“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Pisando no "sexo frágil"

Ainda na passagem para o século XX, as mulheres eram alvo de descrédito em suas lutas pela emancipação. Depois de tanto lutar, elas hoje ocupam 41 % do mercado de trabalho.
Rachel Soihet
      Nas últimas décadas do século XIX, a Revista Ilustrada, comandada por Ângelo Agostini, era uma das publica­ções mais importantes do país. Com grande aceitação popular, publicava artigos bem-humorados e irônicos que defendiam posições po­líticas avançadas para a época, contra a escravidão e o conservadorismo do governo imperial. Mas, co­mo se pode ler num de seus editoriais, intitulado "Com as damas", de 1886, a situação da mulher e sua reivindicação por maior participação na socie­dade não eram vistas com bons olhos, merecendo até mesmo tratamento caricato:
     "Não será da nossa parte que as legítimas aspira­ções do sexo gentil, da mais simpática e apreciável metade do gênero, encontrarão qualquer embaraço, por mais insignificante que seja, à sua justa expansão. Confiamos muito no bom senso e na inteligência ser­vida pela educação para recear que as mães, as irmãs e as esposas, abandonando a serenidade dos lares, se atirem à política e aos meetings, obrigando-nos a velar pela cozinha e pelos recém-nascidos. Não! A mu­lher manter-se-á na órbita que lhe convém e, se algu­ma exceção houver, estamos certos que esse papel fi­cara reservado às sogras."
     A emancipação feminina era vista pelos mais di­versos setores sociais e tendências políticas co­mo grave ameaça à or­dem estabelecida, e o predomínio masculino encontrava legitimidade até no pensamento cien­tífico da época. A filosofia considerava que a infe­rioridade da razão entre as mulheres era fato incontestável, cabendo a elas apenas cultivá-la na medida necessária ao cumprimento de seus deve­res naturais: obedecer ao marido e cuidar dos fi­lhos. A medicina do século XIX afirmava que a fra­gilidade, o recato e o predomínio das faculdades afetivas sobre as intelectuais eram características biologicamente femininas, assim como a subordi­nação da sexualidade ao instinto maternal. Em oposição, o homem somaria à sua força física uma natureza autoritária, empreendedora, racional, e uma sexualidade sem freios.
     O recurso da ironia e da comédia foi um pode­roso instrumento para desmoralizar a luta pela emancipação feminina e reforçar o mito da inferioridade e passividade da mulher.
Numa crônica maliciosamente intitulada "Emancipada" (revista Careta, Rio de Janeiro, 20/2/1909), depois de ressaltar de forma grotes­ca a inversão dos papéis naturais de cada sexo, faz-se quase um alerta lançando mão de um desfecho trá­gico: os homens teriam de "velar pe­la cozinha e pelos recém-nascidos". Madame Linhares, após um longo dia no escritório, encontra a casa em polvorosa: "Os meninos ainda não haviam jantado (...) por­que o Cazuza Linhares não havia acertado com o meio de fazer a sopa e o assado." O Cazuza, que fi­cara em casa tomando conta dos filhos, presta con­tas à esposa de suas dificuldades, informando que já vinha há três horas tentando sem sucesso prepa­rar o jantar. O diálogo que se segue acentua a sub­serviência do marido e o autoritarismo da mulher. Era a inversão do quadro habitual, o horror que ameaçava as famílias de bem:
-   Tambêm você para nada presta.
-   Mas, Milu, se eu nunca aprendi a fazer isso...
-   E o que foi que aprendeu, não me dirá? O se­nhor é um imprestável.
-   Mas Milu...
-   Cale-se homem, cale-se! (...) Irra! Molenga! Banana! Pastelão!
-   Eu só queria ver você na cozinha...
-   Sim? Queria? Pois esse gosto não há de ter, meu caro. Então eu, uma mulher superior, vou lá me ocupar com esses cuidados domésticos...
-   E as crianças?
-   Pois aí não tem queijo? Não tem pão? Vá ferver água para o chá.
-   Chá, pão e queijo? Mas isso é lá um jantar?
-   E basta. Também você só cuida da barriga (...). E passará a dormir na sala de visitas durante três meses. É para ensiná-lo a respeitar uma mulher emancipada.
     Apesar do tom de galhofa, essa abordagem não estava tão distante da adotada por criminalistas e médicos da época, que alertavam para o perigo re­presentado pelas mulheres intelectualizadas. No Rio de Janeiro, vários médicos concordavam com essas afirmações. Comentando os motivos que levariam a mulher a cometer o terrível crime do infanticídio, o Dr. Augusto Militão Pacheco aponta as "mulheres originais", distintas das demais "pela extrema devassidão (...) pelo gosto infrene de pintar, escrever, viajar etc." Interessante notar que são en­quadradas, em primeiro lugar, a mu­lher infiel e, em segundo, a emanci­pada. Para grande parte dos estudio­sos em comportamento da virada do século XIX para o XX, a intelectual emancipada era mau exemplo para as outras mulheres, pois faria com que acreditassem que poderiam so­breviver sem o auxílio do marido. Ao se recusarem a restringir seu univer­so à maternidade e ao lar, desprezando suas funções naturais, essas mulheres de comportamento dife­renciado seriam a fonte de todos os flagelos sociais.
