“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

O amargo avanço da doçura

No rastro da disseminação de uma única planta, transformaram-se sociedades, paisagens e culturas.
     Com as campanhas de Alexandre Magno na Índia, e o retorno de alguns dos seus participantes, começaram a chegar à Europa notícias sobre a existência, no Oriente, de “uma espécie de bambu que produzia mel sem intervenção das abelhas, servindo também para preparar uma bebida inebriante”, nas palavras do historiador português Henrique Parreira.
     Era por volta de 327 a.C., e aquelas notícias inscreviam-se em um dos movimentos mais fascinantes da história da humanidade: a disseminação, entre os diferentes povos e regiões, da grande diversidade de plantas e animais existente nas diferentes regiões do planeta. A cana-de-açúcar se tornaria uma das protagonistas deste fenômeno. Até então desconhecida dos europeus, foi descrita a partir de elementos do mundo natural que eles então conheciam. Ela se parecia fisicamente com os bambus e produzia um líquido doce comparável ao mel.
     As primeiras notícias sobre a utilização da cana no Ocidente não mencionavam o açúcar. A extração do caldo da cana, assim como seu emprego para produzir “bebidas inebriantes”, marcou o início da sua presença nas sociedades humanas. Segundo pesquisas recentes, a Saccharum officinarum, espécie de cana dominante no mundo, é uma gramínea originária da região onde hoje se encontra a Papua Nova Guiné, na zona tropical do Oceano Pacífico, onde deve ter sido domesticada por populações tribais há mais de 7 mil anos. Não se sabe com precisão como se propagou na direção da Índia e da China, mas por volta do século IV a.C. ela era cultivada nessas regiões, inclusive com a manufatura do açúcar em escala reduzida. No século III a.C., fabricava-se na China, a partir da cana, um produto sugestivamente identificado pelos ideogramas “pedra” e “mel”.
     O primeiro grande impulso para transformar a cana-de-açúcar em um dos ícones do mundo moderno foi a sua disseminação para a Bacia Mediterrânica, a partir do século X. O movimento ocorreu através dos circuitos que conectavam a expansão árabe entre a Índia e a Europa. O açúcar da cana passou a ser produzido no norte da África, no sul da Península Ibérica e no sul da Itália. Era um mercado de escala reduzida, mas com ganhos significativos, voltado para o ornamento culinário dos muito ricos e para algumas práticas medicinais.
     A partir do século XV acontece um segundo impulso inovador, que ampliará enormemente o volume da produção e o alcance social do seu consumo.  De tal forma que no século XIX o açúcar já seria artigo de primeira necessidade para os trabalhadores e a classe média dos países em processo de urbanização e industrialização – um consumo frequentemente associado à difusão do café, do chá e do chocolate, que o antropólogo norte-americano Marshall Sahlins chamou de “drogas suaves” da modernidade.
     A indústria açucareira do Atlântico será responsável pela invenção da primeira commodity agrícola, ou seja, um produto cuja escala de produção e a cotação dos preços são definidas pelo mercado global. Para entender o desenvolvimento dessa nova etapa, é preciso considerar as características biológicas da planta e as especificidades físicas do produto. A ecologia original da cana-de-açúcar é profundamente tropical, o que delimitou sua difusão geográfica. O clima quente do Mediterrâneo até aceitou a aclimatação da cana, mas de forma limitada. Os colonizadores portugueses, em seu pragmatismo estratégico, aprenderam algumas lições sobre as restrições ecológicas de novos cultivos. Foi o caso, por exemplo, do fracasso da introdução do trigo, que exige uma espécie de clima temperado, no Nordeste do Brasil. Com o tempo, eles se especializaram em introduzir nas colônias atlânticas espécies originárias dos trópicos asiáticos e africanos. O pleno florescimento da produtividade da planta ocorreu quando ela foi levada para ilhas como a Madeira e as Canárias e, depois, com muito maior intensidade, ao Brasil e ao Caribe.
    A aceleração da produção de açúcar nas regiões de floresta tropical do “novo mundo” também está relacionada com um impacto social de enorme alcance: foi o principal estímulo para a construção do escravismo moderno. Foi nos territórios da América tropical que o modelo de produção de monoculturas e trabalho escravo gerou o maior impacto na ecologia das paisagens. Desde o início da agricultura, especialmente no contexto das civilizações complexas surgidas nos últimos 7 mil anos, o desflorestamento global concentrou-se nas florestas temperadas do hemisfério norte. O desmatamento tropical é um fenômeno moderno, que atingiu o seu auge no século XX. O Brasil e algumas ilhas do Caribe, como Cuba e Jamaica, tornaram-se os símbolos do desmatamento provocado pela cana. Mas ele se alastrou para várias outras regiões, como as Ilhas Maurício, Indonésia, Filipinas, Havaí e Fiji.
