Tudo que eu sei... Só sei por que amo (Leon Tolstoy – Guerra e Paz)

domingo, 25 de março de 2012

Brasil Colônia-Economia, Sociedade/Complemento.

À margem da plantation
     O sistema de plantation não representou a única forma de organização econômica existente na América
portuguesa. Outros produtos, tais como o algodão e o tabaco, foram cultivados em pequenas unidades de
exploração, com vantagens econômicas para os colonos. Mesmo a cana-de-açúcar, quando plantada para a
produção da rapadura e da cachaça, adaptou-se a esse modelo de exploração, que exigia pouco investimento.
     O algodão já era um produto conhecido pelos indígenas, que utilizavam seus fios para tecer redes. No início do período colonial, o cultivo de algodão destinava-se ao consumo interno, principalmente à manufatura de tecidos para as vestimentas dos escravos. A partir da segunda metade do século XVIII, o algodão passou a ser exportado em grandes quantidades. Isso ocorreu devido ao aumento do preço do produto no mercado internacional e à guerra de independência dos Estados Unidos. As colônias norte-americanas eram as maiores produtoras de algodão e com a instabilidade gerada pela guerra, suas exportações caíram sensivelmente. Já no início do século XIX, os Estados Unidos retomaram sua produção, o que ocasionou uma grande queda nas exportações da América portuguesa.
     O tabaco é uma planta nativa da América e, além de ser consumido na colônia, era destinado aos mercados europeus, nos quais o número de consumidores era crescente. Algumas propriedades produziam o tabaco para que servisse como "moeda" na compra de escravos na África. A principal área produtora era o litoral baiano.
     Os negócios nos mercados locais mobilizavam produtores e mercadores. Comercializavam-se alimentos produzidos na região e produtos importados (com fornecimento irregular e preços bastante elevados). Dentre os produtos produzidos na colônia, destacaram-se a farinha de mandioca, de milho e de trigo, feijão, açúcar, rapadura, aguardente, toucinho, charque e carne fresca, fumo, couro, peixe seco e fresco. Dentre os produtos importados, os de maior procura eram vinagre, azeite, vinho, bacalhau, azeitonas, pimenta-do-reino, especiarias, tecidos finos, linhas, agulhas para costura, papel, pena e tinta para escrever,
anzóis e linhas para pesca, pratos, jarros, vasilhas, panelas, tachos e vasos para uso doméstico, pregos, cobre e ferramentas, caixas, cordas e o sal.

Brasil colonial: feudalismo ou capitalismo? Duas visões.
Durante muito tempo, os estudiosos do passado colonial do Brasil travaram intensos debates a respeito de instituições políticas, regimes de trabalho e outros temas relacionados à vida na colônia. As capitanias hereditárias foram um dos assuntos que geraram polêmica entre os estudiosos. Enquanto alguns compreendiam suas características como feudais, outros viam as capitanias como meio de enriquecer, de obter lucro, ou seja, inseridas num contexto capitalista.
I
     "Sob o ponto de vista econômico, [...] não me parece razoável a assemelhação desse sistema ao feudalismo [...]. Por mais que estudemos os elementos históricos, não podemos concluir que o regime das donatarias apresente pronunciada semelhança com o da economia medieval. Em primeiro lugar todos procuravam a nova terra em busca da fortuna; todos visavam a melhorar sua situação econômica. O fito do lucro era a causa primordial da vinda para o Brasil. [...] Os donatários não eram mais do que exploradores em grande escala. As concessões dadas pelo rei a esses homens eram o meio de os estimular, facilitando o empreendimento. [...]
     Assim como hoje se concede a certas empresas a isenção de impostos, [...] o rei de Portugal concedeu uma série de favores àqueles que com seus capitais e seus serviços podiam incrementar a colonização das terras recém-descobertas [...].
     Na verdade, Portugal, em 1500, já não vivia sob o regime feudal. D. Manuel, com sua política de navegação, com seu regime de monopólios internacionais, com suas manobras econômicas de desbancamento do comércio de especiarias em Veneza, é um autêntico capitalista. Os seus 'vassalos' não ficam atrás."
(SIMONSEN, Roberto. História econômica do Brasil: 1500/1822. 8. ed. São Paulo: Nacional, 1978.)

