“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

domingo, 13 de julho de 2014

Presidentes da 1ª República - Rodrigues Alves

A República do conselheiro
Monarquista e conservador, Rodrigues Alves promoveu uma verdadeira revolução urbana na capital federal e foi o político mais influente da Primeira República
Rodrigo Elias
     Oswaldo Cruz, Pereira Passos, barão do Rio Branco. O leitor de Nossa História já conhece esses nomes de relevo do início da República, mas talvez não te­nha atentado para um fato, fundamental nesse perío­do, comum às atuações deles: todos se consa­graram sob a presi­dência de Rodrigues Alves (1902-1906).   
     Paulista de Gua­ratinguetá, filho de um imigrante português que se tornou grande agricultor, Fran­cisco de Paula Rodrigues Alves (1848-1919) sem­pre se destacou nos estudos, tanto no Colégio Pedro II, no Rio de Janei­ro, onde se formou em Letras em 1865, como na Faculdade de Direito de São Paulo, concluída em 1870.
     Sua vida política come­çou em 1871, como depu­tado provincial de São Paulo pelo Partido Conservador. Em 1884, aos 36 anos, foi eleito depu­tado geral, fato repetido em 1886. Um ano depois foi nomeado pelo gabinete conservador do barão de Cotegipe para a presidência de São Paulo. Rodrigues Alves deparou com uma situação caótica: uma das principais províncias do Impé­rio, São Paulo estava praticamente em guerra civil. No interior, revol­tas e fugas em massa de escravos; na capital, os primeiros focos de agita­ção anarquista; e, no litoral, epide­mia de varíola. Frente à inutilidade de usar as forças públicas contra a agitação político-social, ele optou por centrar forças na questão da saúde e pediu crédito especial ao Império para combater a varíola. Após curtíssimo governo, de ape­nas cinco meses, controlou a epide­mia, o que rendeu elogios da prin­cesa Isabel na fala do trono de 1888.
     De volta à vaga de deputado ge­ral, votou a favor da Abolição na memorável sessão de 5 de maio de 1888, dias antes da assinatura da lei pela regente. Três meses depois, Ro­drigues Alves era feito conselheiro do Império, honraria concedida por decreto da princesa Isabel. Fiel ao regime e ao Partido Conserva­dor, o político não foi colocado de lado, após o golpe de 1889, pe­la nova elite política. O governo provisório de São Paulo o indicou como representante do estado pa­ra a Assembleia Constituinte con­vocada por Deodoro.
     Após a eleição de Deodoro, em 1891, a Assembleia Constituinte se transformou em Congresso Na­cional e Rodrigues Alves em depu­tado federal por São Paulo, passando a presidir a importante Comis­são de Orçamento. Floriano Peixo­to, ao assumir o governo ainda em 1891 - em meio à inédita es­peculação financeira, em grande parte deflagrada pela gestão de­sastrada de Rui Barbosa, ministro da Fazenda de Deodoro -, deci­diu chamar Rodrigues Alves, em tom que beirava a ameaça, para aquela pasta. Foi provavelmente a única decisão política acertada de Floriano, embora tenha se arre­pendido dela. Rodrigues Alves enfrentava um ano dificílimo: perdera a esposa, de complica­ções de parto, um mês após assu­mir o ministério, e a filha mais velha, vitimada pelo tifo.
     Mesmo assim o conselheiro era a imagem da serenidade política e econômica. Como resumiu Ni­colau Sevcenko, a esta altura, "so­mente a restauração da imagem austera e confortantemente conser­vadora herdada do Império pode­ria restabelecer as forças exauridas do Tesouro Nacional. É sobretudo sob este signo que se instaura a 'República dos Conselheiros', esbo­çada já desde a gestão de Rodrigues Alves como ministro da Fazenda de Floriano e colimada integral­mente pelos governos civis até a ir­rupção da Grande Guerra". Até na aparência o conselheiro preservava o estilo imperial: em vez do terno de casimira e do chapéu, típicos dos republicanos, continuou a os­tentar, até o final da vida, o jaque­tão preto e a cartola, ambos fora de moda. E ainda retomou em 1903, logo após assumir a presidência, um velho hábito de d. Pedro II: a temporada de verão em Petrópolis.
     Readquiriu a confiança do setor financeiro, mas foi obrigado a pedir exoneração do cargo em agosto de 1892, quando passou a ser ignorado por Floriano nas reuniões ministeriais, após a sua manifestação a favor da eleição presidencial. Em 1894 assumiu novamente a pasta da Fazenda no governo de Prudente de Moraes, quando conseguiu amealhar em­préstimos no país e no exterior e preparar o funding-loan - grande acordo financeiro externo que se­ria colocado em prática pelo go­verno seguinte, de Campos Salles (1898-1902), mas sob sua estrita orientação. Em 1895 perdeu outra filha, no Rio de Janeiro, de febre amarela, e prometeu à família um dia acabar com este mal.
     Assumiu novamente o gover­no de São Paulo em 1900. E este seu segundo governo foi, de fato, um ensaio de sua presidência: em pouco mais de um ano combateu a febre amarela e a peste bubóni­ca, que se alojaram no estado na onda da grande imigração; instalou o Instituto Butantã; promo­veu uma reforma judiciária; reali­zou obras de saneamento; cons­truiu escolas e pontes; contratou a vinda de imigrantes europeus e introduziu técnicas de conserva­ção do solo. Tudo isto em meio a uma grave crise de superprodu­ção de café, com acentuada baixa do preço. Com todo este esforço, já em 1901 as contas do governo acusavam um saldo orçamentário que ultrapassava 30% da receita.
