“Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso”. (Bertolt Brecht)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Lembranças de Sarajevo

Vinte anos após o início da Guerra da Bósnia, artigo lembra o genocídio nas terras da antiga Iugoslávia e ressalta a inércia da comunidade internacional para com o conflito na época.

     “Bem vindos ao inferno”, saudavam os locais em pichações nos muros da cidade, quando os primeiros jornalistas chegaram em 1992 à Sarajevo. A capital da República da Bósnia e Herzegovina, cercada pelo exército iugoslavo, se tornou o foco da guerra que durou mais de três anos culminando com a fragmentação da Iugoslávia e o saldo aproximado de 100 mil mortos.
     O conflito foi o primeiro golpe no otimismo histérico do fim da Guerra Fria. A Alemanha se unificava enquanto a sombra da União Soviética desaparecia junto com as ameaças do fim do mundo num holocausto nuclear levantando promessas de que, finalmente, o século sangrento se encerraria numa paz inédita. Mas, ao contrário dos países da Europa Central, como Polônia e Hungria, a Iugoslávia não celebrou o fim do comunismo com fogos de artifício, revoluções e promessas de um mundo melhor.
     Ninguém lembra, mas os nazistas não foram os últimos a construírem campos de concentração na Europa. Não foram os últimos a cometer genocídio, a produzirem uma máquina de guerra subsidiada pelo silencio da comunidade internacional. Na década de 90, quando se menos esperava, Sérvios construíram centros, como Omarska,que lembravam Auschwitz e produziram massacres e episódios lamentáveis como Srebrenica, em 1995. Tudo isso contando com a cumplicidade silenciosa de uma comunidade internacional inerte.

Sarajevo sitiada
     Quando Eslovênia e Croácia declararam independência da Iugoslávia, em 1991, o estado multiétnico da Bósnia e Herzegovina passou a ser disputado por Sérvios e Croatas. Fragmentado num quebra cabeça confuso de religiões, etnias e nacionalidades, os muçulmanos bósnios declararam independência. Mesmo tendo sido reconhecida quase automaticamente tanto pela União Europeia, quanto pelos Estados Unidos, a Bósnia se tornou tudo, menos autônoma. As demandas de seus vizinhos condenaram o estado a uma guerra de mais de três anos e seu povo a uma perseguição sanguinária. Sua capital, Sarajevo foi sitiada com barricadas e atiradores de elite próximos ao parlamento. As frágeis forças bósnias de defesa não tinham como dar conta do Exército Popular Iugoslavo, comandado pela Sérvia.
   O cerco de Sarajevo é o mais longo registrado em uma guerra moderna. Durou de 4 de Abril de 1992 até 29 de Fevereiro de 1996. Em estado de guerra, os atiradores na cidade alvejavam crianças, animais domésticos, homens e mulheres que passavam nas ruas para procurar pão ou leite. Ficaram famosas as imagens de cidadãos ordinários correndo entre um prédio e outro em busca de abrigo. No hotel Holiday Inn, construído quando a cidade sediou os jogos de inverno de 1984, os jornalistas de plantão assistiam boquiabertos à escalada de uma monstruosidade que se acreditava perdida no continente.
     Com a capital cercada, os Sérvios avançavam sobre território Bósnio dispersando a população local que agora se concentrava em três enclaves principais, declarados área de proteção da ONU, em abril de 1993. Não adiantou muito. Em Srebrenica, em julho de 1995, as forças do general Mladic tomaram o quartel das Nações Unidas e em três dias mataram mais de 8 mil homens. Foi o maior massacre desde a Segunda Guerra Mundial. Tudo isso sob os olhos atentos de uma comunidade internacional muito bem intencionada e disciplinadamente calada.

Silêncio em congresso sobre direitos humanos
     Para não dizer que não faziam nada, em 1993 foi organizado um congresso sobre direitos humanos em Viena. Contando com a participação de mais de 170 países, o evento conseguiu consagrar uma carta de prerrogativas e determinações extremamente valiosas para o avanço dos direitos humanos. Teoricamente. Na prática, os participantes eram proibidos de mencionar violações e massacres que ocorriam a menos de 500 km da capital austríaca.
     A maravilhosa sensação de que o fim da Guerra Fria em 1991 seria consagrado por uma paz universal ungida pelo respeito dos direitos humanos estava sendo contrariada pela catarse nos Balcãs. O congresso em Viena procurou amenizar as feridas dessa síndrome de orgulho coletivo, mas não funcionou. Somente em 1995, quando a OTAN entrou em ação, foi possível deter as forças sérvias, que até então agiam indiferentes às opiniões de franceses, ingleses, alemães, americanos.... Até lá, mais de 17 mil haviam morrido só na capital Bósnia. Mais tarde, no Kosovo, a vigorosa ação internacional seria testada novamente... Com resultados semelhantes.
Indiferença internacional
     Samantha Power, que na época cobria o conflito para o Washington Post, voltou para os Estados Unidos indignada com a absoluta falta de apoio internacional para impedir massacres que eram tão trágicos quanto previsíveis. Junto com os demais jornalistas em Sarajevo, não compreendia como era possível o exército iugoslavo cometer aquelas atrocidades às vistas de tantos países. No fim, passou a questionar o papel dos Estados Unidos como líder moral depois do fiasco nos Balcãs. Para sua surpresa, pesquisando descobriu que seus conterrâneos nunca tinham feito tanto para impedir um genocídio como no caso da Iugoslávia. Samantha produziu uma longa pesquisa sobre o abismo entre a retórica e a ação dos Estados Unidos. Em 2003 escreveu Genocídio, vencedor do prêmio Pulitzer daquele ano.  
     Para muitos, a experiência de cobrir o cerco de Sarajevo e testemunhar o genocídio em solo europeu às portas do século XXI se transformou num compromisso com a memória do conflito. Jornalistas como Misha Glenny e Alec Russell saíram do posto de meros observadores para especialistas na Guerra. Houve também aqueles que pouco queriam lembrar.
      Alguns anos atrás, um amigo jornalista resolveu me contar sobre seus dias em Sarajevo durante a guerra. Sempre um grande contador de histórias bonachão, fechou o rosto e me disse: “Sei que você se interessa por isso. Mas você é meu amigo. Não sei, não consigo falar o quão nojenta é essa minha profissão, não imagina o tipo de escolha que um jornalista é obrigado a fazer nessas condições”. Aos poucos, lembrou de alguns amigos, em especial de um fotógrafo italiano que se especializou em tirar fotos de crianças prestes a serem alvejadas por atiradores. Em vez de avisar a criança, já que sabia da posição do atirador, ele preferia ficar em silêncio pela foto e dizia: eu salvo uma criança com um grito, e milhares com uma foto.