II
     "O regime das capitanias foi em princípio caracteristicamente feudal. Não gozavam os donatários de nenhum direito sobre a terra, vedando-lhes mesmo expressamente os forais a posse de mais de dez léguas (1 légua equivale aproximadamente 6.600 metros) de terra. E mesmo estas dez léguas deviam ser separadas em várias porções. Cabia-lhes, contudo um direito eminente, quase soberano, sobre todo o território da capitania, e que se expressava por vários tributos [...].
     Este ensaio de feudalismo não vingou. Decaiu com o sistema de colonização que o engendrara, e com ele desapareceu sem deixar traço algum de relevo na formação histórica do Brasil. [...]"
(PRADO JÚNIOR, Caio. Evolução política do Brasil: colônia e império. 20. ed. São Paulo: Brasiliense, 1993.)

As várias faces da família colonial
     Normalmente, a sociedade colonial tem sido caracterizada, quer nos "domínios rurais", quer nos "domínios urbanos", como patriarcal. De acordo com esse modelo, a família colonial brasileira apresentava um núcleo central composto do chefe da família, sua mulher, seus filhos e netos por linha materna ou paterna, além de um núcleo de membros considerados secundários, formado por filhos ilegítimos ou de criação, parentes, afilhados, serviçais, amigos, agregados e escravos.
     O patriarca, na liderança dos dois núcleos, cuidava dos negócios e mantinha a linhagem e a honra familiar, procurando exercer sua autoridade sobre a mulher, os filhos e demais dependentes sob sua influência.
     Com frequência, o filho mais velho herdava o patrimônio, enquanto seus irmãos eram encaminhados aos estudos para se tornar bacharéis em Direito, médicos ou padres.
     Ligados ainda à família patriarcal ou sob sua influência, por razões econômicas, políticas ou laços de compadrio(1), estavam os vizinhos: sitiantes, lavradores, gente que mantinha laços de dependência e solidariedade.
     Esse modelo é verdadeiro. Todavia, pesquisas evidenciam que não houve um modelo único de família
na América portuguesa. Ela variou de acordo com as heranças culturais, com a região e com a condição social e jurídica de seus componentes.
     No Nordeste açucareiro, entre os grandes proprietários de terras, predominou a família extensa, verdadeiro centro de poder econômico e político local. Dela faziam parte os parentes de sangue, os parentes simbólicos (padrinhos, compadres e afilhados), os agregados ou protegidos e até escravos.

(1) Compadrio: Relações entre compadres, isto é, entre o pai de uma criança e seu padrinho de batismo ou de crisma, o qual se compromete a ampará-la caso os genitores não possam mais fazê-la. O compadrio criava laços simbólicos de parentesco entre o indivíduo escolhido para padrinho, em geral alguém dotado de poder e prestígio, e a família do afilhado.