     Nenhum meio foi desprezado na difusão do princípio de que os cui­dados com os filhos exigiam que a esfe­ra feminina fosse aquela da casa, nessa campanha desenvolvida, a fim de salvaguardar os privilégios masculinos, incluin­do a música carnavalesca. Deixava-se claro que, além dos males acarretados aos filhos, a competi­ção, que se desenvolveria entre homens e mulheres, prejudicaria o relacionamento conjugal, levando à ruína a instituição do matrimônio. As ideias con­trárias ao feminismo circulavam também nas cama­das populares, e o papel de provedor, destinado aos homens na organização patriarcal, constituía-se em ideal que não escapava a todas as camadas, embora dificilmente se concretizasse.
     A charge foi um recurso muito utilizado para ri­dicularizar o movimento de emancipação feminina. O caricaturista Raul Pederneiras, que teve grande atuação na imprensa do Rio de Janeiro, foi um crí­tico implacável das mulheres que pretendiam am­pliar seu espaço de atuação na sociedade. Entre as cenas que privilegiava, buscava realçar a incompati­bilidade entre o exercício de atividades extradomésticas (o trabalho em especial) e as funções de mãe.
     Numa caricatura intitulada A mulher polícia, observa-se uma mulher gorda, pesadona, de rosto carrancudo, vestida com uniforme policial, en­quanto amamenta uma criança de colo. O conjun­to pretende denunciar o caráter grotesco da situa­ção, já que a figura está longe de representar a idea­lização difundida da fragilidade e docilidade das mães. A policial é instada por um homem a tomar uma medida, o que é mostrado, não apenas pela postura dele na figura, como na frase: "Acuda!... es­tão apitando lá fora!" Ao que ela responde: "Não vê que estou presa?" O autor, assim, procura desmora­lizar as pretensões das mulheres de acumular duas funções, de mãe e de profissional, demonstrando sua impossibilidade e o perigo que representa para a sociedade confiar nelas.
     O grande J. Carlos, por sua vez, costumava retratar em suas charges personagens femininas dos segmen­tos superiores - mulheres sedutoras, extremamente sofisticadas e ocupadas com a aparência. Mas a preo­cupação com o avanço do feminismo está demons­trada em pelo menos dois de seus trabalhos. Num de­les (na página 16), denominado Emancipação (revista Para Todos, 1926), um pai aparece sentado, totalmen­te rendido ao cansaço, segurando um bebé ao colo com a infalível mamadeira. Em torno dele, brinque­dos espalhados e três crianças entregues às mais di­versas travessuras. Elegante, a mãe chega então com um chapéu masculino na cabeça, indiferente à confu­são. A segunda caricatura (na mesma página 16), Mater Dolorosa (revista Fon-Fon, 1935), mostra tam­bém um homem abatido ao lado do bebé, cercado de grande quantidade de brinquedos espalhados.
     Raul Pederneiras, porém, aponta a solução para esses problemas. Em seu álbum Cenas da vida ca­rioca, de 1926, há um painel de quatro caricaturas representando um dia na rotina de uma mulher. Um deles, intitulado Dia útil, mostra justamente uma mulher com o filho ao colo, mexendo uma panela no fogão - a imagem perfeita para a boa or­dem da sociedade, segundo o ideal masculino. Havia, portanto, que alertar para os perigos da par­ticipação feminina em esferas consideradas do do­mínio dos homens, expondo-os a situações incom­patíveis com sua natureza.
     Mas não apenas a questão da profissionalização feminina mereceu severas críticas. As demais reivindicações do género, com vistas ao exercício da ple­na cidadania, particularmente a luta pelo voto, eram objeto de chacotas, com o propósito de ri­dicularizá-las. Um exemplo é a crónica "Mais uma reivindicação femi­nina" (revista Fon-Fon, 4/1/1908): "Já não são so­mente nas profissões, já não se limitam aos direi­tos civis e políticos; não param também nos vestuários as reivindicações das nossas ar­dentes feminis­tas. Há uma tendência pronunciada para usar coisas até agora permitidas ao sexo feio. É assim que bre­vemente aparecerá uma obra da ilustrada senhora X... reivindicando o direito de senhoras usarem barbas também."
     Por trás dessa piada sobre a pretensão feminina de usar barba parece estar a intenção de sugerir que a feminista é uma mulher ansiosa para não só assu­mir papéis considerados privativos dos homens, mas também seus atributos físicos. Para terminar, o autor destaca mais uma das alegadas fraquezas da mulher: "(a barba) servirá (...) para demonstrar a falsidade da alegação de que toda mulher é tagarela, pois necessariamente terão de ficar caladas, ao me­nos enquanto fizerem a barba".