     Em seu livro Nordeste, de 1937, Gilberto Freyre apresentou a entrada da cana na região como “um conquistador em terra inimiga, matando as árvores, secando o mato, afugentando e destruindo os animais e até os índios, querendo para si toda a força da terra”. Mais de dois séculos antes, em 1711, o jesuíta Antonil já havia descrito a fórmula sintética do canavial como um impiedoso conquistador ecológico – “feita a escolha da melhor terra para a cana, roça-se, queima-se e alimpa-se, tirando-lhe tudo o que podia servir de embaraço”. A floresta tropical, com toda a sua diversidade, aos olhos dos produtores, representava apenas um “embaraço” para o avanço da cana. 
    É importante não sermos anacrônicos no julgamento dos agentes do desflorestamento tropical na formação do mundo moderno. Naquele contexto cultural e ecológico, no qual as matas pareciam infindas, eles fizeram uso dos fatores de produção com os quais contavam, montando um sistema bastante eficaz.  No Brasil, as variedades de cana introduzidas de fora estavam livres das doenças e dos parasitas que as atacavam em seus lugares de origem. Os solos da região, especialmente o massapé, revelaram-se propícios. A chuva abundante e contínua dispensava a necessidade de irrigação. As cinzas da biomassa queimada da Mata Atlântica fertilizavam o solo, dispensando a adubação. O esgotamento dos solos, após alguns anos de uso, era enfrentado com novas queimadas e com o avanço da fronteira econômica.
     E o impacto nas florestas não se devia apenas à abertura de terras para o plantio. Para cada quilo de açúcar produzido, cerca de 15 quilos de lenha eram queimados nas fornalhas que alimentavam os enormes caldeirões onde o caldo da cana era cristalizado. Para purgar o açúcar nas moendas, utilizava-se cinza de madeira, em muitos lugares retirada dos manguezais. O conjunto da infraestrutura estava calcado na madeira ou em materiais cuja produção requeria o uso de lenha em fornalhas – como tijolos, telhas e cal.  Das árvores tropicais provinham até as caixas onde o açúcar era acondicionado para exportação.
     No outro extremo da cadeia econômica, o açúcar transformava a ecologia do consumo. No mundo pré-moderno, a culinária pouco utilizava o sabor adocicado – era pontual o uso de mel, de sorgo doce, de frutas etc. O açúcar foi uma revolução. Por ser fácil de armazenar e transportar, além de adoçar sem modificar muito o sabor da comida, tornou-se o adoçante quase hegemônico. Apenas o açúcar de beterraba possui propriedades físicas semelhantes. Mas, após crescer com força na produção europeia do século XIX, chegando a gerar 65% do açúcar consumido mundialmente em 1900, a beterraba perdeu fôlego no século XX diante do vigor resistente da velha cana tropical. Hoje representa não mais do que 30% do consumo total.
     Quais as consequências hoje do consumo global de mais de 160 milhões de toneladas de açúcar, contra apenas 8 milhões no início do século XX? Quais os efeitos sociais de um consumo médio anual de 23 quilos, em uma escala que vai de um mínimo de 8 quilos em Bangladesh para um máximo de 66 quilos em Israel?  Como avaliar o efeito da combinação do açúcar com as bebidas energéticas (como o café) que estimulam a atividade dos corpos humanos no ritmo de vida frenética da civilização urbano-industrial? Como equacionar o cortejo de delícias gustativas que o açúcar gerou, associado ao crescimento epidêmico da diabetes, das cáries dentárias e da obesidade?
     A sensação doce na boca tornou-se um dos traços culturais distintivos da globalização. Mas quem considerar todos os seus componentes históricos – incluindo os desflorestamentos, as escravidões e as chamadas “doenças da civilização” – não poderá deixar de notar um gosto amargo, por vezes demasiadamente amargo, do império da doçura.
José Augusto Pádua é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Um sopro de destruição: pensamento político e crítica ambiental no Brasil (1786-1888), (Zahar, 2002).
Saiba mais- Bibliografia
CARNEIRO, Henrique. Comida e Sociedade. Rio de Janeiro: Campus, 2003.
DEAN, Warren. A Ferro e Fogo: A História e a Destruição da Mata Atlântica Brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
FERLINI, Vera. Terra, Trabalho e Poder: O Mundo dos Engenhos no Nordeste Colonial.  Bauru: Edusc, 2003.
FREYRE, Gilberto. Nordeste: Aspectos da Influência da Cana sobre a Vida e a Paisagem do Nordeste do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985.

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