Mulheres bandeirantes
     "Boas esposas e mães de família, quase sempre recolhidas aos seus lares. 'Recatadas' e 'austeras', nas poucas vezes que saíam à rua cobriam-se totalmente com mantos de baeta - um tecido de lã grosseiro e tingido de cor escura -, o que lhes rendeu o apelido de 'mulheres tapadas'. Essa era a imagem estereotipada das mulheres paulistas do período colonial que muitos historiadores repetiram em suas obras durante muito tempo. Era quase um consenso entre eles que, quando as moças se casavam, passavam do poder paterno para o do marido, a quem seriam submissas pelo resto da vida. Limitavam-se a costurar, lavar, bordar, fazer rendas, mandar nas escravas, rezar e, é claro, parir e criar muitos filhos, um após o outro. [...] Assim, durante muito tempo as mulheres do período bandeirista – séculos XVI e XVII - foram vistas como figurantes da história. Enquanto os maridos e filhos cuidavam dos negócios comerciais ou seguiam, sertões adentro, à caça de indígenas e à procura de ouro nas bandeiras, elas simplesmente cuidavam das coisas do lar. [...] Pesquisas recentes têm demonstrado outra realidade, muito diferente da tradicional. [...] Muitas famílias criavam, graças ao trabalho escravo, porcos, bois, vacas, cavalos, frangos, geralmente para o abate. Também tinham plantações e pomares. Trigo, cana, milho, mandioca, feijão, algodão, vindimas, marmeleiros, macieiras, tudo isso era comum ao universo dos paulistas. Todo mês, praticamente, desciam a Serra do Mar até a região santista caravanas de comerciantes, com seus carregadores indígenas cheios de gêneros às costas. [...] Gerenciar o lar, portanto, extrapolava administrar simplesmente a casa e passava por controlar todo um cotidiano produtivo nas propriedades, assim como toda a escravaria.
     Eram tarefas que as esposas realizavam ao lado dos maridos, ou mesmo sozinhas, quando eles se ausentavam por longos períodos, nas bandeiras. [...] Era desejável, portanto, que elas soubessem administrar e tomar decisões importantes, pois ficavam investidas de poder para representar seus maridos em pendengas judiciais, casar e dotar(2) filhos. [...] Nessas ocasiões, elas firmavam matrimônios que implicavam criar ou aprofundar alianças com outras famílias de destaque na vila, o que poderia lhes trazer muitas vantagens políticas e facilitar a sobrevivência. Também podiam ampliar relações comerciais, diversificar a produção doméstica, quitar dívidas ou fazer empréstimos, adquirir mais escravos, enfim, agir como seus maridos agiriam se estivessem em casa. [...] Embora careça de mais estudos, o papel das mulheres no período das bandeiras paulistas era multifacetado e surpreendente. [...] Resgatar a valentia e a determinação que existiram ao lado da docilidade e obediência concede a elas a garantia de sua presença na história paulista.”
(DIAS, Madalena Marques. As bravas mulheres do bandeirismo paulista. Revista História Viva, ed.14, dez. 2004. Disponível em: www2.uol.com.br/historiaviva.)
(2) Dotar: Conceder o dote a alguém.
Dote: Bens que são transferidos ao marido, geralmente por alguém da família da esposa, por ocasião do casamento.

Sexo frágil?
     A ideia do marido dominador e da mulher submissa aparece nos registros históricos e nos romances
ambientados no período colonial. Sem dúvida, muitas mulheres foram enclausuradas, espancadas e perseguidas por seus maridos e pais. Em contrapartida, várias reagiram às violências que sofriam. Pelos relatos ou evidências da época percebe-se que, de um lado, parte da população feminina livre esteve sob o poder dos homens, enquanto outra parte acabou desenvolvendo uma maneira própria de viver, criando cumplicidades ou alianças capazes de desordenar ou suavizar os obstáculos que encontravam na sociedade.
     Numa época em que o conhecimento científico era privilégio de poucos, as práticas "mágicas", que chegavam a causar temor entre os homens, foram uma das maneiras pelas quais as mulheres enfrentaram as contrariedades do cotidiano.
     "[...] Além de filtros, poções e beberagens, as mulheres usavam de 'cartas de tocar', às quais atribuíam o poder de conquistar todas as pessoas que por elas fossem tocadas. Faziam, ainda, variadas orações, invocando santos, diabos, almas ou forças naturais. Entre as mais belas, encontramos [...] 'João eu te encanto e reencanto com o lenho da vera cruz, e com os anjos filósofos que são trinta e seis, e com o mouro encantador, que tu te não apartes de mim, e me digas quanto souberes, e me dês quanto tiveres, e me ames, mais que todas as mulheres' [...]”
(VAINFAS, Ronaldo. Trópico dos pecados: moral, sexualidade e inquisição no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Campus, 1989.)
     Percebe-se, portanto, que nem sempre as mulheres foram dóceis, submissas e enclausuradas: nas relações homem-mulher, o comportamento feminino muitas vezes divergiu do estereótipo imposto pela história tradicional.