     Alguns autores tentaram manifestar sua oposição às mudanças pretendidas pelas feministas apelando para um tom cavalheiresco, beirando a pieguice: "Não concebo a mulher fora do seu ciclo, apostro­fando os deuses ou discutindo a origem das espécies. Ela foi feita para domar o homem. Que será da hu­manidade no dia em que ela, rasgando o peignoir de rendas (...) sair para a rua, não mais com a leve som­brinha de seda, mas com o humilhante cacete do ca­panga eleitoral? Desaparecerá o encanto dos salões, a alma da paisagem, o amor do lar..." Repetem-se ve­lhos estereótipos sobre a importância de os diferen­tes atributos dos homens e mulheres serem respeitados - um conceito presente na religião, aprimorado pelos filósofos iluministas e adotado pela ciência da época. No fim, a crónica adota um tom vulgar: "Só (...) as muito feias hão de querer se emancipar... coi­tadas! As bonitas não (...). Que nos importa as feias! Salvem-se as belas, que a humanidade se aperfeiçoa­rá." ("Páginas da Cidade" Careta, 11/1/1919).
     A necessidade de a mulher ser bela é sempre res­saltada. Algumas crónicas propõem estratégias para a superação desse obstáculo, a fim de garantir às feias a possibilidade do casamento, única aspiração feminina considerada legítima pela mentalidade machista da época. Em certo artigo, a atuação das militantes brasileiras é atribuída à ociosidade: "Se não tiverem com o que se distrair em casa, vão para as fábricas, namorem ou façam-se telefonistas." Para finalizar, a suprema ameaça: "Se persistirem nessas bobagens... ficarão todas solteironas, o que é o dia­bo!" (Careta, 2/2/1918).
     Outro cronista propõe com sarcasmo que sejam realizados "leilões matrimoniais", recurso útil para que as moças feias tivessem mais chance de conse­guir o casamento: "Talvez fosse esse o único, excelente, maravilhoso meio de acabar duma vez com as sufragis­tas, as literatas, as neurastênicas, as cochichadeiras e as beatas, horríveis espécies femininas nascidas da classe imensa, descontente, vingativa e au­daz das vieilles filies" ("O leilão das moças", Fon-Fon, 5/1/1918). A curio­sa conclusão é que a mulher não agraciada com a beleza, vendo-se re­legada à humilhante situação de sol­teirona, a vieille filie, buscaria vin­gança questionando sua condição e aderindo aos movimentos de emancipação.
     Em outra caricatura de Raul Pederneiras, intitu­lada Miss Alma, tipo feminista, vê-se uma mulher magra e feia usando cha­péu e sapatos masculinos e portando um livro - estereótipo da intelectual solteirona. E outra mulher mais gorda, de ar arrogante, apresenta as mesmas características: feiúra, masculinização e o inevitável livro. Não é de admirar que esse tipo seja classifica­do na seção "Sapatos".
     Apesar desse bombardeio, mais e mais mulheres reagiam no sentido de alterar sua posição relativa às esferas pública e privada. Não poucas assumiam abertamente a campanha pela obtenção de seus di­reitos. Organizaram-se em associações; faziam pro­nunciamentos públicos, utilizando-se fartamente da imprensa; buscavam apoio de lideranças nos diversos campos, constituindo grupos de pressão para garantir apoio de parlamentares e de outras autoridades, da imprensa, da opinião pública etc. Mas, apesar disso, em sua maioria, procuravam revestir seu discurso com um tom moderado. Não apenas porque consideravam que esta seria a forma adequada de expressão feminina, mas, igualmente, por estratégia política.
     Curiosamente, uma revista mensal dirigida por uma mulher que contava com a colaboração de figuras destacadas da época, como a poetisa Cecília Meireles e até militantes do movimento feminista, a Única, e que publicava artigos sobre literatura, arte, elegância e sociologia, noticiava a invasão das pistas de corrida de cavalo e dos quarteirões elegantes de Londres por "mulheres apaches" de porte másculo e bem vestidas, pertencentes a um grupo cujo nome bizarro seria Bando dos Quarenta Elefantes. "Tais criaturas dedicam-se ao roubo nos grandes estabeleci­mentos, à violação das fechadu­ras, à chantagem e até ao assalto a mão armada... resultado dos direi­tos equiparados da mulher" ("Feminismo e suas desvanta­gens", outubro de 1925).
     Essa maneira debochada de apresentar as mulhe­res empenhadas na luta por direitos questionava a seriedade de certas preocupações femininas. Em consequência, não foram poucas as mulheres que rejeitaram o feminismo e adotaram o discurso con­servador, sempre presente nos diversos meios de co­municação, que acusava o movimento de ser in­compatível com o ideal vigente de beleza, meiguice, paciência e resignação, e identificava as mulheres engajadas como viragos, pesadas como elefantes, perigosas e inclinadas a cometer atos criminosos.