     O conselheiro, ainda candidato, apresentou seu plano de governo em 1901, vinculando a reforma da capital federal à questão econômico-financeira. E logo os emprésti­mos da Grã-Bretanha ao Brasil saltaram de 37 milhões de libras para quase 113 milhões nos pri­meiros anos da República. A op­ção pela continuidade dessa polí­tica foi clara por parte dos chefes regionais: Rodrigues Alves foi eleito presidente em 1º de março de 1902, com mais de 590 mil vo­tos. Afonso Pena, seu sucessor, te­ve menos de 290 mil.
     Assim, quando assumiu o go­verno em 15 de novembro de 1902, Rodrigues Alves foi o pri­meiro governante brasileiro, des­de 1889, a trazer pronto um pro­grama de governo: manter o rigor financeiro, eliminar as epidemias que assolavam impiedosamente a cidade mais populosa do Brasil e inserir o país, definitivamente, na ordem civilizada internacional. Tinha à sua frente uma única missão: a "regeneração" do Brasil.
     A tarefa não foi fácil, a começar pela escolha do ministério. O con­selheiro fazia questão de selecionar o primeiro escalão do governo por critério de competência, atitu­de paulatinamente abandonada pelos seus sucessores. Um colabo­rador em especial, o futuro minis­tro das Relações Exteriores, relutou bravamente antes de aceitar o convite. Fora do país desde 1876, o barão do Rio Branco, monarquista convicto, tinha aversão à agitação e à inconstância republicanas. Mas foi convencido e teve participação brilhante no governo, com grande destaque para as questões do Acre, do Peru, dos limites com a Colôm­bia e com o Uruguai. Embora al­guns acordos tenham sido fecha­dos depois, as negociações foram feitas no governo de Rodrigues Al­ves e sob sua direta fiscalização.
     Outros dois ministros funda­mentais para a execução do projeto de Rodrigues Alves foram o baiano José Joaquim Seabra (1855-1942), do Interior e Justiça, e o ca­tarinense Lauro Muller (1863-1926), de Viação e Obras Públicas. O primeiro foi de extrema im­portância para o controle das epidemias, uma vez que a Saúde Pública era atrelada àquele mi­nistério. O segundo ficou basica­mente encarregado de levar a ca­bo a construção de um novo por­to na capital, uma vez que o anti­go não comportava mais o volu­me de negócios.
     Para colocar o plano em exe­cução, Rodrigues Alves lançou mão do experiente engenheiro Francisco Pereira Passos (1836-1913), nomeado com poderes ditatorias na prefeitura do Distrito Federal. Também convidou para o governo, garantindo liberdade total de ação, o jovem sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917), de apenas trinta anos, nomeado chefe da Saúde Pública.
     Pereira Passos tratou da maio­ria das grandes obras realizadas no Rio de Janeiro desta época (ver gráfico ao lado). Alargou ruas e rasgou avenidas, certificando-se de que as novas construções esta­riam dentro dos padrões moder­nos de higiene. Os casarões colo­niais do centro, verdadeiros depó­sitos de gente, onde até os de­graus das escadas internas eram alugados como dormitório, fo­ram abaixo. A construção do no­vo porto, reivindicada há déca­das, foi assumida pelo governo, que realizou grande parte da obra, permitindo que o Rio de Ja­neiro recebesse na­vios de grande ca­lado. Para escoar os produtos para o centro comercial da cidade era pre­ciso uma larga ave­nida, que também servisse como vitri­ne de um país "re­generado". Construiu-se, assim, sob a responsabilidade do engenheiro Paulo de Frontin, a Avenida Cen­tral que, por sua exigência, pos­suía 33 metros de largura, para su­perar a Avenida de Mayo, em Buenos Aires, com trinta metros.
     Some-se a isto a ação enérgica de Oswaldo Cruz, atacando os mosquitos de for­ma implacável - sob protestos da imprensa e de po­líticos que não acreditavam que o inseto transmitis­se febre amarela - e reduzindo as mil mortes ocorridas em 1902 para 53 em 1904. O conse­lheiro tinha total confiança nos seus subordinados e não foi dife­rente com Oswaldo Cruz. Sua ação contra a varíola, que desen­cadeou a Revolta da Vacina, em 1904, foi apoiada integralmente pelo presidente, favorável à vaci­nação obrigatória - comum na Europa, mas considerada um ato de tirania no Brasil.
     Rodrigues Alves deixou o go­verno com popularidade. Afinal, criou uma capital para a Repúbli­ca, debelou epidemias e, de que­bra, deixou um saldo de 250 mil contos de réis ao seu sucessor, Afonso Pena. Governou o estado de São Paulo novamente, entre 1912 e 1916, quando fundou a Faculdade de Medicina, mas re­cusou voltar à presidência em 1909 e 1914. Mais tarde aceitou e em 1918 foi eleito presidente, mas morreu sem assumir, em ja­neiro de 1919, vítima, ironica­mente, de uma epidemia, a da gripe espanhola. Encerravam-se assim cinquenta anos de vida po­lítica que fizeram do conselheiro imperial o maior estadista da Pri­meira República.