O mito do bandeirante
     Os sertanistas paulistas eram homens comuns, portugueses ou mestiços. Distantes dos privilégios da Coroa, organizaram-se por conta própria. Na primeira metade do século XX, vários historiadores tentaram fazer desses rudes sertanistas heróis nacionais.
     No caso do bandeirante, suposto ancestral das elites modernas e progressistas de São Paulo, cria-se a imagem de um ser dotado de força, determinação e independência, que não obedecia a reis ou papas em busca de seus "ideais". Em obras de divulgação [...] as características físicas destes bandeirantes não se assemelham à de nenhum homem mas a heróis; criou-se a imagem idealizada de homem forte, corpulento, sábio e com um ar de profeta bíblico. Esta adjetivação atribui-lhe sabedoria e conhecimento fora da alçada dos homens comuns. Já no século XVIII autores [...] criam o mito do bandeirante como desbravador e descobridor de novas terras, e o paulista como um povo no qual sempre foi predominante a paixão por conquistar. [...]
     [...] Já no século XX a memória bandeirante serve para justificar a predominância econômica de São Paulo, que herda de seus antepassados o espírito de iniciativa, a valentia e o arrojo. Com a alma bandeirante o paulista construía o seu progresso e o [...] do Brasil [...],puxando o desenvolvimento dos outros estados, qual uma locomotiva [...]. Isto lhe dava o direito de exercer, sobre eles, sua liderança.
(TORRÃO FILHO, Amílcar. A sétima porta da cidade: memória, esquecimento e ressentimento na história de São Paulo. Disponível em: <www.hístoriaperspectivas.inhis.ufu.br>.)

As festas no Brasil holandês
     “A ocupação de Pernambuco pelos holandeses de 1630 a 1654 [...] criou uma realidade econômico-social tão peculiar dentro do panorama do Brasil colonial que levou os historiadores a não temerem a contradição entre termos ao cunhar a expressão 'Brasil holandês'.
     Do ponto de vista do processo de criação de cultura urbana, no entanto, o que a pesquisa revela é o fato de que, pelo menos no que se refere a festas de que restaram informações históricas, nada foi mais brasileiro - no sentido de luso-africano - do que aquelas efusões coletivas do tal Brasil holandês. [...] Os representantes da Companhia das índias Ocidentais, interessados apenas na exportação do açúcar, 'enquistaram-se' em suas casas de comércio no Recife. [...]
     No que se refere aos negros africanos e crioulos, a prova documental da prática de sua música e folguedos aparece principalmente em gravuras e telas de Frans Post. Nesta, especialmente, figuram no traço de Frans Post - em verdadeiro flagrante da vida do dia a dia - grupos de negros a dançar ao som de pandeiros, de braços erguidos, diante da senzala coberta de palha, vizinha da casa-grande de um engenho. [...]
     Como aos ouvidos dos estrangeiros em geral os sons dos tambores dos negros eram interpretados sempre como música de dança, o desenho de um soldado alemão, Zacharias Wagener, chegado a Pernambuco em 1636 (a partir de 1637, promovido a escrivão do palácio de Nassau), reproduzia sob o título de 'Negertanz' não a dança de negros que o autor pensava ver, mas a primeira cena de ritual negro-africano fixada ao vivo no Brasil. [...]
     Assim, durante quase um quarto de século do chamado Brasil holandês, em matéria de festividades públicas a única contribuição original dos dominadores terá sido a festa-espetáculo do chamado Boi Voador. Um espetáculo idealizado, por sinal, pelo próprio príncipe Maurício de Nassau, com o objetivo muito prático e rasteiro de arrecadar dinheiro. Segundo conta frei Manoel Calado no primeiro volume de seu O valeroso Lucideno, Nassau mandou anunciar por toda a cidade que no domingo 28 de fevereiro de 1644 - dia da inauguração da ponte sobre o Rio Capibaribe, que fizera concluir com recursos pessoais, e que agora pretendia recuperar cobrando pedágio - quem comparecesse à festa veria um boi voar. A ideia de Nassau era simples: como havia na cidade do Recife um boi conhecido por sua mansidão, [...] mandaria encher de palha o couro de um boi de cor semelhante e, no dia da festa, após exibir (e depois esconder) o verdadeiro, faria o falso deslizar ante os olhos de todos por uma corda estendida do alto de seu jardim até o outro lado da rua. E tal como planejado, assim aconteceu.”
(TINHORÃO, José Ramos. As festas no Brasil colonial. São Paulo: Editora 34, 2000.)