Rachel Soihet é professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense e autora de Condição feminina e formas de violência. Mulheres pobres e ordem urbana (1890-1920). Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989.

Fonte: Revista Nossa História - Ano I nº 3 - 2004

Saiba Mais: Bibliografia
ALVES, Branca Moreira. Ideologia e feminismo. A luta da mulher pelo voto no Brasil. Petrópolis: Ed.
Vozes, 1980.
HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino - a luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850/1940, Editora Mulheres/Unisc, 2003. 

Saiba Mais – Link 

Um comentário:

  1. ADOREI ESSE TEXTO, QUANDO LI NA REVISTA ''NOSSA HISTÓRIA'' EM 2004 LOGO INTERESSEI EM ABORDÁ-LO COM MEUS ALUNOS OU ALUNAS , JÁ QUE QUASE SEMPRE, ELAS, SÃO MAIORIA NA SALA DE SALA. ATÉ FUI CRITICADO, DISSERAM QUE ERA GAY POR SER HOMEM E ESTAR ABORDANDO ESSE ASSUNTO; MAS COM 40 ANOS E COM UM POUCO DE CONSCIÊNCIA SOBRE OS PRECONCEITOS, VC NÃO TEM MAIS MEDO DESSAS COISAS. DE LA PRÁ CÁ SEMPRE RELEMBRO DESSE TEXTO PARA FALAR DESSE TRISTE PERÍODO QUE AS MULHERES, ENTRE ELAS MINHA MÃE, ERAM DESESTIMULADAS, QUANDO NÃO PROIBIDA DE ESTUDAR. PENA QUE NA EDUCAÇÃO ONDE MAIORIA SÃO MULHERES AINDA NÃO ENCONTREI PARCEIRO PARA ABORDAR O TEMA, OXALÁ CHEGARA BREVE ESSE DIA.

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