Rodrigo Elias é professor das Faculdades Integradas Simonsen e pesquisador da Revista de História da Biblioteca Nacional.

Fonte: Revista Nossa História - Ano III nº 29 – Março - 2006

Saiba Mais – Link
No início do século XX, os cariocas trocavam roedores por dinheiro e ajudavam no combate à peste.

Saiba Mais – Filme
Sonhos Tropicais
No início do século XX chegam ao Rio de Janeiro, no mesmo navio Esther, uma jovem polonesa com a promessa de se casar e iniciar uma nova vida, e Oswaldo Cruz, que retorna de Paris cheio de sonhos em transformar a saúde pública do país. Esther, uma jovem judia vinda da Polônia com a promessa de se casar, mas quando chega ao Rio de Janeiro é obrigada a trabalhar como prostituta em um bordel da Lapa. Esse tipo de situação era comum no inicio do século XX, pobres ou fugidas do antissemitismo acabavam se tornando prostitutas, ou por serem obrigadas ou por falta de opção, eram as chamadas “Polacas” ou “Escravas Brancas” - essa pratica só começo a decair após a década de 40. Já Oswaldo Cruz, foi nomeado chefe do departamento de Saúde Pública responsável por eliminar as várias doenças - peste bubônica, febre amarela e a varíola- que assolavam a população da cidade. Anos de insatisfação popular e forte oposição política explodem a "Revolta da Vacina".
 Direção: André Sturm
Ano: 2002
Áudio: Português/Legendado
Duração: 124 minutos

Saiba Mais – Documentário
A Peste Negra
No século 14, a peste bubônica deixou um saldo de 25 milhões de mortos e fez tantas vítimas que os corpos tinham de ser queimados em piras. Os primeiros sintomas da doença popularmente conhecida como “peste negra” eram semelhantes à de um simples resfriado. Na tentativa de fugir da peste, nobres vindos de Messina, Gênova, Marselha e Veneza lotavam navios que, em vão, tentavam desembarcar em Constantinopla. Muitos morreram em barcos à deriva. Levada para a cidade pelos ratos que saíam dos navios, a peste chegou à Turquia. O programa reconstitui o início da praga, como ela se espalhou pelo mundo e o cotidiano das pessoas que a enfrentaram.
Produção: The History Channel
Ano: 2005
Áudio: Português/Legendado
Duração: 90 min. 

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