O barroco no Brasil
     O estilo barroco, predominante na Europa, havia sido reproduzido por diversos artistas, que recebiam os ensinamentos de mestres em oficinas de talha e escultura espalhadas pelas cidades da colônia.
     O barroco também influenciou as obras dos artistas de Minas Gerais, mas foram reelaboradas com materiais existentes no Brasil, como a pedra-sabão.
     A principal expressão artística do Brasil no século XVIII foi a obra de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.
     Os dados de sua vida não são bem conhecidos. Consta que nasceu em Vila Rica, filho de um arquiteto
português e de sua escrava, nascida na África. Era, portanto, um mestiço. Teria nascido em 1730 e falecido em 1814.
     Aleijadinho foi vítima de uma doença que lhe consumia os dedos dos pés e das mãos. Foi escultor, entalhador e arquiteto. Projetou a igreja de São Francisco de Assis, de Vila Rica (atual Ouro Preto), mas sua obra mais conhecida é o conjunto de estátuas dos doze profetas de Congonhas do Campo, em Minas Gerais, todas em pedra-sabão.
     Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim, outro artista de porte e da mesma época, também natural de Minas Gerais e mestiço, foi o idealizador e criador do Passeio Público do Rio de Janeiro, de diversos chafarizes em ferro fundido e de imagens sacras. Assim como Aleijadinho e muitos outros, suas origens não são conhecidas. Presume-se que tenha nascido em Serro do Frio, em Minas Gerais, em torno de 1745, e falecido no Rio de Janeiro, em 1813.

O contratador de diamantes e Chica da Silva
     Entre as personagens históricas do Brasil colonial, uma que se tornou famosa é Chica da Silva. Chica era
escrava e tinha entre 18 e 22 anos quando o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira a comprou de seu antigo dono e a libertou.
     João Fernandes e Chica da Silva viveram em concubinato por 16 anos. Um relacionamento estável, que resultou em treze filhos. João Fernandes reconheceu - legitimou - todos os filhos, prática comum na época, mas não se casou com Chica da Silva.
     A única maneira de mulheres negras ou mulatas conseguirem ascender socialmente era através do concubinato. Como no Distrito Diamantino havia poucas mulheres brancas em relação ao número de homens, e os casamentos inter-raciais eram proibidos, a possibilidade de concubinato era grande.
     Chica da Silva era proprietária de um grande sobrado, tinha roupas finas, joias e numerosos escravos. Adquiriu importância social na fechada sociedade de Diamantina graças ao seu relacionamento estável com o homem mais poderoso do Distrito Diamantino.
      A personagem entrou para o imaginário nacional por meio de um filme dirigido por Cacá Diegues em 1976, Xica da Silva, estrelado por Zezé Motta. Entre 1996 e 1997 foi levada ao ar a novela Xica da Silva. Produzida pela extinta TV Manchete, o papel principal foi protagonizado por Taís Araújo. Tanto o filme como a novela retrataram Chica como uma mulher sensual, de imenso apetite sexual e perversidade equivalente.
Desconstruindo o mito
     Com base em inúmeras pesquisas, a historiadora Júnia Furtado desconstruiu essa imagem. No livro Chica da Silva e o contratador de diamantes: o outro lado do mito (São Paulo: Cia. das Letras, 2003), a historiadora afirma que Chica não foi muito diferente de outras negras libertas de sua época. Não era uma devoradora de homens, tampouco uma mulher perversa. Também não foi uma heroína da causa negra, como defendem alguns. Chica da Silva teve muitos escravos e não alforriou nenhum.
     A alforria e o concubinato com o contratador de diamantes foram formas de Chica da Silva incorporar valores da elite branca e possibilitar sua inserção, assim como a de seus descendentes, na sociedade mineradora.
     O casal Chica da Silva e João Fernandes deu educação formal a todos os filhos. João Fernandes teve de voltar a Portugal em 1770, mas manteve contato e deu apoio a todos os filhos, concedendo dotes às filhas que casaram com pessoas da elite. Chica morreu em 1796, recebendo cortejo fúnebre como pessoa de importância.