Vinte anos depois...
     Contrariando o bom senso, o conflito completa 20 anos essa semana (4/4/2012) sendo melancolicamente ignorado pela imprensa internacional, que parece já ter extraído do evento tudo que era possível para vender jornais. Quem fizer uma busca hoje, encontrará artigos que articulam lições de moral comparando a Guerra da Bósnia com  o atual conflito na Síria. Como se tudo estivesse resolvido na região, ou como se tudo que extraíssemos de calamidades absurdas fosse lições morais utilizáveis para experiências análogas. 
     Hoje, Sarajevo se reinventou como uma espécie de capital cultural na região. Abriga eventos relevantes, como seu festival anual de cinema. Ao renascer das cinzas (literalmente), resiste ao esquecimento, mantendo suas próprias ruínas e cicatrizes às vistas.

Saiba Mais – Filmes
Julgamentos de Guerra
Esta produção conta a história real de uma mulher corajosa que enfrentou várias pessoas de seu meio para levar à justiça uma região repleta de conflitos. Uma canadense é nomeada em 1996, Louise Arbour, para o Tribunal de Crimes de Guerra, em Haia, na Holanda. Ela investiga a guerra dos Bálcãs e de Kosovo, mas enfrenta a oposição de vários de seus próprios companheiros e de militares responsáveis por garantir a paz na região. Corajosamente, ela visita as regiões de conflito e faz uma profunda investigação sobre toda a situação, deparando-se com uma cruel realidade de extermínio que já dura há três anos. É quando decide indiciar o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic por crimes contra a humanidade, para assim tentar colocar um fim numa guerra civil insana e sangrenta.
Direção: Charles Binamé          
 Ano2005
 Áudio: Português
Duração: 102 min                     

A Informante
Baseado em uma história real, e, em um dos maiores escândalos da história envolvendo a ONU, Kathy Bolkovac (Rachel Weisz) é uma policial esforçada que aceita trabalhar para as Nações Unidas como pacificadora na Bósnia, que passa por uma reconstrução pós-guerra. Seus desejos de ajudar na reconstrução de um país devastado são destruídos quando ela fica face a face com a dura realidade: uma vasta rede de corrupção e tráfico sexual que é encoberta pela ONU.
“A Informante” é uma história verídica acerca do revoltante envolvimento da polícia local, da IPTF (International Police Task Force), de funcionários da Organização das Nações Unidas e diplomatas na conspiração para a corrupção, tráfico e prostituição de jovens Sérvias escravizadas e abusadas sexualmente ao chegarem à Bósnia.
Direção: Larysa Kondracki          
Ano2010
 Áudio: Inglês/legendado
Duração: 112 min                       

 A Caçada
Richard Gere é Simon, jornalista de guerra que, ao lado do cameraman Duck (Terrence Howard, “Homem de Ferro”), realizou grandes coberturas. Após testemunhar um massacre na Bósnia, Simon briga com sua emissora e desaparece. Anos mais tarde, Duck retorna à Bósnia e é procurado por Simon. Ele tem pistas sobre a localização do Raposa (Radovan Karadzic líder sérvio, responsável por um massacre na Bósnia), o pior criminoso da guerra local, que tem uma recompensa de US$5 milhões por sua captura. Agindo contra ordens da ONU e confundidos com agentes da CIA, eles partem em sua busca. Baseado em uma história real.
Direção: Richard Shepard
Ano: 2007
Áudio: Português
Duração: 103minutos

4 comentários:

  1. Obrigada por compartilhar este estudo! Desde nova eu sou interesada pela Iugoslávia, conheci o país através do jogador de futebol Petkovic, e por admirá-lo, começei a pesquisar sobre seu país de origem e me sensibilizei com a história.
    Há mais dois filmes ótimos que conheço sobre o tema:

    1 Um tiro no coração (Shot Through the Heart) - Esse realmente, de arrepiar.
    2 Bem vindo a Saravejo.

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    1. Obrigado pelo comentário e sugestão. Vou tentar postar os filmes indicados.

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  2. Espero que você consiga achar dublado! Eu só achei legendado, mas tive a sorte de ver "Um Tiro no Coração" no sbt uns... 9 anos trás. Infelizmente nunca voltaram a passar...

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    1. Consegui encontrar, com muita dificuldade, os dois filmes,ambos legendados.

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