também quer se apropriar do conteúdo da embarcação (com base no fato de que o navio era de bandeira espanhola); além deles, também os oficiais norte-americanos que apreenderam o barco e controlaram o motim desejam a posse dos cativos para vendê-los.
     Contra eles se levantam abnegados defensores da liberdade humana, lutando contra a espoliação e a exploração características da escravidão. Capitaneados por Theodore Joadson (Morgan Freeman) e defendidos no tribunal pelo jovem e impetuoso advogado Roger Baldwin (Matthew McConaughey), os escravos liderados por Cinqué (Djimou Hounsou,) desafiam as leis e impingem um recomeço para a história republicana norte-americana. Contam, para isso, com o auxílio inestimável do ex-presidente John Quincy Addams (Anthony Hopkins).
Direção: Steven Spielberg
Ano: 1998
Áudio: Português
Duração: 154 minutos

Saiba Mais: Documentário
Pierre Verger: mensageiro entre dois mundos
     Documentário traz um importante trabalho de pesquisa realizado pelo diretor Lula Buarque e o roteirista Marcos Bernstein (Central do Brasil), que estiveram na África, na França e na Bahia em busca da trajetória do fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger.
Gilberto Gil é quem narra e apresenta Verger: Mensageiro entre Dois Mundos. O filme traz a última entrevista de Pierre Verger (filmada um dia antes de seu falecimento, em 11 de fevereiro de 1996), além de extenso material fotográfico, textos produzidos por Verger e depoimentos de amigos como o documentarista Jean Rouche (Musée de l´Homme, Paris), Jorge Amado, Zélia Gattai, Mãe Stella, Pai Agenor Maurice Baquet, Mestre Braga, Mestre Zé Carlos, Mestre Curió, Mestre João Grande, Mestre Neco, Mestre Pastinha, Mestre João Pequeno e o historiador Cid Teixeira.
     A tão famosa ponte criada por Verger entre a cultura negra na Bahia e na África, rompida desde os anos 40, é reestabelecida no filme quando Gilberto Gil refaz o papel de Mensageiro e percorre os mesmos caminhos do fotógrafo.
     Outra descoberta de Verger apresentada no filme, são os descendentes da única colonização feita por brasileiros: os "Agouda", africanos, habitantes do Benin e da Nigéria, que ainda hoje cultivam influências brasileiras trazidas por ex-escravos que retornaram do Brasil ao continente africano.
Direção: Lula Buarque de Hollanda
Ano: 1998
Áudio: Português/Legendado
Duração: 83 minutos

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