As Minas Gerais depois do ouro: decadência ou diversificação?
     Ouro e diamantes foram os principais gêneros extraídos da região da América portuguesa, que, aliás, desde fins do século XVII, ficou devendo à mineração seu nome e sua própria razão de ser. No entanto, jamais a economia das Minas Gerais se limitou, de maneira exclusiva, a tais gêneros, precisando contar com escravos, serviços, alimentos, produtos manufaturados diversos etc.
    Por um lado, durante muito tempo, alguns especialistas sustentaram que o declínio da atividade mineradora, observada a partir da década de 1760 e em curso até as primeiras décadas do século XIX, significou uma decadência geral das Minas Gerais; por outro, em estudos recentes, alguns historiadores têm mostrado que houve uma grande diversificação das atividades econômicas na região, mesmo após 1760.
I
     "O quadro desta área mineira, ao apontar do século XIX, revelava-se desolador. Superada a 'febre' do ouro, a economia estagnara-se e ocorria franca recessão populacional. Nos arredores de Vila Rica descortinavam-se campos desertos, sem lavouras ou rebanhos. Dos morros, esgaravatados até a rocha, havia-se eliminado a vida vegetal; neles restavam montes de cascalhos e casas, a maioria destas em ruínas. [...] A atividade manufatureira, proibida durante largo espaço de tempo, revelava-se tímida. Existiam na Vila e suas proximidades tão-somente a manufatura de pólvora, pertencente ao governo, e uma fábrica de louça, estabelecida a pequena distância de Vila Rica [...]. Por outro lado, a lavoura - atividade a ressurgir - não se desenvolveu, em decorrência, ao que parece, do despreparo e da mentalidade do colonizador."
(LUNA, Francisco Vidal; COSTA, Iraci Dei Nero da. Minas colonial: economia e sociedade. São Paulo: Estudos Econômicos-FIPE/Pioneira, 1982.)

II
     "O objetivo deste trabalho é discutir o caráter e a forma de funcionamento da economia mineira no período de 1750 a 1850 que compreende três distintas etapas da economia mineira: um primeiro subperíodo de auge minerador (1750-1770); uma segunda fase de acomodação evolutiva (1780-1810), quando então a economia da região sofreu um processo de diversificação da produção com tendências para a autossuficiência; e finalmente um último subperíodo (1820-1850), caracterizado pela consolidação da economia mercantil de subsistência [...] Quando o ouro de fácil extração se esgotava, não adiantava deixar a terra em descanso para, anos mais tarde, retomar a produzir. Só restava ao minerador abandonar aquela terra ou usá-la para outros fins, para a produção agropecuária, por exemplo, que muitas vezes já era desenvolvida paralelamente à atividade extrativa."
(ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Dinâmica produtiva em Minas Gerais. O sistema econômico em funcionamento no termo de Mariana, 1750-1850. In: Revista Eletrônica de História do Brasil. n. 2, 2004. v. 6 p. 58-71.)

Fonte:
História, ensino médio. Organizadores: Fausto Henrique Gomes Nogueira, Marcos Alexandre Capellari. - 1. ed. - São Paulo: Edições SM,2010. - (Coleção ser protagonista)
Conexões com a História / Alexandre Alves, Letícia Fagundes de Oliveira. - 1.ed. - São Paulo. Moderna, 2010.
História: das cavernas ao terceiro Milênio /Patrícia Ramos Braick. Myriam Becho Mata. 2. ed. - São Paulo: Moderna, 2010.
História: das sociedades sem Estado às monarquias absolutistas, volume 1 /Ronaldo Vainfas... [et al.] - São Paulo: Saraiva, 2010.

Filmes:
A Missão
     Composto de astros do porte de Robert de Niro, Jeremy Irons e Liam Neeson, A Missão retrata a guerra estabelecida por portugueses e espanhóis contra jesuítas que catequisavam os índios de Sete Povos das Missões, na América do Sul no século XVIII.
     Durante o século XVIII o movimento missionário enfrentou problemas na América do Sul, em áreas de litígio entre o colonialismo espanhol e português. No sul do Brasil, a população indígena dos Sete Povos das Missões, foi submetida pelo Tratado de Madrid (1750), um dos principais "tratados de limites" assinados por Portugal e Espanha para definir as áreas colonizadas.
Pelo Tratado de Madrid, ficava estabelecida a transferência dos nativos para margem ocidental do rio Uruguai, o que representaria para os guaranis a destruição do trabalho de muitas gerações e a deportação de mais de 30 mil pessoas. A decisão foi tomada em comum acordo entre Portugal, Espanha e a própria Igreja Católica, que enviou emissários para impor a obediência aos nativos. Os jesuítas ficaram numa situação delicadíssima, pois se apoiassem os indígenas seriam considerados rebeldes, e se contrário, perderiam a confiança deles. Alguns permaneceram ao lado da coroa, mas outros, como o padre Lourenço Balda da missão de São Miguel, deram todo apoio aos nativos, organizando a resistência desses índios à ocupação de suas terras e à escravização. Dá-se o nome de "Guerras Guaraníticas" para esse verdadeiro massacre dos nativos e seus amigos jesuítas por soldados de Portugal e Espanha. Apesar da absurda inferioridade militar, a resistência indígena estendeu-se até 1767, graças as táticas desenvolvidas e as lideranças de Sépé Tirayu e Nicolau Languiru.
     No final do século XVIII, os índios já tinham sido dispersados, escravizados, ou ainda estavam refugiados, na tentativa de restabelecer a vida tribal, que os caracterizava antes das missões.
Direção: Roland Joffé
Ano: 1986
Áudio: Português
Duração: 125 minutos

O Judeu
     O filme é baseado na história real de Antônio José da Silva, poeta e o mais célebre autor de teatro de Portugal do século 18, que ficou conhecido como “O Judeu”, nascido no Brasil, de origem judaica. Torturado aos 20 anos pela Inquisição por crime de judaísmo, Antônio José da Silva redescobre o sentido da vida graças ao teatro de marionetes. Casa com Leonor de Carvalho, cristã-nova como ele, e frequenta os salões aristocráticos dos Estrangeirados (Iluministas) que o apoiam. Uma denúncia de heresia contra sua prima Brites Eugênia e o espírito irreverente das comédias desse Molière português, o conduzem mais uma vez aos cárceres do Santo Ofício junto com a mãe, Lourença Coutinho e a mulher. Secretário do Rei, D. João V, o brasileiro Alexandre de Gusmão, tenta libertá-lo, enquanto seu inquisidor, o jovem dominicano D. Marcos, sofre dúvidas de consciência sobre a legitimidade do processo inquisitorial. Lourença e Leonor são torturadas. Mas, no jogo de pressões, que opõe o Rei ao Inquisidor Geral, D. Nuno de Athayde e Mello, um outro destino é reservado ao poeta: o martírio pelo fogo, que fez dele um dos mitos da história de Portugal e do Brasil.
Direção: Jom Tob Azulay
Ano: 1996
Áudio: Português
Duração: 90 minutos

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